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terça-feira, 13 de novembro de 2018

3 Milhões de Nós: outra linguagem, outra criatividade, para chegar a mais pessoas

Texto de Maria Wilton


Ricardo Araújo Pereira: 
Todos estão “à procura: não acredito em Cristo, mas acredito nos cristãos
(foto reproduzida daqui)

O encontro 3 Milhões de Nós pretendeu renovar a linguagem para aproximar a mensagem cristã dos jovens

“Eu fiz a escola primária num colégio de freiras vicentinas, depois estudei num colégio de padres franciscanos; depois, então, estudei num colégio de padres jesuítas e, no fim, Universidade Católica. Muitas vezes as pessoas perguntam-me se é por isso que eu sou ateu. E não é: eu sou ateu apesar disso.”
Foi assim que, entre muitas gargalhadas, o humorista Ricardo Araújo Pereira começou a sua intervenção no encontro 3 Milhões de Nós, que encheu a Aula Magna, em Lisboa. Sábado passado, 10 de Novembro, cerca de 1700 pessoas – jovens, na maior parte – ouviram um conjunto de convidados a falar sobre temas como a espiritualidade, o mundo do trabalho ou a família. O título da iniciativa remete para o facto de, em Portugal, haver cerca de três milhões de pessoas com menos de 25 anos, que o encontro pretendia atingir, com criatividade e novas linguagens, como diria a irmã Núria Frau, responsável da iniciativa. 
O humorista falou sobre viver a espiritualidade sem fé, partindo da sua experiência de, não sendo crente, ter frequentado escolas católicas. Destacou o impacto que para ele teve o “padre Joaquim”, um professor de Português do colégio dos padres franciscanos. Recentemente falecido, a sua recordação emocionou o fundador dos Gato Fedorento. Ricardo Araújo Pereira acrescentou que, enquanto ateu, está sempre a pensar no fim da vida e na sua finalidade ou propósito. Mas que, apesar disso, se considerava semelhante a quem tem fé: todos estão “à procura: não acredito em Cristo, mas acredito nos cristãos”. 




Um painel com frases escritas pelos participantes, 
no qual a frase de Ricardo Araújo Pereira foi reproduzida
(foto © Maria Wilton)

Acerca da experiência de ter fé falou também Zohora Pirbhai, da Comunidade Ismaili de Lisboa, um dos grupos muçulmanos mais importantes. A oradora pretendia dar outra perspetiva acerca do Islão. Assumindo-se como feminista e islâmica, salientou que, no seu modo de entender o seu islão, os dois conceitos não se excluem mutuamente.

Portugal “resiste à crise de fé”

Da experiência cristã falou o padre jesuíta Pedro Rocha Mendes, para quem os jovens continuam a tentar preencher a vida com algo mais: “O mundo em que vivemos”, virtual, descartável e instantâneo, como caracterizou, “está voltado para a satisfação imediata, mas todos nos apercebemos que a satisfação não gera felicidade, mas sim, mais insatisfação.” 

domingo, 11 de novembro de 2018

Fórum pela Paz celebra os cem anos do Armistício

Texto de Eduardo Jorge Madureira

O Armistício declarando o fim da I Guerra Mundial que, desde 1914, opunha tropas alemãs e aliadas, foi assinado fez cem anos neste domingo, 11 de Novembro. As celebrações oficiais da efeméride, que têm decorrido em França, onde se encontram dezenas de chefes de Estado e de governo, têm sido acompanhadas por múltiplas outras evocações de um conflito de uma violência e uma crueldade até então nunca vistas. Como é habitual nos aniversários de acontecimentos relevantes, têm abundado os colóquios, os seminários, as exposições, as edições de livros e de números especiais de revistas e de jornais.
A revisitação de um período negro do século XX não tem provocado polémicas excessivas. Mas elas não têm faltado. Uma diz respeito ao lugar a conceder, por estes dias, à memória do marechal Philippe Pétain, o Dr. Jekyll que se transformou em Mr. Hyde, para usar a imagem que o historiador Serge Klarsfeld traçou no diário francês Le Monde (8 de Novembro). Tendo sido um dos chefes militares que conduziram o exército francês à vitória em 1918, Pétain seria, poucas décadas depois, o rosto do colaboracionismo com o ocupante nazi da França na II Guerra Mundial. “A nossa memória colectiva assume o veredicto de 1945”, sintetizou, no mesmo jornal, Laurent Joly, também historiador.
O “consenso negativo” em relação ao marechal ocorre numa ocasião em que os jornais têm dado conta de um acréscimo de violência contra os judeus em França, tendo o número de acções antissemitas em França subido quase 70 por cento nos primeiros nove meses deste ano. A denúncia foi feita pelo primeiro-ministro Edouard Philippe, num texto de homenagem às vítimas da “Noite de Cristal”, os judeus que, a 9 de novembro de 1938, na Alemanha, viram as suas sinagogas, lojas e casas destruídas por uma onda de violência nazi.

