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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

À procura da Palavra - A verdade do "não"


Crónica

“Tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.” (Evangelho de S. Lucas 4, 13) - Domingo I da Quaresma
                    
O Papa trocou-me as voltas. Estava eu, de armas e bagagens, dedos sobre o teclado, à porta do deserto para reflectir convosco o episódio das tentações de Jesus, quando a notícia correu como fogo em seara seca: “O Papa vai abandonar a liderança da igreja dia 28”! E todas as boas intenções de reflexão passaram para segundo plano perante o espanto de tal notícia. Chovem e vão continuar a chover inúmeros comentários, a propósito e a despropósito, e tinha prometido a mim mesmo não engrossar tal enxurrada mas não resisti à tentação.
Primeiro alegrou-me a capacidade de Bento XVI nos surpreender (e surpreender o mundo) ao mostrar que a Igreja é mais do que ele, e que Deus nos confia missões mas ninguém O substitui. A inteligência e liberdade desta decisão são um verdadeiro sopro de vitalidade para um serviço que não pode viver acorrentado a nenhum poder despótico, e ajude a reflectir corajosamente a autoridade e a co-responsabilidade na vida eclesial. É preciso evitar cair na tentação de entrar em comparações com a vida de João Paulo II. Quando o amor à verdade e a consciência de limites pessoais se exprimem numa real fragilidade, não tocamos também aí a grandeza do amor de Deus?   
Às vezes as tentações não se manifestam em propostas novas mas no arrastar de modelos antigos. Não é um pouco isso que Jesus tem de vencer no seu deserto (que vai ser também o nosso)? Que modelos mais antigos, do que o poder só em benefício de si e dos seus, o ter para dominar os que nada têm, e a ostentação e soberba de querer pôr Deus ao seu serviço? “O diabo sabe muito porque é velho” costuma dizer o nosso povo, assim como são velhas também as suas propostas. Para isso conta com a inércia e o acomodamento de quem não ousa sonhar nem acreditar que a vida pode ser diferente e mais feliz. Somos nós quando pensamos que “só repetir é bom”, que “sempre se fez assim”, e que fazemos da vida, da fé, e até do amor, uma organização burocrática e planeada. Encanta-me a surpresa e a novidade com que Jesus contagia a nossa vida. Diz vários “nãos” porque há um “sim” sempre maior e mais belo adiante de cada “não”. É neles que nos convida a apostar, com o risco de tudo e a verdade de não sermos “super-homens”. Mas de sermos infinitamente amados! E não é na força do amor de Jesus que a Igreja e o Evangelho têm os fundamentos? E não é esse mesmo amor que todos os dias nos estimula a viver com espanto e agradecimento? Que “nãos” precisamos dizer para que seja mais claro e feliz o “sim” que nos aquece o coração?
(Texto do P. Vítor Gonçalves no jornal "Voz da Verdade" deste domingo)
Foto © Daniel Rocha: o Papa Bento XVI no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, em Maio de 2010

sábado, 16 de fevereiro de 2013

E depois da sucessão?


Crónicas

Na sua crónica de hoje, no DN, Anselmo Borges pergunta o que virá depois da renúncia de Bento XVI. Recordando o seu trajecto de teólogo, lembra uma citação de Ratzinger, que vem a propósito da decisão de renúncia, mas também de outras questões debatidas no interior da Igreja: "Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se for necessário, até contra o que disser a autoridade eclesiástica. O que faz falta na Igreja não são panegiristas da ordem estabelecida, mas homens que amem a Igreja mais do que a comodidade da sua própria carreira." Anselmo Borges termina dizendo que o próximo Papa pode ser europeu ou latino-americano.
A sucessão de Bento XVI é também o tema da crónica de Fernando Calado Rodrigues no Correio da Manhã de sexta-feira. Comparando o pontificado do Papa Ratzinger com o do seu antecessor, Calado Rodrigues diz que o próximo Papa pode ser europeu ou norte-americano.
(Foto © Daniel Rocha: o Papa Bento XVI em Lisboa, em Maio de 2010)




sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

"Seria errado ler o gesto do Papa como um simples gesto de renúncia"

