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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A Via Crucis, de Kcho: A escravatura da emigração ilegal, um sacrifício de significação religiosa


Kcho, Via Crucis, 2013 (técnica mista sobre tela - 100x120 cm), pormenor

“A emigração ilegal é uma nova forma de escravatura; e esse sacrifício, para mim, tem uma significação religiosa”, diz Kcho, artista cubano que pintou recentemente uma Via Crucis, onde conta histórias de mulheres e homens sem rosto que deixam Cuba à procura de melhores condições de vida. 
Cuba, como Lampedusa (ver texto anterior no blogue), são símbolos dessas pessoas anónimas que afrontam o mar, nele depositando o seu destino e o insondável mistério que o determina, como escreve Luciano Caprile no catálogo de Via Crucis. A exposição, que esteve no Palazzo della Cancelleria (onde funcionam várias instituições da Santa Sé), em Roma, entre Maio e Junho deste ano, mostra barcos como se fossem totens, árvores ou cemitérios, e pessoas que buscam, se enrodilham, desesperam ou esperam.
Alexis Leiva Machado, ou Kcho (lê-se Kátchô) é um artista cubano nascido em Nova Gerona, na Isla de la Juventud, a 12 de Fevereiro de 1970. Com quatro irmãs, é filho de Ignacio de Loyola Leiva Abreu, carpinteiro e técnico de telecomunicações, e de Martina Primitiva Machado Cuni, “incansável trabalhadora e artista popular”, como o artista a define.
Em entrevista ao RELIGIONLINE a propósito da sua exposição, Kcho explica como olha para este tema e fala sobre o papel da fé, da arte e do artista: “Os meus desenhos, pinturas e instalações são o reflexo desta dimensão da fé, os sonhos de esperança e solidariedade e amor ao próximo.”


Kcho, Sem título, 2014 (técnica mista sobre tela - 187x155 cm)


P. – Como chegou ao tema da emigração?
KCHO – Viajando e conhecendo, a minha obra começa uma viagem, primeiro de reconhecimento, nos anos 90 do século XX, quando fiz uma série de objectos de instalação, que analisavam e recriavam a forma do nosso arquipélago: La Jaba, La Jaula, El Papalote. Mas em outra instalação, Siempre fue verde, de 1991, meti os pés no mar, e desde esse momento estudo a insularidade, as suas complexidades, a viagem, os significados e efeitos na vida e na natureza humana.
Sempre, desde as primeiras obras – estas que referi –, a minha curiosidade e preocupação acerca deste tema foi crescendo; e comecei a experimentar com outros materiais e mais o campo da instalação e realizei uma obra que falava de algo que estava crescendo em Cuba: as saídas, em busca de outro horizonte, em precários elementos flutuantes feitos à mão e em casa, e com qualquer coisa. Desta energia nasceu La Regata (1993-94). Esta obra foi considerada uma premonição, nesses tempos.


Kcho, A Regata, 1993-1994, instalação 
(madeira, plástico, metal, cerâmica e objectos de uso comum)