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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Uma biografia (im)possível de Jesus

Quem foi Jesus? E quem é ele hoje? A cada 25 de Dezembro os cristãos celebram o seu nascimento, mas, quanto à sua vida subsistem muitas dúvidas e mistérios. Fomos saber quais as mais recentes teses sobre este “judeu marginal” que “viveu num recanto do Império Romano”. Este texto foi originalmente publicado no Público de 23 de Dezembro de 2011. 


Sieger Koder, Última Ceia (imagem reproduzida daqui)


Um profeta ou um blasfemo? Um subversivo ou um sedutor? Um homem ou um deus? Um marginal ou um judeu da elite? Um amigo dos pobres e das mulheres ou um opositor aos líderes religiosos do seu tempo? Um político ou um mestre espiritual? Um sonhador ou um revolucionário?
Impossível compor uma biografia de Jesus de Nazaré, cujo nascimento é assinalado desde há séculos a 25 de Dezembro – mesmo se não há certezas sobre a data exacta ou sequer sobre o próprio nascimento. Começamos então por ver que sabemos pouco. Ou talvez não. Ed Parish Sanders, um dos mais importantes estudiosos sobre a personagem histórica de Jesus, escreve n’A Verdadeira História de Jesus (ed. Notícias/Casa das Letras): “Há muitos aspectos sobre o Jesus histórico que permanecerão um mistério.”
Não se sabe, por exemplo, quando e onde nasceu exactamente – apesar de, na festa do Natal, se assinalar a cidade de Belém como lugar onde veio à luz, segundo a tradição. Não se sabe se teve irmãos, embora John P. Meier, autor de Um Judeu Marginal – Repensando o Jesus Histórico (ed. Imago/Dinalivro), uma das obras maiores dos estudos contemporâneos sobre Jesus, aponte para a probabilidade de serem legítimos os vários irmãos de Jesus.
Não se sabe ainda como viveu durante os primeiros 30 anos da sua vida. Não se sabe se se casou – Meier diz que tudo aponta para que tenha permanecido celibatário. Desconhece-se se Jesus tinha consciência plena da sua missão –  ou, na linguagem crente, se era Deus.
Sabemos pouco, então, sobre Jesus? O mesmo E. P. Sanders escreve: “Sabemos que iniciou a vida pública sob João Baptista, que teve discípulos, que esperava o Reino, que foi da Galileia para Jerusalém, que fez algo hostil ao Templo, foi julgado e crucificado.” Sabemos ainda “quem era, o que fez, o que ensinou e por que morreu; e, talvez o mais importante, sabemos como inspirou os seus seguidores, que, por vezes, não o entenderam, mas que lhe foram tão fiéis que mudaram a História”.

Bilhete de identidade

Uma biografia impossível? À procura de respostas, a Sociedade Missionária da Boa Nova organizou o colóquio Quem foi, quem é Jesus Cristo? [as actas foram entretanto publicadas, com o mesmo título, pela Gradiva]. A convite do teólogo e filósofo Anselmo Borges, vários pensadores e especialistas contemporâneos passaram por Valadares (Gaia), em Outubro [de 2011], dando um panorama do que se conhece sobre Jesus, em várias áreas. Acompanhámos a iniciativa, que contou com a participação de alguns dos mais destacados teólogos espanhóis.

sábado, 2 de janeiro de 2016

A "Fuga para o Egipto" e o drama dos refugiados


Iluminura da lenda apócrifa da queda da estátua pagã durante a fuga, 
pelo chamado Mestre de Bedford. Fonte: Wikipedia

     No cap. 2, 13.23, do evangelho de Mateus, é-nos apresentado o episódio da Fuga para o Egipto. Avisado por um anjo de que o rei Herodes tencionava matar o recém-nascido, José e Maria puseram-se a caminho, levando consigo o Menino. A decisão de Herodes de mandar exterminar os recém-nascidos da região de Belém ficara a dever-se ao facto de se ter sentido enganado pelos Magos que, depois da adoração de Jesus, não voltaram por Jerusalém para darem informações precisas sobre o nascimento do "Rei dos Judeus".
     Existem numerosíssimas representações deste episódio, na história da arte cristã. É a propósito dele que existe a invocação de Maria como Nossa Senhora do Desterro.
A experiência da perseguição e da morte, que levou a família de Nazaré a abandonar Israel e buscar refúgio em outro país é bem uma situação que ajuda a entender, a meditar e a agir face aos milhões de refugiados dos nossos dias e, em especial aqueles que batem à nossa porta.
     No espaço que alimento na plataforma de imagens scoop.it, dedicada às representações artísticas de Maria com o Menino, pesquisei este episódio e apresento uma pequena exposição de cerca 50 imagens dedicadas à Fuga para o Egipto, cobrindo diferentes épocas e distintas culturas.
     O acesso pode ser feito aqui (clicar nas imagens para as ampliar):

