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sábado, 4 de maio de 2013

Carta ao evangelista da misericórdia


Crónica - À procura da Palavra


"O Espírito Santo e nós decidimos não vos impor mais nenhuma obrigação."
(Actos dos Apóstolos 15, 28 - Domingo VI da Páscoa, ano C)

Caríssimo Lucas
Saúdo-te como saudaste Teófilo, o destinatário do Evangelho e dos Actos que escreveste. Seria um verdadeiro “amigo de Deus”, de carne e osso, e teu amigo também, ou pensavas já em nós que, ao longo dos tempos, iríamos saborear a obra que nos deixaste? E que muitos, como eu próprio, iríamos começar a conhecer Jesus pela leitura do teu evangelho?  O certo é que o teu olhar sobre Jesus Salvador, com a particular predilecção pelos mais pequeninos, a sensibilidade aos pormenores, a insistência na misericórdia de Deus que Jesus oferece, o lugar das mulheres e dos estrangeiros, as narrações tão vivas da infância de Jesus e o lugar materno de Maria são alguns aspectos que te caracterizam. E que alegria escrever-te neste Dia que dedicamos às mães!
Santo Ireneu e outros Padres da Igreja afirmam que eras médico (a atenção com que narras como Jesus suou sangue na agonia, parece revelá-lo). São Paulo apresenta-te como um companheiro da sua missão e fala de ti em três cartas. Apetece tanto perguntar-te: Escutaste os relatos da infância de Jesus pela voz de Maria, sua mãe? Como foste sensível às parábolas que só tu contas: o bom samaritano, o filho pródigo, o fariseu e o publicano? E como dizer-te o encanto de ouvir o relato dos discípulos de Emaús? Talvez as tuas raízes interiores de cuidar e curar as pessoas tenham marcado a sensibilidade aos gestos de cura e salvação que Jesus realizou e às palavras de libertação e de misericórdia que enchiam de alegria os mais sofredores e abandonados. Essa presença da misericórdia de Deus em Jesus e o seu desejo que os discípulos a aprendessem e transmitissem é uma constante quando lemos o teu evangelho. Uma misericórdia que é universal, que se dirige a todos (por isso deves ter gostado tanto de andar com São Paulo a levar Jesus para lá das fronteiras do Judaísmo), e que transforma a vida daqueles que acolhem Jesus.      
Queria agradecer-te também por nos teres escrito os Actos dos Apóstolos. E por não lhe teres posto um final pois, como certamente já acreditavas, este é o livro que os cristãos continuamos a escrever. Um livro de páginas luminosas e outras bem esborratadas, mas um livro que continua a ser obra nossa e do Espírito Santo, em que aprendemos tanto sempre que o escutamos, mas também o enriquecemos com os mil e um modos de reconhecer e testemunhar Jesus vivo no mundo. A Igreja como obra em construção compromete-nos a viver mais profundamente a nossa fé e a darmo-nos em caridade. Não há falta de trabalho nesta empresa e todos são importantes e únicos. Neste domingo em que escutamos as sábias decisões daquele encontro em Jerusalém, a que convencionámos chamar primeiro Concílio, percebemos a pedagogia do Espírito Santo que nos convida à escuta mútua e a abrirmo-nos aos seus apelos. Quantas vezes deixamos de O ouvir, simplesmente porque não dialogamos bem, nem procuramos em conjunto!     
A tradição fez de ti o patrono dos médicos e dos artistas (talvez por ser-te atribuída a pintura de um ícone de Nossa Senhora com o Menino) e és representado com um livro na mão e um boi aos pés, que alguns interpretam como símbolo da fidelidade e do sacerdócio de Jesus, bem como do teu desejo de fidelidade na narração dos acontecimentos evangélicos. E pouco sabemos do final da tua vida. Mas o tesouro dos escritos que nos deixaste aproxima-nos todos os dias de Jesus e do seu projecto de amor. E reanima o desejo de sermos misericordiosos como Ele e como o Pai!
Obrigado São Lucas!

(texto publicado no jornal Voz da Verdade, de 05.05.2013; ilustração: ícone de São Lucas)        

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Carta a Simão Pedro


Crónica – À procura da Palavra
(P. Vítor Gonçalves)

" Simão, filho de João, tu amas-Me?"
(Evangelho de João 21, 17 - Domingo III da Páscoa)


