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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Um circuito temático pela arquitectura religiosa contemporânea da diocese do Porto

Agenda

No próximo sábado, 20 de Junho, um grupo de jovens arquitectos interessados na temática da arquitectura religiosa contemporânea propõe um dia de visitas a igrejas modernas na diocese do Porto. Entre elas, o Complexo Paroquial da Boavista (Porto, 1974-99) e o Santuário de Santo António (Vale de Cambra, 1986-93), ambos projectados pelo arquitecto Agostinho Ricca, cujo centenário do nascimento se comemora este ano.
Estes dois edifícios, encomendados nas décadas de 1970 e 1980, respectivamente, são “obras de excelência de um autor cujo percurso ímpar ressalta no panorama da renovação da arquitectura religiosa moderna realizada em Portugal na segunda metade do século XX”, diz João Alves da Cunha, um dos organizadores do programa do próximo sábado.
O dia prevê ainda um percurso através de obras de Fernando Távora (Igreja de S. João de Ver, 1959-2008), Álvaro Siza (Centro Paroquial de Matosinhos, 1956-59), Luís Cunha (Centro de Caridade Perpétuo Socorro, Porto, 1964-73) e Fernando Abrunhosa de Brito e Manuel Magalhães (Seminário da Boa Nova, Valadares, 1967-69, na foto em cima, à direita, da autoria de Daniel Rocha).
“O conjunto das obras seleccionadas é um património diversificado e pouco conhecido que testemunha a participação da Igreja na construção da cidade”, nota João Alves da Cunha. “A expressão dos edifícios e a natureza dos programas espelham novos entendimentos sobre o lugar da igreja na urbe. São obras idealizadas por arquitectos formados nas Belas Artes do Porto que, com a obra sonhada e construída, conquistaram a modernidade para a arte ao serviço da Igreja.”
As visitas, com inscrição obrigatória aqui, terão início às 9h30, junto da igreja Nossa Senhora da Boavista, na Rua Azevedo Coutinho (Foco). Há diferentes possibilidades de inscrição, que podem ser consultadas na mesma página. O regresso à igreja de Nossa Senhora da Boavista está previsto para as 18h00 e no mesmo local realiza-se, às 21h30, uma conferência com entrada livre, sobre a obra do arquitecto Agostinho Ricca e o complexo paroquial da Boavista. Intervêm nesta sessão os arquitectos João Alves da Cunha, Helena Peixoto e João Luís Marques.


Este é o terceiro roteiro ao redor da arquitectura religiosa contemporânea, organizado pelos arquitectos João Luís Marques, João Alves da Cunha e Madalena Mariz Rodrigues. Em 2013, o primeiro percurso, à volta de Lisboa, inclui igrejas projectadas por João de Almeida (Paço de Arcos, 1969), Pedro Vieira de Almeida (Brandoa, 1989), Miguel Pimentel (Carnaxide, 1995) e Roseta Vaz Milheiro (Galiza, Cascais, 2009). Em 2014, o segundo percurso incluiu algumas das igrejas realizadas pelo SNIP (Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado de Lisboa) para a região do Oeste entre 1975 e 1995, em que se destacaram as recuperações e ampliações realizadas pelos arquitectos Diogo Lino Pimentel e António Flores Ribeiro (Runa, 1975 e Ramalhal, 1983).
Mais informações, incluindo o programa completo do dia, podem ser encontradas na já referida página da iniciativa.

