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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Advento, estranho tempo de gravidez

Crónica


Ilustração de Bernadette Lopez/Berna, reproduzida daqui

No seu comentário aos textos da liturgia católica do próximo domingo, Vítor Gonçalves escreve na Voz da Verdade, sob o título Início:

Saber que é possível renovarmo-nos e fazer novo o que nos parecia irremediável rima com a esperança. Essa é a “matéria” do Advento que não nos cansaremos de aprender. É possível“começar de novo”, e descobrir que “vai valer a pena, ter amanhecido” como canta Ivan Lins. E nós, que nos habituámos a desistir facilmente, a querer não o “novo” mas o que é moda de ocasião, precisamos descobrir como o que existe pode ser a base do que ainda virá a ser! João Batista coloca o dedo na ferida (não para fazer sofrer mas para curar!) e fala de perdão dos pecados. A conversão é a atitude que possibilita um novo começo. Quantos sofrimentos se prolongam porque queríamos ser perfeitos à primeira? Quantas possibilidades se perdem porque não avaliamos e corrigimos com a força do perdão? 
(O texto completo pode ser lido aqui)


quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (24) - Jesus, a fragilidade de Deus

Para os cristãos, Jesus Cristo é o próprio Deus que se torna homem, adoptando assim a fragilidade própria da condição humana. Essa mensagem prolonga-se no discurso e no agir de Jesus, culminando no Sermão da Montanha. Uma inversão da pirâmide.


Ilustração: Mestre Francke, de Hamburgo (1380-1430), Natividade (Museu Nacional e Cívico de S. Mateus, Pisa, Itália )


“Enquanto um silêncio profundo envolvia todas as coisas e a noite ia a meio do seu curso, a tua palavra omnipotente veio do alto do céu, do teu trono real.”
(Livro da Sabedoria 18, 14-15)


Simone Weil (1909-1943), a filósofa judia que se aproximou do cristianismo, escrevia (Espera de Deus, ed. Assírio & Alvim): “O amor divino atravessou a infinidade do espaço e do tempo para vir de Deus até nós.”

Esta é a afirmação central do Natal: para os cristãos, Jesus Cristo é o próprio Deus que se torna humano, pela palavra. “Nasceu o Verbo eterno sem começo,/ O Criador do homem fez-se homem”, canta um hino da Liturgia das Horas, rezado no dia de Natal. Uma ideia inspirada no belo poema com que se inicia o Evangelho de S. João (1, 1-2 e 14): “No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus;/ e o Verbo era Deus./ No princípio Ele estava em Deus./ E o Verbo fez-se homem/ e veio habitar connosco.”

O nascimento de Jesus acontece na fragilidade: entre os mais pobres e para todos. Daí que a narrativa do seu nascimento, segundo S. Lucas, fale dos pastores, desprezados no tempo, e dos magos, estrangeiros que vieram a Belém adorar o Menino.

Em Jesus, é o próprio Deus que nasce frágil. Tal como a humanidade. Escreve o teólogo italiano Domenico Pezzini (O Tesouro e o Barro, ed. Paulinas): “Somos criaturas frágeis, isto é, no sentido etimológico do termo, somos coisas que ‘podem quebrar-se’ e que, de facto, continuamente se partem. (...) É algo que nos marca dolorosamente e que não podemos ignorar. (...) Em nós está a força da criatividade que nos aproxima de Deus, como também está em nós uma radical fragilidade que nos leva à nossa origem e ao nosso destino; pois vimos da terra e a ela voltaremos.”

Pezzini acrescenta: “O que o Natal proclama bem alto e com alegria é que Deus veio até nós através da parte que, em nós, parece mais afastada d’Ele, que parece exactamente o contrário da própria ideia de divindade, a nossa fragilidade.” Mensagem “explosiva”, essa fragilidade torna-se “princípio fundamental” do agir de Jesus, torna-se “caminho de salvação”.

A mensagem que Jesus anunciará retoma, de novo, essa inversão da pirâmide. Os marginais e os estropiados “têm, aos olhos de Deus, tanto valor como os que respeitam escrupulosamente os seus mandamentos, recitam diariamente as suas preces e fazem oferendas ao Templo”, escreve Henri Tincq (Os Génios do Cristianismo, ed. PUBLICO/Gradiva).

Este modo de agir culmina no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os pobres de coração, porque é deles o reino de Deus; bem-aventurados os que choram, porque serão consolados; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus; bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque será deles o reino dos céus.” (Evangelho de S. Mateus 5, 3-10).

No livro Em Ti, a Paz do Coração, escreve o irmão Roger, de Taizé: “Jesus, filho da Virgem Maria, no Natal tu ofereces-nos a mensagem de alegria do teu evangelho. Quem escuta, quem acolhe os dons do Espírito Santo, tanto de dia como nas vigílias da noite, descobre que tem tudo, com uma fé bem pequena, com quase nada.”


Pelo logos, a mais sublime das sabedorias
Um dos mais belos textos da Bíblia cristã, o prólogo do Evangelho de S. João fala de Jesus como o Verbo de Deus: “No princípio existia o Verbo; o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus. No princípio Ele estava em Deus. Por Ele é que tudo começou a existir; e sem Ele nada veio à existência. Nele é que estava a Vida de tudo o que veio a existir. E a Vida era a Luz dos homens.” Jesus nunca falou de si mesmo como o Verbo, recorda Jacques Guillet (Jesus Cristo no Evangelho de João, ed. Difusora Bíblica). Mas o evangelista adopta essa designação, do grego logos, que significa a palavra. Ao longo da história judaica, tinha sido pela palavra que Deus se comunicara a Abraão, Isaac, Jacob, Moisés, David, aos profetas… Essa palavra comunicava, assim, “a mais sublime das sabedorias”, escreve Annie Jaubert (Para Ler o Evangelho Segundo S. João, ed. Difusora Bíblica) e “se Jesus é a Palavra, é também a Sabedoria”, acrescenta Guillet. Para os cristãos, e com Jesus, é essa mesma Palavra que assume forma humana.


(Para a realização desta série, em 2005, foi importante a colaboração de: padre José Tolentino Mendonça, frei Lopes Morgado, Alfredo Abreu, Silas de Oliveira, pastor José Leite, Alberto Teixeira, Esther Mucznik, Samuel Levy, Ashok Hansraj, Paulo Borges, Ana Maria Jorge e padre João Eleutério)


Poema - Litania para o Natal de 1967 [e para o Natal de 2009], de David Mourão-Ferreira

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um fogão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo

[In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público]

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (23) - Prendas de Natal: vertigem consumista ou valorização da dádiva?

Desabafos de que a vertigem das compras de Natal nos consome. Uma alegria maior por se fazerem listas de presentes. Uma engrenagem consumista que envolve a todos. Pessoas que recriam o sentido da dádiva e dão novos sentidos e destinos à troca de presentes. Entre factos e sentimentos paradoxais ou mesmo contraditórios, as prendas de Natal são uma das principais notas da época.

(Ilustração: Bartolo di Fredi, Adoração dos Magos, in Legenda Áurea, ed. Civilização)

“Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, adoraram-no; e, abrindo os cofres, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra.” (Ev. de S. Mateus, 2, 10-11)


Papéis coloridos, laços, linhas de montagem para embrulhar presentes. Em qualquer loja onde se vá, cresce o número de pessoas, gasta-se mais tempo, aumentam os apelos ao consumo, oferecem-se promoções da época. O Natal passou a ser uma gigantesca máquina de produção de presentes?

Em casa, prepara-se um lugar próprio para ir colocando os presentes que vão chegando de familiares e amigos – junto do presépio, da árvore de Natal ou, em alguns casos, ainda da chaminé. Cresce o volume, diversifica-se o leque de cores. O Natal tomou conta de nós de forma avassaladora?

Manuela Silva, economista, nova presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica, alerta para algumas atitudes que o actual ritmo deveria impor: “Não somos meras peças de um qualquer engenho telecomandado. Somos seres humanos, isto é, somos dotados de um capital de inteligência, sensibilidade e liberdade”, escreve, no sítio internet da Fundação Betânia, a que preside.

“Somos capazes de ajuizar sobre a bondade dos nossos actos e ter consciência das suas implicações. Por isso, podemos – devemos – fazer escolhas. E estes são tempos de escolhas quanto à nossa relação com os bens materiais e com o consumo.”

Em Dezembro de 2005, o próprio Papa Bento XVI referiu-se ao tema, numa alocução de domingo: há “uma espécie de ‘poluição’ comercial” que coloca o verdadeiro espírito do Natal, afirmou. Além destes alertas, a antropologia pode também ajudar-nos a olhar o que se passa. Alfredo Teixeira, professor de Antropologia e Sociologia da Religião na Universidade Católica, tem investigado o tema do circuito da dádiva, uma questão “clássica e fundadora da antropologia”. “A grande pergunta é: o que se troca?”