Caríssimo Simão Pedro
Perdoa-me esta franqueza de me dirigir a ti, o príncipe dos Apóstolos, como se fôssemos amigos de longa data. Mas eu, pelo menos, sinto-me assim, porque desde o meu grupo de jovens, em que Jesus e os seus amigos se tornaram vivos e presentes, tu sempre me encantaste. E quando te vejo nas imagens das nossas igrejas gosto de te imaginar com um olhar mais vivo e um entusiasmo mais apaixonado.
Vim para o pé do mar, aqui em Carcavelos, que é bem mais agitado do que o teu querido Mar da Galileia. Onde primeiro Jesus te cativou e depois te confirmou. Percebeste que Jesus sabia mais de pesca do que tu, e daquela pesca que se chama salvação, libertação do mal para que os homens sejam felizes. Também tu foste pescado e as tuas respostas de amor curaram os “nãos” das trevas da paixão. Ah!, se aprendêssemos contigo a dar mais importância ao amor do que às faltas, e a acreditar que o amor salva enquanto a condenação mata!
Somos tão parecidos contigo. Convencidos das próprias forças e ousados nas certezas, mas depois, frágeis e incoerentes na hora da verdade. Gosto da primeira resposta que deste a Jesus: “andámos a pescar toda a noite e não apanhámos nada, mas porque o dizes lançarei as redes!”. É preciso humildade para saber tanto de pesca e ainda assim abrir a mente e o coração a um conhecimento maior. Diante da abundância de peixes revelaste essa humildade: “afasta-te de mim, Senhor, que sou pecador.” Começavas a descobrir que o amor de Deus é infinitamente maior que os nossos pecados. E como é triste quem ainda julga e propaga o contrário.
Às vezes sinto inveja de teres estado tão perto de Jesus. A recebê-l'O em tua casa, a subir ao Tabor, a responder a muitas das suas perguntas, a ir ao seu encontro caminhando sobre as águas, a viver as suas alegrias e as suas dores. Essa foi e será sempre a melhor escola para ser cristão: andar com Jesus. E porque Jesus nunca anda sozinho, andar com os outros! Imagino que não terão sido fáceis os primeiros tempos da igreja a crescer. Quantas vezes terás sentido que era uma obra grande demais para um pescador da Galileia? E como gerir as tensões e as diferenças dentro das comunidades? Foi grande a tentação de ficar seguros no ritualismo judaico, não foi? E como integrar aquela universalidade que Paulo de Tarso difundia e fazia tantos abraçar Jesus como Salvador? Fidelidade à tradição mas, sobretudo, coragem para acolher a novidade do Espírito Santo devem ter enchido a tua vida! E deste-a também por Jesus, como Ele te tinha dito junto ao lago.
Todos temos muito a aprender contigo. Mas nestes primeiros dias do Papa Francisco, quero muito pedir-te que o acompanhes e inspires. Que ele possa ser autêntico e corajoso a propôr-nos a vida com Cristo. Que ele encontre as melhores ajudas no serviço curial que tens visto crescer na tua Roma (alguma vez imaginaste Sagradas Congregações ou Tribunais Eclesiásticos?). Que possa promover a escuta mútua e o diálogo, a corresponsabilidade, a alegria de servir, o gosto de perdoar, a coragem de amar. Que não se sinta sozinho nem deixe que o enredem em tradições "douradas" mas nada evangélicas. Ajuda-o a não "romanizar" a Igreja, que vive e cresce em tantos lugares onde o Espírito Santo continua a levar Jesus ao coração de todos, pois a unidade é a comunhão nas diferenças. Sei que posso contar contigo.
Querido Simão Pedro, dá um grande abraço a Jesus, e a todos do céu que conheço e tanto amo. Obrigado pelo teu tempo!
              
(texto publicado na edição de 14 de Abril do jornal Voz da Verdade; ilustração reproduzida daqui     

quarta-feira, 3 de abril de 2013

À procura da Palavra - Carta a Maria Madalena


 (Crónica do P. Vítor Gonçalves, de comentário aos textos da liturgia católica)

"Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro."
(Evangelho Segundo S. João 20, 1 - Domingo de Páscoa)

