sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Aos leitores

Reconhecendo a relevância da Exortação Evangelii Gaudium, há dias publicada pelo Papa Francisco, e anuindo ao repto de Jorge Wemans, em texto publicado no corpo principal deste blog, convidamos os interessados a enviar-nos depoimentos (até 400 palavras) em que falem das ressonâncias e comentários que a leitura do documento do Papa suscitou. Teremos todo o gosto em publicá-los.
Enviar para o e-mail: religionlineblog@gmail.com

A Alegria de Ler Francisco - um depoimento e um desafio de Jorge Wemans


É muito difícil escrever sobre a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium que o Papa Francisco publicou a 24 de novembro. Ela é tão importante e inovadora no magistério destes últimos anos, tão forte e firme na confiança que exprime no amor de Deus, tão exigente e serena sobre a nossa forma de entendermos a Igreja que resulta muito difícil ousar a palavra depois de a ler. Acresce ainda que é extensa na letra e nos assuntos que visita. Correndo o risco de atraiçoar o que nela é mais significativo, arrisco três palavras: alegria, sabedoria, confiança.
Alegria, a nossa. A de sermos destinatários de uma escrita tão simples, clara e sempre centrada no essencial. Um texto destes – em qualquer tradição literária – só pode ser fruto de um grande sofrimento, ou de um grande amor, ou dos dois [deve ser este o caso do Papa Francisco]. A alegria do leitor, lendo um documento que se inicia com essa palavra, não termina no fim do longo intróito a ela dedicado: a alegria do Evangelho preenche-nos ao longo de todo o texto, qualquer que seja o assunto tratado. A escrita deste documento resulta da assunção plena, por parte do seu autor, do que quis escrever logo nas primeiras linhas: “A alegria do Evangelho enche os corações e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus.”
Sabedoria, a do autor. Sem recurso a qualquer fácil erudição, Francisco decanta o seu larguíssimo saber numa sabedoria companheira da vida comum. Consegue, assim, aquilo a que muitos padres da igreja aspiraram sem o alcançar. Nada mais difícil do que transmitir em palavras e imagens próximas do homem comum as complexas sínteses teológicas ou as fórmulas elaboradas dos debates eclesiológicos que a história da igreja comporta. Sem grande discursividade sobre elas, mas com enorme assertividade sobre como viver hoje a fé em igreja, Francisco escreve de modo a que todos o entendamos, mesmo quando inventa palavras para formular a sua própria síntese sobre o que há a viver.
Confiança. Confiança a triplicar. Confiança no amor de Deus e no que dele podemos intuir a partir de Jesus. Confiança na capacidade da igreja de mudar e sair de si para manifestar a todos sem exceção a misericórdia de Deus. Confiança no homem como agir comum, energia e desejo capazes de inventarem um outro futuro, diferente e melhor do que o buraco negro do egoísmo para onde nos quer levar esta economia que mata.
Ler, meditar e conversar sobre esta Exortação parece-me tarefa prioritária a ser organizada com solicitude.

Jorge Wemans
Lx. 2013.11.29

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

domingo, 24 de novembro de 2013

“Dêem-me uma pobre que não seja rica”


A crónica de Eduardo Jorge Madureira, no Diário do Minho deste domingo, 24 de Novembro:

“O ‘pobrezinho’ era uma entidade que povoou a minha infância”, lembra António Alçada Baptista no primeiro volume da Peregrinação Interior, que inclui as Reflexões sobre Deus. Recordando o que se passava na década de 30 do século XX, regista o autor: “Em todas as ‘boas’ casas da minha meninice meiga e temente cultivavam-se os pobrezinhos, regavam-se com bocadinhos de pão com conduto, com pequenas moedas de cobre e cultivava-se sobretudo a sua pobreza”. Nada parecia faltar: “Havia a comida dos pobres, a esmola dos pobres, as visitas dos pobres e a sexta-feira, sobre ser dia aziago, era também o dia dos pobres”. Para o católico António Alçada Baptista, “as conversas sobre pobres entravam naquela zona de espiritualidade provinciana que abrangia as novenas, os lausperenes e as santas missões”.                   
As coisas para os pobres, explica, eram objectos no meio do caminho entre o uso e o lixo. “Estavam predeterminadas e correspondiam ainda à dificuldade de desapossamento das coisas, mesmo as que já não servem, que está na base da civilização em que vivemos”. Para o comprovar, relata o caso de uma alma distinta, aliás, devidamente nomeada, a quem a mulher pergunta o que fazer à lista telefónica antiga, no momento em que tinham acabado de entregar a nova edição. A resposta foi simples: dar a um pobre. Oferecer uma lista telefónica a um pobre é, de facto, uma boa piada, mas é, também, “uma caricatura exacta da dificuldade que tem o homem de encarar uma coisa que, sem merecer obviamente o caixote do lixo, na realidade não serve para nada”. 
Conta Alçada Baptista que cada rico se dava “mesmo ao luxo de ter o ‘seu’ pobre” e que “os ricos deliravam com estes pobrezinhos assim cordatos, cumpridores, submissos e respeitadores”. A Peregrinação Interior, que teve a primeira edição em 1971, regista ainda que, nesse Portugal, que tantos pensavam longínquo, havia muitas espécies de pobres. “Quanto ao modo como adquiriam os meios de subsistência, havia os pedintes, os necessitados e os envergonhados”, cuja distinção o autor estabelece com rigor.
Sobre a singular relação dos ricos com os seus pobres, Alçada Baptista conta um eloquente episódio, identificando uma das protagonistas.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Interações do Estado e das Igrejas apresentado hoje por Jorge Sampaio e Manuel Clemente

Agenda – livro

Interações do Estado e das Igrejas é o título do livro que esta tarde será apresentado por Jorge Sampaio, ex-Presidente da República e ex-Alto Comissário da ONU para a Aliança das Civilizações, e por D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa e professor universitário. A sessão decorre a partir das 18h30 na biblioteca da Assembleia da República (entrada pela porta lateral do Palácio de São Bento, junto ao parque de estacionamento).
O livro reúne cinco estudos. Três deles sobre instituições e outros dois sobre pessoas. O primeiro texto, de Luís Salgado de Matos, propõe uma tipologia das relações entre Estado e igrejas (ou religiões) em 193 países soberanos: a separação à americana; a separação á francesa; as religiões de Estado; e os estados religiosos ou teocracias. Conclui que, sem separação, é raro haver liberdade religiosa, mas esta é ainda uma realidade ausente em muitos países.
O segundo estudo, de António Matos Ferreira, sugere um novo paradigma para analisar a Acção Católica Portuguesa, por cujos movimentos passaram gerações de católicos portugueses. Teresa Clímaco Leitão analisa aspectos do comportamento dos partidos democratas-cristãos durante o período revolucionário em Portugal (1974-75).
Os outros dois textos dizem respeito a duas figuras de patriarcas de Lisboa: Sérgio Ribeiro Pinto estuda o livro do cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, A Igreja e o Pensamento Contemporâneo, no qual descobre a intenção de conciliar tradição e modernidade. Paulo Fontes aborda a figura do sucessor de Cerejeira, o cardeal António Ribeiro, figura essencial na relação da Igreja com a transição para o regime democrático.

No prefácio, António Reis escreve, sobre estes dois últimos textos: “Devo confessar, insuspeito que sou pelo cargo que já desempenhei, que os ensaios aqui publicados sobre os dois patriarcas, me levaram a vê-los com um novo olhar, em que as naturais divergências filosóficas não impedem o reconhecimento da elevada estatura intelectual e moral de ambos.”

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Dos Homens e dos Deuses em Coimbra, com Pedro Mexia

Agenda – Cinema



Há um monge que é o médico da aldeia, recebendo as pessoas com as suas queixas e as suas solidões. Há outros que regam e cultivam o jardim. Outros que se limitam a sobreviver ao peso dos anos e de uma vida já muito dada.  E há a violência e o terrorismo a cercar esses monges que rezam, que trabalham e que, sobretudo, fazem sua a vida das pessoas simples da aldeia.
Hoje, o filme Dos Homens e dos Deuses – é dele que se fala – passa em Coimbra, numa sessão organizada pela Comunidade de Acolhimento Cristão João XXIII e pelo grupo TEAR (Tecer a Espiritualidade coma  Arte e a Reflexão), do Instituto Universitário Justiça e Paz. A sessão conta com a presença de Pedro Mexia, cronista do Expresso e ex-director da Cinemateca, e realiza-se a partir das 21h30, no auditório do Museu do Mosteiro Velho de Santa Clara, em Coimbra.
Realizado por Xavier Beauvois, em 2010, o filme narra a história dos últimos meses dos monges de Tibhrine, qur foram raptados do mosteiro e depois assassinados, em 1996, em circunstâncias ainda por esclarecer.
Escrito e preparado muito a partir dos diários do irmão Christophe Lebreton, o filme tem vários momentos altos. Um deles mostra os monges numa Última Ceia, celebrada na noite de Natal, alegres e contentes com essa coisa simples que é conversar, comer e beber juntos.

