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sexta-feira, 6 de abril de 2018

Luther King: como uma dor de pés e um pequeno gesto podem fazer sonhar o mundo


Martin Luther King (ilustração reproduzida daqui)

O assassinato de Martin Luther King, cujos 50 anos se assinalaram na quarta-feira, dia 4, é o desfecho trágico de uma história que começou com uma dor de pés. (No final deste texto, há várias sugestões de outras leituras a propósito da efeméride)
A 1 de Dezembro de 1955, Rosa Parks, uma costureira negra de 42 anos foi presa na cidade de Montgomery (Alabama, Estados Unidos da América) por se ter recusado a dar o lugar a um branco no autocarro em que seguia. De acordo com as leis de segregação e os costumes da cidade, Rosa tinha que se levantar quando já não houvesse lugar nas quatro filas da frente para os passageiros brancos.
“É verdade que me doíam os pés, e que num primeiro momento foi isso que me levou a ficar sentada. Mas a verdadeira razão porque não me levantei foi por achar que tinha o direito de ser tratada como outro passageiro qualquer. Já tínhamos sofrido demasiado tempo aquele tratamento desumano”, recordaria a própria numa entrevista, em 1992. Sem que ela o soubesse, esta dor dos pés de Rosa Parks, que morreu com 92 anos em Outubro de 2005, viria a ser o primeiro passo de uma longa marcha pelos direitos cívicos dos negros norte-americanos.
No dia seguinte, Martin Luther King, jovem pastor da Igreja Baptista que estava na cidade há pouco mais de um ano, recebe um telefonema madrugador. E. D. Nixon pagara os 14 dólares de fiança para Rosa esperar o julgamento em liberdade. Ao telefone, quando King atende, Nixon esquece-se de lhe dar os bons dias e vai directo ao assunto: “Acho que está na altura de boicotar os autocarros. Só com um boicote podemos conseguir fazer com que estes tipos percebam que não vamos suportar mais este tipo de tratamento.”

Não pactuar com um sistema pernicioso

Antes do telefonema, conta o próprio King, E. D. Nixon telefonara ao pastor Ralph Abernathy, da Primeira Igreja Baptista da cidade, tendo ambos concordado com o boicote. King também adere à ideia.
À noite, a dúvida assalta-o: seria o método “intrinsecamente anticristão” e uma “forma negativa de resolver o problema”? Não: tratava-se apenas de “deixar de pactuar com um sistema pernicioso”, uma ideia do ensaio de Henry David Thoreau sobre a desobediência civil. E deixará de falar em boicote, passa a referir-se a um acto colectivo de não-colaboração.
A pé, de bicicleta, à boleia, de táxi. Aquele 5 de Dezembro, a segunda-feira da acção programada, é o primeiro de 381 dias em que os negros de Montgomery utilizam todos os meios possíveis nas suas deslocações. Todos, menos o autocarro. No mesmo dia, Rosa Parks é condenada, em tribunal, ao pagamento de 14.000 dólares – mas recorre. O sucesso da não-colaboração e a sentença judicial levam à criação de uma organização mais consistente. King, então com 26 anos, é o escolhido para liderar o processo. Ao fim de 14 meses, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos declara inconstitucional a segregação nos autocarros.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A não-violência como proposta para contrariar a violência cada vez mais cedo na vida das crianças



Mahatma Gandhi (foto reproduzida daqui)

Um dia depois de um episódio de violência numa escola da Nazaré, que resultou na morte de um dos envolvidos, assinalou-se esta terça-feira o Dia Internacional da Não Violência e da Paz na Escola, comemorando assim a data em que Mahatma Gandhi, o líder da luta pacífica pela independência da Índia, foi morto no seu país, em 1948.
Na TSF, uma reportagem do jornalista Miguel Midões com sonoplastia de Paulo Jorge Guerreiro, trouxe à antena o caso do Agrupamento Escolar de Oliveira do Bairro, que promoveu um conjunto de iniciativas para assinalar a data.
Um dos dados revelados na reportagem é que a violência acontece cada vez mais cedo na vida das crianças e jovens; por isso se torna importante que se comece pelos mais novos a incutir o sentido da não-violência.
A reportagem pode ser ouvida aqui, onde também estão disponíveis mais informações. 
O tema da não-violência teve, assim, uma oportunidade rara para ser discutido no país, já que uma questão pouco presente no debate público. Um dos últimos contributos para a reflexão sobre o mesmo foi o texto elaborado pelo Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, em 2002, na sequência de um processo de reflexão que contou com diversos contributos, incluindo de pessoas de outras religiões.  
O texto, com o título Proposta para uma Cultura da Não-Violência começa por verificar, nos seus dois primeiros parágrafos:
“No início do terceiro milénio a violência continua a ser uma constante na história da humanidade. Muitos são os motivos que alimentam as guerras: diferenças religiosas e/ou culturais, conflitos ideológicos e políticos, reivindicações territoriais, acesso a recursos naturais, a dinâmica própria dos interesses específicos do binómio sistema militar/indústria do armamento, o desejo de poder a todo o custo.
“O fim do bipolarismo e a apregoada nova ordem internacional, ao contrário do que alguns previam, não contribuíram para a resolução pacífica dos conflitos que continuam a provocar milhões de mortos e mutilados um pouco por todo o mundo e a impedir que muitas pessoas vivam em condições mínimas de dignidade. Ruanda, Sudão, Kosovo, Tetchénia, Argélia, Colômbia, Angola, Médio Oriente, Afeganistão, Iraque são algumas regiões do mundo onde o absurdo da guerra se manifestou recentemente e, em alguns casos, continua a manifestar.”
(O documento, em oito pontos, está disponível aqui na íntegra)