Não sei bem como tratar-te: irmã, amiga, mulher. Respeitosamente devia tratar-te por santa mas algumas imagens que fizémos de ti representam-te tão "Madalena arrependida", ou de olhos postos no alto que, à maneira de tantos outros santos, quase não pareces ter andado neste mundo. E se foste uma "mulher do mundo" ou "libertada de sete espíritos", o que sabemos é que o encontro com Jesus te transformou.
Algumas vezes foste identificada com a mulher adúltera, com uma prostituta, com Maria irmã de Marta e de Lázaro, e com tantas Marias do Evangelho. Talvez em ti houvesse um bocadinho de todas elas e de outras que foram discípulas de Jesus. Não fizeste parte dos Doze, mas bebeste as mesmas palavras recriadoras e acompanhaste os gestos luminosos que Jesus ia oferecendo. Estavas também na Ceia? A que distância fizeste o caminho doloroso para o Calvário? Como amparaste a mãe de Jesus e ficaste junto à cruz? Que turbilhão de sentimentos, de sonhos desfeitos, de trevas lhe encheram a alma? Era preciso tanto sofrimento?
Em muitas pinturas ainda levas o vaso de perfume para ungir o corpo de Jesus. Apressaste a aurora e nem a escuridão te meteu medo para ires ao sepulcro. Precisavas tocar o corpo sem vida daquele que fazia reviver tudo, para acreditar que era verdade e não fora um sonho mau. Quando viste a pedra retirada do sepulcro pensaste que alguém tinha roubado o corpo de Jesus. E correste contar a Pedro e a João. Ficaste ainda mais perdida e mais só? Quantas vezes nos sentimos também assim!
Quando a rotina e a dureza do coração nos acomodam, e já não procuramos reavivar o amor. Ficaste por ali, certamente, depois de eles partirem. Choravas quando alguém te falou. "O jardineiro", pensaste que tinha sido ele a levar Jesus? E só quanto Jesus disse o teu nome O reconheceste! Porque é um encontro pessoal e único que Ele quer fazer com cada um. Um encontro e não uma doutrinação, uma lição de teologia E só aí a alegria verdadeira nos enche. A mesma alegria que te fará correr de novo para os discípulos a dizer-lhes o que Jesus te pediu. Reparaste? Pela primeira vez Jesus chamou-lhes, e a nós, "irmãos". Que palavra espantosa! E que responsabilidade! Como seria diferente o poder se fosse habitado por mais fraternidade!
Mais nada sabemos de ti pelos evangelhos. E muitas teorias se fizeram sobre o teu amor a Jesus. Mas eu vejo-te em tantas mulheres que são como tu, anunciadoras de Jesus vivo, pelos muitos gestos de coragem, de ousadia, de procura, de persistência, de justiça, de amor sincero que transformam as trevas em luz.
Obrigado, santa e irmã, Maria Madalena, por me ensinares a amar Jesus!
(in Voz da Verdade 31 de Março de 2013; ilustração: Ilda David’, Encontro de Jesus com Maria Madalena, in Bíblia Ilustrada, vol. VII, ed. Assírio & Alvim/Círculo de Leitores)

domingo, 10 de março de 2013

À procura da Palavra - É difícil ser irmão


Crónica

Este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado.”
(Evangelho de S. Lucas, 15, 32 - IV Domingo da Quaresma)



Sendo Jesus o rosto do Pai e falando-nos tantas vezes do amor do Pai (e esta parábola, que São Lucas nos oferece em exclusivo, tem uma força espantosa para quem se dispõe a escutá-la!) Ele apresenta-se-nos fundamentalmente como irmão. E se nos faz participantes da sua filiação com a Páscoa, é verdade que nos dá uns aos outros como irmãos e até o mandamento do amor apresenta o seu amor por nós como termo de comparação. Creio que essa é ainda a aprendizagem mais difícil que nos é proposta fazermos: é bom saber que o Pai nos ama, mas são uma “chatice” estes irmãos que Ele pôs à nossa volta para amarmos!
No fundo a sociedade revê-se mais na figura do “pai”, seja ele um chefe, um rei, um presidente, um ditador ou um patrão, uma “troika” ou até um papa, do que se empenha na construção de relações fraternas. Um “pai” pode ou não fazer as vontades dos filhos, pode ou não distribuir recompensas ou atribuir castigos, podemos alimentar a pedinchice e a adulação. Dá jeito lembrá-lo nas dificuldades e tanto faz esquecê-lo quando tudo corre bem. Mas com os irmãos as relações são diferentes: estamos ao mesmo nível, somos diferentes e complementares, precisamos uns dos outros para crescer, não adiantam jogos de fingimento nem rasteiras baixas. Ficamos todos a perder. Sem uma lógica de fraternidade a exploração e espezinhamento do outro, a desreponsabilização pela promoção da justiça e do maior bem para todos, o luxo indiferente à miséria, a corresponsabilização pelo que diz respeito a todos continuarão a triunfar. Ainda que saibamos que temos um Pai e até nos sentemos nos mesmos bancos de igreja. Dá tão pouco jeito dar a paz a certas pessoas que se sentam ao pé de nós!  
O Pai da parábola de hoje mexe profundamente connosco. Está sempre em movimento pelos filhos. Integra o seu passado e faz tudo para os salvar. Mas percebemos que a festa só é completa se os irmãos se encontrarem e derem o abraço que esperamos. No fundo trazemos dentro de nós os dois irmãos: o valdevinos capaz de se converter, e o cumpridor chamado a saborear a graça que tem vivido como fardo. O Pai torna-se agora naquele que pede: pede que os seus filhos sejam irmãos. Que os bens não atrapalhem, que o perdão possa correr, que a passagem da morte à vida seja a maior festa. Jesus veio dizer-nos isto mesmo há dois mil anos. Que o Pai pede que nos amemos. E há dois mil anos que desbaratamos a herança ou a aferrolhamos como posse exclusiva, que excluímos quem falha ou queremos uma festa só nossa. Grande trabalho tem o Pai! Porque será tão difícil sermos irmãos?

(Crónica de Vítor Gonçalves no jornal Voz da Verdade deste domingo; ilustração: O Regresso do Filho Pródigo, de Rembrandt)