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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Nos 50 anos de "Inter Mirifica"

TV cameras captured the arrival


Completam-se hoje 50 anos sobre a data em que foi aprovado, por maioria, o decreto do Concílio Vaticano II dedicado aos meios de comunicação social, conhecido pelas palavras iniciais latinas "Inter Mirifica" [De entre as maravilhosas invenções...].
Foi a primeira vez que um concílio se ocupou da comunicação. Mas não foi fácil. As versões iniciais do texto, que datam de 1962, foram objeto de críticas, quer quanto à extensão quer quanto ao conteúdo e, mesmo a versão final, com apenas 24 artigos (em lugar de mais de uma centena nos rascunhos iniciais) contou com mais de uma centena votos contra. Deve, todavia, dizer-se que, apesar das reticências, o documento exprime, ainda que com cautelas e reservas, um espírito assinalável de abertura ao fenómeno mediático, nomeadamente ao impacto dos meios audiovisuais: cinema, rádio e televisão. Isso mesmo transparece quer na abertura quer no encerramento do texto. No ponto 24 sublinha~se:
"Assim, pois, como nos monumentos artísticos da antiguidade, também agora, nos novos inventos, deve ser glorificado o nome do Senhor, segundo o que diz o Apóstolo: «Jesus Cristo, ontem e hoje, Ele mesmo por todos os séculos dos séculos» (Hebr. 13,8)."

Em termos concretos, este documento destaca-se em particular pelos seguintes pontos:
  • a) reconhecimento do o direito de todos a uma informação verdadeira e íntegra;
  • b) afirmação do direito da Igreja de usar e de possuir toda a espécie de meios;
  • c) aposta na formação técnica e apostólica para o uso dos media por parte dos agentes de pastoral;
  • d) defesa da formação e divulgação de uma "reta opinião pública";
  • e) atenção especial a iniciativas com vista à formação para um uso criterioso e esclarecido dos meios de comunicação social, em especial dos jovens;
  • f) proteção e defesa face à "imprensa e espetáculos perniciosos";
  • g) criação de escolas, faculdades e institutos de inspiração cristã com cursos orientados para a formação;
  • h) instituição do Dia Mundial das Comunicações Sociais, a celebrar anualmente;
  • i) orientações para instituir secretariados diocesanos das comunicações sociais;
  • j) por expresso mandato do Concilio e com a colaboração de peritos de várias nações, elaboração de uma instrução pastoral que desenvolva e aprofunde as orientações deste decreto conciliar (que viria a ser a Communio et Progressio).
Nesta sumária evocação de um documento de referência na pastoral dos media e da comunicação, dois comentários tópicos:
  1. Em Inter Mirifica, a Igreja Católica dá um passo saliente no sentido da demarcação de uma abordagem protecionista face aos media, em favor de uma abordagem crítica, assente na capacitação das pessoas, incluindo na sua formação cristã e na participação na vida da Igreja e da sociedade. Os media começam a deixar de ser vistos como todo-poderosos, capazes de inocular um veneno, face ao qual só verdadeiras barreiras de auto-defesa, se não mesmo cruzadas agressivas, poderiam surtir efeito;
  2. Com este decreto conciliar abre-se uma perspetiva de ação e intervenção que viria a marcar a atividade da Igreja em algumas partes do mundo (Austrália, Canadá, América Latina) ainda nos anos 60 e sobretudo nos 70 e 80, e que diversos documentos do magistério viriam também a sublinhar: a aposta na formação crítica dos utilizadores dos media e daquilo que se tem chamado a literacia informativa e mediática, condição de cidadania ativa, também na comunidade eclesial.
[Crédito da foto: http://bbc.in/1jiAqjx]

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Pode amar-se um computador?


(vídeo - Luís A. Santos)

O director da revista jesuíta La Civiltà Cattolica, padre Antonio Spadaro, começa por contar uma história de um aluno nigeriano: ele ama o seu computador “porque lá dentro estão todos os [seus] amigos”.
Foi sexta-feira passada, em Fátima, nas Jornadas das Comunicações Sociais da Igreja Católica, dedicadas ao tema da evangelização em ambiente digital. Spadaro, responsável directo pela recente entrevista do Papa Francisco às revistas jesuítas – entre as quais a portuguesa Brotéria – sublinhou por diversas vezes a ideia de que a internet e as redes sociais são um ambiente e não um instrumento. O que muda tudo, na forma como se olha e se actua. Há distinções a abolir: o online e o offline, o real e o virtual... O ambiente digital é um ambiente ordinário de experiência de vida, não um ambiente de casulo ou paralelo, dizia, recordando a mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano.
“Evangelizar em rede não é criar um perfil facebook e colocar um anjinho”, ironizou Spadaro, recordando as palavras do Papa Francisco, nessa mesma manhã, em Assis, apelando a que ninguém seja “cristão de pastelaria”.
Spadaro, de quem as Paulinas acabaram de editar Ciberteologia - Pensar o Cristianismo na Era da Internetdefende que, se a internet altera o nosso modo de ver a realidade, então ela terá também influência sobre o modo de pensar a fé – já que a teologia é precisamente um modo de pensar a fé. Por isso, a tecnologia não é apenas um conjunto de instrumentos, mas uma parte do viver, acrescentou.
O também autor do blogue CyberTeologia recordou ainda um discurso de Paulo VI aos jesuítas, em 1964 quando o Papa Montini disse que “o cérebro mecânico vem em ajuda do cérebro espiritual”.  Por isso, acrescentou, “o campo para compreender a fundo a tecnologia é a teologia espiritual” e “ a experiência religiosa exprime-se também no ambiente digital”.
A proposta de Spadaro como que torna ultrapassada a ideia do decreto Inter Mirifica, do Concílio Vaticano II sobre a comunicação social, que considerava estes meios como instrumentos. Mesmo o nosso modo de fazer a pesquisa mudou, disse: “Na Idade Média, o homem orientava-se para o norte, que era Deus; na II Guerra Mundial, passou a ser um radar, à procura de um sinal [Karl Rahner falava do homem que procura Deus, que procura um sentido]; hoje, o homem não está à procura, mas está à espera de um sinal que o ligue ao mundo; o homem actual tem é de permanecer ligado; é um descodificador; já não é a busca que caracteriza o homem.”