A troca, responde o investigador, “parece estar baseada numa determinada forma de aliança”. Ou seja, “as pessoas dão presentes tendo em conta as relações que têm”, de parentesco, vizinhança ou amizade. Por vezes, há uma relação mais forte, outras nem tanto. Uma mudança em relação ao que se passava, quando se ofereciam presentes apenas a parentes ou vizinhos.

Na actual estrutura de sociabilidade, “damos presentes a cada vez mais pessoas”. Numa “visão primária”, podemos olhar para o fenómeno como uma consequência apenas da “cultura comercial que nos faz comprar cada vez mais coisas”. Mas “as pessoas não entrariam na sedução da compra se não tivesse mudado também as relações entre elas”.

Podemos admitir, entretanto, uma certa esquizofrenia do discurso – pessoal, social, mesmo de responsáveis da Igreja. Critica-se o consumo excessivo, mas não se propõem alternativas. “O discurso religioso tende a diabolizar a dimensão económica das coisas”, diz Alfredo Teixeira. Mas há uma economia de troca, defende o investigador, mesmo quando os filhos, depois de tanto receberem dos pais, passam a ser eles a dar, após um longo intervalo de tempo.

Por isso, diz, “ficar apenas a gritar contra o consumismo já não tem eficácia”. Deve, antes, reflectir-se “o que significa isto de trocar presentes”. A reorientação da dádiva – para instituições ou pessoas que precisam, reduzindo o número de presentes que se dão em família, por exemplo – “está no domínio da reinvenção dos gestos”. E aqui, afirma Alfredo Teixeira, “a mensagem cristã deveria também ajudar a ultrapassar fronteiras, passando da dádiva a quem nos é próximo para a dádiva ao estrangeiro, no sentido de quem está mais longe de nós”.


Um "suplemento de sentido"
Os magos a oferecerem presentes a Jesus ou S. Nicolau a ser generoso para com os mais pobres são duas das histórias que podem dar um “suplemento de sentido” ao gesto de trocar presentes na altura de Natal, explica Alfredo Teixeira, professor de Antropologia e Sociologia da Religião na Universidade Católica. As origens são “provavelmente anteriores ao Natal”, talvez mesmo “arcaicas”. Em muitas sociedades, reencaminha-se para a dádiva que beneficie os mais pobres. Alfredo Teixeira dá o exemplo dos ritos sacrificiais da peregrinação muçulmana a Meca, em que a carne é depois entregue aos mais pobres. “O dom é, em muitos casos, a forma de redistribuir, de recuperar para a sociedade franjas que continuariam na margem.” O dia em que se festejam os magos (6 de Janeiro) é o escolhido, em Espanha, para a troca de presentes. No Norte da Europa, a opção vai para 6 de Dezembro, a data em que se comemora S. Nicolau.


Poema - Cantos ao Divino, de Mário Beirão

Envolviam-se em mantas e rojavam
Os pesados bordões
Pelas ruelas do burgo desgastado
Por cismas e claustrais melancolias,
Sobressaltado
De evocações,
Oscilando no mar das ventanias,
Envolviam-se em mantas e cantavam...
Que gélidas, atrozes,
As noites desse Inverno! Entanto,
O bando
Dos cantadores, pelas ruelas divagando,
Prosseguia em seu canto!
Cálidas rescendências
Cresciam do florir das densas vozes,
Dessas vozes de tardas ressonâncias,
Extinguindo-se ao largo, nas distâncias,
Em hálitos de luz, em transcendentes,
Incertas refulgências
De auréolas de nascentes e poentes...
Era um coro que vinha, gemebundo,
Das almas, do profundo
De tudo o que há de humano,
Remontando-se a místicas Moradas,
Embebidas em sonho imorredoiro,
A cimos relumbrantes como brasas,
E, regressando, enfim, das extasiadas
Romagens do seu voo soberano,
Em um desmaio de oiro,
— Plenas de glória, as asas! —
Cavadores, ganhões, heróis da gleba,
Dos páramos de Beja,
Lá onde, sempre a errar, minha alma adeja,
Emergiam, fantásticos, da treva,
Erguendo cantos, como a erguer troféus...
Eram esses que enlaçam
A Terra aos Céus,
Nos coros que de assombros nos trespassam,
Longe de si — presentes só em Deus!
Cantavam ao Divino!
Cantavam, arroubados de Harmonia,
Àquela Nova Estrela que nascia;
Ao Deus-Menino,
Que, entalado nas vozes, lhes sorria!

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (22) - A manjedoura e outras impertinências à volta de Jesus

A manjedoura, os pastores, os magos e os anjos. Elementos constitutivos do presépio, eles são sinais de uma vida que se iria revelar impertinente. As companhias de Jesus à refeição antecipam a forma como ele vai morrer e Deus torna-se visível.


(Ilustração: Giotto, Natividade)

“Um recém-nascido na palha de um estábulo (…) a própria criança um deus encarnado no mais fundo da pobre humanidade. (…) No Sinai, Iavé oculta-se aos olhos de Moisés numa nuvem. Agora esta nuvem dissipou-se e Deus encarnado num recém-nascido tornou-se visível.” (Michel Tournier, Gaspar, Belchior & Baltasar, ed. D. Quixote)


A refeição pode ser impertinente? Jesus morreu pela forma como comia, muitas vezes à mesma mesa dos que eram considerados pecadores, diz o biblista José Tolentino Mendonça. E o relato do seu nascimento, na versão de Lucas (2, 7), prenuncia já essa morte: “Completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura.”

A manjedoura era o lugar da comida dos animais e a referência ao comedouro inaugura “o campo semântico da refeição” no texto de Lucas. A maior parte do evangelho lucano, concretiza Tolentino Mendonça, decorre num contexto de refeição, que se torna uma “fonte de impertinência e de grande dramatismo” na vida de Jesus.

No relato do nascimento de Jesus, Lucas toma esse tom “quase bucólico do presépio – a presença do boi e do jumento, a manjedoura – como símbolo de uma certa aspereza”. A cena – a teologia de Lucas é essencialmente “visual e narrativa, não é conceptual” – não pretende dizer se Jesus foi ou não deitado numa manjedoura, mas tenta, antes, explicar o símbolo: “A reconciliação universal, o despojamento do próprio Deus.”

Lucas toma da referência a Salomão no livro da Sabedoria (7, 1-6) a forma cuidada – e humana – como o bebé nasce e é tratado: “Também eu sou um homem mortal como todos os homens,/ descendente do primeiro que foi formado da terra,/ e no ventre de uma mãe fui feito carne./
Durante dez meses fui ganhando corpo no sangue,/ a partir do sémen do homem e do prazer conjugal./ Também eu, ao nascer, respirei o ar comum/ e, como todos, caí sobre uma terra de sofrimento/ e, como todos, a primeira coisa que fiz foi chorar./ Criaram-me com mimos entre cueiros./ Nenhum rei começou de outro modo a sua existência,/ pois, para todos, é igual o começo e o fim da vida.” Salomão, como Jesus, como qualquer outra pessoa, nasceram para a vida com o primeiro choro.

Um outro paralelo com o Antigo Testamento é o texto do profeta Isaías (1, 3): “O boi conhece o seu dono, e o jumento, o estábulo do seu senhor.” A construção do presépio é quase “um libelo de acusação”, diz Tolentino Mendonça. Com a pergunta: “Seremos capazes de reconhecer Deus no estábulo?”

Se a manjedoura é símbolo de impertinência, os pastores não o são menos. No tempo em que Jesus nasce, eles eram socialmente proscritos, “por viverem à margem da prática religiosa” e por “trabalharem com animais impuros”, explica-se na Nova Bíblia dos Capuchinhos (ed. Difusora Bíblica). Por isso Lucas coloca os pastores, na sua narrativa, como primeiros destinatários da notícia do nascimento de Jesus.

Anunciadores do acontecimento, os anjos são mensageiros, sim, mas também uma forma de contornar a absoluta transcendência de Deus, própria do judaísmo. E os magos, ainda, símbolos de que a salvação vem para todos. E para cada um, como expressa a oração de Gaspar (Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos Exemplares):

“Senhor, como estás longe e oculto e presente! Oiço apenas o ressoar do teu silêncio que avança para mim e a minha vida apenas toca a franja límpida da tua ausência. Fito em meu redor a solenidade das coisas como quem tenta decifrar uma escrita difícil. Mas és tu que me lês e me conheces. Faz que nada do meu ser se esconda. Chama à tua claridade a totalidade do meu ser para que o meu pensamento se torne transparente e possa escutar a palavra que desde sempre me dizes.”


