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domingo, 1 de agosto de 2010

"O Vaticano e o sacerdócio da mulher"

Narciso Machado, juiz-desembargador jubilado, escreve um texto no Público, no qual sustenta que "na proibição da ordenação de mulheres viola-se o sentido da igualdade cristã entre homens e mulheres".
Nem esta opinião é nova nem a oposição terminante da hierarquia da Igreja o é. Não importa muito se estamos a favor ou contra. Mas importa que o texto em causa não é panfletário, é argumentado e traduz um sentimento que cresce e que, muito provavelmente, se traduzirá numa prática corrente, em futuro mais próximo ou - o mais provável - mais distante.
Por muito que as posições oficiais pretendam fechar o assunto pela via regulamentar, nem por isso ele desaparece da agenda das preocupações de um sem-número de católicos. Parafraseando o velho ditado, e ao contrário de outros tempos, "Roma locuta, causa [non] finita" (O Vaticano falou, a questão [não] terminou).
É é precisamente por isso - por ser matéria disputada e longe de poder ser calada - que se torna preocupante que, nas recentes Novas Normas sobre os Delitos mais Graves, a Congregação para a Doutrina da Fé tenha criado a ideia de que a ordenação sacerdotal de mulheres se equipara, de algum modo, em gravidade, ao abuso sexual de menores e à pedofilia. O abuso e a exploração sexual serão sempre matéria grave, hedionda e criminosa, enquanto que os normativos sobre a ordenação de mulheres são assunto pendente e passível de ser revisto, noutras circunstâncias que não as presentes.
Por essa razão, colocar deste modo o assunto (da ordenação) releva também de uma arrogância perante o futuro que não deixa de ser chocante do ponto de vista da humildade cristã.

domingo, 25 de julho de 2010

Bento Domingues sugere leituras de férias; Anselmo Borges fala de "pedofilia e ordenação de mulheres"

Bento Domingues no "Público" de hoje:
Anselmo Borges no DN de ontem:
"No passado dia 15, o Vaticano publicou um documento que actualiza as regras para a punição dos clérigos (padres, bispos ou cardeais) que abusam sexualmente de menores. São medidas que endurecem as penas e exigem que se torne realidade a "tolerância zero" para estes casos trágicos". Ler mais aqui.

domingo, 14 de março de 2010

E se as mulheres fizessem greve na Igreja?

"Mulheres e Teologia" foi o tema de um colóquio levado a cabo na Universidade de Coimbra, há duas semanas, e promovido pelo Instituto de Estudos Feministas com a colaboração do Instituto Universitário Justiça e Paz, da diocese de Coimbra. O debate contou com a participação de sete mulheres, oriundas do universo do catolicismo: Adriana Bebiano, Teresa Toldy, Fernanda Henriques, Maria Carlos Ramos, Maria Julieta Dias, Laura Ferreira dos Santos, Isabel Allegro Magalhães; e ainda os teólogos Bento Domingues e Anselmo Borges. Na TSF, Manuel Vilas Boas deu voz às e aos intervenientes e o programa, com o título "E se as mulheres fizessem greve na Igreja?", passou neste fim de semana. O programa pode ser ouvido aqui.
(Foto: grupo de freiras em Belém, em Maio de 2009, na missa com o Papa Bento XVI)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mulheres e Teologia (no Dia Internacional da Mulher)

Na sua crónica de sábado passado, Anselmo Borges fala das mulheres e da teologia, a propósito do recente colóquio sobre esse tema, em Coimbra. Excertos de um texto que pode ser lido na íntegra aqui (foto reproduzida daqui):

Celebra-se [a] 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher, lembrando as suas lutas de emancipação. As religiões, na sua ambiguidade, foram e podem ser factores de libertação. De facto, a sua influência neste domínio foi e é sobretudo negativa e opressora. Que impressão causa, por exemplo, pensar na possibilidade de uma mulher à frente da Igreja como Papa?

Mas há iniciativas, inimagináveis há poucos anos. Assim, no passado dia 26 de Fevereiro, a partir de uma colaboração da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, no quadro do Mestrado e Doutoramento em Estudos Feministas, integrando também um seminário sobre "Mulheres e Religiões", do Instituto Universitário Justiça e Paz e do Centro de Estudos Sociais, teve lugar na Faculdade de Letras um Colóquio subordinado ao tema "Mulheres e Teologia", com cerca de 170 participantes.