A revista La Civiltà Cattolica publica hoje um editorial sobre a decisão do Papa Bento XVI de dar por terminado o seu ministério, que merece ser lido com atenção, atendendo ao carácter quasi-oficial desta publicação. Desse texto, intitulado «Una decisione di grande importanza per la vita della Chiesa", transcrevemos, com tradução nossa, o trecho seguinte:
[Crédito da foto: Keystone]
« (...) Seria errado ler o gesto do Papa como um simples gesto de renúncia por causa 
da debilidade física motivada pela idade, razões de fadiga ou algo similar. A sua decisão não está ligada a si mesmo e à sua condição física e psicológica, mas à missão da Igreja. De fato, o Papa acrescentou [no discurso de renúncia]: "No mundo de hoje, sujeito a mudanças rápidas e agitado por questões de grande importância para a vida da fé, para guiar o barco de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário o vigor tanto do corpo como da alma (etiam vigor quidam corporis et animae necessarius est). 
Isto que acabamos de mencionar é, em nossa opinião, a passagem decisiva e central, o coração da comunicação do Papa acerca da sua decisão. Na verdade, nestas poucas linhas podem encontrar-se as razões profundas para o seu gesto. O Papa renuncia ao ministério petrino não porque se sente fraco, mas porque está consciente de que estão em jogo desafios importantes que requerem uma energia nova. 
Por conseguinte, o Papa, também com este ato, pretende exortar a Igreja. Imagina-a "vigorosa", e portanto corajosa para enfrentar os desafios da rápida mudança (in mundo nostro temporis rapidis mutationibus subiecto) assim como os desafios de temas de grande relevância para a vida da fé (quaestionibus magni ponderis pro vita fidei). O gesto do Papa não é uma renúncia. É antes um gesto de humildade e de liberdade. Ele sabe que levou o seu ministério até ao fim. Agora dá-se conta de que a situação que o mundo e a Igreja estão a viver mudou completamente, mesmo em relação a alguns anos atrás.Renunciando ao pontificado Bento XVI está, assim, a dizer algo à Igreja de hoje: convida-a a não ter medo, a investir energias na abertura aos desafios e problemas, a não temer a rapidez e o peso das mudanças. 
O Papa sabe que é precisa muita energia para tudo isso e, diante de Deus e da sua consciência, dá-se conta de que não a tem. Por isso deixa para outros o testemunho, retirando-se em oração e em silêncio. Mas, de facto,  não sem dizer que a razão para a sua acção não é renúncia, mas uma visão aberta sobre o mundo e a certeza interior da vocação da Igreja. Bento XVI tem enfrentado muitos desafios. Agora passa o testemunho, de modo a que a missão esteja sempre no centro. É um gesto que não é difícil localizar no coração de seu magistério. (...)»

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Um colégio muito do Norte para uma Igreja cada vez mais do Sul


