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sábado, 27 de fevereiro de 2016

O Bloco tem dois problemas

Sobre a polémica que ontem dominou comentários políticos e mediáticos, fui convidado a escrever um comentário no Diário de Notícias, que foi hoje publicado; aqui fica o texto:

A imagem do Bloco sobre Jesus tem um problema constitucional: pode um partido político fazer profissão de fé pública em Jesus Filho de Deus – aquilo em que acreditam os cristãos? Se, por exemplo, um primeiro-ministro se benzesse publicamente, quantos não o censurariam por ameaças à laicidade? António Guterres fê-lo uma vez e foi criticadíssimo (ou seja, um político perde o direito às convicções pessoais, mesmo se tal não ameaça em nada o Estado ou a laicidade).
O BE faz pelo menos duas profissões de fé: em Jesus como Filho de Deus e em Deus-Pai. E tem outro problema: ignora a figura da mãe e refere apenas o tradicional Deus-pai. O que, para muitos cristãos, hoje, é redutor, porque entendem Deus como pai e mãe. O Bloco alia-se, assim, ao cristianismo conservador (também na imagem usada).
A frase não é original, já vários grupos protestantes e católicos a publicaram – ver o BE a imitar cristãos tem graça... E, mais do que ofensiva (o que a frase diz é verdade cristã), a imagem é um desastre de comunicação. Como diz o grupo Rumos Novos, de homossexuais católicos: “Atitudes como [esta] terão sempre o efeito contrário ao pretendido e tornarão mais difícil a integração plena das pessoas de orientação homossexual, criando anticorpos...” E Marisa Matias, a eurodeputada do Bloco, escreveu no Facebook: “Acho que saiu ao lado da intenção que se pretendia. Que foi um erro.”
Seria interessante ver o Bloco preocupado também, por exemplo, em apoiar as crianças cristãs perseguidas só pelo facto de o serem (na Síria, Iraque, Palestina, Índia...). E também seria interessante ver a indignação de tantos católicos voltar-se não tanto contra cartazes com pouca graça mas contra a tirania financeira que despreza as pessoas – filhas de Deus e irmãs umas das outras, como afirma a fé cristã. É porque o Deus dos cristãos deve rir-se imenso com estas birras sem interesse. O que o afligirá mesmo é o sofrimento de tantas pessoas.
(Texto disponível também aqui)

Texto anterior no blogue
Perante as migrações, ultrapassemos o medo - texto do ir. Aloïs, de Taizé




quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A revolução franciscana (7) – Um Papa que se mete na economia e na política

Sob o título genérico A revolução franciscana, publiquei no Jornal de Notícias, durante o mês de Dezembro, oito trabalhos sobre o Papa Francisco, que tentam fazer um balanço do que tem sido este ainda curto mas intenso pontificado. Este é o sétimo trabalho da série. 




O Papa Francisco no II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, 
que decorreu em Julho de 2015, na Bolívia (foto reproduzida daqui)

Para o Papa Francisco, o Evangelho de Jesus exige  o compromisso com os outros. Por isso ele vai buscar o pensamento social cristão desde os primeiros séculos para defender que, hoje, os problemas estão todos relacionados e propor os caminhos alternativos que passam pela centralidade da pessoa na actividade política.

“Devemos dizer ‘não a uma economia da exclusão e da desigualdade social’. Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão.”
A frase foi cunhada pelo Papa Francisco na exortação Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), de Novembro de 2013, e sintetiza a preocupação por recolocar as pessoas no centro da actividade política, em detrimento de uma “economia sem rosto”.
Estamos perante um Papa mais político do que os anteriores? Nem tanto. Desde os primeiros séculos do cristianismo, os mais importantes teólogos são violentamente críticos do poder político e económico, chegando alguns a defender a possibilidade de roubar matar a fome. No século XIX, com a encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, que funda a moderna doutrina social da Igreja, continuou a defesa prioritária dos que sustentam, com o seu trabalho, a pirâmide social.
Mesmo se esse pensamento foi evoluindo, as ideias fundamentais foram sempre a prioridade da pessoa sobre o capital, do bem comum sobre o bem privado, do direito ao trabalho, à habitação e a condições de vida dignas (ver texto ao lado).
A diferença com os pontificados anteriores é que Francisco aponta exemplos concretos para traduzir essas ideias. E não se inibe de usar circunstâncias simbolicamente fortes – participando num encontro de movimentos populares ao lado do Presidente boliviano, Evo Morales, entrando numa favela do Rio de Janeiro, visitando um campo de refugiados do Quénia ou indo a um bairro de muçulmanos cercado por milícias cristãs, numa República Centro-Africana em guerra civil.
Francisco fala mais vezes destas questões e coloca-as como prioridade sobre outras. Ainda no dia 30 de Novembro, a regressar da viagem a África, e perguntado sobre o preservativo, ele repetiu o que Bento XVI já dissera: “Sim, é um dos métodos” de prevenção do contagio da sida, por exemplo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A política entra nas igrejas, mas a campanha eleitoral fica à porta