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A guerra que nos querem vender

Crónica 




Na sua edição de final de Agosto, a revista The Economist publicava na capa uma imagem de Bashar Al-Assad a preto e branco semi-fundida com imagens de corpos de alegadas vítimas de gás sarin, sobre a qual surgia este título: “Hit him hard” (dêem-lhe com força). Muitos outros meios de comunicação seguiram caminhos idênticos, antes mesmo de haver inspecções aos locais onde centenas de pessoas, incluindo crianças, foram gaseadas de forma hedionda e inaceitável.
Apesar do clamor das opiniões públicas de tantos países, incluindo nos Estados Unidos; apesar da mobilizadora vigília organizada em Roma e um pouco por todo o mundo pelo Papa Francisco; apesar de advertências como a do secretário-geral das Nações Unidas, Obama avançará para a intervenção militar na Síria, salvo surpresa de última hora. Fá-lo-á num quadro em que as consequências de tal acção se mostram imprevisíveis e de que se pode suspeitar com boas razões que quem acabará por sofrer mais serão os já martirizados civis sírios.
Barack Obama e os Estados Unidos não conseguiram convencer o mundo de que não são os interesses militares, económicos e geopolíticos que verdadeiramente motivam mais esta intervenção à margem das leis internacionais. A maquinaria da guerra já foi posta em movimento e, quando assim é, os grandes media costumam adotar uma lógica de atuação que os torna funcionais à própria guerra. Nesse simulacro de cobertura, começa-se por abandonar as grandes questões éticas e morais, em favor de uma abordagem asseptizada: entram em cena especialistas militares; imagens e gráficos de equipamentos; munições e posicionamentos no terreno; antevisões e comentários às movimentações e falas dos intervenientes. A tecnologia, a estratégia e as operações são aquilo que enche os ecrãs. As pessoas eclipsam-se desse tipo de cobertura e só aparecem quando porventura se consegue alguma imagem dos ‘efeitos colaterais’ dos mísseis.
Não há informação mais controlada do que aquela que nos chega em tempo de guerra. E controlo, neste cenário, significa frequentemente manipulação. É por isso que importa accionar todos os recursos, toda a capacidade crítica e toda a prudência para não embarcar à primeira naquilo que nos vão vender. Os grandes media, de uma forma ou de outra, não se limitam a cobrir a guerra. Fazem, ainda que involuntariamente, parte da própria guerra.

Manuel Pinto, no Página Um (foto reproduzida daqui)


sexta-feira, 31 de maio de 2013

Joaquim Franco distinguido por reflexão sobre o fenómeno religioso no mundo contemporâneo

O jornalista e investigador em Ciência das Religiões Joaquim Franco, um dos autores deste blogue, venceu o Prémio “Consciência e Liberdade 2013”, atribuído pela Associação Internacional para a Defesa da Liberdade Religiosa (AIDLR) a trabalhos sobre a liberdade religiosa na lusofonia”. O júri considerou que o ensaio, intitulado Da liberdade religiosa à urgência do diálogo – a experiência contemporânea, faz uma “reflexão fundamentada e original sobre a importância do fenómeno religioso no mundo contemporâneo”. A cerimónia de entrega do prémio realizou-se na Universidade Lusófona, em Lisboa, no dia 28 de Maio. Excertos da intervenção do premiado:

(...) [Na comunicação social, o fenómeno religioso] Merece ter gente preocupada com a especialização e o aprofundamento, o conhecimento e a actualização, como acontece noutras áreas. Não apenas para a tão necessária e difícil descodificação das linguagens e dos contextos, mas para o seu real enquadramento na dimensão humana.
De facto, alguns acontecimentos só ganham relevância com ampliação mediática. Mas há também quem aproveite a lógica da comunicação global para dar a determinado acontecimento a relevância que, na realidade, não tem.
Foram os casos das “caricaturas” de Maomé em 2005 publicadas num jornal dinamarquês e replicadas por outras publicações, ou de um excerto do discurso do papa Bento XVI na Universidade de Ratisbona, um ano depois. (...)
Os muçulmanos na Europa estão entre um indisfarçado preconceito nas ruas e o radicalismo contagioso que persiste nas comunidades. Por um lado, são pressionados a revelar lealdade para com a cultura ocidental, provando que a religião islâmica é pacífica. Por outro, são vítimas da incompreensão e dos estereótipos que alimentam os radicais de uma tradição bélica e hegemónica. O problema tem uma caracterização cultural, com uma “confrontação” entre tradições e comportamentos também de influência religiosa. 
Multiplicam-se as vozes que sustentam a tese de uma islamização em curso, resultado de uma atitude política passiva por parte da Europa. Ao não o enfrentarem com um debate sério e medidas concretas, os poderes públicos e políticos abrem espaço a medos desnecessários e manipuláveis.
A pressão sobre as democracias é cada vez maior, agravada por uma recessão económica. Definitivamente, a Europa anda assustada. E o binómio imigração/religião tem sido manipulável. Perigosamente manipulável.
Por outro lado, há cada vez mais sinais de uma rejeição do património religioso que constitui a memória da Europa, excluindo a simbologia religiosa do espaço público e, por consequência, remetendo-a para o privado.
Estamos diante de novas formas de fundamentalismo anti-religioso, sob o pretexto de que a religião é motivo e fonte de discórdias, sem se admitir o potencial espiritual, relacional e comunitário das plataformas religiosas. (...)
Este tempo testemunha as primeiras gerações na Europa sem referências culturais religiosas, com a maioria dos comunicadores impreparados para compreender e descodificar o fenómeno religioso. E os protagonistas religiosos não conseguem – não terão como –, sintonizar-se com a assertividade e ultra-sintetização da linguagem mediática, recorrendo, muitas vezes, a clichés simplificados e pouco esclarecedores da complexidade religiosa.
Sendo o fenómeno religioso – entenda-se aqui num contexto alargado de fé, devoção e espiritualidade –, parte integrante e inseparável da identidade colectiva e individual, deixa marcas nas estruturas, formas e conteúdos de relação e pertença. Não só para os crentes, mas para o todo cultural que não pode ler-se sem esta dimensão - chamemos-lhe religiosa –, co-construtora e co-responsável pelos códigos de compreensão, sobretudo éticos, que nos trouxeram até aqui. (...)
Só depois de longos anos de estudo sobre a sua própria religião – cristianismo  –, Hans Kung encontrou os fundamentos teológicos para o que chama ethos mundial ou global, um “entendimento universal entre as religiões que deve ser ethos comum da humanidade, mas um ethos que não deverá substituir a religião – como às vezes se tem pensado” de forma errada.
Todos reparamos que, em ambiente de encontro, as religiões sustentam a crítica à utilização da religião para fazer a guerra. Valoriza-se a paz e a justiça. No actual contexto global, os valores religiosos e espirituais apresentam-se como prioritários e realçam a inevitabilidade da liberdade religiosa na defesa do “bem comum”.
Com o sofrimento e a injustiça no centro das reflexões, a promoção da paz e a defesa da “criação” como meta comum, as próprias estruturas religiosas podem reforçar uma ética culturalmente transversal, com consequências nos compromissos políticos e sociais na plataforma global.
Mas para tal, há que assumir a prioridade de derrubar barreiras, atenuar o desconhecido que agudiza medos, quebrar mitos mediáticos e construir confiança. Numa palavra… diálogo. Estabelecer pontes de diálogo. Com crentes e não crentes, absorvidos pela universalidade de uma ética emancipada, que, não sendo um valor absoluto ou exclusivamente religioso, é absolutamente carente de diálogo, em liberdade, sem prejuízo da observação preventiva e da crítica construtiva que assegura a convivência entre a fé e a razão.
Este é o percurso circular da reflexão: Da liberdade religiosa à urgência do diálogo que, por sua vez, garante a própria liberdade. (...)

(Foto: uma sala de meditação num centro comercial de Londres)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Revista católica "America" chega ao nº 5000

O próximo número da revista semanal católica America, dos Jesuítas dos Estados Unidos, atingirá o notável - para um semanário - número 5000.
Com mais de cem anos de existência, tem hoje uma circulação de 45 mil exemplares e uma trajectória por onde passaram nomes relevantes do catolicismo norte-americano e mundial.
Com a chegada a este número, o semanário vai passar a incluir vários novos colunistas, entre os quais um que foi já jornalista do progressista National Catholic Reporter e uma outra que integrou a equipa de escritores de discursos para o presidente Bush. Esta procura de equilíbrio de visões não será alheia às tensões que esta publicação teve, em anos relativamente recentes, com os responsáveis da Igreja (incluindo a Congregação para a Doutrina da Fé, quando era dirigida pelo Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI).
Comentando estas mudanças, o chefe de Redação, Matt Malone, o mais jovem neste posto na história da revista, explica, no último número: "Pode parecer estranho que America venha a ter um colunista que costumava escrevr para o National  Catholic Reporter e outro que escreveu para George Bush. Para nós não é. O mote da centenária América é Veritatem facientes in caritate (fazendo a verdade no amor). Não há voz de fiel católico que não seja bem-vinda nestas páginas, assim como não há recanto da Igreja em que América não se sinta em casa".

(Sugestão de leitura do número acabado de sair: The Age of Skepticism")

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A ciberteologia das redes

O padre jesuíta Antonio Spadaro é diretor da revista La Civiltà Cattolica. Mas talvez seja mais conhecido como teólogo estudioso e praticante das redes sociais e do ciberespaço. Recentemente publicou um livro intitulado precisamente 'Cyberteologia', que ainda não está traduzido em português. Enquanto isso não acontece, Spadaro disponibilizou em português, e em regime de acesso livre, um e-book com uma série de textos, mais breves uns do que outros, em boa parte publicados no seu blog, e de que destacamos estes:
  • Em busca de Deus em tempos de Google
  • A ciberteologia das redes
  • Entrevista sobre Cyberteologia com Padre Antonio Spadaro SJ
  • A internet é um ambiente, parte integrante da nossa própria vida
  • Espiritualidade e elementos para uma teologia da comunicação em rede
  • O que faria Jesus se fosse um hacker?
  • Habitar a Rede: como vencer o risco de viver em uma bolha filtrada?
  • Limitar o acesso à web? ”É como tirar um pedaço de território”
  • Como encontrar Deus nos «blogs»
  • O fenômeno do Blog: I-II-III-IV
  • Steve Jobs e Inácio de Loyola
  • Deus procurado e achado em todas as coisas
  • Uma Civiltà de escritores, poetas e navegadores da Web 
  • ”Somos chamados a estar nas fronteiras, encruzilhadas e trincheiras”
  • ”A fé nos ajuda a entender a Internet”.

