25 de Abril, 40 anos
Capa do Diário de Notícias de 28 de Março de 1974,
com a notícia do comunicado dos bispos moçambicanos
a demarcar-se dos Missionários Combonianos e do bispo de Nampula
Um relatório da PIDE elaborado 10 meses antes do 25 de Abril
propunha que se prescindisse do trabalho missionário de vários institutos
religiosos. Feitas as contas, a decisão levaria à expulsão de 155 padres. As
autoridades não seguiram a sugestão mas, em Fevereiro de 1974, o regime acabou
por mandar embora de Moçambique mais 11 missionários e um bispo. Por causa de
um “imperativo de consciência”.
(Texto publicado no Público de 23 de Abril de 1999; apenas foram actualizadas as referências temporais)
A situação político-religiosa de Moçambique em Junho de 1973, dez
meses antes do 25 de Abril de 1974, era considerada pela PIDE/DGS como
“causando graves apreensões” nas áreas das dioceses da Beira e de Tete. Num
relatório pormenorizado sobre a presença da Igreja Católica naquele Estado “e
suas implicações com a segurança”, a PIDE concluía que a situação ficaria
melhor “se fosse possível prescindir dos Institutos de Burgos, Capuchinhos de
Trento, Combonianos, Sagrado Coração de Jesus e Padres dos Sagrados Corações”.
Ao propor esta medida, o relatório da polícia política do Estado
Novo estava a sugerir a expulsão de 155 missionários que trabalhavam em todo o
território moçambicano. Nessa altura, o número total de padres a trabalhar em
Moçambique (entre autóctones e estrangeiros) era de uns 550. O que, a
concretizar-se a ideia expressa no relatório dirigido ao governador de
Moçambique, significava expulsar mais de um quarto dos membros do clero
católico. Isto, já depois de terem sido expulsos do território, entre 1971 e
1972, vários membros dos Padres Brancos, dos Padres de Burgos e dos
Missionários Combonianos.
Na alínea c) do relatório, já citada, o director da delegação da
PIDE em Moçambique acrescenta que, se se prescindisse dos missionários
referidos, “beneficiariam as dioceses afectadas e as que se prevê virem a
sê-lo”. E, se isso não se concretizasse, “a subversão violenta” iria
estender-se “a novas áreas ainda não afectadas”, tudo levando a crer que
surgiriam “implicações mais graves com a segurança”.
A informação nº 86/73/DI/2/SC-G.G., com 31 páginas
dactilografadas, traça um panorama completíssimo do que era a posição dos
missionários em relação ao estatuto da então colónia portuguesa, dos casos
considerados mais perigosos para a segurança do Estado, das opiniões dos
respectivos bispos e das missões que ofereciam preocupações às autoridades do
Estado Novo.
Pides a fazer teologia
O relatório começava por se referir ao “estado da questão”, com um
“vasto campo de análise em que factores de ordem religiosa, social e política
se entrechocam, tornando o tema melindroso e difícil”. E entrava depois por
conceitos teológicos: “Tendo em conta que o conceito de Igreja envolve não só a
hierarquia mas também todos os católicos (binómio Igreja/Corpo Místico), a
principal limitação que nos surge é a impossibilidade de seguirmos atentamente
o comportamento político-religioso dos leigos. Alguns destes tentavam “a
escalada de pastorais ultra-modernas à luz da actual doutrina social”. Mas,
como não eram muitos, “os seus voos são perfeitamente controlados ou
controláveis” pelos bispos.