terça-feira, 26 de abril de 2011

"O altar do deus desconhecido"

Tem já uns dias esta coluna do escritor Rafael Argullol, no diário El País. Intitula-se "El altar del dios desconocido".
Principia o autor pela dúvida "que sempre surge no desconcerto dos nossos dias": "estamos perante um novo Renascimento ou às portas de uma Idade Obscura?". E comenta de seguida:
"Bajo la advocación de un dios -fuera este de la religión o de la ideología-, el hombre se atreve al pronóstico porque la doctrina que abraza necesariamente le reclama un futuro mejor, cuando menos a largo plazo (el cristianismo ofrecía la salvación; el comunismo dibujaba la igualdad; la Ilustración se consolaba de las penurias del presente con promesas de libertad y progreso). El problema surge cuando el dios está ausente, y el altar vacío. Cuando los templos, también laicos, están deshabitados, como sucede en nuestros días, el pronóstico se hace imposible. ¿A qué juego vamos a apostar si ni siquiera sabemos las reglas del juego? Cuando el altar está vacío podemos, como máximo, adorar a los ídolos del presente -en los estadios, por ejemplo, o en los festejos lúdicos-, pero nos representa una gran temeridad, o nos produce una insoportable pereza, ir más allá de esto".
Ler o texto completo: AQUI [dica de CatalunyaReligió.cat]

domingo, 24 de abril de 2011

À Procura da Palavra - CORRERIA PASCAL



(Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)

“Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo que Jesus amava.”(Evangelho de S. João, 20, 2)

(Foto: Cristo Ressuscitado, Igreja Paroquial de Sâo Pedro de Valongo do Vouga, Águeda)

Há uma enorme correria no dia de Páscoa! Não me refiro às tradições à volta do Compasso ou da visita pascal que, em muitos lugares do nosso país, são uma feliz expressão da alegria em anunciar, de casa em casa, a ressurreição de Jesus. Nem a alguma azáfama do encontro de famílias ou do regresso de mais uns dias de férias. São os evangelhos que nos falam de Maria Madalena, de Pedro e de João, dos discípulos de Emaús numa agitação entre o assombro e o deslumbramento, a dúvida e a fé.

Maria Madalena corre para ir dizer a Pedro e a João que o sepulcro está vazio. Vai de coração apertado. Não bastava todo o sofrimento da paixão para agora até o corpo de Jesus, o sinal da sua existência ter sido roubado? Não é um anúncio de fé ainda: pouco depois perguntará àquele que julga ser o jardineiro (e é Jesus) onde pôs o corpo do seu Senhor. Pedro e João correm ao sepulcro e se o primeiro fica no espanto daquilo do vazio que vê, o segundo vê e acredita. Vê o vazio e acredita que a vida ressuscitada de Jesus nenhum sepulcro a pode prender, nenhumas faixas a podem embalsamar. Correram então a contar aos outros? S. João diz-nos que será Maria Madalena a primeira a anunciar: “Eu vi o Senhor”. Uma mulher, cujo testemunho pouco valor legal teria naquele tempo, leva a feliz notícia que ecoará pela história: a vida e o amor venceram a morte!

Correram certamente os guardas quando viram que não tinham guardado bem o sepulcro. Temendo o castigo mas deslumbrados com o que tinham visto foram contar aos sumos sacerdotes. E estes subornaram-nos para fazerem correr a mentira que desacreditaria a ressurreição: teriam sido os discípulos a roubar e esconder o corpo de Jesus. Quantos romances e “best-sellers” surgiram à volta dessa ideia! E de onde vinha a força que transformou nos discípulos o medo em confiança, a tristeza em alegria, a solidão em comunhão? A vida transformada e transformadora dos discípulos é um testemunho luminoso da ressurreição do Senhor. Ontem, hoje e sempre!

Da corrida matinal de coração apertado à viagem de regresso a Jerusalém dos discípulos de Emaús, já noite fechada, de coração a arder, decorre aquele primeiro dia. Nenhuma noite podia apagar a luz e o fogo que Jesus acendera no caminho e à mesa. O dia da ressurreição tinha começado e nenhum ocaso seria mais forte. Nem o ocaso da dor e da morte. Por isso aquele encontro tinha de ser comunicado. Estava revelada a missão da Igreja: comunicar o encontro com Jesus vivo, levar a todos esse incêndio que não destrói mas transforma e ressuscita.

Correr para anunciar, para ir ao encontro de outros, para descobrir com todos os sinais do Espírito de Jesus Ressuscitado na vida de cada dia, para celebrar a alegria da sua presença, não é agitação repetitiva nem esforço de contabilidade. É partilha de corações a arder, é acolher o céu que abraça a terra!

quinta-feira, 21 de abril de 2011

"Jesus, uma abordagem histórica", de José Antonio Pagola

O padre Anselmo Borges terminou a sua crónica do sábado passado afirmando que Bento XVI deu liberdade para “debater e divergir da sua obra”, “Jesus de Nazaré”. E coloca depois uma questão: “Porque abriu então a Congregação para a Doutrina da Fé um processo à obra igualmente admirável sobre Jesus, de J. A. Pagola, "Jesus. Aproximação histórica", que vendeu 80.000 exemplares e está traduzida para várias línguas? Mas saberá Bento XVI o que se passa?"


A obra está publicada em português pela Gráfica de Coimbra 2 (que parece pouco preocupada em publicitar os seus livros), com o título “Jesus, uma abordagem histórica”.