domingo, 20 de maio de 2012

Sem silêncio não há comunicação, mas com silêncio pode também não haver


Convido o leitor a adivinhar quem poderá ser o autor das seguintes afirmações:
“[D]esejo partilhar convosco algumas reflexões sobre um aspecto do processo humano da comunicação que, apesar de ser muito importante, às vezes fica esquecido, sendo hoje particularmente necessário lembrá-lo. Trata-se da relação entre silêncio e palavra: dois momentos da comunicação que se devem equilibrar, alternar e integrar entre si para se obter um diálogo autêntico e uma união profunda entre as pessoas. Quando palavra e silêncio se excluem mutuamente, a comunicação deteriora-se, porque provoca um certo aturdimento ou, no caso contrário, cria um clima de indiferença; quando, porém se integram reciprocamente, a comunicação ganha valor e significado. O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo”.
O autor destas reflexões não é conhecido por ser um grande pensador dos processos da comunicação humana, mas isso não significa que o que diz não mereça figurar nos tratados sobre a comunicação e não venha, de facto, de um grande pensador. O excerto é, na verdade, do Papa Bento XVI e faz parte da mensagem que propôs para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se celebra no próximo domingo.
Vale a pena ler o texto na íntegra, visto que apresenta uma dimensão dos processos comunicativos absolutamente crucial para os tempos que vivemos. Depois de, na mensagem de 2011, o Papa ter chamado a atenção para outra vertente essencial – «quando as pessoas trocam informações, estão já a partilhar-se a si mesmas, a sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais» - desta vez, convoca o silêncio. Não o silêncio dos pusilânimes, mas o silêncio ativo dos que buscam a verdade, se interrogam , meditam e, por essa via, se colocam à escuta, procuram discernir o que faz sentido e vale a pena, dão espaço e tempo aos outros, aos que verdadeiramente nos questionam.
“Aprender a comunicar é aprender a escutar, a contemplar, para além de falar”, diz ainda o Papa.
Mas, se é verdade que sem silêncio não há comunicação, não é menos verdade que, com silêncio também pode não haver. Depende do sentido em que o silêncio é experimentado. E muitas pessoas, inclusive na Igreja, vivem o silêncio não como experiência desejada e como atitude de escuta do outro, mas como resultado de atos de silenciamento. E não se trata sequer de inimigos, mas de pessoas que pensam de modo diferente.
Sempre que o silêncio é unilateral - ou seja, exigido a outros para que nos escutem - é falso e nega a comunicação. Mais: tenho para mim que é sinal de fraqueza de quem o procura impor.
Que revolução se faz necessária para dar, hoje, nas nossas circunstâncias, substância a estes desafiosos!

(Uma versão mais reduzida deste texto foi publicada no diário digital Página 1 de 14.05.2012)

terça-feira, 26 de julho de 2011

“A Internet não é um simples instrumento de comunicação"

É corrente a ideia de que a Internet (e a Web) configuram um novo meio de comunicação. Uma análise mais atenta coloca em questão tal ideia. Basta que cada um se pergunte o que faz ou pode fazer com ela e nela.
Na igreja tem sido isso que tem sido defendido e propagado, o que conduz inevitavelmente à assimilação deste fenómeno informativo e comunicativo aos media já nossos conhecidos, o que não deixa de ser uma simplificação redutora.
Esta nota vem a propósito da intervenção há dias feita por António Spadaro, editor da revista La Civiltà Cattolica perante os bispos do Brasil (a conferência intitulou-se “Espiritualidade e elementos para uma teologia da comunicação em rede”) e pode ser lida - em italiano, AQUI).
“Internet não é meio de evangelização, é um ambiente de vida”, começou por notar o conferencista que também é sacerdote. “A internet é um novo contexto existencial, não um lugar específico no qual se entra em algum momento para viver on line e do qual se sai para entrar novamente na vida off line”, afirmou.
Para Antonio Spadaro, a internet é uma revolução “com raiz no passado” por replicar “antigas formas de transmissão do saber e do viver comum”. Ele defendeu a ideia da internet como ambiente e não simplesmente instrumento de comunicação.
que se pode usar ou não, mas um ambiente cultural, que determina um estilo de pensar, contribuindo para definir um modo peculiar de estimular a inteligência e de estreitar as relações, e mesmo um modo de estar no mundo e de organizá-lo”, destacou.
Segundo o padre Spadaro, neste sentido se pode dizer que a internet não é um “novo meio de evangelização”, mas, antes de tudo, “um contexto no qual a fé é chamada a exprimir-se não por uma mera vontade de presença, mas por uma conaturalidade do cristianismo com a vida dos homens”.
O desafio para a Igreja, de acordo com Spadaro, não é o modo de usar bem a rede, “como se acreditava”, mas “como viver bem o tempo da rede”. “A Rede coloca desafios muito significativos para a compreensão da fé cristã. A cultura digital tem uma reivindicação a fazer ao homem mais aberto ao conhecimento e aos relacionamentos”, considerou.

Fonte: site da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

terça-feira, 28 de junho de 2011

Bento XVI: tweet via iPad inaugura news.va

O Papa Bento XVI inaugurou hoje, através de uma tweet-mensagem, o novo portal agregador de notícias sobre o Vaticano e sobre o mundo, o news.va, servindo-se de um iPad. Vê-se bem que a familiaridade com a máquina e a destreza dos dedos no touch screen não são por aí além, mas vale o lado simbólico. O vídeo está em italiano, mas dá para entender:

domingo, 5 de junho de 2011

Com a Internet está a mudar não só o modo de comunicar, mas a própria comunicação



















"(...) Vai-se tornando cada vez mais comum a convicção de que, tal como a revolução industrial produziu uma mudança profunda na sociedade através das novidades inseridas no ciclo de produção e na vida dos trabalhadores, também hoje a profunda transformação operada no campo das comunicações guia o fluxo de grandes mudanças culturais e sociais. As novas tecnologias estão a mudar não só o modo de comunicar, mas a própria comunicação em si mesma, podendo-se afirmar que estamos perante uma ampla transformação cultural. Com este modo de difundir informações e conhecimentos, está a nascer uma nova maneira de aprender e pensar, com oportunidades inéditas de estabelecer relações e de construir comunhão. (...)

