Rafael, Escola de Atenas (ilustração reproduzida daqui)
A Escola de Atenas, de Rafael, e a poesia do italiano Clemente Rebora. Foram essas
as duas imagens utilizadas esta manhã, para os dois discursos europeus do primeiro
Papa latino-americano. Que insistiu na exigência de manter viva a democracia, dar
centralidade (e sacralidade) à pessoa humana, enfrentar a pobreza, assumir uma
realidade multipolar e o diálogo intercultural, acolher os imigrantes, voltar a
ser capaz de religar a abertura dos europeus ao transcendente com a sua
capacidade de enfrentar problemas.
Numa curta visita de quatro horas a Estrasburgo (França),
cidade da Alsácia, ela própria símbolo das guerras que dividiram povos europeus
durante séculos, o Papa Francisco fez dois discursos cuja profundidade,
mensagem e acutilância são raríssimas na actual geração de líderes políticos da
Europa.
O Papa começou por se dirigir aos deputados do Parlamento
Europeu (PE), convidando-os a “manter viva a democracia dos povos da Europa” e
recusando concepções totalizantes que destroem o que é “fecundo e construtivo” no “rico
confronto das organizações e dos partidos políticos entre si”. E acrescentou: “Manter
viva a realidade das democracias é um desafio deste momento histórico, evitando
que a sua força real – força política expressiva dos povos – seja removida face
à pressão de interesses multinacionais não universais, que as enfraquecem e
transformam em sistemas uniformizadores de poder financeiro ao serviço de
impérios desconhecidos. Este é um desafio que hoje vos coloca a história.” (aqui pode ler-se a tradução completa do discurso em português,
embora a tradução tenha vários erros; aqui estão disponíveis versões em outras línguas)
Este é porventura o parágrafo central da mensagem do Papa,
já que nele se condensa o essencial da sua mensagem no PE, mais de 25 anos
depois de João Paulo II ter estado no mesmo hemiciclo – o que significa que
“muita coisa mudou na Europa e no mundo inteiro”, que é cada vez menos “eurocêntrico”. Manter viva a
democracia, disse o Papa, traduz-se em “dar esperança à Europa”, o que “não
significa apenas reconhecer a centralidade da pessoa humana, mas implica também
promover os seus dons”. E isso deve acontecer em âmbitos como a educação e a
família ou em aspectos como a promoção de “políticas de emprego”.
Já quase no final do discurso, o Papa insistiria mesmo: “Chegou a hora
de construir juntos a Europa que gira, não em torno da economia, mas da
sacralidade da pessoa humana, dos valores inalienáveis (...). Chegou o momento
de abandonar a ideia de uma Europa temerosa e fechada sobre si mesma para
suscitar e promover a Europa protagonista, portadora de ciência, de arte, de
música, de valores humanos e também de fé. A Europa que contempla o céu e
persegue ideais; a Europa que assiste, defende e tutela o homem; a Europa que
caminha na terra segura e firme, precioso ponto de referência para toda a
humanidade!”
O cemitério do Mediterrâneo e
os olhos na Turquia
A questão migratória mereceu uma referência dura: “Não se pode tolerar
que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério! Nos barcos que chegam
diariamente às costas europeias, há homens e mulheres que precisam de
acolhimento e ajuda. (...) A Europa será capaz de enfrentar as problemáticas
relacionadas com a imigração, se souber propor com clareza a sua identidade
cultural e implementar legislações adequadas capazes de tutelar os direitos dos
cidadãos europeus e, ao mesmo tempo, garantir o acolhimento dos imigrantes; se
souber adoptar políticas justas, corajosas e concretas que ajudem os seus
países de origem no desenvolvimento sociopolítico e na superação dos conflitos
internos – a principal causa deste fenómeno – em vez das políticas
interesseiras que aumentam e nutrem tais conflitos. É necessário agir sobre as
causas e não apenas sobre os efeitos.”