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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A difícil questão da laicidade


Tudo coberto excepto os seus olhos: que cultura cruel dominada pelo homem; 
- Nada coberto excepto os seus olhos: que cultura cruel dominada pelo homem.” 
(ilustração reproduzida daqui)


“A persistência do quadro teológico-político como um horizonte nunca ultrapassado  deixa perceber as razões pelas quais o conceito de laicidade está completamente armadilhado”, escreve António Guerreiro, no Público de sexta-feira passada. O texto reproduz-se a seguir:

O secularismo republicano francês, fixado com força de lei no conceito jurídico-político da laicidade, que institucionaliza a separação entre o Estado e a religião, consagra logicamente “a defesa da liberdade de consciência individual contra todo o proselitismo” e, por conseguinte, a proibição de “signos religiosos ostensivos” na esfera pública. O princípio da laicidade é o da universalização da cidadania republicana de modo a anular o comunitarismo e os seus efeitos de segregação. Assim, ordem temporal, o saeculum, e ordem intemporal, a religião, devem manter-se estritamente separados.
A laicidade francesa visa a formação de uma cidadania esclarecida que responda à injunção iluminista do “ousar saber” e do uso público da razão. Entendida nesta perspectiva, a laicidade opõe-se a um multiculturalismo que reforça o poder regressivo do dever de pertença étnico-religiosa. Quando se passa desta dimensão teórica da laicidade para os desafios reais – sociais e políticos – com que ela se confronta, as coisas complicam-se bastante, como sabemos. A verdade é que a laicidade francesa, que no seu princípio visa a neutralização da afirmação religiosa em tudo o que é tutelado pelo Estado, se tornou a ideologia de uma república obcecada com o religioso, praticando uma espécie de teologia política negativa que instaura o religioso como categoria separada.