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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

​O pequeno Aylan na manjedoura do presépio

     
     
     Texto publicado na Newsletter diária da Renascença de 21.12.2015

     Aylan, de três anos, camisola rubra e calção preto, rosto colado à areia, na borda da costa turca, permanecerá como símbolo dos milhares de mortos na fuga da guerra e do medo. Este ano, o Padre Ángel, fundador da ONG espanhola Mensageiros da Paz, fez dos refugiados o tema do seu Natal Solidário. Entre 4 de Dezembro e 6 de Janeiro, tem aberto na igreja de Santo António, em Madrid, um presépio alusivo, em que na gruta de Belém colocou, na manjedoura, uma escultura do pequeno Aylan, rodeado dos seus pais.

     Os Mensageiros da Paz dedicam-se a acolher e a cuidar dos refugiados há mais de 20 anos. Desde 2012, procuram responder às necessidades das dezenas de milhares que se encontram concentrados no campo de Al-Zaatari, na Jordânia. Actualmente desenvolve um vultuoso projeto na Macedónia, na Sérvia, na Croácia e na Grécia, que atende diariamente mais de 12 mil pessoas fugidas, na sua maioria, da Síria. Cozinhas móveis, tendas aquecidas, e com camas e sítios para tomar um duche e tomar um pequeno-almoço são os “luxos” oferecidos.

     O presépio de Santo António é o grito silencioso de alerta para uma tragédia silenciosa que só aparentemente está longe da nossa porta. A intervenção em Al-Zaatari e nas fronteiras europeias de Leste é uma resposta a esse apelo.

     No domingo de 6 de Setembro, o Papa Francisco pediu a bispos, paróquias, mosteiros e santuários da Europa para acolherem cada um uma família de refugiados. Afinal, também a família de Nazaré teve de fugir da Palestina para evitar a morte do pequeno Jesus e certamente alguém a acolheu no Egipto. O apelo do Papa já por si era uma ação. Mas, para o modo como Francisco vê a Igreja (recordam-se do hospital de campanha?), não bastava. Umas semanas depois, já havia duas famílias de refugiados acolhidas em instalações do próprio Vaticano.

     Nos tempos que correm valoriza-se o diferente, o provocatório, o que chama a atenção. Se assim é, haverá “cena” mais instigante e desafiadora do que um Deus fazer-se menino, criatura igual a nós, que nasce num qualquer barraco da vida e desafia a mudar de vida? Aylan na manjedoura é, por contraste, esse apelo a fazermo-nos próximos dos outros, dos que precisam dos nossos cuidados. E que “estejamos dispostos não só a dar, mas também a receber de outros”, a escutá-los. “Então aprenderemos a ver o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como se manifesta nas várias culturas e tradições”(*). A construir uma cultura de diálogo, de ternura, de paz e de justiça.

     (*) Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2014

sábado, 19 de dezembro de 2015

Visitas inesperadas, a revolução do Natal e os negócios sagrados

Crónicas

No comentário aos textos da liturgia católica deste domingo, Vítor Gonçalves escreve sobre Visitas inesperadas:

Jesus pode ser esperado por poucos. A sua visita tornou-se data de calendário e grande acontecimento comercial. Nas múltiplas realidades familiares Ele até poderá ser pouco lembrado, mas tenho a certeza que visitará os corações de todos. E estará em cada gesto de carinho e bondade, de verdade e de esperança. Não será Ele também a visitar quando formos visita inesperada e feliz para alguém? Não será tambem parte do seu desejo que nos tornemos mais visíveis e mais amáveis (simpáticos, sim, e também mais cheios de amor!) entre nós?
(texto na íntegra aqui)


Hoje, no DN, Anselmo Borges escreve sobre Natal: a revolução:

Custa-me a entender como é que os europeus parecem menosprezar a sua herança cristã, como indicam, por exemplo, a proibição de um anúncio, porque contém o Pai Nosso, ou a política de acabar com sinais cristãos da nossa cultura, como a presença de presépios em espaços públicos. Seja como for, é Karl Rahner, talvez o maior teólogo católico do século XX - tenho a honra de ter sido seu aluno -, que tem razão, quando escreveu: "Quando dizemos "é Natal" estamos a dizer: "Deus disse ao mundo a sua palavra última, a sua mais profunda e bela palavra numa Palavra feita carne". E esta Palavra significa: amo-vos, a ti, mundo, e a vós, seres humanos." Boas Festas!
(texto na íntegra aqui)


Ontem, no CM, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre Negócios sagrados:

Apesar do esforço da Igreja para expurgar a sua atividade de todo o mercantilismo, ele prevalece no seu interior. É normal as pessoas dizerem que vão pagar a missa, o batizado ou o casamento. (...)
Ainda que no contexto de alguns sacramentos se possa receber uma oferta, não se aceita qualquer quantia pela Confissão ou pela Unção dos Enfermos para sublinhar a gratuidade da salvação. Todavia, ainda muito há a fazer para expurgar a Igreja de algum “consumismo religioso”.
(texto na íntegra aqui)

Texto anterior no blogue
Violência no islão, alegrias e misericórdias - crónicas de Anselmo Borges, Faranaz Keshavjee, Bento Domingues, Vítor Gonçalves, Fernando Calado Rodrigues e Paulo Terroso 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Presépios: um arauto a gritar às trincheiras

No livro Neste Natal – Poemas e Presépios, escreve Lopes Morgado, sob o título Foi Então:

Foi então   que o Arauto
Assomou no horizonte
E gritou às trincheiras

“Desatai o calçado
Libertai-vos da roupa
que tingistes de sangue
Seja tudo atirado
à fogueira   e queimado
Vesti roupas lavadas
e dançai na campina
a canção do embalo (...)”

Não é a primeira vez que Lopes Morgado, frade capuchinho, dedica um livro de poemas ao tema do Natal. Fê-lo, por exemplo, em Agora que nasci (ed. Multinova) ou Roteiro de Natal (ed. Difusora Bíblica). Em Neste Natal, Morgado publica poemas e reproduz peças da colecção do Museu do Presépio que, sem querer, começou um dia a reunir, como conta nesta entrevista que deu a Manuel Vilas Boase que passou na TSF no dia de Natal, ou nesta outra reportagem da SIC, que passou nesta sexta-feira. São, actualmente, mais de 1300 peças diferentes, oriundas de todo o mundo, como ele contava num texto que publiquei no Público em Dezembro de 2005 e que pode ser lido aqui.
Na sua poesia, que cruza o quotidiano com referências bíblicas (sobretudo dos Evangelhos e dos livros proféticos, sapienciais ou do Êxodo, do Antigo Testamento), Morgado utiliza a denúncia de um certo abastardamento natalício (“Natal/ de neve/ artificial// Natal/ de nadas/ numa espiral// Natal datado/ de já tão natural/ desnaturado”), mas também proclama um Deus que se faz pessoa humana: “Um menino/ e é Deus feito homem// Nosso Deus/ é tão frágil como outros meninos”.
O livro inclui ainda textos sobre os relatos evangélicos do nascimento e infância de Jesus, bem como sobre a tradição do presépio, com uma preocupação pedagógica de esclarecer dúvidas e adquiridos.
Tema recorrente em tempo de Natal, o presépio é uma representação da ternura de Deus, como se escrevia num texto já reproduzido neste blogue. E é hoje também pretexto para outras criações, que podem ir do grão de café ao barro trabalhado. As peças são procuradas e tornam-se objecto mesmo de concorrência entre artistas, como se pode ver nesta reportagem de Joaquim Franco, na SIC. 
Do convencional ao mais criativo, há presépios para os mais variados gostos e sensibilidades. Nas Caldas da Rainha, descobre-se ainda Fernando Miguel que, na tradição de Bordalo Pinheiro, é um artesão que molda o presépio para fazer sátira, como se pode ver nesta outra reportagem.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Músicas que falam com Deus (33) - para o tempo de Natal#10 - Cantes ao Menino, a “mística do Sul” e uma “insuperável” Missa de Mozart

Semanas depois da declaração, pela UNESCO, do cante alentejano como património da humanidade, a TSF repôs o programa de Manuel Vilas Boas, Cantes ao Menino, que inclui uma entrevista com o padre José Alcobia. Na conversa, fala-se das origens do cante alentejano, com o padre Alcobia a defender que ele provém do canto gregoriano e dos conventos que existiam no Alentejo.
José Mendes Alcobia nasceu em Ferreira do Zêzere, a 28 de Novembro de 1914, fez há dias 100 anos. Estudou no Seminário dos Olivais onde foi organista e investigou o canto gregoriano. Foi pároco, no Alentejo, por mais de meio século, interessando-se pelo canto alentejano, acompanhado por Lopes Graça e Michel Giacometti. Fez vários milhares de horas de registos sonoros. Morreu em Beja, em Fevereiro de 2003, com 89 anos.
A entrevista ao padre José Alcobia foi feita por Manuel Vilas Boas, no ano 2000, no seminário de Beja e pode ser escutada aqui.

Outros cantos tradicionais de Natal foram interpretados dia 14 de Dezembro pelo Grupo Vocal Discantus, na Igreja Matriz de S. Domingos de Rana (Cascais). “Visitar as diversas tradições musicais portuguesas, desenvolvidas no contexto das festas da natividade cristã, é descobrir um Natal vincadamente diferente daquele que vemos representado na cena mediática. Nas tradições portuguesas, encontramos o que se poderia apelidar de ‘mística do sul’. Os imaginários e as narrativas centram-se na figura do Menino Jesus, na Sagrada Família, nos Pastores e nos chamados Reis Magos”, escreve Alfredo Teixeira, que dirige o Discantus.
Mais informações e diversos vídeos deste concerto podem ser vistos neste endereço.

Nesta noite de consoada, a RTP 2 transmite, a partir das 20h30, a missa de Natal a partir do Vaticano. Presidida pelo Papa, a celebração incluirá a peça Et Incarnatus Est, da Missa em Dó Menor, de Mozart. “Na música gosto muito de Mozart, obviamente. Aquele ‘Et incarnatus est’, da sua Missa em Dó Menor, é insuperável: leva-te a Deus! Mozart preenche-me: não posso pensá-lo, devo ouvi-lo”, disse o Papa numa entrevista, em 2013.
O trecho Et incarnatus est remete para o prólogo do Evangelho segundo S. João: “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós.” Composta entre 1781 e 1782, em Viena, a Missa em Dó Menor, que ficou incompleta, resultou de uma promessa pela cura da futura esposa, Constanze.
Mais informações sobre a Missa de Mozart e a celebração desta noite podem ser lidas aqui.
A seguir fica uma interpretação da peça que esta noite será interpretada. 





domingo, 21 de dezembro de 2014

Músicas que falam com Deus (32) - para o tempo de Natal#9 - Natal: Sonhar com a casa e com a paz

Os soldados escoceses desafiam o seu capelão a tocar “Sonho com a minha casa” na gaita de foles. Os alemães respondem com uma árvore de Natal e cantando Stille Nacht, Noite de Paz. A mais bela canção de Natal mostra aos soldados que improvisavam uma consoada nas trincheiras da I Guerra Mundial como a música pode ajudar-nos a recuperar o melhor de humanidade que cada um tem dentro de si. E mostra que, com o Natal, ganhamos a consciência de que a paz é o sonho maior.
Esse foi o primeiro passo para uma das mais belas histórias no meio da tragédia que foi a I Guerra Mundial: no Natal de 1914, soldados alemães, franceses, escoceses e ingleses interromperam a carnificina durante dois dias para cantar juntos, jogar futebol, trocar abraços, enterrar os mortos e descobrir que, nos rostos inimigos, moravam afinal rostos de pessoas dignas.
Reconstruindo esta história, o filme Feliz Natal, que pode ser visto a seguir na íntegra, mostra que a música pode ajudar a recuperar o melhor da humanidade. E que o melhor da humanidade se pode recuperar através de pequenos gestos.


Um século depois do episódio retratado neste filme, a 27 de Julho de 2014, o centenário do último dia de paz na Europa, antes da I Guerra Mundial, foi assinalado pelo toque do Silêncio em vários países envolvidos no conflito – entre os quais Portugal. A ideia foi do jornalista e escritor italiano Paolo Rumiz e foi assumida pela Estrutura de Missão para os Aniversários de Interesse Nacional.

Em Itália, o Silêncio foi tocado pelo trompetista Paolo Fresu. A peça foi ouvida também na Albânia, Austrália, Brasil, Bulgária, Costa Rica, Estados Unidos, França, Grécia, Hungria, Macedónia, Montenegro, Sérvia, Polónia, Portugal (Mosteiro da Batalha), Reino Unido, Roménia, Rússia. O vídeo do acontecimento pode ser visto a seguir.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Uma estética do Encontro

         Crónica

     Como o barro que se deixa moldar pelas mãos do artista, assim o artista (re)cria a linguagem de uma Procura num rebuliço interior que ganha uma estética. Uma estética com ética. O ritmo e a harmonia numa síntese entre a forma e o conteúdo.

      A intervenção humana na construção do «belo», de uma estética, burilou também a conceção de Deus, fazendo de Deus uma «obra» desenhada pelo próprio homem. Deus entende-se ou faz-se entender na sensibilidade, no tempo que é agora e que, pela estética da natureza, como «obra», ou da «obra» que resulta da natureza humana, é também um tempo indefinido no espaço incontrolável. Onde sopra o vento... a poesia e a arte podem ser a ignição do divino.

      Mas se é pelos sentidos que se constrói o «belo» e a fé pode ganhar força de atração, estará a estética de Deus condicionada pelas aparências do sensível? Nada há no intelecto que não passe antes pela escuta dos sentidos, pela “arte da escuta”, que, nas palavras do poeta Tolentino de Mendonça, é também “um exercício de resistência” (A mística do instante, 2014, Paulinas).  

sábado, 4 de janeiro de 2014

Melodias de Natal a encerrar as Noites de Luz em Belém


Agenda

O Menino Jesus numa Estória aos Quadradinhos, obra de Alfredo Teixeira que venceu recentemente o III Prémio Internacional de Composição Fernando Lopes Graçaserá uma das peças que podem ser escutadas este domingo à tarde pelo Coro Infanto-Juvenil da Universidade de Lisboa (CIUL) no Palácio de Belém, em Lisboa.
O concerto, a partir das 18h na Sala das Bicas, marca o último dia das Noites de Luz no Palácio de Belém, uma iniciativa do Museu da Presidência da República. O concerto incluirá ainda peças de Eurico Carrapatoso, Fernando Lopes Graça, Benjamin Britten e George Gershwin, além de melodias tradicionais de Natal.
O Menino Jesus numa Estória aos Quadradinhos tem por base o poema “Hino de Amor”, de João de Deus (1830-1896). “O poema de João de Deus transcreve o maravilhoso cristão numa cena bucólica do quotidiano do Deus Menino”, escreve o compositor, que coloca em diálogo as raízes populares do imaginário cultural e religioso português com a linguagem musical mais erudita.

“À frugalidade descritiva da infância de Jesus nos Evangelhos canónicos cristãos, respondeu o imaginário popular com a efabulação miniatural da história sagrada. João de Deus recolhe, neste poema, toda essa plasticidade”, acrescenta Alfredo Teixeira que diz ter lido o poema de João de Deus como se se  tratasse de uma banda desenhada, à qual associou “a memória fílmica das animações clássicas de Walt Disney”.