terça-feira, 17 de maio de 2011
Conferência de Joseph Weiler, o defensor dos crucifixos, na Católica
Sugiro que se veja aqui o vídeo da defesa que Weiler fez da manutenção dos crucifixos, no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. E o texto em que, como judeu, quer manter a responsabilidade colectiva dos judeus pela morte de Jesus.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Um judeu que não quer ser absolvido da morte de Jesus
remover a cruz é algo realmente iliberal. Permitir a cruz é a posição liberal, a posição pluralista, porque a Europa tem tanto uma França quanto uma Grã-Bretanha. A França é um Estado oficialmente laico, mas, na Inglaterra, o hino nacional é "God Save the Queen", e a Rainha é a chefe da Igreja da Inglaterra. Toda imagem da Rainha em uma sala de aula britânica é tanto um símbolo nacional quanto religioso. Você poderia dizer que essa é uma grande tradição, que é a Europa autêntica. A posição esclarecida é aceitar uma Europa tanto com a França, quanto com uma Grã-Bretanha, e não afirmar que, como a Câmara fez, que todos têm que ser como a França – ou, neste caso, como os EUA. O que é preciso fazer é capacitar uma potencial maioria a se sentir que está fazendo a coisa certa, que deveriam se orgulhar por isso. Isso não é, de nenhuma forma, antieuropeu, antiliberal ou reacionário.
As pessoas me perguntam um milhão de vezes como um judeu praticante pode defender uma referência às raízes cristãs na Constituição Europeia, e eu digo que, nesse contexto, não sou um judeu praticante. Eu sou um constitucionalista praticante. Sou um pluralista praticante.
(…) Eu também não quero ser "absolvido". Temos que diferenciar entre culpa e responsabilidade. Eu quero ser capaz de dizer: "Sim, os judeus levaram Cristo à morte, porque é isso que o Senhor nos ordenou a fazer". Claro, pessoalmente, eu não sou responsável, eu não sou Caifás. Mas, como judeu, eu quero ser capaz de dizer que, quando alguém veio como profeta que operava sinais e prodígios e tentou mudar a lei, nós fizemos o que Deus nos pediu para fazer.
sábado, 12 de dezembro de 2009
Calendário de Advento (12) - Hanukkah, a luz judaica do renascimento
Coincidência de calendário, os judeus celebram normalmente a sua festa de Hanukkah na mesma época em que os cristãos celebram o Natal. A festa das Luzes celebra a purificação do Templo de Jerusalém, depois da profanação selêucida. A luz e o nascimento são símbolos que atravessam também o islão, o budismo ou o hinduísmo.(Foto: © Daniel Rocha/Público: A família reúne-se em volta do hanukkiah, o candelabro de Hanukkah)
“Ao cair da noite, vem o pranto;
e, ao amanhecer, volta a alegria.
Senhor, foste bom para mim e deste-me segurança;
mas, se escondes a tua face, logo fico perturbado.”
(Salmo 30, lido quando se acendem as velas na festa de Hanukkah)
Os judeus iniciaram a festa de Hanukkah esta sexta-feira ao pôr-do-sol. A Festa das Luzes ou da Dedicação é uma das mais importantes do calendário judaico: durante oito dias, recorda-se a reinauguração do Templo de Jerusalém, depois de este ter sido profanado pelos selêucidas sírios.
Em 165 a.E.C. (antes da Era Comum), foi Judá Macabeu quem liderou uma guerra de guerrilha contra a ocupação selêucida. A perseguição era violenta: o rei Antioco Epifânio queria helenizar a Síria e a Judeia. Proibiu a celebração do Sabat, a leitura da Bíblia e a circuncisão. Duas mulheres que tinham circuncidado foram apanhadas e atiradas pela muralha de Jerusalém. Pior ainda: o rei ordenou sacrifícios com porcos no Templo de Jerusalém, colocando nele uma estátua de Júpiter.
Quando, depois da reconquista de Jerusalém, os judeus purificaram o Templo, conta-se que foi encontrado um pote com azeite para acender a chama sagrada durante um dia. Mas o azeite durou oito dias. Por isso, em memória desse acontecimento, os judeus acendem anualmente (segundo o calendário lunar), em cada um dos oito dias, uma lamparina do candelabro de Hanukkah (e mais uma que é acesa todos os dias).
A festa é, essencialmente, familiar, explica Samuel Levy, conselheiro para os assuntos religiosos da Comunidade Israelita de Lisboa. Há doces e, em alguns casos, prendas para as crianças, tradição iniciada talvez por causa do Natal. Tendo em conta a importância do azeite nesta festa, os doces são sobretudo fritos, como as rabanadas ou os sufganiot (leva farinha, açúcar e canela). A família reúne-se em volta do hanukkiah, a lâmpada de Hanukkah. Reza-se uma bênção, recita-se o salmo 30, canta-se uma das muitas canções da festa.
Se o renascimento do Templo é importante, o nascimento de grandes figuras tem sempre dimensões extraordinárias. Samuel Levy recorda, no judaísmo, os nomes de Moisés, Isaac e Samuel. Moisés é retirado das águas, Isaac e Samuel nascem de mães que tinham sido estéreis até muito tarde. “Senhor do universo, se te dignares olhar para a aflição da tua serva e te lembrares de mim, se não te esqueceres da tua serva e lhe deres um filho varão, eu o consagrarei ao Senhor, por todos os dias da sua vida”, rezava Ana (I Samuel 1, 11), a futura mãe de Samuel (cujo nome significa “Deus escutou”).
Mais tarde, um outro judeu, Jesus, nasce de uma virgem, tal como acontecera com Confúcio, recorda Levy. Também o Alcorão lê de forma miraculosa o nascimento de Maria e de Jesus. “Assim será. Deus cria o que quer. Quando decreta alguma coisa, diz apenas: ‘Seja!’, e é” (Alcorão, 3, 47).
No budismo, a ideia do renascimento é central: “A vida começa como acaba: com a luminosidade-base”, escreve Sogyal Rinpoche (O Livro Tibetano da Vida e da Morte, ed. Círculo de Leitores). E no hinduísmo também o símbolo da luz é essencial: no Diwali, a festa das luzes, celebra-se a vitória sobre a obscuridade e o mal, acendendo velas e lâmpadas nas casas e nas ruas.
Na bênção inicial de Hanukkah, a família judaica reza: “Ó Eterno, nosso Deus: acendemos estas velas por causa dos milagres, redenções, grandes feitos, salvações, maravilhas e consolações que fizeste para com os nossos antepassados.”
Criação e recriação, um tema estético
A reflexão estética sobre a criação do mundo é um tema largamente presente na história da arte, tomando, por exemplo, o ciclo de sete dias proposto pela tradição judaico-cristã. Comum a todas as religiões, incluindo as primitivas, a ideia da criação do mundo foi elaborada no judaísmo depois da libertação da escravatura egípcia, e à luz desse acto fundador. A ideia foi retomada no cristianismo dando à criação e à salvação a unidade de um só acto. No islão, o Alcorão (55, 29) recorda que “todos os dias Alá cria qualquer coisa nova”.
Poema – Canção do pastor perdido, de Reinaldo Ferreira
Ia eu p’ra Belém
Com oferendas também
Por Babel me passava;
E, passando, hesitei,
Hesitando, parei
E parando, ficava.
Mas nem lavas, nem lodos,
Nem os répteis todos
Da Paixão e do Mal
Terão força que possa
Afundar-me na fossa
Do Juízo final.
(In Natal... Natais – Oito Séculos de Poesia sobre o Natal,
antologia de Vasco Graça Moura, ed. Público)
sábado, 12 de setembro de 2009
Judeus e muçulmanos na imprensa do fim-de-semana
1. “Há judeus na Síria desde Abraão, mas estão quase a acabar. O P2 passou um shabat na última sinagoga aberta, andou pelo bairro de casas abandonadas e bebeu café em casa de Albert, Rachel e Belle, três irmãos que guardam o fim, e convidam todos os judeus portugueses a aparecer”. “Um shabat em Damasco” – reportagem de Alexandra Lucas Coelho, em Damasco, no P2 (ler aqui).
2. “Alá também é deus português” – reportagem de Fernanda Câncio, no DN. No mês do Ramadão, oito anos depois do 11 de Setembro, quatro portugueses que falam da sua fé islâmica e de como a vivem em Portugal (ler aqui).
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Se a religião não fizer parte da solução, será parte do problema
“É a democracia compatível com a religião?”, pergunta Esther Mucznik no “Público” de 30 de Julho de 2009. “A resposta não oferece dúvidas. Todos os grandes regimes democráticos convivem com a fé religiosa dos seus cidadãos, inclusive com uma cultura religiosa dominante. Dos EUA à Indonésia, da Índia à França, a democracia convive com a religião de forma tanto mais harmoniosa quanto maior for a liberdade religiosa. A condição de uma plena vivência democrática não é a ausência de Deus, mas sim a autonomia da esfera política, tome esta a forma que tomar, seja o laicismo a la française ou o comunitarismo religioso inglês”, escreve a investigadora em assuntos judaicos.
Esther Mucznik sintetiza o modo como os três monoteísmos se relacionam com o Estado. O cristianismo é geneticamente separatista (porque nasceu com um Estado, o Império Romano, constituído e por causa do “a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”), mas só não caiu na "tentação teocrática" porque esta foi vencida pelo Estado moderno. O judaísmo não distingue político e religioso. Se Israel é hoje um “Estado relativamente laico”, “em que a lei é feita por um parlamento eleito por sufrágio universal e não pelos sábios da Torá”, é porque foi fundado por europeus imbuídos de ideias europeias, socialistas ou liberais. No Islão, “a mensagem do profeta precedeu o Estado, que foi concebido como um instrumento da religião”. Daí que o “islão seja a religião de Estado em praticamente todos o lado, numa relação de forças por vezes instável e conflituosa, como se vê actualmente no Irão”.
Esther Mucznik cita Madeleine Albright, Secretária de Estado de Bill Clinton, que diz acreditar “fortemente” na separação da religião e do Estado ("Público", 20 de Julho), D. Manuel Clemente, que afirma que a presença do islão nas sociedades europeias não deve ser encarada como ameaça mas sim como um desafio, e o rabino Jonathan Sacks, que disse que “se a religião não fizer parte da solução, será parte do problema”. Refere ainda a “criação inédita no Ministério dos Negócios Estrangeiros [francês] de um «Pólo Religiões»”, porque, em certos países, fazer política é falar de religião e inversamente.
Informação adicional: O “Pólo Religiões” é dirigido por Joseph Maila, antigo reitor do Instituto Católico de Paris (aqui).
terça-feira, 12 de maio de 2009
"Haja paz em Jerusalém", rezou o Papa junto do Muro

O momento historicamente simbólico está contado aqui.
domingo, 10 de maio de 2009
Bento XVI evocou o "elo inseparável" entre cristãos e judeus
Foi ao contemplar, no Monte Nebo, Jordânia, o vale do Jordão até Jerusalém, que o Papa Bento XVI decidiu sublinhar a matriz judaica do cristianismo: "A antiga tradição da peregrinação aos lugares santos recorda-nos também o elo inseparável que liga a Igreja ao povo judeu".É significativo que o Papa Ratzinger tenha escolhido terra jordana (e palestiniana) para falar desse tema que lhe é tão caro e do que ele implica na aproximação entre cristãos e judeus, um dos objectivos da sua viagem à Terra Santa.
"Possa o nosso encontro de hoje inspirar-nos um renovado amor pelo cânone das Sagradas Escrituras e o desejo de superar todos os obstáculos à reconciliação entre cristãos e judeus, no mútuo respeito e cooperação no serviço da paz."Bento XVI afirmou ainda: "É justo que a minha peregrinação comece por esta montanha, de onde Moisés contemplou de longe a Terra Prometida." Neste lugar, segundo a tradição, Deus mostrou a Moisés, depois de 40 anos de viagem pelo deserto, aquela que era a terra "onde mana leite e mel". Moisés morreria antes de ali entrar. "Sobre estas alturas, a memória de Moisés convida a 'elevar os olhos' para (...) olhar com fé e esperança o futuro."
Essa memória continua viva, afirmou Bento XVI: "Desde os inícios, a Igreja nestas terras sempre comemorou na liturgia as grandes figuras dos patriarcas e dos profetas, como sinal de profundo apreço pela unidade dos dois testamentos".A matriz judaica do cristianismo é uma ideia muito presente nos escritos teológicos de Joseph Ratzinger, eleito Papa em Abril de 2005. Se João Paulo II foi o homem dos gestos proféticos e históricos na reconciliação com os judeus - visita à sinagoga de Roma, pedido de perdão pelas perseguições, ida ao Muro das Lamentações, em Jerusalém -, Ratzinger é, sobretudo, o teólogo que procura um entendimento que não negue as diferenças.
Alemão de nascimento, ele próprio forçado a integrar a defesa anti-aérea do regime nazi, foi nos acontecimentos da II Guerra Mundial e do Holocausto que ele viu a base para uma mudança de discurso. Na sinagoga de Colónia, já Papa, em Agosto de 2005, recordou a "iniquidade" da Shoah e referiu-se ao "muito por fazer" nas relações judaico-cristãs: um "diálogo sincero e confiante" que leve à "interpretação conjunta acerca de questões históricas ainda abertas" e que avalie a relação teológica entre judaísmo e cristianismo.
O Holocausto esteve na origem da mais recente polémica de vários sectores judaicos com Bento XVI. Em Janeiro, o Papa levantou a excomunhão de quatro bispos integristas, entre os quais um negacionista. Depois de muitos protestos e pressões para um pedido de desculpas, Ratzinger afirmou que não há margem para negar o Holocausto.
Em Colónia, o Papa dizia que o diálogo não deve "esquecer nem subestimar as diferenças existentes". Desde logo, a concepção fundamental de que o Messias está para vir (judeus) ou que já veio, em Jesus (cristãos). Numa intervenção na Academia de Ciências Morais e Políticas de Paris, em 1997, afirmou Ratzinger: "[Na fé de Israel, são essenciais a Torá e, por outro lado,] o olhar de esperança, a espera do Messias - a espera, isto é, a certeza de que o próprio Deus entrará nesta história e realizará a justiça. (...) Também a Igreja espera o Messias, que já conhece e à qual, antes de mais, ele manifestará a sua glória." São estas proximidades e diferenças que Bento XVI quer ver conversadas entre judeus e cristãos.

