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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Verdade, mentira e tortura

Texto de Silas de Oliveira




Placa na sede da CIA com a frase do Evangelho de São João

Entre as primeiras palavras de Jair Bolsonaro, uma vez confirmada a vitória nas presidenciais brasileiras – antes da oração de graças pela sua eleição e do discurso de propósitos –, ouvimos uma citação do Evangelho segundo S. João: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
Curiosamente, é esta mesma inscrição que se encontra gravada numa parede, na entrada do primeiro edifício-sede da CIA, em Langley, Virginia, como divisa da instituição: “And ye shall know the truth, and the truth shall make you free.”
Mas o texto completo do episódio de onde é retirada esta citação é: “Jesus dizia pois aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (Ev. S. João, 8: 31-32)
De que verdade se trata? Aquela que interessa a uma agência estatal de informação (e de operações especiais) não é tanto a do discipulado cristão, baseado na palavra de Jesus. É mais a do conhecimento dos meios e intenções de quem seja definido como inimigo do mesmo Estado. E essa verdade pode eventualmente ser procurada, como sabemos, pela prática da tortura de suspeitos. 
Pelo que o próprio Jair Bolsonaro declarou, ao longo da carreira que o trouxe até à Presidência do Brasil, há aqui uma proximidade preocupante de exegese, entre a sua referência bíblica favorita e a que foi adoptada na CIA. 
Está acessível, no YouTube, a sua declaração de voto na arrepiante sessão de impeachmentda Presidente Dilma Roussef, onde ele dedicou o “sim”, entre outras personalidades, à memória do coronel Carlos Alberto Ustra, chamando-lhe “pavor de Dilma” – o militar que chefiou o Destacamento de Operações de Informações (no Centro de Operações de Defesa Interna), durante a ditadura militar, e participou pessoalmente na tortura de detidos.
A respeito da verdade, sabemos também como a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro foi potenciada, na recta final, pela produção e multiplicação de mensagens de ódio pelas redes sociais – um território sem lei, onde o procedimento em vigor é o de produzir fakenews, semear e andar depressa, com a ajuda de robôs (contas falsas). 
Outro Presidente, Donald Trump, tinha declarado, na sua primeira visita à CIA, logo após entrar em funções, que estava em guerra com os média. Como explicou o jornalista Howard Kurtz, no livro que publicou em Janeiro deste ano, a presente guerra é, finalmente, uma “guerra pela verdade”. O título do livro é Media Madness – Donald Trump, the Media, and the War over the Truth (A loucura dos média – Donald Trump, os média e a guerra pela verdade). 
Para esclarecimento de todos, falta aqui, a concluir, mais uma citação do Evangelho de S. João, que vem no mesmo texto, um pouco adiante do que lemos no princípio: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai; ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.”  (Ev. S. João, 8:44)
E isto interessa-nos a todos, cidadãos, jornalistas ou leitores de jornais, independentemente de seguirmos alguma confissão de fé ou de não termos nenhuma. Estamos todos envolvidos nesta “guerra pela verdade”, ficando desde já prevenidos que, do ponto de vista do Evangelho, a mentira é de natureza “diabólica”. 

P.S. – Depois de redigido este artigo, há notícia de que o perfil do atacante da sinagoga Árvore da Vida, em Pittsburghcita o mesmo versículo de João 8:44. O contexto das afirmações de Jesus é, neste capítulo como nos que vêm antes e depois (leia-se entre o cap. 6 e o cap. 10), um debate de argumentos sobre o que significa ser “filho de Deus” e “filho de Abraão” – e neste debate são todos judeus: Jesus, os seus discípulos que lhe põem dúvidas e questões, e os “sacerdotes, escribas e fariseus” que procuram refutá-lo. É espantoso (e é significativo) que até um terrorista anti-semita consiga ir buscar ao Evangelho um texto que julga poder usar como auto-justificação para os seus actos. 

(Silas de Oliveira é jornalista)

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Alfredo Teixeira: “O principal problema das igrejas é a transmissão, mais do que a comunicação”

Entrevista de António Marujo
Imagem de Maria Wilton



Alfredo Teixeira: “O fenómeno mais importante é o da explosão da diferença: 
sociedades onde havia uma confissão com um peso muito forte 
agora beneficiam de uma extraordinária explosão da diversificação religiosa. 

