Capa da revista Donne Chiesa Mondo, de Novembro de 2016,
dedicada ao tema Mulheres esquecidas
(Este texto é dedicado às mulheres dos que fazemos este
blogue: Cristina, Elsa, Isabel e em memória da Sílvia)
O debate sobre
questões ligadas ao papel das mulheres no cristianismo está a crescer no
interior das diferentes comunidades cristãs, incluindo a Igreja Católica. Ao aproximar-se o
Dia Internacional da Mulher, que se assinala depois de amanhã, dia 8, a questão
da “desvalorização da mulher pela Igreja” foi abordada pelo padre Fernando
Calado Rodrigues nesta segunda-feira, no JN:
A
Igreja é perita em humanidade. Tem ensinamentos preciosos sobre a promoção
humana e uma extraordinária Doutrina Social, em linha com a mensagem do
Evangelho. Esta, como se viu, contempla a defesa do papel da mulher na Igreja e
no Mundo. O problema é que determinados setores da Igreja se esquecem, vezes de
mais, de a pôr em prática. (texto para ler aqui na íntegra)
80 por cento do trabalho
Um percurso avulso e
desordenado por alguns textos publicados na internet, nos últimos anos, permite
perceber alguns dos muitos contornos do debate em curso. Fica, por isso, um
contributo apenas com a ideia de levantar a ponta do véu acerca de um tema que,
nas últimas décadas, ganhou contornos de um debate intenso e cada vez mais
rico.
Desde logo, comece-se
por assumir alguns dados de uma realidade em claro-escuro, como os que foram
trazidos para a praça pública pela denúncia da reportagem da revista Donne Chiesa Mondo (Mulheres Igreja
Mundo), sobre o trabalho não reconhecido, “gratuito ou mal pago”, feito por
tantas religiosas em instituições católicas ou em casa de clérigos.
Para completar esta
informação, podem acrescentar-se os dados que Carolyn Woo, presidente do Catholic Relief Services (a Cáritas dos Estados Unidos)
referiu num simpósio organizado no Vaticano: as mulheres realizam 80% dos
trabalhos não feitos pelo clero na Igreja; e os postos de liderança que muitas
mulheres ocupam na Igreja Católica reflectem uma prática de mulheres comprometidas
e de partilha de poder; e também ao longo dos séculos, foi em estruturas da
Igreja que muitas mulheres se capacitaram e desenvolveram.
Além da realidade,
há também um problema de percepção: muitas mulheres sentem-se tratadas de forma
injusta pela estrutura eclesial, como analisava este estudo referente às décadas 1970-2010.
O Papa Francisco
referiu-se já várias vezes à gravidade do problema da desigualdade entre homens
e mulheres, que considera um escândalo. E amanhã mesmo, dia 7, um livro que será publicado em Espanha inclui um prefácio do Papa, no qual Francisco manifesta a sua
preocupação com o facto de “na própria Igreja, o papel de serviço a que todo o
cristão é chamado deslize, no caso da mulher, algumas vezes, para papéis que são mais de servidão do que de verdadeiro serviço”.
Teologia e lugares de autoridade
Seis meses depois da
sua eleição, o Papa deu uma entrevista à revista La Civiltà Cattolica, na qual se referia explicitamente ao
papel das mulheres no interior da Igreja. Afirmava ele ser necessário “ampliar
os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja” e de “trabalhar
mais para fazer uma teologia profunda da mulher”, incluindo na reflexão sobre
os lugares onde “se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja.”
Noutra declaração
muito citada, o Papa disse que não quer as mulheres na Igreja apenas para
fazerem de “cereja em cima do bolo”. Ao mesmo tempo, promoveu a nomeação de
várias mulheres para lugares de responsabilidade em diferentes estruturas da Santa Sé.
Este é um tema em
aberto, considerava a historiadora e ensaísta Lucetta Scaraffia, que dirige a Donne Chiesa Mondo. Já em 2014 Scaraffia
considerava que a estratégia do Papa Francisco, começando o debate pelo âmbito
teológico e não apenas por uma qualquer modernização, é a correcta: “Se a
questão é teológica, isso significa que, no cerne do problema, não está a
‘modernização’, mas sim algo mais profundo e importante que toca a natureza espiritual da Igreja.”