Poema - Natal de 1972, de Jorge de Sena

Neste comércio festivo que há dois mil anos quase
perdura mal cobrindo remendadamente
o solstício do Inverno e os deuses sempre vivos
de cuja falsa morte o mundo paga em crimes,
como em vileza humana, o medo que escolheu
quando ao claror da aurora rósea e livre
de viver como os deuses e com eles
preferiu a lei e a ordem projectadas
na sombra em sombras da caverna obscura
e desejou o mal em preço de ser-se homem —
tudo o que em milhares de anos é tribal
congrega-se feliz num doce rebolar-se
da traição de que fomos contra a vida.
Tão vil que levou séculos a inventar
um deus assassinado para desculpá-la,
e fez dele o comércio das famílias
que cortam no peru as raivas de existirem,
beijando-se visguentas, comovidas,
tal como têm babado os pés dos deuses,
ah não eles mesmos mas imagens vãs
que não resplendam da grandeza humana.
Alguma vez teremos o dinheiro
para comprar de novo o Paraíso,
em vez de prendas para o sapatinho?
O Paraíso aqui — aquele que venderam
no começar do mundo. E que nos trocam
por outros no futuro ou nos aléns,
agora, aqui, aberto a todos, claro
— um sol sem fim nos bosques ou nas praias,
uma nudez sem morte nos corpos sem alma.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (21) - Stille Nacht e outras extraordinárias histórias de Natal

A mais mágica canção de Natal – Noite Feliz, na versão portuguesa – nasceu numa pequena aldeia austríaca. E ela própria, como convém à época, está já também envolta em lendas e histórias maravilhosas. As artes, a música e a literatura sempre rimaram com Natal. Mostram desde sempre, na expressão de Sophia, “a substância imortal da alegria”.


(Ilustração de Júlio Resende em A Noite de Natal, de Sophia de Mello Breyner Andresen, ed. Figueirinhas)


“Parece um amigo. É exactamente igual a um amigo.” (Sophia de Mello Breyner Andresen, Noite de Natal)

Sol – Lá – Sol – Mi. A 24 de Dezembro de 1818, quando o professor de música Franz Gruber pegou na guitarra, as quatro primeiras notas saíram para musicar as palavras que o seu amigo, o jovem pastor Joseph Mohr, acabara de lhe trazer: Stille Nacht. Noite silenciosa, noite tranquila. Heil'ge Nacht! Noite santificada. Ambos estavam longe de imaginar que aqueles primeiros acordes e palavras dariam a volta ao mundo, tornando-se na mais conhecida e mágica melodia de Natal.

A criação de Stille Nacht é, ela própria, uma história já envolta em lenda. Há relatos de que o órgão da igreja de Oberndorf, na Áustria, teria avariado, com os foles roídos por ratos. Outras versões garantem que Mohr gostava de guitarra ou que a canção foi composta e depois esquecida por ambos os autores – o que é desmentido pelos factos: há manuscritos de ambos que comprovam que Stille Nacht foi cantada entre 1820 e 1855. As lendas chegaram ao ponto de atribuir a sua autoria a Beethoven ou Mozart.

Nessa noite de Natal, na pequena igreja de São Nicolau, o coro da igreja e a população de Oberndorf cantaram pela primeira vez a melodia composta horas antes, mas cujo poema Mohr escrevera em 1816. Em cada estrofe, o coro repetia, a quatro vozes, o último verso. Hoje, o coro e as estrofes repetem-se em pelo menos 300 línguas e dialectos diferentes.

Tanto quanto se sabe, isso deve-se também a Karl Mauracher, um reparador de órgãos que por várias vezes foi a Oberndorf, aproveitando para copiar Stille Nacht. Mais tarde, as famílias Strasser e Rainer, de cantores ambulantes, começaram a cantar a melodia – em Dezembro de 1832 já há notícia de ela ter sido executada num concerto em Leipzig, na Alemanha. Missionários católicos e protestantes acabaram a levá-la para as Américas, África, Ásia e Oceânia.

Natal rima, desde há muito, com histórias mil, contadas através da pintura, escultura, música ou contos. Sophia de Mello Breyner juntou à literatura a música das suas palavras: Em Baltazar, nos Contos Exemplares, escreve: “A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a Oriente. O seu movimento era quase imperceptível. Parecia estar muito perto da terra. Deslizava em silêncio, sem que uma folha se agitasse. Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria.”

A mesma alegria de Joana, em A Noite de Natal, quando descobre um amigo – Manuel – que é, afinal, aquele que os três reis magos vão adorar: “Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana viu um casebre sem porta. Mas não viu escuridão, nem sombra, nem tristeza. Pois o casebre estava cheio de claridade, porque o brilho dos anjos o iluminava.”

O Natal é, sempre, o tempo das canções. Como no Cântico dos Cânticos (2, 10-14): “Fala o meu amado e diz-me: Levanta-te! Anda, vem daí, ó minha bela amada! Eis que o Inverno já passou, a chuva parou e foi-se embora; despontam as flores na terra, chegou o tempo das canções, e a voz da rola já se ouve na nossa terra; a figueira faz brotar os seus figos e as vinhas floridas exalam perfume. Levanta-te! Anda, vem daí, ó minha bela amada! Minha pomba, nas fendas do rochedo, no escondido dos penhascos, deixa-me ver o teu rosto, deixa-me ouvir a tua voz. Pois a tua voz é doce e o teu rosto encantador.”


Uma melodia entre milhares
Stille Nacht é apenas uma das milhares de melodias que cantam o Natal. Tema musical por excelência, o Natal inspirou autores antigos e contemporâneos, populares e eruditos. No canto gregoriano, o Natal foi festejado com temas do Gloria ou com o Puer natus est nobis (Uma criança nasceu para nós). O Gloria, de Vivaldi, as Oratórias e as Cantatas de Bach, o Hodie Christus Natus Est (Cristo hoje nasceu) de Schutz, O Magnum Mysterium (Ó grande mistério) de Gabrielli, as Vésperas da Bem-Aventurada Virgem, de Monteverdi, são apenas alguns exemplos de como a grande música foi celebrando o Natal. A nível popular, e para só falar em Portugal, podem citar-se, entre muitas outras músicas, José embala o Menino, o Natal de Elvas, Ah! Vinde Todos. Em O Menino, de Pias, canta-se: “Pobre em Belém, sorrindo na dor,/ Quem tudo sustém, do mundo Senhor.”


Poema - Natal, de Álvaro Feijó

Nasceu.
Foi numa cama de folhelho,
entre lençóis de estopa suja,
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.
E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo,
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos Reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroa de espinhos
mas coroa de baionetas,
postas até ao fundo
do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

Caendário de Advento (20) - Os mitos de um maravilhoso nascimento

Jesus não nasceu a 25 de Dezembro, não foi dado à luz numa gruta, não havia burro ou vaca a assistir, os magos não eram reis nem eram três, não houve pastores a adorá-lo, não fugiu para o Egipto. As histórias de Natal estão cheias de pormenores que têm apenas uma intencionalidade teológica. Apenas? Não fossem essas histórias e onde estaria a dimensão do maravilhoso no Natal?

(Ilustração: Giotto, Fuga para o Egipto, na Capela Scrovegni)

“No cristianismo, o ponto de partida está na encarnação do Verbo. Aqui, não é apenas o homem a procurar Deus, mas é Deus que vem em pessoa falar de si ao homem e mostrar-lhe o caminho por onde é possível atingi-lo.”
(João Paulo II, Carta apostólica Tertio Millenio Adveniente, sobre o início do terceiro milénio)

Nenhuma das histórias é verdade? “A vinda dos magos do oriente, a acção da estrela, a conversa dos magos com Herodes, que ‘pôs em alvoroço a cidade de Jerusalém’, a adoração dos magos, o prazo de dois anos entre a vinda dos magos e a matança dos inocentes, a ida de Jesus, Maria e José para o exílio no Egipto, onde permanecem dois anos, é uma narrativa midráchica, artificial.”

O padre Joaquim Carreira das Neves, biblista, sintetizava deste modo, a 6 de Outubro de 2005, na sua última lição pública, o modo como a exegese bíblica contemporânea olha para as narrativas da infância de Jesus contidas nos evangelhos. Midráchica designa uma narrativa maravilhosa para referir um facto de fé.

Nessa intervenção, entretanto publicada na revista Didaskalia, da Universidade Católica, Carreira das Neves acrescentava: “É anti-racional que Herodes tenha mandado matar as crianças de Belém e arredores, precisamente dois anos depois do aparecimento dos magos. A ser verdade, e não obstante os crimes do rei, Flávio Josefo [historiador do século I, autor de “Antiguidades Judaicas”] não deixaria de apresentar este crime como o maior de todos os crimes.”

