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quarta-feira, 30 de maio de 2018

O neo-cardeal que pode ir para a prisão


O arcebispo de origem polaca Konrad Krajewski, que é o assessor do papa Francisco para as obras de caridade, não ficou muito entusiasmado com o facto de ter sido eleito cardeal, a avaliar por um artigo agora publicado pelo site Religión Digital
Krajewski prefere estar próximo dos sem abrigo e dos pobres, acolhendo-os, alimentando-os e prestando serviços de que necessitam.
"E  - escreve Religión Digital - caso houvesse dúvidas de que a sua filosofia de vida é inspirada no Evangelho, o futuro cardeal pergunta: "Se nesta pessoa pobre ou sem abrigo você vê Jesus, o que é que lhe vai dar? Roupa estragada, de que você já não precisa? Comida fora de prazo? Não! Você daria a Jesus o melhor que tem!" 
Não admira que Krajewski se dê tão bem com o papa Bergoglio, que nunca se cansa de dizer aos ricos que vão ao Vaticano com a intenção de doar dinheiro: 
"Dê um emprego aos pobres!" 
Não é que conte com o total apoio de Francisco no seu trabalho com os refugiados, aos quais já chegou a ceder o seu apartamento. Algo que, admitiu ao Papa, "pode não ser compatível com a lei". Mas se for para a cadeia, conta que Francisco lhe disse: "Eu irei visitar-te!".

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Iria Hans Rosling dizer em Davos que as Nações Unidas estão loucas?





Se o médico e académico sueco Hans Rosling (27 de Julho de 1948 – 7 de Fevereiro de 2017) ainda estivesse vivo e fosse convidado para ir ao Fórum Económico Mundial que estes dias está a decorrer em Davos (Suíça), talvez fosse dizer que as Nações Unidas estavam loucas quando anunciaram o objectivo de erradicar a pobreza extrema para todas as pessoas até 2030, no âmbito dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável
Provavelmente, Hans Rosling também diria que não podemos continuar a ter um mundo em que mais de 80 por cento da riqueza criada em todo o mundo vai parar aos mais ricos, que representam apenas um por cento da população mundial, como nos diz o relatório da Oxfam divulgado no início desta semana. 
Olhando para as realidades das pessoas mais pobres, o objectivo de erradicar a pobreza extrema parece impossível, diz a apresentação deste vídeo, gravado há pouco mais de dois anos. Nesse ano, não houve chuva no Malawi, mas a muitas pessoas – como mostram alguns exemplos apontados por Hans Rosling – basta muito pouco, como uma pequena colheita de milho, para quebrar o ciclo vicioso da pobreza.
Quando, em Setembro de 2015, os Chefes de Estado ou Governo dos países do mundo estabeleceram os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ou ‘Agenda 2030’ e declararam a sua determinação em acabar com a pobreza e a fome, muitas pessoas poderiam abanar a cabeça e pensar como Astérix Estes romanos são doidos”.
O médico sueco voluntariou-se para ir trabalhar em Moçambique quando a descolonização deixou o país sem assistência médica. Muitas voltas depois acabou a ensinar saúde internacional no seu país e criou a página Gapminder na internet, onde ajuda a dar significado às estatísticas. 
Hans Rosling, que morreu há pouco menos de um ano, deixou um conjunto de mensagens fundamentadas de esperança e incentivo a persistir no combate às injustiças (iniquidades, como se diz habitualmente no campo da saúde) no acesso aos bens da terra e aos cuidados de saúde. 
No vídeo acima reproduzido, Hans Rosling mostra como tem sido a evolução de indicadores de saúde no ultimo século, o que significa viver com um dólar por dia ou como são as casas das pessoas que vivem com um ou dez dólares por dia. Mostra o que acontece quando essas pessoas estão doentes e como é importante olhar para a história de todo o século XX.
“Loucas estariam as nações se não quisessem acabar com a pobreza.” Assim, o objectivo de erradicar a pobreza extrema não é inatingível. Só o é, como explica Hans Rosling, porque a visão de muitas pessoas altamente letradas está atrasada em seis décadas. 

