Precisamente porque a leitura do que se vinha e tem vindo a passar nas Honduras não é redutível à lógica do preto e do branco e porque a tensão latente pode levar a resultados lamentáveis é que não deixa de ser surpreendente a tomada de posição da Conferência Episcopal do país, riscando sem hesitações a favor daqueles que o geral da comunidade internacional considera serem golpistas.
A mim espanta-me esta agilidade na tomada de partido, num subcontinente onde os movimentos dos militares na esfera do poder político, ao longo de boa parte do século XX - incluindo nas Honduras até aos inícios dos anos 80 - deveria aconselhar alguma precaução. E o cardeal e arcebispo de tegicigalpa Oscar Andrés Rodríguez, que esteve em Maio passado em Fátima, não é um hierarca qualquer. Não era ele um dos 'papabile', aquando do último conclave?
Segunda-feira, 6 de Julho de 2009
Sábado, 4 de Julho de 2009
O não crente e o cardeal
Anselmo Borges escreve hoje no DN sobre uma entrevista de Eugenio Scalfari ao cardeal Martini (na foto). Um bálsamo. Entre outros aspectos a que a lucidez de Martini já nos habituou, há muito tempo que penso que a estrutura diplomática vaticana deveria ser reduzida ao mínimo ou mesmo ser extinta. O cardeal diz expressamente que ela nem sempre existiu e "poderia no futuro ser fortemente reduzida ou mesmo desmantelada". O texto completo do artigo está na ligação acima, aqui destaco mais alguns excertos:Scalfari, cujo último livro é L'uomo che non credeva in Dio (O homem que não acreditava em Deus), disse ao cardeal que não crê em Deus e que o diz "com plena tranquilidade de espírito". E o cardeal: "Eu sei, mas não estou preocupado por causa de si. Por vezes, os não crentes estão mais próximos de nós do que muitos devotos fingidos".
Então, o que é que o preocupa verdadeiramente, quais são, na Igreja, os problemas mais importantes? Resposta: "Antes de mais, a atitude da Igreja para com os divorciados, depois, a nomeação ou a eleição dos bispos, o celibato dos padres, o papel do laicado católico, as relações entre a hierarquia eclesiástica e a política. Parecem-lhe problemas de solução fácil?"
A nossa sociedade está cada vez mais invadida pela indiferença e são o individualismo e a procura exacerbada dos próprios interesses que cavam fundo o abismo entre a fé e a caridade. Talvez ainda se vá uma ou outra vez à missa e se ponha os filhos em contacto com os sacramentos. Mas esquece-se o essencial: a caridade. Ora, "sem caridade, a fé é cega. Sem a caridade, não há esperança nem justiça". Entenda-se: a caridade não é esmola, é atenção ao outro, compreensão e reconhecimento do outro, presença ao outro na sua solidão, "comunhão de espíritos, luta contra a injustiça". O verdadeiro pecado do mundo é a injustiça e a desigualdade, que bradam aos céus. Jesus disse que "o reino de Deus será dos pobres, dos débeis, dos excluídos".
Para Martini, a questão fundamental não está na escassa frequência dos sacramentos, da missa, das vocações, que são "aspectos externos". "A substância é a caridade, a visão do bem comum e da felicidade comum", incluindo a das gerações futuras.
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Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
Da crise aos manifestos, à espera de uma encíclica
Vale a pena nova chamada de atenção para o seminário promovido este sábado pela Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), da Igreja Católica, cujo programa está publicado no texto anterior. Aqui podem ler-se alguns dos propósitos da iniciativa, enunciados pelo presidente da comissão, Alfredo Bruto da Costa, nas vésperas da publicação de uma nova encíclica do Papa Bento XVI, dedicada a questões sociais.
O momento que se vive não deixará de estar presente no documento do Papa, que já afirmou que "a crise mostra claramente que os paradigmas dominantes nos tempos recentes têm que ser modificados”. Do outro lado, não é de estranhar que governos, empresários e financeiros continuem a fazer vagas declarações sobre reformas necessárias - enquanto vão adiando qualquer tentativa de o fazer efectivamente, a ver se a crise passa, literalmente.