“Devemos dizer, ao mesmo tempo, que a religião sofre erosão e que ela se está a reconfigurar.” A poucos dias do final, no próximo domingo, do Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a fé e o discernimento vocacional, o antropólogo e sociólogo Alfredo Teixeira analisa nesta entrevista o que se passa com a religiosidade das novas gerações. Há um problema sério na capacidade de transmissão da fé, mais do que na comunicação, diz. E há mudanças que se podem ver, mas elas são, muitas vezes, em sentidos opostos e quase contraditórios: “O mais errado é pensar que podemos resolver a nossa leitura da sociedade a partir de um dinamismo único. E, sobretudo em termos religiosos, precisamos constantemente desse olhar em diferentes escalas porque, de outra forma, teremos um olhar muito simplificado sobre a realidade.”

P. – Pode fazer-se um retrato da realidade religiosa a nível mundial?
ALFREDO TEIXEIRA – É muito difícil falar dessa categoria a partir do mundo: os contrastes na distribuição da experiência do religioso, quanto às idades e gerações, podem ser muito grandes, no que diz respeito aos diferentes contextos geográficos e culturais. Em todo o caso, o que se pode dizer se o mundo fosse visto da lua? De forma geral, as sociedades do Norte apresentam uma população religiosa envelhecida. Em particular, o Atlântico Norte tem um problema no que diz respeito à renovação geracional das linhagens crentes...

Incluindo Estados Unidos e Canadá?
– Sim, ainda que de modo diferente. Esse fenómeno vai-se alastrando, consoante temos sociedades que, sob o ponto de vista da estrutura religiosa, têm alguma semelhança com a realidade europeia e norte-americana. Na América Latina, ela não é tão expressiva no que respeita à diminuição dos indicadores religiosos nos mais jovens. Mas, se fizermos segmentos em relação ao que conhecíamos no passado, observamos uma diminuição das mulheres – um indicador importante na transmissão e reprodução do religioso. 
Por outro lado, nessas sociedades, o fenómeno mais importante é o da explosão da diferença: em muitos casos, eram sociedades onde uma havia uma confissão com um peso muito forte – por exemplo, a Igreja Católica – e agora beneficiam de uma extraordinária explosão da diversificação religiosa. Portanto, o problema geracional não é o fenómeno mais importante. 

O que destacaria então?
– Para compreendermos hoje a religião, temos de fazer um jogo de escalas: quando observamos a religião a partir do telescópio, vemos uma imagem que pode esconder as dinâmicas de transformação. Nesse grande retrato, nessa leitura macro do fenómeno, cruzam-se duas coisas que não conseguimos distinguir muito bem: por um lado, uma continuidade, uma sobrevivência do que vem de trás, que em alguns casos tem ainda uma clara preponderância; por outro, zonas de transformação que, quando olhamos sob o ponto de vista macro-social, não têm ainda a expressão que lhes daria importância sociológica. 

sábado, 21 de julho de 2018

Frei Bento: um observador sério da realidade da Igreja


No número de Julho da revista Brotéria, publicada pelos jesuítas portugueses, o padre jesuíta Rui Fernandes assina um texto sobre o livro de frei Bento Domingues A Religião dos Portugueses:

Em 1988, frei Bento Domingues publicava o livro A Religião dos Portugueses, condensando em parte as notas do seu Curso de Pastoral, no Instituto Superior de Estudos Teológicos (ISET), em Lisboa (1967-1975). Então, o autor apelava para a necessidade de se estudar em profundidade o fenómeno religioso português, tendo Fátima como objecto de análise simultaneamente concreto e simbólico. O livro que agora nos chega recupera esses textos e problemática, somando uma selecção de artigos posteriores do autor, uns provindos da sua coluna semanal no jornal Público, outros de colaborações suas em diferentes obras. Agora, como na versão original, o livro tem total cabimento e pertinência. (...)