Pela mão das mulheres, a teologia "regressou" à Universidade de Coimbra, na Faculdade de Letras, que substituiu, vai para um século, a Faculdade de Teologia. Como sublinhou o seu director, Carlos André, a Faculdade de Letras, que deveria antes chamar-se Faculdade de Humanidades, pois pergunta pelo Humanum, na sua raiz, nas suas múltiplas dimensões, no seu sentido, não pode ignorar a reflexão sobre o Divino. (...)

"Teologia e Ética", no seu desafio mútuo, foi a problemática analisada por Teresa Toldy, da Universidade Fernando Pessoa. Pergunta essencial: Que utilidade tem a teologia para uma vida melhor e a felicidade humana, objectivo também da ética? Esta questão tem um recorte específico, quando relacionada com as realidades e problemáticas das mulheres, tanto no domínio ético como no teológico.

"Dizer o Indizível no feminino" foi o tema de Isabel Allegro de Magalhães, da Universidade Nova de Lisboa. No quadro da obsessão masculina de a tudo dar nome, a quase totalidade das teologias abraçou o racionalismo, esquecendo que Deus é o Absoluto Indizível. É tarefa das teologias feministas contribuir para a aproximação da teologia negativa e dos grandes místicos de todas as religiões. "O que aí encontramos é algo afim a uma teologia contemplativa ou a expressão de uma religiosidade nova, decorrente da consciência de uma total inacessibilidade do Mistério."

(Neste Dia Internacional da Mulher, este post é dedicado às mulheres dos que fazemos este blogue: Cristina, Elsa, Isabel e em memória da Sílvia)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Bíblia, mulheres, vida



Apresentação 12 de Março

Alzira Fernandes, Helena Martinho, Isabel Varanda, Luísa Alvim e Teresa Toldy são as cinco mulheres que vão apresentar os retratos bíblicos de mulheres vivas, a partir do livro "Vives, femmes de la Bible" [André Wénin, Camille Focant e Sylvie Germain]. Esta apresentação contará com a participação do Coro da Associação de Pais do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga, o Coro da Igreja de São Victor do arciprestado de Braga e da Orquestra de Câmara do distrito de Braga, sob a direcção do Maestro António Baptista. Acontecerá a 12 de Março, no Auditório Vita, em Braga

domingo, 15 de março de 2009

Oração

Há dimensões essenciais da vida que se penetram melhor em contacto com a natureza. Por exemplo: nestes meses últimos, observar de perto cada arbusto, cada árvore de fruto de galhos nus quase dava pena, tão forte era o contraste com a exuberância estival que a Primavera produz, quando a vida, de verde vestida, se transmuta em frutos, ainda que sempre de cuidados carente. E, no entanto, é preciso esse aparente definhamento, essa visível morte para que a vida acorde e nós a gozemos e celebremos.
Custa tanto, Sílvia, acreditar que esse silêncio, esse escuro dos ramos, vai trazer a exuberância e a plenitude e é ele próprio já exuberância e plenitude. Assim foi quando há dois anos nos despedimos. És tu - presença, anúncio e diafanidade - que nos fazes acreditar. Hoje "vemo-nos como num espelho. Um dia ver-nos-emos face a face" (1Cor 13,12).

domingo, 8 de março de 2009

São Paulo e as mulheres

No DN de sábado, Anselmo Borges escreve sobre São Paulo e as mulheres, para contestar a ideia da misoginia de Paulo e para recordar que as comunidades paulinas tinham também mulheres nas suas lideranças. Este é o texto:


Nos casamentos, constato com satisfação que as noivas rejeitam como leitura da Missa um dos textos propostos, da Carta aos Efésios, atribuída a São Paulo. Diz assim: "As mulheres submetam-se aos seus maridos como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher. Como a Igreja se submete a Cristo, assim as mulheres, aos maridos, em tudo."