Com a obra já impressa, surgiram complicações em Espanha (ainda antes da abertura do processo vaticano), pelo que a editora portuguesa distribuiu a obra com um suplemento de 64 páginas intitulado “Uma explicação ao meu livro «Jesus, uma abordagem histórica»”, que inclui um capítulo 15 (o último) totalmente rescrito e algumas novas notas relativas a outras passagens. Numa delas, na primeira versão, Pagola dizia que a expressão “irmãos de Jesus”, como hoje é globalmente afirmado pelos exegetas, refere-se mesmo a irmãos de sangue de Jesus. No suplemento, acrescenta que na cultura bíblica, quando se diz que são irmãos, “a única coisa que se afirma é que têm o mesmo pai”, para salvaguardar a virgindade de Maria.

As principais objecções ao Jesus Cristo de Pagola prendem-se com questões metodológicas e a afirmação de que algumas das instituições e práticas e dogmas da Igreja Católica não remontam a Jesus Cristo.

Em Espanha o livro foi retirado das livrarias, mas encontra-se on-line, na íntegra, em formado PDF, aqui. A nota da Conferência Episcopal Espanhola pode ser lida na Zenit.

domingo, 17 de abril de 2011

Bento e Anselmo: Os discípulos e o Papa, que também é discípulo

Texto de Bento Domingues no "Público" de 17 de Abril e de Anselmo Borges (em baixo) no DN de 16 de Abril.
J. Ratzinger escreveu em 1968: "Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se fosse necessário, até contra o que disser a autoridade eclesiástica. O que faz falta na Igreja não são panegiristas da ordem estabelecida, mas homens cuja humildade e obediência não sejam menores do que a sua paixão pela verdade, e que amem a Igreja mais do que a comodidade da sua própria carreira." Continuou a pensar assim enquanto Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé? O que pensará hoje?
Ler tudo aqui.

"Contra as agências de notação de risco"



O "Diário do Minho" publica hoje um texto de Eduardo Jorge Madureira, na sua coluna dominical "Os dias da semana", intitulado "Contra as agências de notação de risco". Pela sua importância e pertinência neste espaço, transcrevemo-lo com a devida vénia:


"Podia ser apenas mais uma série televisiva com grande audiência, como Anatomia de Grey, CSI, Dexter, House, Lost ou Prison Break. Mas não. É regularmente exibida à hora de jantar nos principais canais generalistas portugueses, oferecendo ao imaginário nacional novos protagonistas e, é verdade, um enredo de difícil entendimento, mas, para mal de quase todos, não é de ficção que se trata, embora a muitos tal possa parecer. Se fosse uma série, que apresentasse as aventuras dessas entidades míticas, chamadas Fitch Ratings, Moody’s e Standard & Poor’s, recentemente conhecidas pelos portugueses, poder-se-ia, sem esforço imaginativo, intitular The Credit Rating Agencies.


Se os programadores televisivos quisessem traduzir o título e consultassem, por exemplo, a Wikipédia, teriam de resolver uma primeira dificuldade. É que as traduções possíveis são abundantes. Mais de uma dezena. Antes de explicar o que fazem essas criações do capitalismo, a Wikipédia apresenta uma lista com as formas como podem ser designadas: “Uma agência de notas de crédito (do inglês credit rating agency de sigla CRA), chamada agência de rating, empresa de rating, agência de classificação de risco, agência de classificadora de risco (denominação usada pelo Banco Central do Brasil), agência classificadora de risco de crédito, agência de análise de risco, agência de avaliação de risco, agência de avaliação de risco de crédito, agência avaliadora de risco, agência de notação financeira, agência de notação de risco, ou agência de risco é uma entidade que avalia, atribui notas e classifica países ou empresas, segundo uma nota de risco, a qual expressa o grau de risco de que essas empresas ou países não paguem as suas dívidas no prazo fixado”.

Às dúvidas sobre o nome que melhor lhes calha, corresponde uma certeza quanto à fiabilidade muito reduzida do trabalho que fazem. No diário Le Monde (“A quoi jouent les agences de notation ?” 10.5.2010), recordavam-se, a esse propósito, alguns factos mais ou menos recentes, assaz elucidativos. Há cerca de uma década, quatro dias depois de a Standard & Poor’s e a Moody’s recomendarem o investimento na Enron, uma importante companhia de energia dos Estados Unidos da América, a empresa ia à falência. Mais recentemente, em 2008, a Lehman Brothers recebia a nota máxima (os famosos AAA) no exacto momento da sua bancarrota. Há outras falhas não menos eloquentes (quem viu o documentário Inside Job não as esquecerá), mas estas duas são suficientes para se perceber a qualidade do que fazem estas empresas.

O modo como elas estavam, há cerca de um ano, a proceder em relação à dívida grega, justificava, no artigo citado, assinado por Patrick Jolivet, um comentário útil. Não é muito recente, mas não perdeu pertinência. Dando-se o caso de as agências de notação de risco, que não foram particularmente brilhantes pela perspicácia nos tempos recentes, poderem desestabilizar um Estado e, portanto, o conjunto da zona euro, deve levar-nos a interrogar se o desenvolvimento (durável) das nossas economias depende realmente dos ratings mais ou menos independentes emitidos por actores que são pagos pelos mercados financeiros. O texto reclama uma intervenção dos políticos europeus tendo em conta que a avaliação do domínio dos riscos a longo prazo é coisa demasiado complexa para depender das opiniões emitidas pelas agências de notação.

Os políticos europeus têm feito muito pouco ou nada, mas um grupo de economistas portugueses promoveu uma acção de enorme relevância, entregando, na passada segunda-feira, na Procuradoria-Geral da República, uma denúncia contra as três maiores agências de notação pelo comportamento adoptado relativamente ao Estado português e aos bancos sediados em território nacional.