O artigo, que pode continuar a ser lido aquideixa implícita, na minha perspectiva, uma pergunta: porque não houve até agora um reconhecimento público, por parte da Igreja institucional, do trabalho que frei Bento Domingues faz há décadas, e nomeadamente nos últimos 30 anos, de reflexão sobre o lugar do religioso na sociedade, de aproximação entre o catolicismo e a cultura e entre crentes e descrentes, de debate sobre razão e fé ou de questionamento sobre as dimensões religiosas da sociedade portuguesa?...


sexta-feira, 6 de abril de 2018

“A religião é como uma mochila que trazemos às costas”

Texto de Joaquim Franco


Os participantes no debate; da esquerda para a direita: Bernardino Soares (PCP, presidente da CM de Loures); Joaquim Franco (moderador); Idália Serrão (PS); José Manuel Pureza (BE); Ana Rita Bessa (CDS); e Luís Albuquerque (PSD e presidente da Câmara Municipal de Ourém). Foto CMA.  

Duas deputadas, um deputado e dois autarcas debateram esta quarta-feira, na Biblioteca Fernando Piteira Santos, na Amadora, o tema Religião e Política: Entre a convivência, a tensão e a indiferença. Com todos eles, representando as principais sensibilidades políticas presentes no Parlamento, a coincidir na importância do fenómeno religioso e na necessária articulação entre religião e política, como duas faces inseparáveis da mesma realidade. “A religião está sempre presente na sociedade, é como uma mochila que trazemos às costas”, afirmou, a propósito, o comunista Bernardino Soares, presidente da Câmara Municipal de Loures.
A religião aparece como produtora de ideias e de uma ética de convivência para o bem comum, ferramentas imprescindíveis da acção política. Esta, por seu lado, é o exercício de uma reflexão pragmática sobre o bem comum. Assim, é nesse terreno comum que se jogam sintonias e desentendimentos, tornando impossível a negação mútua.
Para José Manuel Pureza, o desafio das religiões também é político, pois “é o desafio da desigualdade e da discriminação”. O professor universitário e deputado do Bloco de Esquerda defendeu a criação de “pontes e diálogo entre estruturas políticas e estruturas religiosas”, para valorizar a “centralidade do empenhamento político” e olhar a política “como espaço virtuoso de intervenção”.
Assumindo-se como católico “desalinhado”, Pureza admitiu ter um “encontro e desencontro diário entre política e fé” e levou ao debate uma pergunta que ouvia do sociólogo Alfredo Bruto da Costa, antigo governante e presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja, que morreu em 2016: “Como é possível um país católico chegar ao século XXI ainda com dois milhões e meio de pobres?”.
Também Ana Rita Bessa falou da “condição de política e crente”, reconhecendo ser uma relação “umas vezes com ânimo e outras vezes com dúvidas”. A deputada do CDS disse ser católica e “estar na política”, mas “fiel a uma ética de construção do bem comum, mais do que a uma moral”. Até porque, entende, a “política é o sítio mais extraordinário para cumprir o bem comum”.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Uma era (pós) secular? Religião e mudança global


Agenda

O Instituto de Estudos da Religião, da Universidade Católica Portuguesa, promove, a partir desta terça-feira, dia 27 de Fevereiro, um seminário modular de formação avançada sobre o tema Uma era (pós) secular? Religião e mudança global.
Na apresentação da iniciativa, explica-se que, com os cientistas sociais Charles Taylor e José Casanova como mentores, um grupo de investigadores participou num projecto internacional, visando a exploração das dinâmicas de mudança que afectam a experiência religiosa num contexto global. A investigação partiu da realidade portuguesa, contexto em que a erosão de uma identidade religiosa maioritária potenciou a disseminação de referências religiosas noutras margens e em novas paisagens espirituais.
Coordenado por Alfredo Teixeira e Alexandre Palma, o seminário tem ainda, como colaboradores, José Tolentino Mendonça, Luís Lóia, Luísa Almendra, Mário Avelar, Nelson Ribeiro, Paulo Fontes, Paulo Pires do Vale e Steffen Dix.
Dirigido a estudantes interessados em formação especializada nos Estudos Religiosos, agentes de educação, comunicação, cultura, mediação social, desenvolvimento humano e assistência religiosa ou outros interessados, o seminário terá ainda sessões nos dias 6, 13, 20 e 27 de Março, sempre entre as 18h e as 20h.
Mais informações sobre o seminário estão disponíveis aqui e também nesta ligação; os temas e coordenadores de cada sessão estão referidos neste vídeo.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Morreu o sociólogo da religião Peter L. Berger

Peter L. Berger, um dos teorizadores da secularização e co-autor, com Th. Luckman, daquele que foi considerado o 5º mais influente livro de sociologia do século XX - 2A Construção Social da Realidade", morreu no passado dia 27 de junho, com 88 anos. Foi ainda autor de obras como "Um Rumor de Anjos: a Sociedade Moderna e a Redescoberta do Sobrenatural" e "O Dossel Sagrado: Elementos para uma Teoria Sociológica da Religião". O texto que segue foi publicado na Christianity Today,  no passado dia 29 e traduzido por Isaque Gomes Correa e publicado na Newsletter do Instituto Humanitas da Unisinos .