Estamos colocados perante imperativos éticos urgentes e colectivos: sim, que ao contrário do que diz um comentário ao post anterior, penso que há uma ética social (e colectiva e governamental), cujo falhanço esta crise revelou com estrondo. Mas a citada frase do Papa diz o essencial e o mais urgente: é preciso mudar os paradigmas.
Os últimos dias foram pródigos em estudos (necessidades dos portgueses, valores, confiança na democracia) e manifestos (dos 28, dos 52). Destes últimos, o espaço mediático deu destaque ao texto dos 28, pessoas que ao longo das últimas décadas tiveram cargos de responsabilidade políticas, governativas e empresariais. Ao contrário, o pensamento dominante escondeu o texto dos 52, cuja importância e argumentação vale também pelos trajectos profissionais e cívicos de muitos dos seus subscritores.
O paradigma que nos tem dominado - do lucro a qualquer custo, da destruição do planeta, do espezinhamento da dignidade das pessoas e dos direitos dos trabalhadores, das novas formas de escravatura - é que está em causa: foi ele que nos levou a este beco de desesperança em que nos querem fuzilar. Por isso, sigamos com atenção o seminário da CNJP. E um alerta: como não abundarão as notícias sobre ele, vale a pena ver a SIC Notícias, que promete entrevistar sábado, às 23 horas, o presidente da comissão.
O momento que se vive não deixará de estar presente no documento do Papa, que já afirmou que "a crise mostra claramente que os paradigmas dominantes nos tempos recentes têm que ser modificados”. Do outro lado, não é de estranhar que governos, empresários e financeiros continuem a fazer vagas declarações sobre reformas necessárias - enquanto vão adiando qualquer tentativa de o fazer efectivamente, a ver se a crise passa, literalmente.
Estamos colocados perante imperativos éticos urgentes e colectivos: sim, que ao contrário do que diz um comentário ao post anterior, penso que há uma ética social (e colectiva e governamental), cujo falhanço esta crise revelou com estrondo. Mas a citada frase do Papa diz o essencial e o mais urgente: é preciso mudar os paradigmas.
Os últimos dias foram pródigos em estudos (necessidades dos portgueses, valores, confiança na democracia) e manifestos (dos 28, dos 52). Destes últimos, o espaço mediático deu destaque ao texto dos 28, pessoas que ao longo das últimas décadas tiveram cargos de responsabilidade políticas, governativas e empresariais. Ao contrário, o pensamento dominante escondeu o texto dos 52, cuja importância e argumentação vale também pelos trajectos profissionais e cívicos de muitos dos seus subscritores.
O paradigma que nos tem dominado - do lucro a qualquer custo, da destruição do planeta, do espezinhamento da dignidade das pessoas e dos direitos dos trabalhadores, das novas formas de escravatura - é que está em causa: foi ele que nos levou a este beco de desesperança em que nos querem fuzilar. Por isso, sigamos com atenção o seminário da CNJP. E um alerta: como não abundarão as notícias sobre ele, vale a pena ver a SIC Notícias, que promete entrevistar sábado, às 23 horas, o presidente da comissão.
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Terça-feira, 23 de Junho de 2009
"Crise ética na economia e na política"
«CRISE ÉTICA NA ECONOMIA E NA POLÍTICA» é o tema de um seminário que a Comissão Nacional Justiça e Paz promove no próximo sábado, dia 4, em Lisboa.
É o seguinte o programa desta iniciativa que tem lugar no Auditório da Estação de Metropolitano Alto dos Moinhos, Rua João Freitas Branco em Lisboa:
É o seguinte o programa desta iniciativa que tem lugar no Auditório da Estação de Metropolitano Alto dos Moinhos, Rua João Freitas Branco em Lisboa:
09h30•
Abertura com D. Carlos Azevedo Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social
Apresentação do Seminário Alfredo Bruto da Costa Presidente da CNJP
10h00•ÉTICA E GOVERNANÇA (Nacional e Mundial) - Adriano Moreira
11h00•LEITURA ÉTICA DA CRISE: ASPECTOS GLOBAIS E NACIONAIS
Contexto mundial - José Manuel Pureza
Reabilitar o trabalho na economia e na sociedade - Ulisses Garrido
Moderadora: Maria do Rosário Carneiro Vice-Presidente da CNJP
Debate
14h30•ÉTICA, ECONOMIA E POLÍTICA - Guilherme d’Oliveira Martins
15h00•PARADIGMAS E COMPORTAMENTOS, INDIVIDUAIS E COLECTIVOS
Sociedade civil e o exercício da cidadania - Álvaro Laborinho Lúcio
Exigências éticas na conservação do planeta - José Carlos Marques
Moderador: Pedro Vaz Patto Membro da CNJP
Debate
17h00•Conclusões - Joana Rigato, Vice-Presidente da CNJP
17h30•Encerramento
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Segunda-feira, 22 de Junho de 2009
No Página Um desta quinta-feira, José Tolentino Mendonça avalia a relação dos cristãos com a política:
É interessante constatar que nos anos 60 e 70 os movimentos cristãos juvenis e universitários acalentavam um grande entusiasmo pelo compromisso social e político, discutiam-se acaloradamente as formas de participação política dos cristãos, qual o seu lugar e missão na edificação de um mundo novo ou de um mundo melhor.