(Este texto teve o contributo de Cláudia Conceição; sobre o fórum de Davos, pode ler-se aqui, em inglês, o teor da intervenção do secretário-geral do Conselho Ecuménico de Igrejas, Olav Fykse Tveit, que falou sobre o perigo nuclear)


terça-feira, 26 de maio de 2015

Pentecostes, um mundo de irmãos, ecologia e combate à pobreza

Não desistir do Espírito do Pentecostes era a proposta de frei Bento Domingues, na sua crónica do último domingo, no Público:

No começo dos Actos dos Apóstolos, Jesus Cristo manifestou-se um bocado desesperado. Tinha passado a vida a tentar convencer os Doze de que foram chamados, não para ocupar lugares de chefia, mas para dar a vida por um mundo novo, no qual as pessoas são apreciadas pelo serviço que prestam. Ele próprio veio para servir, não para dominar. No entanto, a única pergunta que lhe fazem depois da ressurreição é miserável: Senhor, será agora que vais restaurar a realeza em Israel? O Mestre é muito firme: só vos pertence ser minhas testemunhas até aos confins da Terra e da única coisa que precisais é do Espírito de Deus. Foi ele que animou a minha vida.
Não celebramos a festa de Pentecostes por nostalgia. A Terra nunca foi um paraíso. Precisamos do espírito do Pentecostes para que nenhuma geração desista de um mundo onde não haja indigentes, mas irmãos.
(o texto pode ser lido na íntegra aqui)


Também Vítor Gonçalves escreveu sobre a mesma festa cristã, propondo uma Litania de Pentecostes:

Vem, Espírito Santo! Vem com o dom do Temor de Deus,
responsabilizar toda a humanidade no cuidado da vida e dos dons recebidos e adquiridos. Aquele temor que não é medo, mas atenção e fidelidade ao essencial, confiado na salvação oferecida em Jesus; aquele nos faz viver em mais amor e verdade, na comunhão com Deus – Trindade.
(o texto pode ser lido na íntegra aqui)


No DN de sábado, Anselmo Borges continuava a reflexão sobre Ecologia e religião, iniciada na semana anterior:

 “Dominai a Terra”, disse Deus aos primeiros homens, segundo o Génesis. Há quem acuse essa ordem divina da presente situação. Má interpretação, pois o que Deus mandou foi cuidar da Terra como quem cuida de um jardim. E aí está outra razão para o Papa Francisco publicar em breve uma encíclica sobre a preservação do meio ambiente: é preciso cuidar da natureza, porque é criação, dom e presente de Deus.
(o texto pode ser lido na íntegra aqui)


Já Fernando Calado Rodrigues escreveu acerca da pobreza e a falta de vontade política para combater o flagelo, sob o título Os pobres não votam:

Nos tempos de crise, não são os ricos os mais afetados, são os pobres os que mais sofrem. E muitos dos que antes não o eram acabam por ser lançados para níveis próximos do limiar da pobreza. Nesta última crise, que o país atravessa, resvalaram para essa situação mais duzentos mil portugueses.
É por isso urgente um envolvimento de todos – a começar pelos partidos políticos – na implementação de uma estratégia nacional para a erradicação da pobreza.
(o texto pode ser lido na íntegra aqui)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Queremos uma sociedade mais justa? – uma Sessão de Estudos promovida pelo Metanoia


(foto reproduzida daqui)

“O ponto de interrogação no título não é nada inocente. Ao regressarmos a este tema estamos conscientes de um certo cansaço, de alguma impaciência, de bastante desilusão, de uma dúvida crescente.” A afirmação pode ser lida na apresentação da Sessão de Estudos 2015, promovida pelo Metanoia – Movimento Católico de Profissionais e que decorre sábado e domingo da próxima semana (dias 28 de Fevereiro e 1 de Março), na Casa Diocesana de Vilar, no Porto.
O programa, que pode ser consultado aquiprevê a participação dos economistas Carlos Farinha Rodrigues e Manuela Silva e do juiz Álvaro Laborinho Lúcio. Farinha Rodrigues, que intervém às 10h45 de sábado, 28, fará um ponto de situação sobre as desigualdades em Portugal. Às 14h30, Manuela Silva intervém acerca do tema “De uma ‘economia que mata’ a uma economia mais justa”. Finalmente, às 16h45, Laborinho Lúcio fala sobre “Justiça Social e Cidadania – Caminhos para uma Sociedade mais Justa”. Um filme e um debate sectorial completam o programa.
O encontro propõe-se, segundo os organizadores, atingir quatro objectivos:
“1. Fazer um ponto de situação da sociedade portuguesa em matéria de justiça social, em vertentes como a distribuição de rendimentos e de oportunidades, os índices de pobreza, as virtualidades e os limites das políticas públicas aplicadas.
2. De forma particular, analisar algumas áreas específicas para perceber como estão a contribuir para a reprodução das desigualdades ou para a sua redução. Para tal, selecionámos áreas da educação, da saúde e do emprego/trabalho, sem prejuízo de contributos noutras áreas que os participantes queiram apresentar.
3. Tentar explicitar alguns subentendidos – antropológicos, filosóficos, políticos, teológicos -, procurando responder a perguntas como estas:
- Porque temos uma sociedade tão injusta?
- Porque devemos procurar uma sociedade mais justa?
- O que estamos dispostos a fazer para termos uma sociedade mais justa?
- Qual o lugar da ação pessoal, das organizações e do Estado?
4. Identificar perspetivas, caminhos e campos de intervenção que merecem mais atenção, conhecimento e ação.”
O texto de apresentação da iniciativa acrescenta ainda, sobre a contextualização da Sessão de Estudos, os seguintes enunciados:

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Ir a Roma e ver os sem-abrigo

Crónica

No DN de hoje, Miguel Marujo escreve a propósito da homilia de ontem do Papa Francisco, e dos sem-abrigo que rodeiam a Praça de São Pedro: 

É ditado popular que nem todos cumprem: ir a Roma e ver o Papa. Mas é impossível não ver os sem-abrigo, nos quais quase tropeçamos nas arcadas de edifícios do Vaticano e da Cidade Eterna. São muitos, tapados por cobertores, que escondem o rosto e a miséria. De dia, vê-se que esses muitos são também imigrantes que procuraram na Europa a vida que a guerra, a fome e a pobreza lhes roubaram nos seus países de origem. (...)
Talvez os governantes europeus devessem vir mais a Roma, mas não para ver o Papa.

(o texto integral pode ser lido aqui)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O que é ser criança pobre em Portugal?

No Público de sábado, o presidente da Cáritas, Eugénio Fonseca, dá uma entrevista sobre a pobreza, onde diz que, em Portugal, se continuam a estigmatizar os pobres e não a pobreza. A entrevista começa com a seguinte pergunta e resposta:

P. - O que é ser uma criança pobre em Portugal?
R. - É não ter possibilidade de fazer o número de refeições que se considera que são necessários. Temos crianças que, se não fosse a escola ou alguma Instituição Particular de Solidariedade Social em que estão, não teriam acesso a uma refeição digna. Para muitas, a única completa do ponto de vista dos nutrientes é a que recebem na escola ou na instituição. Depois, é não ter acesso a cuidados de saúde que são determinantes para superar doenças que se podem tornar crónicas. E não ter acesso a todos os recursos educativos que a generalidade das crianças têm. Quando digo recursos digo material escolar, apoio escolar para reforço das aprendizagens. Porque uma criança se não é bem alimentada, se dorme em condições precárias, tem um risco acrescido de contrair doenças e de insucesso escolar. Outro risco ainda é um que não estamos a acautelar devidamente e que está a tomar proporções próximas daquelas que existiam antes do 25 de Abril: o abandono escolar.

(a entrevista pode ser lida aqui)

Textos anteriores no blogue: 
Cardeal Maradiaga diz em Lisboa que evangelização deve tocar realidades como o trabalho e a economia
Padre Joaquim Carreira, o quatro português "Justo entre as Nações" por ter salvo judeus em Roma


segunda-feira, 16 de junho de 2014

'A Crise no Limite': diagnóstico de um país em sofrimento


Para ver o vídeo, clicar na imagem ou AQUI.
Um agradecimento à Renascença, à jornalista Maria João Cunha e à equipa que com ela trabalhou, por esta reportagem.

domingo, 24 de novembro de 2013

“Dêem-me uma pobre que não seja rica”


A crónica de Eduardo Jorge Madureira, no Diário do Minho deste domingo, 24 de Novembro:

“O ‘pobrezinho’ era uma entidade que povoou a minha infância”, lembra António Alçada Baptista no primeiro volume da Peregrinação Interior, que inclui as Reflexões sobre Deus. Recordando o que se passava na década de 30 do século XX, regista o autor: “Em todas as ‘boas’ casas da minha meninice meiga e temente cultivavam-se os pobrezinhos, regavam-se com bocadinhos de pão com conduto, com pequenas moedas de cobre e cultivava-se sobretudo a sua pobreza”. Nada parecia faltar: “Havia a comida dos pobres, a esmola dos pobres, as visitas dos pobres e a sexta-feira, sobre ser dia aziago, era também o dia dos pobres”. Para o católico António Alçada Baptista, “as conversas sobre pobres entravam naquela zona de espiritualidade provinciana que abrangia as novenas, os lausperenes e as santas missões”.                   
As coisas para os pobres, explica, eram objectos no meio do caminho entre o uso e o lixo. “Estavam predeterminadas e correspondiam ainda à dificuldade de desapossamento das coisas, mesmo as que já não servem, que está na base da civilização em que vivemos”. Para o comprovar, relata o caso de uma alma distinta, aliás, devidamente nomeada, a quem a mulher pergunta o que fazer à lista telefónica antiga, no momento em que tinham acabado de entregar a nova edição. A resposta foi simples: dar a um pobre. Oferecer uma lista telefónica a um pobre é, de facto, uma boa piada, mas é, também, “uma caricatura exacta da dificuldade que tem o homem de encarar uma coisa que, sem merecer obviamente o caixote do lixo, na realidade não serve para nada”. 
Conta Alçada Baptista que cada rico se dava “mesmo ao luxo de ter o ‘seu’ pobre” e que “os ricos deliravam com estes pobrezinhos assim cordatos, cumpridores, submissos e respeitadores”. A Peregrinação Interior, que teve a primeira edição em 1971, regista ainda que, nesse Portugal, que tantos pensavam longínquo, havia muitas espécies de pobres. “Quanto ao modo como adquiriam os meios de subsistência, havia os pedintes, os necessitados e os envergonhados”, cuja distinção o autor estabelece com rigor.
Sobre a singular relação dos ricos com os seus pobres, Alçada Baptista conta um eloquente episódio, identificando uma das protagonistas.

domingo, 27 de outubro de 2013

Os muito ricos e os muito pobres

A coluna "Os Dias da semana" que dominicalmente Eduardo Jorge Madureira tem do Diário do Minho intitula-se hoje "Os muito ricos e os muito pobres".

Uma das histórias que se contavam repetidamente a seguir ao 25 de Abril de 1974 era sempre apresentada como verídica. Pouco importava, no entanto. O que contava era a clareza com que servia para expor dois projectos políticos distintos, um, social-democrata; outro, muito mais à esquerda. Os protagonistas eram Olof Palme, na altura primeiro-ministro da Suécia e líder do Partido Social Democrata e Otelo Saraiva de Carvalho. O enredo praticamente não existe e a versão mais curta pode resumir-se a uma brevíssima troca de palavras.
O essencial é isto: Otelo vai à Suécia explicar o que pretendem os militares portugueses que derrubaram o fascismo. Quando encontra Olof Palme, depois das iniciais palavras de circunstância, diz-lhe que o objectivo da revolução portuguesa é acabar com os ricos. O primeiro-ministro sueco testemunha-lhe um programa diferente: “Nós, os sociais-democratas suecos, queremos acabar com os pobres. O que mais nos incomoda é a pobreza”.
Olhando, hoje, para grande parte dos dirigentes políticos europeus, é difícil não julgar que o que desejam com a sua acção é, sobretudo ou apenas, manter-se no poder, permanecendo nas graças dos muito ricos que, zelosamente, servem e de quem, de facto, dependem. O que promovem é o empobrecimento cada vez mais generalizado, designadamente das pessoas mais ou menos remediadas, o reverso, afinal, do projecto social-democrata, que tinha em Olof Palme um generoso inspirador.
Ao mesmo tempo que se empreendem políticas para empobrecer a maioria dos cidadãos, é fabricado e difundido um imaginário ideológico que apresenta os pobres como um grupo parasitário, absolutamente avesso ao que prescreve a doxa vitoriosa dos doutrinários do empreendedorismo. Estranha gente, que fabrica pobres e lhes destrói a reputação.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Eugénio da Fonseca, Presidente da Caritas:
Pobreza em Portugal não se resolve só com medidas assistencialistas