Na Carta aos Colossenses, também se lê: "Esposas, sede submissas aos maridos, como convém no Senhor." E na Primeira Carta a Timóteo: "A mulher receba a instrução em silêncio, com toda a submissão. Não permito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem, mas que se mantenha em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva." Na Primeira Carta aos Coríntios: "As mulheres estejam caladas nas assembleias, porque não lhes é permitido tomar a palavra e, como diz também a Lei, devem ser submissas." Aí estão os textos fundamentais a partir dos quais São Paulo foi julgado como misógino e responsável pela situação de submissão das mulheres na Igreja e na sociedade. No entanto, tornou-se hoje claro que este preconceito repressivo e negativo é injusto. Quando comparamos a imagem que Paulo tem da mulher com a dos seus contemporâneos, concluímos mesmo, como escreve Stephen Tomkins, que Paulo é dos "escritores mais liberais da Antiguidade e que dificilmente merece uma crítica tão dura".

Na Grécia e em Roma, as mulheres não eram consideradas pessoas, não tendo, portanto, direitos. "Calar é a grande honra de uma mulher." Aristóteles escreveu que "o homem é por natureza superior e a mulher, inferior; ele domina e ela é dominada". Os homens judeus agradeciam diariamente a Deus não os ter criado mulher, e o testemunho de uma mulher não era aceite em tribunal. Lê-se no livro bíblico de Ben Sira: "Menos dano te causará a malvadez de um homem do que a bondade de uma mulher."

São Paulo fez uma experiência avassaladora, que transformou, de raiz, a sua vida: Deus não abandonou à morte Jesus crucificado. Que vale um morto? Que vale um crucificado? Então, se Deus o ressuscitou, não foi pelas suas qualidades. Assim, Deus está do lado dos abandonados e excluídos e, portanto, todos valem diante dele. Paulo intuiu e experienciou a dignidade infinita do ser humano, seja quem for. Daí ter escrito esta palavra decisiva, na Carta aos Gálatas: "Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem e mulher, porque todos sois um só em Cristo."

E tirou as conclusões práticas. Formou comunidades cristãs carismáticas. Reuniam-se em casa de um cristão para celebrar a Eucaristia. Quem presidia era o dono ou dona da casa, de tal modo que nada impede pensar que, no princípio, mulheres presidiram à celebração eucarística.O facto de Paulo se dirigir também a mulheres casadas com não cristãos indica que as recebia na comunidade enquanto autónomas, como os homens, independentemente dos maridos.

No último capítulo da Carta aos Romanos, saúda 16 homens e 8 mulheres. Lá aparecem Febe, que "também é diaconisa na igreja de Cêncreas"; Priscila, "minha colaboradora"; Maria, "que tanto se afadigou por vós"; Trifena e Trifosa, "que se afadigam pelo Senhor"; "a minha querida Pérside, que tanto se afadigou pelo Senhor". Merece menção especial uma apóstola: Júnia, "tão notável entre os apóstolos". Do confronto destes textos, conclui-se que Paulo não pode ser acusado de misoginia. O que se passa é que das 13 cartas que lhe são atribuídas, ele só é autor de 7: Primeira aos Tessalonicenses, 2 aos Coríntios, aos Filipenses, a Filémon, aos Gálatas, aos Romanos. As outras 6 - aos Colossenses, aos Efésios, Segunda aos Tessalonicenses, 2 a Timóteo, a Tito - são pseudopaulinas, isto é, dependem da "escola paulina", mas ele não é o seu autor. Ora, os passos citados, exigindo a subordinação e o silêncio da mulher, pertencem às pseudopaulinas. Quanto ao passo da Primeira Carta aos Coríntios, aceita-se hoje que é uma interpolação posterior, pois só assim se percebe que antes refira "a mulher que reza e profetiza".

O comportamento misógino e subordinado da mulher não se deve a Paulo, mas a outras lutas e influências.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Igreja deve dar à mulher protagonismo que até agora lhe negou

No Público de dia 23 de Fevereiro, o biblista e teólogo e antrópólogo Carlos Gil Arbiol fala sobre as primeiras comunidades cristãs e São Paulo, numa entrevista de António Marujo:

A Bíblia tem que ser lida com o contributo das ciências sociais, diz Carlos Gil Arbiol, biblista que recorre à antropologia cultural para entender o cristianismo da primeira geração. O que o leva a dizer que São Paulo se opunha ao culto ao imperador e que chegará o momento em que as mulheres recuperarão o papel de liderança que tiveram nas comunidades organizadas por Paulo.