A música, da cena final d’O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, remete para a convicção e a dúvida, a solidão e a comunidade, a alegria e a angústia.
Há um ano, Henri Teissier, arcebispo de Argel entre 1988 e 2008, que também foi ameaçado de morte durante os anos de chumbo da guerra civil no país (1992-1998), esteve em Portugal para apresentar uma pequena biografia do irmão Christophe Lebreton, um dos sete monges do mosteiro cisterciense de Tibhrine que foram executados. No livro Christophe Lebreton – Monge, Mártir e Mestre Espiritual para os Nossos Dias (Consolata Editora), Teissier explica como o pequeno diário do irmão Christophe é um precioso testemunho de um itinerário espiritual e apostólico único.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A desocultação da mulher na teologia



(ilustração: Teresa d'Ávila, reproduzida daqui)

Decorre em Lisboa, entre amanhã (sexta) e sábado, o III Colóquio de Teologias Feministas, dedicado ao tema da justiça, com o título “...'Que não haja indigentes entre vós' – Da dignidade e do porvir". Os trabalhos do colóquio decorrem no CES de Lisboa (Picoas Plaza, na R. Viriato) entre as 10h e as 18h. O programa completo pode ser consultado aqui.
Momentos importantes do colóquio serão a intervenção da monja beneditina catalã Teresa Forcades i Vila sobre Las falsas democracias y las consecuencias políticas de la noción cristiana de ‘persona’ (sexta, 10h15) e também a apresentação da edição portuguesa de A Teologia Feminista na História, da mesma autora (sábado, 17h45).
O título pode levar a leituras rápidas e superficiais. Na obra, Teresa Forcades tenta resgatar do esquecimento os nomes e a obra de várias mulheres que, ao longo dos séculos, deram um contributo por vezes decisivo à teologia. Nomes que estão para lá de alguns que, nas últimas décadas, já se tornaram óbvios, como os de Hildegarda de Bingen, Juliana de Norwich, Teresa d’Ávila ou Teresa de Lisieux.
Na introdução ao livro, a que RELIGIONLINE teve acesso em primeira mão, escreve Teresa Forcades, recordando alguns desses casos:
“«O céu é o limite» foi a expressão utilizada por Van Schurman numa carta dirigida à também filósofa e teóloga francesa Marie de Gournay, em defesa do acesso das mulheres ao estudo das ciências sem qualquer tipo de restrições. Van Schurman dominava a álgebra, a aritmética, a geometria e a astronomia, mas era teóloga acima de tudo. Para ela, a expressão «o céu é o limite» significava que o critério último é Deus e não os costumes ou as conveniências humanas. Ou seja: foi Deus quem formou tanto a mulher como o homem à sua imagem, e fê-los seres racionais para que o louvem através da criação; as capacidades de cada pessoa são um dom que Deus lhe deu e pelo qual Deus a tornou pessoalmente responsável (parábola dos talentos, Mt 25,14-30); viver humanamente, viver cristãmente, significa responder com toda a gravidade e responsabilidade ao dom de Deus em nós, cultivando fielmente até ao limite os próprios talentos para assim o louvar.”