“É melhor festejar a concórdia do que a vitória”

Não é, pois, por acaso que algumas vozes – como a do director do Libération, Laurent Joffrin – têm pedido que este dia 11 de Novembro de 2018 celebre a paz e a concórdia entre os povos da Europa – que, feito inédito, duram desde há mais de 70 anos – em vez de homenagear a vitória dos aliados. No editorial “1918, Uma paz com memória curta”, Laurent Joffrin escreve que foi o nacionalismo das nações europeias, que hoje há quem pretenda restaurar, o causador da morte de 18 milhões de seres humanos; e que foram os valores viris, cuja ausência hoje se deplora, que conduziram a uma brutalidade inédita, com a utilização de canhões de enorme calibre e de metralhadoras, de gás de combate, com a destruição de incontáveis edifícios civis, e a um genocídio contra os arménios, promovido por jovens turcos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sete mil pessoas, 2800 km, dois meses, 600 horas a pé para fugir à pobreza e à violência

Texto de Maria Wilton


O percurso feito até agora pela caravana de migrantes hondurenhos. 
A cidade de McAllen, no Texas, é o destino fronteiriço, daqui a cerca de um mês. 

Eram aproximadamente umas sete mil pessoas, no início. Partiram, a 12 de outubro, de San Pedro Sula, a segunda maior cidade das Honduras, conhecida como a “Faixa de Gaza hondurenha”, por ser um centro de tráfico de droga e disputas entre gangues. Chegou a ser considerada a cidade mais violenta do mundo por causa da alta taxa de homicídios, mas atualmente está em 26º lugar na lista do Business Insider: em 2017, com uma população de 765.864 habitantes, ocorreram 392 homicídios. 
Esta não é a primeira caravana de migrantes que, da América Central, procura  chegar aos Estados Unidos, mas é a mais falada nos média. Demorará perto de dois meses ou quase 600 horas a pé. A maioria viaja a pé, mas muitos conseguem boleias em partes do percurso. Em várias reportagens divulgadas desde que a marcha se iniciou nas Honduras, a maioria dos migrantes diz querer escapar à pobreza e à violência. Há famílias a viajar com os filhos pequenos, na esperança de arranjar emprego e educação para os mais novos. Outros saíram, dizem, por se sentirem ameaçados diretamente por gangues. Esta é mesmo, segundo o Washington Post, a maior caravana de migrantes já registada:



As marchas em caravanas tornaram-se um modo mais económico para os migrantes passarem o México em segurança, uma vez que não têm de pagar a contrabandistas. Domingo passado, ao passar Tierra Blanca,  no estado de Veracruz, no México, muitos dos marchantes hesitaram ao chegar à auto-estrada principal, que passa numa zona com atividades criminosas organizadas e frequentes. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Um brinde à liberdade: Asia Bibi absolvida ao fim de nove anos de cativeiro

 Texto de António Marujo



Uma das filhas de Asia, numa das ocasiões em que foi recebida pelo Papa Francisco 
(foto Ajuda à Igreja que Sofre)

Por causa de um copo de água, Asia Bibi foi condenada à morte no Paquistão. Por causa de Asia, uma jornalista francesa foi semanalmente à prisão ouvir a sua história. Há sete anos, assim começava um texto com uma entrevista a Anne-Isabel Tollet, a jornalista da France 24 que se interessou pelo caso de Asia e tentou alertar o mundo para ele. 
Demorou mais sete anos, com muita gente a lutar e a falar do caso - incluindo o Papa Francisco, que recebeu o marido e os filhos. Emblema de tantas pessoas – católicas, protestantes e ortodoxas, muçulmanas, e judias, budistas e hindus ou de muitos outros credos – que, em todo o mundo, são perseguidas por causa da fé que têm, Asia Bibi foi ontem, finalmente, absolvida pelo Supremo Tribunal do Paquistão do crime de que tinha sido acusada. A notícia levou o seu marido e filhos, como relata a Ajuda à Igreja que Sofre, a manifestar o seu contentamento. E o advogado de Asia, o muçulmano Saiful Malook, acrescentou que esta é uma grande notícia para o Paquistão e para o resto do mundo.
Pode dizer-se que, num tempo em que crescem por todo o mundo as ameaças à liberdade, esta é, porventura, a melhor notícia do dia. Ainda mais pelo carácter absolutamente arbitrário e absurdo da acusação contra Asia. 
Como dizia Anne-Isabel Tollet na entrevista citada, este caso traduz também a responsabilidade do Ocidente, que não acaba nas guerras do Afeganistão e do Iraque. E que uma lei como a que proíbe a burqa, em França, ou o aumento da islamofobia e do antisemitismo, ou a recusa do acolhimento a refugiados na Europa, pode ser causa de aumento do ódio contra os cristãos nos países de maioria muçulmana.
Asia Bibi foi presa, em 2009, por ter retirado um copo de água de um poço, enquanto trabalhava no campo. Acusada por mulheres muçulmanas de conspurcar a água que lhes pertencia, reagiu, defendendo-se, e à sua fé cristã. O facto valeu-lhe a acusação de blasfémia e a pena de morte. Durante estes anos, não podia ver ninguém, à excepção do marido (que viveu escondido, tal como os filhos do casal) e do advogado.
Correspondente da France 24 em Islamabad durante três anos, Anne-Isabel Tollet recolheu o depoimento de Asia Bibi, durante dois meses. O livro foi publicado em Portugal com o título Blasfémia (ed. Alêtheia).

