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sexta-feira, 30 de março de 2018

O “Seder” de Páscoa: fazer perguntas, a base da liberdade


O Seder de Pessah (a ceia da Páscoa judaica) começa com perguntas, porque as perguntas são a base da liberdade, diz o rabi Eliahu Birnbaum. Falando neste vídeo, em castelhano, sobre a refeição ritual que recorda a saída dos israelitas do regime de escravatura a que estavam sujeitos no Egipto dos Faraós, o rabi Birnbaum acrescenta: “Uma pessoa que é um escravo não pode fazer perguntas”. “Fazer uma pergunta significa expandir-se, expandir o seu pensamento”, de modo a mudar o mundo e mudar-se a si mesmo”, acrescenta.
O rabi Eliahu Birnbaum é responsável do movimento Shavei Israel, que procura aproximar comunidades que se afastaram do judaísmo por circunstâncias diversas (aquipode ler-se uma entrevista, em castelhano, sobre esse trabalho).
No Seder (que é celebrado hoje, sexta-feira, 30 de Março, ou dia 14 do mês de Nisan do ano de 5778 do calendário hebraico), não se trata de fazer apenas perguntas informativas acerca do que aconteceu há uns 3200 anos atrás, acrescenta ainda Birnbaum. Mas também perguntas “pessoais e existenciais”, de modo a que cada um sinta que saiu também do Egipto – e não apenas os seus antepassados –, de forma a criar “um vínculo entre a nossa geração e a geração que saiu do Egipto”.
(aqui pode ouvir-se, com a tradução para português e em versão animada, uma interpretação de Echad Mi Yodea, a canção tradicional que as crianças entoam, no início da refeição de Seder.)



segunda-feira, 26 de março de 2018

Músicas que falam com Deus (42): As Sete Últimas Palavras e outras músicas para uma Semana Maior

As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz, de
Joseph Haydn, é a obra que o Quarteto Lacerda e o actor Luís Miguel Cintra, como recitante, executarão nesta quarta-feira, 28 de Março, às 19h, no Convento dos Cardaes, em Lisboa. A obra de Haydn foi composta para as celebrações de Sexta-Feira Santa na Igreja de Santa Cueva, na cidade de Cádis (sul de Espanha), em 1787.
Na apresentação do programa, pode ler-se: “Quer na sua versão sinfónica quer
na sua versão para quarteto de cordas a obra surpreende pela extrema delicadeza com que vai acompanhando, nos diferentes andamentos, as palavras de Cristo referidas na Bíblia. Nesta interpretação, o Quarteto Lacerda faz anteceder a cada um dos andamentos, uma voz de narrador que profere as citações do texto dos diferentes evangelistas e reintegram a obra no seu contexto religioso e revelam em Haydn uma surpreendente clareza teológica. O concerto quase adquire o carácter de uma celebração.”
Para recriar esse carácter celebrativo (*), a obra será executada por Alexander Stewart (primeiro violino), Regina Aires (segundo violino), Paul Wakabayashi (viola) e 
Luís André Ferreira (violoncelo), além da recitação de Luís Miguel Cintra, no Convento dos CardaesConstruído entre os séculos XVII e XVIII, o convento 
é um complexo notável da arquitectura e decoração barroca e, como diz a apresentação do programa, “resistiu ao terramoto, à extinção das Ordens Religiosas em 1833 e, posteriormente, à expulsão pela República”. Hoje, é a casa onde habitam 38 pessoas deficientes e uma comunidade religiosa de cinco irmãs dominicanas. “A Igreja é um repositório das artes decorativas do período barroco português, notável pela talha, pela pintura, pelos mármores embutidos e por uma considerável colecção de azulejos holandeses assinados.”
Mas nem só desta obra de Haydn se faz a arte desta Semana Santa. A Paixão Segundo São Mateus, de Bach, pode ser vista e ouvida também em Lisboa (Fundação Gulbenkian), entre hoje e quarta-feira; o III Festival de Música Religiosa, de Guimarães, encerra dia 31 (sábado), com o Requiem, de João Domingos Bontempo; obras de Bach e Händel serão tocadas no dia 28, na Casa da Música, no Porto; e Quinta-Feira Santa, dia 29, o CCB acolhe a Sinfónica Portuguesa e o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, que executam o Stabat Mater, de Rossini.
Mais informações sobre estes programas podem ser lidas aqui (com a ressalva de que duas das sugestões ali referidas já decorreram no último fim-de-semana).