Não há que enganar: as narrativas da infância de Jesus – apenas contidas nos evangelhos de Mateus e Lucas, e mesmo assim com elementos contraditórios entre ambas – servem propósitos bem determinados: pretendem ser “uma teologia ou catequese em que cada evangelista escolhe a melhor pedagogia e linguagem para o anúncio do mesmo salvador a destinatários diferentes”, escreve frei Lopes Morgado (Entrai, Pastores, Entrai, catálogo da exposição de presépios de Dezembro de 2002, em Évora). Ou, na expressão de Carreira das Neves (Jesus Cristo – História e Mistério, ed. Franciscana), esses relatos – que datam dos anos 75 a 85 – pretendem informar não sobre a história do nascimento e da infância de Jesus, mas “sobre a modalidade do ser dessa criança”.

Porque surgiram então, tais relatos? Muitos dos mitos ligados ao Natal devem-se às histórias dos evangelhos apócrifos (reunidos na Biblioteca de Nag Hammadi, editada em Portugal em 2005 pela Ésquilo). Esses textos, dos séculos III e IV, que ajudam a entender o gnosticismo cristão daquela época, retratam um Jesus que faz milagres desde bebé, que se zanga facilmente ou, pelo contrário, é capaz de ajudar intensa e miraculosamente – fazendo brotar água, por exemplo.
Uma espécie de um ser humano que se quer mais divino que o divino.

Os dois evangelistas da infância – Mateus e Lucas – traduzem a mentalidade cristã do final do primeiro século, como explica ainda Charles Perrot (Narrativas da Infância de Jesus, ed. Difusora Bíblica). Mas o seu maravilhoso, escreve France Queré (Os Evangelhos Apócrifos, ed. Estampa), tem a intenção de mostrar que o nascimento de Jesus dá “um corpo sensível à devoção, começa-se a amar a Deus como a uma pessoa”. O cristianismo insere-se na história, porque Deus se tornou humano. E Jesus, o Deus que se torna homem, é o libertador para os tempos novos, um novo Moisés.


Três mitos sobre o Natal
1) O Natal é festejado a 25 de Dezembro porque era nessa ocasião que, em Roma, se festejava o dies natalis, o nascimento do Sol depois do solstício de Inverno. A adopção desse dia foi uma tentativa de cristianizar a festa pagã e no século IV já a festa era assinalada. Os dados indicados por Lucas no seu evangelho, apresentados como históricos, só aumentam a confusão em relação à data e ao ano do nascimento de Jesus, diz Charles Perrot (Jesus e a História, ed. Perpétuo Socorro).
2) José e Maria não foram escorraçados das hospedarias. Uma tradução errada, explica Ariel Alvarez Valdés (revista Bíblica, Novembro 2004), tem confundido palavras e lançado o erro. O relato bíblico diz que Maria e José estavam em Belém quando se “completaram os dias de ela dar à luz”. Não refere que andaram a correr procurando hospedagem com a gravidez a terminar.
3) A fuga para o Egipto, contada apenas no evangelho de Mateus, quer justificar a profecia do livro de Oseias: “Quando Israel era ainda menino, eu amei-o e chamei do Egipto o meu filho.” Dirigido essencialmente aos judeus, o evangelho de Mateus quer dizer que Jesus é o messias que estes esperavam.


Poema – A adoração dos pastores, de Nuno de Sampayo

Viemos de longe, em oração, viemos de longe
Saudar o Teu amanhecer, ó Cheio de Destino!
Trazemos-Te a terra, a grande terra, a terra simples
Onde Orion volta com o solstício de Verão
E as gazelas vagueiam nas clareiras chuvosas.
Só isto Te trazemos, porque só isto é nosso,
Mas isto é belo e doce como as donzelas e os rebanhos.
Tudo se extingue, ó Madrugada!, tudo se extingue
Na nossa cidade quando a visitas suavemente.
Por que é que a Tua grandeza nos penetra
Tão profundamente que nem nos reconhecemos?
Por que é que nos dás um pouco do Teu mundo
E nos fazes perder um grande país orvalhado?
Ah! este burgo solitário não é o nosso burgo
E esta noite branca não é a nossa noite!
Talvez existissem no mais profundo do nosso ser,
Mas são-nos estranhos e às vezes tão penosos!
Só Te compreendemos assim claro como os lagos
Onde nos reflectimos como carvalhos verdes
E vemos a catedral desabrochar como uma rosa,
Enquanto Orion vem magnífico e sumptuoso
Coroar a noite com os seus florões de ouro.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

sábado, 19 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (19) - Teofania no Natal ortodoxo


No calendário ortodoxo, hoje é dia 6 de Dezembro, data para festejar de novo S. Nicolau. Tudo por causa de uma diferença de calendário estabelecida há pouco mais de 400 anos. Para os cristãos ortodoxos, o Natal é uma festa menos importante que a Páscoa, mas nem por isso ela deixa de ser festejada como manifestação de Deus.

(Ilustração: Natividade, ícone da escola de Pskov, séc. XVI )


“Não imagino Deus dividido entre o céu e a terra, mas como uma presença que mora em todas as direcções, no infinito.” (Aleksej Remizov, Prado Espiritual)
Para os ortodoxos, o Natal não é uma festa com a importância que ganhou no mundo católico. A Páscoa tem, entre os cristãos da ortodoxia, a primazia. Depois desta, aparece a Teofania, ou manifestação de Deus. Há notícias de que esta era teria tido origem em Roma, celebrando diversos acontecimentos relatados nos evangelhos: a adoração dos magos, o baptismo de Jesus por João Baptista e as bodas de Caná, onde Cristo teria realizado o que seria considerado o seu primeiro milagre (nos textos bíblicos, o significado da palavra remete para a noção de sinal da sua divindade).

Em 380, já há referências de que as festas da Teofania teriam chegado a Constantinopla, por acção de S. Gregório o Teólogo. Agora, o Advento é, no mundo ortodoxo, um tempo de purificação, um pouco à semelhança da Quaresma, o período de 40 dias que antecede a Páscoa. Por isso, as quatro semanas que antecedem o Natal são também um tempo de jejum à carne e ao peixe. A festa do nascimento de Jesus é encarada principalmente como uma antecipação da Páscoa.

Hoje, no entanto, dia de S. Nicolau no calendário juliano (ainda usado na Europa Oriental, sobretudo pela Igreja Ortodoxa), haverá como que uma pequena pausa no jejum. Os crentes podem beber vinho e comer aves, e fazem uma refeição comunitária mais festiva.

Em Portugal, a festa é assinalada por muitos ortodoxos – sobretudo os mais de 70 mil ucranianos, russos, arménios, georgianos, arménios, romenos, búlgaros e de outras nacionalidades, que imigraram dos países do Leste europeu. Em regiões como Lisboa, Porto, Aveiro, Portimão, juntam-se comunidades de cristãos ortodoxos a festejar S. Nicolau, uma das figuras importantes do seu calendário, cuja história foi aqui contada no passado dia 6.

Mas porquê tal diferença? Foi o Papa Gregório XIII que, em Outubro de 1582, decidiu acertar o passo dos dias com o sol: a contagem do tempo do calendário juliano [designação tomada do imperador romano Júlio César] deixava de fora alguns segundos por ano. A soma desses segundos totalizava então, em relação à rotação do sol, dias completos. Com a ajuda dos estudos de um astrónomo jesuíta, Gregório XIII decidiu anular 14 dias perdidos, saltando-os no calendário.

No Natal, que os ortodoxos festejam daqui a quase três semanas, a liturgia será solene, mas a festa não assume a proporção que adquiriu no Ocidente. Uma das orações da Igreja Ortodoxa para este dia diz: “A Virgem hoje dá à luz Aquele que está acima de toda a essência e a terra oferece uma gruta Àquele que é inacessível. Os anjos e os pastores glorificam-no. Os magos caminham seguindo a estrela. Por nós nasceu o Menino Deus que existe antes de todos os séculos.”

O Natal traduz, assim, o amor que Deus Pai tem pela humanidade e se manifesta através de Jesus, por meio do Espírito Santo. Depois do Natal, a Teofania ou Epifania serão as grandes festas litúrgicas para os ortodoxos, assinalando a manifestação de Jesus aos magos – que simbolizam toda a humanidade.

No seu Prado Espiritual (designação da literatura ascética para uma colecção de ditos e narrações edificantes), Aleksej Remizov (1877-1957) escreve: “Os que dormiam despertaram do sonho e a luz encheu as suas almas./ Aguardavam algo, esperavam./ Acreditavam e não ousavam crer./ Mas o coração cantava./ O espírito fervia./ Reuniam-se nas praças e olhavam para o longínquo…/ E os olhos voltavam a colher vida, voltavam a florescer como flores regadas.”