É verdade que houve ambiguidades e derivas, tornando-se a política não uma dimensão, mas o centro e, em alguns casos extremos, a totalidade, relegando para um plano secundaríssimo a função eminentemente espiritual da proposta cristã. Mas a verdade é que hoje se corre o perigo oposto: o de buscar apenas uma espiritualidade, desenhada à maneira de um bem-estar íntimo, ou intimista, em que a Fé se torna um assunto privado, uma gestão exclusiva do eu, onde as necessárias implicações históricas e colectivas não entram.
Será possível conjugar um grande amor por Deus com um grande desinteresse pelos homens? A rarefação do entusiasmo e da presença dos cristãos nas várias dimensões da vida pública é um sintoma preocupante na Igreja portuguesa.
O Deus em que os cristãos crêm não plana acima das questões escaldantes da história: Ele aparece claramente comprometido com a justiça e uma ordem social de equidade, manifestando-se a favor dos mais pobres. A opção pelos pobres, a escolha preferencial pelos sem voz nem vez remonta ao próprio Cristo e ressoa claramente nos textos das origens cristãs. Como resume a 1ª Carta de São João (1 Jo 4,20): «Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, mas não amar o seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê». A Fé para ser vital tem de aceitar o risco de ser uma Fé encarnada. O Evangelho para ser vital tem de ser recebido como palavra transformante, como fermento colocado na massa.
O cristianismo não coincide com nenhuma realidade política, mas em todas introduz uma tensão de amor, de justiça e de verdade. O cristianismo tem um sonho. Aqueles cristãos que dizem, “eu não quero sujar as minhas mãos na realidade do mundo”, como lembra Charles Péguy, “acabam rapidamente por ficar sem mãos”.
É interessante constatar que nos anos 60 e 70 os movimentos cristãos juvenis e universitários acalentavam um grande entusiasmo pelo compromisso social e político, discutiam-se acaloradamente as formas de participação política dos cristãos, qual o seu lugar e missão na edificação de um mundo novo ou de um mundo melhor.
É verdade que houve ambiguidades e derivas, tornando-se a política não uma dimensão, mas o centro e, em alguns casos extremos, a totalidade, relegando para um plano secundaríssimo a função eminentemente espiritual da proposta cristã. Mas a verdade é que hoje se corre o perigo oposto: o de buscar apenas uma espiritualidade, desenhada à maneira de um bem-estar íntimo, ou intimista, em que a Fé se torna um assunto privado, uma gestão exclusiva do eu, onde as necessárias implicações históricas e colectivas não entram.
Será possível conjugar um grande amor por Deus com um grande desinteresse pelos homens? A rarefação do entusiasmo e da presença dos cristãos nas várias dimensões da vida pública é um sintoma preocupante na Igreja portuguesa.
O Deus em que os cristãos crêm não plana acima das questões escaldantes da história: Ele aparece claramente comprometido com a justiça e uma ordem social de equidade, manifestando-se a favor dos mais pobres. A opção pelos pobres, a escolha preferencial pelos sem voz nem vez remonta ao próprio Cristo e ressoa claramente nos textos das origens cristãs. Como resume a 1ª Carta de São João (1 Jo 4,20): «Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, mas não amar o seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê». A Fé para ser vital tem de aceitar o risco de ser uma Fé encarnada. O Evangelho para ser vital tem de ser recebido como palavra transformante, como fermento colocado na massa.
