Depois de Maio, podemos voltar a
parte do muito que se publicou sobre Fátima e que ajudará a sistematizar
informação e elementos para vários debates sobre o fenómeno, que importa agora
aprofundar.
Neste mês, trago aqui um texto que
publiquei no número de Maio/Junho da revista Brotéria, onde procuro analisar o Comentário Teológico sobre o “segredo de
Fátima”, publicado pelo então cardeal Joseph Ratzinger, enquanto prefeito da
Congregação para a Doutrina da Fé, em Junho de 2000. Este é o terceiro trabalho
da série e que incluirá mais dois textos, nos dias 13 de Setembro e 13 de
Outubro, além de outros dois sobre a figura de Maria, a publicar no próximo dia
15.
FÁTIMA: SEGREDOS, CONTEXTOS E LINGUAGENS
A afirmação do então cardeal
Joseph Ratzinger é uma das que marca o Comentário
Teológico acerca do “segredo de Fátima”: “A conclusão do «segredo» lembra
imagens, que Lúcia pode ter visto em livros de piedade e cujo conteúdo deriva
de antigas intuições de fé”, escrevia, em Junho de 2000, o futuro Papa Bento
XVI (2005-2013).
A linguagem do segredo e a
linguagem relacionada com a experiência católica e crente da época em que se
dão os acontecimentos de Fátima, e dos seus desenvolvimentos posteriores,
ajudam a entender muito do que foi a construção do fenómeno ao longo deste
século. Fátima surge num contexto religioso e político determinado e
desenvolve-se, depois, também em relação com a espiritualidade e os
acontecimentos políticos das últimas décadas.
Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI
O texto do Comentário Teológico (que pode ser lido aqui, onde também se pode encontrar o texto da terceira parte do segredo escrita por Lúcia e o relato da conversa do então arcebispo Tarcisio Bertone com a irmã Lúcia e outros documentos relativos ao “segredo”)
pode ser lido como um olhar crítico do fenómeno tradicionalmente designado como
“aparições” – que, claramente, para Ratzinger, não deve ser designado como tal.
O texto aponta para caminhos diferentes dos da linguagem mais tradicional usada
em relação a Fátima, embora o faça através de uma proposta positiva, que tenta
retirar da mensagem o que de melhor nela se pode ler: a proximidade de Deus
através da ideia do coração imaculado e da atenção maternal de Maria de Nazaré;
o apelo à conversão permanente ao evangelho de Jesus; a centralidade do
objectivo de “crescer sempre mais na fé, na esperança e na caridade”, pois
“tudo o mais pretendia apenas levar a isso”; e “a importância da liberdade do
homem”, orientando-a “numa direcção positiva” e mobilizando “as forças da
mudança em bem”.
Esse olhar positivo, que pretende
confirmar a integração da mensagem de Fátima na mensagem evangélica mais
autêntica, pode perceber-se, por exemplo, quando o futuro Papa Bento XVI
escreve que o “triunfo do Imaculado Coração de Maria”, de que fala o texto do
segredo, significa que aquele “Coração aberto a Deus, purificado pela contemplação
de Deus, é mais forte que as pistolas ou outras armas de qualquer espécie”. Ou
ainda quando refere as palavras-chave da primeira e segunda partes do “segredo”
(a frase “salvar as almas”) e a da terceira parte (“o tríplice grito:
‘Penitência, penitência, penitência!’”), o que o leva a afirmar: “Volta-nos ao
pensamento o início do Evangelho: ‘Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.’
Perceber os sinais do tempo significa compreender a urgência da penitência, da
conversão, da fé.”
Paz – presença e ausência
Estranhamente, o Comentário do cardeal Ratzinger deixa de
lado a questão da paz, que é outro tema central da mensagem e da prática
pastoral de Fátima, bem como da adesão das populações. Aliás, essa ideia vem
sendo sublinhada desde há décadas pelos responsáveis do santuário, por
estudiosos do fenómeno, bispos e papas.
Quando veio a Fátima, em 1967, o
Papa Paulo VI anunciou a visita dizendo que viria, como peregrino, para invocar a intercessão da
mãe de Jesus “a favor da paz da Igreja e do mundo”. E, na homilia que
pronunciou no santuário, sublinhava esse objectivo: “O mundo, a paz do mundo”,
bem como o desejo de “paz interior” para a Igreja. Em 2010, o próprio Bento XVI
sublinharia, na sua homilia em Fátima, que os videntes “fizeram da sua vida
uma doação a Deus e uma partilha com os outros por amor de Deus” e que “só com
este amor de fraternidade e partilha construiremos a civilização do Amor e da
Paz”.