No mundo digital, transmitir informações significa com frequência sempre maior inseri-las numa rede social, onde o conhecimento é partilhado no âmbito de intercâmbios pessoais. A distinção clara entre o produtor e o consumidor da informação aparece relativizada, pretendendo a comunicação ser não só uma troca de dados, mas também e cada vez mais uma partilha. Esta dinâmica contribuiu para uma renovada avaliação da comunicação, considerada primariamente como diálogo, intercâmbio, solidariedade e criação de relações positivas. Por outro lado, isto colide com alguns limites típicos da comunicação digital: a parcialidade da interacção, a tendência a comunicar só algumas partes do próprio mundo interior, o risco de cair numa espécie de construção da auto-imagem que pode favorecer o narcisismo.
Sobretudo os jovens estão a viver esta mudança da comunicação, com todas as ansiedades, as contradições e a criatividade própria de quantos se abrem com entusiasmo e curiosidade às novas experiências da vida. O envolvimento cada vez maior no público areópago digital dos chamados social network, leva a estabelecer novas formas de relação interpessoal, influi sobre a percepção de si próprio e por conseguinte, inevitavelmente, coloca a questão não só da justeza do próprio agir, mas também da autenticidade do próprio ser. A presença nestes espaços virtuais pode ser o sinal de uma busca autêntica de encontro pessoal com o outro, se se estiver atento para evitar os seus perigos, como refugiar-se numa espécie de mundo paralelo ou expor-se excessivamente ao mundo virtual. Na busca de partilha, de «amizades», confrontamo-nos com o desafio de ser autênticos, fiéis a si mesmos, sem ceder à ilusão de construir artificialmente o próprio «perfil» público. (...)"

Papa Bento XVI. Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que hoje se celebra
Para ler o texto da mensagem: AQUI

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Jornalismos

Está a decorrer no Vaticano um encontro de 150 bloggers, no quadro das iniciativas várias que a Igreja Católica vem fazendo no sentido de estar presente e tirar partido das novas plataformas digitais e redes sociais.
A Agência Lusa achou interesse na iniciativa e ouviu pelo menos duas pessoas para um trabalho que difundiu pelos seus clientes: o P. Calado Rodrigues, de Bragança, e o autor destas linhas. Quanto ao sacerdote e jornalista brigantino, sugere um caminho que não deixa de merecer consideração: se a Internet é um (ciber)espaço, não mereceria que existissem párocos a trabalhar assumidamente nesse âmbito? Mas as coisas, considera ele, avançam, a este nível "devagar, devagarinho".
Na parte que me toca, sustentei que não basta a adopção das novas ferramentas da web; é necessária uma nova atitude, uma comunicação menos unidireccional e mais interactiva, mais voltada para a escuta do mundo.
A jornalista captou mais ou menos o que fomos conversando, ainda que o registo das perguntas me tenha parecido o de quem estava a tratar um assunto com o seu quê de exótico - uma instituição milenar a organizar - no Vaticano - um encontro de bloggers, por exemplo.
Onde ela não entrou foi na definição que procurei dar-lhe deste blog: que não se tratava de um bog católico e. menos ainda, porta-voz da Igreja, mas um espaço de abertura ao multiforme fenómeno do religioso na nossa cultura, do qual o catolicismo é certamente uma expressão fundamental. Conclusão dela: "Manuel Pinto, bloguista religioso 'e não católico' (...)".
Tão interessante e sintomático como esta conclusão: vários media, alguns dos quais conhecedores de como me posiciono nesta matéria, lá transcrevem, fiel e caninamente, a agência Lusa, sem pestanejar nem corrigir. Enfim, jornalismos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

John L. Allen entrevista o editor-chefe do "L'Osservatore Romano"

Giovanni Maria Vian é catedrático
em Filologia Patrística pela Universidade La Sapienza


“L'Osservatore Romano” faz 150 anos em 2011. John L. Allen Jr., correspondente do “National Catholic Reporter” em Roma, entrevistou o editor-chefe do jornal do Vaticano.

Giovanni Maria Vian afirma que o jornal é escrito com grande independência: “Tecnicamente, a única parte «oficial» do jornal é a coluna «Nossa informação» [geralmente publicada na primeira página, essa coluna é uma breve lista de indicações, audiências e outros atos oficiais papais] (…). Naturalmente, o L'Osservatore Romano é o único jornal do Vaticano, e por isso ele tem uma certa autoridade. No entanto, é uma autoridade derivada da sua longa história e da sua capacidade de interpretar do ponto de vista da Santa Sé, do Papa e da Secretaria de Estado, e não de ser diretamente aprovado. O Papa é o nosso "editor" no sentido de ser o dono do jornal, por meio da Secretaria de Estado e do substituto. Mas somos publicados todos os dias, e não é possível que alguém aprove o conteúdo de antemão”.

No 150.º aniversário vai ser publicado um livro sobre o “Singolarissimo Giornale”. E está igualmente prometido que os principais artigos vão passar a ser rapidamente traduzidos para inglês e espanhol e colocados on-line.