Reportagem


Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa 
(foto © Carlos Manuel Martins/Global Imagens)

No DN de hoje, uma reportagem assinada por Miguel Marujo, sobre o modo como, afinal, os textos do Evangelho podem ajudar a formar opinião política em tempo de campanha:

Sem iniciativas de campanha à porta de igrejas, as leituras deste fim de semana tinham uma linguagem política dura sobre a exploração dos trabalhadores e a capacidade de acolhimento pelos cristãos
Longe da prática que se vê na Madeira, com os candidatos que acorrem de microfone à saída das missas, à porta das igrejas no centro de Lisboa não há campanha eleitoral e visíveis só os cartazes que andam pelas ruas. No interior menos ainda, mas a política entra pela porta das leituras deste domingo. A democracia amadureceu, como também os cidadãos - e, entre estes, padres e leigos. São raros os que debitam votos do púlpito. A César o que é de César, no apelo direto ao voto, mas Deus não se afasta das coisas do mundo, avisou o Papa Francisco, ainda agora no Congresso dos EUA. "Envolver-se na política é um dever cristão", disse. Assim seja.
São Tiago, de quem se leu neste fim de semana a sua epístola (Tg 5,1-6), é claro como a água. "É uma linguagem violenta mas também colorida em que São Tiago diz verdades fortes", antecipou o padre António Janela, na missa das 18.30 de sábado, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, a meia dúzia de passos do Marquês de Pombal, em Lisboa.
O autor denuncia os ricos que acumularam tesouros. "Privastes do salário os trabalhadores que ceifaram as vossas terras. O seu salário clama; e os brados dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do Universo. Levastes na terra uma vida regalada e libertina, cevastes os vossos corações para o dia da matança. Condenastes e matastes o justo e ele não vos resiste."
É uma leitura inequívoca para estes tempos de crise, em que os salários e as pensões foram cortadas e o fosso entre rendimentos mais altos e os mais baixos aumentou em Portugal, em que o desemprego disparou e os apoios sociais diminuíram. Tiago escreve que acumular bens à custa da miséria e da exploração dos trabalhadores é um crime abominável a que Deus não pode fechar os olhos e deixar impune.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Taizé: quatro eurodeputados dizem como respondem ao apelo do Papa

Dois democratas-cristãos e dois verdes comentam referência do Papa no PE ao cuidado com a fragilidade


O Papa Francisco no Parlamento Europeu, em Novembro 
(foto reproduzida daqui

Como reagem quatro eurodeputados aos apelos do Papa Francisco no Parlamento Europeu (PE)? Em Novembro, o Papa fez um discurso em Estrasburgo que “desafiou os deputados a agir” mas, “infelizmente, sem grandes consequências”.
Ou talvez não. A opinião pessimista de Sven Giegold, eurodeputado dos Verdes Alemães, não é inteiramente partilhada por Alojz Peterle, democrata-cristão e primeiro-ministro esloveno entre 1990-92, quando o país se tornou independente, após o fim da ex-Jugoslávia comunista.
O discurso do Papa foi ouvido por muitos deputados que, no seu trabalho parlamentar, procuram colocar os apelos de Francisco em acto, defendeu Peterle.
Ambos os deputados participaram em Taizé, esta semana, em debates sobre política e solidariedade, no âmbito do encontro Por uma Nova Solidariedade.
Num dos debates, juntaram-se a outros dois membros do Parlamento Europeu (PE): o húngaro Gyorgy Holvenyi, democrata-cristão, e o belga Philippe Lamberts, dos Verdes.
O tema tomou uma frase do Papa no discurso de Novembro aos eurodeputados: “Na vossa vocação de parlamentares, sois chamados também a uma grande missão (...): cuidar da fragilidade, da fragilidade dos povos e das pessoas.”
Sven Giegold, protestante, disse que tem procurado fazer da sua fé o fundamento da sua intervenção política. E foi muito contundente: o Papa desafiou duas vezes os eurodeputados a agir em diferentes campos. “Sem consequências.”
Ao contrário do que deveria acontecer, disse, apontando quatro âmbitos como exemplo.
“O Papa falou de opção pelos pobres. Não é justo, por isso, que os mais ricos não paguem impostos” em vários domínios. Francisco referiu-se ainda aos migrantes. “Muitos imigrantes vêm para a Europa e continua a haver mortes e violências sobre eles. Não houve mudanças neste âmbito.”

