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domingo, 15 de abril de 2018

“Deus é um problema também para os crentes”


José Tolentino Mendonça. 
Foto © Nuno Ferreira Santos/Público

Hoje, regresso por um dia às páginas do Público, com uma entrevista ao padre José Tolentino Mendonça, autor de Elogio da Sede (ed. Quetzal), posto à venda sexta-feira passada. A entrevista tem fotos únicas do Nuno Ferreira Santos que, só por si, já justificam que se abra o jornal ou o computador.

Vivemos numa sociedade de satisfação permanente, diz Tolentino Mendonça. Por isso, precisamos de reaprender a ter sede. O novo livro que reúne os textos das meditações feitas perante o Papa e a Cúria Romana foi anteontem posto à venda. A propósito dele, o autor de A Noite Abre os Meus Olhos diz que a espiritualidade não se pode “confundir com um conjunto de abstracções”. Crer não é “ter as soluções”, mas é “habitar o caminho, habitar a tensão, viver dentro da procura”. Por isso, Deus é um problema também para os crentes. Um Deus que, na configuração cristã, é sobretudo um Deus frágil.

O Elogio da Sede foi o tema que o padre José Tolentino Mendonça propôs ao Papa Francisco, quando este o convidou a orientar os exercícios espirituais da Quaresma para os responsáveis da Cúria Romana – a primeira vez de um padre português. Com o mesmo título, foi anteontem posto à venda o livro (ed. Quetzal) que reúne os textos das meditações que o também poeta e exegeta bíblico propôs ao Papa e aos seus mais directos colaboradores.
No tempo litúrgico que antecede e prepara a Páscoa, os cristãos são chamados a repensar a sua vida à luz da fé que professam. Esse desafio pode assumir a forma de um encontro de reflexão ou meditação, muitas vezes chamado de “exercícios espirituais”, adoptando a expressão cunhada por Inácio de Loiola, fundador dos jesuítas. “Um exercício espiritual é, sobretudo, um momento de encontro, uma viagem ao interior de si, uma abertura ao que pode ser a voz de Deus, um balanço da própria vida”, explicaria Tolentino Mendonça, nesta entrevista.
Foi isso que, durante cinco dias, entre 18 e 23 de Fevereiro, aconteceu em Ariccia, perto de Roma: duas meditações diárias, e o resto do tempo em silêncio, para cada pessoa se confrontar com a reflexão proposta. “O silêncio com que vivemos este retiro podia interpretar-se como uma sede”, acrescentava o padre português.
No livro A Nuvem do Não-Saberde final do século XIV – que muitos historiadores da matéria consideram “um dos mais belos textos místicos de todos os tempos”, como recordava José Mattoso na edição portuguesa (ed. Assírio & Alvim) –, o autor anónimo escreve: “[À] pergunta: ‘Que buscas? Que desejas?’, responde que era a Deus que desejavas ter: ‘É só a Ele que eu cobiço, é só a Ele que busco e nada mais senão Ele’. E se te perguntar quem é esse Deus, responde que é o Deus que te criou e redimiu, e por sua graça te chamou ao seu amor. Insiste que acerca d’Ele tu nada sabes.”
Foi sobre essa busca e sobre tactear na procura de Deus que, nas suas dez meditações, Tolentino Mendonça se debruçou, mesclando a investigação dos textos bíblicos com as inspirações literárias e artísticas que marcam também a sua obra poética e ensaística. E é essa intersecção permanente que transparece no seu livro. Que tem um único risco: o de se tornar, também ele, uma das grandes obras da mística. A par de obras como A Imitação de Cristo ou o já citado A Nuvem do Não-Saber. Ou a par de nomes como Hildegarda de Bingen, Juliana de Norwich, São João da Cruz, Teresa d’Ávila, Etty Hillesum, Dietrich Bonhoeffer, o irmão Roger de Taizé...
(o texto integral da entrevista pode ser lido aqui)


domingo, 8 de abril de 2018

Jovens, vencidos do catolicismo, mistérios e perplexidades da Páscoa

Crónicas


Ilustração: Cesse d'être incrédule (“Não sejas incrédulo”), de Bernadette Lopéz (Berna), reproduzida daqui 

