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sábado, 25 de março de 2017

Maria Madalena, a apóstola dos apóstolos

Maria Madalena, apóstola dos apóstolos é o título do debate que decorre hoje à tarde, na Capela do Rato, com intervenção de Teresa Toldy e Maria Julieta Mendes Dias. A iniciativa é promovida pelo grupo português do movimento Nós Somos Igreja a partir das 15h30 e terá a introdução do padre José Tolentino Mendonça e a moderação de Alfreda Ferreira da Fonseca.
O debate insere-se nas iniciativas do Dia Mundial de Oração pela Ordenação das Mulheres, que vários grupos católicos assinalam a 25 de Março de cada ano, fazendo coincidir com a festa litúrgica da Anunciação.
Sobre Maria Madalena e outras mulheres importantes na vida de Jesus, publicou-se neste blogue um texto, em Dezembro passado, que pode ser revisitado neste endereço

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Cinco mulheres mais importantes do que se pensava na vida de Jesus

A data de hoje é assinalada pelos católicos como o dia da imaculada concepção da mãe de Jesus – ou seja, de que Maria de Nazaré foi concebida sem a mácula, uma afirmação que pode ser objecto de equívocos e mal-entendidos, como se explicava neste textoA mãe de Jesus, decisiva e importante, não foi, no entanto, a única mulher importante na vida de Jesus. Foi uma mulher a primeira a receber o anúncio da ressurreição de Jesus. E há outras mulheres importantes na vida de Cristo, mais decisivas do que tradicionalmente se acreditava.




As bodas de Caná, na versão de Giotto pintada na Capela dos Scrovegni, 
em Pádua (imagem reproduzida daqui)

Maria de Nazaré, Maria Madalena, a samaritana ou a cananeia. Elas estavam lá desde o início. Apesar de desprezadas pela história, várias mulheres tiveram um papel fundamental na vida de Jesus. Muito mais decisivo do que se pensava tradicionalmente. A investigação bíblica recente começa a desvendar factos que contradizem a ideia feita. E a vincar que as mulheres fazem parte do grupo de discípulos de Jesus de forma igual à dos homens.
Assim é: elas estavam lá desde o início e foram apóstolas, discípulas, evangelizadoras, financiadoras, interpeladoras de Jesus. “Jesus aceitou-as e não as discriminou pelo facto de serem mulheres”, diz Maria Julieta Dias, religiosa do Sagrado Coração de Maria e co-autora de A Verdadeira História de Maria Madalena (ed. Casa das Letras). “Jesus não foi misógino, foi sempre ao encontro das mulheres”, acrescenta Cunha de Oliveira, autor de Jesus de Nazaré e as Mulheres (ed. Instituto Açoriano de Cultura).
Os evangelhos citam várias vezes as mulheres que seguiam Jesus “desde a Galileia”, onde ele começara o seu ministério de pregador itinerante. No momento da crucifixão, são elas que estão junto a Ele. Lê-se no evangelho de S. Mateus: “Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia e o serviram. Entre elas, estavam Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.” E é a uma mulher que primeiro é anunciada a ressurreição de Jesus, que os cristãos assinalam hoje, Domingo de Páscoa.
Maria Julieta Dias recorda que, em outra passagem do evangelho de Lucas, já se diz que acompanhavam Jesus “os Doze e algumas mulheres, que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os serviam com os seus bens”.
As mulheres estavam lá, como discípulas. Em Um Judeu Marginal (ed. Imago/Dinalivro), John P. Meier, um dos mais conceituados exegetas bíblicos contemporâneos, não tem dúvidas: “O Jesus histórico de facto teve discípulas? Por esse nome, não; na realidade (...), sim. Por certo, a realidade, mais do que o rótulo, teria sido o que chamou a atenção das pessoas. (...) Quaisquer que sejam os problemas de vocabulário, a conclusão mais provável é que ele considerava e tratava essas mulheres como discípulas.”

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Jesus foi casado? Talvez não.E isso importa? Talvez sim

Volta e meia, surgem notícias sobre descobertas arqueológicas que vão “alterar” a imagem que temos de Jesus e a “construção” da personagem que foi sendo feita ao longo dos séculos. Claro que já houve descobertas destas. Os Manuscritos de Qumran, por exemplo, ajudaram a entender o contexto do judaísmo que Jesus viveu.
Normalmente, as credenciais científicas dessas supostas descobertas são reduzidas ou aproveitam coincidências várias. Têm geralmente o efeito de provocar uma grande excitação entre muitos meios de comunicação. Foi o que se passou há dois anos, por exemplo, com um fragmento de um papiro onde se lia a frase “Jesus disse-lhes: ‘A minha mulher...’”
Há dias, a excitação voltou a repetir-se com um manuscrito encontrado na British Library por Barrie Wilson e Simcha Jacobovici. Este último, realizador de documentários televisivos, já ficara conhecido, há sete anos, por ter anunciado a descoberta do suposto túmulo da família de Jesus – que depois os especialistas vieram denunciar como sendo de autenticidade duvidosa.
Desta vez, o manuscrito encontrado volta a ser a base para uma tese que, apesar de repetida, é “revolucionária”, como dizia o Expresso/Revista de dia 15: Jesus foi casado e teve dois filhos (mas a notícia foi reproduzida em muitos outros meios de comunicação, como se pode ver por este exemplo). O documento analisado por Wilson e Jacobovici é uma cópia do século VI de um texto do século I, intitulado A História Eclesiástica de Zacharias Rhetor. O texto apresenta a história de um tal José, que tem muitas semelhanças com a história de Jesus de Nazaré: origens humildes, coroado “rei”, foi morto e ressuscitou. Além disso, José teria sido casado com Aseneth, que para os autores é Maria Madalena...



