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domingo, 13 de agosto de 2017

Fátima, 100 anos, de Maio a Outubro (3) – Segredos, contextos e linguagens

Depois de Maio, podemos voltar a parte do muito que se publicou sobre Fátima e que ajudará a sistematizar informação e elementos para vários debates sobre o fenómeno, que importa agora aprofundar.
Neste mês, trago aqui um texto que publiquei no número de Maio/Junho da revista Brotériaonde procuro analisar o Comentário Teológico sobre o “segredo de Fátima”, publicado pelo então cardeal Joseph Ratzinger, enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em Junho de 2000. Este é o terceiro trabalho da série e que incluirá mais dois textos, nos dias 13 de Setembro e 13 de Outubro, além de outros dois sobre a figura de Maria, a publicar no próximo dia 15.


FÁTIMA: SEGREDOS, CONTEXTOS E LINGUAGENS

A afirmação do então cardeal Joseph Ratzinger é uma das que marca o Comentário Teológico acerca do “segredo de Fátima”: “A conclusão do «segredo» lembra imagens, que Lúcia pode ter visto em livros de piedade e cujo conteúdo deriva de antigas intuições de fé”, escrevia, em Junho de 2000, o futuro Papa Bento XVI (2005-2013).
A linguagem do segredo e a linguagem relacionada com a experiência católica e crente da época em que se dão os acontecimentos de Fátima, e dos seus desenvolvimentos posteriores, ajudam a entender muito do que foi a construção do fenómeno ao longo deste século. Fátima surge num contexto religioso e político determinado e desenvolve-se, depois, também em relação com a espiritualidade e os acontecimentos políticos das últimas décadas.


Cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI

O texto do Comentário Teológico (que pode ser lido aqui, onde também se pode encontrar o texto da terceira parte do segredo escrita por Lúcia e o relato da conversa do então arcebispo Tarcisio Bertone com a irmã Lúcia e outros documentos relativos ao “segredo”) pode ser lido como um olhar crítico do fenómeno tradicionalmente designado como “aparições” – que, claramente, para Ratzinger, não deve ser designado como tal. O texto aponta para caminhos diferentes dos da linguagem mais tradicional usada em relação a Fátima, embora o faça através de uma proposta positiva, que tenta retirar da mensagem o que de melhor nela se pode ler: a proximidade de Deus através da ideia do coração imaculado e da atenção maternal de Maria de Nazaré; o apelo à conversão permanente ao evangelho de Jesus; a centralidade do objectivo de “crescer sempre mais na fé, na esperança e na caridade”, pois “tudo o mais pretendia apenas levar a isso”; e “a importância da liberdade do homem”, orientando-a “numa direcção positiva” e mobilizando “as forças da mudança em bem”.
Esse olhar positivo, que pretende confirmar a integração da mensagem de Fátima na mensagem evangélica mais autêntica, pode perceber-se, por exemplo, quando o futuro Papa Bento XVI escreve que o “triunfo do Imaculado Coração de Maria”, de que fala o texto do segredo, significa que aquele “Coração aberto a Deus, purificado pela contemplação de Deus, é mais forte que as pistolas ou outras armas de qualquer espécie”. Ou ainda quando refere as palavras-chave da primeira e segunda partes do “segredo” (a frase “salvar as almas”) e a da terceira parte (“o tríplice grito: ‘Penitência, penitência, penitência!’”), o que o leva a afirmar: “Volta-nos ao pensamento o início do Evangelho: ‘Arrependei-vos e acreditai no Evangelho.’ Perceber os sinais do tempo significa compreender a urgência da penitência, da conversão, da fé.”

Paz – presença e ausência

Estranhamente, o Comentário do cardeal Ratzinger deixa de lado a questão da paz, que é outro tema central da mensagem e da prática pastoral de Fátima, bem como da adesão das populações. Aliás, essa ideia vem sendo sublinhada desde há décadas pelos responsáveis do santuário, por estudiosos do fenómeno, bispos e papas.
Quando veio a Fátima, em 1967, o Papa Paulo VI anunciou a visita dizendo que viria, como peregrino, para invocar a intercessão da mãe de Jesus “a favor da paz da Igreja e do mundo”. E, na homilia que pronunciou no santuário, sublinhava esse objectivo: “O mundo, a paz do mundo”, bem como o desejo de “paz interior” para a Igreja. Em 2010, o próprio Bento XVI sublinharia, na sua homilia em Fátima, que os videntes “fizeram da sua vida uma doação a Deus e uma partilha com os outros por amor de Deus” e que “só com este amor de fraternidade e partilha construiremos a civilização do Amor e da Paz”.