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sábado, 24 de fevereiro de 2018

Músicas que falam com Deus (39): o sublime canto moçárabe


Este disco abre com duas peças sublimes: um Pacem meam do vobis (que é possível ouvir no vídeo ao lado) e o responsório Surgam et ibo. Mas poderíamos juntar as restantes, com destaque para o Gloria, as Lamentações ou a Oração, de Jeremias, que fazem do disco uma obra de beleza ímpar, fundada na tradição do canto dos moçárabes – os cristãos que viveram na Península Ibérica sob o domínio muçulmano.
É essa música, de que raros manuscritos se guardaram, que aqui se tenta recuperar. É mais um exemplo do vastíssimo labor que Eduardo Paniagua vem dedicando à salvaguarda desse património tão rico e diversificado quanto desconhecido e que abarca a música de inspiração islâmica, judaico-sefardita, cristã (aqui, com predominância para as Cantigas de Santa Maria, de Alfonso X, o Sábio) ou profana.
Um trabalho de que Paniagua deu uma pequena mostra no concerto de Natal que fez no Centro Ismaili, em Lisboa, em Dezembro último, e que é fundamental conhecer. 

Título: Canto Visigótico-Mozárabe – Santiago y la Antígua Liturgia Hispana
Intérpretes: Ensemble Musica Antigua; dir. Eduardo Paniagua
Edição: Pneuma

(Texto publicado no número de Fevereiro de 2018 da revista Além-Mar)


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Músicas que falam com Deus (38) - As Rotas da Escravatura, de Jordi Savall

É uma voz rouca e profundamente africana aquela que nos traz a voz do padre António Vieira: “Os Senhores poucos, os Escravos muitos; os Senhores rompendo galas, os Escravos despidos, e nus; os Senhores banqueteando, os Escravos perecendo à fome; os Senhores nadando em ouro, e prata, os Escravos carregados de ferros; (...) Estes homens não são filhos do mesmo Adão, e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo?” 
Este excerto do XXVII Sermão do Rosário – Maria Rosa Mística é um dos textos que Jordi Savall nos traz nest’As Rotas da Escravatura. O itinerário da obra começa com a evocação da primeira expedição portuguesa para capturar escravos na Guiné, em 1444, e termina 444 anos depois, em 1888, data da abolição da escravatura no Brasil. O percurso musical traz-nos à memória o pico de uma tragédia na qual Portugal tem um papel bem triste, mas que já existira antes e ainda perdura nos nossos dias, mesmo que formalmente extinta. 
O programa deste duplo disco, livro e DVD (cujo espectáculo passou por Lisboa em Abril do ano passado) é um diálogo intenso entre músicas do Mali, México, Colômbia e Brasil. São canções que falam da religiosidade africana, dos sofrimentos e lamentos, dos trabalhos e das penas, a par das pequenas alegrias, dos amores e rituais quotidianos, quase sempre marcados pela música e pela dança – únicos espaços de liberdade que ninguém podia tirar aos escravos, como escreve Jordi Savall. 
Apesar de o diálogo intercultural e inter-religioso através da música ser desde há muito uma das marcas do humanismo savalliano, é a primeira vez que o maestro e compositor catalão penetra na África subsariana. E o resultado é verdadeiramente espantoso, com as vozes e os instrumentos dos três continentes e no qual se destacam as vozes de Kassé Mady Diabaté ou Maria Juliana Linhares ou a deliciosa kora de Ballaké Sissoko (mas é injusto deixar de lado os restantes  músicos, cantores e o recitador). Savall devolve-nos a memória dos cerca de 25 milhões de africanos sujeitos a este tráfico infame e que não podem ser esquecidos (um número equivalente continua, ainda hoje, sujeito a condições de escravatura). A beleza e profundidade desta obra a isso nos obrigam.


Les Routes de l’Esclavage
Intérpretes: K. M. Diabaté, I. Garcia, M. J. Linhares, B. Sangaré, B. Sissoko, La Capella Reial de Catalunya, Hespèrion XXI, 3MA e Tembembe Ensamble Continuo; dir. Jordi Savall
Edição: Alia Vox
(mais informações: vgm@plurimega.com)

(Texto publicado na revista Além-Mar, em Abril de 2017) 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Músicas que falam com Deus (37) - Voz despida, voz pura de Natal

 