Quadros da vida de Maria em paralelo com os de Jesus
Mais do que na tradição católica, os ortodoxos recuam até à Natividade de Nossa Senhora na memória aos episódios relacionados com a vida de Jesus. Essa referência não tem fundamento bíblico, mas é da ordem da tradição e da devoção à Theotokos, ou Mãe de Deus, da qual a arte dos ícones acabou também por se aproximar. Tal é o caso do ícone da Natividade da Mãe de Deus (séc. XVII, Museu Andrei Rubliov, Moscovo), que tenta reconstruir vários episódios da vida de Maria de Nazaré. O ícone apresenta outras cenas, como Ana a receber oferendas, Maria a ser embalada ou a ser apresentada no Templo de Jerusalém, como era costume entre os judeus. O paralelismo com as narrativas da infância de Jesus é evidente. Aqui, as cenas pretendem induzir também nos fiéis a ideia de que Maria foi educada num ambiente de religiosidade. Como que uma preparação remota para o grande acontecimento que a esperava.


Poema - Natal, de Rui Cinatti

Inverno lactescente, adormecido
Querer, noite encantada.
Já não sinto, porém, aquele amor,
Nem a vida sonhada.

Tudo se foi, pouco nos resta,
Ilhas não há. Montanhas só no espírito
Se elevam, distantes e coroadas
Pela solidão.

No muro da minha alma há uma fresta.
Por ela entra o vento e a multidão
Das vozes e dos signos.

Quando a certeza chega, o coração
Lança de si os trajes mais indignos
E entra, sorrindo, na festa.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público
)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (18) - Consoada e outras festas gastronómicas


A refeição da Consoada transformou-se, com o correr dos tempos, numa grande festa da família. No início, a Igreja Católica marcou a época com um carácter particular, com dias de jejum no Advento e a consequente proibição da ingestão de comidas “quentes”, como as carnes. Daí o bacalhau e o polvo, na Consoada das famílias do Norte, Interior e Centro, e, agora, também o bacalhau, no Sul. O Natal é vasto também em tradições gastronómicas.


Texto de David Lopes Ramos no Público de 18/12/2005
Ilustração: A fritura do peixe, in "O Presépio da Madre de Deus", ed. IPM, foto José Pessoa


“Fazem-se festins para haver alegria; o vinho alegra a vida.”
(Eclesiastes 10, 11)


No princípio, eram as festas do solstício de Inverno. A vitória da luz do sol sobre a maior noite do ano. As trevas dominavam tudo, estava-se a séculos da invenção da luz eléctrica, só a lua cheia era agente de claridade nas noites escuras e sem nuvens. Reminiscência desses tempos são, sobretudo nas terras do interior português, a queima dos cepos de árvores adultas, que os jovens vão buscar aos campos, em acções que conservam ainda o carácter de rituais de iniciação.

Nas regiões de Trás-os-Montes e da Beira Interior é onde as fogueiras, activadas nos largos principais das povoações na noite de 24 de Dezembro, perto das igrejas onde estão armados os presépios, durante mais tempo se mantêm acesas. A reunião da família à volta da lareira sai para a rua e alarga-se a toda a comunidade. Em algumas terras até 6 de Janeiro, Dia de Reis.

Já estamos a falar das mudanças que o cristianismo introduziu nos festejos do solstício de Inverno, transformando-os de celebrações da Natureza em actos de grande partilha humana em que as artes da mesa desempenham um papel de grande destaque. A refeição da noite da Consoada transformou-se, com o correr dos tempos, numa grande festa da família.

É interessante assinalar que a Igreja Católica a marcou com um carácter particular, ao incluí-la nos dias de jejum do Advento, com a consequente proibição da ingestão de comidas “quentes”, como as carnes, sendo apenas autorizadas as “frias”, ou seja, os peixes. Daí o bacalhau e o polvo, na Consoada das famílias do Norte, Interior e Centro, o cação, a pescada e, agora, também o bacalhau, no Sul e em particular no Alentejo, onde a carne de porco domina, mas só no banquete que se segue à Missa do Galo, havendo no entanto quem prefira o peru.

Em terras do Norte, após a refeição de bacalhau, polvo, ovos, couve galega, grelos, batatas, cebolas, tudo cozido e temperado com azeite, segue-se a Missa do Galo. Só depois dela, em que se assinala o nascimento de Jesus Cristo, se festeja com os doces – mexidos ou formigos, rabanadas ou fatias de paridas, arroz doce, aletria, pão-de-ló, bolinhos de jerimu, bilharacos... – e o vinho quente, isto Entre Douro e Minho, ou os melhores vinhos finos da região duriense.

Nessa noite, fica a mesa posta. É que, mesmo os que já partiram, não desdenham sentar-se à mesa da Consoada. No dia seguinte, sobretudo em terras do Minho, o primeiro prato da refeição festiva do Dia de Natal é a “roupa velha”, confeccionada com as sobras da Consoada. Depois, conforme as regiões e as tradições de cada família, há o galo mais galaroz da capoeira, o cabrito, lombos de porco, borrego, leitão, pato, ganso, peru – em geral, assados no forno. Para que todos fiquem felizes por comer carne.

As tradições de que aqui se fala são as nossas, portuguesas, visivelmente ainda muito marcadas pela ruralidade. No vasto mundo cristão, cada país tem os seus usos. E, nas cidades, também nas nossas, há outras tradições. Que cada um faça como lhe aprouver e como puder. A festa é sempre um bom momento nas vidas das gentes.


Cantos ao Menino nas "palhas deitado"
O Alentejo, por razões históricas a mais descristianizada das regiões portuguesas, é, no entanto, aquela em que a religiosidade se manifesta de forma mais elevada. Na época de Natal, o canto ao Deus menino nas “palhas deitado” anima terras alentejanas, havendo ainda casos de “presépios vivos” e a representação de autos de Natal. O madeiro é aceso nas lareiras de todos os montes e, em muitas terras, esta manifestação transfere-se para os largos. É o caso de Barrancos, a vila de fronteira com hábitos muito semelhantes aos dos seus vizinhos andaluzes, que tem um linguajar próprio e tradições únicas. Nos dias que antecedem as Festas, os rapazes vão aos campos arranjar lenha para fazer o fogo no largo da vila. Amontoam-se toneladas de raízes e troncos de árvore e, na noite da Consoada, acende-se o lume. Ritmado pelo som cavo da zabomba – um cântaro de barro com a boca tapada por pele de borrego ou cabra ou de bexiga de porco, atravessada por uma cana –, canta-se ao Menino nas “palhas deitado”, conversa-se, petisca-se, prova-se o vinho novo. A porta da igreja fica aberta, para que o lume aqueça os pezinhos do Menino-Deus dos cristãos.


Poema - Natal, de Miguel Torga

Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenamente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (17) - Senhora do Ó: A expectação de um Deus maior

Na liturgia católica, começam hoje a rezar-se as “Antífonas do Ó”. Amanhã, a tradição assinala a festa da Expectação de Nossa Senhora, ou da Senhora do Ó. Tudo por causa de uma mulher que celebra a misericórdia de Deus e a opção pelos mais pobres.


(Ilustração: Miniatura do século XV, British Library, reproduzida em "Os Rostos de Maria na Bíblia", de Gianfranco Ravasi, ed. Paulus)


“Ó rebento da raiz de Jessé, sinal erguido diante dos povos: vinde libertar-nos, não tardeis mais.”
(Antífona de dia 19, da Liturgia das Horas)


Iniciam-se hoje, na liturgia católica, as “antífonas do Ó”. São pequenas orações que, nos nove dias até ao Natal, invocam Jesus Cristo como sabedoria de Deus, redentor, libertador e salvador da humanidade. As antífonas adensam, aumentam, a expectativa de um Deus que vai nascer. E celebram-no através de metáforas: “Ó sabedoria do altíssimo”, “Ó chefe da casa de Israel”, “Ó chave da casa de David”, “Ó sol nascente e sol da justiça.”

Cada metáfora regista um dos tons do Advento: a expectativa, a esperança, a alegria, a salvação aguardada. Dimensões que marcaram a história judaica (narrada no Antigo Testamento) e que marcam o cristianismo a partir do nascimento de Jesus.

Cristo é, para os cristãos, Deus que se faz homem e a celebração desse mistério – a encarnação divina sob forma humana – é preparada durante o tempo de Advento. “A Bíblia está repassada por um movimento de esperança, no sentido único dum Messias-Salvador, que veio na pessoa de Jesus de Nazaré, chamado o Cristo”, escreve frei Lopes Morgado, franciscano capuchinho (Roteiro de Natal, ed. Difusora Bíblica).

A expectativa é celebrada também sob forma física: tradicionalmente, o dia de amanhã marca, no calendário litúrgico católico, a Expectação de Nossa Senhora. Festa de origem espanhola, ela foi inspirada precisamente nas “Antífonas do Ó”, o que deu origem à designação popular da Senhora do Ó – que passou também a referir-se à gravidez de Maria de Nazaré.

Foi no século VI, no décimo concílio de Toledo, que se começou a falar desta festa, rapidamente alargada para regiões além-Pirenéus. A gravidez, tempo de esperanças, é também uma marca do Advento.