O cristianismo não coincide com nenhuma realidade política, mas em todas introduz uma tensão de amor, de justiça e de verdade. O cristianismo tem um sonho. Aqueles cristãos que dizem, “eu não quero sujar as minhas mãos na realidade do mundo”, como lembra Charles Péguy, “acabam rapidamente por ficar sem mãos”.
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Domingo, 21 de Junho de 2009
Sophia, cinco anos depois

Cinco anos depois da morte de Sophia de Mello Breyner, o P2 [segundo caderno do Público] visitou o seu espólio e revela diários, poemas e cartas, entre histórias contadas por dois dos filhos, Maria e Miguel Sousa Tavares. Um trabalho de Alexandra Lucas Coelho (texto) e Daniel Rocha (fotos). Boa leitura para este "O mundo de Sophia".
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Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
O CERN a ciência e a teologia
As verdades científicas e teológicas nunca se podem contradizer porque ambas “derivam da mesma fonte, que é Deus”, afirmou o cardeal Giovanni Lajolo, durante uma mesa-redonda sobre diálogo entre fé e ciência, celebrada este mês na sede da Organização Europeia de Pesquisa Nuclear (CERN), em Genebra.
A deslocação da delegação do Vaticano ao centro que acolhe o maior túnel acelerador de partículas do mundo incluía ainda o observador permanente do Vaticano na ONU e o director do Observatório Astronómico Vaticano.
O cardeal citou Roberto Belarmino, doutor da Igreja que pesquisou Galileu, segundo o qual se uma declaração científica é evidentemente verdadeira e não se encontra em absoluta conformidade com a Bíblia, é necessário investigar como se pode interpretar correctamente a Escritura para não contradizer a verdade científica.
Para o purpurado, esta afirmação “continua a ser um princípio válido em relação aos fatos científicos”.
Segundo o cardeal Lajolo, que é o presidente da Comissão Pontifícia para o Estado da Cidade do Vaticano, a Igreja católica é uma defensora da razão e da verdade e por isso “reconheceu mais tarde a posição científica defendida por Galileu e o erro cometido na sua condenação”.
(Fonte: Zenit)
A deslocação da delegação do Vaticano ao centro que acolhe o maior túnel acelerador de partículas do mundo incluía ainda o observador permanente do Vaticano na ONU e o director do Observatório Astronómico Vaticano.
O cardeal citou Roberto Belarmino, doutor da Igreja que pesquisou Galileu, segundo o qual se uma declaração científica é evidentemente verdadeira e não se encontra em absoluta conformidade com a Bíblia, é necessário investigar como se pode interpretar correctamente a Escritura para não contradizer a verdade científica.
Para o purpurado, esta afirmação “continua a ser um princípio válido em relação aos fatos científicos”.
Segundo o cardeal Lajolo, que é o presidente da Comissão Pontifícia para o Estado da Cidade do Vaticano, a Igreja católica é uma defensora da razão e da verdade e por isso “reconheceu mais tarde a posição científica defendida por Galileu e o erro cometido na sua condenação”.
(Fonte: Zenit)
Quinta-feira, 18 de Junho de 2009
O mundo está melhor. Mas melhor para quem?
Uma resposta de Victoria Camps, catedrática de Ética, da Universidade Autónoma de Barcelona, publicada na revista El Ciervo:
"(...)El mundo ha mejorado si lo contemplamos haciendo la vista gorda, sin entrar en las menudencias de las que cada día nos informan los periódicos. Nuevos enfrentamientos bélicos, algo más sofisticados,pero igual de violentos; una esclavitud encubierta en la explotación infantil de que son víctima los niños de los países subdesarrollados; un racismo que no se extingue; violencia contra la mujer.Por lo que hace a la innovación tecnológica, nos preguntamos si compensa alargar el tiempo de vida cuando la calidad del vivir disminuye, o si realmente las facilidades comunicativas contribuyen a disminuir el sentimiento de soledad y desamparo. Se mire por donde se mire, todo lleva a la conclusión de que afirmar el progreso sin más es exagerado e injusto. Hay que matizar mucho diciendo que la teoría es más satisfactoria, pero la práctica queda muy lejos de la teoría.