* Foi também com a ideia da recriação que Jordi Savall e o seu Le Concert des Nations gravaram Septem Verba Christi in Cruce, de Joseph Haydn, na mesma igreja para a qual ela foi composta. Desse trabalho resultou um DVD, publicado em 2009, com comentários do escritor José Saramago e do filósofo e teólogo Raimon Panikkar. Essa gravação é histórica, como escreve Richard Edwards no livro que acompanha o disco: pela primeira vez, uma interpretação da versão original da obra para orquestra foi filmada no mesmo lugar onde ocorreu a estreia d’As Sete Últimas Palavras, em Cádis. Mais ainda, a realização tentou recriar o ambiente que terá existido na primeira execução. A gravação acrescenta também, ao texto musical de Haydn, as reflexões de Pannikar e Saramago (é interessante ver o Nobel expressar aqui as suas dúvidas sobre Deus – quando coloca Jesus a perguntar, por exemplo, “Quem sou eu?”). O DVD inclui ainda imagens da Semana Santa andaluza, intercaladas com momentos da gravação. Se As Sete Últimas Palavras já é uma das obras mais intensas sobre a Paixão de Jesus, esta edição é verdadeiramente um tesouro. A introdução e os sete andamentos da peça, na execução de Le Concert des Nations dirigido por Savall, podem ser escutados aqui em versão de concerto (que não dispensa a audição do DVD).

Ilustração: Crucificação, de José de Ribera (1591-1652), imagem utilizada na capa do DVD de Jordi Savall, reproduzida daqui; o texto sobre o DVD é adaptado do artigo publicado na revista Além-Mar, de Dezembro de 2009

domingo, 27 de março de 2016

Esta é a noite que velamos

Esta é a noite em que velamos

a igreja estava às escuras quando entrei, vindo da rua iluminada, os olhos demoraram a adaptar-se às sombras que se adivinhavam, os andaimes postos a subirem ao céu que se pinta no teto bem no alto do templo, e assim ficaram templo e sombras a ganharem novos contornos mais definidos à medida que a noite se iluminava. Primeiro a palavra, as palavras, depois o cântico, por fim a luz que compôs rostos e corpos, andaimes e plásticos, numa metáfora que feiava a igreja mas embelezava a notícia da vitória da vida. Dos andaimes que precisamos de permanentemente manter na construção que é a nossa vida, esta vida - e Bruxelas e Paris e Aleppo e Abidjan e Ancara e o mar Mediterrâneo e o golfo de Aden e todos os mapas que preferíamos não escrever com as palavras da violência e da morte. A luz invadiu de vez o templo. Surrexit Dominus vere.


Esta é a noite... mais luminosa que o dia.

(texto e sugestão de canto reproduzidos daqui)

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Farricocos, espiritualidade, tradição e património


sábado, 26 de março de 2016

Farricocos, espiritualidade, tradição e património


Foto Gonçalo Delgado/Global Imagens, reproduzida daqui

Um misto de cultura, tradição, religiosidade popular, espiritualidade e gastronomia é o que traduzem as cerimónias da Semana Santa de Braga, que decorrem até este Domingo de Páscoa.
Os rituais provêm das peregrinações que, a partir do século IV, os cristãos faziam a Jerusalém. Mas será só a partir do século XVI, com a criação das irmandades da Misericórdia e de Santa Cruz, que se organizam as procissões da Semana Santa.
Entre “farricocos”, penitentes, matracas, turistas e peregrinos, as cerimónias incluem as procissões dos Passos, da Senhora da Burrinha, do Ecce Homo e do Enterro do Senhor. Uma tradição que a comissão das solenidades prepara para candidatar a Património Imaterial da Humanidade.
Manuel Vilas Boas fez, na TSF, uma reportagem sobre a Semana Santa de Braga, que pode ser ouvida aqui.