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Alfredo Teixeira: “O principal problema das igrejas é a transmissão, mais do que a comunicação”

Entrevista de António Marujo
Imagem de Maria Wilton



Alfredo Teixeira: “O fenómeno mais importante é o da explosão da diferença: 
sociedades onde havia uma confissão com um peso muito forte 
agora beneficiam de uma extraordinária explosão da diversificação religiosa. 

“Devemos dizer, ao mesmo tempo, que a religião sofre erosão e que ela se está a reconfigurar.” A poucos dias do final, no próximo domingo, do Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a fé e o discernimento vocacional, o antropólogo e sociólogo Alfredo Teixeira analisa nesta entrevista o que se passa com a religiosidade das novas gerações. Há um problema sério na capacidade de transmissão da fé, mais do que na comunicação, diz. E há mudanças que se podem ver, mas elas são, muitas vezes, em sentidos opostos e quase contraditórios: “O mais errado é pensar que podemos resolver a nossa leitura da sociedade a partir de um dinamismo único. E, sobretudo em termos religiosos, precisamos constantemente desse olhar em diferentes escalas porque, de outra forma, teremos um olhar muito simplificado sobre a realidade.”

P. – Pode fazer-se um retrato da realidade religiosa a nível mundial?
ALFREDO TEIXEIRA – É muito difícil falar dessa categoria a partir do mundo: os contrastes na distribuição da experiência do religioso, quanto às idades e gerações, podem ser muito grandes, no que diz respeito aos diferentes contextos geográficos e culturais. Em todo o caso, o que se pode dizer se o mundo fosse visto da lua? De forma geral, as sociedades do Norte apresentam uma população religiosa envelhecida. Em particular, o Atlântico Norte tem um problema no que diz respeito à renovação geracional das linhagens crentes...

Incluindo Estados Unidos e Canadá?
– Sim, ainda que de modo diferente. Esse fenómeno vai-se alastrando, consoante temos sociedades que, sob o ponto de vista da estrutura religiosa, têm alguma semelhança com a realidade europeia e norte-americana. Na América Latina, ela não é tão expressiva no que respeita à diminuição dos indicadores religiosos nos mais jovens. Mas, se fizermos segmentos em relação ao que conhecíamos no passado, observamos uma diminuição das mulheres – um indicador importante na transmissão e reprodução do religioso. 
Por outro lado, nessas sociedades, o fenómeno mais importante é o da explosão da diferença: em muitos casos, eram sociedades onde uma havia uma confissão com um peso muito forte – por exemplo, a Igreja Católica – e agora beneficiam de uma extraordinária explosão da diversificação religiosa. Portanto, o problema geracional não é o fenómeno mais importante. 

O que destacaria então?
– Para compreendermos hoje a religião, temos de fazer um jogo de escalas: quando observamos a religião a partir do telescópio, vemos uma imagem que pode esconder as dinâmicas de transformação. Nesse grande retrato, nessa leitura macro do fenómeno, cruzam-se duas coisas que não conseguimos distinguir muito bem: por um lado, uma continuidade, uma sobrevivência do que vem de trás, que em alguns casos tem ainda uma clara preponderância; por outro, zonas de transformação que, quando olhamos sob o ponto de vista macro-social, não têm ainda a expressão que lhes daria importância sociológica. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Clara – Uma luz na noite

Teatro musical


Entrevista ao encenador Tiago Sepúlveda e imagens dos ensaios

Clara – Uma luz na noite é o título do teatro musical encenado por Tiago Sepúlveda e apresentado pelo Grupo de Teatro Musical Religioso (GTMR), que será levado à cena nos próximos dias 14 e 21 de Outubro, no Estoril e no Porto. 
O espectáculo apresenta a história de madre Maria Clara do Menino Jesus que, em 1871, fundou a Congregação das Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (Confhic), dedicando-se a trabalhar com os mais desfavorecidos, numa altura em que largas camadas da população portuguesa viviam em extrema pobreza. 
O regime liberal instaurado na década de 1820 decretara a extinção das ordens religiosas mas, sucessivamente, novas experiências foram surgindo, de forma clandestina ou dissimulada. Até à sua morte em 1899, com 56 anos, madre Clara criou 140 instituições sociais, dedicadas à assistência aos pobres, à saúde, à educação e às cozinhas económicas. Madre Clara foi beatificada em Lisboa, numa cerimónia presidida pelo então patriarca, D. José Policarpo, em Maio de 2011.
O espectáculo será apresentado dia 14, às 16h e 21h, no auditório da Senhora da Boa Nova (Estoril) e, no dia 21 de Outubro, às 17h, no Seminário de Vilar (Porto). Os bilhetes estão à venda em www.bol.pt e nos locais habituais e têm o preço de 12 euros (normal) e 40 euros (familiar); há desconto de 25 por cento para membros de ordens religiosas e escuteiros; mais informações através da Confhic (214 241 840) ou GTMR (962 713 075). 

