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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Brasil: um país em mudança, também religiosa

O Brasil onde chega hoje o Papa Francisco tem conhecido mudanças profundas não apenas na sociedade, na economia e na política, mas também no plano religioso (cf quadro).

O catolicismo continua a ser a confissão religiosa mais importante, mas a percentagem dos brasileiros que se identificam como católicos caiu de 92 para 65% em 40 anos (1970-2010), segundo dados recentemente publicados pelo norteamericano Pew Research Centre.

O protestantismo é que tem crescido de forma significativa: só entre 2000 e 2010 passaram de 26 a 42 milhões: não tanto as expressões consideradas históricas - luteranas, calvinistas e metodistas - mas as mais jovens, pentecostais e evangélicas, algumas fundadas no próprio país, como a Igreja Universal do Reino de Deus.

Desde 1970 para cá, o grupo de pessoas que se dizem sem religião, agnósticos e ateus cresceu também de forma significativa,de um para 15 milhões.

A diminuição do número de católicos afeta sobretudo as zonas urbanas e a população mais jovem. No Rio de Janeiro, cidade que acolhe esta semana as Jornadas Mundiais da Juventude, os que se dizem católicos representam menos de metade da população(46%).

[Fonte e mais informação: AQUI]

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O pluralismo na recomposição da identidade religiosa em Portugal


Livro - Ensaio

Nem as minorias são um bloco monolítico perante a maioria católica nem esta pode ser apreendida “numa suposta homogeneidade”.
Já fazia falta um livro assim, que retratasse o Portugal religioso em transformação. A obra “Identidades Religiosas em Portugal” será apresentada publicamente esta quinta-feira, dia 20 (18h30, Arquivo Fotográfico Municipal, Rua da Palma, 246, em Lisboa), com uma intervenção do historiador António Matos Ferreira. O livro (ed. Paulinas) cruza a história, a sociologia e a antropologia para nos oferecer uma vasta  e profunda cartografia contemporânea da pluralidade e diversidade religiosa num país que, até há pouco, era marcadamente monolítico.
Alfredo Teixeira, que coordena o estudo, recorda alguns debates e questões que se vêm afirmando como nucleares na recomposição do tecido religioso: “a necessidade de uma ‘cultura religiosa’ como condição de aprofundamento da cidadania democrática” é um desses factores, traduzido por exemplo no debate sobre o lugar da religião na escola. A propósito, recorda o coordenador que um relatório de 2002, pedido pelo então ministro francês da Cultura, Jack Lang, a Régis Debray (autor de “Deus, Um Itinerário”, ed. Âmbar) evidenciou a necessidade de estudar os códigos religiosos como forma de ajudar a “ler muitas das produções culturais das sociedades – pensamento, arte, modos de vida, representações sociais, etc.”
Outro factor a ter em conta na mudança religiosa é a imigração, muitas vezes convocada a par de uma “determinada mundividência religiosa”.
Num tempo de modernidade radicalizada, nota ainda Alfredo Teixeira, “a narrativa da autonomia do sujeito moderno – a mesma que antes justificou as teorias do fim da religião – pode explicar agora, afinal, as recomposições do religioso na cena pública”. É que “o reinvestimento nas funções sociais do religioso alimenta-se dos valores da liberdade individual, em particular a liberdade de consciência”.
O estudo recorda ainda que Habermas sublinhava que a identidade religiosa não pode ficar entre parêntesis na vida dos cidadãos, antes deve exprimir-se como “fonte possível de sabedoria, válida para a construção de consensos” sociais.
Do estudo surgem ainda as noções de rede ou bricolage para explicitar o fenómeno religioso contemporâneo. E apresentam-se estudos específicos seja sobre o campo católico (entre o território e a rede), seja sobre o protestantismo, desde cedo dividido em diversas correntes, ou ainda sobre grupos como o islão, o hinduísmo e outros.
Para complementar o tema do livro, vale a pena (re)ler a entrevista que Alfredo Teixeira me concedeu em Maio passado, a propósito do estudo sobre Identidades Religiosas em Portugal, bem como o texto de opinião do investigador, em que ele propõe um “átrio” para o encontro com os “não pertencentes”.

domingo, 14 de junho de 2009

João Calvino em português

Na sua crónica deste domingo no Público, frei Bento Domingues fala das obras de/sobre Calvino e Lutero publicadas recentemente em Portugal.

1. Tem sentido reabrir o passado, não por ser passado, mas, como dizia Paul Ricoeur, para “libertar a sua carga de futuro”. As obras teológicas de Lutero e Calvino – dois dos nomes mais influentes da Reforma protestante – nunca foram incorporadas na cultura religiosa portuguesa. Consciente desta lacuna, o Cento de Estudos de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, para assinalar os 450 anos da morte de Martinho Lutero (1483-1546), organizou um importante colóquio para situar o seu papel no advento da Modernidade (1).