sábado, 14 de março de 2015

In Memoriam. Madalena Cabral (Porto, 1922-2015) – a arte da paramentaria

Texto de João Alves da Cunha*


Madalena Cabral, Autoretrato

Madalena Cabral nasceu no Porto em 1922, mas foi na Escola António Arroio em Lisboa que realizou o curso de Artes Decorativas. Começou por dedicar-se à pintura, com maior destaque para a aguarela, que a levou a realizar algumas exposições no Porto e em Lisboa. Em 1948 recebeu o Prémio Henrique Pousão e, quatro anos depois, o Prémio José Tagarro. A sua aguarela Leitura foi adquirida para o acervo do então Museu de Arte Contemporânea de Lisboa. Ensaiou também alguns cartões para tapeçarias para a Manufactura de Portalegre. Em 1952 começou a trabalhar no Museu Nacional de Arte Antiga, onde lançou no ano seguinte as bases do pioneiro Serviço de Educação, orientado para a formação artística e cultural das crianças.
Em 1964, a sua experiência no trabalho com crianças associada à sua participação ativa na vida católica – Madalena Cabral pertenceu à União Noelista Portuguesa, cuja revista Étoile Noeliste foi presença constante em sua casa durante a infância – levou-a a desenvolver uma iniciativa com numerosas crianças que resultou numa exposição, em Lisboa, de desenhos infantis que se destinaram a ilustrar um Evangelho oferecido ao Papa Paulo VI.
Entretanto, os seus conhecimentos sobre têxteis levaram-na a envolver-se na fundação do MRAR (Movimento de Renovação da Arte Religiosa) em 1953, por intermédio de Maria José de Mendonça (1905-1984), também noelista e responsável pela organização da 1ª Exposição de Arte Sacra Moderna que se apresentou, em 1945, no Palácio Galveias, em Lisboa.
Enquanto sócia fundadora do MRAR, Madalena Cabral manteve ao longo dos anos uma participação intensa na vida do Movimento, apresentando conferências, escrevendo artigos e organizando exposições, de que se destaca a intitulada Paramentaria Moderna, realizada em 1964 na Sé de Lisboa.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Os anos de ouro da arquitectura religiosa portuguesa

Foram os anos de ouro da arquitectura religiosa portuguesa, assim o define o título da tese de doutoramento que, no passado dia 28 de Outubro, foi defendida pelo arquitecto João Alves da Cunha na Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa. A definição do título é esclarecedora acerca da importância da tese e do Movimento de Renovação de Arte Religiosa (MRAR), que ela pretende retratar. Tendo em conta essa importância, RELIGIONLINE publica a seguir, por deferência do seu autor, excertos das conclusões e da introdução, por esta ordem, deixando para o final a explicação dos aspectos metodológicos e das razões que levaram João Alves da Cunha a interessar-se pelo tema.
O autor da tese é também membro do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica. Os subtítulos são da responsabilidade do RELIGIONLINE. Foram aqui omitidas as notas de rodapé.


Luiz Cunha, Igreja Nossa Senhora de Fátima (1968), 
Póvoa do Valado (Aveiro)

Texto de João Alves da Cunha

A História vale na medida em que pode resolver os problemas do presente e na medida em que se torna um auxiliar e não uma obsessão.” (Fernando Távora, 1947)

O Movimento de Renovação da Arte Religiosa foi um acontecimento único, verdadeiramente “filho do seu tempo”, consequência de episódios que o antecederam e das circunstâncias que se viveram durante a sua existência. (...) António Freitas Leal, P. António dos Reis Rodrigues, Flórido de Vasconcelos, Henrique Albino, João Braula Reis, João Correia Rebelo, João de Almeida, José Maya Santos, Madalena Cabral, Maria José de Mendonça e Nuno Teotónio Pereira ficam para a história como tendo sido os sócios fundadores do MRAR, cuja organização inicial foi profundamente influenciada pela estrutura de duas organizações que lhes eram próximas –a suíça Sociedade de São Lucas que conheciam através de João de Almeida e a Acção Católica Portuguesa.
O grupo sempre afirmou explicitamente a sua formação católica, mas ao longo de toda a sua existência fez questão de se manter como um movimento independente da orgânica oficial da Igreja, como forma de poder relacionar-se e atrair pessoas de outros meios. No entanto, o núcleo do MRAR nunca perdeu o carácter “familiar” ou de pequeno grupo de amigos.
(...) quando fundaram o MRAR propuseram um programa ambicioso: realizar atividades internas para sua valorização doutrinal e técnica, efetuar reuniões de caráter espiritual para desenvolvimento da sua vida cristã, organizar exposições, cursos e conferências, editar publicações, estampas e gravuras, dar pareceres sobre todos os assuntos relacionados com arte e arquitetura religiosa, defender a execução de obras de arte sacra por artistas competentes e promover a realização de concursos. O objetivo a alcançar era tão vasto que é natural que na avaliação que faziam da sua ação considerassem que muito tinha ficado por fazer. No entanto, a realidade é que muito fizeram ao longo da existência do Movimento. Fazendo uso do pouco tempo e dos reduzidos meios que tinham disponíveis, os membros do MRAR conseguiram mudar mentalidades e contribuir para a renovação cultural da Igreja, num processo que afirmou e consolidou a construção da arquitetura religiosa moderna em Portugal. Para isso foi fundamental o estudo e reflexão que eles próprios realizaram, que passou pela consulta e leitura de livros e revistas internacionais, pelas visitas a igrejas no estrangeiro e pela relação próxima com padres e seminaristas, o que lhes conferiu um profundo conhecimento da temática, bem como uma capacidade particular para abordar o programa e projetar igrejas.

Um pensamento construído


Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, 
Igreja do Sagrado Coração de Jesus (1970), Lisboa