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Vincenzo Paglia: solução para divorciados aparecerá com “acolhimento”

A solução pastoral para o problema dos casais que se divorciam irá “aparecer a partir do acolhimento que a Igreja deve ter” para com essas pessoas, diz o presidente do Conselho Pontifício para a Família, Vincenzo Paglia, em entrevista à edição portuguesa da revista Família Cristã.
Na entrevista, que pode ser vista na íntegra a seguir, este responsável do Vaticano diz que uma das soluções que está a ser estudada é a possibilidade de acelerar a averiguação dos processos de nulidade do matrimónio. A preparação dos jovens é outro caminho a fazer, acrescenta. De modo a que “a cultura, a política, a família e até a Igreja se concentrem” na realidade das questões da família.
Tendo em conta o interesse que despertou o inquérito de preparação do próximo Sínodo dos Bispos, onde alguns destes temas são abordados, vale a pena ver esta entrevista:

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O Novo Testamento de Jesus Cristo Segundo João, narrado por Luis Miguel Cintra



O Novo Testamento de Jesus Cristo Segundo João é o título do filme de Joaquim Pinto e Nuno Leonel no qual o actor Luis Miguel Cintra narra o texto do Evangelho de João, segundo a tradução da Vulgata latina, por António Pereira de Figueiredo (1725-1797). O filme será apresentado em Roma, nesta quarta-feira, 13, em competição, na secção CinemaXXI, do Festivale Internazionale del Film di Roma.
Depois da apresentação do filme, haverá um debate que conta com a participação de Virgilio Fantuzzi, padre jesuíta e crítico de cinema, que foi amigo e acompanhou várias rodagens do Pasolini e Fellini.
Não é a primeira vez que Luis Miguel Cintra faz uma experiência deste género. O actor gravou já, em disco (ed. Presente), um Sermão de Quarta-Feira de Cinzas, do padre António Vieira, e o Apocalipse de São João
Cintra leu também em público o sermão de frei António de Montesinos, o dominicano que primeiro criticou a colonização espanhola na América Central. E fez ainda leituras do Cântico dos Cânticosda Carta a Filémondo Eclesiastesalém das quatro narrativas da Paixão: São MateusSão MarcosSão LucasSão João
Agora, é a primeira vez que Cintra sai do espaço fechado para o campo, ao ar livre.
“O primeiro capítulo é acompanhado por imagens do local, seguindo-se um bloco em que somos imersos no ‘grão da voz’ de Luis Miguel”, explicam os realizadores. “A partir daí, a essa voz materializa-se na expressão, no gesto, na presença, no ritmo, na respiração, na pulsão do corpo do actor, que se transforma em veículo da materialização do texto.”
O filme fixa esse “dia de leitura, efectuada em continuidade desde o início da tarde até ao pôr do sol”. Acrescentam Joaquim Pinto e Nuno Leonel: “A interpretação inspirada permite vislumbrar, através de todos os séculos de fixações, transcrições e traduções de um texto que é já uma condensação em camadas sucessivas de uma experiência pessoal de Jesus, a emanação da força espiritual da vida de Cristo.”
Sobre aquela tarde de leitura e filmagem, escreve Luis Miguel Cintra:
Há alguma coisa que me transmite uma enorme alegria de viver no contacto, no trabalho com o Joaquim e o Nuno: a inabalável confiança na realidade, na sua transcendência. Por outras palavras que é isto senão amor à vida? Parece que me estão sempre a mostrar que só é preciso não nos deixarmos ficar surdos, cegos. O cinema com eles só difere da vida porque usam duas máquinas. Apetece dizer que fazer cinema é usar uma máquina para gravar som e outra imagem. Ponto final. Estaremos sempre perante Deus, não vale a pena fingir. E grava-se, filma-se aquilo que é verdade, vale sempre a pena, se o que se passa se passa mesmo, sem batota. Aquilo que as circunstâncias nos permitiram viver. Parece tão simples como a vida. Mas depende do amor. Da capacidade de amar. De nos expormos, de não ter medo. E de gostarmos do que nos rodeia e dos que nos rodeiam.
O Evangelho de João é todo ele uma definição do amor. Tem-me acompanhado numa imensa ânsia de alternativa para uma sociedade hipócrita, uma organização política do mundo actual verdadeiramente assassina, para uma tardia educação filosófica que não me deixe triste quando perceber que vou morrer. A tarefa a que se dedicam o Joaquim e o Nuno é para mim uma exemplar militância política: mudar pelo exemplo a maneira de viver de toda a gente. E bastou não me deixarem parar, porem-me no meio do campo a dizer o Evangelho só com eles e dois amigos mais como parceiros, sentir que o sol se punha enquanto eu lia a narrativa das palavras que João deixou escrito que o Cristo que ele amava disse há dois mil e tal anos, para toda a fancaria artística deixar de me interessar. Eu só quero entender. E ter companhia. ‘Creio no Espírito Santo.’ E não quero perder a vida em compromissos.