No Público deste Domingo, frei Bento Domingues escreve acerca da reunião pré-sinodal de jovens no Vaticano, que já aqui foi referida.
Sob o título Evangelho segundo o Papa Francisco, diz:

Um dos fenómenos mais característicos do catolicismo do século XX foram os movimentos da Acção Católica. Paulo Fontes estudou o seu papel na criação de verdadeiras elites, em Portugal[1]. Para a hierarquia eram o seu braço estendido. Chegavam onde ela não conseguia entrar. Os jovens eram desejados, encorajados, mas a sua criatividade estava limitada pelo mandato que os dirigentes recebiam dos bispos. Eram um laicado super controlado. Daí, os mil conflitos que os assistentes eclesiásticos, correias de transmissão, tinham de saber gerir até onde fosse possível. Que Deus sabe escrever direito por linhas tortas é um aforismo português. Teve muito que fazer. Se a hierarquia perdeu os jovens, e muitos se afastaram da prática religiosa oficial, o Papa Francisco não se resignou a essa debandada, aos vencidos do catolicismo.
(texto na íntegra aqui)

 No Domingo anterior, frei Bento escrevia sobre o sentido da Páscoa e da ressurreição, com o título Foi morto mas está cada vez mais vivo:

Quando alguém diz «aquele não é bem acabado», está a falar de si próprio e dos outros, porque o ser humano nunca está bem acabado. Não sabemos quem somos, pois, o que seremos é-nos desconhecido. Não somos só o passado nem só o presente, mas o futuro e esse é filho da esperança. A esperança tem muitos nomes. São frequentes as sondagens de opinião que tentam conhecer os desejos, as espectativas e as esperanças de cada um. Não é novidade nenhuma saber que todos desejam ser felizes. Varia muito, no entanto, o que cada pessoa entende por felicidade. A expressão antiga diz bem a nossa condição animal: «haja saúde e coza o forno». 
(texto na íntegra aqui)


O mesmo tema foi escolhido por Anselmo Borges, na sua crónica do DN de sexta-feira, sob o título O que é ressuscitar? e a partir do exemplo de uma carta ditigida a Jesus por uma criança:  

“Nesta minha carta gostava de te dar uma ideia – espero que não fiques chateado. Se calhar, se falasses um bocadinho mais alto, as pessoas podiam ouvir-te um bocadinho melhor e seguir o teu caminho. Eu acho que assim haveria menos guerra e menos fome. (...) Eu ainda não percebi muito bem como se pode ressuscitar mas, como és infinitamente bom, sei que é possível.”
(texto na íntegra aqui)


quinta-feira, 29 de março de 2018

Músicas que falam com Deus (43): Arvo Pärt, ou a música da identidade do cristianismo


Arvo Pärt (foto reproduzida daqui)

É um profundo louvor da palavra e da sua meditação em forma de música, esta Passio Domini Nostri Jesu Christi Secundum Joannem, ou Passio, na versão abreviada. A obra do estoniano Arvo Pärt prende-nos desde o clamor inicial, com a formulação do título. A partir daí, e até ao “Amen” final, a peça vai-se tecendo numa densa narrativa do sofrimento e da paixão, história definidora do cristianismo e da sua identidade – o sofrimento que se transfigura na plena doação, a paixão que se concretiza como redenção.
Ao contrário de outras peças musicais que narram ou se fundamentam na mesma história (como as de J.S. Bach, Heinrich Schütz, Stolzel, Homilius ou Buxtehude, por exemplo – ver nota e ligações no final deste texto), e nas quais a construção musical é obviamente fundamental, esta peça de Pärt tem o seu centro na palavra, na história narrada e contada de geração em geração desde há vinte séculos – uma história que viria a tornar-se central para tantos homens e mulheres e para o próprio devir da humanidade. Cantada em latim, a obra ganha uma emoção plena, que se transfigura também numa intensa perturbação, dimensões às quais a interpretação dos Hilliard Ensemble não é estranha.  