A economista Manuela Silva, que, com José Reis, José Manuel Pureza e Manuel Brandão Alves, dinamizou a iniciativa, escrevia na terça-feira, no blogue A Areia dos Dias, do Grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz, que nem a crise política, nem a evolução da capacidade produtiva do País (“que não se altera em 24 ou 48 horas”) justificam os cortes drásticos nas recentes notações de risco. Há, pois, que procurar outras causas e ver o que está por detrás destes comportamentos.

Para Manuela Silva, há três razões objectivas que justificam dúvidas em relação ao procedimento da Fitch Ratings, da Moody’s e da Standard & Poor’s: “o elevado grau de concentração das três maiores agências de rating, todas americanas e que, no conjunto, detêm mais de 90% do seu respectivo mercado; a possível conflitualidade de interesses, devida à presença de empresas de gestão de fundos na estrutura do capital accionista em duas dessas empresas de rating (num caso, em posição de accionista maioritário) e a falta de transparência por ocultação de critérios em que se baseiam as notações”.

“A quem aproveita a severidade nos ratings da dívida da República e dos bancos portugueses?”, pergunta Manuela Silva, considerando simples a resposta: “em primeiro lugar, serve os interesses dos especuladores que vêem as suas possibilidades de lucro aumentadas pelo simples facto da subida dos juros; serve também a uma estratégia de enfraquecimento do euro face ao dólar ou mesmo ao propósito de ressuscitar a moeda americana como único meio de pagamento internacional, conveniente, entre outras razões, para fazer face à elevada dívida pública americana contraída no exterior”.

Sucede, todavia, que, e isso, como sublinha a economista, é o mais grave, estas notações de risco “têm efeitos devastadores sobre o acesso ao crédito por parte das pessoas, do Estado e das empresas do nosso País e constituem também uma rampa de lançamento para justificar políticas de austeridade que impedem um desenvolvimento humano sustentável”.

Como nas séries com um final aberto, que será escrito em função da preferência das audiências, nada está previamente definido quanto ao que se passará nesta narrativa protagonizada pelas agências de notação de risco. São os cidadãos que têm de ditar os próximos capítulos. Contrariando a complacência dos governos e dos organismos internacionais perante a nocividade da actuação da Fitch Ratings, da Moody’s e da Standard & Poor’s, muitos cidadãos portugueses associaram-se à denúncia judicial contra o modo com elas têm procedido em relação a Portugal, subscrevendo a petição que se encontra em http://www.peticaopublica.com/?pi=denuncia. Mas muito haverá ainda para fazer para que esta história não prossiga da pior maneira.

sábado, 16 de abril de 2011

À Procura da Palavra - COMO TU QUERES!


(Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)

“Meu Pai, se é possível passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres.”
(Evangelho segundo S. Mateus 26, 39 - Domingo de Ramos)

Ilustração: O Regresso do Filho Pródigo, de Rembrandt

É nos quadros de Rembrandt e Turner e dos paisagistas holandeses que melhor vejo os tons destes dias da Semana Santa. Os vários matizes do escuro, das tempestades e das trevas que carregam de densidade as pinturas albergam também uma luz que brilha em algum lugar. Uma luz, por mais pequena que seja, a impedir o aparente triunfo das trevas. Assim são os relatos da paixão de Jesus, e mesmo a luminosa e festiva entrada em Jerusalém não afasta do coração dos discípulos as nuvens negras do sofrimento predito pelo Mestre. É o claro-escuro dessa noite maior da agonia de Jesus que é, tantas vezes, também a nossa!

Imaginar que o Pai queria a morte sofredora do Filho só é possível alimentando uma imagem muito distorcida de Deus. É o amor até ao fim, o amor totalmente entregue como só Deus pode fazer, na fidelidade a si mesmo, que vemos na paixão de Jesus. A fidelidade que se faz luminosa nas palavras do “Diário” de Etty Hillesum, a jovem judia morta no campo de concentração de Auschwitz a 30 de Novembro de 1943: “Ser fiel a tudo o que uma pessoa iniciou num momento espontâneo, demasiado espontâneo, por vezes. / Ser fiel a cada sentimento, cada pensamento que começou a germinar. / Fiel no sentido mais lato da palavra. / Fiel a si mesmo, a Deus, fiel aos seus próprios melhores momentos. / E onde uma pessoa está, ser totalmente, cem por cento ser. / O meu “fazer” consistirá em “ser”. Assim, o grito humano do “passe de Mim este cálice” está unido em Jesus ao “como Tu queres”. As duas palavras num único sim, o escuro com o ponto de luz que impulsiona para a vida oferecida de Jesus: “Ninguém Me tira a vida; Eu dou-a livremente” (Jo 10, 18).

Há muito de paixão nesta crise que atravessamos. Uma crise que, mais do que económica, é também de confiança: em instituições e em pessoas concretas, nas políticas seguidas e nos valores que as fundamentaram, nas palavras e na justiça. Desejam-se medidas salvadoras, pedem-se sacrifícios, mas estarão elas ao serviço de uma transformação mais profunda da sociedade? A verdadeira mudança é “por dentro” que se faz; é no “ser” e não no “parecer”; é com todos e não prolonga privilégios; passa pela morte para poder ressuscitar. E quando a confiança é ferida são precisos gestos corajosos para a restaurar!

Acredito que Deus tem um “querer” para mim e para todos. Que não significa nenhum “plano especial de crescimento” mas o “plano de salvação” já realizado na Páscoa de Cristo. Realizado e a ser feito real pelo encontro do meu “querer” com o d’Ele. Que é “amar até ao fim”. Em tudo o que é profundamente humano. No coração da crise e do seu “escuro-claro”. Na política, na economia e na justiça. No trabalho e nos centros de decisão. Mas eu e vocês, que acreditamos e dizemos viver com Jesus, queremos mesmo o que o Pai quer? Quando isso implica paixão e morte?

