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quinta-feira, 2 de junho de 2016

A Alegria do Amor: sobre o amor na família

Texto de Ana Cordovil e Jorge Wemans

(no final do artigo, indicam-se as ligações para várias crónicas sobre o mesmo documento, escritas por frei Bento Domingues e pelos padres Anselmo Borges, Fernando Calado Rodrigues e Paulo Terroso)


(foto © BillionPhotos.com/Fotolia; reproduzida daqui


Falemos então do Amor.

Desse Amor que Jesus anunciou como mensagem maior da Vida.
E falemos da Alegria que todos os homens e mulheres experimentam nas suas relações amorosas. De modo muito concreto lembremos tantos rostos que de formas tão diversas e surpreendentes nos ajudam a dizer a Alegria do Amor!
Cabe-nos agradecer, com respeito e emoção, a coragem de muitos e muitas que enfrentam dificuldades sem sentido na construção do Amor que querem viver, na família que querem construir. São estes rostos de coragem que queremos ter, hoje, presentes!

No meu coração, estes rostos têm naturalmente nomes e histórias que desejava partilhar convosco, mas penso não ter esse direito.

Somos um casal que nos demos mutuamente o matrimónio há quase 40 anos e que continuamos a viver um com o outro. Não nos sentimos em nada melhor que outros que percorreram caminhos diferentes, ou que devamos ser vistos como exemplo. Até nos envergonha a possibilidade de olharem para nós como modelo…
Claro que toda a vida – todas as vidas – é fonte de inspiração, por negação ou simpatia, para outros. Devemos inspiração, companhia e apoio a muitos casais que vivem segundo as “regras” da Igreja para a união entre duas pessoas que se amam. Mas, não menos inspiradores, estimulantes e presença viva de Jesus nas nossas vidas têm sido outros “casais” apontados como “irregulares”: mães solteiras, divorciados, gente perdida em processos de doenças diversas com filhos para cuidar, casais do mesmo sexo, casais apenas com união de facto ou vivendo mesmo em casas diferentes, recasados...
Na nossa vida de casal temos tido muitas incertezas no Amor que nos une, mas temos tido a sorte de encontrar força num Amor maior e generoso que se nos dá e nos guia. Esse Amor maior está em nós, naturalmente, mas fortalece-se com a Palavra, com a vida de todos os dias, com a vida comunitária e, como já referimos, cresce graças àqueles crentes e não crentes que nos têm acompanhado.
Entre estes estão também as famílias que nos precederam e as que se vão construindo hoje e nos surpreendem a cada dia como as dos nossos filhos, genros e netos, mas também um grande número de homens e mulheres que fazem das suas relações diversas de Amor testemunhos de Alegria.
Neste contexto, a exortação A Alegria do Amor é, por várias razões, um ótimo começo de conversa. Nela, o Papa Francisco tenta, de um modo sincero, franco e aberto, dar nome. Dar nome às coisas e às situações. E nomear é já um bom começo…
O texto nomeia homens e mulheres que querem viver o seu Amor com a Alegria do Evangelho e que são olhados como menores, ou pecadores. Como podemos nós fazer esse julgamento contra alguém que quer viver o Amor? O Deus que nos ilumina nas horas mais difíceis e com quem nos alegramos não é esse Deus julgador que se alimenta da verificação das regras cumpridas, ou por cumprir.

sábado, 28 de maio de 2016

Eucaristia: a revolução

Crónicas

Na sua crónica de hoje no DN, Anselmo Borges escreve sobre Eucaristia: a revolução


O peixe e o pão eucarístico, pintura do séc. II na cripta de Lucina; 
Catacumbas de São Calisto (Roma)

Paradoxalmente, com a interpretação coisista da presença de Cristo, muitos cristãos, indo à Missa e não comungando, vêem-se libertos da urgência da conversão ao projecto de Jesus. Ora, precisamente nesta não conversão é que São Paulo via que "comemos o pão e bebemos o cálice do Senhor indignamente", tornando-nos "réus do corpo e do sangue do Senhor", isto é, culpados da sua morte: de facto, o que ele condena na comunidade de Corinto são as suas divisões e que, enquanto uns comem lautamente e se embebedam, outros passam fome.