terça-feira, 19 de maio de 2015

Lluís Duch, monge de Montserrat, antropólogo da vida quotidiana: duas intervenções em Lisboa

Agenda

O catalão Lluís Duch, monge de Montserrat e professor da Universidade Autónoma de Barcelona, está nesta quarta-feira em Lisboa, para participar num colóquio sobre Desporto, Ética e Transcendência, que começa às 9h e se prolonga até cerca das 18h30.
A intervenção de Lluís Duch, sobre Sacralidades desportivas, símbolos, mitos e rituais, decorre na Universidade Católica a partir das 9h30 (e não às 14h30, como estava previsto, por impossibilidade de última hora de Pablo d’Ors, que deveria intervir no início da manhã; a intervenção de Pablo d’Ors, autor da Biografia do Silêncio e de Sendino Está a Morrer será lida às 14h30; o restante programa pode ser consultado aqui).
Duch, monge de Montserrat desde 1961, é autor de mais de meia centena de títulos, entre os quais Religión y PolíticaReligión y Comunicación e de uma Antropologia de la Vida Quotidiana (cujo segundo volume tem o título Ambigüedades del Amor).
Numa entrevista a ReligionDigital, sobre Religión y Política (disponível aqui), Duch afirmava que o religioso e político cobrem, muitas vezes, o mesmo campo, “que é o campo do humano”. O que desmente essa ideia tão comum que religião e política podem ser duas realidades separadas. Pelo contrário: “No religioso há implicações políticas e no político há implicações religiosas.”
Lluís Duch é igualmente tradutor, para o catalão, de autores como Lutero, Angelus Silesius ou Dietrich Bonhoeffer e a sua importância no pensamento e na cultura catalães já foi objecto de um livro-homenagem com o título Empalabrar el mundo –

Conversa livre na Capela do Rato


Também nesta quarta-feira, às 21h30, Lluís Duch estará na Capela do Rato, em Lisboa, para uma conversa livre precisamente sobre os temas maiores da sua investigação: religião, antropologia do quotidiano, política e comunicação.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Jesus e Deus, política, ateísmo e liberdade religiosa

Crónicas

No comentário aos textos bíblicos da liturgia católica de domingo passado, Vítor Gonçalves escreve, na Voz da Verdade, sob o título Conheço Jesus?:

Que “vinde e vede” podemos hoje oferecer a quem procura Jesus? Que testemunho de alegria, de jovialidade, de esperança, de “gosto de gostar de alguém” vivemos, nós, cristãos? Com que Jesus vivemos, que possa interpelar os que sentem o vazio do consumo, como perguntava o Papa Bento XVI: “vós que tendes tudo, porque não alcançastes a felicidade?”
(o texto completo está disponível aqui)


Na crónica de domingo, no Público, frei Bento Domingues escreve sobre A política do Natal:

A conversa de taxista sobre política e políticos generalizou-se. Faz deles os responsáveis por todos os males. Está decretado que são e serão todos iguais.
 Pela ausência de pensamento crítico, esta atitude é preguiçosa e perigosa. Certeiro é o aforismo: as mãos mais puras são as de quem as não tem. Não querer nada com a política é esquecer que ela, desde que nascemos até ao cemitério, nunca nos larga.
Descobri há 60 anos, com algum espanto, a apologia da política, precisamente ao começar o estudo da obra filosófica de S. Tomás de Aquino. No proémio do seu comentário à Política de Aristóteles observa: se a ciência mais importante é aquela que estuda o que há de mais nobre e mais perfeito, é necessário que seja a política a principal das ciências práticas e a matriz arquitectónica de todas as outras.
(o texto completo está disponível aqui)


Sábado, no DN, com o título A dignidade de ser ateu, Anselmo Borges escrevia sobre questões como o ateísmo e liberdade religiosa:

Penso que, para a liberdade religiosa, há duas condições essenciais. Uma tem que ver com a leitura histórico-crítica dos textos sagrados. A outra exige a separação do Estado e da Igreja, da religião e da política. Sem um Estado confessionalmente neutro, laico, que garanta a liberdade religiosa de todos, continuará a capitis diminutio (perda de direitos) dos cidadãos que não sigam a religião oficial do Estado.
(o texto completo está disponível aqui)


Na sexta, no Correio da Manhã, Fernando Calado Rodrigues escrevia sobre a pergunta Deus existe?, a propósito do livro Deus Ainda Tem Futuro:

Ninguém tem a certeza absoluta da sua existência, mas os cristãos leem a história do mundo e a sua história pessoal à procura desses sinais da presença de Deus ou da sua ausência. Descobrem que o podem fazer presente pelos seus gestos de gratuidade, ainda que os que não creem os reduzam a mera filantropia.
Não sabem se Deus tem futuro. Mas acreditam num futuro melhor quando tem Deus como horizonte. Deus que os desafia a empenharem-se na transformação e na humanização de um presente em ordem a um melhor futuro. Assim encontram razões para acreditar e dão testemunho da sua fé.
(o texto completo está disponível aqui)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Os católicos na luta contra a ditadura (1) – Porque os outros se calam mas tu não...

25 de Abril, 40 anos

Foi “uma homenagem a todos os que souberam dizer ‘não’ ao regime da ditadura que vigorou entre 28 de Maio de 1926 e 25 de Abril de 1974” – sobre cuja data passam este ano 40 anos –, nas palavras de José Dias, que animou o encontro. Iniciativa com características de história oral, realizou-se a 22 de Fevereiro último, no Convento de São Domingos, em Lisboa, um encontro sobre Os Católicos na luta contra a ditadura, que reuniu cerca de 180 pessoas durante uma tarde inteira.  
Organizada pelo Instituto São Tomás de Aquino, dos padres dominicanos, e pelo Movimento Não Apaguem a Memória, a iniciativa contou com testemunhos, alguns deles com histórias inéditas, depoimentos escritos e música.
Até ao próximo dia 25 de Abril, o RELIGIONLINE vai publicar os depoimentos escritos que foram lidos no encontro, além de histórias desenvolvidas a partir das informações e testemunhos ali partilhados.
A música, interpretada ao vivo por Francisco Fanhais, marcou o momento inicial. É desse momento que aqui ficam dois registos. O primeiro, um excerto de Porque, poema de Sophia de Mello Breyner:



Porque os outros se mascaram mas tu não 
Porque os outros usam a virtude 
Para comprar o que não tem perdão. 

Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados 
Onde germina calada a podridão. 

Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem 
E os seus gestos dão sempre dividendo. 
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos 
E tu vais de mãos dadas com os perigos. 
Porque os outros calculam mas tu não, tu não...


O segundo, a interpretação de Utopia, música de José Afonso:


Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
lança o teu
desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para as margens do Oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?

(Próximo texto, dia 28: Testemunho sobre a resistência dos cristãos, de Guilherme d'Oliveira Martins)

domingo, 14 de outubro de 2012

Patriarca: um tiro no pé .. ou nos dois


Aparentemente, para D. José Policarpo, "o poder está na rua". Algo que parece apavorá-lo, mas que, para já, pelo menos, só existe na sua cabeça.
Talvez o facto de ter começado a ver e ouvir canções e palavras de ordem de 1974 o levem a concluir que estamos nas vésperas de um novo período revolucionário. Não será ver de mais?, perguntei-me ao ouvi-lo. Não existem órgãos de soberania a funcionar (ainda que com debilidades)?
E desde quando é que manifestar descontentamento e indignação com medidas de governo constitui motivo de repreensão moral, sobretudo quando, reconhecidamente, várias dessas medidas se caraterizam pela injustiça e pela iniquidade? Não é dever dos cidadãos dar conta desse sentimento e pressionar, de forma pacífica, no sentido de levar os governantes a arrepiar caminho enquanto é tempo?
Mas as palavras do Patriarca suscitam-me um problema bem mais sério e inquietante: desde quando é que um bispo - ainda por cima presidente da Conferência Episcopal - deve dar indicações sobre como devem os católicos e os cidadãos em geral atuar na vida social e política? Acaso não será tal indicação uma forma de intromissão na esfera da legítima liberdade e no campo dos direitos fundamentais reconhecidos na Constituição da República?
Por fim, é triste ver D. José Policarpo criticar os que vão para a rua protestar e calar-se perante uma política sem esperança, que já deu provas de estar a lançar para o abismo se não o país pelo menos largas franjas da população. Com que fundamentos defende a bondade das medidas de choque e nos quer mudos e quedos? Não será essa uma visão tão partidária como as que se lhe opõem?
Salvo melhor opinião, o Patriarca de Lisboa, que nos foi habituando a uma intervenção clarividente na leitura dos sinais dos tempos, assume aqui posições que não são do seu foro e silencia a miséria económica e moral que contraria o que o Evangelho e a doutrina social da Igreja defendem.
Porque entendeu fazê-lo é para mim um mistério. Porque o fez exatamente na véspera da manifestação das gentes da cultura em 20 cidades do país e do final da marcha pelo desemprego é outro. Não será certamente uma forma de pré-inaugurar o 'diálogo' do Pátio dos Gentios e de investir na "nova evangelização".