O Novo Testamento de Jesus Cristo Segundo João
Imagem, Som e Montagem: Joaquim Pinto e Nuno Leonel
Com Luis Miguel Cintra
129 minutos

Do inquérito sobre a família ao uso da razão e à pergunta "para onde?"

Crónicas

Nas crónicas do fim-de-semana último, o Papa e o inquérito de preparação do Sínodo dos Bispos sobre a família foram tema de algumas crónicas dos jornais. Na sexta, no Correio da Manhã, Fernando Calado Rodrigues concluía:
Não se prevêem mudanças na doutrina católica sobre o matrimónio e a família, mas é razoavelmente seguro que a forma da Igreja lidar com estas questões não será a mesma depois deste Sínodo.
O texto pode ser lido aqui na íntegra.

Já antes, no Expresso, Daniel Oliveira falava da “reevangelização benigna de Francisco”:
Dirão que, sendo eu ateu, nada que diga respeito à Igreja Católica e ao Vaticano me deveria interessar grandemente. Mas interessa-me muito. Vivemos num tempo de domínio duma corrente cultural (e ideológica) que valoriza o individualismo levado até às suas últimas consequências. Ela alimenta-se da destruição de todas as redes estáveis de solidariedade e pertença, elogiando cada individuo que, solitariamente, se exponha ao risco absoluto e desprezando todos os que acreditam na capacidade coletiva de interajuda. (...) Esta moral dominante, pela desintegração social e moral que promove, é inimiga da Igreja Católica e da manutenção do seu próprio poder social, político e espiritual. E, por razões diferentes, é inimiga dos que, como eu, defendem uma sociedade baseada num espírito igualitário e na mutualização do risco. O que faz das áreas de pensamento em que me situo e de uma igreja empenhada em pôr travão ao que considero ser a maior regressão civilizacional em alguns séculos, bem representada por este Papa, potenciais aliadas nas atuais circunstâncias.

No domingo, no Público, frei Bento Domingues defendia que é necessário “Enterrar o tridentinismo”:
G. Alberigo julgava que o tridentinismo tinha morrido no Vaticano II. De facto, ressuscitou nos anos 80, com as chamadas proposições irreformáveis do magistério, mesmo quando não traziam o certificado da “infalibilidade”. É a teologia que sofre e imigra. Espero que tenha sido das últimas décadas de esterilidade teológica.
Ao que parece, o Papa Francisco quer voltar a dar a palavra a todos os católicos e ouvir todas as pessoas de boa vontade.
(o texto pode ser lido aquina data de 10 de Novembro de 2013)

Também no Público, Laura Ferreira dos Santos questionava o método que irá ser escolhido pelos bispos para ouvir os crentes:
Este não é um inquérito qualquer. Se passar à margem dos católicos individuais, penso que desse modo se atraiçoarão as próprias intenções de Francisco, assim como as de tantos católicos que, através dele, sentem mais próxima de si a ternura de Cristo. Como afirma Thomas Reese no National Catholic Reporter do passado dia 7, Francisco já perguntou, noutro contexto: “Será que os conselhos diocesanos e paroquiais possibilitam verdadeiras oportunidades para que os leigos participem no aconselhamento, organização e planeamento pastorais?”.
(texto completo aquina data de 10 de Novembro de 2013)

No sábado, no DN, Anselmo Borges voltava-se para a questão da razão e defendia que “Não é bom descer abaixo da razão”:
Mas que tantas vezes se desce abaixo da razão – disso não há dúvida. Exemplos quotidianos um pouco a esmo. Não é segundo a razão, enquanto um banco se afundava a ponto de ter de fechar, haver salários milionários para alguns. Não está de acordo com a razão a austeridade não ser equitativa: continuam as mordomias, os privilégios, o número de multimilionários aumenta. Não é segundo a razão ter vivido na euforia gastadora irracional e esbanjar recursos à toa ou para vantagem apenas de alguns, espoliando o bem comum. Não é segundo a razão ter aberto instituições de ensino superior de modo cego. 