O editor-chefe do jornal que agora também fala dos Beatles e dos Simpsons diz que não houve furo ao embargo na publicação de excertos do livro do Papa. Os jornais só podiam publicar excertos de “Luz do Mundo” no dia domingo, 21 de Novembro. O “L'Osservatore Romano” publicou no sábado porque a edição de domingo sai no sábado à tarde. Ler tudo aqui.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Jornal gratuito de inspiração católica surge em França



Dois profissionais da imprensa juntaram uma equipa de doze pessoas e acabam de lançar em França o mensário católico gratuito «L'1visible"» (um jogo entre o invisível e o "um visível" ou "o primeiro tornado visível").
Preconiza uma informação acessível, positiva, pedagógica e sensível às questões espirituais e demarca-se da lógica de muitos gratuitos de uma informação ligeira, visual, de 'zapping'.
Surge editorialmente próximo e em colaboração com as publicações católicas Magnificat, Il est Vivant, La Vie.
Refere, por outro lado, adoptar uma atitude de cumplicidade e "não crítica" relativamente à Igreja.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Cinema: os 'dez mais' do ponto de vista espiritual

O director do Departamento de Cinema do arcebispado de Barcelona (Espanha), Prof. Peio Sánchez, voltou a publicar uma escolha pessoal daqueles que ele considera os 10 melhores filmes dos últimos anos, do ponto de vista espiritual. Seguimos a divulgação feita pela agência Zenit:

1. Gran Torino (2008), Clint Eastwood

“Em Gran Torino, Clint Eastwood soube contar uma história simples com uma enorme força dramática, apresentando temas espirituais de fundo, como o sentido do perdão, a redenção como sacrifício e o caminho da conversão. E do ponto de vista cristão, não somente apresenta uma imagem positiva da Igreja, representada no Pe. Janovich, mas também oferece uma poderosa imagem crítica nas decisões finais do protagonista.”

2. Amazing Grace (2006), Michael Apted

“Esta homenagem a William Wiberforce – um parlamentar da Câmara dos Comuns, que dedicou, desde a sua juventude, a sua actividade política à luta contra a escravidão e as injustiças sociais – apresenta-se com uma magnífica produção e uma série de actuações excepcionais. Marcada profundamente pela perspectiva social cristã, é um filme imprescindível para conhecer a força ética do Evangelho e sua herança em nossa cultura.”

3. Katyn (2007), Andrzej Wajda

“Surpreendente filme do mestre polaco Andrezej Wajda. Este testamento fílmico do genocídio de Katyn, perpetrado pelo comunismo soviético em 1940, afectou pessoalmente o director, já que seu pai foi um dos 20 mil oficiais e cidadãos polacos assassinados. Narrada a partir da perspectiva dos sobreviventes, especialmente mulheres, é um hino à reconciliação, da memória que busca a verdade. A fé católica é mostrada com intensidade em diversos momentos, mas de forma mais contundente nos últimos minutos.”

4. Quem Quer Ser Milionário? (2008), Danny Boyle

“O director Danny Boyle, de formação e convicções cristãs, soube contar uma dura história sobre a superação da miséria à vitória. Narrado como um conto de fadas, acompanha a história de três garotos que nascem nas barracas de Calcutá e como, a partir do protagonista Jamal, verão o triunfo da bondade e do amor, muito além da injustiça e da violência. A história apresenta uma intriga que move o espectador à esperança e que convida a reconhecer a presença da Providência, que acompanha os acontecimentos respeitando a liberdade, mas estimulando a bondade.”

5. O Visitante (2007), Thomas McCarthy

“É a história de uma visita gratuita na qual se vê envolvido um obscuro professor universitário, genialmente interpretado por Richard Jenkins, que, após ficar viúvo, vive sem sentido e cuja vida se transformará através do seu encontro com Tarek. Este sírio, que carrega a perseguição no seu coração, representa a alegria e a vontade de viver que faltam ao protagonista. Neste itinerário de transformação, veremos como cresce nele a sensibilidade e o compromisso, a capacidade de amar e o exercício responsável da liberdade. Um filme que, além do mais, é um grito contra a injustiça das leis migratórias.”

6. A Caixa de Pandora (2008), Yesim Ustaoglu.

“O mal de Alzheimer da avó abrirá a caixa de Pandora da uma família que vive nas margens da infelicidade, como se uma maldição caísse sobre eles quando a anciã, uma genial Tsilla Chelton de 89 anos, desaparece de casa. Com esta fuga, começa uma viagem rumo à verdade que envolverá todos eles, quando vão a uma aldeia de montanha na costa do Mar Negro. A lucidez da demência não conseguirá dobrar o desvario dos instalados na comodidade ou no fracasso; mas conseguirá mover os que sentem que a vida vai muito além e que sempre estão dispostos a subir uma montanha, ainda que as forças já sejam escassas. Uma aliança na qual os mais velhos transmitem a esperança aos mais jovens.”

7. A Partida (2008), Yojiro Takita

“Daigo, um violoncelista desempregado, descobre sua vocação quando abandona Tóquio com Mika, sua mulher, e vai à cidade e à casa em que viveu a sua infância. Um processo lento e surpreendente o converterá num especialista em nôkan, ritual mortuário japonês que supõe uma recordação do defunto desde o acto de embalsamento. Na sua aprendizagem, vão se cruzando várias histórias de reconciliação dos vivos com os mortos e ele irá, pouco a pouco, abrindo a sua própria história a um caminho de pacificação. O filme permite-nos contemplar a morte com uma perspectiva diferente.”

8. O Estranho Caso de Benjamin Button (2008), de David Fincher

“Baseada numa novela de F. Scott Fitzgerald, conta a vida singular de Benjamin: um estranho bebé que nasce sendo idoso e que, com o passar do tempo, acabará por se transformar num bebé. Este estranho personagem, que terá um corpo que cresce ao contrário do seu espírito, oferece-nos um personagem que amadurece de uma forma diferente e que também terá que amar Daisy – seu fiel e verdadeiro único amor – de uma forma diferente, ainda que não por isso impossível.”