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Inquérito Nova Evangelização (9) - Maria da Conceição Coutinho

Aceitar o desafio do tempo que vivemos

Maria da Conceição Coutinho, 52 anos, administrativa, animadora do blog Jardim de Luz

1. Essas transformações foram portadoras de autonomia para o homem. Que é chamado a viver a experiência religiosa, não como uma necessidade ou de forma condicionada pelas estruturas religiosas, mas em liberdade criativa.
Mas a complexidade é própria do viver humano. "Assim o que realizo, não o entendo: pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é que faço." (Rm 7, 15). Todos os actos e realizações humanas vivem a tensão da luz e das sombras. Só Deus é criação pura. Ter consciência disso, ajuda-nos a olhar para nós próprios, para o nosso grupo religioso e para a sociedade, não através de um modelo ideal que se persegue (e nunca se conseguirá alcançar), mas sabendo que é a actividade do nosso caminhar que nos humaniza.
É, ainda, desavisado e imprudente utilizar um único modelo religioso e social (e é isto que, quanto a mim, o documento do Papa reflecte) para avaliar a espiritualidade e religiosidade contemporâneas.

2. As leituras são sempre múltiplas. Mas temos como base deste inquérito o documento papal, que reflecte o olhar de uma hierarquia que vive à margem da sociedade e até das comunidades católicas e vive apoiada numa estrutura centralizadora.
A secularização é o sinal de que já não é possível viver mais esse modelo. Perante ela temos vários caminhos. Ou se teima em alimentar e fomentar o mesmo esquema doutrinal e institucional (com as consequências que se vão verificando: comunidades reduzidas a idosos e a práticas ritualistas que já não dizem nada do que pretendem ser:"sal da terra", "fermento na massa", "ressurreição"). Ou aceitamos o desafio do tempo que vivemos que, a par de desenvolvimentos técnicos, científicos e humanos, configura uma grave "injustiça globalizada". E o cristianismo tem um largo espaço de acção neste campo.
O espanto dos evangelhos é apresentarem-nos um Jesus próximo, companheiro, interpelador. Quantos são os bispos efectivamente presentes nas suas comunidades? E no meio social que é todo o espaço da diocese?

3. A expressão é dúbia. Têm-se em conta as diferentes realidades? Parece-me que não. Uma evangelização que não tenha em conta a pluralidade do paradigma actual - económico, multirracial, multi -religioso, feminista, espaço privado da consciência - não pode ser considerada nova.
E muito menos será nova, apenas, por utilizar os meios informáticos e tecnológicos de que dispomos. Utilizar novos meios e manter a estrutura é desperdiçar oportunidades.

4. E quando é que se dá esse "início"? Eu diria que é um início que está sempre acontecendo. Um cristão (ou um grupo) "corre para a meta" não é a "meta".
"Eu sou a ressurreição e a vida! (Jo 11,25) Jesus pôde afirmá-lo
com propriedade e verdade. Nós, crentes cristãos, descobriremos com humildade que a nossa vida está marcada pela finitude e pela morte. Quanto maior for a nossa consciência de peregrinos, mais percebemos que a nossa adesão a Jesus não nos faz diferentes de ninguém. Todos fazemos parte do Todo. Então, individualmente e como grupo religioso, aprenderemos a dialogar e a descobrir o que é a vida.

5. Por tudo o que disse acima facilmente se conclui que concordo com o Papa: não implica “uma única fórmula igual para todas as circunstâncias”.
Desconhecia o debate sobre "estratégias e métodos." Não quero ser muito negativista, mas como não sê-lo com uma Conferência Episcopal tão discreta, tão alinhada à estrutura eclesial dominante? Sem alterar a estrutura não há linguagem, nem métodos que não passem de episódios voluntaristas.
Não posso ignorar, porém, que um pouco (ou muito) à margem da "estrutura" existem já grupos e indivíduos que vivem um modo diferente de ser Igreja e ser cristão.
O Espírito continua a soprar e a vivificar no mistério.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Inquérito Nova Evangelização (8) - Leonor Xavier

Secularização, feliz sinal dos tempos

Leonor Xavier, jornalista e escritora, membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja


I – A expressão leva-me a pensar em algo que tem que ser revisto na atitude de cada homem e de cada mulher em relação ao entendimento da vida e da morte, na experiência religiosa. Leva-me a regredir na história do mundo, quando a Palavra de Jesus abalou a realidade assente na expressão do poder, que era a do seu tempo e lugar, e fez do amor uma revolução verdadeira. Leva-me a pensar na dimensão misteriosa e infinita da fé, como iluminação de vida. A Nova Evangelização é uma maneira de dizer esse infinito de descobertas possíveis quando a prática de todos os dias deixou de ser o cumprimento formal do culto ou o ritual sempre repetido sem mudanças, porque a toda a hora e nas mais variadas circunstâncias deste mundo nos exige uma interior profissão de fé. Não só na consciência de Jesus em nós, mas na certeza de que a Palavra é universal, que é para todos e todas, além das diferenças sociais, culturais, ideológicas, religiosas. A Nova Evangelização faz-me pensar num compasso de pausa e de silêncio, na tumultuação dos dias.

II - A secularização é, sim, um feliz sinal dos tempos, em que a vivência religiosa deixou de ser um constrangimento de normas acordadas e de regras impostas para se tornar uma experiência de testemunho e liberdade.

III - A Igreja poderá ter papel principal na sociedade do nosso tempo, quando o nome de Jesus for presença constante no seu ministério. Quando, em vez de condenar e excluir, chame e envolva e inclua. Quando reconsiderar o celibato dos padres ou a não ordenação das mulheres, a condição dos divorciados e dos homossexuais. Que pena a atitude radical da Igreja nestes pontos, em contraste com a sua intervenção no plano da educação e da assistência.