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Evocação de Paulo VI e Óscar Romero pela sua canonização

Agenda

O Centro de Reflexão Cristã (CRC), de Lisboa, assinala a canonização do Papa Paulo VI e de Óscar Romero (que acontecerá domingo, numa cerimónia presidida pelo Papa, em Roma), com um debate que contará com a presença de Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Fundação Gulbenkian, e Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa. A iniciativa decorre esta quarta-feira, dia 10, às 18h30, no Centro Nacional de Cultura (Largo do Picadeiro, 10). A entrada é livre.
Na apresentação do debate, fala-se de duas personalidades muito caras ao CRC que, “ao longo dos seus mais de 30 anos existência, tem trabalhado sobre o seu exemplo”. Em 1980, um número especial da revista do CRC foi dedicada a Óscar Romero, com o título D. Romero não morreu!– alguns exemplares deste número estarão disponíveis no local do encontro.
Nesse número, reproduz-se um texto de Pedro Casaldáliga, bispo (agora emérito) de São Félix de Araguaia, sobre Óscar Romero e a propósito do seu assassinato: “Estamos outra vez em pé de Testemunho, São Romero da América, pastor e mártir nosso! Romero de uma Paz quase impossível, nesta terra em guerra. Romero roxa flor morada da Esperança incólume de todo o Continente.”

(Ilustração acima: capa do número especial da revista do CRC sobre D. Óscar Romero, sobre quem se pode ler aqui uma evocação a partir de livros publicados em Portugal; aqui, um texto sobre algumas das suas propostase aqui uma crónica de Fernando Calado Rodrigues, sobre os que sobem aos altares, com estas duas canonizações)

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Joana Gomes: Trocar o certo pelo incerto

Texto e vídeos de Maria Wilton
Entrevista de António Marujo e Maria Wilton



Numa aldeia do Chade, onde era a única branca, contraiu malária e chegou a dormir com 40º Celsius numa casa sem eletricidade. Sentiu medo quando, durante algumas horas, foi a única mulher num centro de refugiados em revolta, na Sicília. Nada disto a demove de voltar a trabalhar com refugiados, desta vez em Adjumani, no norte do Uganda, para gerir os projetos de educação do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS, da sigla inglesa).
Joana Gomes, 30 anos, estava na Sicília em 2016, quando se registou uma das grandes vagas de chegada de refugiados à Europa. Uma experiência “muito intensa: vinham todos com depressão, não conseguiam dormir e andavam muito perdidos e desorientados – já que o processo de pedir asilo e estatuto de refugiado era muito novo”, contava ao RELIGIONLINE, antes de partir para o Uganda, no final de setembro. 
Tendo dedicado vários anos a trabalho de voluntariado e missionário, Joana recorda algumas das suas experiências. Na Sicília, esteve no mesmo centro de acolhimento a refugiados em três momentos diferentes. Isso permitiu acompanhar as mudanças dos migrantes: de refugiados perdidos a pessoas mais estáveis e, por fim, cidadãos inseridos na sociedade. 
Entre as histórias que a marcaram, está a de Buba, um jovem natural da Gâmbia. 



Natural de Lisboa, licenciada em serviço social, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa e com mestrado em Gestão de recursos humanos no ISCTE, Joana sempre olhou para a problemática dos refugiados como algo que a toca especialmente. Por várias vezes na Europa, viu condições de vida muito precárias: “A Europa diz que está preocupada e a acolher mas aquilo não era bem um acolher. Temos de tentar perceber qual a causa de saída dos países (dos refugiados), o que está a acontecer lá e trabalhar na origem.”

sábado, 6 de outubro de 2018

Eleições no Brasil: o voto religioso e a “enorme ameaça” à democracia

Texto de António Marujo



(Milton Nascimento, Missa dos Quilombos - Estamos Chegando
poema disponível aqui)

Neste domingo, 7 de Outubro, mais de 147 milhões de eleitores brasileiros são chamados a votar na primeira volta das eleições presidenciais. Em muitos sectores, cresce a inquietação com a possibilidade de vitória do candidato Jair Bolsonaro, do PSL (Partido Social Liberal), que tem defendido posições misóginas, armamentistas, racistas e anti-ambientais. A sua eleição representa uma ameaça “enorme” à democracia brasileira, escrevia The Guardian quinta-feira, dia 4, e o “risco impensável'” de que ele se torne Presidente do Brasil passou a ser real.
Nestas eleições, há muitos factores em jogo. Os graves casos de corrupção, que nunca desapareceram do país e continuaram durante os governos do Partido dos Trabalhadores, a violência social e as fortes desigualdades sociais (atenuadas durante a presidência de Lula da Silva) são apenas algumas delas. O voto de evangélicos e católicos e a influência das redes sociais na dinamização das pessoas e na propagação de mentiras são, por outro lado, alguns dos elementos determinantes que podem fazer pender a eleição para um lado ou outro. 
O recenseamento de 2010 identificou 86,8 por cento dos brasileiros como cristãos. Destes, 22,2 por cento (cerca de 43,3 milhões de pessoas) são evangélicos. O crescimento dos últimos anos permite, no entanto, prever que, em 2020, possam tornar-se a maioria dos cristãos.
 “O crescimento [dos evangélicos] tem sido atribuído, por vários estudos com as mesmas conclusões analíticas, ao facto de que as igrejas evangélicas estão em locais em que o Estado não chega com suas políticas básicas”, diz ao RELIGIONLINE Jane Maria Vilas Bôas, assessora de imprensa da candidata Marina Silva. 
A mesma responsável acrescenta: “Os pastores (das diferentes comunidades e grupos) têm sido as referências de assistência social em locais muito pobres. Além disso, o corpo eclesiástico das igrejas evangélicas tem sido formado com pastores oriundos da própria população local. Assim, essa expansão demográfica também significa expansão da capacidade de influenciar qualquer processo social da sociedade brasileira, inclusive as eleições presidenciais.”