9. Le Hérisson (2009), Mona Achache

“Adaptação do famoso livro de Muriel Barbery, ‘A elegância do ouriço’, e que supõe a primeira longa-metragem da directora francesa Mona Achache. Baseia-se no contraste de dois personagens: por um lado, uma menina com um rico e inteligente mundo interior; por outro, a porteira do número 7 da rua Grenelle, uma mulher descuidada e um pouco antipática. Mas ambas terão um segredo que virá à tona com a chegada de Kakuro Ozu, um elegante viúvo japonês. Esta revelação servirá de desculpa para compreender o segredo profundo das pessoas e como às vezes o essencial não está nas aparências.”

10. Rio Congelado (2008), de Courtney Hunt

“História sobre a resistência e a amizade de duas mulheres que começam em conflito, mas que criarão um profundo laço de solidariedade que tem como origem comum uma maternidade transcendida e o desejo de amar inclusive acima de suas forças. Dirigido por Courtney Hunt, apresenta os personagens com grande veracidade. A dureza e a desolação nas imagens nos permitem encontrar na alma das protagonistas uma generosidade desmedida, que devolve a confiança no ser humano, inclusive nas situações de solidão e limite que enfrentam.”"

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Balanços da década e esquecimentos jornalísticos

Nos balanços de década que (quase) todos os media fizeram, o preconceito veio mais uma vez ao de cima: a dimensão do fenómeno religioso foi ignorada pela maior parte. A excepção eram vagas referências ao islão - a propósito, apenas, dos atentados de grupos fundamentalistas. Nem mesmo o facto de ter morrido o Papa mais mediático da história católica; de se terem multiplicado iniciativas inter-religiosas num movimento sem precedentes na história; de vários grupos cristãos, muçulmanos, judeus e outros mobilizarem milhares de pessoas para se encontrarem ou para apoiar pobres, vítimas de tragédias e outros injustiçados - nem mesmo estes factos mereceram qualquer referência nestes viciados balanços. No Público de 31 de Dezembro, uma das "palavras da década" escolhidas foi "Deus". Aí procurei fazer uma pequena síntese de como o religioso continua a ser uma referência essencial para muitas pessoas. Mesmo se esta obtusa forma de jornalismo só se dá conta disso de vez em quando. Fica aqui o texto:

Uma palavra apareceu sob as cinzas dos atentados de 11 de Setembro: Deus. A motivação religiosa invocada pelos terroristas foi condenada por todas as religiões. "Patologias e doenças mortais da religião", diria o Papa Bento XVI, cinco anos depois, em Ratisbona, numa viagem que levaria milhares de muçulmanos a manifestar-se contra a frase, citada pelo Papa, em que se falava de Maomé como portador de "coisas más e desumanas".

A década foi marcada por outros factos em que a dimensão pública da religião, depois da "morte de Deus", (re)apareceu em força. Os cartoons de Maomé motivaram reacções de muçulmanos. O carisma, as viagens e o funeral, em 2005, do Papa João Paulo II atraíram milhões. O debate sobre a herança cristã da Europa, a propósito do tratado constitucional, teve momentos polémicos.

Mas também houve líderes e crentes de diferentes religiões unidos pela paz (encontros de Assis) ou no apoio a vítimas da pobreza, perseguições e catástrofes. Em Portugal, Fátima viu crescer a atracção do lugar simbólico para cinco milhões por ano, cem mil mobilizaram-se para escrever a Bíblia Manuscrita e a comunidade monástica de Taizé trouxe a Lisboa, há cinco anos, 40 mil jovens de toda a Europa - onde 67 por cento se afirmam "pessoas religiosas" e 51 por cento frequentam um serviço religioso.

O sociólogo da religião Thomas Luckmann, que há 40 anos falou da "religião invisível", diz que a religião passou a ser individual. E que essa é uma "componente estrutural nas sociedades americana e europeia". "O religioso nunca se foi embora, só mudou a sua face." Deus continua a estar em toda a parte.

(Foto: participantes no Parlamento das Religiões do Mundo, realizado na Austrália no início de Dezembro de 2009; foto de Ray Messner retirada de http://www.flickr.com/photos/raymessner/sets/72157622833738969/

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

"Comunicação eficaz é entre iguais que acontece"

Enquanto em Fátima se reflectia, nestes dias, nas Jornadas das Comunicações Sociais, se os gabinetes de imprensa são "luxo ou necessidade?", o arcebispo da diocese de Aparecida (Brasil) e actual presidente da CELAM (Conferência do Episcopado Latino-Americano), Raymundo Damasceno, propunha ontem, num colóquio sobre a Igreja e a comunicação, os seguintes pontos programáticos (que ele atribuiu a um jornalista colombiano):
1. Superar a ideia de que os meios de comunicação são, eles próprios, comunicação. Por outras palavras, a construção de canais de televisão, rádios, sites, é excelente, mas se não se tem algo de relevante a dizer, construindo novas e melhores maneiras de o fazer, não se irá muito longe.

2. Parar de pensar que os modernos meios de comunicação são "seculares". Por outras palavras, a TV, a internet, etc, não são de certo modo estranhos à Igreja. São neutros, e tudo depende de como são usados.

3. Compreender que a comunicação e a pregação não são a mesma coisa. A pregação é uma forma de comunicação, mas também tem de haver espaço para fornecer informação básica e para responder às perguntas de uma forma distinta da catequese ou exortação moral.

4. Compreender que cada acto pastoral é uma forma de comunicação. A Igreja está sempre a comunicar algo sobre si mesma ao mundo exterior, mesmo ao nível da forma como as pessoas são tratadas quando têm contacto com ela.

5. Aceitar que uma comunicação eficaz é entre iguais que acontece. Assim como Cristo se humilhou a si mesmo tornando-se um de nós, assim a Igreja não deve adoptar uma atitude de superioridade quando está a procurar comunicar com o mundo.

6. Perceber que a comunicação não é a mesma coisa que RP [Relações Públicas]. Em última análise, a questão não reside em projectar uma melhor imagem da Igreja, mas, antes, em partilhar a vida cristã e ajudar as pessoas a ver as suas vidas e o mundo a partir de um quadro de referência cristão.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Gabinetes de imprensa na Igreja Católica e truques tecnológicos

Em Fátima, decorrem desde o início desta tarde as jornadas do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, da Igreja Católica, dedicadas ao tema dos gabinetes de imprensa na Igreja. O padre Jardim Gonçalves, responsável do Departamento de Comunicação Social do patriarcado de Lisboa, afirmou duas coisas que destaco:
1 - a relação dos responsáveis da Igreja Católica com os jornalistas deve ser centrada na relação humana e não em qualquer truque tecnológico;
2 - nesta matéria, andámos para trás nas últimas décadas: houve tempo em que professores de teologia se dedicavam a debater temas de actualidade na praça pública, quando a realidade o exigia.

Em relação ao "truque", tenho por vezes a sensação de que religiosos e jornalistas são muito parecidos: achando que as coisas (meios de comunicação, de um lado, a maneira de anunciar a mensagem religiosa, do outro) mudam quando passamos a usar tecnologia. Não: nem os media são melhores porque mudam grafismos ou cenários, nem as religiões são melhores porque criam um site na internet.
Sobre o que se (des)andou, é pena que este sector, na Igreja Católica e nas outras religiões, continue a ser secundarizado em relação a muitas outras opções. Trata-se de (não) entender o mundo actual.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Silenciar a religião?

No Página 1 de hoje, Manuel Pinto questiona o silêncio mediático sobre o fenómeno religioso.

Um estudo realizado pelo jornalista José António Santos sobre as notícias difundidas pela agência Lusa no ano de 2008 indica que os assuntos de natureza religiosa não chegaram a 1 por cento da produção geral da agência. Ficaram-se por 0,71%, tendo atrás de si apenas dois temas: meteorologia e agenda.

Sabendo-se do peso da Lusa no fornecimento das redacções da generalidade dos media nacionais, fácil se torna compreender uma tomada de posição e de alerta da Igreja Católica, esta semana surgida entre nós. As conferências episcopais de Portugal e de Espanha, através das respectivas comissões especializadas de comunicação social, reunidas em Braga, sugerem que a dimensão religiosa e cristã, que faz parte da realidade social e cultural em que vivemos, está a ser silenciada nos media.

Os bispos chamam a atenção para uma atitude de suspeita sobre a presença do facto religioso cristão na esfera pública e para o desejo de “relegar a dimensão religiosa para o âmbito privado, sem deixar espaço para Deus na opinião pública”.

O tema nem se limita à religião nem será específico dos católicos e eu diria que é, antes de mais, um problema cultural, que ganharia em ser discutido como tal. Para tal, importa encontrar critérios que sirvam como referenciais para o debate e para a acção e que possam ser, digamos assim, conversados entre todos, sejam crentes ou não. Um deles julgo que seja a expressão social da dimensão religiosa, que parece indesmentível.

Outro é a relevância histórica desta componente no forjar da nossa identidade colectiva. Poderíamos acrescentar ainda um factor de equidade – atendendo à visibilidade social e cultural que outros fenómenos da vida das pessoas adquirem no espaço público.

Quanto aos media, parece-me preocupante o silêncio. E não é pelo facto de alguns deles terem cronistas ou transmitirem celebrações que o problema diminui. Porque o que está aqui em causa é a cobertura noticiosa – notícias breves ou contextualizadas, entrevistas, reportagens, investigação jornalística.

Claro que muitos crentes e alguns hierarcas gostariam de ver os media sobretudo como ‘púlpito’. Claro, também, que os crentes e as religiões instituídas precisam de aprender a comunicar muito melhor. Mas nada disso justifica o silêncio, porque o jornalista não é (não deve ser) aquele que fica à espera que a notícia lhe venha parar às mãos.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Ecclesia renovada

O 43º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que este domingo se assinala, trouxe consigo a renovação do portal de notícias da agência Ecclesia. Mais limpo, com mais ferramentas para utilizadores, prevendo ligações (algumas ainda não activas) a redes sociais como o Facebook e o Twitter, bem como a vários blogues, o site assume mais vincadamente a sua função noticiosa. Nos apontadores, há também ligações para o site institucional da Conferência Episcopal, que neste domingo aparecerá também com cara lavada. No Ecclesia renovado, destaque para vários textos sobre a Igreja Católica no palco mediático, entre os quais um acerca dos blogues que tocam a temática religiosa (mas onde ainda falta o Religionline); poucos dias depois da viagem do Papa Bento XVI ao Médio Oriente, vale a pena também espreitar a entrevista do dominicano frei Francolino Gonçalves, membro da Escola Bíblia e Arqueológica de Jerusalém.

Deus Audiovisual

O capuchinho frei Lopes Morgado, responsável da revista "Bíblica", escreveu este poema ao Deus Audiovisual, a propósito do Dia Mundial das Comunicações Sociais, que este domingo se assinala:

Louvado sejas, meu Senhor,
pelo Irmão SOM, eco da tua voz,
pois do teu Coração nos diz o ritmo.

Louvado sejas, meu Senhor,
pela MÚSICA, nossa Irmã,
pois da tua Festa nos traz a mensagem.

Louvado sejas, meu Senhor,
pela IMAGEM, nossa Irmã gémea,
pois da tua Beleza nos reflecte o rosto.

Louvado sejas, meu Senhor,
pelo SILÊNCIO, berço do teu Verbo,
pois da tua Presença tem o enlevo.

Louvado sejas, meu Senhor,
pela PALAVRA, nossa Mãe, Irmã e Filha,
pois do teu Mistério nos dá notícia.

Louvai e bendizei o meu Senhor
inaudível, invisível, inefável,
pois em JESUS se fez Deus Audiovisual.