Arvo Pärt foi um dos três vencedores da edição de 2017 do Prémio Ratzinger de teologiauma distinção atribuída pela Fundação Joseph Ratzinger-Bento XVI, em Setembro do ano passado, e entregue pelo Papa Francisco em Novembro – e um pretexto para (re)encontrar algumas etapas da sua obra. Na ocasião do anúncio do prémio, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, considerou o músico nascido na Estónia, em 1935, como sendo talvez o maior compositor vivo. E, quando entregou o prémio, o Papa Francisco enalteceu o facto de a distinção ter sido alargada às artes – uma ideia que considerou corresponder “bem à visão de Bento XVI, que muitas vezes nos falou de modo tocante da beleza como via privilegiada para nos abrir à transcendência e encontrar Deus”. E de quem, acrescentou, “admirámos a sua sensibilidade musical e o seu exercício pessoal de tal arte como via para a serenidade e para a elevação do espírito”.
Desde a sua revelação com Tabula Rasa, na ECM (1984), que o trabalho de Pärt traduz também, há muito, essa sensibilidade de fazer da arte e da música uma via para a serenidade e a elevação do espírito. Numa obra recente, The Deer’s Cry, isso pode verificar-se: o disco começa com uma peça intensa, que dá o título ao disco, “o grito do veado”: “Cristo comigo, Cristo diante de mim, atrás de mim, em mim... Cristo à minha direita, à minha esquerda, quando me deito, quando me sento...” O poema como que ressoa as palavras de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” E é essa comunhão só intensamente possível que aqui se ouve, se sente, se estremece.

domingo, 25 de março de 2018

A juventude não existe, mas os jovens sim; e o Papa quer o quê ao convocar um Sínodo?



Jovens em Taizé, em 2015, por ocasião dos 100 anos do irmão Roger 
e dos 75 anos da comunidade (foto reproduzida daqui)

“Deus é jovem, é sempre novo.” O jornalista e escritor Thomas Leoncini lembra, nas primeiras linhas do livro-entrevista Deus é Jovem (ed. Planeta), o instante em que o Papa Francisco pronunciou aquela frase, sentado diante dele na Casa de Santa Marta: “Recordo-me do momento exacto e, com toda a nitidez, do seu olhar trespassado por um centelha, quase como se quisesse, em conjunto com as palavras, transmitir algo de profundo e de libertador ao mesmo tempo.”
O livro foi posto à venda terça-feira passada, dia 20 de Março, poucos dias antes da Jornada Mundial da Juventude, que a Igreja Católica assinala hoje, 25 de Março, Domingo de Ramos e início da Semana Santa no calendário litúrgico.
No curto prefácio da obra, sob o título “Por uma revolução da ternura”, Leoncini defende a ideia de que é necessário encontrar “a força, a determinação, mas também a ternura para criar uma ponte quotidiana entre os jovens e os idosos: com o abraço entre eles a sociedade pode sem dúvida regenerar-se, em benefício de todos quantos ficaram para trás e na direcção de quem o olhar deve seguir de forma constante. A coragem e a sabedoria constituem os ingredientes essenciais da revolução doce e amena de que todos nós necessitamos profundamente.”
No livro, o Papa Francisco afirma que a juventude “não existe”, mas os jovens sim. “Os jovens pedem-nos para ser ouvidos e nós temos o dever de os escutar e de os acolher, não de tirar proveito deles”, afirma. O olhar de Francisco em relação aos jovens é positivo: “Um jovem possui qualquer coisa de profeta, e deve dar-se conta disso. Deve ter consciência de que está dotado das asas de um profeta, da capacidade de profetizar, de dizer mas também de fazer. Um profeta dos dias de hoje tem de facto a capacidade de condenação, mas também de perspectiva. Os jovens possuem estas duas qualidades.”
Preocupado precisamente com a ideia de ouvir os jovens, com o lugar que estes (não) têm no mundo e com a relação deles com Deus e a fé, o Papa convocou uma assembleia do Sínodo dos Bispos, que decorrerá no próximo mês de Outubro, em Roma. Como forma de preparar o documento de trabalho da assembleia,  decorreu nesta semana que terminou, em Roma, uma assembleia de 305 jovens do mundo inteiro. Nela, participaram três jovens portugueses (embora dois deles como representantes dos movimentos em que estão inseridos), apesar de, até hoje, em Portugal, praticamente não se ter falado do inquérito preparatório ou realizado qualquer iniciativa de vulto de preparação do Sínodo.