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Jesus foi casado? Talvez não.E isso importa? Talvez sim

Volta e meia, surgem notícias sobre descobertas arqueológicas que vão “alterar” a imagem que temos de Jesus e a “construção” da personagem que foi sendo feita ao longo dos séculos. Claro que já houve descobertas destas. Os Manuscritos de Qumran, por exemplo, ajudaram a entender o contexto do judaísmo que Jesus viveu.
Normalmente, as credenciais científicas dessas supostas descobertas são reduzidas ou aproveitam coincidências várias. Têm geralmente o efeito de provocar uma grande excitação entre muitos meios de comunicação. Foi o que se passou há dois anos, por exemplo, com um fragmento de um papiro onde se lia a frase “Jesus disse-lhes: ‘A minha mulher...’”
Há dias, a excitação voltou a repetir-se com um manuscrito encontrado na British Library por Barrie Wilson e Simcha Jacobovici. Este último, realizador de documentários televisivos, já ficara conhecido, há sete anos, por ter anunciado a descoberta do suposto túmulo da família de Jesus – que depois os especialistas vieram denunciar como sendo de autenticidade duvidosa.
Desta vez, o manuscrito encontrado volta a ser a base para uma tese que, apesar de repetida, é “revolucionária”, como dizia o Expresso/Revista de dia 15: Jesus foi casado e teve dois filhos (mas a notícia foi reproduzida em muitos outros meios de comunicação, como se pode ver por este exemplo). O documento analisado por Wilson e Jacobovici é uma cópia do século VI de um texto do século I, intitulado A História Eclesiástica de Zacharias Rhetor. O texto apresenta a história de um tal José, que tem muitas semelhanças com a história de Jesus de Nazaré: origens humildes, coroado “rei”, foi morto e ressuscitou. Além disso, José teria sido casado com Aseneth, que para os autores é Maria Madalena...



Ticiano, Jesus e Maria Madalena (pormenor; imagem reproduzida daqui)

Para recordar os contornos desta tese “revolucionária” – mesmo que repetida à exaustão e sem nada de científico para a sustentar –, reproduzo a seguir um texto que publiquei no Público em 28 de Setembro de 2012, com o título Jesus foi casado? Talvez não. E isso importa? Talvez sim.

“Jesus disse-lhes: ‘A minha mulher...’” Esta frase, inscrita num fragmento de um papiro copta ainda não rigorosamente datado e de proveniência desconhecida, ateou de novo o debate: afinal, Jesus foi casado ou não?
E isso deveria ter repercussão na atitude do cristianismo em relação às mulheres, tendo em conta os textos fundadores e a doutrina de Jesus?
Antes de discutir esses temas, há entretanto a questão do valor histórico do documento revelado por Karen L. King. A investigadora da Harvard Divinity School foi a primeira a reconhecer que é cedo para tirar conclusões. 