É na boca dessa Maria, já de esperanças, que o evangelista Lucas coloca um dos mais belos hinos dos textos dos evangelhos, o Magnificat. Maria sabe que sua prima Isabel também engravidara, para ser mãe de João Baptista e vai ter com ela.

Respondendo à saudação de Isabel, Maria adapta outros textos bíblicos do Antigo Testamento, recorda os mais importantes factos da história judaica e faz “também uma meditação lírica” sobre aquilo que lhe acaba de acontecer, escreve Jean-Paul Michaud (Maria nos Evangelhos, ed. Difusora Bíblica).

Surge o Magnificat, hino que celebra a misericórdia de Deus e a opção divina em favor dos mais pobres: “A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porque pôs os olhos na humildade da sua serva. De hoje em diante, me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-poderoso fez em mim maravilhas. Santo é o seu nome. A sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel, seu servo, lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.” (Evangelho de Lucas 1, 46-56)


Alegra-te, Maria!
Avé-Maria ou Alegra-te Maria? A oração tradicional dedicada à figura da mãe de Jesus começa pela invocação Avé, da saudação em latim. Mas há quem discuta e diga que a expressão certa deveria ser “alegra-te”. Era o que propunha S. Lyonnet, já em 1939, como recorda Jean-Paul Michaud (Maria nos Evangelhos, ed. Difusora Bíblica). “Ausência de medo, alegria”, presença de Deus junto do seu povo, “tais são os temas essenciais” de vários textos bíblicos onde a expressão “chaire” hebraica aparece. A usar-se a alternativa “alegra-te” poderia conservar-se “o colorido judaico da narrativa” e, ao mesmo tempo, dar-lhe “a acentuação da alegria messiânica” que caracteriza os textos do Evangelho de Lucas com as narrativas do nascimento de Jesus. Apesar de haver quem defenda esta tese, há muitos outros exegetas a defender o “avé” tradicional.


Poema - Noite de Natal, de Pedro Homem de Mello

Como esse mar onde mal chega o rio,
Como esse pio onde mal sopra o vento,
Aqui me tens, negando o lume e o frio,
cego e surdo ao próprio pensamento.

Como esse mar onde mal chega o rio,
Como esse poço onde mal sopra o vento.

Não haveria quem sonhe à minha beira
E, ao menos, longe em longe me sorria?

Às vezes cuido que no terra inteira,
Já ninguém sente regressar o dia.

Não haveria quem sonhe à minha beira
E, ao menos, longe em longe me sorria?

Areia. Pó. Um charco e uma parede,
Tudo confundo: a sombra, o medo, a luz.

Nem lágrimas. Porquê? Morro de sede.
É esta a noite,
— E vai nascer Jesus

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (16) - Isaías, profeta para tempos de crise

“Obra magna” entre os textos bíblicos, uma das grandes obras da literatura universal. O livro de Isaías conta a história do profeta com o mesmo nome que viveu no século VIII a.C. e que confronta reis e poderosos com a crise e a injustiça do tempo.

[Ilustração: Isaías de Miguel Ângelo, abóbada da Capela Sistina (Vaticano)]

Vou criar um novo céu e uma nova terra; (…) Alegrem-se e rejubilem para sempre por aquilo que vou criar. Olhai, vou criar uma Jerusalém cheia de alegria. (…) Construirão casas e habitarão nelas, plantarão vinhas e comerão o seu fruto.
(Isaías 65, 17-18; 21)


É três em um: “A amplitude, beleza literária e conteúdo teológico convertem o livro de Isaías numa obra magna do Antigo Testamento”, escreve o biblista catalão Francesc Ramis Darder (revista Vida Nueva, 8-10-2005). E o livro bíblico divide-se em três partes, correspondentes a outros tantos autores, épocas e contextos. A personalidade de Isaías “foi de tal modo forte, que a tradição funde na sua pessoa as três partes do livro que leva o nome de Isaías”, lê-se na introdução ao livro, na edição da Nova Bíblia dos Capuchinhos (ed. Difusora Bíblica).

De estilo “clássico e nobre”, diz o mesmo texto que o Primeiro Isaías “é uma das grandes obras da literatura universal”. E acrescenta: “O autor é um grande poeta que usa a lei das assonâncias e sabe tirar partido dos sinais dos tempos. É um grande teólogo da História, que fala através de símbolos e metáforas com uma carga emotiva e apelativa muito profunda.”

Que profeta é este? No conceito bíblico, profeta é aquele “que anuncia diante doutras pessoas alguma coisa da parte de Deus”, explica o biblista basco Jesus-Maria Arsumendi (Primeiro Isaías, ed. Difusora Bíblica).

O Primeiro Isaías (que abrange até ao capítulo 39 do livro bíblico) nasce à volta do ano 760 a.C. e vive no século VIII a.C., na época de Ozias, Jotam, Acaz e Ezequias, reis de Judá. Deveria ser de família nobre, talvez mesmo próxima dos reis. Homem culto, a sua acção situa-se num tempo de crise e profundas tensões entre reinos vizinhos. Judá está entalado entre o Egipto e a Assíria, ao qual presta vassalagem. O Segundo Isaías é do tempo do exílio na Babilónia, onde os hebreus mantinham a esperança do regresso. O Terceiro Isaías fala do pecado do povo e de Deus que, apesar disso, não abandona a aliança.

Que profeta é este, afinal? Isaías chama a atenção dos reis e avisa contra perigos de decisões injustas: “Ai dos que decretam leis injustas e dos que redigem prescrições opressoras, dos que afastam os pobres do tribunal, e zombam dos direitos dos fracos do meu povo, fazendo das viúvas a sua presa e roubando os bens dos órfãos!” (10, 1-2)

Isaías é, também, o profeta que recorda que o povo se aproxima de Deus “só com palavras” e que o honra “só com os lábios”, pois o culto que presta “é apenas preceito humano e rotineiro”. A mensagem de Isaías é ainda apropriada pelos cristãos, de modo especial no tempo de Advento, como antecipação do nascimento de Jesus Cristo, como o libertador das injustiças contra as quais o profeta se manifesta.

No capítulo 11, anuncia-se esse “reino messiânico” de paz e justiça: “Então o lobo habitará com o cordeiro,/ e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito;/ o novilho e o leão comerão juntos,/ e um menino os conduzirá. (…) Não haverá dano nem destruição em todo o meu santo monte.”


O Segundo Isaías
O chamado Segundo Isaías (os capítulos 40 a 55) terá sido escrito por volta do ano 540 a.C., por um autor que viveu o exílio dos judeus na Babilónia. Ou seja, foi escrito dois séculos depois da primeira parte. Mas insere-se nos objectivos do livro bíblico: a de narrar as infidelidades do povo judeu à aliança com Deus, a sua posterior conversão durante e após o exílio, acabando a manifestar perante todos os povos a glória divina, como explica Francesc Ramis Darder (Vida Nueva, 19-11-2005). Incluem-se nestes capítulos alguns dos mais belos textos, em poesia, do livro de Isaías, como os “cânticos do servo”. Um deles é o do capítulo 42: “Eis o meu servo, que Eu amparo,/ o meu eleito, que Eu preferi./ Fiz repousar sobre ele o meu espírito,/ para que leve às nações a verdadeira justiça. (…) Eu, o Senhor, chamei-te por causa da justiça,/ segurei-te pela mão;/ formei-te e designei-te como aliança de um povo/ e luz das nações;/ para abrires os olhos aos cegos,/ para tirares do cárcere os prisioneiros,/ e da prisão, os que vivem nas trevas.


Poema - Loa, de Vitorino Nemésio

Meu Menino Jesus dos triguinhos no prato,
Não enxugues a tua lágrima de vidro,
Não apagues a tua estrela de prata suspensa no quarto ainda morno,

Não deixes envelhecer os velhos tios de retábulo
Ajoelhados em torno:
Deixa estar as palhinhas urinadas no estábulo,
Que a chuva cheira bem e o pão tufa no forno.
Doira, Menino Jesus, aquele milho amarelo
Que o Joaquim Pacheco secou na escuridão do seu muro,
E manda um navio de nevoeiro
Ao poeta que embarcou à noite no Funchal
Deixando o lenço de sua Mãe molhado no último adeus.
Anda, Menino Jesus, e não me queiras mal
Se eu te disser que assim é que te sinto Deus.
Manda o navio de nevoeiro
Pela primeira vaga que vires redonda e rebentada:
Tua mão outra vez a atira contra a noite,
Como se não tivesse batido nessa grande praia parada.
E deixa as minhas faltas à missa,
Esquece os pontos fracos da minha velha teologia,
E o orgulho, a razão, o materialismo passageiro...
Mandes tu pelo mar o navio de nevoeiro!