“A pobreza não se resolve com medidas só de dimensão assistencial. Precisa de respostas mais estruturantes e a resposta mais estruturante que, neste momento, tem que existir para vencer a pobreza é voltarmos a devolver o trabalho às pessoas que o perderam”, defende Eugénio da Fonseca, em declarações à Renascença. 
Para o presidente da Cáritas, “é aí que reside, para todas elas, a fonte da autonomia que desejam para poderem retomar a normalidade da vida que tinham”.
O número de residentes em Portugal a viver em condições de privação material aumentou entre 2011 e 2012. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), revelados ontem, 21,8% da população foi afectada por estas dificuldades no ano passado, num total a rondar os 2,3 milhões de pessoas. Por outro lado, a privação material severa também cresceu no mesmo período - de acordo com o INE, incidiu sobre 8,6% da população em 2012, ou seja, cerca de 900 mil residentes.
Eugénio da Fonseca considera que a realidade pode ser ainda mais grave e lembra o recente estudo da Cáritas, que aponta para 2,7 milhões de portugueses na pobreza.“Já conseguimos ter ao nível das taxas de desemprego indicadores actualizados, com diferenças de meses. Não podemos continuar a ter, em fl agelos tão graves como o da pobreza, dados que se reportam a um ano e a dois anos, porque isso, em termos da evolução dos problemas, torna-se tão rápido que a actuação que devemos ter sobre esses mesmos problemas revela-se desajustada. Estamos, muitas vezes, a actuar sobre causas que podem já estar muito mais agravadas do que aquilo que nós supomos”, sustenta.
Eugénio da Fonseca sustenta que “a solidariedade dos portugueses tem cumprido uma missão importantíssima, porque, se não fosse assim, a taxa da chamada pobreza severa, a que o estudo se refere, era muito maior”. “Tem sido graças a essa solidariedade que, pelo menos, há pessoas que ainda conseguem fazer mais refeições por dia, que ainda conseguem ter assegurada a sua casa e algum conforto na sua casa: não têm a luz cortada, têm acesso ao gás, a medicamentos cujas comparticipações não baixaram, há crianças que continuam nos infantários, alunos que não interromperam a sua carreira académica.” [LUSA]

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Papa Francisco: "Repensar a solidariedade, não como mera assistência aos pobres, mas como reforma geral de todo o sistema"


"O fenómeno do desemprego, da falta e da perda de trabalho estende-se como uma mancha de óleo a vastas zonas do Ocidente e alarga-se de forma preocupante nas fronteiras da pobreza. E não há pior pobreza material, gostaria de o sublinhar, do que aquela que não permite ganhar o próprio pão e que priva da dignidade do trabalho. Doravante este "algo que não funciona" já não diz respeito apenas à parte sul do planeta, mas ao mundo todo. Eis então aqui a necessidade de "repensar a solidariedade", não como mera assistência aos pobres, mas como reforma geral de todo o sistema, como busca de caminhos para o reformar e corrigir em sintonia com os direitos fundamentais do homem , de todos os homens. À palavra "solidariedade", que não é bem vista pelo mundo dos negócios - como se fosse um palavrão - torna-se necessário voltar a conferir-lhe a sua cidadania social. A solidariedade não é uma atitude mais, não é uma instituição de caridade social, é um valor social. E ela pede-nos a sua cidadania".
As palavras são do Papa Francisco e acabam de ser proferidas ao receber no Vaticano uma delegação da Fundação Centesimus Annus Pro Pontifice, instituída pelo beato João Paulo II.

Para o bispo de Roma, "a atual crise não é apenas económica e financeira, mas está enraizada numa crise ética e antropológica".
"Colocar os ídolos do poder, o lucro e o dinheiro acima do valor da pessoa humana - acrescentou o Papa -  tornou-se norma fundamental  de funcionamento e critério decisivo de organização.  Esquecemo-nos que acima dos negócios, da lógica e parâmetros do mercado, estão os seres humanos e há algo que é devido ao homem enquanto homem, por causa da sua profunda dignidade: oferecer-lhe a oportunidade de viver com dignidade e de participar ativamente no bem comum. Bento XVI lembrou-nos que toda a atividade humana, incluindo a atividade económica, porque é humana, deve ser articulada e institucionalizada eticamente (cf. Enc. Caritas in veritate, 36). Devemos regressar à centralidade do homem, a uma visão mais ética das atividades e relações humanas, sem medo de perder coisa alguma".

(Foto de uma escultura de José Rodrigues, Casa de Vila Nova de Cerveira)