domingo, 23 de dezembro de 2012

A vaca e o burro e o Jesus "simbólico" do Papa


Livro - Teologia

Comecemos pela vaca e pelo burro: não, o Papa não disse que eles têm que desaparecer do presépio. O que se passou quando “Jesus de Nazaré – A Infância de Jesus” foi publicado, a 20 de Novembro, traduz um grave problema mediático: agências noticiosas e jornais internacionais passaram a informação, depois repetida e em alguns casos acrescentada, de que o Papa afirmava que o burro e a vaca não fazem parte do presépio; alguns chegavam ao ponto de escrever que o Papa afirmava que aquelas figuras são invenção.
E no Telejornal da RTP, desta noite, passou mais uma peça da qual se depreende que a jornalista nem sequer teve o trabalho de ler os 3-parágrafos-3 em que o Papa fala do assunto. E só uma leitura apressada ou sensacionalista terá retido as pessoas apenas na primeira frase desses três parágrafos (25 linhas!) onde o tema é tratado: “Aqui, no evangelho, não se fala de animais”, escreve Bento XVI. Para acrescentar logo a seguir: “mas a meditação guiada pela fé (...) não tardou a preencher esta lacuna.” (pág. 61-62) E para terminar peremptoriamente: “Nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento.”
O Papa atém-se, para chegar a esta conclusão, ao significado simbólico e bíblico da representação destas duas figuras na cena do nascimento de Jesus. Tal como sucede quando fala dos magos, que deu origem a outra “descoberta” mirabolante de jornais espanhóis: Bento XVI “afirmava” que os magos foram da Andaluzia, por causa desta frase: “Se a promessa contida nestes textos estende a proveniência destes homens até ao Extremo Ocidente (Társis = Tartessos, na Espanha), a tradição encarregou-se de desenvolver ainda mais a universalidade dos reinos destes soberanos, interpretando-os como reis dos três continentes então conhecidos: África, Ásia, Europa.”
Um disparate mediático, portanto, a juntar a tantos outros que, no domínio da informação religiosa, tantas vezes se verificam (sendo certo que, neste caso, muito do que se publicou tinha por fonte primeira um erro das agências e imprensa internacional e, por isso, a culpa principal não foi dos media nacionais; mas nada disso retira responsabilidade a que se confirme a informação).
Arrumadas no seu sítio as duas simpáticas figuras do presépio e aquilo que o Papa (não) diz, podemos então olhar para este novo livro de Joseph Ratzinger/Bento XVI, que completa a trilogia “Jesus de Nazaré”. E perguntamos: fosse este livro da autoria de outra pessoa que não o Papa e teria ele o sucesso mediático que teve, tal como já aconteceu com os dois anteriores volumes? Seguramente que não. Até porque nem o teólogo Joseph Ratzinger era um nome popular antes de ser Papa, nem os seus livros são fáceis de entender pela maioria dos crentes.
Este terceiro tomo (na realidade, o prólogo à obra) de “Jesus de Nazaré” volta a ser uma obra que acentua a dimensão simbólica da leitura do texto bíblico. Ratzinger faz tábua rasa de toda a exegese histórica dos evangelhos; para ele, tudo o que contam Lucas e Mateus sobre a infância de Jesus é verdade, mesmo se as duas narrativas são diferentes e não coincidentes em muita coisa. O Papa chega a escrever que ambos os autores dos evangelhos queriam escrever “história real”. Belém, os magos, a estrela, as aparições do anjo, os sonhos de José, a matança dos inocentes, as duas genealogias de Jesus – tudo isso “confirma” as profecias do Antigo Testamento e é narrativa histórica, na leitura de Ratzinger.
Na sua preocupação de “justificar” os textos dos evangelhos, o Papa chega a dizer, referindo-se a Augusto, que “sem o saber, o imperador contribui para o cumprimento da promessa” do nascimento de Jesus (p. 58). Se a afirmação se entende enquanto simbólica, ela pode parecer que está a falar-se de um Deus que dispõe das pessoas como se se tratassem de marionetas. E, noutro passo, diz que uma profecia do ano 733 a.C., segundo a qual uma virgem daria à luz um Emanuel se cumpriu “no momento da concepção de Jesus Cristo” (p. 47).
Ora, para lá de saber que pormenores dos evangelhos têm ou não fundamento histórico (questão importante, embora não decisiva para a compreensão do texto bíblico), há uma outra questão de fundo: toda a Bíblia é uma releitura permanente da relação de Deus com o seu povo. O Novo Testamento cristão é, também ele, uma releitura do Antigo Testamento judaico a partir da centralidade que Jesus passa a ter para os cristãos. Não por acaso, o livro começa por dizer que os evangelhos foram escritos para responder a essas “duas perguntas inseparavelmente unidas” sobre “quem é Jesus e donde vem”.
O valor principal do livro é, assim, a sua leitura simbólica – e ele inclui passagens notavelmente bem escritas, timbre deste Papa, como são por exemplo as passagens que se referem a José como o “justo” (p. 38/39), as referências à alegria como “dom próprio do Espírito Santo” (p. 29) ou a ideia segundo a qual “ao criar a liberdade, de certo modo Deus tornou-se dependente do homem; o seu poder está ligado ao ‘sim’ não forçado duma pessoa humana” (p. 36).
Mas este prólogo de “Jesus de Nazaré” decepciona ao não propor um retrato de Jesus e dos evangelhos da infância que seja significativo para os tempos de hoje e que se limita, por vezes, a repetir o que se diz desde há séculos.
O livro de Ratzinger foi objecto da entrevista que o padre e biblista Joaquim Carreira das Neves deu neste sábado à TSF. Nela, o exegeta defende que a obra faz uma “história teológica”, que pretende “preencher o vazio da infância de Jesus”. E recorda que os relatos da infância nasceram porque os cristãos dos finais do primeiro século (quando foram escritos os textos de Mateus e Lucas) se perguntavam sobre as origens de Jesus – sendo, por isso, respostas teológicas a essa pergunta.