IV - Para Portugal, a Nova Evangelização pode passar pelo diálogo inter-religioso, em públicas ocasiões, auditórios abertos, em que opiniões e vivências opostas ou diferentes se possam exprimir sobre temas diversos. Pode passar pela intervenção na cultura, através das várias disciplinas de criação e autoria, de atuação e arte.

sábado, 9 de abril de 2011

À Procura da Palavra - TIRAR AS PEDRAS


(Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)


"Disse Jesus: ‘Tirai a pedra'.”

(Evangelho segundo São João 11, 39 - Domingo V da Quaresma)

(Foto copiada
daqui)

Depois de um incêndio numa floresta a morte ganha uma expressão visual tremenda. A aflição do fogo devorador dá lugar ao silêncio e ao coração apertado. Lembro-me de ter andado, há anos, pelo meio de cinzas e arbustos carbonizados depois de um incêndio na serra da Arrábida. O céu azul e o sol pareciam envergonhados perante aquela desolação. Mas, de repente, por entre o negro e a cinza, junto a um tronco queimado, um rebento verde ousava desafiar aquele espectáculo de morte. Frágil, aparentemente impotente, era um grito de vida espantoso. Como me lembro tanto do poema do Sebastião da Gama que começa assim: “Que a Morte, quando vier,/ não venha matar um morto”!

Há mortes e mortes, e cada uma é única, e todas nos incomodam. Não temos palavras para esses momentos. O abraço, as lágrimas, as mãos apertadas trocam-se em silêncio. Não é a presença a melhor palavra de amor e comunhão? Verdadeiramente não nos habituaremos à morte (e ainda bem, porque ela não é o nosso fim) mas como abraçamos a vida? Como juntamos forças para retirar as pedras que fazem sepulcros antes de tempo? O que fazemos para vencer o desânimo que deixa cair os braços ou fecha cada um no seu casulo? Que ressurreições estão ao nosso alcance?

Por entre a burocracia em que se transformou, por exemplo, muito do esforço de educar, há testemunhos de quem não se acomoda à exigência dos números ou dos papéis. Procuram “tirar as pedras” que encerram capacidades, energias, confiança, sonhos, valor próprio, de tantas crianças e jovens. Um de cada vez, à maneira de madre Teresa de Calcutá e de Jesus (que ligava pouco a números, excepto na compaixão por todos), aproximando-se com a delicadeza que a “raposa” ensinou ao “Principezinho”, talvez até sentando-se no chão em companhia inesperada, agem para evitar a ”morte anunciada” de meninos e meninas pouco amados. Não pedem nada em troca, dói-lhes apenas a “funcionalização” do educar, como se fosse mais uma pequena “morte”. Ressuscitar é acção de Deus, mas reanimar, restaurar a confiança, levantar quem caiu, promover quem é excluído, recriar a dignidade e o valor que cada pessoa tem, procurar em comum razões de esperança e de vida, tudo isto é tarefa nossa!

Gosto deste pedido de Jesus: “Tirai a pedra”! Ainda que “já cheire mal” (quando tudo já parece perdido), é preciso “ser vivo” até ao fim. Pedras de indiferença e exclusão, de egoísmo e auto-suficiência. Pedras de dentro e de fora. Ressuscitar não é uma tarefa solitária: precisamos de Deus e também Ele precisa de nós!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Bíblia democratiza-se, no "Público" de hoje

IVG e reprodução medicamente assistida: debate no Porto

O Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV)realizará no próximo dia 17 de Maio de 2011, no Centro de Cultura e Congressos da Ordem dos Médicos no Porto, uma conferência subordinada ao tema “As Leis da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) e da Procriação Medicamente Assistida (PMA): uma apreciação bioética”.
Esta sessão temática, que abre o ciclo de conferências do CNECV para 2011, tem o objectivo principal de, ouvindo diversas vozes e orientações, promover o debate esclarecido e plural sobre dois temas da maior importância e actualidade, decorridos quatro e cinco anos, respectivamente, sobre a entrada em vigor da respectiva legislação.
Ver o programa: AQUI
O evento é de entrada livre.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Edgar Morin, 90 anos: "Sou um eterno apaixonado"

A revista francesa La Vie iniciou a publicação de uma colecção intitulada "Questões de Vida" e o primeiro número é dedicado ao amor, abordado de diversificados ângulos. A este propósito, entrevistou o sociólogo Edgar Morin, actualmente com 90 anos, e tendo como motivo próximo a publicação de um livro dedicado à mulher que foi a sua companheira de vida durante 30 anos, intitulado Edwige, l’inséparable. Ler a entrevista AQUI.
(Crédito da foto: © Martin Bureau / AFP)

Inquérito Nova Evangelização (7) - Jorge Mendonça

Falta uma reflexão metódica sobre as grandes figuras da cultura contemporânea

José Jorge Teixeira Mendonça, 60 anos, professor

1. As transformações sociais das últimas décadas e as suas causas complexas tiveram uma multiplicidade de consequências correspondentes aos diferentes contextos em que se deram e à atitude dos sujeitos colectivos e individuais no seu modo específico de sentir e agir. Correndo o risco de simplificar, que pode ser redutor, entendo que o que está em questão é sobretudo o modo como cada um se vive a si próprio vivendo o seu contexto: na “neutralidade” anónima da terceira pessoa [on, it, es]ou na afirmação criticamente lúcida da primeira pessoa. Sejam quais forem as circunstâncias, o modo de os grupos e os indivíduos viverem pode ser estéril ou fecundo. E neste domínio não há “fecundação artificial” que possa disfarçar a esterilidade onde a houver.