Em português, nua é o mesmo que despida; em gaélico, “nua” significa novo, fresco, puro. A maestrina irlandesa Aoife (lê-se Ifa) Hiney, radicada em Aveiro há vários anos, traduz assim a polissemia dos objectivos e do repertório do Voz Nua, que fundou em 2012: voz sem instrumentos e, por isso, pura, fresca, nova (mesmo se, em quatro temas, o piano está presente, para sublinhar a riqueza e pluralidade melódica de que a voz é capaz). Neste disco de Natal, o grupo mostra isso mesmo, dando vida nova a canções que ouvimos muitas vezes. É o caso de Joy to the World, Stille Nacht/Noite Feliz, Meia Noite Dada, ou até um por vezes irritante Santa Claus is coming to town, que aparece aqui com a ternura própria do Natal e um trabalho vocal muito rico. Mas o disco também revela pérolas puras ou tesouros mais escondidos, como Walking in the air, Hodie Nobis Caelorum ou Suantrai ár Slánaitheora, belíssima canção de embalar irlandesa que resume o mistério: “Tu és do meu sangue, meu amor, minha adoração/ Meu pequeno, lindo filho/ Só eu vou cuidar de ti.” Um disco jubiloso.

(Texto publicado na revista Além-Mar, disponível aqui; sobre este disco, o coro Voz Nua e a maestrina Aoife Hiney pode ouvir-se aqui o programa de Manuel Vilas Boas na TSF, que passou neste fim-de-semana de Natal.)

Nativitas
Intérpretes: Voz Nua; dir. Aoife Hiney; edição: Voz Nua


terça-feira, 20 de junho de 2017

Silêncio. É Sábado Santo por Pedrógão Grande

(adaptação de um texto publicado neste blogue, com outro título, a 19 de Abril de 2014)

O dia de Sábado Santo é, na liturgia cristã, o dia do grande silêncio. Uma mãe perde o seu filho, uma mulher perde o seu chão, mulheres e homens perdem o(s) seu(s) amigo(s), roubado(s) de forma violenta. A experiência da perda faz parte da humanidade que somos e ela não podia deixar de integrar, por isso, o cristianismo ou qualquer outra fé religiosa.
Mas este tem de ser também um dia de uma esperança silenciosa e confiante. De quem sabe que o abraço do outro, a presença silenciosa, a palavra reconfortante, o trabalho para dar fim à destruição, não são gestos em vão. E que a sua vontade e a sua convicção serão factor de transformação da realidade, contra toda a desesperança e o sem sentido que a vida parece ser nestes momentos.
Uma das peças musicais que melhor traduz esta experiência da perda, por um lado, e da esperança confiante, é o Ave Maria, de Giulio Caccini (1550-1618), um dos pais da ópera. Nela se consegue falar do despojamento a que tantas vezes somos forçados, mas também da redenção de que somos capazes, quando a nossa vida se firma na justeza e na confiança dos gestos do outro.
A interpretação mais sublime desta peça é a que o trompete de Henry Parramon e o órgão de Jean-Michel Louchant nos oferecem no disco Louanges a Notre Dame, publicado em 2001 pela SM. Quando os dois instrumentos se juntam, deles jorra a alegria, como escreve Philippe Barbarin, então bispo de Moulins e actual arcebispo de Lyon e cardeal. Melhor: os dois instrumentos traduzem musicalmente o sublime, transfigurando a composição, despojando  a música de artifícios e reduzindo-a à sua máxima limpidez. A sobriedade melódica do trompete, em diálogo com o recato do órgão, levam-nos à emoção plena e inolvidável (que se repete no disco com a criação Je vous salue, Marie, do próprio Parramon).
Na impossibilidade de encontrar disponível essa recriação, para aqui a reproduzir, fica um vídeo onde a base melódica é o piano e que se aproxima muito da proposta de Parramon e Louchant.


(Outra versão com trompete, que também consegue uma grande força emotiva, é a cantada por Irina Arkhipova, no vídeo que pode ser encontrado aquiuma versão sinfónica, com coro, desta mesma peça, pode ser vista e ouvida aqui)



sábado, 7 de janeiro de 2017

Uma música para o dia de Natal (que hoje volta a ser, no calendário ortodoxo juliano)

Hoje volta a ser dia de Natal. No calendário juliano, seguido por várias Igrejas Ortodoxas, hoje é de novo 25 de Dezembro. A este propósito, pode ouvir-se Perinatal, um projecto de Tomáš Reindl, músico e compositor checo, que ainda em Junho último tocou algumas das suas peças na Igreja do Santo Salvador, onde está sediada a paróquia católica universitária, no centro histórico de Praga. Nesta nova peça (disponível numa ligação no final), uma composição meditativa baseada num projecto ainda em andamento, intitulado Ingrediente, o autor inspira-se em antigas tradições da música espiritual europeia (nomeadamente do canto e da polifonia medieval).


