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domingo, 12 de março de 2017

Com Misericórdia, novos estilos de vida

Documento 

Na Sessão de Estudos promovida pelo Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, há um ano (5 de Março de 2016), Alfredo Bruto da Costa, que morreu em Novembro últimodesenvolveu o tema “Com Misericórdia, novos estilos de vida”.
Na sua intervenção, ex-presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz usa o seu estilo inconfundível, de referência permanente ao texto bíblico, à teologia dos teólogos dos primeiros séculos do cristianismo e ao pensamento  social contemporâneo para propor um caminho exigente de fidelidade ao Evangelho. Publica-se a seguir o texto que serviu de base à sua intervenção, pleno de actualidade e com referências ao tempo de Quaresma que, de novo, os cristãos estão a viver. 


Alfredo Bruto da Costa na Sessão de Estudos do Metanoia, em Março de 2016 
(foto de António José Paulino)

Agradeço o convite para falar neste encontro do Metanoia.
Devo anunciar que não tenho qualquer qualificação para falar da Misericórdia. Aceitei o convite no pressuposto de que os que me convidaram admitem que eu tenha alguma coisa de útil a dizer. É confiado neles que aqui estou.
Peço, pois, que me ouçam com redobrado espírito crítico.

***

Pareceu-me que poderia ter interesse para vós refletir no tema da Misericórdia em três pontos:
a) a importância da misericórdia na mensagem evangélica e na espiritualidade cristã;
b) como devemos entender hoje as exigências da Misericórdia, designadamente as chamadas «obras da misericórdia»;
c) o grau de transformação individual e comunitária que a Misericórdia recomenda. Designadamente, se será um problema de pequenos acertos ou, como se diz no título deste encontro, serão necessários «novos estilos de vida».

A importância da misericórdia na mensagem cristã

Creio que todos nós ouvimos falar, desde criança, da Misericórdia de Deus. «Deus é misericordioso» é uma expressão que certamente nos é familiar. A questão que se coloca é a da noção que tínhamos da Misericórdia de Deus e como a entendemos no conjunto dos atributos de Deus. Deus é justiça, é amor, é omnipotente, etc. É também misericórdia. Como conciliar todos estes atributos de Deus?
Vou socorrer-me do livro A Misericórdia [ed. Lucerna], do cardeal Walter Kasper, que é teólogo, para situar o problema. Faço-o de forma esquemática.
- a misericórdia, que é tão fundamental na Bíblia, ou caiu largamente no esquecimento na teologia sistemática, ou é tratada apenas de uma forma muito pouco cuidada. (...) [A] espiritualidade e a mística vão muito adiante da teologia académica. (p. 19-22)
- se não somos capazes de anunciar de uma forma nova a mensagem da misericórdia divina às pessoas que padecem de aflição corporal e espiritual, deveríamos calar-nos sobre Deus. (p. 15)
- Depois das terríveis experiências vividas no século XX e no ainda incipiente século XXI, a questão sobre a compaixão de Deus e sobre as pessoas compassivas é hoje mais urgente do que nunca. (p. 15)
- A misericórdia é uma dimensão importante do pontificado do Papa Francisco. Já era preocupação quando ainda era Bispo de Buenos Aires. Mas o Papa situa-se numa sucessão de papas que se ocuparam do assunto: João XXIII (nos seus escritos e no discurso de abertura do Concílio Vaticano II), João Paulo II (designadamente na encíclica Dives in Misericordia, Bento XVI também valorizou o tema, além do mais, na encíclica Caritas in Veritate. (pp. 15-19)
- É necessário repensar do princípio ao fim a doutrina sobre os atributos de Deus, concedendo à misericórdia divina o lugar que lhe pertence. (p. 21)

domingo, 13 de novembro de 2016

Uma pergunta obscena e uma reflexão sobre a misericórdia

Duas intervenções de Alfredo Bruto da Costa

“O último fundamento da igualdade encontra-se na fé cristã”, dizia, em Junho de 2010, Alfredo Bruto da Costa, então presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, que morreu sexta-feira em Lisboa. Falando na Jornada de Pastoral da Cultura, dedicada ao tema Elogio da Igualdade, Bruto da Costa contava a história de um pintor que se lhe dirigia tratando-o por “senhor engenheiro”. “Algo está errado entre nós”, disse ele ao pintor: “Ou o senhor me trata por Alfredo ou eu o trato por senhor pintor.” O senhor António, tal era o nome do pintor, perguntou-lhe então “Até onde é que posso ir?”
Quando um homem pergunta a outro homem “até onde é que posso ir” na relação entre ambos, “essa é uma pergunta obscena que dava para um doutoramento”, dizia Alfredo Bruto da Costa, defendendo que “o último fundamento da igualdade” se encontra na fé cristã e no texto bíblico do Génesis: “Todos somos iguais perante Deus – e não há diferença nenhuma que possa reduzir o sentido profundo desta igualdade.” E, referindo-se aos princípios da Revolução Francesa – liberdade, igualdade, fraternidade – acrescentava: “Somos livres, antes de mais ou além do mais, para afirmar a nossa igualdade. Qualquer coisa corre mal nos três princípios se não formos suficientemente fundo na compreensão da própria igualdade.”
Oito minutos com excertos dessa intervenção podem ser vistos neste vídeo (entre 1’10” e 9’25”):