No seu comentário às leituras da liturgia católica de domingo, Vítor Gonçalves perguntava: “Para onde?”:
Já pensámos que cada um de nós, pelas escolhas que assume, vai também construindo o futuro? Que as mudanças mais importantes começam dentro de cada um de nós? E que, no fundo, a verdadeira transcendência não tem tanto a ver com “o mais acima”, ou “o mais além”, mas “o mais dentro” das pessoas e da vida? Podemos ter mil e uma ideias de como Deus é; Jesus insiste: “é um Deus de vivos”! Com todas as consequências que isso implica de responsabilidade e surpresa!





sábado, 9 de novembro de 2013

Sínodo dos Bispos católicos sobre a família: RELIGIONLINE propõe todas as perguntas


Está em marcha a preparação da sessão extraordinária do Sínodo dos Bispos sobre a família, que decorrerá em Outubro de 2014. É conhecido que o documento de preparação propõe um questionário de 39 perguntas sobre a doutrina católica acerca da família, a sua prática e a atitude pastoral que a Igreja deve ter em relação às novas realidades que atravessam a instituição familiar.
Tal método não é novo, pois cada sínodo dos bispos tem sempre um documento preparatório, que se destina ao trabalho das comunidades católicas locais – mas que muitas vezes é ignorado ou dado para resposta apenas a alguns especialistas ou líderes de comunidades. Verdadeiramente novas são as expectativas criadas, desta vez, pelo documento, como também a própria dinâmica proposta pelo Papa Francisco e pelo Vaticano, conforme se infere da introdução do texto. Em vários comentários já surgidos, percebe-se aliás a tensão que este questionário está a provocar, com pessoas a dizer que apenas se pretende avaliar o conhecimento dos católicos acerca da doutrina enquanto outros destacam o desejo de que muitos crentes participem. Não por acaso, várias conferências episcopais colocaram já o questionário online, abrindo a possibilidade de que todos os interessados possam responder – incluindo, pelos vistos, pessoas de boa vontade que, sensíveis aos valores cristãos, queiram também participar.
Este será, como se lê no texto, “um itinerário de trabalho em duas etapas: a primeira, a Assembleia Geral Extraordinária de 2014, destinada a especificar o ‘status quaestionis’ e a recolher testemunhos e propostas dos Bispos para anunciar e viver de maneira fidedigna o Evangelho para a família; a segunda, a Assembleia Geral Ordinária de 2015, em ordem a procurar linhas de ação para a pastoral da pessoa humana e da família”.
É certo que o inquérito propõe perguntas de diferentes âmbitos. Algumas são apenas de mera recolha de informação (por exemplo quando se pretende saber se há uma lei civil de reconhecimento das uniões de pessoas do mesmo sexo, equiparadas de alguma forma ao matrimónio); outras são claramente mais dirigidas a responsáveis de comunidades católicas (por exemplo, quando se pergunta: “Com que atitude os pais se dirigem à Igreja? O que pedem? Somente os sacramentos, ou inclusive a catequese e o ensino da religião em geral?”). E também há perguntas onde se pedem números e dados estatísticos.
Por estas razões, cada interessado/a pode centrar-se, nas suas respostas, naqueles aspectos a que está mais sensível e que considere carecer de intervenção. Porque, independentemente da diversidade de âmbitos e dessas pequenas fragilidades de arrumação, esta é uma oportunidade que não deve ser descurada por quem defende uma maior participação na vida da Igreja.
Nesse sentido, RELIGIONLINE propõe a todos os interessados que possam responder ao inquérito. Os responsáveis deste blogue comprometem-se a fazer chegar todas as respostas recebidas através deste meio à Conferência Episcopal Portuguesa, ao cardeal Péter Erdõ, relator da assembleia extraordinária do Sínodo dos Bispos, e aos bispos Lorenzo Baldasseri e Bruno Forte, respectivamente secretário-geral do Sínodo e secretário especial da assembleia de 2014, e ainda à Nunciatura da Santa Sé em Lisboa.
Curtas indicações práticas: (1) no início, acrescentámos alguns dados de identificação, que sugerimos sejam também respondidos; (2) cada resposta tem espaço suficiente para textos longos, mas será bom que as respostas sejam tão sucintas quanto possível; (3) no final do inquérito, há uma caixa com indicação "enviar", que remete as respostas directamente para um mail deste blogue; (4) as respostas devem ser dadas até final de Dezembro. 



(foto reproduzida daqui)