Os eslavos na sua terra natal, primeiro quadro da série Épica Eslava
de Alphonse Mucha (imagem reproduzida daqui)

Tomáš Reindl explica que essa inspiração foi como que “carregada” na peça e cruzada com sons do século XXI, em que se destacam “improvisações e novas possibilidades de processamento de som”.
A matéria-prima da composição vem da improvisação sobre três cantos tradicionais de Natal, complementados com a estrutura de peças polifónicas e trabalho adicional de estúdio, bem como o processamento de som sensível, o que cria uma atmosfera única. 
O tema central da composição é o fenómeno do nascimento de um homem, tomado quer no sentido espiritual quer na sua expressão secular. No início da peça, pode ouvir-se o ambiente de um centro comercial com músicas checas tradicionais de natal, reduzidas de modo a funcionar como estímulo às compras de Natal.

A peça tem a participação dos seguintes músicos:
Jiří Hodina – voz, violino
Jan Jirucha – trombone
Tomáš Reindl – saltério medieval, clarinete, tablas, voz, didjeridu, processador
Markéta Schley Reindlová – orgão
Matyáš Reindl (filho do autor) – voz e saltério

Os textos, em latim, são cantos gregorianos de Natal e reproduzem-se a seguir, no original:

Labia mea aperies et os meum adnuntiabit laudem tuam.

Christus natus est nobis, venite adoremus.
Venite exultemus Domino, Jubilemus Deo salutari nostro,
praeocupemus faciem ejus, in confesione, et in psalmis jubilemus ei.

Christe Redemptor omnium,
Ex Patre Patris Unice,
Solus ante principium
Natus ineffabiliter:
Tu lumen, tu splendor Patris,
tu spes perennis omnium,
intende quas fundunt preces
tui per orbem servuli.


Publicação anterior no blogue
A humanidade e o sagrado são,nela, uma e a mesma coisa – o livro Maria, com obras de arte relacionadas com a figura de Maria de Nazaré

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Músicas que falam com Deus (36) - Magnificat em Talha Dourada, hoje em Lisboa

Música

O Magnificat em Talha Dourada, de Eurico Carrapatoso, será tocado e cantado esta noite na Igreja da Graça, a partir das 21h30, depois de a mesma peça ter sido ouvida, sábado passado, na Igreja do Coração de Jesus, num concerto integrado no festival Primavera na Cidade e que foi também uma homenagem ao arquitecto Nuno Teotónio Pereira. A peça foi escrita em 1998, em comemoração dos 500 anos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
Lê-se na folha distribuída sábado passado: “O Magnificat é uma homenagem ao barroco, o estilo onde triunfa o movimento, as espirais inebriantes, o puro concerto dos sentidos que cruza várias referências conferindo à obra uma folia estilística que faz lembrar uma ‘tapeçaria de Arraiolos de múltiplas cores e padrões’, nas palavras do próprio autor.”
Eurico Carrapatoso diz, aliás, que esta é, provavelmente, a sua obra dilecta. Para quem a escuta, a peça torna-se harmoniosamente dilecta, colocando em diálogo peças de inspiração popular portuguesa e a linguagem barroca. Esta é claramente assumida pelo autor: “O espírito de Bach paira sobre a obra, tal como, no princípio, ‘o espírito pairava sobre as águas’”, escreve. E como “‘barroco’ é uma palavra de origem portuguesa”, Carrapatoso decidiu homenagear o estilo que, “glorificando o movimento, o delírio e a dinâmica, transforma a música em pura alegria de viver”.
Mas não se pense que a referência portuguesa é apenas uma inspiração remota. Esta contribui para dar intensidade à escuta e à forma como os sentidos reagem ao Magnificat. Temas como “Virgem da Lapa”, “Ó meu Menino” ou “José embala o menino” são docemente recriados. O diálogo entre as duas referências musicais fica estabelecido entre o maior lirismo das melodias portuguesas e a maior ornamentação de temas como Quia Respexit, Et misericordia, Deposuit ou Suscepit Israel.
O concerto desta noite tem a participação do Coro de Câmara da Universidade de Lisboa e da Orquestra Académica da Universidade de Lisboa, dirigidos por João Aibéo e com a solista Ana Paula Russo.
Uma versão em disco, editada há pouco mais de dez anos e cuja capa se reproduz acima, regista a execução da peça ao vivo, em Agosto de 2000, no Festival dos Capuchos (ed. Dargil).