(O texto pode ser lido aqui na íntegraficam a seguir as ligações para os textos de Anselmo Borges dos dois últimos meses:
21 de Maio – Uma sociedade ameaçada14 de Maio – Deus, obsoleto?7 de Maio – Quem manda na Igreja?30 de Abril – Os doutores da letra9 de Abril – Laicidade e laicismo2 de Abril – Sobre o radicalismo islâmico.)



Texto anterior no blogue
O ateu e o bispo - crónicas de Fernando Calado Rodrigues

domingo, 27 de março de 2016

Vida, esperança, paixão e o dia novo

Crónicas de Páscoa

Das últimas duas semanas, reproduzem-se a seguir as crónicas com reflexões provocadas pela Páscoa. Ontem, no DN, Anselmo Borges escrevia, sob o título Esperança enlutada:

Em Domingo de Páscoa, lembro E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, que, na sua obra A Figura Histórica de Jesus, quis dar uma visão convincente do conjunto da vida do Jesus real (...). também sabemos que, "depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência do que descreveram como a "ressurreição: aquele que tinha morrido realmente apareceu como "pessoa viva, mas transformada". "Acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso". Assim, criaram um movimento, que cresceu e se estendeu pelo mundo e mudou a história. Grande parte da humanidade foi atingida por esse movimento e pela esperança que transporta de Vida eterna.
(texto na íntegra disponível aqui)

Ilustração de Sieger Köder, 
reproduzida daqui

No Domingo passado, Vítor Gonçalves escrevia sobre Voltar à Paixão:

A salvação que Jesus trouxe vive-se todos os dias em que vencemos a morte com mais vida, em que colocamos todas as forças e qualidades ao serviço do maior bem, em que recusamos poderes ou glórias pessoais para que a felicidade seja para todos. A paixão de Jesus relembra-nos que a tentação de julgar é desculpa para não mudarmos, que a ânsia de milagres pode ser recusa de uma relação de amor e confiança com Deus, que mesmo num último momento é possível a compaixão e a abertura à vida sem fim.
Queremos entrar cada vez mais nesta Paixão de Jesus, que nos apaixona por erradicar os calvários do mundo?
(texto na íntegra disponível aqui)


No dia 13, o mesmo autor escrevia sobre Tirar ou dar vida:

Poucos dias depois de assinalar-se o Dia Internacional da Mulher, o encontro de Jesus com a mulher adúltera do Evangelho de João revela uma actualidade premente. Segundo a organização não-governamental Action Aid, a violência doméstica é responsável pela morte de cinco mulheres por hora no mundo. No Largo Camões, em Lisboa, foi inaugurada nesse dia 8 de março, uma exposição dos jornalistas Teresa Campos e José Carlos Carvalho (da revista Visão) que percorreram Portugal para dar a conhecer as histórias das 28 mulheres “mortas por quem dizia amá-las” ao longo de 2015. Em 2014 tinham sido 42. A Action Aid prevê que mais de 500 mil mulheres serão mortas por seus parceiros ou familiares até 2030! Noutro tempo e lugar, em contexto de infracção à Lei, Jesus deteve a fúria sanguinária de quem queria agir “em nome de Deus”, para tirar a vida à mulher apanhada em adultério!
(texto na íntegra disponível aqui)


Domingo passado, frei Bento Domingues escrevia sobre A Páscoa do escravo:

Diz-se que o Papa alterou o ritual da 5ª feira Santa: as mulheres já podem ser incluídas na cerimónia do lava-pés. É uma forma miserável de anestesiar e reduzir o sentido da intervenção do Papa. A alteração que o seu gesto visa provocar não é de tipo ritual, mas de acção transformadora. Pertence ao seu programa de ver o mundo a partir dos excluídos. Levar o centro às periferias.
(texto na íntegra disponível aqui)


O gosto perverso de acusar era o título da crónica de frei Bento, há duas semanas atrás:

Nas sociedades ocidentais, esta prática desarmada por Jesus já não é a mais comum. Em questões de sexo, vale tudo ou quase, embora o voyeuirismo ainda alimente alguns meios de comunicação social. Mas o gosto perverso de acusar, de encontrar alguém em falta, dentro e fora das religiões, nos espaços sagrados ou profanos, diz-nos que os fariseus e os escribas ainda não são uma espécie em extinção. Quem dera! Mas ainda persiste o gosto de novas formas de apedrejar “suspeitos” em praça pública.
(texto na íntegra disponível aqui)


Na semana passada, Anselmo Borges escrevia sobre A paixão e a política:

Pascal observou agudamente nos Pensamentos: Jesus estará em agonia até ao fim do mundo; é preciso não dormir durante este tempo.” Todos sabemos do calvário do mundo, e as personagens são as mesmas.
(texto na íntegra disponível aqui)


No dia 12, o mesmo autor escrevia, sob o título Bem-aventurados os ricos:

O que está em vigor são as bem-aventuranças ao contrário, como escreve Jesús Mauleón: "Bem-aventurados os ricos, porque têm massa, manjares, luxo e abundância para pagar todas as suas necessidades e caprichos. Bem-aventurados os ricos, porque muita gente crê que são mais respeitáveis do que os pobres. Bem-aventurados os ricos, porque podem permitir-se ter à sua volta gente que os serve e lhes recorda que o são. Bem-aventurados os ricos, porque, embora neste mundo nem tudo se possa comprar com dinheiro, pode-se comprar tantas coisas e tantas pessoas... Bem-aventurados os ricos, porque, quanto mais dinheiro acumulam, embora não seja muito claro como, mais espertos parecem." Etc.
(texto na íntegra disponível aqui)


No comentário aos textos da liturgia católica deste domingo, Vítor Gonçalves escreve, sob o título O dia novo:

Primeiro foi a espera. A dos discípulos, tolhidos pelo medo, fechados talvez na casa onde Jesus os reunira na ceia. E a de Maria, que foi ao túmulo, envolta num amor que o sofrimento não apagou totalmente. Perante a pedra retirada e o sepulcro vazio, a incredulidade de Pedro e a fé de João, continuam a ser espera. Quantas esperas existem em nós como vazios desejosos de plenitude? Em palavras ou em silêncio, esperamos, e isso, tantas vezes sem o sabermos, é já abertura para o encontro e a comunhão com Deus. Jesus veio como o jardineiro, humilde e sem triunfalismos, chamar Maria pelo nome; veio como o amigo que nenhuma parede pode deter, dar a paz aos discípulos. Este é o dia novo em que toda a esperança se realizou. O dia novo que nos faz novos!

domingo, 6 de março de 2016

Pais e filhos, histórias subversivas, eutanásia, Spotlight e dinheiro sujo

Crónicas

No seu comentário aos textos bíblicos da liturgia católica deste Domingo, Vítor Gonçalves escreve, sob o título Do Pai aos irmãos:

Não sabemos se o pai da parábola que Lucas nos narra era um bom educador. Mas sabemos que amava os seus filhos. Que pouco lhe interessavam os bens e as propriedades, a fama ou as honrarias, e tudo seria capaz de sacrificar por causa deles. Com que dor aceitou ser “morto” pelo filho mais novo quando lhe deu a parte da herança reclamada? Com que esperança suspirou pelo seu regresso? Com que alegria saiu ao seu encontro e deu início à festa? Com que dor descobriu a dureza de coração do filho mais velho? Com que humildade veio insistir com ele para acolher o irmão? Quem imagina Deus sentado no seu trono celeste a “ver o mundo passar” bem pode mudar de ideias, sob o risco de “inventar” um Deus que não é o Pai de Jesus Cristo!


Ilustração: Bernadette Lopez (Berna), 
reproduzida daqui

Na crónica de hoje, no Público, frei Bento Domingues toma também como pretexto a “parábola do filho pródigo”. Sob o título Um contador de histórias subversivas, escreve:

A parábola não ensina, dá que pensar. Liberta a imaginação. Não nos deixa acorrentados às religiões que herdámos. A fé cristã, ao proclamar, na Eucaristia dominical, a parábola do Filho Pródigo vem dizer: não estraguem o Domingo! É a festa das pessoas em processo de transformação. A Eucaristia - o Papa Francisco tem insistido muito neste ponto - não é um prémio, uma recompensa para os bem-comportados, segundo um código de moral convencional. É um convite para a festa, para a festa de Deus revelada nos gestos e nas palavras de Jesus.