Marina Silva e o poder das mulheres

Uma das questões para este domingo está, então, em saber se o voto evangélico (e, por extensão, o católico) pode ser um factor decisivo na escolha do eleitorado. Jane Maria contesta o pressuposto da designação: “Os evangélicos no Brasil se distribuem em 36 denominações. Considerando essas diferentes práticas e doutrinas, é um pouco difícil definir ‘voto evangélico’.” 

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

“Com o Papa Francisco – Dizer o seu pensamento a várias vozes”

Agenda
Texto de Maria Wilton


Papa Francisco (foto reproduzida daqui)

Na próxima segunda-feira, dia 8, a partir das 18h30, a Capela Nossa Senhora da Bonança (conhecida como Capela do Rato) em Lisboa, será palco de uma sessãde leituras de textos do Papa Francisco, escolhidos por um conjunto de pessoas, entre os quais crentes e não-crentes, algumas das quais personalidades públicas da cultura das artes, da política ou da universidade. 
A sessão “Com o Papa Francisco – Dizer o seu pensamento a várias vozes”, organizada pela escritora e jornalista Leonor Xavier, começará e terminará com duas peças musicais do compositor João Madureira. No início, o actor Luís Miguel Cintra lerá o Cântico da Criaturas, de S. Francisco de Assis. 
Leonor Xavier, que sugeriu a ideia e convidou os intervenientes, diz que o objetivo é fazer “uma colagem de textos” da grande diversidade de assuntos sobre os quais o Papa Francisco já falou e escreveu. O Papa é a “a grande figura do séc. XXI” e, à luz dos últimos acontecimentos, “fazia sentido” esta espécie de homenagem.
Juntar personalidades crentes e não crentes a várias pessoas que participam na comunidade era importante; isso “impede que se forme um circuito fechado de pessoas” e traz as questões que o Papa propõe para o debate da sociedade.
A ideia foi recebida com interesse e entusiasmo não só pelo novo capelão, padre António Martins, como por todos os convidados. A escritora Alice Vieira não é excepção: “É uma iniciativa extremamente importante porque o Papa merece o apoio de todos – e é muito reconfortante ver o apoio que ele tem em não católicos.” 
Também há quem se junte por ver na iniciativa algo diferente e inovador. O cantor Vitorino Salomé afirma que o seu interesse pessoal reside “na tradição de contestação ao status quomantido pela Capela do Rato.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

A realidade humana é o lugar teológico mais importante

Nota de Agenda + Entrevista de António Marujo


Luciano Manicardi no final de 2012, em Lisboa
(foto © António Marujo)

Um livro, uma conferência sobre a mística do quotidiano e um encontro temático de dois dias sobre o seguimento de Jesus. Luciano Manicardi, prior da comunidade monástica de Bose (norte de Itália) e autor de A Caridade dá Que Fazere de vários outros livros, estará a partir desta sexta-feira, 5 de Outubro, em Lisboa, para várias actividades públicas que incluem a apresentação de um novo livro, Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano C(ed. Paulinas). 
Sexta, dia 5, às 21h, Manicardi fará uma conferência sobre O quotidiano – lugar de revelação antropológica (entrada livre), no Centro Cultural Franciscano

(Largo da Luz, em Carnide. Sábado e domingo, dias 6 e 7, Manicardi, que junta à investigação bíblica o olhar da antropologia e da psicologia, animará um encontro (sujeito a inscriçõessobre o tema No seguimento de Jesus. Será no Mosteiro das Monjas Dominicanas, do Lumiar (Quinta do Frade, à Praça Rainha D. Filipa), também em Lisboa. 

