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sábado, 16 de fevereiro de 2013

Renovação da arte religiosa, um desafio que permanece


O programa Encontros Com o Património de hoje, na TSF, debateu a história e o papel do Movimento de Renovação de Arte Religiosa (MRAR), que marcou a arquitectura e as artes feitas em Portugal nas décadas de 1950-1970 no campo religioso do catolicismo.
O MRAR, que reuniu nomes como Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas, João de Almeida, Erich Corsepius, Luís Cunha e muitos outros, rompeu com o anacronismo existente entre a arte e a expressão artística religiosa e levou a arquitectura ao campo da intervenção social – tanto mais difícil quanto Portugal vivia então sob domínio do regime ditatorial do Estado Novo.
As opções do MRAR seriam confirmadas pela renovação litúrgica assumida pelo Concílio Vaticano II. O movimento deixou também uma herança importantíssima que ainda hoje faz escola no campo da linguagem arquitectónica. Alguns revivalismos que hoje se verificam, e que confirmam que a renovação da arte religiosa permanece um desafio, são também debatidos pelos intervenientes no programa: os arquitectos Diogo Lino Pimentel, José Manuel Fernandes e João Alves da Cunha. O programa pode ser ouvido aqui. (A foto é da Igreja do Sagrado Coração de Jesus, uma das principais concretizações das intuições do MRAR; esta e várias outras fotos da mesma igreja podem também ser vistas aqui, numa ligação que permite aceder a vários outros textos acerca deste movimento.)
  



sábado, 22 de dezembro de 2012

Arte sacra do Alentejo no Palácio de Belém



Exposição 

É no espaço expositivo dos jardins do Palácio de Belém que se pode ver a exposição “E um Filho nos foi dado”. Reunindo cerca de meia centena de obras de arte – pintura, escultura, paramentos, peças decorativas e alfaias litúrgicas –, a exposição tem como tema central o mistério da encarnação de Deus na pessoa de Jesus Cristo. “Uma realidade espiritual, mas também profundamente humana”, como se diz no texto de apresentação da mostra.
Com peças provenientes de museus, igrejas e colecções particulares, a exposição é uma iniciativa da Presidência da República, com organização do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja (DPHADB). E abrange também uma grande diversidade temporal, percorrendo desde o século XV até a actualidade (inclui duas peças contemporâneas: uma Natividade “ao profano”, desenhada por Jorge Vieira em 1962, e uma pintura de António Paizana), passando pelo gótico, Renascimento ou maneirismo. Algumas das peças nunca tinham sido antes mostradas ao público ou saído do seu contexto habitual – e esta é mais uma razão que nos deve levar a ver esta mostra.
Na apresentação da mostra, o director do DPHADB, José António Falcão, nota que a mostra “dá a primazia à vivência comunitária da devoção ao Deus Menino, sinal da identidade de uma região que se orgulha das suas tradições natalícias, mas propõe uma reflexão mais alargada em torno do diálogo da cultura com a religião”.
Esse diálogo está patente, por exemplo, em peças que vão buscar a sua inspiração a episódios referidos nos evangelhos apócrifos. Mas quer nesses casos, quer nas peças que se baseiam nos quatro evangelhos canónicos a profunda humanidade dos rostos, das situações e dos olhares é uma das marcas profundas, na significação desse mistério central do cristianismo que é a encarnação. E que aqui se traduz também na referência ao episódio do pecado de Adão e Eva (num prato medieval para a recolha de esmolas) ou nos episódios referidos directamente ao nascimento de Jesus: a Anunciação do anjo a Maria, o nascimento em Belém, a infância em Nazaré.