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Lavar os pés, comer juntos e despertar um fogo - os símbolos das liturgias de Páscoa

sexta-feira, 25 de março de 2016

Lavar os pés, comer juntos e despertar um fogo


Ilustração: Bernadette Lopez, Berna, 
O lava-pés (5), reproduzida daqui

O Papa Francisco disse, quinta-feira à tarde, que o tráfico de armas é uma das razões dos atentados terroristas. Foi na celebração da Última Ceia de Jesus, durante a qual cumpriu o rito do lava-pés, um dos símbolos da Páscoa. Este texto fala desse símbolo, da refeição, da cruz e do fogo. Foi publicado na edição de hoje do Diário de Notícias:

O Papa Francisco celebrou ontem a liturgia do lava-pés, com um grupo de refugiados de vários países e religiões, incluindo muçulmanos e hindus. “Todos irmãos, filhos do mesmo Deus, que queremos viver em paz”, disse o Papa.
No final da cerimónia, no centro de acolhimento de Castelnuovo di Porto, 30 quilómetros a norte de Roma, vários cristãos coptas começaram a cantar. “É belo viver juntos, como irmãos, com culturas, religiões e tradições diferentes. Mas somos todos irmãos e isto tem um nome: paz e amor. Obrigado”, disse Francisco, antes de passar por todas as filas a saudar os refugiados, um por um, os quase 900 refugiados (incluindo 554 muçulmanos), de 26 nacionalidades.
Na homilia, o Papa referiu os atentados de Bruxelas: por trás do terroristas, estão também “os que fabricam e traficam armas”, que “querem a guerra”, disse. “Pobres daqueles que compram armas para destruir a fraternidade.”
Francisco ajoelhou depois perante oito homens e quatro mulheres: uma funcionária do centro, quatro nigerianos católicos, três ortodoxas da Eritreia, um hindu e três muçulmanos da Síria, Paquistão e Mali, regista a agência Ecclesia.
“Os gestos falam mais do que as imagens e do que as palavras”, disse, referindo depois o significado do lava-pés, um dos símbolos mais importantes das liturgias dos quatro dias de Páscoa: “Todos nós estaremos a fazer o gesto da fraternidade e dizemos todos que somos diferentes, distintos, com culturas e religiões diferentes, mas somos irmãos e queremos viver em paz.”

terça-feira, 7 de abril de 2015

7 de Abril do ano 30: Sete verdades sobre o homem que abalou o mundo

Sabemos que Jesus existiu, era um judeu na forma de viver e de rezar, não nasceu a 25 de Dezembro, era visto como profeta, foi condenado à morte pelo procurador romano e morreu, com forte probabilidade, a 7 de Abril do ano 30. Segundo os seus seguidores, ressuscitou dois dias depois – no Domingo de Páscoa, que hoje os cristãos assinalam. Começou aí um mistério e um fascínio que perdura.  

Ninguém sabe exactamente o que sucedeu na madrugada daquele 9 de Abril do ano 30. “O que se pode dizer é que se passou alguma coisa naqueles dias, um acontecimento que, abalando aqueles homens e mulheres, abalou o mundo.”
A frase é do jornalista francês Jacques Duquesne que, há década e meia, agitou o cristianismo europeu com um livro polémico sobre Jesus. No dia 7 de Abril – tudo aponta para essa data –, Jesus, chamado Cristo (Messias) pelos seus companheiros, tinha sido morto pelo suplício da cruz. Sepultado na mesma tarde, alguns dos seus amigos – mulheres, primeiro, os líderes do grupo, depois – dirigiram-se depois ao sepulcro, na madrugada do primeiro dia da semana. Voltaram, dizendo que Jesus ressuscitara. Nesse instante, começa um fascínio que atravessa os séculos.