2. A Igreja, enquanto Povo de Deus, pode fazer uma leitura dos sinais dos tempos alicerçando-se na oração [comunhão com Deus; felizmente - na relação com Deus - Ele não permite que se confunda comunhão com fusão] que, usando uma feliz expressão de Spinoza, proporciona uma visão do real sub specie aeternitatis. Nesta leitura dos sinais dos tempos, o Povo de Deus deve levar a sério as diferentes culturas (nas suas tão diversificadas expressões) para, num diálogo mutuamente interpelante, honrar a obra da criação que cabe a toda a humanidade continuar até à sua conclusão no fim da História. Assim sendo, a secularização é um sinal dos tempos que traduz o respeito pela autonomia das realidades terrestres. A secularização também constitui hoje o horizonte no qual a questão de Deus não é uma resposta “natural” mas antes uma questão existencial inerente à pergunta sobre o sentido da vida. Cada ser humano vive a sua própria vida como pergunta sobre este sentido que, para cada um, não está previamente constituído.

3. No número 5 do segundo capítulo dos Lineamenta, há uma expressão que bem pode exprimir o sentido da expressão “nova evangelização”: «A nova evangelização (…) é a coragem de ousar novos caminhos, face às novas condições no seio das quais a Igreja é chamada a viver hoje o anúncio do Evangelho.» Há aqui um corredor de liberdade que não pode ser asfixiado por atitudes “defensivas”. Que haja crises é um sinal positivo de que os equilíbrios não são estáticos mas dinâmicos [desde o século XIX que se conquistou, na cultura ocidental, a compreensão de que o movimento não é exterior ao ser, mas que o devir é o próprio conteúdo do ser]. A «nova evangelização» nega-se a si própria se o Povo de Deus não traduzir na sua própria vida os frutos e as interpelações do Evangelho.

4. Sempre que um cristão ou o Povo de Deus colocar em segundo lugar a pessoa de Jesus Cristo subordinando-a a outras “coisas”, é esse cristão e/ou o Povo de Deus que acabam por ser “evangelizados” até pela consciência crítica dos que não podem acreditar (aqueles a que habitualmente se chama não-crentes ou ateus).

5. Como baptizado que faz parte desta parcela do Povo de Deus que vive em Portugal, entendo ser necessário:
- cuidar da vida de oração
- na liturgia eucarística, os sacerdotes falam de mais; uma certa sobriedade, que não exclui a beleza da expressão litúrgica, educa para a dimensão transcendente do mistério de Deus; quando o sacerdote que preside à celebração eucarística não teve tempo para preparar cuidadosamente a homilia, então cale-se e proponha algum tempo de silêncio meditativo.
- é importante que no espaço eclesial haja uma reflexão metódica sobre as grandes figuras da cultura contemporânea nos seus diferentes domínios. A fé também se alimenta da contemplação das criaturas e as “criaturas” culturais não são menos criaturas que as naturais. Saber ver cura-nos das nossas “cegueiras” involuntárias.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Bento e Anselmo: Quaresma para sarar a irrazão


Bento Domingues no "Público" de domingo (em cima) e Anselmo Borges no "Diário de Notícias" de sábado (em baixo):

O que São Basílio Magno (séc. IV) escreveu sobre a usura é temível: "Os cães, quando recebem algo, ficam mansos; mas o usurário, quando embolsa o seu dinheiro, irrita-se tremendamente. Não cessa de ladrar, pedindo sempre mais... Mal recebeu o dinheiro e já está a pedir o dinheiro do mês em curso. E este dinheiro emprestado gera mal atrás de mal, e assim até ao infinito." Por isso, o Concílio de Latrão, em 1179, proibiu aceitar esmolas dos usurários, admiti-los à comunhão e dar--lhes sepultura cristã.
Hoje a isto chama-se os mercados financeiros, com a sua lógica devoradoramente insaciável. Portugal sabe-o por experiência. Quem não viu veja e quem viu reveja Inside Job. Ler tudo aqui.

sábado, 2 de abril de 2011

Inquérito Nova Evangelização (6) - Joana Rigato

A Igreja deve ouvir mais o mundo de hoje

Joana Rigato, 31 anos, professora

1 – Creio que a experiência religiosa se tornou simultaneamente mais individual e mais livre, o que traz grandes vantagens e também grandes riscos.

Nas sociedades ocidentais, talvez pela primeira vez na História, as pessoas passaram a não ser “obrigadas” a professar uma determinada fé nem a ter de pertencer a uma determinada religião. Isto provoca um certo desnorteamento, na medida em que há muita gente que não é educada na fé e não desenvolve a sua espiritualidade, embarcando muitas vezes em preconceitos superficiais acerca da religião dominante e vivendo a sua vida sem explorar todas as suas dimensões (o que conduz ao “deserto espiritual”). Simultaneamente, quando sentem a falta de uma dimensão transcendente na sua vida, muitas pessoas procuram-na sem grande critério, explorando propostas frequentemente incoerentes e até contraditórias entre si, misturando formas de terapia fácil com pseudo-religiões orientais, superstições camufladas de descobertas new age, etc. Isto é sinal de uma busca que não deixa de ter lugar nas sociedades modernas (e que, na minha opinião, deve ser empreendida com toda a liberdade) mas que nem sempre conduz a uma verdadeira profundidade.

Estes riscos são o “preço” a pagar pela fundamental conquista da liberdade religiosa. As igrejas estão mais vazias hoje – mas quem as frequenta fá-lo com muito mais verdade. Há muita confusão entre os vários caminhos possíveis, podendo perder-se de vista o património sapiencial de séculos de vida religiosa colectiva – mas a procura de Deus deixa de ser vivida exterior e passivamente, por fiéis que pouco se questionam e consideram que a Verdade não é descoberta mas aprendida, passando a ser assumida como um caminho e um compromisso. Tudo isto, a meu ver, torna o balanço francamente positivo. A busca é mais sincera e, multiplicada por milhões de pessoas, também muito mais rica.