Recordando, depois, uma data decisiva na célebre controvérsia em torno da questão das indulgências (31 Outubro 1517), o mesmo Centro não se contentou com o seu debate anual sobre o significado da Reforma. Publicou a tradução das famosas 95 Teses de Martinho Lutero, tenham elas sido ou não afixadas na porta da Igreja de Vitemberga (2).

João Calvino nasceu há 500 anos, no dia 10 de Julho. De novo, o Centro de Estudos de Ciência das Religiões não quis deixar essa data em branco, publicando a tradução da sua Breve Instrução Cristã (3).

As esmeradas traduções e introduções dos textos referidos – que apontam para a obra imensa desses clássicos – pertencem a Dimas de Almeida, professor da Universidade Lusófona.

A importância do pensamento calvinista foi destacada por Max Weber (1864-1920), um dos modernos fundadores da Sociologia e autor de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Seja qual for a opinião sobre a tese desta grande obra de Max Weber, não podemos esquecer o seu impacto na discussão da génese e interpretação do capitalismo. Além disso, como recorda Dimas de Almeida, o contributo de Calvino para a ideia de democracia no Ocidente foi sublinhado por alguns analistas e não seria descabido encontrar, na origem do nosso sistema democrático, marcas dos presbiterianos dos EUA.

2. Se João Calvino influenciou a história do mundo ocidental não foi, apenas nem sobretudo, no plano económico, social e político. Aos 24 anos abraçou a causa da Reforma e, para ele, o fundamental era submeter a Igreja à Palavra de Deus. Karl Barth, de tradição calvinista e uma das figuras mais importantes da teologia do século XX, tem o cuidado de sublinhar que Calvino “nunca foi o nosso papa. (…) Os reformadores, nossos pais na fé, unidos aos pais da Igreja antiga, não podem ser para nós mais do que antepassados que nos ajudam a compreender. A verdadeira autoridade dos cristãos protestantes é a Palavra, aquela que o próprio Deus pronunciou, pronuncia e pronunciará eternamente mediante o testemunho do seu Espírito Santo nos escritos do Antigo e do Novo Testamentos. Calvino é para nós um mestre na arte de escutar esse singular e único ensino da Igreja”.

Não é por acaso que se deve a Karl Barth o empenho na luta pela independência da Igreja frente ao nacional-socialismo. Foi ele que redigiu a Declaração Teológica de Barmen, adoptada no Primeiro Sínodo Confessante da Igreja Evangélica Alemã, realizado entre 29 e 31 de Maio de 1934, tentando encontrar uma orientação para os cristãos confusos diante da ascensão de Hitler: a Igreja deve obediência exclusiva ao seu Senhor e ao Evangelho e a sua característica essencial é ouvir a Deus. O último parágrafo da Breve Instrução Cristã, agora traduzida, reza assim: “Enfim, não é de nenhum outro modo senão em Deus que somos submetidos aos homens que foram estabelecidos acima de nós. E se eles nos ordenam algo contra o Senhor, não devemos ter isso em conta, pondo antes em prática esta máxima da Escritura: Impõe-se-nos mais obedecer a Deus do que aos homens”.

3. Hoje, é voz corrente sublinhar que tanto Lutero como Calvino pretendiam trabalhar na reforma da Igreja, mas dentro do catolicismo e sob a autoridade do Papa. Devido a vários e complexos factores, a ruptura trágica consumou-se e continua. Durante a Contra Reforma católica, a personalidade religiosa de ambos foi, muitas vezes, injustamente denegrida. Só no século XX, os historiadores católicos reapreciaram essa história, mostrando a grande estatura humana, cristã e teológica destes reformadores.

Superada a violência pela tolerância recíproca, chegou o tempo da procura do conhecimento mútuo que favoreça um diálogo que vá alterando a mentalidade e a atitude de todos. É esse o caminho do ecumenismo entre as Igrejas cristãs.

O diálogo ecuménico exige rever questões histórico-teológicas, mas não as pode rever como se procurasse voltar ao século XVI. Seria anacrónico e já não têm remédio. Importante seria ver o que há de futuro nessas problemáticas, nesses encontros e desencontros. O verdadeiro ecumenismo só pode ser realizado perante os desafios que afectam a missão presente das Igrejas na luta contra situações de exploração intolerável, seja onde for. Se as Igrejas cristãs não se quiserem deixar inter-fecundar na busca de caminhos de evangelização, não podem pretender ser o sal da terra e a luz do mundo.

(1) VV.AA., Martinho Lutero. Diálogo e Modernidade, Edições Universitárias Lusófonas, 1999.
(2) Org., trad. e introdução de Dimas de Almeida, Cadernos de Ciência das Religiões, nº15, 2008.
(3) João Calvino, Breve Instrução Cristã, Org., trad. e introdução de Dimas de Almeida, Revista Lusófona de Ciência das Religiões, Série Monográfica, Vol. III, 2009.