Na crónica de ontem, no DN, Anselmo Borges escrevia sobre Os dois pais, a liberdade, Spotlight:

A Igreja Católica tem muitos e graves problemas para resolver, mas a questão da reconciliação sã com a sexualidade é fundamental. O título deste texto, aparentemente desconexo, tem um vínculo: o sexo. Se se dissesse claramente, sem receios, que Jesus é filho de José e de Maria, não haveria lugar para o cartaz. Também é sabido que a pedofilia não deriva necessariamente do celibato obrigatório. Mas a lei do celibato pode ser causa de sexualidades distorcidas. Porque é que a Igreja há-de impor como lei o que Jesus entregou à liberdade?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Peter e Betty, misericórdia e aborrecimento, os livros e o viver

Crónicas

No dia em que o Papa Francisco termina a sua viagem ao México visitando Ciudad Juárez, vale a pena recuperar a crónica de Alexandra Lucas Coelho sobre Peter e Betty, que vivem naquela que é uma das cidades mais violentas do mundo. Com o título Se Cristo fosse vivo, escrevia:

Conheci Peter e Betty em 2010. Ele tinha 87 anos, ela 76.
Viviam num bairro pobre da cidade mais violenta do mundo. Não eram marido e mulher, nem parentes, mas algo que eu nunca tinha visto num par: camaradas de casa, de luta e de Deus. Peter crescera na Chicago de Al Capone, fora piloto na II Guerra, sobrevoara Nagasáqui depois da bomba, tornara-se padre carmelita. Um dia partiu para a América Latina onde encontrou Betty, que crescera no Iowa entre 13 irmãos, era freira e enfermeira da Ordem da Misericórdia, trabalhava com os índios nas montanhas do Peru. Juntos percorreram o continente, entre combates e ditaduras, até que nos anos 1990 foram viver para Ciudad Juárez, fronteira do México com a cidade texana de El Paso. Essa semana em que os conheci foi igual à anterior e à seguinte em Juárez, corpos furados de balas ou sem cabeça, mulheres violadas, tiroteio, raptos, tortura, extorsão. Peter e Betty não viviam em Juárez apesar disto, mas por isto. A vida deles era, a cada dia, abraçar os vivos e honrar os mortos. 
(texto para continuar a ler aqui)


Domingo, no Público, frei Bento Domingues escrevia, sob o título Tanta misericórdia já aborrece:

À saída de uma Igreja em Braga, um senhor, que eu não conhecia, veio directo a mim, indignado: eu já não posso com tanta misericórdia! Sem suspeitar o que dali podia vir, pedi-lhe alguma para mim. Explicou-se. Como bom e velho bracarense, sou católico, desde pequeno. Aprendi a doutrina na família e na igreja, onde também casei. Tenho filhos e netos. A minha mulher educou-os bem, raramente falto à missa e pertenço a várias confrarias.
Sendo assim, disse-lhe que não precisava da misericórdia de ninguém. Sorriu e acrescentou: sei quem é e conheço as suas ideias. Quero desabafar.
(texto para continuar a ler aqui)


Sexta, no CM, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre A ilha da reunião:

O Papa Francisco e o Patriarca Cirilo, da Igreja Ortodoxa Russa, encontraram-se hoje em Havana, Cuba. Nos anos 60, esta ilha foi o palco da tensão mais grave entre as duas superpotências de então – os Estados Unidos e a União Soviética – colocando o mundo à beira da guerra nuclear. Na altura João XXIII contribuiu para que prevalecesse a paz. E, há pouco tempo, o Papa Francisco conseguiu que Cuba e os EUA reatassem relações diplomáticas suspensas há mais de cinquenta anos.
(texto para continuar a ler aqui)


Sábado passado, no DN, Anselmo Borges escrevia, sob o título Viver:

E aí estão três tarefas para a espiritualidade: dar-se conta do viver; agradecer por a Vida nos fazer viver, nos vivificar: vivemos graças à Fonte da Vida; vivificarmo-nos, darmos vida uns aos outros, na compaixão e na ajuda mútua para nos libertarmos. Lá está o poema zen: "O que é o mar? O que permite o peixe nadar. O que é o ar? O que permite o pássaro voar. O que é o Nada e o Vazio? A Vida que te faz viver." "Vejo a ervita entre as gretas do pavimento. Donde lhe virá a força para abrir passagem entre o asfalto?" "Palpo aqui uma Presença latente/Não sei quem é. /Mas brotam lágrimas de agradecimento." Então, o que é morrer senão sair para dentro da Vida verdadeira, definitiva e eterna: "vida no seio da Vida da vida"?
(texto na íntegra aqui)


No comentário aos textos bíblicos da liturgia católica de Domingo passado, Vítor Gonçalves escrevia sobre Livros livres:

Entramos em Quaresma em ambiente de luta e de escolha. Ler e pensar são dois grandes presentes de qualquer livro. E a Bíblia continua a ser um dos mais interpeladores. Se nas suas palavras, e nas de muitos livros lidos, vislumbrarmos como Deus nos ama livres e responsáveis, a Páscoa acontecerá todos os dias!
(texto na íntegra aqui)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Enigmas, misericórdia e política, e inseminação vocacional

Crónicas

Sábado passado, no DN, Anselmo Borges continuou a reflexão da semana anterior (publicada aqui) sobre O grande enigma:

Ao longo da história, os homens, face ao enigma do universo, acreditaram numa Presença divina pessoal e transcendente, invocável, da qual esperaram a libertação para além da morte. Essa crença foi universal e impunha-se como quase evidente até do ponto de vista social. O número de ateus confessos era reduzido. Foi a partir da modernidade que a ideia de Deus se tornou problemática e o ateísmo, face ao teísmo dogmático, se afirmou a si próprio também dogmaticamente, num frente-a-frente de dogmatismos.
(texto para continuar a ler aqui)


No Igreja Viva, suplemento do Diário do Minho, Paulo Terroso escrevia sobre Diplomacia: a misericórdia como processo político:

É inegável o interesse com que nestes últimos tempos a comunidade internacional segue o pontificado do papa Francisco e a actividade diplomática da Santa Sé. Aliás, nesta mesma coluna já tivemos a oportunidade de aflorar o modo como o papa tem vindo a liderar e a definir a agenda internacional, sobretudo a partir da encíclica Laudato Si’. A tal ponto que hoje para um político, independentemente do quadrante político em que se situa, o melhor argumento de autoridade é mesmo citar o papa. Ainda que a tentação de instrumentalizar as suas palavras seja grande.
(texto para continuar a ler aqui)


No CM de sexta-feira, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre Inseminação vocacional:

A diminuição das vocações, sobretudo no mundo ocidental, tem feito com que os critérios de admissão aos seminários e às casas de formação religiosa sejam menos rigorosos do que num passado recente, quando ainda havia candidatos em abundância. O Papa Francisco tem consciência que assim acontece. Num encontro com cinco mil consagrados, em Roma, no passado dia 1, denunciou que algumas congregações, devido à sua esterilidade vocacional, recorrem ao que chamou a “inseminação artificial”.
(texto na íntegra aqui)

Texto anterior no blogue
rating” do Evangelho, a cura e a cadeia - crónicas de Vítor Gonçalves, António Pedro Monteiro e frei Bento Domingues


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Amor e limites, filmes e memórias, enigmas e paz

Crónicas

O comentário de Vítor Gonçalves aos textos da liturgia católica deste Domingo começa com a sugestão de um verso para uma canção, para falar depois de “O amor e os limites”:

Da admiração por Jesus, os seus conterrâneos passam rapidamente à rejeição. É verdade que Jesus foi exigente com eles. Não fez ali os milagres que tinha feito em Cafarnaum e interpelou-os com a universalidade do amor de Deus que ultrapassa as fronteiras de Israel. Recusou a “facilidade” de uma fé “milagreira”, que só funciona com o extraordinário, em vez de se maravilhar com a vida transformada. Propôs-lhes a adesão a um amor mas limitou-lhes a sede de milagres. Quando descobriremos que o seu amor é o maior dos milagres, a vida plena sem limites? Em dia de sábado, na terra que o viu crescer, nada fez, senão apresentar-se como Salvador; como nada fará na cruz nem no sábado do sepulcro. Por isso em Nazaré, como no calvário, é levado ao cimo da colina, num ambiente que respira ódio e morte. Mas, em tom de ressurreição, passa pelo meio deles e segue o seu caminho.


Hoje, na página da Rádio Renascença, Manuel Pinto escreve sobre Spotlight, um caso que já deu frutos, a propósito do filme em exibição:

Mais do que expor os abusadores ou as suas vítimas, esta obra de McCarthy confronta-mos com a obstinação de um sistema clerical em silenciar e perpetuar o silêncio das vítimas e dos próprios jornalistas. Neste sentido, sabe bem ouvir o atual cardeal de Boston, Sean O’Malley afirmar que “os media ajudaram a Igreja a ser um lugar mais seguro para as crianças (…) obrigando-nos a lidar com o abuso sexual por parte do clero”.


