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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Taizé: quatro eurodeputados dizem como respondem ao apelo do Papa

Dois democratas-cristãos e dois verdes comentam referência do Papa no PE ao cuidado com a fragilidade


O Papa Francisco no Parlamento Europeu, em Novembro 
(foto reproduzida daqui

Como reagem quatro eurodeputados aos apelos do Papa Francisco no Parlamento Europeu (PE)? Em Novembro, o Papa fez um discurso em Estrasburgo que “desafiou os deputados a agir” mas, “infelizmente, sem grandes consequências”.
Ou talvez não. A opinião pessimista de Sven Giegold, eurodeputado dos Verdes Alemães, não é inteiramente partilhada por Alojz Peterle, democrata-cristão e primeiro-ministro esloveno entre 1990-92, quando o país se tornou independente, após o fim da ex-Jugoslávia comunista.
O discurso do Papa foi ouvido por muitos deputados que, no seu trabalho parlamentar, procuram colocar os apelos de Francisco em acto, defendeu Peterle.
Ambos os deputados participaram em Taizé, esta semana, em debates sobre política e solidariedade, no âmbito do encontro Por uma Nova Solidariedade.
Num dos debates, juntaram-se a outros dois membros do Parlamento Europeu (PE): o húngaro Gyorgy Holvenyi, democrata-cristão, e o belga Philippe Lamberts, dos Verdes.
O tema tomou uma frase do Papa no discurso de Novembro aos eurodeputados: “Na vossa vocação de parlamentares, sois chamados também a uma grande missão (...): cuidar da fragilidade, da fragilidade dos povos e das pessoas.”
Sven Giegold, protestante, disse que tem procurado fazer da sua fé o fundamento da sua intervenção política. E foi muito contundente: o Papa desafiou duas vezes os eurodeputados a agir em diferentes campos. “Sem consequências.”
Ao contrário do que deveria acontecer, disse, apontando quatro âmbitos como exemplo.
“O Papa falou de opção pelos pobres. Não é justo, por isso, que os mais ricos não paguem impostos” em vários domínios. Francisco referiu-se ainda aos migrantes. “Muitos imigrantes vêm para a Europa e continua a haver mortes e violências sobre eles. Não houve mudanças neste âmbito.”

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A pintura e a poesia nos apelos do Papa à Europa para manter viva a democracia dos povos


Rafael, Escola de Atenas (ilustração reproduzida daqui)

A Escola de Atenas, de Rafael, e a poesia do italiano Clemente Rebora. Foram essas as duas imagens utilizadas esta manhã, para os dois discursos europeus do primeiro Papa latino-americano. Que insistiu na exigência de manter viva a democracia, dar centralidade (e sacralidade) à pessoa humana, enfrentar a pobreza, assumir uma realidade multipolar e o diálogo intercultural, acolher os imigrantes, voltar a ser capaz de religar a abertura dos europeus ao transcendente com a sua capacidade de enfrentar problemas.
Numa curta visita de quatro horas a Estrasburgo (França), cidade da Alsácia, ela própria símbolo das guerras que dividiram povos europeus durante séculos, o Papa Francisco fez dois discursos cuja profundidade, mensagem e acutilância são raríssimas na actual geração de líderes políticos da Europa.
O Papa começou por se dirigir aos deputados do Parlamento Europeu (PE), convidando-os a “manter viva a democracia dos povos da Europa” e recusando concepções totalizantes que destroem o que é “fecundo e construtivo” no “rico confronto das organizações e dos partidos políticos entre si”. E acrescentou: “Manter viva a realidade das democracias é um desafio deste momento histórico, evitando que a sua força real – força política expressiva dos povos – seja removida face à pressão de interesses multinacionais não universais, que as enfraquecem e transformam em sistemas uniformizadores de poder financeiro ao serviço de impérios desconhecidos. Este é um desafio que hoje vos coloca a história.” (aqui pode ler-se a tradução completa do discurso em português, embora a tradução tenha vários erros; aqui estão disponíveis versões em outras línguas)
Este é porventura o parágrafo central da mensagem do Papa, já que nele se condensa o essencial da sua mensagem no PE, mais de 25 anos depois de João Paulo II ter estado no mesmo hemiciclo – o que significa que “muita coisa mudou na Europa e no mundo inteiro”, que é cada vez menos “eurocêntrico”. Manter viva a democracia, disse o Papa, traduz-se em “dar esperança à Europa”, o que “não significa apenas reconhecer a centralidade da pessoa humana, mas implica também promover os seus dons”. E isso deve acontecer em âmbitos como a educação e a família ou em aspectos como a promoção de “políticas de emprego”.
Já quase no final do discurso, o Papa insistiria mesmo: “Chegou a hora de construir juntos a Europa que gira, não em torno da economia, mas da sacralidade da pessoa humana, dos valores inalienáveis (...). Chegou o momento de abandonar a ideia de uma Europa temerosa e fechada sobre si mesma para suscitar e promover a Europa protagonista, portadora de ciência, de arte, de música, de valores humanos e também de fé. A Europa que contempla o céu e persegue ideais; a Europa que assiste, defende e tutela o homem; a Europa que caminha na terra segura e firme, precioso ponto de referência para toda a humanidade!”