Uma Igreja mais “transparente”

O documento final da reunião desta semana manifesta o desejo de uma Igreja “transparente, acolhedora, honesta, convidativa, comunicativa, acessível, alegre e interactiva”, que seja “verdadeira” e “credível”, sem medo de ser olhada como “vulnerável”, sincera “em admitir os seus erros passados e presentes, em dizer que é uma Igreja composta por pessoas que são capazes de erros e incompreensões”. O texto acrescenta: “Se a Igreja agir assim, então diferenciar-se-á de outras instituições e autoridades das quais os jovens, na maior parte, já desconfiam”, como se pode ler nesta síntese (ou aqui, em castelhano, no texto integral do documento).

sexta-feira, 9 de março de 2018

Mulheres no cristianismo: um ponto de viragem


A irmã Teresa Kotturan (à esquerda), da Federação das Irmãs da Caridade nas Nações Unidas, 
com Shanti Choudhary. Através do apoio de cooperativas fundadas com a ajuda das Irmãs no Nepal, Shanti Choudhary expandiu uma plantação de vegetais, 
o que lhe permitiu encontrar possibilidades de viver dignamente. 
(Foto de Malini Manjoly/Irmãs da Caridade de Nazaré, reproduzida daqui)

Foram muitos os textos publicados a propósito do Dia Internacional da Mulher, que ontem, dia 8 de Março, se assinalou, incluindo sobre a questão do papel das mulheres no interior das religiões – e, em especial, do catolicismo.
Na página da Unisinos, pode ler-se já, em português, a reportagem de Marie-Lucile Kubacki, publicada na revista mensal Donne Chiesa Mondo (Mulheres Igreja Mundo), do jornal L’Osservatore Romano. A reportagem fala dos casso em que muitas religiosas são reduzidas à condição de funcionárias não remuneradas em instituições eclesiásticas ou casas de clérigos. Como a irmã Marie pergunta, na reportagem: “Um eclesiástico pensa que a irmã deva lhe servir a refeição e ficar comendo sozinha na cozinha depois de servi-lo? É normal que uma pessoa consagrada seja servida dessa forma por outra consagrada? E sabendo que as pessoas consagradas destinadas aos serviços domésticos são quase sempre mulheres, religiosas? A nossa consagração não é igual à deles?". (O texto pode ser lido aqui)
Como se assinalava em texto anterior deste blogueestá a crescer o debate sobre o papel das mulheres no interior das comunidades cristãs. No Crux, Claire Giangravè escreve que há sinais de “um ponto de viragem” mesmo no interior do catolicismo, sugeridos pela realização de conferências, debates, reuniões e tratamento do tema em meios de comunicação da própria Igreja.
O texto refere a conferência Vozes da Fé, que esta semana decorre em Roma, onde se ouviu que a Igreja Católica está numa “encruzilhada muito importante” ou, mesmo, a atravessar uma “revolução cultural interna”. “Hoje, a Igreja enfrenta cada vez mais o zelo feminista recém-descoberto no movimento #metoo em todo o mundo, mas também mudanças profundas de dentro”, acrescenta a articulista, num texto que pode ser lido aqui em inglês.
Num outro texto do mesmo jornal digital, John Allen analisa vários contributos na conferência Vozes da Fé, para afirmar que muitas participantes tentam reorientar as estratégias do debate para lá da questão do acesso ao ministério ordenado. “Talvez seja necessário concentrar-se menos no que a Igreja diz ‘não’ e mais sobre aquilo que ele está preparada para dizer ‘sim’, resume o articulista. Na conferência, relata, seis mulheres de diferentes partes do mundo passaram cerca de uma hora sem nunca pronunciar a palavra "sacerdote" – e sem fazer uma alusão indirecta ao debate sobre o sacerdócio. Apesar de, na sua maioria, apoiarem essa reivindicação, consideram que a estratégia deve ser outra, como se pode conferir aqui, no texto em inglês.