(o texto inclui a reprodução de um artigo publicado em Março de 2006, na revista Além-Mar, disponível aqui)

Texto anterior no blogue
O frade que não acredita no Papa, mas crê num mundo de irmãos - apresentação do quarto volume de antologia das crónicas de frei Bento Domingues no Público

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

David Bowie: uma longa busca espiritual


“Bowie nunca banal.” Foi com este título que o L’Osservatore Romano se referiu à morte segunda-feira passada, em Nova Iorque, do músico inglês. O texto do jornal oficial do Vaticano recorda que o actual primaz anglicano fez da música de Bowie uma espécie de banda sonora pessoal. Aqui podem ler-se outros excertos da notícia.
Também o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício, reagiu à morte do músico, colocando uma mensagem na sua conta do Twitterna qual citava alguns versos de Space Oddity, um dos primeiros êxitos do “camaleão do rock”, como era designado: “Ground Control to Major Tom/Commencing countdown/ engines on/ Check ignition/ and may God's love be with you.


O amor de Deus, ou a espiritualidade, foram uma busca longa para David Bowie, contou o próprio, em 2004, à apresentadora e comediante Ellen DeGeneres, como recorda o Crux.
Na sua juventude, dizia o músico, Bowie sentira-se atraído pelo budismo tibetano, depois por Nietzsche, pelo satanismo e pelo cristianismo. “Acabei a cantar. Tem sido um caminho longo.” Um ano antes, em entrevista à BeliefNet, Bowie afirmara já: “A minha vida espiritual foi sempre pertinente para o que eu estava escrevendo. Sempre.”
Na edição italiana de L’Huffington Postacrescenta-se ainda que os frades da Basílica de São Francisco, em Assis, sublinharam a “profunda dimensão espiritual” de Bowie, confirmada pelo facto de o cantor rezar todas as manhãs. O cantor tinha dito já, também, que desejava viver na cidade de Francisco, como escrevera num texto no La Stampa, a 16 de Setembro de 1995. E justificava: “Quero estar próximo de Giotto. Sou obcecado pela arte: para mim, é como estar no Paraíso.
Após a sua morte, circulou nas redes sociais um vídeo de Bowie no Estádio de Wembley, num concerto de homenagem a Freddie Mercury, em que o músico ajoelha e reza o Pai Nosso, perante a multidão que assistia ao concerto:


sábado, 9 de janeiro de 2016

Histórias e mitos sobre os presépios, e canções portuguesas de Natal


Presépio da Madre de Deus, séc. XVIII. Museu Nacional do Azulejo, Lisboa 
(foto reproduzida daqui)

A geografia, por exemplo: os presépios do século XVIII, em Lisboa, são sobretudo montados em anfiteatro, recriando a orografia da própria cidade; os do Norte aprofunda essa lógica, ainda mais abruptos e escarpados; já os de Aveiro são mais planos. Ou a posição das mãos da Virgem: se estão em adoração, remetem para a imagem do Menino como Filho de Deus; se estão cruzadas sobre o peito, falam do filho do homem e da mãe que contempla o seu filho; se levanta um tecido e expõe o menino, trata-se da rainha que mostra o seu herdeiro.
Estes são alguns dos pormenores sobre o presépio tradicional português explicados no programa Encontros sobre o Património, da TSF, dedicado precisamente a esse tema, na emissão de hoje, ao terminar a semana de Reis.
No programa, fala-se também dos primeiros presépios, montados em argila, no século XIII, sob a inspiração de Francisco de Assis; do modo como o presépio foi sendo apropriado por conventos, nobres e povo; da introdução da árvore de Natal por D. Fernando II e da crítica que Ramalho Ortigão faz a essa novidade; ou dos grandes presepistas portugueses, como António Ferreira ou Joaquim José de Barros (Barros Laborão), e também Joaquim Machado de Castro – que, como também se ouvirá, não fez tanto como se imagina.
São convidados do programa Alexandre Pais, Anísio Franco, Maria João Vilhena e o padre franciscano Joaquim Carreira das Neves. O programa pode ser escutado aqui.


No dia de Natal, Manuel Vilas Boas conversou com o compositor João Madureira, sobre o disco Canções de Natal Portuguesas.
As oito canções, executadas por 38 vozes infantis do conservatório de Carnide, em Lisboa, sob a batuta de Joana Carneiro, recuperam e recriam tradições populares, em versões de vários compositores. O programa e as músicas podem ser ouvidas aqui.

Texto anterior no blogue