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domingo, 8 de outubro de 2017

José Maria Cabral Ferreira sj: comunicar com todo o afecto


In Memoriam (Porto, 10/02/1933 – Lisboa, 15/09/2017)




As últimas semanas ficaram marcadas pela partida de pessoas que se tinham tornado referências em diversos âmbitos e para diferentes gerações. Depois do bispo do Porto, D. António Franciscoe antes de D. Manuel Martinsprimeiro bispo de Setúbal, e de Jorge Listopadencenador e escritor, morreu, no dia 15 de Setembro, o padre José Maria Cabral Ferreira. Natural do Porto, onde viveu e trabalhou durante as últimas décadas, estava em Lisboa quando morreu, pois para ali tinha sido encaminhado para receber cuidados de saúde.
 Jesuíta há 65 anos, padre há 54 anos, sociólogo de formação e profissão, o padre José Maria era uma pessoa que marcava todos os que com ele se cruzavam. Um deles, companheiro na Ordem e amigo de muitos anos, foi o padre Vasco Pinto de Magalhães, que publicou esta semana, na página dos Jesuítas de Portugal, o testemunho que a seguir se reproduz (o título e subtítulos são aqui acrescentados ao texto).


Vida e morte do P. José Maria Cabral Ferreira sj
(texto do padre Vasco Pinto de Magalhães sj)

Falar do padre Zé Maria, na hora da sua morte?… Sinto um turbilhão de imagens e de conversas que se atropelam no meu espírito. Uma amizade espontânea e construída, sobretudo nestes últimos 30 anos, dezoito deles a viver na mesma comunidade jesuíta do Porto, não se resume facilmente. Uma das suas características era a de fazer e deixar amigos por todo o lado. Como se nada fosse! 
Posso partilhar algumas coisas que fizemos juntos e foram marcantes, recorrendo ao meu “Álbum de memórias”. Abro à sorte, aqui, por exemplo, estamos na Sicília. Percorremo-la, nesse verão, de uma ponta à outra, contemplativamente… Ele sempre se distraiu com as horas! Mas sempre havia onde ficar, pois em todo o lado (e isto também no resto da Itália) encontrava um casal amigo, um arquiteto seu conhecido, um padre de paróquia aonde, antes, teria vindo ajudar na Páscoa, etc. Agora, aqui, esta foto é no Centro Pedro Arrupe (Istituto di formazione politica), que ele tanto queria visitar em Palermo: conversando sobre os grandes desafios impostos pela Máfia e as questões sociais graves da região. Mas, no dia seguinte, sem horas marcadas, em Agrigento, no Vale dos Templos, mergulhámos num grande silêncio só interrompido quando, de repente, ele começava a recitar algum texto dos clássicos ou uma poesia que parecia responder a alguma observação minha sobre a paz ou a estética do lugar, mas ele ia muito mais além.
Torno a abrir o Álbum e, agora, estamos em Exercícios Espirituais, nada mais, nada menos do que no grande Mosteiro cisterciense de Santa Maria la Real de Oseira. Oito dias, bem inacianos, dando pontos de meditação um ao outro, e participando nas horas canónicas cantadas no coro dos monges. Largos passeios silenciosos; uma paragem debaixo de um grande castanheiro e lá vinha a sua reflexão a partir das saborosas bolachas que os monges fabricavam e nos ofereciam e dali nos levava o pensamento até S. Bento e à construção da Europa (em Ora et Labora), e daí saltava para o seu Douro vinhateiro ou para as pequenas aldeias de Trás-os-Montes onde tinha trabalhado e deixado grande parte da sua alma social. 

Aulas que marcaram gerações

O padre Zé Maria não era um sociólogo de cátedra. As suas aulas, quer na Faculdade de Arquitetura quer no Instituto de Serviço Social do Porto, marcaram fortemente várias gerações. Mas onde se sentia mesmo bem era no trabalho de campo, ou melhor, comunicando com as “gentes” de todo o tipo e com todo o afecto. O tempo e cuidado que dedicava à JARC, aos grupos que vinham das suas terras reunir com ele ao Porto, a alegria com que participava nas celebrações da Comunidade da Serra do Pilar e a admiração pelos seus amigos “padres operários”, a presença no Banco Alimentar do Porto, a importância que dava aos encontros e às pessoas ligadas ao Metanoia, à CNIS (Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade) de que foi um dos fundadores e, como ele próprio dizia, a sua “quase-obsessão” pelo “Bairro Português de Malaca” onde trabalhou, viveu e escreveu, mostram bem a sua inquietação pela justiça e pelos “esquecidos”, juntamente com seu sentido crítico e ao mesmo tempo apaixonado, fazem o seu retrato.