Queda lejos sobre todo porque la desigualdad que discrimina a las personas y las excluye de los bienes más básicos sigue siendo escandalosa. Lo ponen de manifiesto los inmigrantes que acuden desesperados a los países más ricos en busca de trabajo y que no dudan en arriesgar su vida para conseguir un poco más de bienestar. Mientras haya hambre en algún lugar del mundo, dificultades para sobrevivir, tiranías públicas y privadas y analfabetismo, mientras los intereses de los más poderosos sean los que dominan, sólo podremos afirmar que el mundo mejora con la boca muy pequeña. Siempre habrá que añadir: ¿mejora para quién?"
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Segunda-feira, 15 de Junho de 2009
Silenciar a religião?
No Página 1 de hoje, Manuel Pinto questiona o silêncio mediático sobre o fenómeno religioso.
Um estudo realizado pelo jornalista José António Santos sobre as notícias difundidas pela agência Lusa no ano de 2008 indica que os assuntos de natureza religiosa não chegaram a 1 por cento da produção geral da agência. Ficaram-se por 0,71%, tendo atrás de si apenas dois temas: meteorologia e agenda.
Sabendo-se do peso da Lusa no fornecimento das redacções da generalidade dos media nacionais, fácil se torna compreender uma tomada de posição e de alerta da Igreja Católica, esta semana surgida entre nós. As conferências episcopais de Portugal e de Espanha, através das respectivas comissões especializadas de comunicação social, reunidas em Braga, sugerem que a dimensão religiosa e cristã, que faz parte da realidade social e cultural em que vivemos, está a ser silenciada nos media.
Os bispos chamam a atenção para uma atitude de suspeita sobre a presença do facto religioso cristão na esfera pública e para o desejo de “relegar a dimensão religiosa para o âmbito privado, sem deixar espaço para Deus na opinião pública”.
O tema nem se limita à religião nem será específico dos católicos e eu diria que é, antes de mais, um problema cultural, que ganharia em ser discutido como tal. Para tal, importa encontrar critérios que sirvam como referenciais para o debate e para a acção e que possam ser, digamos assim, conversados entre todos, sejam crentes ou não. Um deles julgo que seja a expressão social da dimensão religiosa, que parece indesmentível.
Outro é a relevância histórica desta componente no forjar da nossa identidade colectiva. Poderíamos acrescentar ainda um factor de equidade – atendendo à visibilidade social e cultural que outros fenómenos da vida das pessoas adquirem no espaço público.
Quanto aos media, parece-me preocupante o silêncio. E não é pelo facto de alguns deles terem cronistas ou transmitirem celebrações que o problema diminui. Porque o que está aqui em causa é a cobertura noticiosa – notícias breves ou contextualizadas, entrevistas, reportagens, investigação jornalística.
Claro que muitos crentes e alguns hierarcas gostariam de ver os media sobretudo como ‘púlpito’. Claro, também, que os crentes e as religiões instituídas precisam de aprender a comunicar muito melhor. Mas nada disso justifica o silêncio, porque o jornalista não é (não deve ser) aquele que fica à espera que a notícia lhe venha parar às mãos.
Um estudo realizado pelo jornalista José António Santos sobre as notícias difundidas pela agência Lusa no ano de 2008 indica que os assuntos de natureza religiosa não chegaram a 1 por cento da produção geral da agência. Ficaram-se por 0,71%, tendo atrás de si apenas dois temas: meteorologia e agenda.
Sabendo-se do peso da Lusa no fornecimento das redacções da generalidade dos media nacionais, fácil se torna compreender uma tomada de posição e de alerta da Igreja Católica, esta semana surgida entre nós. As conferências episcopais de Portugal e de Espanha, através das respectivas comissões especializadas de comunicação social, reunidas em Braga, sugerem que a dimensão religiosa e cristã, que faz parte da realidade social e cultural em que vivemos, está a ser silenciada nos media.
Os bispos chamam a atenção para uma atitude de suspeita sobre a presença do facto religioso cristão na esfera pública e para o desejo de “relegar a dimensão religiosa para o âmbito privado, sem deixar espaço para Deus na opinião pública”.