terça-feira, 6 de março de 2018

Mulheres no cristianismo: curto (ou longo) itinerário para entender um debate em curso

Capa da revista Donne Chiesa Mondo, de Novembro de 2016, 
dedicada ao tema Mulheres esquecidas

(Este texto é dedicado às mulheres dos que fazemos este blogue: Cristina, Elsa, Isabel e em memória da Sílvia)

O debate sobre questões ligadas ao papel das mulheres no cristianismo está a crescer no interior das diferentes comunidades cristãs, incluindo a Igreja CatólicaAo aproximar-se o Dia Internacional da Mulher, que se assinala depois de amanhã, dia 8, a questão da “desvalorização da mulher pela Igreja” foi abordada pelo padre Fernando Calado Rodrigues nesta segunda-feira, no JN:
A Igreja é perita em humanidade. Tem ensinamentos preciosos sobre a promoção humana e uma extraordinária Doutrina Social, em linha com a mensagem do Evangelho. Esta, como se viu, contempla a defesa do papel da mulher na Igreja e no Mundo. O problema é que determinados setores da Igreja se esquecem, vezes de mais, de a pôr em prática. (texto para ler aqui na íntegra)

80 por cento do trabalho

Um percurso avulso e desordenado por alguns textos publicados na internet, nos últimos anos, permite perceber alguns dos muitos contornos do debate em curso. Fica, por isso, um contributo apenas com a ideia de levantar a ponta do véu acerca de um tema que, nas últimas décadas, ganhou contornos de um debate intenso e cada vez mais rico.
Desde logo, comece-se por assumir alguns dados de uma realidade em claro-escuro, como os que foram trazidos para a praça pública pela denúncia da reportagem da revista Donne Chiesa Mondo (Mulheres Igreja Mundo), sobre o trabalho não reconhecido, “gratuito ou mal pago”, feito por tantas religiosas em instituições católicas ou em casa de clérigos.
Para completar esta informação, podem acrescentar-se os dados que Carolyn Woo, presidente do Catholic Relief Services (a Cáritas dos Estados Unidos) referiu num simpósio organizado no Vaticano: as mulheres realizam 80% dos trabalhos não feitos pelo clero na Igreja; e os postos de liderança que muitas mulheres ocupam na Igreja Católica reflectem uma prática de mulheres comprometidas e de partilha de poder; e também ao longo dos séculos, foi em estruturas da Igreja que muitas mulheres se capacitaram e desenvolveram
Além da realidade, há também um problema de percepção: muitas mulheres sentem-se tratadas de forma injusta pela estrutura eclesial, como analisava este estudo referente às décadas 1970-2010.
O Papa Francisco referiu-se já várias vezes à gravidade do problema da desigualdade entre homens e mulheres, que considera um escândalo. E amanhã mesmo, dia 7, um livro que será publicado em Espanha inclui um prefácio do Papa, no qual Francisco manifesta a sua preocupação com o facto de “na própria Igreja, o papel de serviço a que todo o cristão é chamado deslize, no caso da mulher, algumas vezes, para papéis que são mais de servidão do que de verdadeiro serviço.  
 