Frade capuchinho, professor na Universidade de Deusto, no País Basco (Espanha), Carlos Gil Arbiol especializou-se na área da Bíblia e antropologia cultural dos primeiros tempos do cristianismo. Autor de vários livros e artigos em revistas da especialidade, Arbiol, de 37 anos, esteve na Universidade Católica, onde fez três conferências (Lisboa, Porto e Braga). No último número da revista da Faculdade de Teologia, Didaskalia, é possível ler um dos seus textos.

Tem olhado para as origens do cristianismo a partir da antropologia. A teologia precisa deste contributo?

CARLOS GIL ARBIOL - A teologia necessita das ciências sociais, porque elas permitem enraizar o evangelho na cultura em que ele nasceu. A fé cristã e a Igreja não são realidades etéreas, caídas do céu, são formuladas num lugar e numa cultura concreta. E devem ir-se adaptando a essas culturas, para expressar a originalidade do evangelho, para reformular e encontrar outros modos de expressar o mesmo.

A antropologia pode ajudar-nos a compreender a Bíblia de outro modo?
Claro. Por exemplo, as cartas de Paulo reformulam o evangelho de um determinado modo. As figuras literárias que Paulo utiliza, as metáforas, a forma de construir as comunidades - tudo está em função de uma cultura: a importância da honra e da vergonha, da pureza e da impureza, do patronato e da clientela... são elementos que condicionaram a formulação dos textos bíblicos.

Ecclesia era um conceito político quando Paulo o adaptou. A Igreja nasceu como realidade política?
Em torno de Jesus e de Paulo, quando nasce o movimento cristão, não há uma distinção entre o âmbito religioso e político. O culto ao imperador tem uma dimensão religiosa mas está indissoluvelmente unido à política. Do mesmo modo, as comunidades de Paulo tinham uma dimensão religiosa, mas também política. O religioso e o político estavam fundidos, tal como o religioso e o doméstico.
A diferença de hoje entre religioso e laico não existia, existia entre político e doméstico. A religião não tem uma dimensão exclusivamente doméstica. Não era uma religião para a casa, mas para transformar a sociedade.

O cristianismo começou por transformar os modelos que existiam - desde logo, os patriarcais.
Sim. O cristianismo primitivo foi assimilando certos modelos para ser relevante no seu contexto cultural. E um desses modelos foi o de família patriarcal. Onde melhor se percebe a assimilação desses modelos é nas cartas deutero-paulinas: morto Paulo, os seus discípulos continuaram desenvolvendo a sua tradição e assimilam definitivamente o modelo patriarcal.
É nessas cartas que aparecem as listas de comportamentos para cada membro da casa: maridos, esposas, filhos, amos e escravos. Isso aparece na segunda geração. A Igreja toma um cariz mais patriarcal depois da morte de Paulo.

O Paulo mais claramente oposto ao Império e mais igualitário, que tem sido redescoberto, começa a ser posto em causa nesse momento?
Em parte. Havia 13 cartas até agora atribuídas a Paulo. Actualmente, considera-se que sete são de Paulo e sobre as outras seis há muita discussão e tende-se a pensar que foram escritas por discípulos de segunda e terceira geração, no início do segundo século.
É isto que nos permite compreender que o pensamento de Paulo foi adaptado, depois dele, a diferentes circunstâncias. Isto evita que se projectem sobre o Paulo histórico modelos culturais assimilados muito mais tarde. E permite descobrir um Paulo muito mais carismático, que assumiu diferentes modelos que depois se foram perdendo pelo caminho.

O anúncio de um crucificado opunha-se ao culto do imperador. Esta é uma ruptura grande?
A proclamação do evangelho da cruz aparecia como ameaça e desafio ao único poderio, o do imperador. Proclamar um crucificado, humilhado pelo poder romano, tinha uma forte carga de desestabilização e ameaça.
O poder romano baseava-se na necessidade de dominar, controlar e submeter todos os povos à volta. A propaganda política sustentava que era a única maneira de manter a pax romana. A esperança que o imperador traria era que ele garantia a estabilidade do mundo, mas através do domínio dos povos à volta e dos cidadãos do império - ou seja, humilhavam-se os demais para o seu enaltecimento.
A cruz significa precisamente o contrário: Deus preferiu humilhar-se, desprender-se de toda a sua capacidade de controlo e domínio, para enaltecer os subjugados. Essa é uma estratégia de esperança radicalmente invertida. Quem recebe esta boa notícia não são os poderosos, mas as vítimas do império. Por isso, entre outras coisas, o evangelho de Paulo teve enorme êxito: encontrou um enorme eco em todos os que o império deixara à margem e não tinham possibilidade de futuro.