Complemento: Cardeal Patriarca considera que "não se resolve nada contestando"

(Crédito da foto: Lusa)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

O voto católico bom e o voto católico mau

Há um voto católico bom e outro mau? Parece que há quem defenda que sim. Felizmente, há muito que o pluralismo do voto eleitoral é admitido pela doutrina católica mais ortodoxa – precisamente porque cada pessoa valoriza determinados aspectos em detrimento de outros. Mas há quem advogue ainda que o voto “bom” é aquele que se preocupa basicamente com a moral familiar e sexual (aborto, homossexualidade e, em geral, questões ligadas à “família”, mesmo se a realidade familiar é hoje muito plural). Será assim?

Este é o início de um texto que acabei de publicar no site do Público. O texto integral pode ser lido aqui.

sábado, 30 de outubro de 2010

Na Suécia é assim...


Ao ver este vídeo sobre a vida dos Deputados suecos, quando estão na capital, em serviço, é difícil não fazer comparações, mesmo correndo o risco de alguma demagogia. Eu conheço um ou outro caso, em Portugal, mesmo de ministro, que não anda longe do retrato aqui pintado. Mas a nossa "cultura" é bem outra: exercer cargos públicos (e privados) significa mudar de vida, exibir prerrogativas, subir no status. Como se o valor estivesse associado a este tipo de sinais e de estilo de vida.
É a mesma coisa com o exercício de outro tipo de cargos, dos mais altos aos mais humildes, nos mais diversos sectores: exercê-los significa para muitos - independentemente de ideologias, arranjar criados que lhes façam serviços, em vez de prestarem eles próprios serviço aos outros.
Enquanto assim for, "não vamos lá"! Até a crise se enfrentaria melhor. Ou não?

domingo, 18 de outubro de 2009

O pecado original e a política

No seu artigo de sábado no DN, Anselmo Borges reflecte sobre o pecado original e a política. E escreve:

O risco é servir-se em vez de servir. Ou servir alguns apenas e não o bem comum. Corromper e deixar-se corromper. Não respeitar a separação de poderes e, concretamente, a independência do poder judicial. E que acontecerá quando o poder, mesmo conquistado legitimamente, se exerce sem competência intelectual, moral e técnica?
A tentação é tamanha que mesmo na Igreja se esqueceu a revolução única do cristianismo: Deus não se revelou como omnipotência abstracta, mas força infinita do amor criador. E Cristo disse: "Não vim para ser servido, mas para servir."

Aqui pode ler-se o texto completo.

sábado, 18 de julho de 2009

O nosso presente e o nosso futuro, em tempo pré-eleitoral

Foi divulgado hoje o documento "O nosso presente e o nosso futuro - algumas questões prementes: Contributo para o debate político". O importante texto, que merece a nossa atenção neste período pré-eleitoral, começa assim:

Encontramo-nos hoje em Portugal mergulhados numa dupla crise: uma que vem muito de trás, resultante de uma não-definição clara de objectivos consensuais para o futuro do País e outra, que resultou da aceleração e agudização desta pela crise global.
Estamos em vésperas de eleições. Os cidadãos, mulheres e homens, poderão ficar, mais uma vez, perante um menu diversificado de propostas avulsas, raramente bem esclarecidas e coerentes, sem terem em seu poder os dados necessários para fundamentarem e fazerem as suas escolhas. Continuarão alienados pela retórica dos discursos e cada vez mais descrentes quanto à importância do seu voto.
Urge, pois, neste momento crítico da sociedade portuguesa e da democracia, encontrar modos de proporcionar uma opinião pública esclarecida. E isto faz-se, em grande medida, através de debates sérios, diversos, com homens e mulheres de áreas distintas capazes de reflectir e formular não apenas “críticas pontuais”, tantas vezes de mera oportunidade partidária, mas capazes de trazer ao debate questões de fundo, conteúdos argumentados, propostas viáveis e que vão para além das receitas já conhecidas. Há que acreditar que novos projectos às escalas global e nacional são possíveis.