Teologia e lugares de autoridade

Seis meses depois da sua eleição, o Papa deu uma entrevista à revista La Civiltà Cattolica, na qual  se referia explicitamente ao papel das mulheres no interior da Igreja. Afirmava ele ser necessário “ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja” e de “trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher”, incluindo na reflexão sobre os lugares onde “se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja.”
Noutra declaração muito citada, o Papa disse que não quer as mulheres na Igreja apenas para fazerem de “cereja em cima do bolo”. Ao mesmo tempo, promoveu a nomeação de várias mulheres para lugares de responsabilidade em diferentes estruturas da Santa Sé.
Este é um tema em aberto, considerava a historiadora e ensaísta Lucetta Scaraffia, que dirige a Donne Chiesa Mondo. Já em 2014 Scaraffia considerava que a estratégia do Papa Francisco, começando o debate pelo âmbito teológico e não apenas por uma qualquer modernização, é a correcta: “Se a questão é teológica, isso significa que, no cerne do problema, não está a ‘modernização’, mas sim algo mais profundo e importante que toca a natureza espiritual da Igreja.” 

sexta-feira, 2 de março de 2018

Religiosas ou funcionárias (quase) gratuitas?




Freiras em trabalho doméstico (imagem reproduzida daqui)

Algumas freiras, “ao serviço de homens da Igreja, levantam-se de madrugada para preparar o pequeno-almoço e só se deitam depois de o jantar estar servido, a casa arrumada, as roupas lavadas e engomadas… Para este tipo de ‘serviço’ não existe um horário preciso e regulamentado, como há para os leigos, e a retribuição é aleatória, muitas vezes bastante modesta”, diz a irmã Maria, um nome fictício, num trabalho publicado pela revista Donne Chiesa Mondo (Mulheres Igreja Mundo), suplemento mensal de L’Osservatore Romano, o jornal oficial da Santa Sé. Neste número de Março (que se encontra disponível aqui, em italiano, num ficheiro pdf), o tema de fundo da revista é Mulheres e Trabalho.
A reportagem, publicada na edição da revista desta quinta-feira, dia 1 de Março (e disponível aqui, também em italiano), denuncia o trabalho “gratuito ou mal pago”,  “pouco reconhecido” e que dá azo a “ambiguidade” ou a “grande injustiça”, de muitas religiosas em instituições católicas.
A mesma freira citada refere que muitas religiosas raramente são convidadas a sentar-se nas mesas que servem: “Um eclesiástico acha que pode ter uma refeição servida por uma irmã e depois deixá-la a comer sozinha na cozinha, depois de ser servido? É normal, para um consagrado, ser servido desta forma por uma outra consagrada?” [Resumos da reportagem podem ser lidos aqui numa notícia da Ecclesiae também nesta notícia do Público (corrigindo o título da revista, que é italiano e não inglês) e ainda aqui, na página da Unisinos na internet, em português do Brasil, num texto que dá mais elementos de contextualização sobre o problema.]
Este trabalho da Donne Chiesa Mondo surge poucos dias depois de ter sido divulgado um texto em que o Papa manifesta a sua preocupação com o facto de “na própria Igreja, o papel de serviço a que todo o cristão é chamado deslize, no caso da mulher, algumas vezes, para papéis que são mais de servidão do que de verdadeiro serviço”.
No prólogo do livro Diez Cosas que el Papa Francisco Propone a las Mujeres, Francisco manifesta ainda a sua preocupação pela persistência de “uma certa mentalidade machista, inclusive nas sociedades mais avançadas, nas quais se consumam atos de violência contra a mulher”. E critica ainda o facto de as mulheres serem “objecto de maus-tratos, tráfico e lucro, assim como de exploração na publicidade e na indústria do consumo e da diversão”.
A obra, que será editada dia 7 (quarta-feira próxima), pelas Publicações Claretianas, em Madrid (Espanha), é da autoria de María Teresa Compte Grau, directora do curso de Doutrina Social da Igreja na Universidade Pontifícia de Salamanca. No livro, a autora pretende analisar o magistério do Papa Francisco sobre a mulher, bem como as linhas por ele abertas para conseguir “uma presença mais incisiva” na Igreja (uma notícia mais desenvolvida sobre este texto do Papa pode ser lida aqui).