1. Uma personagem histórica


Hipótese de reconstituição do rosto de Jesus 
feita pela BBC em 2001

A busca do mistério permanece após quase 2000 anos. Mas, durante dezoito séculos, ninguém se preocupou sequer em averiguar se Jesus teria realmente existido, escreve Frédéric Lenoir. “Não se punha o problema da crítica literária e histórica”, diz o padre e biblista Joaquim Carreira das Neves.
O panorama muda a partir do século XVIII. O Iluminismo e o progresso científico começam a ser também aplicados à investigação bíblica. Graças a este processo, sabemos hoje muito mais sobre Jesus do que há 200 anos – mesmo mais do que há duas décadas. Crítica literária, descobertas arqueológicas, antropologia cultural, economia das sociedades mediterrânicas são temas e métodos dissecados por investigadores e teólogos.
David Friedrich Strauss, Hermann Samuel Reimarus, Ernest Renan, Joseph Lagrange são nomes incontornáveis na “primeira investigação”. O protestante Rudolf Bultmann é o inspirador da “nova” (ou segunda) investigação acerca do Jesus histórico. Em alguns casos – Bultmann é o extremo – vai-se ao ponto de defender que o Jesus da história nunca poderá ser conhecido, pois os relatos dos evangelhos são reflexo do Cristo da fé das primeiras comunidades cristãs e já não da personagem histórica.
Só desde há duas décadas a terceira vaga de investigação começou a trazer ao de cima aspectos até aqui ignorados acerca de Jesus. E o primeiro deles foi reconhecer que ele era, afinal, um judeu do seu tempo. Outra diferença importante em relação às duas primeiras fases de investigação: considera-se que o Jesus da fé é a continuação natural do Jesus da história.

Páscoa, sistema financeiro e cristãos do Médio Oriente

O tempo de Páscoa dominou as crónicas de fim-de-semana, a partir de diferentes perspectivas. No DN de sábado, Anselmo Borges escrevia, sob o título É em Sábado que vivemos:

Aparentemente, no horror daquela Sexta-Feira Santa, foi o fim. Mas, lentamente, reflectindo sobre a experiência que Jesus fez de Deus, sobre o modo como viveu, como agiu, como morreu, os discípulos fizeram a experiência avassaladora de que o Deus-amor, a quem Jesus se dirigia como Abbá, Pai-Mãe querido, não o abandonou nem sequer na morte. Jesus não morreu para o nada, mas para Deus. Na morte, não encontrou o nada, mas a plenitude da vida de Deus.
(texto integral aqui)


Vítor Gonçalves, com A corrida pascal, comentava deste modo os textos da liturgia católica de domingo de Páscoa:

A Páscoa de Jesus desinstala-nos e “despantufa-nos” das rotinas e da preguiça. E também desfaz o medo, esse um autêntico “colesterol mau”, a entupir as artérias e veias por onde quer correr o sangue da vida abundante de Deus. Sem a Páscoa tornamo-nos obesos, cheios de mil e uma justificações para ficar no quentinho de uma “vidinha” religiosa, bem medida e suficiente, de livro de “Deve e Haver” que havemos de apresentar a Deus com saldo a nosso favor. Mas a “Igreja em saída”, de que tanto fala o Papa Francisco, pode comparar-se a esse dinamismo que convida à simplicidade de calçar uns ténis e vestir uns calções e percorrer os caminhos habituais ou desconhecidos com uma presença mais fraterna e disponível para o encontro com outros
(texto integral aqui)


No Público de domingo, frei Bento Domingues escrevia sobre a Páscoa de muitas páscoas, terminando a evocar Pedro Meca, já aqui referido aquando da sua morte:

Entrou, aos 21 anos, em França, para a Ordem dos Pregadores. Viveu a partilha das múltiplas dimensões do Evangelho na cidade que o seu confrade e amigo (P. Blanquart) investigava e da qual, ele Pedro Meca, vivia a rua e a noite, a companhia dos “contrabandistas da esperança”, os marginalizados, com os quais morria e ressuscitava todos os dias. Para mim, dizia o Pedro, a rua não é um lugar de passagem, mas um lugar de vida que amo e que, desde sempre, me é familiar. Na rua, as noites escuras são mais escuras do que as dos místicos e quantas não são precisas para “uma só manhã” (H. Michaux)! Não se passa uma noite de Páscoa, confessa Pedro Meca, sem que eu não esteja num café ou na rua e, de repente, exclame: é a Páscoa!
(texto integral aqui)

  
Sexta-feira, no CM, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre a Crítica ao sistema económico:


O Secretário de Estado do Vaticano e o Presidente do Senado Italiano uniram as suas vozes na crítica ao sistema económico vigente, que promove a exploração dos mais fracos e a promiscuidade ente a finança e o poder, durante a apresentação de um volume da revista italiana “Limes”, dedicada ao tema “Moeda e império” , na passada terça-feira em Roma.
O cardeal Parolin denunciou que “os grandes capitais tendem a financiar os poderes estabelecidos e as atividades mais rentáveis”, enquanto o povo se vê arredado do acesso ao crédito.
(texto integral aqui)


Na crónica Os dias da semana,  que mantém aos domingos no Diário do Minho, Eduardo Jorge Madureira escreveu, sob o título Eu sou um cristão do Oriente:

O mundo tem-se mostrado impassível perante o extermínio dos cristãos do Oriente. Um certo sentido das proporções ditaria que o vasto desinteresse pelo destino destas vítimas dos islamistas não contrastasse tanto com a compaixão e indignação que amplamente provocam, por exemplo, as notícias de maus-tratos de animais domésticos. Em Portugal, em favor dos cristãos do Oriente, quase só se escuta a voz da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, que tem evocado a via-sacra que eles têm sido forçados a percorrer. Em França, controvérsias de interesse secundário opõem pessoas respeitáveis que não se entendem sobre o termo certo para classificar o que se está a passar. Genocídio, garantem uns. Erradicação, contrapõem outros, como se fosse preciso poupar palavras perante uma realidade que se tem imposto com tanta e tão continuada brutalidade.

domingo, 5 de abril de 2015

Ressurreição: quando o amor de Deus é um fogo

Domingo de Páscoa, celebrar a luz nova


Teófanes o Grego, Transfiguração do Senhor 
(início do século XV; ilustração reproduzida daqui)