O tema nem se limita à religião nem será específico dos católicos e eu diria que é, antes de mais, um problema cultural, que ganharia em ser discutido como tal. Para tal, importa encontrar critérios que sirvam como referenciais para o debate e para a acção e que possam ser, digamos assim, conversados entre todos, sejam crentes ou não. Um deles julgo que seja a expressão social da dimensão religiosa, que parece indesmentível.
Outro é a relevância histórica desta componente no forjar da nossa identidade colectiva. Poderíamos acrescentar ainda um factor de equidade – atendendo à visibilidade social e cultural que outros fenómenos da vida das pessoas adquirem no espaço público.
Quanto aos media, parece-me preocupante o silêncio. E não é pelo facto de alguns deles terem cronistas ou transmitirem celebrações que o problema diminui. Porque o que está aqui em causa é a cobertura noticiosa – notícias breves ou contextualizadas, entrevistas, reportagens, investigação jornalística.
Claro que muitos crentes e alguns hierarcas gostariam de ver os media sobretudo como ‘púlpito’. Claro, também, que os crentes e as religiões instituídas precisam de aprender a comunicar muito melhor. Mas nada disso justifica o silêncio, porque o jornalista não é (não deve ser) aquele que fica à espera que a notícia lhe venha parar às mãos.
Domingo, 14 de Junho de 2009
João Calvino em português
Na sua crónica deste domingo no Público, frei Bento Domingues fala das obras de/sobre Calvino e Lutero publicadas recentemente em Portugal.
1. Tem sentido reabrir o passado, não por ser passado, mas, como dizia Paul Ricoeur, para “libertar a sua carga de futuro”. As obras teológicas de Lutero e Calvino – dois dos nomes mais influentes da Reforma protestante – nunca foram incorporadas na cultura religiosa portuguesa. Consciente desta lacuna, o Cento de Estudos de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, para assinalar os 450 anos da morte de Martinho Lutero (1483-1546), organizou um importante colóquio para situar o seu papel no advento da Modernidade (1).
Recordando, depois, uma data decisiva na célebre controvérsia em torno da questão das indulgências (31 Outubro 1517), o mesmo Centro não se contentou com o seu debate anual sobre o significado da Reforma. Publicou a tradução das famosas 95 Teses de Martinho Lutero, tenham elas sido ou não afixadas na porta da Igreja de Vitemberga (2).
João Calvino nasceu há 500 anos, no dia 10 de Julho. De novo, o Centro de Estudos de Ciência das Religiões não quis deixar essa data em branco, publicando a tradução da sua Breve Instrução Cristã (3).
As esmeradas traduções e introduções dos textos referidos – que apontam para a obra imensa desses clássicos – pertencem a Dimas de Almeida, professor da Universidade Lusófona.
A importância do pensamento calvinista foi destacada por Max Weber (1864-1920), um dos modernos fundadores da Sociologia e autor de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Seja qual for a opinião sobre a tese desta grande obra de Max Weber, não podemos esquecer o seu impacto na discussão da génese e interpretação do capitalismo. Além disso, como recorda Dimas de Almeida, o contributo de Calvino para a ideia de democracia no Ocidente foi sublinhado por alguns analistas e não seria descabido encontrar, na origem do nosso sistema democrático, marcas dos presbiterianos dos EUA.
2. Se João Calvino influenciou a história do mundo ocidental não foi, apenas nem sobretudo, no plano económico, social e político. Aos 24 anos abraçou a causa da Reforma e, para ele, o fundamental era submeter a Igreja à Palavra de Deus. Karl Barth, de tradição calvinista e uma das figuras mais importantes da teologia do século XX, tem o cuidado de sublinhar que Calvino “nunca foi o nosso papa. (…) Os reformadores, nossos pais na fé, unidos aos pais da Igreja antiga, não podem ser para nós mais do que antepassados que nos ajudam a compreender. A verdadeira autoridade dos cristãos protestantes é a Palavra, aquela que o próprio Deus pronunciou, pronuncia e pronunciará eternamente mediante o testemunho do seu Espírito Santo nos escritos do Antigo e do Novo Testamentos. Calvino é para nós um mestre na arte de escutar esse singular e único ensino da Igreja”.
