Entrevista ao encenador Tiago Sepúlveda e imagens dos ensaios
Clara – Uma luz na noite é o título do teatro musical encenado por Tiago Sepúlveda e apresentado pelo Grupo de Teatro Musical Religioso (GTMR), que será levado à cena nos próximos dias 14 e 21 de Outubro, no Estoril e no Porto.
O espectáculo apresenta a história de madre Maria Clara do Menino Jesus que, em 1871, fundou a Congregação das Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (Confhic), dedicando-se a trabalhar com os mais desfavorecidos, numa altura em que largas camadas da população portuguesa viviam em extrema pobreza.
O regime liberal instaurado na década de 1820 decretara a extinção das ordens religiosas mas, sucessivamente, novas experiências foram surgindo, de forma clandestina ou dissimulada. Até à sua morte em 1899, com 56 anos, madre Clara criou 140 instituições sociais, dedicadas à assistência aos pobres, à saúde, à educação e às cozinhas económicas. Madre Clara foi beatificada em Lisboa, numa cerimónia presidida pelo então patriarca, D. José Policarpo, em Maio de 2011.
O espectáculo será apresentado dia 14, às 16h e 21h, no auditório da Senhora da Boa Nova (Estoril) e, no dia 21 de Outubro, às 17h, no Seminário de Vilar (Porto). Os bilhetes estão à venda em www.bol.pte nos locais habituais e têm o preço de 12 euros (normal) e 40 euros (familiar); há desconto de 25 por cento para membros de ordens religiosas e escuteiros; mais informações através da Confhic (214 241 840) ou GTMR (962 713 075).
Exposição Texto de António Marujo Vídeos de Maria Wilton
Altar budista proveniente do Tibete
Um altar budista do Tibete; uma barquinha em chifres, que veio de Angola; um calendário eterno dos aztecas, do México; cinco crucifixos do Sudão do Sul, Eritreia, Índia, Portugal ou Etiópia; uma cuia (taça para beber) da Amazónia; uma mamã africana, de Moçambique, de onde também vem uma Sagrada Família em fuga para o Egipto, recordando os refugiados; uma placa com um excerto do Alcorão; e um nilavilakkuindiano, espécie de candelabro de mesa que representa Brahma, Vishnu e Shiva.
Estas são algumas das peças que podem ser vistas até sábado, dia 13 de Outubro, Escola Francisco de Holanda, em Guimarães. A partir desse dia, a mostra fica em Cabeceiras de Basto até dia 27, quando vai para Barcelos, continuando depois a circular por outras localidades do país. Trata-se da exposição itinerante Pelos Caminhos do Mundo, organizada pelos institutos missionários católicos ad gentes(algo como “enviados aos povos”).
“Itinerante porque, como Igreja, temos de ser um povo itinerante”, diz ao RELIGIONLINE o padre Adelino Ascenso, presidente da rede dos IMAG (Institutos Missionários Ad Gentes). “A missão tem de fazer-se caminhando. Não podemos estagnar. Parar é retroceder.”
A ideia da mostra nasceu na última assembleia do IMAG, há dois anos. Depois de uma iniciativa semelhante organizada em Fátima, em 2012, e da publicação da exortação Evangelii Gaudium (“A Alegria do Evangelho”), do Papa Francisco, os 27 institutos missionários do IMAG (oito masculinos e 19 femininos) decidiram organizar uma nova mostra, desta vez com o objectivo de percorrer todo o país que reavivasse a reflexão sobre a evangelização e desafiasse a “uma abertura ao diálogo de culturas e religiões”, como refere o padre Ascenso, no texto de abertura do catálogo da mostra.
O presidente do IMAG acrescenta outras três coincidências: 2018 marca o centenário do nascimento do bispo missionário D. António Barroso, que esteve em África e foi bispo de São Tomé de Meliapor, antes de ser bispo do Porto; a Conferência Episcopal Portuguesa sugeriu a celebração de um “ano missionário” entre Outubro deste ano e Outubro de 2019, que será o “mês missionário extraordinário” proclamado pelo Papa Francisco.
Nos cartazes, títulos com substantivos e verbos, uma marca de pés e cores simbolizando cada um dos continentes aludem ao fundamento e tessitura da missão e à “missão em saída”, explica o padre António Leite, um dos responsáveis pela preparação da mostra. Trata-se de “apostar na imagem”, que para isso foi entregue a profissionais – a arquitecta Ana Kudelska e à designer Ana Rocha Catarino –, como forma de falar das propostas e atitudes dos missionários católicos: comunhão, escuta, disponibilidade, confiar, sair... “Comunicar significa partilhar; e a partilha exige a escuta, o acolhimento”, diz uma das frases, citando o Papa Francisco, a propósito da escuta. No final, um jogo pretende colocar os mais novos a percorrer a “aventura de correr os caminhos do mundo e da missão”.
Mamã africana (Moçambique); taça para beber mate (Argentina); e cruz processional etíope
As peças são provenientes do património ou de pequenos museus de congregações religiosas. E podem ser mais explicitamente de inspiração cristã – como os crucifixos artesanais –, falar de outras matrizes religiosas ou traduzir culturas diversas. “O missionário tem de fazer esforço para se inculturar”, diz o presidente do IMAG.
“Está aqui para converter?”
O padre Adelino Ascenso sabe bem do que fala. Membro da Sociedade Missionária da Boa Nova, esteve doze anos no Japão (duas vezes, seis anos de cada vez). “Fui procurando escutar e aprender, a finalidade era caminhar com as pessoas, estando com elas.”
Uma vez, num debate inter-religioso, um monge budista questionou-o: “Como padre católico, está aqui para converter?” Adelino Ascenso respondeu que não. “Disse que, se ele se tornasse melhor budista e eu melhor cristão, isso seria uma forma de cumprir o diálogo. E que, se alguém se quisesse converter, logo veríamos, pois não fazíamos proselitismo.”
O monge ainda insistiu, perguntando ao padre Ascenso o que pensava da religião japonesa. Muitos especialistas escreveram que há uma religião própria do Japão, outros que os japoneses são a-religiosos. “Têm uma religião, mas não a entendem como nós. A palavra para dizer religião foi traduzida no século XIX e é sempre conotada com a religião europeia.”
Kannon, representação feminina do Buda da compaixão (Japão);
calendário azteca eterno (México); e moinho de orações do budismo tibetano (Tibete)
Adelino Ascenso explica a “tripla insensibilidade” religiosa japonesa: “Não são monoteístas, não têm a noção de um Deus que nos transcende e não têm a noção de pecado como o corte com o Deus transcendente.” Para eles, as divindades caminham e vivem com as pessoas e a morte é um “sono profundo”. São um povo “espiritual, sim”, segundo o conceito ocidental, mas não “espiritualista”, como se revela, por exemplo, nas cerimónias do taoísmo.
Não por acaso, enquanto esteve no Japão, Adelino Ascenso fez a sua tese de doutoramento sobre o escritor Shūsaku Endō, autor de Silêncio, o livro que deu origem ao filme com o mesmo título, do realizador Martin Scorsese. Católico, Endōescreveu também umaVida de Jesus, para falar aos seus conterrâneos da figura de Jesus, com uma linguagem que eles entendessem. (Silêncio – Shūsaku Endō e a Inculturação da Fé no Japão, de Adelino Ascenso, onde se resumem alguns dos aspectos da tese, está publicado pela Letras e Coisas; vários livros de Endō estão disponíveis em português.)
Para evidenciar que é possível o cristianismo inculturar-se na cultura japonesa, o padre Ascenso lembra o caso do samurai Takayama Ukon: senhor feudal e militar, Ukon estaria, à partida, “muito longe do que são os valores cristãos”. Mas, pressionado a apostatar (a mesma história dos cristãos do Silêncio), Takayama Ukon decidiu “não trair o seu senhor” como é suposto um samurai fazer – só que, para este homem, o seu senhor já era Cristo. Foi beatificado em Fevereiro de 2017.
A peça do samurai japonês, uma das trinta que se pode ver na exposição, seria precisamente a escolhida por Adelino Ascenso:
Há já outras localidades previstas para o itinerário da mostra: Porto, Paredes, São João da Madeira, Bragança,Aveiro, Lamego e Guarda. Entre Julho a Setembro, a exposição deverá estar em Fátima, passando depois a Lisboa, onde encerrará a sua digressão, coincidindo com o final do Ano Missionário e o Dia Mundial das Missões de 2019.
Quando se entra, três grandes ecrãs dão o mote a esta exposição diferente: neles se vêem imagens, captadas com uma câmara fixa, dos claustros das catedrais do Porto, Santarém e Évora. Vêem-se pessoas a atravessar uma ala do claustro, saem da imagem, surgem pessoas noutro ecrã e saem de novo na nossa direcção ou caminham em sentido contrário. As catedrais são espaços vivos, dizem-nos as imagens. São utilizadas e visitadas, são lugares onde se respira o tempo, na articulação entre o passado que as construiu, o presente que ali se vive e o futuro que promete mais vida ainda.
Assim a exposição Na Rota das Catedrais: Construções (d)e Identidades possa contribuir para isso. Patente no Palácio Nacional da Ajuda até final deste mês (desde 28 de Junho), ela traz, até junto do grande público, tesouros de 26 catedrais portuguesas (as 20 das dioceses existentes, mais quatro antigas (Bragança, Coimbra, Elvas e Silves), mais duas con-catedrais (Miranda e Castelo Branco).
Esta exposição consubstancia ainda a ideia de uma rota a ligar o país, lugares que ajudaram a estruturar a geografia, o urbanismo e a cultura. Enfim, a estruturar identidades, como se sugere no título: “Pelas catedrais passa a história de Portugal, passa a história da arte portuguesa, passa a história das mentalidades, da sociedade, da religião, do conhecimento, da arquitectura, da urbanidade, dos valores civilizacionais em que nos revemos e identificamos”, escreve Paula Araújo da Silva, directora-geral do Património Cultural, no texto de apresentação do roteiro da mostra.
Menino Jesus da Cartolinha; séc. XVII, autor desconhecido,
No livro, podem ver-se fotos de todas as catedrais recenseadas e perceber os diferentes estilos arquitectónicos presentes, muitas vezes cruzados no mesmo edifício, pelas reconstruções ou remodelações que foram sofrendo: românico, gótico, barroco, neoclássico, contemporâneo... Seria interessante, aliás, que no roteiro se tivessem publicado alguns dados “biográficos”, sobre anos e épocas de construção ou remodelações e acrescentos principais, autores conhecidos e peças mais importantes, por exemplo.
Numa crítica publicada na revista E, do Expresso, José Luís Porfírio descreve o que se vê: “A noite parece crescer a partir de um chão granuloso que se lamenta debaixo dos nossos pés convertidos em visão desta peça singular, o escuro cresce para melhor exaltar a luz deitada num esquife flutuando sobre o chão de ferro que geme e nos desequilibra. Ao longe, não sabemos onde nem quando, a água corre, temperando, cristalina, os lamentos do chão. Vemos com os ouvidos e vemos em estereofonia sentindo o piso irregular e a água correndo algures, porém, o mais importante é a luz que transfigura a matéria...”
Na Capela de Nossa Senhora da Bonança, conhecida como Capela do Rato, em Lisboa, pode ainda ver-se, entre quinta-feira e domingo (dias 6 a 9 de Setembro) a instalação “Junto ao chão”. Serão os últimos dias para poder ver esta mostra original, em que as cadeiras foram retiradas do espaço litúrgico e substituídas pela instalação do artista plástico Carlos Nogueira e textos do poeta Manuel de Freitas.
Essa matéria, escreve ainda José Luís Porfírio, é “escória de ferro escondida pela sombra, um leito de sal flutuando sobre a noite, é o foco de luz que o ergue do chão, e é o gravador trazendo a água e o vento”.
«capela/ escória de ferro, ferro, sal, luz,/ o som do vento e da água que corre,/ bonança» são os elementos presentes e evocados na instalação, que extraiu os bancos do espaço e o imergiu na penumbra, cobrindo o claro chão liso de porosa gravilha cinza.
«Junto ao chão é também o lugar de um corpo que só pode olhar para o alto, e tentar descobrir, como diz São João da Cruz citado por Carlos Nogueira, o caminho para chegar das coisas que vêem às coisas não se vêem», escreve Luísa Soares de Oliveira na folha da exposição. (Aqui podem encontrar-se elementos sobre o artista.)
Matéria, no texto citado, são ainda “os nossos corpos intrigados e hesitantes, barulhentos de vozes orientando-se nessa penumbra, ou o meu corpo isolado sem mais ninguém”, numa relação com o espaço que nos pode levar a “uma capela imaginária que pode morar dentro de nós.”
Na sua crónica semanal na revista E, José Tolentino Mendonça escreveu tambémsobre esta exposição. Transcreve-se o texto a seguir:
Foi o escritor Gonçalo M. Tavares que um dia, na Capela do Rato, me disse: “vocês poderiam retirar todas estas cadeiras e encher de areia o pavimento, para lembrar aos crentes que a fé é experiência de nomadismo e estrada, mais do que confortável sedentarismo”. Ele talvez nem se recorde já, mas, desde aí, isso ficou-me na cabeça e tenho contado muitas vezes esta história, embora, confesso, mais como repto a uma desinstalação interior do que propriamente como desafio a uma reconfiguração do espaço sagrado em tais moldes.
as fotos deste texto são de peças que podem ser vistas na exposição
Será um momento irrepetível: cinco nomes da arquitectura, que já deixaram marcas importantes na arquitecura portuguesa e, em especial, em obras encomendadas pela Ordem dos Pregadores (Dominicanos) estarão este sábado, dia 12, a partir das 16h, num debate com o título Diálogos com a Modernidade. São eles Diogo Lino Pimentel, autor da Capela do Seminário do Olival (Aldeia Nova, Ourém, 1964-67), Luiz Cunha, que desenhou o Convento de Nossa Senhora do Rosário (Fátima, 1962-65), José Fernando Gonçalves e Paulo Providência, autores do Convento de São Domingos (Lisboa) e João de Almeida, que trabalhou com o padre dominicano francês Marie-Alain Couturier (1897-1954), responsável da revista L’Art Sacré, símbolo da renovação artística em França. A conversa, que terei o gosto de moderar, terá ainda a participação de frei Bento Domingues, que tem acompanhado os movimentos de renovação da arquitectura e da arte religiosa desde a segunda metade do século XX. Diogo Pimentel, Luiz Cunha e João de Almeida integraram também o Movimento de Renovação da Arte Religiosa (MRAR), que teve uma importância decisiva nas mudanças ocorridas em Portugal, neste âmbito, nas décadas de 1950-70.
O debate é uma das actividades paralelas à exposição Dominicanos – Arte e arquitectura portuguesa; Diálogos com a modernidade, patente no Convento de São Domingos (Lisboa), até 10 de Junho. Mas a exposição, além de mostrar peças de arte, desenhos e maquetes, faz do próprio convento um dos seus objectos, como se diz nesta reportagem do Público(sobre o convento e a sua arquitectura, publiquei no livroVidas de Deus na Terra dos Homens, ed. Círculo de Leitores, 1999, um texto que pode ser lido aqui).
Organizada pelo Centro de Estudos de História Religiosa, da Universidade Católica Portuguesa (CEHR-UCP), e pelo Instituto São Tomás de Aquino, da Província Portuguesa da Ordem dos Pregadores, a exposição tem curadoria pelos arquitectos João Alves da Cunha (CEHR-UCP), João Luís Marques (CEAU-Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto), Paulo Miranda (ISCTE-IUL) e Pedro Castro Cruz. Esta exposição insere-se ainda no programa das comemorações dos 800 anos da Ordem dos Pregadores, que em Portugal incluiu a organização de três jornadas de estudo, das quais resultou já um livro de actas.
(foto acima, à direita: São Domingos, de José Grave, escultura do Convento dominicano de Fátima.
Na apresentação da exposição, pode ler-se o seguinte texto:
No século XX, a arte e a arquitetura religiosa conheceram um percurso agitado como nenhum outro na sua já longa história. Num tempo em que a modernidade desafiou as respostas conservadoras, reivindicando o seu lugar na história e na vida da Igreja, a Ordem de São Domingos participou ativamente neste processo, tendo a sua ação dado origem a algumas das mais emblemáticas obras da história da arte religiosa moderna.
ilustração de Serge Bloch (texto de Frédéric Boyer),
em Bible - Les récits fondateurs (ed. Bayard)
Na passada segunda-feira, decorreu em Lisboa uma reunião da Associação Bíblica Portuguesa (ABP) que, entre outras coisas, fez o ponto de situação da nova tradução da Bíblia, que está a ser preparada a pedido da Conferência Episcopal Portuguesa. Esta tradução terá a colaboração de biblistas portugueses e lusófonos, como se descreve nesta notícia.
Em entrevista a Ângela Roque, na Rádio Renascença, o presidente da ABP, padre Mário Sousa, falou das novas perspectivas sobre esta tradução e as diferenças que se poderão vir a encontrar, em relação a anteriores trabalhos – nomeadamente, à tradução que Frederico Lourenço tem vindo a publicar, em vários volumes, desde 2016 (ed. Quetzal). A entrevista pode ser lida aqui.
A propósito precisamente da tradução de Frederico Lourenço, publiquei no número do Inverno 2017 da revista Ler dois textos que a seguir se reproduzem.
AS CHAVES DE LOURENÇO PARA ABRIR A BÍBLIA
Frederico Lourenço anda às voltas com a Bíblia e assim continuará por mais dois anos. Ganha o texto bíblico, mas também os leitores: de uma vez só, ficam com uma nova tradução da Bíblia, e um precioso conjunto de chaves de leitura sobre o contexto histórico, autores, processos de composição do texto, linguística ou personagens bíblicas.
Uma das características que se destaca do trabalho de Frederico Lourenço com a tradução da Bíblia – cujo terceiro volume, contendo os livros proféticos do Antigo Testamento, foi publicado em Outubro passado – é a do corpusjá constituído pelas diferentes introduções (e pelas notas, que complementam muita da informação). Além da tradução propriamente dita, Frederico Lourenço acaba por realizar um segundo trabalho, de grande qualidade, com as introduções e as notas que escreve e constituem já uma importante porta de entrada na Bíblia e nos seus livros.
Quem queira ter o mínimo de informação sobre traduções do texto bíblico, estado dos debates e os diferentes argumentos na exegese histórica e contemporânea, autores e composição dos textos, questões linguísticas atinentes à tradução, história e processo de constituição do cânone bíblico, manuscritos e variantes ou objectivo literário dos textos no seu contexto histórico, entre outros temas, tem aqui um importante guia de leitura. Como também pode ficar a conhecer melhor figuras importantes da narrativa bíblica ou ainda perceber que cada um dos textos da Bíblia muitas vezes não tem um autor único – por exemplo, Mateus, Marcos, Lucas ou João – mas muitos (ou, pelo menos, autores anónimos).
Igreja do Seminário da Luz (foto reproduzida daqui)
Os 50 anos da igreja do Seminário da Luz (Lisboa), da Ordem dos Frades Menores, ou franciscanos, são o
pretexto para um ciclo de três conferências a realizar durante os próximos
meses e que culminam com a edição de um livro sobre a mesma. Amanhã, dia 16, às 21h (com entrada pelo
Largo da Luz, 11) realiza-se a primeira conferência, na qual o arquitecto
João Alves da Cunha falará sobre a história e arquitectura da igreja e o
curador e professor universitário Paulo Pires do Vale abordará o património
artístico: vitrais, betão e alfaias litúrgicas. As outras conferências decorrerão
a 16 de Junho (sobre o palácio e os jardins do seminário) e a 12 de Outubro
(sobre pessoas e percursos pelo seminário). A edição do livro está prevista
para 8 de Dezembro.
Iconografia cristã – História, teoria e imagem é o título genérico
de uma acção de formação promovida pelo Secretariado Nacional para os Bens
Culturais da Igreja, no âmbito do Projecto Thesaurus.
O curso, em sete sessões, uma vez
por mês entre Fevereiro e Novembro, tratará, nas três primeiras sessões, as
fontes da iconografia cristã, a iconografia medieval e da Idade Moderna. As
restantes sessões serão dedicadas a diferentes temáticas: iconografia de Jesus,
de Maria, dos santos e dos anjos.
Esta acção, diz a informação divulgada,
pretende “proporcionar às instituições da Igreja uma dinâmica global de
actuação na área do Inventário”. Incide nas matérias “inerentes ao trabalho de
inventário, nos domínios do património móvel e integrado”, bem como nas “metodologias
de análise, identificação e descrição”, pretendendo ajudar a desenvolver
competências nas áreas da catalogação e classificação.
Embora prioritariamente destinada
a técnicos da área, a acção de formação está aberta também a quem pretenda obter
formação especializada no domínio da Iconografia Cristã.
A primeira sessão do curso decorre
dia 5 de Fevereiro, estando as inscrições abertas ainda até à próxima
quarta-feira, dia 31. Estruturada em 14 módulos, distribuídos pelas sete
sessões temáticas, a acção de formação decorre em Fátima. O programa completo e
outras informações estão disponíveis aqui.
Livro Pouco se sabe acerca de Maria de
Nazaré que, muito jovem, foi mãe de Jesus. Mas, como escreve Jacques Duquesne
(Maria, A Verdadeira História da Mãe de
Jesus, ed. Asa), “esta quase desconhecida foi representada de todas as
maneiras – com talento, ingenuidade ou estupidez – e sem ela a História da Arte
seria completamente diferente”.
A escassa dezena de referências dos
quatro evangelhos canónicos à sua pessoa contrasta com a maior importância que
lhe é dada nos apócrifos (os textos não aceites como autênticos ou divinamente
inspirados, onde até se “identificam” os pais de Maria, sobre os quais não há
certeza histórica nenhuma) e, mais ainda, com todas as alusões, invocações e
atributos que, ao longo da história, se centraram na sua figura.
Resume ainda Duquesne: “Esta
mulher ignorada pelos autores do seu tempo foi proclamada três séculos mais
tarde mãe de Deus, depois rainha e mãe da Igreja e mil vezes coroada. Ela foi –
e continua a ser – invocada por milhões de homens e mulheres. São-lhe
atribuídos milhares de milagres. Nunca ninguém no mundo inspirou tantos hinos,
cânticos, poemas, histórias.” E, numa alusão a fenómenos como Fátima, lembra o
jornalista católico francês (autor também de um Jesus que causou muita polémica) que esta mulher arrasta multidões
“para os lugares onde ela apareceu, onde ela falou e falou bem mais do que nos
Evangelhos, séculos depois da sua morte”.
Foi precisamente esse fascínio de
tantos milhões que levou as autoras deste “acervo” de arte a dar-nos um retrato
dos retratos desta mulher ímpar na história da humanidade. São 370 imagens
(quase todas pinturas, algumas esculturas e algumas fotos de santuários a ela
dedicados) aqui reunidas, que nos dão o mais belo das diferentes invocações,
factos miraculosos ou histórias relacionadas com Nossa Senhora, como
popularmente é tantas vezes designada.
Braga - O calvinista Jérôme Cottin abre o ciclo, o jesuíta Llyod
Baugh encerra
Paul Gauguin, Calvário Bretão- O Cristo Verde, 1889
(Musées Royales des Beaux-Arts de Belgique)
O ciclo de conferências “Quem dizeis vós que Eu sou?” – Visões e Imagens contemporâneas de
Cristo inicia-se na próxima quinta-feira, em Braga (Auditório Vita, junto
ao Seminário Nossa Senhora da Conceição, 18h-22h) com uma intervenção do
teólogo calvinista francófono Jérôme Cottin, que falará sobre Imagens contemporâneas de Jesus na arte dos
séculos XX-XXI: reflexão estético-cristológica.
A iniciativa pretende reflectir sobre os rostos de Cristo
na arte contemporânea. A propósito, diz o texto de apresentação do ciclo: “A verdadeira
arte é sempre expressão de uma visão do mundo e da história e do desejo espiritual
do ser humano. Estas sessões públicas de cristologia pretendem ser uma
oportunidade para a teologia académica entrar em diálogo profícuo com a arte
contemporânea, mais especificamente com a pintura e o cinema, enquanto lugares
intersticiais de sentido e de transfiguração existencial. Este ciclo será
certamente uma oportunidade para os estudantes, docentes de religião e o
público em geral acederem a outras fontes e fronteiras de reflexão nem sempre
frequentadas e habitadas.” (Aqui pode ler-se um texto mais longo sobre as
razões da iniciativa)
Professor na Universidade Protestante de Estrasburgo e de
Paris e docente associado no Instituto Superior de Teologia das Artes do
Theologicum do Instituto Católico de Paris, Jérôme Cottin irá abordar,
quinta-feira próxima, “os pressupostos bíblico-teológicos,
históricos-iconográficos, relacionados com a figura de Cristo ao longo dos
tempos, para depois apresentar pedagogicamente as diversas imagens de Cristo
presentes na arte dos séculos XX-XXI”. O seu objectivo será o de formular uma
reflexão estético-cristológica a partir das imagens contemporâneas de Cristo e
estabelecer as vias de um diálogo questionador entre teologia e a cristologia,
de um lado, e a cultura contemporânea, do outro.
Diz Jérôme Cottin, sobre o tema da sua conferência, que a
“arte tem, por vezes, ultrapassado a teologia” e que a liberdade de criação
artística tem sido recebida de formas diferentes pelos cristãos. “Certos
Cristos ‘chocantes’, que tiveram problemas na sua época, tornaram-se de seguida
modelos normativos: Caravaggio, Leonardo da Vinci… O século XX mostra-nos que
os Cristos ‘inculturados’, ou muito personalizados, são em geral teologicamente
mais verdadeiros que os Cristos saídos de uma tradição iconográfica que se
pretendia normativa ou fiel à ‘verdadeira imagem’, ao ‘verdadeiro Cristo’”.
Autor de uma vasta bibliografia (entre cujos títulos se
contam La mystique de l’art. Art et
christianisme de 1900 à nos jours, Dieu
et la pub e Jésus-Christ en écriture d’images.
Premières représentations chrétiennes, Cottin é ainda membro do comité
científico da conhecida revista Arts Sacrés, membro do conselho científico da
colecção Estética e espiritualidade, das Editions modulaires européenes
(Bélgica) e membro da rede internacional Art and Christianity Enquiry.
A 22 de Abril, a segunda conferência deste ciclo (organizado
em conjunto pela Faculdade de Teologia da Universidade Católica – pólo de
Braga, e o Auditório Vita), terá como interveniente o padre jesuíta canadiano Llyod
Baugh, que falará sobre a figura de Cristo no cinema contemporâneo, antecedido
pela exibição inédita do filme Su Re (Rei), de Giovanni Columbu.
Os encontros são de entrada livre e gratuita, sendo
necessária apenas a inscrição para aqueles que desejam tomar um breve jantar, a
servir no Auditório Vita, no intervalo da conferência. Mais informações: geral@auditoriovita.com ou secretaria.facteo@braga.ucp.pt.
Mark Wallinger, Eis o homem (1999), Hayward-Gallery-2014,