A 5 de Março passado, falando na Sessão de Estudos do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, naquela que terá sido uma das suas últimas intervenções públicas, Alfredo Bruto da Costa aprofundou o tema Com misericórdia, novos estilos de vida. O seu carácter de investigador social pioneiro nos estudos sobre a exclusão em Portugal e a sua carreira pública de serviço ao bem comum, fundavam-se na sua fé cristã e nos seus profundos conhecimento e adesão à Bíblia e ao pensamento social cristão, desde os teólogos dos primeiros séculos do cristianismo até à doutrina social católica contemporânea. Este texto revela exactamente esse outro lado de alguém que fazia da Bíblia e do Evangelho a força da sua vida. Reproduz-se a seguir essa intervenção, na versão final corrigida e formatada pelo próprio:

Com misericórdia, novos estilos de vida

Agradeço o convite para falar neste encontro do Metanoia.
Devo anunciar que não tenho qualquer qualificação para falar da Misericórdia. Aceitei o convite no pressuposto de que os que me convidaram admitem que eu tenha alguma coisa de útil a dizer. É confiado neles que aqui estou.
Peço, pois, que me ouçam com redobrado espírito crítico.
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Pareceu-me que poderia ter interesse para vós refletir no tema da Misericórdia em três pontos:
a) a importância da misericórdia na mensagem evangélica e na espiritualidade cristã;
b) como devemos entender hoje as exigências da Misericórdia, designadamente as chamadas «obras da misericórdia»;
c) o grau de transformação individual e comunitária que a Misericórdia recomenda. Designadamente, se será um problema de pequenos acertos ou, como se diz no título deste encontro, serão necessários «novos estilos de vida».

A IMPORTÂNCIA DA MISERICÓRDIA NA MENSAGEM CRISTÃ
Creio que todos nós ouvimos falar, desde criança, da Misericórdia de Deus. «Deus é misericordioso» é uma expressão que certamente nos é familiar. A questão que se coloca é a da noção que tínhamos da Misericórdia de Deus e como a entendemos no conjunto dos atributos de Deus. Deus é justiça, é amor, é omnipotente, etc. É também misericórdia. Como conciliar todos estes atributos de Deus?

Alfredo Bruto da Costa (1938-2016): o sonho de um mundo sem pobreza

In memoriam


Alfredo Bruto da Costa, a 5 de Março de 2016, no Porto, 
durante a Sessão de Estudos do Metanoia - Movimento Católico de Profissionais, 
dedicada ao tema Com misericórdia, novos estilos de vida (foto António José Paulino)

No momento da sua morte, dele se disse que alimentou sempre o sonho de um mundo sem pobreza, que não se conformou nunca com a pobreza estrutural, que aliou o desafio da sua fé cristã à “intervenção marcada pela caridade, pela acção social junto dos mais pobres” e pela “prática da justiça”. Alfredo Bruto da Costa, profundo conhecedor da Bíblia e do pensamento social católico, morreu sexta-feira em Lisboa, depois de vários meses de luta contra um cancro. O seu funeral decorreu este sábado, dia 12 de Novembro. 
Seja-me permitida uma evocação pessoal: não me recordo já quando ouvi Alfredo Bruto da Costa pela primeira vez. Mas talvez tenha sido a falar sobre a Laborem Exercens, a encíclica do Papa João Paulo sobre o trabalho humano (1981). E, perante o texto de um Papa que tantas vezes era criticado pelas suas rígidas posições no campo da moral pessoal, Bruto da Costa não tinha dúvidas sobre as prioridades enunciadas há décadas pelo pensamento social católico e confirmadas pelo Papa polaco naquele documento e em outros pronunciamentos de carácter social: prioridade da pessoa e do trabalho sobre o capital, do bem comum sobre a propriedade privada, do serviço aos mais pobres sobre os privilégios de quem tudo tem, da justiça sobre a finança e a economia... Ou seja, o sonho de um mundo sem pobreza.
Há pouco menos de dois anos, na sua despedida de presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), Alfredo Bruto da Costa quis convidar-me para fazer o comentário final à conferência anual que a comissão organizava e que nesse ano teve, a abrir, uma intervenção do cardeal Rodriguez Maradiaga. Na ocasião, fiz questão de agradecer, em público, a sua dedicação de há muitos anos ao estudo sério e à reflexão sobre o pensamento social da Igreja e sobre as consequências sociais e políticas do Evangelho. Com ele, aprendi muito, com ele muitos cristãos portugueses aprenderam muito. Em Portugal, Alfredo Bruto da Costa era, com o José Dias da Silva e Manuela Silva, uma das pessoas que mais sabia sobre o tema e que mais se empenhava no seu estudo, na sua divulgação e no seu aprofundamento.
A Igreja Católica deve muito, em Portugal, a Alfredo Bruto da Costa. Mas também o país, tendo em conta não só os cargos públicos que desempenhou, sempre com a preocupação do bem comum (desde ministro dos Assuntos Sociais no Governo liderado por Maria de Lourdes Pintasilgo até ao de presidente do Conselho Económico e Social), mas sobretudo pelo pioneirismo dos estudos sobre a exclusão social, que liderou com Manuela Silva. Um dos seus últimos compromissos foi a elaboração da Estratégia Nacional de Erradicação da Pobreza: “Nós sabemos quem são os pobres em Portugal”, disse, na apresentação pública do roteiro, em Setembro de 2015, como recorda o Público aqui.