Pode acrescentar-se que o texto se torna mais premente, quando reparamos na (falta de) qualidade do debate que a maior parte dos comentários em sites e blogues dá mostra. A indigência habitual desses comentários continua a revelar-se, também neste tema, como um dos sintomas da baixa qualidade da cidadania que existe em Portugal: discute-se tudo ao lado, sempre com uma arrogância e uma má educação absoluta. Mas vale a pena ler o documento, escrito por várias pessoas de qualidade reconhecida. O texto está aqui.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Lourdes Pintasilgo, uma mística na política

Há cinco anos, fez dia 10, estava eu em Barcelona a acompanhar o Parlamento Mundial das Religiões e a notícia apanhou-me de surpresa, lida pela manhã no site do Público: Maria de Lourdes Pintasilgo tinha-nos deixado. Vivi um dia solitário e triste, recordando uma mulher que tanta vida e alegrias nos dera, e que tanto nos falara da comunidade, do empenhamento colectivo, da possibilidade de um mundo mais feliz para todos.

Lourdes Pintasilgo nunca coube na mediocridade nacional. A sua vida e experiência internacionais ultrapassavam-nos a todos, olhavam o mundo como uma família inteira que precisava de sarar e alimentar muitos dos seus membros, que precisava de formar e educar as pessoas para a saúde, para a responsabilidade cívica e política, para a participação na vida das comunidades. E fazia-o, sempre, em nome da fé que a animava, em nome de uma mística que ligava a fé e a cidadania, porque ambas são indissociáveis.

No site da Fundação Cuidar o Futuro, que ela instituiu e que herdou o espólio dessa vida cheia, pode encontrar-se um documento sobre o sagrado e a política, objecto de uma conferência na Gulbenkian em Abril de 1989. Nele se lê:

"Porque o cristianismo não é, em primeiro lugar, uma religião, não há, para o homem da fé, distinção entre o sagrado e o profano.
Três notas apenas a recordá-lo:

Primeiro, o cristianismo está para além do espaço sagrado. Após a expulsão dos vendilhões, Cristo responde aos fariseus dizendo-lhes que, se quiserem, poderão destruir o templo porque Ele o reconstruirá em três dias; desloca o espaço sagrado para a sua própria existência.

Segundo, o cristianismo está para além de um tenpo sagrado. Quando os fariseus o interpelam por curar um paralítico ao sábado, Ele responde-lhes que é Senhor do sábado.

Finalmente, a decisão tomada pelos apóstolos no I Concílio de Jerusalém de não exigirem a circuncisão, significa a liertação do cristianismo nascente em relação ao ritual sagrado. E Pedro vai mesmo mais longe ao dizer, na sua primeira carta, que o sacrifício necessário é um sacrifício espiritual, uma vida santa, misericordiosa, compassiva.

Ao homem do sagrado - do ritual e do sacrifício - contrapõe-se o homem espiritual, o homem cujo estatuto próprio é o de uma fundamental liberdade. (...) Para o homem espiritual, a grande questão face à política não é a distinção entre o sagrado e o profano. É, antes, a relação íntima entre a mística e a política."

O documento na íntegra pode ser lido aqui.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A Igreja e a crise nas Honduras

Precisamente porque a leitura do que se vinha e tem vindo a passar nas Honduras não é redutível à lógica do preto e do branco e porque a tensão latente pode levar a resultados lamentáveis é que não deixa de ser surpreendente a tomada de posição da Conferência Episcopal do país, riscando sem hesitações a favor daqueles que o geral da comunidade internacional considera serem golpistas.
A mim espanta-me esta agilidade na tomada de partido, num subcontinente onde os movimentos dos militares na esfera do poder político, ao longo de boa parte do século XX - incluindo nas Honduras até aos inícios dos anos 80 - deveria aconselhar alguma precaução. E o cardeal e arcebispo de Tegucigalpa Oscar Andrés Rodríguez, que esteve em Maio passado em Fátima, não é um hierarca qualquer. Não era ele um dos 'papabile', aquando do último conclave?