No livro Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano C, Manicardi aborda os textos da liturgia católica do próximo ano litúrgico (que se inicia no final de Novembro). “No Ano C da liturgia dominical, a Igreja propõe o Evangelho segundo Lucas à escuta e meditação por parte dos crentes. É um Evangelho com características muito especiais, como nos mostra frei Luciano Manicardi: ‘o Evangelho torna-se literatura’”, diz a editora, a propósito do livro. Na mesma nota, lê-se ainda que o evangelista Lucas se revela “um homem de Igreja inteligente e avisado, guiado por sentido pastoral evangélico e por um profundo sentido de humanidade”.
A estrutura da obra lucana “é muito simples: funda-se num plano geográfico e tem, no caminho de Jesus rumo a Jerusalém, ou antes, rumo ao Pai, o seu eixo condutor; a atenção prestada ao tempo leva Lucas a abordar o problema de como viver o Evangelho no dia a dia, com temáticas que têm levado várias pessoas a falar de ‘Evangelho social’ a propósito do terceiro Evangelho; do quotidiano, enfim, faz parte a relação interpessoal, a relação com o outro, e a confiança no amor misericordioso do Pai.”
Estas indicações darão o mote também para a conferência de sexta à noite. Nas suas obras, o prior de Bose (uma comunidade ecuménica de monges, que inclui homens e mulheres) confirma, como diz a editora, a “densidade humana e espiritual invulgares”, bem como o “aprofundado conhecimento” e a grande “sabedoria” na abordagem de questões de “grande relevância para a reflexão sobre a sociedade e a vivência cristã”. (Aqui podem ver-se outros elementos sobre os restantes títulos de Manicardi publicados em Portugal: Viver uma Fé Adulta – Itinerário para um Cristianismo credível, Memória do limite – A condição humana na sociedade pós-mortal, Ao Lado do Doente – 
O sentido da doença e o acompanhamento dos doentes Comentário à liturgia dominical e festiva – Ano B.)
Manicardi esteve já em Portugal por várias vezes, quer a convite da editora, quer da Fundação Betânia (entidades que o convidam de novo desta vez) quer, também, pela organização da Semana Social. Há seis anos, no Porto, Manicardi fez uma das intervenções de fundo da Semana Social desse ano, comentando a encíclica Deus Caritas Est, de Bento XVI.
Em Fevereiro de 2013, publiquei na revista Mensageiro de Santo António uma entrevista com Luciano Manicardi, a propósito dos seus livros A Caridade dá Que Fazer Viver uma Fé Adulta. É esse diálogo que a seguir se reproduz. 

A realidade humana é o lugar teológico mais importante

Diz que a tradição sapiencial bíblica nos ensina a fazer do cristianismo uma arte de viver o eros, a sofrimento, o trabalho ou a família. Luciano Manicardi, [prior] da comunidade monástica de Bose (norte de Itália), que reúne homens e mulheres, esteve em Portugal por ocasião da recente Semana Social da Igreja e da apresentação de dois livros seus. 
P. – No seu livro A Caridade dá Que Fazer, propõe reaprender a “gramática da caridade”. Esta necessidade é hoje mais urgente?
R. – Sim, porque há cada vez mais famílias e pessoas empobrecidas, com necessidade de assistência e sustento elementar. O meu receio é que, na actual crise, principalmente económica e financeira, os nossos governos intervenham com receitas muito técnicas, mas esqueçam a problemática social e familiar das pessoas. A justiça, que é a forma social da caridade, deve ter isto em conta. 

O que querem os jovens dos bispos reunidos em Roma

Texto de António Marujo

Assembleia do Sínodo dos Bispos começou ontem e prolonga-se até dia 28



Tomás Virtuoso, Rui Teixeira e Joana Serôdio em Março, no Vaticano, 
com o cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do Sínodo dos Bispos

Sentiram-se escutados, mas querem fazer a experiência mais vezes: “Estes processos de auscultação têm de ser mais frequentes”, diz Rui Teixeira, 31 anos, escuteiro. Pensam que há um claro problema na forma de a hierarquia católica lidar e comunicar com os jovens: “O problema não é alterar tudo o que se diz, mas dizê-lo com uma linguagem acolhedora, não como uma imposição que exclui”, afirma Joana Serôdio, 30 anos, que integra a equipa do Departamento Nacional de Pastoral Juvenil (DNPJ). E recordam que o Papa Francisco marcou decisivamente a reflexão quando lhes pediu que falassem “sem filtros” e fossem “exigentes”, não querendo receber o “nobel da prudência”. “É um erro quando a Igreja se quer pensar a si mesma e o faz para dentro”, acrescenta Tomás Virtuoso, 24 anos, das Equipas de Jovens de Nossa Senhora (EJNS). 
Rui, Joana e Tomás foram os três portugueses que estiveram na assembleia que, de 19 a 24 de Março, em Roma, reuniu 300 jovens de todo o mundo como preparação do Sínodo dos Bispos sobre Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacionalque esta quarta-feira, dia 3, se iniciou em Roma. 
A abertura da reunião foi assinalada por uma missa presidida pelo Papa. Na sua homilia, Francisco afirmou: “Sabemos que os nossos jovens serão capazes de profecia e visão, na medida em que nós, adultos ou já idosos, formos capazes de sonhar e assim contagiar e partilhar os sonhos e as esperanças que trazemos no coração.”
Os participantes na reunião pré-sinodal eram quase todos católicos. Mas, por vontade do Papa Francisco, também foram convidados jovens de outros credos (muçulmanos, protestantes de diferentes confissões, sikhs,...) e mesmo alguns não-crentes. Se Joana foi como representante portuguesa, Tomás e Rui (que tinha 30 anos na altura do encontro) estiveram em representação dos seus movimentos a nível internacional. 
“Era uma espécie de parlamento de jovens do mundo inteiro, de jovens líderes católicos, com a consciência de saber discutir com profundidade os temas propostos”, diz Tomás, que está a fazer tese em Economia Política Europeia, depois de ter concluído o curso de economia na Universidade Católica Portuguesa. E acrescenta o membro do secretariado internacional das EJNS: “Foi uma experiência incrível. Para nós era uma coisa inédita, porque nunca se deu esta importância aos jovens. As Jornadas Mundiais da Juventude são um produto ‘acabado’ que se oferece aos jovens para participarem num programa. Ali, éramos nós a construir a reflexão.”
Vindo da área que vem, Tomás já fez contas para confirmar que a reunião pré-sínodo (RP) foi importante para a preparação do Sínodo: no Instrumentum Laboris, ou Documento de Trabalhoque os bispos têm para debater nas duas primeiras semanas, o documento final da RP é citado 75 vezes; o documento seguinte mais citado é a exortação do Papa, A Alegria do Evangelho, mas apenas por 20 vezes. 