O cemitério do Mediterrâneo e os olhos na Turquia

A questão migratória mereceu uma referência dura: “Não se pode tolerar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério! Nos barcos que chegam diariamente às costas europeias, há homens e mulheres que precisam de acolhimento e ajuda. (...) A Europa será capaz de enfrentar as problemáticas relacionadas com a imigração, se souber propor com clareza a sua identidade cultural e implementar legislações adequadas capazes de tutelar os direitos dos cidadãos europeus e, ao mesmo tempo, garantir o acolhimento dos imigrantes; se souber adoptar políticas justas, corajosas e concretas que ajudem os seus países de origem no desenvolvimento sociopolítico e na superação dos conflitos internos – a principal causa deste fenómeno – em vez das políticas interesseiras que aumentam e nutrem tais conflitos. É necessário agir sobre as causas e não apenas sobre os efeitos.”

sábado, 24 de maio de 2014

Eleições para o Parlamento Europeu: Bispos europeus avisam para situação trágica na União Europeia


(ilustração reproduzida daqui)

Os candidatos a deputados europeus que, na maior parte dos países da União Europeia, vão a votos neste domingo (no Reino Unido e Holanda as eleições decorreram quinta-feira), devem estar “cientes dos danos colaterais da crise económica e bancária iniciada em 2008”, que se manifestam no facto de o “número dos ‘novos pobres’” estar a crescer “a um ritmo alarmante”, a par da “frustração das perspectivas de futuro de muitos (...) jovens”.
A afirmação é da Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia (Comece), numa nota sobre as eleições para o Parlamento Europeu. No documento, os bispos acrescentam, ainda sobre os efeitos da actual crise, que “a situação é dramática, para muitos até mesmo trágica”.
Na nota, os bispos apelam ao voto, avisam que  há “demasiado a perder se o projeto europeu descarrilar”, que o tratamento dos migrantes que buscam a UE para trabalhar deve ser mais “humano” e que é necessário um compromisso “com uma abordagem mais ecológica”. Ao mesmo tempo, recordam que a solidariedade é um “pilar da União”.
Uma notícia mais desenvolvida sobre este documento pode ser lida aqui.

Sobre a crise actual e as suas causas, bem como a inevitável consequência de destruição do projecto europeu, se o caminho político não for alterado, vale a pena ainda ler uma entrevista do ex-conselheiro económico do presidente da Comissão Europeia, Philippe Legrain.
A propósito do seu novo livro European Spring: Why our Economies and Politics are in a mess, Legrain diz que a crise resultou de se ter colocado os interesses dos bancos à frente do bem-estar das pessoas: “Na primeira fase da crise, já foi suficientemente mau que os contribuintes tenham tido de salvar os bancos dos seus próprios países. Mas quando o problema alastrou a toda a UE, o que aconteceu foi que a zona euro passou a ser gerida em função do interesse dos bancos do centro – ou seja, França e Alemanha – em vez de ser gerida no interesse dos cidadãos no seu conjunto. O que é profundamente injusto e insustentável.”

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Não querem ver

No Página 1 de hoje, Francisco Sarsfield Cabral fala da abstenção nas eleições de ontem e da atitude da maior parte dos políticos:

A abstenção nas eleições para o Parlamento Europeu foi a maior de sempre no conjunto da União. Não houve surpresa. Não só as sondagens a previam, como a tendência para uma crescente abstenção vem de trás. Os deputados europeus começaram por ser escolhidos pelos parlamentos nacionais. Em 1979 passaram a ser eleitos por sufrágio directo e universal. Pois a abstenção não cessou de aumentar ao longo deste trinta anos, ao longo dos quais, paradoxalmente, o Parlamento Europeu tem vindo a ganhar mais poderes.

No entanto, as pessoas desinteressam-se do PE. Parece que este alheamento – que não é conjuntural, antes exprime uma tendência de fundo - deveria merecer atenção por parte dos dirigentes da UE. Ele suscita uma questão óbvia: será o PE a melhor via para aproximar os cidadãos das instituições europeias?

Parece que não. Mas os políticos e os dirigentes europeus não querem ver e fazem de conta que tudo corre bem. Depois queixam-se de que os eurocépticos estão a ganhar as opiniões públicas. É que não se pode construir a Europa sem o envolvimento dos europeus.

Mais uma nota, à margem deste texto de Sarsfield Cabral: Recorde-se que, em cada dez europeus, quase seis não votaram. E que, em cada dez portugueses, mais de seis não votaram. Disto, pelos vistos, voltaremos a falar em próximas eleições - porque até lá o tema voltará a ser arrumado na gaveta das inconveniências. Aliás, é interessante ver o modo como tantos políticos agora pretendem encostar-se a Barack Obama. Há uma diferença fundamental entre o Presidente dos Estados Unidos e a maior parte dos líderes políticos europeus: é que Obama, além das ideias que tem (mesmo discordando dele) e da forma como pretende resolver vários problemas, foi para a política porque entende que essa é uma forma importante de serviço público...