Na crónica de domingo, no Público, frei Bento Domingues escrevia sobre A memória afectuosa de Deus, recordando a figura de Nuno Teotónio Pereira:

José Pedro Castanheira, na última entrevista, perguntou-lhe:  deixou de ser crente? «A certa altura, sim, muito por causa do episódio da morte da minha mulher. Não foi imediato, mas ficou sempre uma ferida. Depois meti-me na política e acabei por chegar à conclusão que o sobrenatural não me dizia nada. Mas, olhando para toda a minha vida e para a minha formação, acho que sou católico, ainda que não praticante. Sou crente».
Santa coerência.


Sábado, no DN, Anselmo Borges escreve o primeiro texto com o título O grande enigma:

É possível que Deus exista, mas também pode não existir. Ninguém pode dizer que sabe que Deus existe, mas também ninguém pode dizer que sabe que Deus não existe. Ninguém sabe se na morte encontramos a vida na sua plenitude em Deus ou se, pelo contrário, para cada pessoa tudo acaba na morte. Este é o grande enigma da vida de cada homem, de cada mulher. É o enigma da verdade metafísica última do universo: Deus como fundamento último ou um puro mundo sem Deus? 


Sexta, no CM, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre As religiões e a Paz, a propósito de dois encontros do Papa nos últimos dias:

O Jubileu da Misericórdia desafia a Igreja a sair de si e a construir pontes de entendimento com as outras religiões monoteístas. “A misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja. Ela relaciona-nos com o judaísmo e o islamismo, que a consideram um dos atributos mais marcantes de Deus”, escreveu o Papa Francisco na Bula de convocação do ano jubilar.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Viagens, pesadelos, pobres e ricos

Crónicas

No comentário aos textos da liturgia católica deste domingo, escreve Vítor Gonçalves, com o título Das origens ao “hoje”:

Contabilizar o número de pessoas que emigram, ou, dolorosamente, fogem da miséria e da guerra em busca de uma vida digna longe das suas origens não é tarefa fácil. Milhares? Milhões? Ao sabor das ondas noticiosas são lembradas de vez em quando. Não introduzo este tema por ter soluções mágicas, mas porque as origens, a “terra” em que nascemos e crescemos tem sempre alguma importância. É verdade que o P. António Vieira dizia que um português tinha “para nascer, Portugal; para morrer, o mundo inteiro”! Criamos raízes e fazemos casa em qualquer lugar onde possamos amar e ser amados. Mas esqueceremos algum dia (pelas melhores ou piores razões) a casa e a terra das nossas origens?
(Texto para continuar a ler aqui)


Hoje, no DN, Anselmo Borges escreve sobre O pesadelo do teólogo:

Afinal, ocupamos um lugar periférico no Universo. Pascal perguntava: "O que é um homem no infinito? Apavora-me o silêncio dos espaços infinitos." Mas, por outro lado, é no homem que este processo gigantesco toma consciência de si. Somos reflexivos e temos autoconsciência: desdobramo-nos e reconhecemo-nos. Sabemos do bem e do mal. E levamos connosco a pergunta inevitável e triturante do sentido, do sentido último: qual o sentido de tudo?, porque há algo e não nada?, o que vale a minha vida?, existimos porquê e para quê? Transportamos connosco a questão da morte e de Deus, a dupla face do Absoluto.


Ontem no CM, Fernando Calado Rodrigues refere a carta do Papa ao Fórum Económico Mundial, que hoje termina na Suíça. Sob o título Os pobres em Davos, escreve:

O Papa aproveitou ainda para apelar aos mais ricos e poderosos do mundo que não esqueçam os mais pobres. E mais uma vez ergueu a sua voz para denunciar a “cultura do descarte” e da indiferença perante a exclusão e o sofrimento de tantas pessoas, em todo o mundo. “Não devemos permitir jamais que a cultura do bem-estar nos anestesie” Desafiou os que têm nas mãos os destinos do mundo “a garantir que a vinda da ‘quarta revolução industrial’, os efeitos da robótica e das inovações científicas e tecnológicas não levem à destruição da pessoa humana – ao ser substituída por uma máquina sem alma – nem à transformação do nosso planeta num jardim vazio para deleite de poucos escolhidos”.

Texto anterior no blogue
Terceiros Sábado: missas, amizades e conspirações contra a guerra colonial e a ditadura - reconstituição inédita de uma rede católica de oposição ao Estado Novo