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domingo, 8 de abril de 2018

Suspensão da conferência de Lucetta Scaraffia em Lisboa

Agenda

Por motivos de força maior, foi suspensa a conferência de Lucetta Scaraffia, sobre Dizer a humanidade com voz de mulher, prevista para a próxima terça-feira, dia 10, em Lisboa. Para já, não há qualquer nova data anunciada.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Dizer a humanidade com voz de mulher – Lucetta Scaraffia em Lisboa





Lucetta Scaraffia (foto reproduzida daqui
onde também se pode ler uma entrevista com a historiadora e ensaísta)


Dizer a humanidade com voz de mulher é o título da conferência que Lucetta Scaraffia, professora de História Contemporânea da Universidade de Roma La Sapienza, fará na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, na próxima terça-feira, dia 10, às 18h (Auditório Padre José Bacelar e Oliveira, no edifício antigo da UCP). 
A conferência, em italiano, e com tradução simultânea e entrada livre, é promovida pelo CITER (Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião), em parceria com o Instituto Italiano de Cultura, no âmbito do ciclo Lições Italianas sobre Estudos de Religião. 
Responsável editorial da revista Donne, Chiesa, Mondo (Mulheres, Igreja, Mundo; a colecção da revista, em italiano, pode ser consultada e lida aqui), publicada na primeira quinta-feira de cada mês como suplemento do jornal L’Osservatore Romano, do Vaticano, Scaraffia é também ensaísta e jornalista e tem-se dedicado à investigação sobre história das mulheres e história religiosa. Publicou vários trabalhos sobre religiosidade feminina, cristianismo e sexualidade e acerca do lugar das mulheres na Igreja Católica. O futuro é também feminino?, livro dedicado a este último tema, com o contributo de várias mulheres e dirigido por Lucetta Scaraffia, está também disponível em Portugal, numa edição da Paulinas.
Um outro livro da sua autoria, resultado da sua participação, como observadora, no recente Sínodo dos Bispos sobre a família, é Dall’ultimo banco. La chiesa, le donne, il sinodo (Desde o último banco. A Igreja, as mulheres, o sínodo, também já editado em espanhol; nesta outra ligaçãopode ler-se um texto, em italiano, acerca do livro).
Nessa obra, resume-se numa informação divulgada pelo CITER, a autora defende a ideia de que a Igreja Católica está muito atrasada em relação à história e ao Evangelho, “enquanto a diversidade de carismas que derivam da diferença de género permanecerem conjugados como exclusão e subordinação e não como igualdade efectiva”. Na sua obra e nos seus textos, Scaraffia defende a necessidade de pensar e propor novos “espaços e modalidades de participação feminina na vida eclesial”. 

Na conferência de terça-feira, a directora de Donne Chiesa Mondo “irá destacar como entre os humanismos a construir num diálogo entre vozes diferentes e não necessariamente reconciliáveis, não pode faltar a voz da mulher”. Esta deve ser “uma forma de expressão de subjectividades que, na história milenar da humanidade, foram confinadas à mera funcionalidade biológica e a uma condição de subordinação e mutismo social, na radical remoção e mortificação da sua autonomia simbólica, ética e antropológica.” E defenderá ainda que nenhum humanismo “pode renascer no nosso tempo se não for nele audível uma inconfundível voz de mulher”.  

sexta-feira, 9 de março de 2018

Mulheres no cristianismo: um ponto de viragem


A irmã Teresa Kotturan (à esquerda), da Federação das Irmãs da Caridade nas Nações Unidas, 
com Shanti Choudhary. Através do apoio de cooperativas fundadas com a ajuda das Irmãs no Nepal, Shanti Choudhary expandiu uma plantação de vegetais, 
o que lhe permitiu encontrar possibilidades de viver dignamente. 
(Foto de Malini Manjoly/Irmãs da Caridade de Nazaré, reproduzida daqui)

Foram muitos os textos publicados a propósito do Dia Internacional da Mulher, que ontem, dia 8 de Março, se assinalou, incluindo sobre a questão do papel das mulheres no interior das religiões – e, em especial, do catolicismo.
Na página da Unisinos, pode ler-se já, em português, a reportagem de Marie-Lucile Kubacki, publicada na revista mensal Donne Chiesa Mondo (Mulheres Igreja Mundo), do jornal L’Osservatore Romano. A reportagem fala dos casso em que muitas religiosas são reduzidas à condição de funcionárias não remuneradas em instituições eclesiásticas ou casas de clérigos. Como a irmã Marie pergunta, na reportagem: “Um eclesiástico pensa que a irmã deva lhe servir a refeição e ficar comendo sozinha na cozinha depois de servi-lo? É normal que uma pessoa consagrada seja servida dessa forma por outra consagrada? E sabendo que as pessoas consagradas destinadas aos serviços domésticos são quase sempre mulheres, religiosas? A nossa consagração não é igual à deles?". (O texto pode ser lido aqui)
Como se assinalava em texto anterior deste blogueestá a crescer o debate sobre o papel das mulheres no interior das comunidades cristãs. No Crux, Claire Giangravè escreve que há sinais de “um ponto de viragem” mesmo no interior do catolicismo, sugeridos pela realização de conferências, debates, reuniões e tratamento do tema em meios de comunicação da própria Igreja.
O texto refere a conferência Vozes da Fé, que esta semana decorre em Roma, onde se ouviu que a Igreja Católica está numa “encruzilhada muito importante” ou, mesmo, a atravessar uma “revolução cultural interna”. “Hoje, a Igreja enfrenta cada vez mais o zelo feminista recém-descoberto no movimento #metoo em todo o mundo, mas também mudanças profundas de dentro”, acrescenta a articulista, num texto que pode ser lido aqui em inglês.
Num outro texto do mesmo jornal digital, John Allen analisa vários contributos na conferência Vozes da Fé, para afirmar que muitas participantes tentam reorientar as estratégias do debate para lá da questão do acesso ao ministério ordenado. “Talvez seja necessário concentrar-se menos no que a Igreja diz ‘não’ e mais sobre aquilo que ele está preparada para dizer ‘sim’, resume o articulista. Na conferência, relata, seis mulheres de diferentes partes do mundo passaram cerca de uma hora sem nunca pronunciar a palavra "sacerdote" – e sem fazer uma alusão indirecta ao debate sobre o sacerdócio. Apesar de, na sua maioria, apoiarem essa reivindicação, consideram que a estratégia deve ser outra, como se pode conferir aqui, no texto em inglês.

terça-feira, 6 de março de 2018

Mulheres no cristianismo: curto (ou longo) itinerário para entender um debate em curso

Capa da revista Donne Chiesa Mondo, de Novembro de 2016, 
dedicada ao tema Mulheres esquecidas

(Este texto é dedicado às mulheres dos que fazemos este blogue: Cristina, Elsa, Isabel e em memória da Sílvia)

O debate sobre questões ligadas ao papel das mulheres no cristianismo está a crescer no interior das diferentes comunidades cristãs, incluindo a Igreja CatólicaAo aproximar-se o Dia Internacional da Mulher, que se assinala depois de amanhã, dia 8, a questão da “desvalorização da mulher pela Igreja” foi abordada pelo padre Fernando Calado Rodrigues nesta segunda-feira, no JN:
A Igreja é perita em humanidade. Tem ensinamentos preciosos sobre a promoção humana e uma extraordinária Doutrina Social, em linha com a mensagem do Evangelho. Esta, como se viu, contempla a defesa do papel da mulher na Igreja e no Mundo. O problema é que determinados setores da Igreja se esquecem, vezes de mais, de a pôr em prática. (texto para ler aqui na íntegra)

80 por cento do trabalho

Um percurso avulso e desordenado por alguns textos publicados na internet, nos últimos anos, permite perceber alguns dos muitos contornos do debate em curso. Fica, por isso, um contributo apenas com a ideia de levantar a ponta do véu acerca de um tema que, nas últimas décadas, ganhou contornos de um debate intenso e cada vez mais rico.
Desde logo, comece-se por assumir alguns dados de uma realidade em claro-escuro, como os que foram trazidos para a praça pública pela denúncia da reportagem da revista Donne Chiesa Mondo (Mulheres Igreja Mundo), sobre o trabalho não reconhecido, “gratuito ou mal pago”, feito por tantas religiosas em instituições católicas ou em casa de clérigos.
Para completar esta informação, podem acrescentar-se os dados que Carolyn Woo, presidente do Catholic Relief Services (a Cáritas dos Estados Unidos) referiu num simpósio organizado no Vaticano: as mulheres realizam 80% dos trabalhos não feitos pelo clero na Igreja; e os postos de liderança que muitas mulheres ocupam na Igreja Católica reflectem uma prática de mulheres comprometidas e de partilha de poder; e também ao longo dos séculos, foi em estruturas da Igreja que muitas mulheres se capacitaram e desenvolveram
Além da realidade, há também um problema de percepção: muitas mulheres sentem-se tratadas de forma injusta pela estrutura eclesial, como analisava este estudo referente às décadas 1970-2010.
O Papa Francisco referiu-se já várias vezes à gravidade do problema da desigualdade entre homens e mulheres, que considera um escândalo. E amanhã mesmo, dia 7, um livro que será publicado em Espanha inclui um prefácio do Papa, no qual Francisco manifesta a sua preocupação com o facto de “na própria Igreja, o papel de serviço a que todo o cristão é chamado deslize, no caso da mulher, algumas vezes, para papéis que são mais de servidão do que de verdadeiro serviço.  
 

Teologia e lugares de autoridade

Seis meses depois da sua eleição, o Papa deu uma entrevista à revista La Civiltà Cattolica, na qual  se referia explicitamente ao papel das mulheres no interior da Igreja. Afirmava ele ser necessário “ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja” e de “trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher”, incluindo na reflexão sobre os lugares onde “se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja.”
Noutra declaração muito citada, o Papa disse que não quer as mulheres na Igreja apenas para fazerem de “cereja em cima do bolo”. Ao mesmo tempo, promoveu a nomeação de várias mulheres para lugares de responsabilidade em diferentes estruturas da Santa Sé.
Este é um tema em aberto, considerava a historiadora e ensaísta Lucetta Scaraffia, que dirige a Donne Chiesa Mondo. Já em 2014 Scaraffia considerava que a estratégia do Papa Francisco, começando o debate pelo âmbito teológico e não apenas por uma qualquer modernização, é a correcta: “Se a questão é teológica, isso significa que, no cerne do problema, não está a ‘modernização’, mas sim algo mais profundo e importante que toca a natureza espiritual da Igreja.” 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Mulheres na Igreja Católica: elas não existem só para obedecer (e algumas trapalhadas)






 Picasso, Tête de femme (imagem reproduzida daqui)

A historiadora italiana Lucetta Scaraffia escreve que, em todos os papéis de colaboração das mulheres com a instituição eclesiástica, elas são leigas “e precisamente por isso representam o coração do problema”. Num artigo cuja tradução portuguesa foi publicada na página da Pastoral da Cultura, a consultora de L’Osservatore Romano, jornal da Santa Sé, observa:

Quando se fala de colaboração com os leigos, na vida da Igreja, fala-se sobretudo de mulheres. São elas, com efeito, em grandíssima maioria, a desenvolver tarefas de ajuda e assistência ao clero, dos trabalhos domésticos ao catecismo. E ainda para mais é só como leigas que as mulheres se relacionam com a instituição eclesiástica. Nunca tinha pensado nisso, mas quando, no fim do Sínodo sobre a família, me pediram para tomar lugar na fotografia de recordação com o papa – os leigos no Sínodo –, vi junto a mim as poucas religiosas convidadas. Perante o meu espanto, recordaram-me que elas também são leigas.
As mulheres, portanto, em todo o papel de colaboração com a instituição eclesiástica, são leigas, e precisamente por isso representam o coração do problema. Ou seja, é a relação com elas que define – tirando poucas exceções – a relação entre o clero e os leigos. É precisamente daqui que deriva a fragilidade da sua presença na comunidade católica? Este é um problema que não é desacertado colocar-se: só enfrentando a questão da colaboração com as mulheres, efetivamente, é possível sair do modelo paternalista, e quase sempre sufocante, ainda prevalecente na Igreja.
(a tradução do texto pode ser lida aqui)

Nas suas duas últimas crónicas no Público, frei Bento Domingues também regressou ao tema, com o título As trapalhadas com as mulheres na Igreja. No primeiro deles, escrevia:

Como nem todos os homens querem ser padres, também nem todas as mulheres querem ser ordenadas. O que está em causa é uma outra interrogação: que deficiência haverá nas mulheres para que não possam ser chamadas à ordenação presbiteral ou episcopal para servirem, com a sua sensibilidade, as comunidades cristãs, para as colocar ao serviço da sociedade?
(artigo disponível na íntegra aqui)

No segundo texto, acrescentava:
Em nome de uma disciplina canónica inadequada, estamos a deixar as paróquias, os grupos e os movimentos católicos à deriva. Insiste-se na celebração da Eucaristia como o sacramento dos sacramentos. Com toda a razão. As comunidades de baptizados têm direito a participar na sua celebração. De facto, arranjam-se cenários para as impedirem. O pretexto é sempre o mesmo: não há padres. Se não há, façam-nos. Não faltam candidatos e candidatas preparados, ou que podem ser preparados, com desejo de receberem esse ministério. Mas não nos moldes actuais. O modelo presente já não pode ser o único. Sem imaginação, sem vontade de alimentar e dinamizar as comunidades católicas, as lideranças da Igreja só se podem queixar de si mesmas.
(artigo disponível na íntegra aqui)