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (15) - A Lapinha na Festa madeirense

Na Madeira celebra-se a Festa, mais do que dizer apenas o Natal., expressão que revela a alma enternecida e reconciliadora do verdadeiro ilhéu. Numa simbiose do sagrado e profano, atenuam-se conflitos, por momentos regressa-se ao arquétipo ideal de uma comunidade pacífica e incorruptível.
(Texto de Tolentino de Nóbrega, no Público de 15/12/2005; Foto: Ricardo Jardim, "Lapinha do Caseiro", ed. Assírio & Alvim)


Na cidade, cosmopolita, são as luzes, as músicas, as lojas convidando à compra de presentes. “Tudo aparência, visões especiosas para os olhos ingénuos da gente nova, mas não de toda”, como conta o escritor madeirense Horácio Bento de Gouveia (1901-1983). “No campo, nas freguesias rurais, donde não se vê a cidade, porque a montanha a encobre com seus refolhos, pelas azinhagas, no adro da igreja, à porta dos casais não se ouve falar do Natal e sim da Festa, a Festa do Menino Jesus”.

Na cidade “compra-se pinheiros, verduras para embrincar os presépios. Na aldeia vai-se às abas da serra buscar o alegra-campo e galhos de loiro, e das paredes rústicas trazem-se os fetos-cabrinhas para alindar a escadinha dos pastores e do menino”. E na Festa há festa de igreja com três padres e cantores de fora, pifes, gaitas, manchetes e estoirar de bombas que anunciam as Missas do Parto, as novenas de Natal que começam a ser celebradas a partir de amanhã, de madrugada com muita afluência de fiéis.

Entre as muitas tradições do meio rural ou urbano é costume comum, perdido nos primórdios da colonização e depois acaloradamente mantido pelo espírito franciscano, fazer-se o presépio, armar-se a lapinha. É esta última designação, como descreve José de Sainz-Trueva em Presépios de Meninos Jesus de Ontem e de Hoje (DRAC, Funchal, 1987), usada na ilha para identificar o conjunto de figuras denominadas no continente português genericamente de presépio. Contudo, ao procurar-se estabelecer uma tipologia local dessa manifestação, o termo desdobra-se numa dupla significação, traduzindo-se em resultados formais diferentes.

As lapinhas madeirenses fundamentalmente podem classificar-se em "escadinhas" e "rochinhas". Estas são ramadas em qualquer dependência da casa, embora nalgumas residências, e pelas suas grandes dimensões, exista o "quarto da lapinha". Tem como estrutura pedaços de madeira e outros objectos que sob o papel pintado ajudam a dar a ideia dos montes e vales, com os típicos sucalcos, nos quais se vêem as casinhas de colmo, as ovelhinhas pastando, grupos folclóricos dançando e bailando, carreiros, borracheiros e vilões na matança do porto ou num arraial com coreto, barracas de espetada e procissão.

As escadinhas, de três ou de mais degraus, tendo no topo a imagem do Menino Jesus ladeada por jarrinhas de oratório e "solitários" com flores de ensaião e de papel, colocam-se sobre uma cómoda ou mesa previamente forradas com colcha adamascada ou toalha de linho com bordado madeira. Nos degraus das escadinhas dispõem-se alternadamente pastores, fruta, pão “merendeiro” ou “brindeiro”", searinhas e passarinhos de confecção artesanal.

Como variantes das lapinhas e rochinhas encontramos alguns registos de natal e presépio de caixa, encerrados em maquinetas envidraçadas, recheados de minuciosos elementos de miolo de pão, barro ou papel provenientes dos extintos conventos do Funchal.

Entre os barristas e presepistas madeirenses, destacou-se Francisco Ferreira (1849-1931), o Caseiro, antigo colono das freiras de Santa Clara e familiar do poeta madeirense Herberto Hélder. De todos, diz Jayme Câmara (De San Loyrenço, Prosa do estio e do Outono, 1932), era a mais conhecida em toda a ilha, “povoada de grupos alegóricos, pastores pacientemente talhados em cedro, numerosas figuras plenas de um acentuado movimento, embora por vezes microcéfalas, e que se nos antolham confinadas nos domínios da teratologia”.


Poema - Toada do Natal, de José Régio

Natal. Eis que anunciando o Cristo que nasceu,
De branco, um Serafim voou do céu,
À fímbria do vestido a poeira dos sóis presa...
Vinte anos faz que o viste a par do Sete-Estrelo.
Cresceste... e nunca mais tornaste a vê-1o!
Pois basta-te querê-lo:
Ergue as mãos juntas,
Reza...

Natal. Eis que inviolada, uma Mulher foi Mãe,
E se venera agora (e para sempre, amém)
A que deu fruto e é pura — ideal pureza...
Não sabes já vencer-te e crer sem compreender?
Esquece o que os manuais dão a aprender:
Mergulha no teu ser,
Como num templo:
Reza...

Natal. Eis que ao luar, os mortos que dormiam
Dos frios leitos lôbregos se erguiam,
E vinham consoar à sua antiga mesa...
Não tens que lhes dizer desde que te hão deixado?
Não sentes os teus mortos a teu lado?
Pois fala-lhes calado,
Para que te ouçam:
Reza...

Natal. Eis que uma paz, que ao certo é doutra vida,
Abranda toda a terra empedernida,
E é cada mesa em festa uma igrejinha acesa...
Abre hoje o coração — portal que se franqueia.
São todos teus irmãos: até os da cadeia,
As que andam na má sina e os que não têm ceia...
Por todos e por ti, Ave, Maria:
Reza...

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (14) - João da Cruz: místico, preso e torturado no convento

É num contexto de tensões religiosas pela reforma da Igreja que aparece um dos grandes místicos da história católica: João da Cruz. O poeta da Noite Escura foi preso, torturado e excomungado. Alguns dos seus poucos poemas estão entre “os mais belos” da língua espanhola.

(Ilustração: Ilda David' "S. João da Cruz - Poesias Completas", ed. Assírio & Alvim)


“Aonde te escondeste,/ Amado, e me deixaste soluçando?/ Como o cervo correste,/ Ferida me deixando;/ Tinhas partido, quando saí clamando.”
(S. João da Cruz, Poesias Completas, trad. José Bento, ed. Assírio & Alvim)


Preso, torturado pelos frades do convento onde chegou a estar detido, mais tarde excomungado, João da Cruz (1542-1591), reformador dos carmelitas, é uma das mais importantes figuras do catolicismo. Mas a sua dimensão de místico e poeta foi calejada no cativeiro de nove meses, no convento carmelita de Toledo.

Juan de Yepes (nome de baptismo) nasce em Fontiveros (próximo de Ávila, Espanha), numa família pobre. Depois da morte do pai, a família vai para Medina del Campo, em 1551. Juan tenta, sucessivamente, aprender ofícios num orfanato e trabalhar num hospital para pobres. Acaba a estudar humanidades, entre 1559 e 1563 no colégio dos Jesuítas.

Em 1564, Juan entra no convento de Medina del Campo dos carmelitas mitigados. A expressão designa os abrandamentos da regra que muitos carmelos tinham adoptado, à mistura com o relaxamento da fé. Títulos académicos vendidos ou oferecidos, tesourarias dos conventos reabastecidas “em parte através da exploração de ‘devoções’ populares próximas da magia” eram, entre outras, razões para que a primitiva regra já não servisse, diz Jean-Pie Lapierre (A Noite Obscura, ed. Estampa).

Frei Juan de San Matias, o nome que adopta na vida religiosa, vai estudar para Salamanca, sendo ordenado três anos depois. É nessa ocasião, com 25 anos, que encontra pela primeira vez madre Teresa de Jesus. A futura santa Teresa d’Ávila, reformadora do carmelo, tinha já mais de 50 anos e Juan confessa-lhe a sua insatisfação com o que vivia no carmelo. O seu objectivo era, então, entrar num convento de monges cartuxos.

O encontro muda, no entanto, o rumo da vida do frade. Teresa de Jesus vivia já com um pequeno grupo de carmelitas “descalças”, designação adoptada pelas reformadoras. Juan decide trabalhar com ela no sentido de renovar a regra carmelita. Abandona o hábito de mitigado e, em Janeiro de 1568, funda os carmelitas descalços, assinando pela primeira vez como João da Cruz.

Os obstáculos, as acusações e os conflitos de que é vítima sucedem-se. O clima adensa-se. Mitigados e descalços são peões de brega da política expansionista de Filipe II. Nove anos depois, a 2 de Dezembro de 1577, frei João é preso em Ávila, por homens armados que o levam, às escondidas, para o carmelo de Toledo.

Ali, recorda Jean-Pie Lapierre, o reformador é colocado num buraco com cerca de três metros de comprimento por dois de largura. Apenas sai para lhe darem uma refeição de pão e água, servida de joelhos, no chão. Come no meio de 80 irmãos – palavra desadequada, como se vê – que, em cada sexta-feira, lhe aplicam a disciplina (instrumento de correias que servia para a autoflagelação).