"A Universidade de Boston informou o falecimento esta semana do professor emérito de 88 anos Peter Berger, fundador, em 1985, do Instituto para a Cultura, Religião e Assuntos Mundiais da citada universidade e que o levou a ser a principal fonte de estudos sobre “a religião em uma era de globalização”.
Al Mohler, presidente do Southern Baptist Theological Seminary, em Kentucky, enalteceu Berger como “talvez o pensador social mais influente do nosso tempo” e “um dos indivíduos que eu cito com mais frequência”.
O obra de Berger era “tão boa que fez com todos os teólogos quisessem ser sociólogos quando crescessem”, afirmou Gregory Thornbury, presidente da King’s College, em um tuíte que também enalteceu o pesquisador Rodney Stark.
“Houve poucos estudiosos de espírito tão independentes e influentes como Berger”, tuitou Hunter Baker, autor de “The End of Secularism” e professor de ciência política na Union University.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Sobre o futebol e outros suicídios do jornalismo (ou como jornalistas e católicos são tão parecidos)

Está a decorrer em Lisboa, desde quinta-feira (acaba este Domingo), o 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses. Sábado à tarde, apresentei no congresso uma comunicação onde falo sobretudo do jornalismo, mas também da forma como algumas questões ligadas ao tratamento do religioso com ele se cruzam. Fica aqui o texto, para eventuais interessados. (Foto ao lado reproduzida daqui)


Hesitei muito sobre a minha participação no congresso e sobre a possibilidade de fazer ou não esta comunicação – já direi porquê. Desde há anos, foi crescendo o meu desencanto com algumas práticas do jornalismo. A 7 de Julho de 2014, esse desencanto ficou gravado como um espinho na carne: nesse dia, estive à porta do DN, numa manifestação contra os despedimentos que a então Controlinveste se preparava para fazer em vários meios do grupo. Nesse dia, ou na véspera, tinha ouvido na TSF (rádio do grupo, onde também haveria despedimentos) um noticiário que abriu com as declarações de um treinador de futebol sobre as suas expectativas acerca de um jogo que seria disputado dois dias depois.
Dei comigo a pensar que estávamos ali alguns (não muitos, aliás...) a protestar contra mais uma decisão intolerável de uma administração, mas que muito do que está a acontecer com as redacções e o jornalismo é cada vez mais da nossa responsabilidade.
Infelizmente, situações deste género repetem-se com demasiada frequência sobretudo nas televisões e em algumas rádios, dando um espaço desmesurado a coisas que, em si, não são notícia (é notícia ouvir “a minha equipa vai dar o melhor?” ou são notícia cuspidelas em balneários?...); promovemos programas de suposto debate que, exacerbando clubites já de si agudas, não debatem coisa nenhuma e só contribuem para degradar o nível do debate público; somos, enquanto jornalistas, veículo da publicidade dos patrocinadores de campeonatos ou clubes; fazemos entrevistas rápidas em cenários de marcas comerciais; designamos campeonatos com o nome dos patrocinadores... Há anos, o Parlamento quis impor restrições à livre circulação dos jornalistas em S. Bento; durante um mês, omitimos o noticiário parlamentar, em protesto contra essa ideia e os deputados recuaram. Pelos vistos, é mais fácil enfrentarmos o poder político que o poder do futebol...
Em síntese, o jornalismo desportivo audiovisual reflecte a tremenda inversão das prioridades noticiosas. Recordo-me de ouvir um camarada de televisão que esteve na Alemanha a acompanhar o Mundial de Futebol de 2006, contar que nem os jogos nem o próprio torneio eram notícia nos jornais televisivos daquele país; havia, isso sim, programas especiais, bem feitos e criativos, a propósito do futebol, mas ele não ocupava horas infindas de emissão até à náusea, sem nada para dizer.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Mário Soares (7 de Dezembro de 1924 – 7 de Janeiro de 2017): “Sou talvez um místico que se desconhece”


Há vinte anos, a 22 de Dezembro de 1996, publiquei no Público uma entrevista a Mário Soares, que deixara o cargo de Presidente a 9 de Março desse ano. O pretexto era o facto de que Soares participara em várias iniciativas de carácter religioso. O mistério da morte fascinava e perturbava o antigo Presidente, como confessava. Fica aqui o texto na íntegra, tal como está publicado no livro Diálogos com Deus em Fundo (ed. Gradiva).