Não é por acaso que se deve a Karl Barth o empenho na luta pela independência da Igreja frente ao nacional-socialismo. Foi ele que redigiu a Declaração Teológica de Barmen, adoptada no Primeiro Sínodo Confessante da Igreja Evangélica Alemã, realizado entre 29 e 31 de Maio de 1934, tentando encontrar uma orientação para os cristãos confusos diante da ascensão de Hitler: a Igreja deve obediência exclusiva ao seu Senhor e ao Evangelho e a sua característica essencial é ouvir a Deus. O último parágrafo da Breve Instrução Cristã, agora traduzida, reza assim: “Enfim, não é de nenhum outro modo senão em Deus que somos submetidos aos homens que foram estabelecidos acima de nós. E se eles nos ordenam algo contra o Senhor, não devemos ter isso em conta, pondo antes em prática esta máxima da Escritura: Impõe-se-nos mais obedecer a Deus do que aos homens”.
3. Hoje, é voz corrente sublinhar que tanto Lutero como Calvino pretendiam trabalhar na reforma da Igreja, mas dentro do catolicismo e sob a autoridade do Papa. Devido a vários e complexos factores, a ruptura trágica consumou-se e continua. Durante a Contra Reforma católica, a personalidade religiosa de ambos foi, muitas vezes, injustamente denegrida. Só no século XX, os historiadores católicos reapreciaram essa história, mostrando a grande estatura humana, cristã e teológica destes reformadores.
Superada a violência pela tolerância recíproca, chegou o tempo da procura do conhecimento mútuo que favoreça um diálogo que vá alterando a mentalidade e a atitude de todos. É esse o caminho do ecumenismo entre as Igrejas cristãs.
O diálogo ecuménico exige rever questões histórico-teológicas, mas não as pode rever como se procurasse voltar ao século XVI. Seria anacrónico e já não têm remédio. Importante seria ver o que há de futuro nessas problemáticas, nesses encontros e desencontros. O verdadeiro ecumenismo só pode ser realizado perante os desafios que afectam a missão presente das Igrejas na luta contra situações de exploração intolerável, seja onde for. Se as Igrejas cristãs não se quiserem deixar inter-fecundar na busca de caminhos de evangelização, não podem pretender ser o sal da terra e a luz do mundo.
(1) VV.AA., Martinho Lutero. Diálogo e Modernidade, Edições Universitárias Lusófonas, 1999.
(2) Org., trad. e introdução de Dimas de Almeida, Cadernos de Ciência das Religiões, nº15, 2008.
(3) João Calvino, Breve Instrução Cristã, Org., trad. e introdução de Dimas de Almeida, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Série Monográfica, Vol. III, 2009.
1. Tem sentido reabrir o passado, não por ser passado, mas, como dizia Paul Ricoeur, para “libertar a sua carga de futuro”. As obras teológicas de Lutero e Calvino – dois dos nomes mais influentes da Reforma protestante – nunca foram incorporadas na cultura religiosa portuguesa. Consciente desta lacuna, o Cento de Estudos de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, para assinalar os 450 anos da morte de Martinho Lutero (1483-1546), organizou um importante colóquio para situar o seu papel no advento da Modernidade (1).
Recordando, depois, uma data decisiva na célebre controvérsia em torno da questão das indulgências (31 Outubro 1517), o mesmo Centro não se contentou com o seu debate anual sobre o significado da Reforma. Publicou a tradução das famosas 95 Teses de Martinho Lutero, tenham elas sido ou não afixadas na porta da Igreja de Vitemberga (2).
João Calvino nasceu há 500 anos, no dia 10 de Julho. De novo, o Centro de Estudos de Ciência das Religiões não quis deixar essa data em branco, publicando a tradução da sua Breve Instrução Cristã (3).
As esmeradas traduções e introduções dos textos referidos – que apontam para a obra imensa desses clássicos – pertencem a Dimas de Almeida, professor da Universidade Lusófona.
A importância do pensamento calvinista foi destacada por Max Weber (1864-1920), um dos modernos fundadores da Sociologia e autor de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Seja qual for a opinião sobre a tese desta grande obra de Max Weber, não podemos esquecer o seu impacto na discussão da génese e interpretação do capitalismo. Além disso, como recorda Dimas de Almeida, o contributo de Calvino para a ideia de democracia no Ocidente foi sublinhado por alguns analistas e não seria descabido encontrar, na origem do nosso sistema democrático, marcas dos presbiterianos dos EUA.