Deste degredo, do qual quase ninguém sabe o paradeiro, João foge a 15 de Agosto de 1578. Frei João contará que foi Nossa Senhora que a isso o incitou. E, para o fazer, tem a ajuda do novo carcereiro, o irmão João de Santa Maria, que nos últimos três meses, o vinha também fornecendo de papel e tinta.

Na fuga, João da Cruz leva consigo um caderno. Nele escrevera os seus poemas – entre os quais o Cântico espiritual, a Chama de amor viva e Noite escura. E, mesmo se a poesia de frei João não ocupa mais de 40 páginas, o poeta e tradutor José Bento não tem dúvida em colocar aqueles três entre os “mais belos poemas da língua espanhola e porventura de qualquer língua”.

A prosa e a poesia de João da Cruz inclui ainda mais de 20 cartas e oito textos (disponíveis nas Obras Completas, ed. Carmelo) três dos quais são comentários aos três poemas referidos.
João da Cruz morre a 14 de Dezembro de 1591, aos 49 anos, depois de fundar vários carmelos reformados. Nas Outras coplas a lo Divino, escreve: “A mais forte conquista/ na escuridão se fazia.”


Uma cela para João da Cruz
O norte-americano Bill Viola, um dos mais importantes realizadores contemporâneos, fez um Room for Saint-John of the Cross (1983), onde procura reconstruir a cela onde, durante nove meses, o poeta e místico espanhol esteve preso. Num texto publicado nos Cahiers du Cinéma (Janeiro de 1986), intitulado “A escultura do tempo”, Raymon Bellour descreve as imagens: uma mesa, um copo, um minúsculo monitor a cores e “uma voz que parece vinda chão [que] recita poemas em espanhol, coberto pelo rugido do vento”. A escolha do tema de João da Cruz destina-se a “exprimir o que tomou hoje o lugar de Deus”. “Na sua cela sem janela, pode pensar-se que S. João imaginava uma paisagem: tinha a imagem interior de uma percepção. [Viola] inspira-se para mergulhar na Noite Escura e aí encontrar Deus.” O realizador, que filma, e o espectador, que vê, “encontram-se sempre um pouco na pele de S. João da Cruz”, de quem trabalha essa “imagem-paisagem” interior.


Poema - Paisagem Verdadeira, de Edmundo de Bettencourt

O verde tenro e vivo, de folhagem,
presépio dos meus sonhos, em menino,
pôs-se de luto, a par com o meu destino,
cego-me a vê-lo imagem de miragem...

Quando, iludido, o busco na ramagem,
já com seus tons mais brandos não atino;
e nesta escuridão, só me ilumino
vendo-o compor-me interior paisagem:

paisagem d’outro verde, que de mim
sai alongado em foco para a terra
a procurar vencer-lhe a cerração,

e aonde num crepúsculo sem fim
tonta, a esperança, esvoaçando, erra
sobre torres d’encanto e de traição!

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)

domingo, 13 de dezembro de 2009

Calendário de Advento (13) - A luz, mesmo se é noite

Enchem-se de luz as cidades, acendem-se velas em casa, cintilam lâmpadas coloridas alegrando ruas e lojas. Passeiam-se crianças e adultos a ver iluminações de Natal, fazem-se romarias aos centros urbanos onde se concentra o bulício e a luminosidade. A luz, um dos mais profundos símbolos cristãos, aparece mais intensamente como sinal de que o tempo natalício está à porta.


(Ilustração: Ilda David', Moisés junto da sarça ardente; in Bíblia Ilustrada, tradução de João Ferreira d'Almeida, edição do texto de José Tolentino Mendonça; ed. Assírio & Alvim/Círculo de Leitores)


“O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; e aos que jaziam na sombria região da morte surgiu uma luz.”
(Evangelho de S. Mateus 4, 16)

Santa Luzia é hoje festejada no calendário católico e pelos protestantes do Norte da Europa. Mártir, padroeira dos oftalmologistas, a sua história – para lá do nome, que deriva de luz – tem pouco a ver com a cura da vista. Viveu em Siracusa, no final do século III, era muito bela e ajudava os pobres dando-lhes comida. Entre os pretendentes, um jovem nobre insistia em casar com ela, o que ela recusava. O frustrado noivo ter-se-á vingado denunciando a fé cristã de Luzia e provocando o seu martírio.

No domínio da lenda está a história dos olhos. Antes de morrer, Luzia é inquirida sobre a razão de não querer casar com o nobre. Ela pergunta, por sua vez, o que via o rapaz em si. O prefeito Pascásio, que a interroga, terá respondido: “Os teus olhos brilham como duas estrelas e encantam como duas pérolas.” A jovem pede um prato. Bruscamente, tira os próprios olhos, colocando-os na bandeja para que fossem entregues ao rapaz.

Luzia renuncia à vista, mas não à fé. Se a lenda tem um sentido, ele pode ser o de dizer que a experiência da fé é, por vezes, a de atravessar as próprias sombras: “Visita fulgurante do amor de Deus, o Espírito Santo atravessa cada ser humano como luz que brilha na sua própria noite”, escreve o irmão Roger, de Taizé (Deus só pode amar, ed. Gráfica de Coimbra).

Paradoxal? A dúvida, a incerteza, foi o cadinho onde se amassaram experiências de fé como as de S. João da Cruz, Dostoievski ou Teresa de Lisieux. “Esta eterna fonte está escondida/ neste tão vivo pão pra nos dar vida,/ mesmo se é noite”, escreve João da Cruz no “Cantar da alma que rejubila por conhecer a Deus pela fé” (Poesias Completas, tradução de José Bento, ed. Assírio & Alvim). Os discípulos de Jesus têm, após a ressurreição, experiências de “frustração dos sentidos: aquilo que viram não era o que esperavam ver, não estavam preparados para a surpresa”, nota Domenico Pezzini (As Feridas que Curam, ed. Paulinas). Por vezes, a luz opõe-se à noite e às trevas. “Se me envolve a noite escura/ e caminho sobre abismos de amargura/ Nada temo porque a Luz está comigo”, canta um dos mais belos hinos da Liturgia das Horas.

Luz e noite confundem-se, a luz está na noite. Etty Hillesum, judia deportada que morreu em Auschwitz e escreveu um diário, registava, em 26 de Agosto de 1941: “Há em mim um poço muito profundo. E nesse poço está Deus. Às vezes, consigo chegar a ele, mas o mais frequente é que as pedras e escombros obstruam o poço e Deus fique sepultado. Então, é necessário voltar a trazê-lo à luz.” (Etty Hillesum – Un Itinerário Espiritual, ed. Sal Terrae, Santander)

A luz é o início, está presente desde o primeiro dia da criação do mundo: “Deus disse: ‘Faça-se a luz.’ E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas.” (Génesis 1, 1-5). É uma luz – a estrela – que anuncia o nascimento de Jesus. Experiências de luz são a da transfiguração e da ressurreição de Cristo. Paulo converte-se depois de uma intensa luz o fazer cair do cavalo. A libertação da humanidade é antecipada, no evangelho, como uma luz que “iluminará os que se encontram na escuridão e na sombra da morte e guiará os [seus] passos pelo caminho da paz” (Lucas 1, 79). A luz é identificada com o próprio Cristo: “O Verbo era a luz verdadeira que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina.” (João 1, 9).

Esta luz é amor que arde e tem que se ver. Escreve Santo Agostinho, nas Confissões (Livro XIII, XVIII, 22): “Assim, Senhor, assim, peço-te, (…) nasça da terra a verdade, e a justiça olhe do céu, e façam-se luminares no firmamento. Partamos o nosso pão para o que tem fome e levemos para nossa casa o pobre sem abrigo, vistamos o nu e não desprezemos os familiares.”


Dez milhões de estrelas para a noite de Natal
Dez milhões de estrelas, pede a Cáritas Portuguesa para a noite de Natal. A iniciativa, iniciada há vários anos, pretende que cada pessoa acenda uma vela à janela ou varanda de sua casa. O objectivo: “Contribuir para o desenvolvimento de uma consciência e cultura que afirmem o diálogo e a compreensão, como caminho único para a superação de conflitos e condição para o desenvolvimento dos povos”. Daí a proposta “10 Milhões de Estrelas – um gesto pela Paz” que a Cáritas promove, a nível internacional, e também em Portugal. Em todo o lado, a Cáritas quer que apareçam “milhares de velas” a “aquecer a noite, como sinal da mesma esperança e do mesmo compromisso”. Até dia 24, as Cáritas de todas as dioceses portuguesas estão entretanto a realizar várias iniciativas de apoio a pessoas mais desfavorecidas. Os fundos resultantes da operação – nomeadamente a partir da venda de velas – reverterão para o apoio às famílias desfavorecidas e atingidas pela crise.


Poema - Natal africano, de Cabral do Nascimento

Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz... Mas é Natal.

Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.

Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.

Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.

(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)