Ticiano, Jesus e Maria Madalena (pormenor; imagem reproduzida daqui)

Para recordar os contornos desta tese “revolucionária” – mesmo que repetida à exaustão e sem nada de científico para a sustentar –, reproduzo a seguir um texto que publiquei no Público em 28 de Setembro de 2012, com o título Jesus foi casado? Talvez não. E isso importa? Talvez sim.

“Jesus disse-lhes: ‘A minha mulher...’” Esta frase, inscrita num fragmento de um papiro copta ainda não rigorosamente datado e de proveniência desconhecida, ateou de novo o debate: afinal, Jesus foi casado ou não?
E isso deveria ter repercussão na atitude do cristianismo em relação às mulheres, tendo em conta os textos fundadores e a doutrina de Jesus?
Antes de discutir esses temas, há entretanto a questão do valor histórico do documento revelado por Karen L. King. A investigadora da Harvard Divinity School foi a primeira a reconhecer que é cedo para tirar conclusões. 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

À procura da Palavra - Carta a Maria Madalena


 (Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)

"Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro."
(Evangelho Segundo S. João 20, 1 - Domingo de Páscoa)

Não sei bem como tratar-te: irmã, amiga, mulher. Respeitosamente devia tratar-te por santa mas algumas imagens que fizémos de ti representam-te tão "Madalena arrependida", ou de olhos postos no alto que, à maneira de tantos outros santos, quase não pareces ter andado neste mundo. E se foste uma "mulher do mundo" ou "libertada de sete espíritos", o que sabemos é que o encontro com Jesus te transformou.
Algumas vezes foste identificada com a mulher adúltera, com uma prostituta, com Maria irmã de Marta e de Lázaro, e com tantas Marias do Evangelho. Talvez em ti houvesse um bocadinho de todas elas e de outras que foram discípulas de Jesus. Não fizeste parte dos Doze, mas bebeste as mesmas palavras recriadoras e acompanhaste os gestos luminosos que Jesus ia oferecendo. Estavas também na Ceia? A que distância fizeste o caminho doloroso para o Calvário? Como amparaste a mãe de Jesus e ficaste junto à cruz? Que turbilhão de sentimentos, de sonhos desfeitos, de trevas lhe encheram a alma? Era preciso tanto sofrimento?
Em muitas pinturas ainda levas o vaso de perfume para ungir o corpo de Jesus. Apressaste a aurora e nem a escuridão te meteu medo para ires ao sepulcro. Precisavas tocar o corpo sem vida daquele que fazia reviver tudo, para acreditar que era verdade e não fora um sonho mau. Quando viste a pedra retirada do sepulcro pensaste que alguém tinha roubado o corpo de Jesus. E correste contar a Pedro e a João. Ficaste ainda mais perdida e mais só? Quantas vezes nos sentimos também assim!
Quando a rotina e a dureza do coração nos acomodam, e já não procuramos reavivar o amor. Ficaste por ali, certamente, depois de eles partirem. Choravas quando alguém te falou. "O jardineiro", pensaste que tinha sido ele a levar Jesus? E só quanto Jesus disse o teu nome O reconheceste! Porque é um encontro pessoal e único que Ele quer fazer com cada um. Um encontro e não uma doutrinação, uma lição de teologia E só aí a alegria verdadeira nos enche. A mesma alegria que te fará correr de novo para os discípulos a dizer-lhes o que Jesus te pediu. Reparaste? Pela primeira vez Jesus chamou-lhes, e a nós, "irmãos". Que palavra espantosa! E que responsabilidade! Como seria diferente o poder se fosse habitado por mais fraternidade!
Mais nada sabemos de ti pelos evangelhos. E muitas teorias se fizeram sobre o teu amor a Jesus. Mas eu vejo-te em tantas mulheres que são como tu, anunciadoras de Jesus vivo, pelos muitos gestos de coragem, de ousadia, de procura, de persistência, de justiça, de amor sincero que transformam as trevas em luz.
Obrigado, santa e irmã, Maria Madalena, por me ensinares a amar Jesus!
(in Voz da Verdade 31 de Março de 2013; ilustração: Ilda David’, Encontro de Jesus com Maria Madalena, in Bíblia Ilustrada, vol. VII, ed. Assírio & Alvim/Círculo de Leitores)