A experiência do ressuscitado é, para os primeiros seguidores de Jesus, semelhante a um fogo misterioso e intenso. Dois deles, que iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, são disso testemunhas. Pelo caminho, o próprio Cristo ressuscitado junta-se a eles, sem ser reconhecido, e explica-lhes os textos bíblicos que a ele mesmo se referiam.
Os dois discípulos só o reconhecem quando Jesus se senta à mesa com eles. Ao regressarem a Jerusalém, para dizer aos companheiros que tinham visto o ressuscitado, comentavam: “Não nos ardia o coração, quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as escrituras?”
Esse fogo já antes o tinham experimentado outros três discípulos – Pedro, Tiago e João – quando Jesus se transfigura perante eles, mudando-se o rosto e resplandecendo as vestes. Sem entenderem plenamente o que acontece, os três intuem que o acontecimento prenuncia algo mais forte – que viria a ser a ressurreição.
Não se sabe o que terá sido a experiência da transfiguração – como a representada no ícone aqui reproduzido – nem, muito menos, a da ressurreição. Sabe-se, apenas, que elas mudaram a vida de um punhado de mulheres e homens. Dentro deles, descobriram de repente, por causa de um homem que se afirmava filho de Deus, potencialidades ignoradas.
“Quando a noite se torna espessa” – escreve o irmão Roger, da comunidade monástica de Taizé – o amor de Deus “é um fogo que vem atear o que sob as cinzas permanecia todavia incandescente”.
A experiência do fogo dá lugar a um dos símbolos mais importantes da liturgia católica. Na noite que passou, a Vigília Pascal começou com a bênção do lume novo. A oração do Precónio Pascal fala dessa noite diferente, que contém em si a força da luz na história bíblica: o inicial “Faça-se luz” rompe as trevas dominadoras; o pecado dissipa-se pela coluna de fogo que conduz os israelitas através do deserto, fugindo à escravatura egípcia; a ressurreição, acontecimento fundador do cristianismo e vitória sobre a morte, dissipa “as trevas de todo o mundo”; a terra rejubila “inundada por tão grande claridade”.
Esta foi a noite de prenúncio de uma aurora nova. “Esta noite santa afugenta os crimes, lava as culpas; restitui a inocência aos pecadores, dá alegria aos tristes; derruba os poderosos, dissipa os ódios, estabelece a concórdia e a paz.”

Hoje, Domingo de Páscoa, é essa luz nova que os cristãos celebram.

(Texto publicado no Público a 27 de Março de 2005)

sábado, 4 de abril de 2015

A água que brota do grande silêncio

Sábado Santo e a água como símbolo de fecundidade plena


Fédor Zubov, O Profeta Elias no Deserto 
(1672), Museu de Arte de Jaroslavl


Hoje, Sábado Santo, as liturgias cristãs – de modo especial a católica – assinalam o dia do grande silêncio. Os crentes contemplam o Cristo sepultado, mas experimentam, na aparência de uma derrota, a confiança na ressurreição. Como quem sabe que, mesmo no meio do deserto, há água que brota.
O profeta Elias – representado no ícone O Profeta Elias no Deserto, de Fédor Zubov – foi um dos que, na história bíblica, entendeu essa realidade. A seca atormentava o povo de Israel. Elias é então convocado por Deus, que queria “mandar chuva sobre a terra”, para manifestar que só ele era o verdadeiro Deus. E, depois de um despique com os sacerdotes de Baal, a chuva sobrevém e o povo volta-se de novo para o seu Deus. Antes, já o mesmo Elias recriara alimento na casa de uma pobre viúva que sofria asperamente os efeitos da seca e não tinha pão nem farinha.
Em ambas as histórias, Elias é aquele que acredita contra toda a lógica. A água virá, a fome acabará, mesmo se o deserto é que nos envolve – tal é o sentido da acção do profeta, narrada no livro bíblico de Reis.
A água é, na Bíblia, esse sinal da fecundidade plena. No início, conta o livro dos Génesis, já o Espírito de Deus pairava sobre as águas. No dilúvio de Noé, a água é o sinal da destruição mas também da purificação. Para fugir da escravatura no Egipto, os hebreus atravessam a pé enxuto o Mar Vermelho. Para os egípcios que tentarão perseguir os antigos escravos, a água será o seu cemitério, tornando-se sinal de liberdade plena.
Esta noite, na Vigília Pascal – a mais importante celebração do calendário litúrgico católico – os crentes recordam a água que fecunda a terra, que dá “frescura e pureza aos nossos corpos”. É dessa ideia que nasce o rito do baptismo. Na Vigília Pascal, celebra-se muitas vezes o baptismo de alguns e todos os crentes são aspergidos, recordando o dia em que cada um foi introduzido, pela água, na comunidade dos crentes. Como o viajante que passa por uma fonte: pára, refresca-se, descansa e retoma forças para o caminho. Como quem acredita que, entre os sinais da desesperança, é possível perscrutar o que os olhos não vêem.

(texto publicado no Público a 26 de Março de 2005)