O Papa Bento XVI afirmou, na sua declaração de resignação, que não irá interferir na escolha do seu sucessor. Podemos e devemos acreditar na bondade desta afirmação. Mas há uma dimensão que não deve ser esquecida: a escolha do seu sucessor é fortemente condicionada pelo actual Papa, já que a maior parte dos nomes foram já nomeados por ele.  
Outro dos aspectos decisivos na composição do colégio cardinalício é a geografia: dos 117 eleitores do novo Papa, a maioria é do Norte: há 61 europeus (quase metade dos quais, 28, são italianos) e 14 norte-americanos (11 dos Estados Unidos e três do Canadá); ou seja, 75 cardeais. Mas, actualmente, a maioria dos crentes está no sul do mundo; na Europa, estão apenas 24 por cento dos 1,2 mil milhões de católicos existentes. A infografia do La Croix, aqui reproduzida, pode ajudar a entender o peso relativo de cada país e de cada continente neste colégio selectivo.
Dados mais pormenorizados podem ser lidos aquicom a ressalva de que estes números não têm em conta os seis cardeais nomeados em Novembro de 2012 (cinco dos quais de fora da Europa, para tornar menos notório o grande desequilíbrio ainda existente).
Claro que este peso da Europa não é estranho ao próprio Bento XVI; preocupado com a insignificância da presença cristã no “velho continente”; a própria escolha do nome para o seu pontificado, evocando São Bento, fundador do monaquismo contemporâneo e padroeiro da Europa, deu a entender até que ponto a Europa era prioritária para Ratzinger. Aqui pode ler-se um perfil deste Papa, que pode ajudar a entender algumas das questões que Bento XVI transportou consigo neste pontificado que terminará a 28 de Fevereiro.
Algumas das questões que o sucessor de Ratzinger terá que enfrentar prendem-se, assim, com a maior internacionalização e democratização da Cúria. Já agora, a Igreja terá que começar a reflectir também sobre o modo de eleição do Papa, que não pode continuar a ser escolhido (apenas) pelo colégio dos cardeais, que resulta da escolha pessoal do Papa e é uma instituição nascida já no segundo milénio do cristianismo. A participação de representantes dos episcopados de mundo inteiro, num catolicismo cada vez mais globalizado, tem que ser cada vez equacionada. 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Renúncia de Bento XVI: o que se diz pelo Twitter

O Twitter, o mais recente dos media sociais a que o Papa Bento XVI tinha aderido, foi também - e certamente continuará a ser - um espaço de comentário interessante, desde que se conheceu a notícia da renúncia papal. Deixo aqui alguns dos tweets, numa escolha e leitura necessariamente subjetivas (inclui, em primeiro lugar, os da primeira jornalista que, por saber latim, foi também a primeira a espalhar a novidade):


Giovanna Chirri ‏@GiovannaChirri B16 si e' dimesso. Lascia pontificato dal 28 febbraio  
Giovanna Chirri ‏@GiovannaChirri The #Pope's Latin is very easy to understand 
Michael Lucci ‏@michaellucci @LOsservatoreUSA @Pontifex Thank you, Holy Father,for your humility,& your conviction. What you've done with God's grace inspires me always
Sor Lucía Caram ‏@sorluciacaram Gracias Benedicto:tomamos nota de tu humildad y pedimos al Espíritu k guie a la Iglesia:AL ESPIRITU k te animó a ti y no a "otros" espiritus  
James Martin, SJ ‏@JamesMartinSJ Leaders can learn a lot from a pope who knows that he is not indispensable. He is not Christ. He was only his Vicar, and only for a time.  
Gian Guido Vecchi ‏@gvecchi  Onore alla grandissima @GiovannaChirri, la vaticanista dell'Ansa che ha fatto lo scoop mondiale, il primo annuncio delle dimisioni del Papa!  
Jung Mo Sung ‏@jungmosung Que junto com o novo papa venha um novo tipo de papado. 
Jung Mo Sung ‏@jungmosung Há católicos q vêem o papado como sinal de unidade da ig católica, outros como autoridade máxima a qm devemos obediência. Sou do 1o grupo.  
Elisa Pires ‏@licapires"Obrigado Bento XVI por nos lembrar que o 'supremo e eterno pastor da Igreja' é Jesus Cristo. Nós passamos, somos...http://fb.me/KEHKBHzE  
Giovanna Chirri ‏@GiovannaChirriCari amici di twitter, meno di 140 battute bastano per le vere notizie.grazie a tutti per affetto. Chr  
Redes Cristianas ‏@rrcristianas Hoy en RRCC: Juan José Tamayo: “Este Papa ha sido el gran Inquisidor” Marta Castro http://goo.gl/fb/V6ddO   
Redes Cristianas ‏@rrcristianas Hoy en RRCC: ¿Quién será el sucesor de Benedicto XVI? Juan Arias http://goo.gl/fb/TO5hh   
Redes Cristianas ‏@rrcristianasHoy en RRCC: ¿El final de una etapa? Una dimisión inesperada Juan Antonio Estrada goo.gl/fb/WUd0M 
CatalunyaReligió.cat ‏@catreligio Un pontificat per aclarir la pederàstia i airejar la cúria:http://bit.ly/WWwmtq   
Catholic News Svc ‏@CatholicNewsSvc Don't worry about being imperfect when called to vocation, pope says: http://bit.ly/12nG74i  #CNSstory  
The Associated Press ‏@APPope Benedict XVI stumbled trying to right troubled church:http://apne.ws/VPTZae  -CC 
James Martin, SJ ‏@JamesMartinSJ Prayer: Let's pray for the Holy Spirit to inspire all those charged with electing the new pope. Never too early to pray "Come, Holy Spirit!" 
Catholic News Svc ‏@CatholicNewsSvc ICYMI: See any difference? http://bit.ly/VbaElT  Side by side B16 shortly after election and two days ago http://twitpic.com/c2uwhq   
HuffPost Religion ‏@HuffPostReligThe complex, troubling legacy of Pope Benedict http://huff.to/V06fVi   
lukecoppen ‏@lukecoppenA colleague just pointed out the Pope has chosen to resign on the World Day of the Sick Retweeted by HuffPost Religion  
Javier M-Brocal ‏@javierMbrocalCalculo que el cónclave empezará el 8-10 de marzo y no durará más de 48 horas. #Vaticano  
Andrea Tornielli ‏@TornielliPer la prima volta un Papa conviverà in Vaticano con un ex Papa. La sorpresa finale di Ratzinger  
Antonio Spadaro SJ ‏@antoniospadaroIl #Papa, i rapidi mutamenti e le grandi questioni: http://ow.ly/hDi6i 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Um acontecimento raro, mas que faz sentido