Tem sentido propor hoje esta religião do fracasso, da cruz, numa sociedade que acentua antropologicamente o sucesso, a riqueza, o poder?
Estamos demasiado acostumados à ideia de que todos alcancemos o maior bem-estar possível, sem ter em conta as consequências negativas dos nossos excessos de vida para outras pessoas.
Uma das actualizações que poderia ter este evangelho da cruz é fazer-nos descobrir os valores positivos que há nos excluídos da sociedade. Criámos uma sociedade fictícia de bem-estar à custa das oportunidades de futuro de outras pessoas. Se, em vez disso, orientarmos a vida para os que nos estão denunciando nos nossos próprios excessos, talvez sejamos capazes de construir uma sociedade que tenha algo para muitos mais.
Esta é uma leitura teológica. Paulo, como Jesus, descobriu que Deus olhava especialmente para aqueles que todos consideravam os últimos. O que ele percebe é que, se Deus é capaz de solidarizar-se até ao fim com os últimos, é capaz de solidarizar-se com todos. Essa seria a melhor tradução actual do evangelho da cruz.

A integração, nas primeiras comunidades, incluía também as mulheres. Esse discurso, já assumido por teólogos e biblistas, deveria ter consequências também para a Igreja?
Tem que ter consequências. Talvez a situação da Igreja no Ocidente, de minoria perante um contexto cada vez mais secularizado, leve a uma atitude defensiva. Isto favorece a proliferação de atitudes do passado, de modelos de cristandade em que a Igreja ocupava todos os âmbitos da sociedade. Isso hoje é impensável e, quanto mais tardarmos a renunciar a essa ideia de cristandade, mais tardaremos em tornar relevante o evangelho na nossa sociedade.
Essa é uma das consequências que deverá ter: nos textos do Novo Testamento, nas primeiras comunidades, as mulheres tiveram um protagonismo que não tiveram em nenhum outro grupo. Era a aplicação do princípio teológico de que em Cristo, como diz Paulo na Carta aos Gálatas, não há homem nem mulher, nem escravo nem livre, nem judeu nem pagão.

E quando se fala de protagonismo, falamos também de liderança das comunidades?
Sem dúvida. O próprio Paulo afirma, na Primeira Carta aos Coríntios, que as mulheres, como os homens, podiam orar e profetizar - ou seja, dirigir a palavra à comunidade, ter um papel de liderança - tal como o de acolher a comunidade em sua casa.
Ou seja, temos testemunhos suficientes para reformular hoje o ministério [sacerdotal], profundamente enraizado nas origens do cristianismo e dando um protagonismo maior às mulheres. Isso acabará acontecendo.

Não significa também compreender e assumir os textos de Paulo, por exemplo, uma vez que há pessoas que ainda procuram ignorar o que eles dizem?
Sim, os textos sobre este tema e outros, no Novo Testamento, são de difícil interpretação, ambíguos e por vezes contraditórios. Há textos nos quais as mulheres têm um protagonismo indiscutível e claro, outros em que esse protagonismo está marginalizado. Ambas as realidades, e outras mais, existiram no cristianismo primitivo. Só que nem uma nem outra era exclusiva.
Uma comunidade como a Igreja actual tem autoridade suficiente para dizer qual desses modelos do cristianismo primitivo é o mais actual, mais relevante para a situação que vivemos e que mais justiça hoje faz ao evangelho.

Para voltar à questão antropológica: é pouco credível manter o actual modelo perante a antropologia contemporânea, que entende homem e mulher iguais em dignidade e em direitos?
A Igreja tem capacidade e autoridade suficientes para fazer um discernimento sobre a sua própria história e saber encontrar em textos das suas origens, do Novo Testamento, a base para dar à mulher o protagonismo que até agora se lhe negou.