Papel da mulher não é só “enfeitar” as igrejas

Joana Serôdio, bioquímica de formação, a trabalhar num centro de investigação em biotecnologia em Beja, também recorda fortemente as palavras do Papa, no primeiro dia de trabalhos: “Já pensava que o encontro com o Papa iria marcar o ritmo dos trabalhos. Ele disse-nos para não termos vergonha, falar sem filtros, para sermos humildes na escuta mesmo de quem pensa diferente de nós. E foi empático, acolhedor, divertido e assertivo connosco.” Porque ficaram todos tão marcados com a ideia de falar sem filtros? “Porque há muitos filtros em relação aos jovens. Como há muitos filtros para os mais novos, os mais velhos e para quem é diferente da norma.”

sábado, 29 de setembro de 2018

Papa Francisco - Entre a vulnerabilidade de um abalo e a oportunidade de uma reforma

Texto de Joaquim Franco



Foto Vatican Media, reproduzida daqui

Estas reflexões têm como pano de fundo o escândalo dos abusos sexuais sobre menores e a tentativa de fragilizar o Papa por parte de sensibilidades eclesiásticas que se lhe têm oposto. 
Apesar da polémica das últimas semanas, os casos de abusos registados na Igreja diminuíram de forma acentuada nos últimos 15 anos, em consequência das medidas de resposta elaboradas pela Santa Sé. Mas o escândalo da pedofilia na Igreja mantém-se como vulcão mediático que não adormece, revelando ainda incoerências e hesitações de vários episcopados.
Esta nova crise vem bloquear o pontificado ou pode transformar-se numa oportunidade para a Igreja Católica concretizar reformas, dando seguimento a expectativas criadas com a eleição de Jorge Mario Bergoglio?
Nestes textos, começam por analisar-se as questões da justiça, moral e papel dos médiaNo segundo, apontam-se as oportunidades de reforma e a denúncia de um clericalismo “que leva a silenciamentos, à ignorância, à elitização com «comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rostos, sem corpos, enfim, sem vidas»”.  
A pergunta seguinte é: Como dizer este pontificado? Olha-se para as clivagens e para “um cisma que começou mudo, e, como no cinema, já passou à fase colorida dos efeitos especiais e das fakenews”. E fala-se da “revolução imparável” proposta pelo Papa Francisco e da valorização da consciência.  
Depois, trata-se do foco em que o Papa pretende colocar a Igreja: o evangelho. E que pressupõe dois caminhos: misericórdia/inclusão e discernimento/valorização da consciência. Finalmente, trata-se dos silêncios que revelam e do tempo de/segundo Bergoglio. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Teimosia católica, jornalismo inquisitorial, o Papa, os abusos e o fascismo

(Texto de António Marujo, na edição de hoje do Público)

O Papa Francisco não faz nada contra os abusos sexuais do clero e deveria demitir-se. O relatório conhecido ontem na Alemanha confirma isso mesmo e vem dizer de novo que a Igreja Católica continua a encobrir estes casos e a não querer saber. E as acusações do arcebispo Viganò aí estão para provar tudo isso e ainda que o Papa sabia de tudo, não é verdade?
Não, nada disso. Tudo ao contrário.
A responsabilidade destes lugares comuns, equívocos e preconceitos cabe também a algum jornalismo que prefere assumir-se como inquisidor-mor medíocre, que condena sem julgar, que se instala em lugares-comuns e conclusões prévias, em lugar de cumprir a sua missão de investigar a verdade. E que, desde o primeiro momento, assumiu como comprovados todos os argumentos de Viganò, sem cuidar de os averiguar.
(o texto pode continuar a ser lido aqui)


terça-feira, 25 de setembro de 2018

Acordo entre a China e a Santa Sé: modelo vietnamita (e português?), “muito mais” que uma concordata