O Papa Bento XVI comunicou hoje no Consistório reunido em Roma a sua decisão de renunciar, com efeitos a partir do próximo dia 28.
A esmagadora maioria dos comentários até este momento emitidos a propósito de tão surpreendente e rara decisão foram no sentido de respeitar e, em alguns casos, admirar e louvar este gesto de Bento XVI. Ratzinger, recorde-se, invocou motivos de saúde que lhe têm acarretado, nos últimos tempos, um declínio da energia necessária ao cumprimento das suas atribuições.

O registo de resignações por arte de Papas é escasso, sobretudo se se puserem de lado casos em que tais decisões podem ter sido forçadas. O National Catholic Reporter elenca os casos seguintes, num texto do teólogo jesuíta Thomas J. Reese:

  • Clemente I (92? -101). Epifânio afirmou que Clemente abdicou do pontificado para Lino em favor da causa da paz, tendo-se tornado papa novamente após a morte de Cleto.
  • Ponciano (230-235). Alegadamente renunciou após ter sido exilado para as minas da Sardenha durante a perseguição de Maximino Thrax.
  • Ciríaco. Um personagem fictício criado na Idade Média que supostamente recebeu uma ordem do céu para renunciar.
  • Marcelino (296-304). Abdicou ou foi deposto depois de cumprir a ordem de Diocleciano para oferecer sacrifício a deuses pagãos.
  • Martinho I (649-655). Exilado pelo imperador Constâncio II na Crimeia. Antes de morrer, o clero de Roma elegeu um sucessor que ele parece ter aprovado.
  • Bento V (964). Depois de um mês no cargo, aceitou a deposição pelo imperador Oto I.
  • Bento IX (1032-1045). Bento demitiu-se depois de vender o papado ao seu padrinho Gregório VI.
  • Gregório VI (1045-1046). Deposto por simonia por Henrique III.
  • Celestino V (1294). Um ermita, eleito já com 80 anos,  renunciou sob o peso da função. Acabou por ser preso pelo seu sucessor.
  • Gregório XII (1406-1415). Resignou, a pedido do Concílio de Constança, a fim de ajudar a pôr termo ao Grande Cisma do Ocidente.