2. Se João Calvino influenciou a história do mundo ocidental não foi, apenas nem sobretudo, no plano económico, social e político. Aos 24 anos abraçou a causa da Reforma e, para ele, o fundamental era submeter a Igreja à Palavra de Deus. Karl Barth, de tradição calvinista e uma das figuras mais importantes da teologia do século XX, tem o cuidado de sublinhar que Calvino “nunca foi o nosso papa. (…) Os reformadores, nossos pais na fé, unidos aos pais da Igreja antiga, não podem ser para nós mais do que antepassados que nos ajudam a compreender. A verdadeira autoridade dos cristãos protestantes é a Palavra, aquela que o próprio Deus pronunciou, pronuncia e pronunciará eternamente mediante o testemunho do seu Espírito Santo nos escritos do Antigo e do Novo Testamentos. Calvino é para nós um mestre na arte de escutar esse singular e único ensino da Igreja”.
Não é por acaso que se deve a Karl Barth o empenho na luta pela independência da Igreja frente ao nacional-socialismo. Foi ele que redigiu a Declaração Teológica de Barmen, adoptada no Primeiro Sínodo Confessante da Igreja Evangélica Alemã, realizado entre 29 e 31 de Maio de 1934, tentando encontrar uma orientação para os cristãos confusos diante da ascensão de Hitler: a Igreja deve obediência exclusiva ao seu Senhor e ao Evangelho e a sua característica essencial é ouvir a Deus. O último parágrafo da Breve Instrução Cristã, agora traduzida, reza assim: “Enfim, não é de nenhum outro modo senão em Deus que somos submetidos aos homens que foram estabelecidos acima de nós. E se eles nos ordenam algo contra o Senhor, não devemos ter isso em conta, pondo antes em prática esta máxima da Escritura: Impõe-se-nos mais obedecer a Deus do que aos homens”.
3. Hoje, é voz corrente sublinhar que tanto Lutero como Calvino pretendiam trabalhar na reforma da Igreja, mas dentro do catolicismo e sob a autoridade do Papa. Devido a vários e complexos factores, a ruptura trágica consumou-se e continua. Durante a Contra Reforma católica, a personalidade religiosa de ambos foi, muitas vezes, injustamente denegrida. Só no século XX, os historiadores católicos reapreciaram essa história, mostrando a grande estatura humana, cristã e teológica destes reformadores.
Superada a violência pela tolerância recíproca, chegou o tempo da procura do conhecimento mútuo que favoreça um diálogo que vá alterando a mentalidade e a atitude de todos. É esse o caminho do ecumenismo entre as Igrejas cristãs.
O diálogo ecuménico exige rever questões histórico-teológicas, mas não as pode rever como se procurasse voltar ao século XVI. Seria anacrónico e já não têm remédio. Importante seria ver o que há de futuro nessas problemáticas, nesses encontros e desencontros. O verdadeiro ecumenismo só pode ser realizado perante os desafios que afectam a missão presente das Igrejas na luta contra situações de exploração intolerável, seja onde for. Se as Igrejas cristãs não se quiserem deixar inter-fecundar na busca de caminhos de evangelização, não podem pretender ser o sal da terra e a luz do mundo.
(1) VV.AA., Martinho Lutero. Diálogo e Modernidade, Edições Universitárias Lusófonas, 1999.
(2) Org., trad. e introdução de Dimas de Almeida, Cadernos de Ciência das Religiões, nº15, 2008.
(3) João Calvino, Breve Instrução Cristã, Org., trad. e introdução de Dimas de Almeida, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Série Monográfica, Vol. III, 2009.
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pero igual de violentos; una esclavitud encubierta en la explotación infantil de que son víctima los niños de los países subdesarrollados; un racismo que no se extingue; violencia contra la mujer.Por lo que hace a la innovación tecnológica, nos preguntamos si compensa alargar el tiempo de vida cuando la calidad del vivir disminuye, o si realmente las facilidades comunicativas contribuyen a disminuir el sentimiento de soledad y desamparo. Se mire por donde se mire, todo lleva a la conclusión de que afirmar el progreso sin más es exagerado e injusto. Hay que matizar mucho diciendo que la teoría es más satisfactoria, pero la práctica queda muy lejos de la teoría.