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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Avóspedagem: Aqui paga-se com companhia

Texto e fotos de Filipa Correia/Igreja Viva (Diário do Minho)




Aurora e Maria: empatia imediata desde o início

“Levanta-te perante uma cabeça branca e honra a pessoa do ancião.
Teme o teu Deus. Eu sou o Senhor.”
(Levítico 19:32)

Aurora, de 69 anos, “adoptou” uma neta. Tem dois filhos emigrados. O mais velho mora perto, mas “tem a vida dele”. Diz ser tímida e por isso não fazer muitas amizades. Recebeu Maria em sua casa, uma estudante que procurava alojamento. Faz-lhe companhia. Já não passa os dias e as noites só. E assim se cumpre o principal objectivo do programa Avóspedagem: alojar estudantes em casa de idosos para combater a solidão e o isolamento social da população sénior.

Um sofá para dois

Aurora, ou “D. Aurora”, como lhe chama Maria, nasceu numa aldeia em Vila Verde. Sentia-se só. Mudou-se para o centro de Braga para ter “mais companhia, ver mais pessoas”. Morava sozinha e o rebuliço da cidade não atenuou o seu sentimento de solidão. “Uma pessoa sente sempre quando está só. Quando tem alguém em casa há sempre aquele «bom dia», «boa noite», «até logo»”, explica. A noite era o que mais lhe custava. Entristecia-a o facto de “não ter ninguém com quem conversar, desabafar, dizer alguma coisa”. Hoje tem a companhia de Maria, uma estudante de 18 anos. Ao fim do jantar já não fica sozinha no sofá. Sempre que possível, sentam-se as duas a ver a novela.
Maria não tinha por hábito ver televisão, mas a hora da novela já passou a fazer parte da sua rotina. Natural de Lisboa, veio para Braga para estudar Psicologia. Quando soube que ficou colocada na Universidade do Minho, começou a procurar casa, tarefa que se revelou mais difícil do que imaginava. Uma pesquisa pelo site da Universidade deu-lhe a conhecer o programa Avóspedagem. O facto de não conhecer a cidade nem ninguém fazia com que se sentisse “desamparada”, por isso a oportunidade de morar com a “D. Aurora” pareceu-lhe a alternativa ideal. Vivem juntas desde Outubro. Maria não se arrepende. Não é de “grandes noitadas”, o que abona a favor da integração no programa. Mas sai com os amigos de vez em quando, geralmente durante a tarde. Cada uma tem as suas rotinas e garantem que não se privam de nada. Avisam quando saem e se vão demorar mais do que o habitual, apenas para que a outra não fique preocupada. E Aurora faz questão de frisar: “Quem manda nela são os pais, não sou eu”.
Os horários das refeições raramente coincidem. Aurora toma o pequeno-almoço fora. “Tenho algumas amigas que vêm ter comigo, conversamos um bocadinho e passo assim a manhã. A vida da Maria é diferente da minha”, conta. Por norma, as suas refeições são num horário mais tardio que as da estudante: “Eu só lá para as 21h é que como a minha sopinha. E ao almoço é igual, é sempre mais tarde, lá para as 13h30/14h. A Maria faz ao jeito dela, pode calhar de comermos ao mesmo tempo ou não. A gente entende-se”. Maria já conheceu uma das suas netas. “Ela gostou muito da Maria”, revela Aurora. “E eu também gostei muito da sua neta”, responde Maria, de imediato.