Foto Arquivo DN (reproduzida daqui)
  
Depois de ter deixado a Presidência da República, Mário Soares participou, como convidado muito especial, em diferentes iniciativas católicas ou de instituições próximas da Igreja. Embora sempre se tenha assumido como agnóstico, afirma que, “no plano filosófico”, se voltou a interessar pelos temas das origens e do destino da humanidade. Nesta entrevista, respondida por escrito, admite que o mistério da morte o “fascina” e o “perturba”, e que, nos últimos anos, se insinua com mais frequência nas suas reflexões. E cita a frase bíblica “és pó e em pó te hás-de tornar”, para dizer que a morte é a única realidade indubitável, da qual não se deve fazer “abstracção”.
Oposicionista à ditadura do Estado Novo, Mário Soares nasceu a 7 de Dezembro de 1924, em Lisboa. Esteve preso uma dúzia de vezes, chegando a ser deportado para a ilha de São Tomé. No tempo de Marcello Caetano, foi expulso de Portugal e exilou-se em França, em 1970, onde se encontrava quando se deu a Revolução de 25 de Abril de 1974. Em 1973, participou na fundação do Partido Socialista, que passou a liderar e à frente do qual veio a vencer as eleições para a Assembleia Constituinte, em 1975 e, depois, para a nova Assembleia da República, em 1976. Entre Maio de 1974 e Março de 1975 exerceu ainda o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros de vários governos provisórios.
Foi primeiro-ministro por três vezes (1976-77; 1978 e 1983-85), qualidade em que assinou o tratado de adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia (hoje União Europeia), em Junho de 1985, e Presidente da República em dois mandatos (1986-96). Desde a sua saída do cargo, passou a dirigir a Fundação Mário Soares. Foi eleito, em 1999, deputado ao Parlamento Europeu, onde esteve cinco anos. Em 2005, candidatou-se de novo à Presidência da República e foi derrotado. Em 2007, foi nomeado presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, tendo também exercido diversos cargos internacionais. Publicou vários livros, entre os quais Portugal Amordaçado, os dez volumes de Intervenções (que recolhem os textos enquanto Presidente da República), Português e Europeu, Incursões Literárias, Um Mundo Inquietante e ainda os volumes de entrevistas com Maria João Avilez (Soares), Mário Bettencourt Resendes e Teresa de Sousa.
A sua fé, diz, está apenas no homem, embora admita que talvez se possa definir em termos religiosos com uma expressão usada por Jean Guitton: “Um místico que se desconhece”. A fé, disse-o nas Jornadas de Universitários Católicos, é uma graça. Mas acrescentou: "nunca fui tocado por essa graça". E foi em nome da humanidade e do humanismo, no qual diz acreditar profundamente, que participou em diferentes iniciativas católicas antes e depois de deixar o cargo de Presidente da República – falou, por diversas vezes, nos encontros internacionais pela paz promovidos pela Comunidade de Santo Egídio.