E um Filho nos foi dado
Museu da Presidência da República
Terça a Domingo, das 10h às 18h; encerra dias 24 e 25 de Dezembro e 1 de Janeiro
Até 14 de Janeiro

Nas imagens:
em cima: Sacra Conversação, de Francisco Vieira Lusitano. Séc. XVIII (terceiro quartel). Beja, colecção particular.
ao lado: A Virgem e o Menino, Escola italiana. Séc. XVI (primeiro terço). Beja, Museu Episcopal.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A liturgia, uma arte total


A liturgia deve ser uma arte total, defendeu esta quinta-feira, em Lisboa, o teólogo e frade dominicano Bento Domingues. Falando nas jornadas “Liturgia, arte e arquitectura – nos 50 anos do Concílio Vaticano II”, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), frei Bento afirmou: “Não se pode ter uma boa igreja com uma decoração miserável; nem uma boa decoração com uma música péssima ou uma homilia desgraçada.”
Bento Domingues, que nas suas intervenções públicas tem insistido na ideia da beleza na acção litúrgica, acrescentava: “Na liturgia, a envolvência é total porque é presença e símbolo e só é eficaz quanto mais simbólica for.”
Referindo-se ao poema de Ruy Belo, “Nós, os vencidos do catolicismo”, frei Bento lamentou: “Nós, os celebrantes, tornamos Deus impossível.” E defendeu que a Constituição do Concílio Vaticano II sobre a liturgia, “Sacrossanctum Concilium”, um “bom documento”, não tem “suficientemente presente” a dimensão do mistério e da simbólica.
João Norton de Matos, padre jesuíta, falou precisamente da importância do simbólico a partir da construção do espaço litúrgico. Citou, por exemplo, o modelo da basílica romana apropriado pelas igrejas, em que o altar foi colocado ao meio, e o coro das catedrais medievais que corta completamente o espaço da assembleia, como é visível em algumas cidades de Espanha.
É esta “igreja dentro da igreja”, com o altar avançado e a assembleia envolvente, que pode ser modelo para comunidades litúrgicas contemporâneas, exemplificou. O padre João Norton referiu ainda o que se passa na Igreja de Santo Inácio, em Paris: a centralidade é colocada no ambão onde são proclamadas as leituras, na primeira parte da missa, e no altar onde se celebra a eucaristia, durante a segunda parte – pelo meio, as pessoas movimentam-se.
“Hoje, a liturgia deixou de ter símbolos, tem formalidades que já não são símbolos”, disse ainda o padre Arlindo de Magalhães, responsável da Comunidade Cristã da Serra do Pilar, em Gaia. “O momento actual pede que as igrejas recuperem os símbolos”. E citou o exemplo da fracção do pão, que deixou de ser feita. “Como se anuncia o evangelho aos adultos? Sem formação de baptizados conscientes, não há Igreja.”
Paulo Vale, curador e professor na UCP, falou do carácter iniciático da arte, à semelhança do que acontece com a liturgia, que também “não é compreensível sem explicação”. Paulo Vale colocou em contraste a arte autêntica e o “kitsch”, e contou histórias como a do Cristo da igreja de Assy (ver foto reproduzida daqui), de Germaine Richier, que foi contestado por não corresponder à estética da primeira metade do século XX. E defendeu depois que a Igreja devia ser capaz de “profanar a ideia da arte como algo separado” da vida. Ao contrário, deve propor-se a ideia de que a arte e  a vida estão ligadas.
Dos símbolos  e do espaço falou ainda Joaquim Félix de Carvalho, padre que integra a equipa de formação do seminário conciliar de Braga. A partir do caso da Capela Árvore da Vidareferiu o espaço como o segredo daquele lugar litúrgico.
Estas jornadas prosseguem nesta sexta-feira. O programa completo está aqui.


sábado, 27 de outubro de 2012

Modos de usar o corpo na oração


 Pode o corpo ajudar à oração? Pode haver sensualidade nos modos de rezar? Saberá o corpo rezar melhor que a alma? É possível pôr deficientes ou idosos a rezar através dos afectos? E o que pode um beijo? Ou o que têm em comum um sermão de Bernardo de Claraval sobre o Cântico dos Cânticos, uma tela como a Conversão de São Paulo, de Caravaggio (ao lado), o Êxtase de Santa Teresa, de Bernini, ou Bill T. Jones a dançar a Chaconne?...
As III Jornadas de Teologia Prática, sobre “sentidos, práticas e figuras orantes”, que esta sexta-feira decorreram na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, provocaram o debate sobre o lugar do corpo na oração.
“Deus passa pelo corpo, por um corpo encarnado. E é nesse corpo que tenho que viver a oração”, disse Helena Presas num dos painéis. Catequista no Campo Grande (Lisboa) e animadora de um grupo de oração para idosos, Helena Presas destacou o valor dos afectos na experiência da oração: “Muitas destas pessoas já não têm afectos há anos. Ou nos entregamos a Deus e deixamos que a Palavra de Deus nos encha de alegria ou o que está à frente é o sofrimento, o vazio, a doença e a morte.”
Responsável do Movimento Fé e Luz, que trabalha com pessoas com deficiência, Alice Caldeira Cabral falou da necessidade de acolher os limites e de tornar os sacramentos acessíveis a todos. E destacou igualmente as linguagens do corpo na oração: o gesto, o toque, os silêncios, as músicas, os símbolos e a participação activa são aspectos fundamentais para a oração. Helena Presas acrescentou, a propósito do sentido de pertença: “Hoje, na cidade, as pessoas não pertencem a coisa nenhuma; e mesmo na Igreja pertencem muito pouco.”

O que pode um beijo?
Num outro painel, Paulo Pires do Vale, professor da UCP e da Escola Superior de Educação Maria Ulrich, referiu-se à oração como “hospitalidade carnal”, citando a tela de Vermeer, Cristo em Casa de Marta e Maria. Esta dimensão vai mais fundo, “como uma penetração no próprio corpo”, numa obra como o Êxtase de Santa Teresa, de Bernini, acrescentou. No texto que dá origem a esta obra, Santa Teresa fala de “uma lança de fogo, que repetidamente [se] cravava no [seu] corpo e penetrava o [seu] coração”. Uma linguagem que remete para metáforas de natureza sensual e sexual – de tal modo que os confessores pediram a Teresa d’Ávila que não as referisse.
Paulo Vale perguntou, com Espinoza e Deleuze: “O que pode um corpo?” Para responder, citando o filósofo: “A alma e o corpo são uma só e a mesma coisa; ninguém determinou até ao presente o que pode o corpo; o corpo, só pelas leis da sua natureza, pode muitas coisas que causam espanto à própria alma.” O corpo, acrescentava Paulo Vale, “sabe primeiro que nós” o que se passa, por exemplo nos sintomas de uma doença ou no modo como nos relacionamos com alguém de quem gostamos, mesmo antes de termos consciência dessa paixão...
Saberá então o corpo rezar melhor que a alma? “O corpo é esse lugar aberto onde o mundo e os outros se tornam a nossa própria carne. Antes de nos mostrar que somos finitos, mostra que somos abertos.” Bataille, acrescentava Paulo Vale, fala do erotismo como a negação do fechamento.
E o que pode um beijo? Num sermão sobre o Cântico dos Cânticos, São Bernardo explica acerca da primeira frase daquele livro bíblico (“Beija-me com um beijo da tua boca”): “O verbo que encarna é a boca que beija; a carne que ele toma é a boca que recebe o beijo; o beijo que se forma sobre os lábios é a pessoa de Jesus Cristo, mediador entre Deus e os homens.” Bernardo sugeria o beijo nos pés, nas mãos e na boca como símbolo da progressão espiritual.
A importância do corpo na oração, para lá de todos os discursos, parece exigir, como nas palavras de Rainer Maria Rilke, "muda a tua vida", concluía Paulo Vale. 

Liturgias rigorosamente coreografadas
Professora na Escola Superior de Dança, Maria José Fazenda referiu-se aos rituais litúrgicos como “rigorosamente coreografados”.
Fazendo um percurso pelos dois últimos séculos da história da dança, falou da “metáfora do desejo de ascender” presente no bailado romântico, na comunhão do corpo com a natureza que Isabora Duncan pretendeu ou dos próprios corpos na oração, como no uso de um canto gregoriano por Ruth St Denis. Ou ainda na descida à terra que o corpo masculino propõe, como nos bailados de Ted Shawn.
O corpo pode ser esse lugar que oscila entre o movimento e a redenção. Como na espantosa criação de Bill T. Jones em “Chaconne”, com música de Bach. Uma peça inspirada, aliás, na experiência do próprio compositor, quando um dia chegou a casa e teve a notícia de que a sua mulher morrera. “Quando a deixei ela estava muito fraca. Tudo o que ela queria era cantar. Canta.”, propõe a coreografia de Jones [no vídeo a seguir, cedido por Maria José Fazenda a partir do DVD "Chaconne", realizado por D. Kent e editado por Bel Air Media (2008), pode ver-se um excerto do final dessa criação; para outras notícias sobre as jornadas, ler aqui e aqui].



quinta-feira, 21 de julho de 2011

"Árvore da vida" ou uma capela

Hoje recomendamos a leitura das imagens ilustradas por um texto (o contrário também vale) que apresentam a nova capela do Seminário Conciliar de Braga, intitulada Árvore da Vida e que estão disponíveis no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura da Igreja Católica. O texto é de Joaquim Félix de Carvalho e as imagens de Asbjörn Andresen e Sérgio Conde, e foram apresentados recentemente num colóquio em Fátima.

Em certa medida, pode dizer-se que a obra é o produto do lento amadurecer da sensibilidade e criatividade de um grupo, de uma comunidade, sem retirar, com isso, os méritos aos artistas que deram forma ao sonho. Ora vejam:

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Músicas que falam com Deus (6) - Liturgia e poesia em disco

O CD “Vento”, interpretado pelos “Sete Lágrimas”, que corresponde a uma Missa de Pentecostes encomendada pela Capela do Rato, em Lisboa, inclui dez composições concebidas a partir de textos litúrgicos e poemas de Teixeira de Pascoaes, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário Cesariny, Maria Gabriela Llansol e José Augusto Mourão. O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura disponibilizou os textos que acompanham o disco, bem como uma das faixas.
| ÁUDIO |

terça-feira, 27 de julho de 2010

Visitas virtuais tridimensionais ao Vaticano

É possível visitar agora virtualmente alguns dos lugares mais significativos de Roma e do Vaticano, oferecendo detalhes que nem sequer ao vivo podem ser apreciados, segundo informação hoje divulgada pela agência Zenit.
Depois da Capela Sistina, que já se encontrava online desde Março,  é agora a vez do maior templo da Igreja Católica, no qual se guardam os restos do apóstolo Pedro, e ainda da Basílica de São Paulo Fora dos Muros e da Basílica de São João de Latrão.
Segundo a Zenit, o projeto envolveu, durante dois anos, estudantes da Universidade de Villanueva, na Pensilvânia (Estados Unidos), a quem foi permitido fotografar estas joias da arte de todos os tempos.
Milhares de fotografias foram tiradas recorrendo a uma avançada câmara motorizada sobre um trilho e posteriormente compostas e unidas digitalmente para criar um panorama virtual em projeção tridimensional. Os peregrinos e turistas virtuais podem utilizar o zoom e aproximar-se dos detalhes das obras de arte graças à elevada resolução.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O catolicismo de Andy Warhol


(Detalhe de The Last Supper, de Andy Warhol)
A notícia vinha há dias no Yahoo News e dá conta de que Andy Warhol, para além da sua fase mais conhecida da pop art, se virou, nos anos 80, etapa final da sua vida, para uma fase inspirada, ou pelo menos referenciada, ao imaginário cristão, em especial as suas versões da Ultima Ceia. A exposição abre hoje no Brooklyn Museum sob o título "Andy Warhol: The Last Decade," e através dela se pode descortinar uma dimensão da vida do artista que é relativamente desconhecida: a sua fé em Jesus Cristo.