2 – Sem dúvida que a secularização pode e deve ser vista como um sinal dos tempos. Tudo o é. Para que a Igreja possa ler esses sinais, deverá olhar o mundo sem pré-conceitos e sem superioridade. Não creio que a Igreja seja o “local” onde Deus habita e que a sociedade seja a realidade profana que recusa Deus e onde o espírito de Deus deixou de soprar. Deus atravessa toda a realidade, mesmo de formas inicialmente pouco compreensíveis. A Igreja deve perguntar-se: como é que Deus se manifesta nos jovens de hoje? Nos desempregados? Nos ateus? Naqueles que criticam a Igreja? Nas pessoas que fazem ioga?

A Igreja deve procurar perceber o que é que os caminhos que afastam as pessoas de si lhe revelam sobre a forma como ela própria fala de Deus. O que é que as pessoas procuram noutros sítios, que aqui não estão a encontrar? Como é que podemos revelar Deus de forma mais clara?

E assim, procurar compreender: aonde nos quer conduzir Deus actualmente? Como quer Deus que conduzamos a nossa acção?

3 – Penso que a última destas perguntas está a procurar orientar a resposta e a “forçar” a expressão em causa. Não creio que a “nova evangelização” deva ser vista nem como “uma forma de a Igreja sair das suas crises” nem como “desafio a repensar-se a estrutura eclesial”.

“Evangelizar” refere-se a levar a boa nova aos outros, ao mundo. O mundo precisa de Deus, a Igreja considera-se caminho privilegiado de descoberta de Deus e por isso assume como missão evangelizar. A meu ver, a “nova evangelização” é a evangelização do “novo mundo”, do mundo que mudou. A Igreja considera que deve repensar o modo de levar a boa nova ao mundo actual, ou seja, deve actualizar a sua forma de comunicar a mensagem. Eu concordo. Penso que, de facto, é necessário renovar a forma de evangelizar e que é fundamental pensar sobre isto.

Infelizmente, porém (e retomando o que respondi à pergunta anterior) o “re-pensamento” que a Igreja faz é frequentemente superficial. Como o “mundo” é visto como algo de exterior e oposto à Igreja (como se estivessem em duas frentes opostas de batalha: nós e os outros), a atitude é quase sempre de superioridade e não de escuta. Por isso, torna-se difícil “evangelizar” aquilo que não se percebe e com que não se “empatiza”. É uma espécie de atitude “colonizadora” e que já não funciona, nem voltará a funcionar (porque o “povo” emancipou-se e exige mais autonomia e mais respeito).

4 – Sem dúvida. Uma das grandes lacunas da Igreja enquanto testemunha de Cristo é, a meu ver, a sua tendência a apegar-se a questões acessórias, perdendo a credibilidade quando, depois, pretende pregar o essencial. O caminho de cada pessoa no seu encontro com Cristo tem de ser respeitado, e a Igreja deveria ser luz nesse caminho, uma ajuda no estabelecimento do diálogo e da intimidade entre cada pessoa e a pessoa de Jesus. Pelo contrário, ao longo da História e, infelizmente, ainda hoje, a Igreja actua como uma espécie da “mestre de cerimónias”, que pretende dizer a cada pessoa “como” percorrer o tal caminho.

Lembro-me, a esse propósito, das palavras de John Locke (protestante e muito anti-católico, é certo) referindo-se ao absurdo da falta de liberdade de religiosa que se vivia em Inglaterra na sua época (séc. XVII): «Se estou marchando com máximo vigor pelo caminho que, segundo a geografia sagrada, leva diretamente para Jerusalém, por que sou espancado? Será, talvez, pelo facto de não usar sandálias; porque não me deram o banho baptismal de maneira correcta ou meu cabelo não foi cortado como deveria; porque como carne na estrada ou qualquer outro alimento mais favorável para o meu estômago; porque evito certos atalhos que parecem conduzir-me a precipícios; porque, entre as várias sendas da mesma estrada e que levam para a mesma direção, escolho aquela que me pareceu ter menos vento ou barro; porque evito a companhia de certos viajantes menos graves e de outros mais impertinentes do que deveriam ser; ou, enfim porque sigo um guia que está ou não está coroado de mitra e vestido de branco? Certa¬mente, se ponderarmos devidamente, verificaremos que, na maior parte, são assuntos tri¬viais como estes que criam inimizades implacáveis entre confrades cristãos, apesar de todos concordarem com os aspectos essenciais da religião. Tais ninharias, porém, se não acompanhadas de superstição ou hipocrisia, podem ser observadas ou omitidas, sem qualquer prejuízo à religião e à salvação das almas.» (Carta sobre a Tolerância)

Creio que a Igreja é guardiã de uma Verdade revelada, mas que não pode ter a pretensão de ser a única nem de não se enganar ao procurar decifrar essa Verdade. Deus revela-se de muitas formas e, acredito, a toda a gente. A Igreja, através da sua sabedoria milenar, tem a missão de ajudar o povo a procurar, descobrir e aproximar-se de Deus em Jesus Cristo. Mas deve fazê-lo com humildade e no respeito da relação que se estabelece entre cada um e essa Verdade que se revela repetidamente. Deus deu a Razão e a luz da Fé a todos e a cada um, por isso seria até ofensivo que os fiéis se abstivessem de usar essas suas capacidades para se tornarem somente ovelhas.

5 – Antes de mais, há que pôr em prática algo fundamental e que remonta ao Concílio: o pleno envolvimento dos leigos na pastoral. Os padres são poucos e nem sempre têm uma formação mais profunda do que os próprios leigos. Por isso, os leigos devem ser vistos como um auxílio imprescindível na evangelização, no trabalho paroquial, na tomada de decisões.

Outro aspecto muito importante é a linguagem – frequentemente envelhecida, conotada, não só nas palavras como nas imagens, no estilo. Dou um exemplo que me é familiar: no âmbito da acção dos jesuítas, há imensas vocações, imensos jovens, um dinamismo que não se encontra noutros lados. Acredito que muito do mérito desta frescura está na linguagem. Veja-se o site da pastoral juvenil dos jesuítas: www.essejota.net

Penso que a Igreja em Portugal deve ouvir mais o mundo de hoje. Os seminaristas deveriam “misturar-se” mais com os jovens da sua idade para lhes conhecerem os gostos, as preocupações e haver mais afinidade entre uns e outros. A minha experiência como professora testemunha isto mesmo: muitas vezes aquilo que procurei transmitir aos meus alunos era exactamente aquilo que outros professores procuravam transmitir mas com menos sucesso. E porquê? Não porque eu fosse melhor em nada! Mas só porque era mais jovem, usava uma linguagem mais apelativa, menos datada, transmitia a imagem de alguém “normal”, que partilha gostos com os alunos em termos de música, ou roupa, enfim. Essa minha “normalidade” deu-me credibilidade para poder aconselhar, sugerir, ser levada a sério. Ora, se um padre acabado de sair do seminário hoje se veste da mesma forma que um padre saído do seminário há 50 anos, só ouve música religiosa, usa a segunda pessoa do plural nas homilias, etc… certamente que não será levado a sério pelos jovens da sua paróquia. Que fique claro: não estou a dizer que devemos mitigar a mensagem, torná-la mais light, de forma alguma! O que acho é que, compreensivelmente, as pessoas se deixam tocar e desinstalar por aqueles com quem se identificam, porque lhes “dão crédito”.

Também em termos de conteúdo há muito a mudar. Raramente ouço homilias que sejam realmente desafiadoras em termos sociais, onde a leitura do jovem rico não seja imediatamente acompanhada de uma palavra apaziguadora: “Claro que Jesus não estava a falar a sério quando disse que mais depressa entra um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico no reino dos céus! Não se assustem nem se ponham em causa, era uma metáfora! Estava só a falar do apego que temos às coisas, não se referia às posses que realmente temos!”

Ao contrário daquilo que encontrei na América Latina e em Itália (numa certa facção da Igreja italiana, que é tudo menos homogénea), raramente ouço palavras corajosas de crítica social na Igreja em Portugal ou padres que procurem envolver os seus paroquianos em movimentos cívicos, tomadas de posição concretas, denúncias, etc. Na sua maioria, a Igreja tem medo de tomar posição, de ser conotada politicamente com alguma ideologia, e então abstém-se e limita-se à assistência. A meu ver, isto tem-na feito perder terreno na sociedade. E para além de a prejudicar em termos de “marketing”, creio sobretudo que é lamentável que a Igreja “saia à rua”, em bloco, para questões como o aborto (questão relativamente à qual a posição oficial da Igreja tem a minha total concordância, não é isso que eu ponho em causa), não o fazendo da mesma forma quando há escândalos sociais dramáticos em Portugal e no mundo. Claro que, oficialmente, as posições da Igreja a nível de doutrina social são radicais e coerentes, mas não lhes é dado o devido eco na comunidade cristã, pelo que não têm visibilidade. Ou seja, ao contrário daquelas que eram as prioridades de Jesus, a catequese e a formação dos cristãos assenta ainda muito mais na moral dos costumes e na prática de ritos e regras, do que na ética social.

Por último, creio que a liturgia também deve sofrer uma grande revisão. Numa sociedade cheia de pressas, de ruído, de solicitações, deveria haver mais espaço para o silêncio e a introspecção nos momentos de encontro com Deus propostos pela Igreja. Depois de uma semana tão cheia de palavras gastas, de fórmulas automáticas, de exterioridade, seria muito importante que a oração comunitária de domingo fosse uma ocasião para parar realmente e deixar entrar o nosso coração em repouso, para podermos criar nele espaço para a palavra de Deus e o Seu sussurrar.

O Concílio Vaticano II - onde está?

Com o título "O Concílio Vaticano II - onde está?" decorre esta tarde de sábado, no Convento de São Domingos, em Lisboa, um encontro para avaliar memórias, experiências e perspectivas futuras a partir da herança conciliar. A iniciativa, promovida pelo movimento Nós Somos Igreja - Portugal, tem início às 14.15 e estende-se depois pela tarde com o seguinte programa:

14.30 Introdução - Frei Bento Domingues, O.P. (teólogo)

15.00-16.30 - O Concílio Vaticano II: Memórias e Vivências (Joana Lopes, autora do livro "Entre as Brumas da Memória, sobre os católicos na década de 60; frei Mateus Peres, O.P., teólogo; Maria da Conceição Moita, educadora de infância; e Cesário Borga, jornalista)
Debate, moderado pela investigadora Ana Vicente

16.30-17.00 - intervalo

17.00-18.30 - O Concílio Vaticano II: A Igreja e o Futuro (Emília Nadal, pintora; Joaquim Franco, jornalista; Teresa Toldy, teóloga; Pedro J. Freitas, professor universitário e actual coordenador do Movimento Internacional Nós Somos Igreja)
Debate moderado pelo jornalista Manuel Vilas Boas

18.30 - Encerramento (Alfreda Fonseca, professora do ensino secundário)

19.00 - Celebração da eucaristia, presidida por frei Bento Domigues