Aceitou, depois de deixar o cargo de Presidente da República, participar em diversas iniciativas católicas ou de instituições próximas da Igreja. Que sentido dá a essa participação?
Participei, que me lembre, apenas em três iniciativas, que se poderão classificar como religiosas ou, melhor, que partiram de organizações conotadas com a Igreja.
A primeira teve lugar em Roma, onde fui a convite da Comunidade de Santo Egídio, em Outubro último, para participar nas X Jornadas de Paz, através do diálogo ecuménico. Há já alguns anos havia sido convidado, então para Assis, para participar nessas interessantes jornadas, que não só reúnem crentes de todas as grandes religiões como também não crentes. Foi, aliás, nesta última qualidade, que fui convidado, como outros agnósticos confessos, como Jean Daniel do Nouvel Observateur e o director do prestigiado jornal italiano La Repubblica, Eugenio Scalfari.
A segunda foi na Universidade Católica, para estar presente e usar da palavra numa homenagem ao padre Joaquim Alves Correia, que tive a honra de conhecer pessoalmente, e que foi uma grande figura da Igreja – exilado na América, onde faleceu, perseguido por Salazar –, um católico progressista “avant la lettre”. [Este episódio é recordado também numa crónica de Anselmo Borges publicada hoje no DN]
A terceira foi um convite do Movimento Católico de Estudantes para fazer uma conferência no final de um seminário que teve lugar no Centro Diocesano do Porto, sobre o humanismo do próximo século.

sábado, 29 de outubro de 2016

Jornalismo e religião (II) – Iliteracia, cidadania e aceleração

Para complementar o texto anteriorque reflectia sobre a relação entre media e religião, traz-se aqui o segundo texto de Manuel Pinto, no sítio da Rádio Renascença, sobre a presença ou ausência da dimensão religiosa no jornalismo, eque começava assim:

Assiste-se a uma crescente iliteracia religiosa e cultural não apenas dos jornalistas, mas da cidadania que o jornalismo deveria servir e alimentar.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)


Poucos dias antes, Luís António Santos escrevia na mesma página sobre a aceleração dos ciclos informativos – uma reflexão que, indirectamente, se relaciona com o tema anterior, e que vale a pena ler também:

A aceleração dos ciclos informativos promove o ‘mais’ mas não promove ‘o melhor’.
Na mesma semana em que o Papa Francisco disse, sem meias palavras, que um jornalismo baseado em rumores ou promotor do medo é uma forma de terrorismo a responsável máxima pela BBC Radio, Helen Boaden, deixou o cargo com uma palestra criticando duramente o lugar social que a actividade ocupa na actualidade.

(os textos a que ambos os artigos fazem referencia têm também ligações no texto anteriormas podem ser lidos aqui:
entrevista de Gil Tamayo à RR; discurso do Papa ao conselho nacional da Ordem dos Jornalistas de Itália)


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Jornalismo e religião: estamos bem servidos?

Na semana passada, decorreram em Fátima as jornadas da comunicação social da Igreja Católica, que debateram o relacionamento entre a instituição e os média. A propósito, na sua última crónica na RR, depois de descrever alguns dados da realidade portuguesa, Manuel Pinto escreve: “pareceria haver base bastante para despertar a atenção do jornalismo. E no entanto é razoável perguntar: um cidadão que queira acompanhar de forma minimamente esclarecida e aprofundada a dimensão religiosa em Portugal (e no mundo) encontra-se bem servido?
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)

Um dos convidados das jornadas de Fátima foi o padre Gil Tamayo, porta-voz da Conferência Episcopal Espanhola. Em entrevista à RR, Tamayo fala da importância da comunicação para a Igreja e da importância de não olhar os jornalistas como “inimigos da Igreja”.
(a entrevista pode ser lida aqui)

Também na semana passada, o Papa falou sobre o jornalismo. Perante o conselho geral da Ordem dos Jornalistas Italianos, referiu três elementos que devem estar presentes no jornalismo: amar a verdade, viver com profissionalismo e respeitar a dignidade humana.
(O discurso pode ser lido aqui na íntegra, em italiano)

Na TSF, nesta terça-feira, dia 27, Gil Tamayo falou também sobre o actual momento da Igreja em Espanha e do pontificado de Francisco, referindo ainda, sobre a relação entre média e Igreja:

Continuar a trabalhar para encontrar lugar para Deus e o facto religioso, a dimensão religiosa do homem; a comunicação social, que (retrata todas as realidades humanas) não o faria se deixasse de fora  deixar de fora as grandes questões que estão também no coração do homem e da mulher do nosso tempo, que é o desejo de Deus e de um sentido da sua vida, que é a dimensão religiosa.

Temos também de olhar para a Igreja: às vezes não comunicamos bem; temos de procurar lugar para a comunicação, numa Igreja que tem de se fazer companheira do homem e estar com a linguagem e o sentir das pessoas, e hoje, sem a comunicação social, não se entende a sociedade do nosso tempo.

A entrevista pode ser escutada aqui a seguir: