Mostrar mensagens com a etiqueta Liturgia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Liturgia. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 5 de março de 2018

Confusões, encontros e desencontros de Quaresma

Crónicas



Ilustração de Bernadette Lopez (Berna), reproduzida daqui

Duas crónicas sobre os textos da liturgia católica deste 3º Domingo da Quaresma, dia 4 de Março. No Público, frei Bento Domingues escreve sobre A hipocrisia e as confusões da Quaresma:
A liturgia deste Domingo, terceiro da Quaresma, está centrada na indignação e na revolta de Jesus contra a religião transformada em negócio. Subiu a Jerusalém e encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas, de pombas e os cambistas sentados às bancas. Tudo o que era preciso para um culto bastante caro de judeus que vinham para a Páscoa, de todo o lado. Conta S. João que “Jesus fez um chicote de cordas e expulsou-os todos do Templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas, derrubou-lhes as mesas e disse aos que vendiam pombas: tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio.”
(texto para ler aqui na íntegra)

No jornal do patriarcado de Lisboa, o padre Vítor Gonçalves escreve sobre Encontros e desencontros:
Todo o judeu adulto devia ir, pelo menos uma vez na vida, ao Templo, e multidões afluíam a Jerusalém na altura da Páscoa. Também nele existia um átrio dos gentios, adoradores de Deus não submetidos às leis do judaísmo. Foi daí que Jesus expulsou vendedores e cambistas, recusando a transformação da “casa de oração do Pai” em “casa de comércio”. Não se pode encontrar o Pai em nenhum lugar onde o dinheiro é adorado; em nenhum coração que a ele se vende, em nenhuma vida escravizada pela ganância. A felicidade que o dinheiro promete tem o sabor amargo da tentação da serpente: “desencontra-nos” de Deus, de nós próprios, dos outros, e da própria vida!
(texto para ler aqui na íntegra)


sábado, 24 de fevereiro de 2018

Músicas que falam com Deus (39): o sublime canto moçárabe


Este disco abre com duas peças sublimes: um Pacem meam do vobis (que é possível ouvir no vídeo ao lado) e o responsório Surgam et ibo. Mas poderíamos juntar as restantes, com destaque para o Gloria, as Lamentações ou a Oração, de Jeremias, que fazem do disco uma obra de beleza ímpar, fundada na tradição do canto dos moçárabes – os cristãos que viveram na Península Ibérica sob o domínio muçulmano.
É essa música, de que raros manuscritos se guardaram, que aqui se tenta recuperar. É mais um exemplo do vastíssimo labor que Eduardo Paniagua vem dedicando à salvaguarda desse património tão rico e diversificado quanto desconhecido e que abarca a música de inspiração islâmica, judaico-sefardita, cristã (aqui, com predominância para as Cantigas de Santa Maria, de Alfonso X, o Sábio) ou profana.
Um trabalho de que Paniagua deu uma pequena mostra no concerto de Natal que fez no Centro Ismaili, em Lisboa, em Dezembro último, e que é fundamental conhecer. 

Título: Canto Visigótico-Mozárabe – Santiago y la Antígua Liturgia Hispana
Intérpretes: Ensemble Musica Antigua; dir. Eduardo Paniagua
Edição: Pneuma

(Texto publicado no número de Fevereiro de 2018 da revista Além-Mar)


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Modas e bordados: precisamos de um museu do traje eclesiástico?



O cardeal Raymond Burke, no início do mês, em Fátima (foto reproduzida daqui)

Comentário 
Na edição de hoje do Jornal de Notícias, publiquei um texto que aqui se reproduz, acrescido de dois parágrafos, omitidos na versão do jornal, por razões de espaço:

No início do mês, houve vários desfiles de rendas e bordados de moda eclesiástica em Portugal: em Fátima, Mafra e Lisboa, o cardeal norte-americano Raymond Burke, defensor (e praticante) do rito tridentino da liturgia, celebrou várias vezes a eucaristia. Ou, como ele e outras pessoas preferem dizer (numa linguagem que pretende demarcar tudo o “sagrado” e o “profano”), a “santa missa”. Até aí, tudo certo.
O problema está no aparato em volta do rito que se seguia a cada celebração. Num filme que circula em várias páginas da internet (aqui, por exemplo), pode ver-se o cardeal Burke, no final da celebração da eucaristia na Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima. Durante nove minutos e meio, vemos uma sucessão de gestos de tirar e pôr, vestir e calçar: rendas, sotaina, batina, casula, sobrepeliz rendada, luvas, tricórnio... o mostruário de vestes é extenso, numa sessão que parece saída de um museu que se julgava encerrado em curiosidades históricas.
Teria a última ceia de Jesus sido esta passerelle? A acreditar na narrativa do evangelho segundo São João, não terá sido esse o caso, bem pelo contrário: “Enquanto celebravam a ceia, Jesus (...) levantou-se da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e atou-a à cintura. Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que atara à cintura. (...) Depois de lhes ter lavado os pés e de ter posto o manto, voltou a sentar-se à mesa e disse-lhes: ‘Compreendeis o que vos fiz? (...) Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também. (...) Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática.” (João 13, 3-17)
Quando se vai à missa, vai-se a um encontro “vivo, não a um museu”, disse o Papa Francisco, nem de propósito, na audiência da passada quarta-feira, dia 15. O que é dramático, e deveria motivar a reflexão, é que estes rituais e vestes atraem muita gente – e, também, muita gente nova. Tal como sucede em outros âmbitos sociais e culturais, vivemos hoje tempos em que o que fascina é o rito, a forma, o aparato, a aparência – quase sempre, como manifestações de poder ou do poder do dinheiro. Seja na televisão, nas praxes académicas, na hierarquização profissional, na política, o que conta é a forma e a ostentação e não o que se é, o que se pretende ou o que se pensa. Aliás, a dado momento do filme, parece estarmos a ver um desfile de praxe académica. Quase no final, uma menina posa para a fotografia, fazendo lembrar os concursos de televisão em que as crianças são usadas como extensões ou bonecos nas mãos dos adultos.

sábado, 28 de maio de 2016

A responsabilidade de “ter fé”

Crónicas 

No seu comentário aos textos bíblicos da liturgia católica deste Domingo, Vítor Gonçalves escreve, sob o título Com os outros:

É assim que a fé conduz sempre ao amor, não existe por ou para si mesma, e o gesto salvador de Jesus é antecipação da Páscoa oferecida a todos. Grande é a responsabilidade de todos os que nos dizemos “ter fé”. Ela tem de se concretizar em amor concreto e universal, amor que caminha e faz caminhar, amor que perdoa e levanta, que é humilde para pedir e ter esperança.

(Texto para ler aqui na íntegraficam a seguir as ligações para os textos de Vítor Gonçalves dos dois últimos meses:
22 de Maio – “Deus não é solitário”15 de Maio – Os nove (ou nove mil) frutos8 de Maio – Descer para subir1 de Maio – O trabalho e as mães24 de Abril – E se fosse comigo?17 de Abril – Escutar, conhecer e seguir10 de Abril – “Não pescas nada...!”

Ilustração: Bernadette Lopez (Berna), reproduzida daqui

Texto anterior no blogue
Eucaristia: a revolução - crónicas de Anselmo Borges

sexta-feira, 25 de março de 2016

Lavar os pés, comer juntos e despertar um fogo


Ilustração: Bernadette Lopez, Berna, 
O lava-pés (5), reproduzida daqui

O Papa Francisco disse, quinta-feira à tarde, que o tráfico de armas é uma das razões dos atentados terroristas. Foi na celebração da Última Ceia de Jesus, durante a qual cumpriu o rito do lava-pés, um dos símbolos da Páscoa. Este texto fala desse símbolo, da refeição, da cruz e do fogo. Foi publicado na edição de hoje do Diário de Notícias:

O Papa Francisco celebrou ontem a liturgia do lava-pés, com um grupo de refugiados de vários países e religiões, incluindo muçulmanos e hindus. “Todos irmãos, filhos do mesmo Deus, que queremos viver em paz”, disse o Papa.
No final da cerimónia, no centro de acolhimento de Castelnuovo di Porto, 30 quilómetros a norte de Roma, vários cristãos coptas começaram a cantar. “É belo viver juntos, como irmãos, com culturas, religiões e tradições diferentes. Mas somos todos irmãos e isto tem um nome: paz e amor. Obrigado”, disse Francisco, antes de passar por todas as filas a saudar os refugiados, um por um, os quase 900 refugiados (incluindo 554 muçulmanos), de 26 nacionalidades.
Na homilia, o Papa referiu os atentados de Bruxelas: por trás do terroristas, estão também “os que fabricam e traficam armas”, que “querem a guerra”, disse. “Pobres daqueles que compram armas para destruir a fraternidade.”
Francisco ajoelhou depois perante oito homens e quatro mulheres: uma funcionária do centro, quatro nigerianos católicos, três ortodoxas da Eritreia, um hindu e três muçulmanos da Síria, Paquistão e Mali, regista a agência Ecclesia.
“Os gestos falam mais do que as imagens e do que as palavras”, disse, referindo depois o significado do lava-pés, um dos símbolos mais importantes das liturgias dos quatro dias de Páscoa: “Todos nós estaremos a fazer o gesto da fraternidade e dizemos todos que somos diferentes, distintos, com culturas e religiões diferentes, mas somos irmãos e queremos viver em paz.”

domingo, 28 de junho de 2015

Sem mulher nem filhos, junto de uma capela encantada

Reportagem

Um padre invisual, pároco de uma aldeia; outro, trabalhando como enfermeiro no Hospital de São João; ambos passaram pelo Seminário Conciliar de Braga, local de formação do clero da diocese, onde também se aprende a cantar, se pratica futebol, se fala de arte e liturgia e se escreve e publica nas redes sociais. A reportagem de Manuel Vilas Boas, que passou este fim-de-semana na TSF, registou que ali se tentam formar “pastores nómadas” e peregrinos, que saibam entender os sinais deste tempo. A reportagem Sem mulher nem filhos pode ser escutada aqui.

Na reportagem fala-se também da capela Árvore da Vida, que foi construída dentro do seminário e que recebeu já várias distinções internacionais de arquitectura. A 11 de Setembro de 2011, publiquei na revista Pública um texto sobre A capela encantada de Braga, dedicado em exclusivo a este espaço, e acompanhado de fotos de Daniel Rocha, e que a seguir reproduzo:

A capela encantada de Braga


(fotos © Daniel Rocha)

É a Árvore da Vida. A madeira contorce-se, mostra as suas feridas, "como uma pessoa". Esta capela pode ser um jardim, um bosque ou uma avalanche de metáforas. Desde logo, uma metáfora de luz. E um jogo de sombras, alusivo à criação do mundo. Vinte toneladas de madeira, sem pregos.
Será uma cabana? Um barco? Um favo de mel? Talvez um abrigo? Uma caixa de luz? Um bosque? Há uma capela encantada no meio do Seminário Conciliar de Braga. São 20 toneladas de madeira que escrevem todo um tratado de teologia e beleza. E que permitem uma experiência estética de espanto.
Esta capela também se transforma numa grande estante, onde se podem abrigar livros de canto, de oração ou de liturgia, colocando-os no intervalo das lamelas. Ela é, ainda, um jogo de luz permanente, tricotando rendas, traços, sombras, redes, puzzles, desenhos inesperados... E, sim, pode visitar-se.
"Quando começámos a pensar no trabalho, sabíamos o que não queríamos: que o espaço fosse reconhecido como capela apenas por ter um altar e um ambão", diz à Pública o arquitecto António Jorge Fontes, que, com o irmão André Fontes, é autor do projecto.
Claro que nada há mais fácil do que projectar uma igreja: uma nave central, um altar para a mesa da celebração, um ambão para a leitura dos textos, algumas peças mais que fazem o conjunto. Diga-se de outro modo: nada há mais difícil do que projectar uma igreja, que conceber um espaço que remeta para o sagrado. E que o faça a partir de elementos singelos como uma mesa de altar, uma estante de leitura e pouco mais.
No caso da capela Árvore da Vida - iremos depois às razões do nome - do Seminário de Braga, o que constrói a ideia de capela é mesmo o espaço, diz António Jorge Fontes. Não há um adro, mas ele existe. Não há portas, mas estão lá duas. Não há uma cúpula, mas insinua-se uma.
Entra-se assim: podemos vir de baixo, da igreja de S. Paulo (que foi renovada com uma colecção de telas de Ilda David" sobre a vida do apóstolo) e, um piso acima, da capela São Pedro e São Paulo, o grande espaço litúrgico do seminário, que também já foi objecto de reforma espacial. Subimos em direcção ao primeiro piso. Duas janelas de vidro, grandes, a meio da escada, permitem ver o jardim que mais tarde será também trabalhado. E possibilita a entrada de luz que irá brincar com claridades e sombras no interior da capela. Uma porta pesada, sem verniz, para deixar a madeira respirar, dá acesso a um corredor do seminário.
Ou será um átrio? É uma caixa que envolve outra, a da capela propriamente dita. É um lugar de passagem, para o qual convergem mais duas portas que permitem idas e vindas para os quartos dos seminaristas. Aqui se faz um adro, com chão e paredes em microcimento, com relevos insinuados. Como lava informe, um caos.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Um grande bispo e a missa em vernáculo

Crónicas

Depois de, na semana passada, ter evocado a figura de D. Abílio Vaz das Neves, bispo de Cochim (1934-39) e Bragança (1939-65), intitulando-o de Um grande bispoFernando Calado Rodrigues escreve hoje sobre a Missa na própria língua

Se Jesus se esforçou para falar uma linguagem que todos entendessem, então a Igreja deve fazer esse mesmo esforço. O Vaticano II deu um passo significativo, há cinquenta anos, para tornar mais acessível a sua liturgia e a sua pregação. Ora, é uma incumbência de todos, sobretudo os que presidem às celebrações, dar continuidade a este desígnio do concílio. E estimular nas comunidades uma participação mais ativa na liturgia e na vida da Igreja.
(texto integral aqui)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A liturgia, uma arte total


A liturgia deve ser uma arte total, defendeu esta quinta-feira, em Lisboa, o teólogo e frade dominicano Bento Domingues. Falando nas jornadas “Liturgia, arte e arquitectura – nos 50 anos do Concílio Vaticano II”, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), frei Bento afirmou: “Não se pode ter uma boa igreja com uma decoração miserável; nem uma boa decoração com uma música péssima ou uma homilia desgraçada.”
Bento Domingues, que nas suas intervenções públicas tem insistido na ideia da beleza na acção litúrgica, acrescentava: “Na liturgia, a envolvência é total porque é presença e símbolo e só é eficaz quanto mais simbólica for.”
Referindo-se ao poema de Ruy Belo, “Nós, os vencidos do catolicismo”, frei Bento lamentou: “Nós, os celebrantes, tornamos Deus impossível.” E defendeu que a Constituição do Concílio Vaticano II sobre a liturgia, “Sacrossanctum Concilium”, um “bom documento”, não tem “suficientemente presente” a dimensão do mistério e da simbólica.
João Norton de Matos, padre jesuíta, falou precisamente da importância do simbólico a partir da construção do espaço litúrgico. Citou, por exemplo, o modelo da basílica romana apropriado pelas igrejas, em que o altar foi colocado ao meio, e o coro das catedrais medievais que corta completamente o espaço da assembleia, como é visível em algumas cidades de Espanha.
É esta “igreja dentro da igreja”, com o altar avançado e a assembleia envolvente, que pode ser modelo para comunidades litúrgicas contemporâneas, exemplificou. O padre João Norton referiu ainda o que se passa na Igreja de Santo Inácio, em Paris: a centralidade é colocada no ambão onde são proclamadas as leituras, na primeira parte da missa, e no altar onde se celebra a eucaristia, durante a segunda parte – pelo meio, as pessoas movimentam-se.
“Hoje, a liturgia deixou de ter símbolos, tem formalidades que já não são símbolos”, disse ainda o padre Arlindo de Magalhães, responsável da Comunidade Cristã da Serra do Pilar, em Gaia. “O momento actual pede que as igrejas recuperem os símbolos”. E citou o exemplo da fracção do pão, que deixou de ser feita. “Como se anuncia o evangelho aos adultos? Sem formação de baptizados conscientes, não há Igreja.”
Paulo Vale, curador e professor na UCP, falou do carácter iniciático da arte, à semelhança do que acontece com a liturgia, que também “não é compreensível sem explicação”. Paulo Vale colocou em contraste a arte autêntica e o “kitsch”, e contou histórias como a do Cristo da igreja de Assy (ver foto reproduzida daqui), de Germaine Richier, que foi contestado por não corresponder à estética da primeira metade do século XX. E defendeu depois que a Igreja devia ser capaz de “profanar a ideia da arte como algo separado” da vida. Ao contrário, deve propor-se a ideia de que a arte e  a vida estão ligadas.
Dos símbolos  e do espaço falou ainda Joaquim Félix de Carvalho, padre que integra a equipa de formação do seminário conciliar de Braga. A partir do caso da Capela Árvore da Vidareferiu o espaço como o segredo daquele lugar litúrgico.
Estas jornadas prosseguem nesta sexta-feira. O programa completo está aqui.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

À procura da Palavra – Estranha realeza

(Crónica do padre Vítor Gonçalves, que durante alguns anos foi publicada no jornal Voz da Verdade. O Religionline tem muito gosto em publicá-la semanalmente, a partir de agora.)

“Hoje estarás comigo no paraíso.” (Lc 23, 43)
Domingo de Cristo Rei

Ficamos impressionados (e talvez incomodados) com a mega operação de segurança em torno da Cimeira da Nato realizada nestes dias em Lisboa. A vinda de mais de 50 chefes de estado e de governo e as numerosas comitivas obriga a rigorosas medidas de segurança e logística. E se os perigos são reais, também cresce uma sensação de aparato e ostentação que os “senhores deste mundo” persistem em cultivar. As menos de 24 horas de encontros e trabalho real pela segurança do mundo e o seu desenvolvimento irão produzir algo verdadeiramente benéfico? Esperamos que sim, para que não fique destes dias um amargo sabor a vaidade e desperdício!

Prestes a dar o último suspiro, pregado na cruz, Jesus é interpelado, por três vezes, pela mesma frase: “Se és o Messias…, salva-te a ti mesmo.” Repete-se a tentação do deserto. Jesus procurou sempre batalhar contra as ideias erradas acerca da sua “realeza”: não se centra em si mesmo, não age em seu benefício, não usa o poder para dominar nem para criar dependência. A loucura da cruz incomoda, porque quem não procura salvar-se a si mesmo, e sim, salvar todos os que puder, revela um amor que nada pode destruir. Que ninguém pode dominar ou manipular. Estranha realeza esta, que recusa os métodos habituais de conquista das multidões e de senhorio do mundo. A realeza fraca e pobre de um Deus crucificado!

No meio da algazarra e do espectáculo doloroso do calvário, por entre as vozes de zombaria e insulto, Jesus é atraído pelo sofrimento de um dos malfeitores. Sempre quem sofre a ter um lugar único no seu coração! É muito difícil para nós, que vivemos a dor fechando-nos em nós próprios, nesses momentos compreender o sofrimento dos outros. Dor e amor parecem-nos irreconciliáveis. Mas Jesus, no meio da maior dor, mostra o maior amor do mundo. Tinha chamado os discípulos para andarem com Ele, e levava consigo um discípulo nascido no meio do maior sofrimento. Um discípulo sem currículo, com práticas muito reprováveis, mas capaz de se compadecer e de acreditar. Estranho rei que não tem guarda-costas nem exército, mas é defendido pelo mais improvável dos advogados. Aquele que não se fechou na sua dor e fez sua a dor de Jesus. Teve 20 valores na prova prática do mandamento do amor!

Fecha-se a cortina do ano litúrgico e anuncia-se o nascimento de um “Deus despido”. O calvário e Belém tão próximos. A cruz e a manjedoura: únicos tronos deste estranho rei! Escrevia o pastor protestante Bonhoeffer, morto por ordem de Hitler: “Deus deixa-se empurrar para fora do mundo e pregar na cruz. Deus é impotente e fraco no mundo, e assim somente, ele está connosco e nos ajuda…”.