Texto de António Marujo



(Foto reproduzida daqui

“O que foi assinado sábado passado, dia 22 de Setembro, “não foi uma concordata entre a Santa Sé e a China: é muito mais”. A afirmação é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e director da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, num artigo publicado no La Repubblica, logo no domingo (e traduzido para português na Unisinos). 
Apesar de ainda não se conhecerem em detalhe os termos do acordo, sabe-se que ele permite ao Papa e ao Vaticano interferir na escolha dos bispos e, ao mesmo tempo, integrar numa única hierarquia católica oito bispos que tinham sido ordenados à revelia da Santa Sé e que, por esse facto, estavam excomungados. 
Em vez de uma concordata, continua Melloni, a diplomacia vaticana, desde o Papa João XXIII até agora, “aprendeu que, com qualquer instrumento diplomático, pode dar muito”, quando activa a comunhão das Igrejas e a comunhão dos bispos. “E o ‘acordo secreto’ entre a China e a Santa Sé é um grande serviço à comunhão. A questão da eleição dos bispos que criou não duas Igrejas, mas sim três hierarquias: uma que agrada o governo, por ter surgido a partir de uma escolha interna ao país; a outra em comunhão com Roma; e uma terceira cada vez mais vasta com a qual se convergia”, acrescenta o historiador.
Luis Badilla, no Il Sismografo, retoma a ideia do desconhecimento do texto, para citar uma frase do Papa na sua visita à Lituânia, também no sábado: “‘Não é possível caminhar sozinhos. Às vezes é necessário arriscar juntos’: disse o Papa Francisco aos jovens lituanos no Encontro de Vilnius, no sábado. Palavras úteis para ler o acordo entre a China e o Vaticano.”
O padre português Peter Stilwell, reitor da Universidade de São José, em Macau (a única universidade católica na China continental), concedeu uma curta entrevista ao DN, na qual considera que o acordo “é um grande desafio” à Igreja e aos católicos chineses, “que é o de criar condições para as duas comunidades, a comunidade clandestina e da Igreja patriótica, como é chamada, viverem e trabalharem juntas. Têm sido anos de separação e não será fácil a relação entre as duas partes.” 
Stilwell acrescenta que, mesmo apesar da oposição de alguns sectores – com o cardeal Zen, arcebispo emérito de Hong Kong à cabeça – ele é positivo: “Há que abrir espaço para que as duas comunidades se possam encontrar. É um trabalho de longo prazo, que se vai fazendo. Será positivo para a Igreja na China se, decorrente do acordo, for possível que os bispos se possam deslocar para os encontros internacionais, em que bispos de todo o mundo se encontram e trocam impressões. E será positivo até mesmo para a China em geral.” (Podem ler-se e ouvir-se também algumas declarações de Peter Stilwell à Rádio Renascença)
Aliás, esta notícia surge num momento em que se verifica uma vaga de atentados à liberdade religiosa na China, quer contra cristãos quer contra muçulmanos ou budistas. 

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Uma rota para respirar o tempo

Exposição
Texto de António Marujo


Santa Maria da Graça; séc. XVI (1º quartel), 
autor desconhecido, prov. Catedral de Setúbal
(Foto © Manuel Costa/Agência Ecclesia)

Quando se entra, três grandes ecrãs dão o mote a esta exposição diferente: neles se vêem imagens, captadas com uma câmara fixa, dos claustros das catedrais do Porto, Santarém e Évora. Vêem-se pessoas a atravessar uma ala do claustro, saem da imagem, surgem pessoas noutro ecrã e saem de novo na nossa direcção ou caminham em sentido contrário. As catedrais são espaços vivos, dizem-nos as imagens. São utilizadas e visitadas, são lugares onde se respira o tempo, na articulação entre o passado que as construiu, o presente que ali se vive e o futuro que promete mais vida ainda. 
Assim a exposição Na Rota das Catedrais: Construções (d)e Identidades possa contribuir para isso. Patente no Palácio Nacional da Ajuda até final deste mês (desde 28 de Junho), ela traz, até junto do grande público, tesouros de 26 catedrais portuguesas (as 20 das dioceses existentes, mais quatro antigas (Bragança, Coimbra, Elvas e Silves), mais duas con-catedrais (Miranda e Castelo Branco). 
Esta exposição consubstancia ainda a ideia de uma rota a ligar o país, lugares que ajudaram a estruturar a geografia, o urbanismo e a cultura. Enfim, a estruturar identidades, como se sugere no título: “Pelas catedrais passa a história de Portugal, passa a história da arte portuguesa, passa a história das mentalidades, da sociedade, da religião, do conhecimento, da arquitectura, da urbanidade, dos valores civilizacionais em que nos revemos e identificamos”, escreve Paula Araújo da Silva, directora-geral do Património Cultural, no texto de apresentação do roteiro da mostra.  


Menino Jesus da Cartolinha; séc. XVII, autor desconhecido,  
prov. Catedral de Miranda do Douro
(Foto © Manuel Costa/Agência Ecclesia)


No livro, podem ver-se fotos de todas as catedrais recenseadas e perceber os diferentes estilos arquitectónicos presentes, muitas vezes cruzados no mesmo edifício, pelas reconstruções ou remodelações que foram sofrendo: românico, gótico, barroco, neoclássico, contemporâneo... Seria interessante, aliás, que no roteiro se tivessem publicado alguns dados “biográficos”, sobre anos e épocas de construção ou remodelações e acrescentos principais, autores conhecidos e peças mais importantes, por exemplo.