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sábado, 3 de março de 2018

A santidade na história e no cinema

Agenda - Ciclo de cinema no Porto


O tema musical de Irmão Sol, Irmão Lua, 
num vídeo com imagens do filme de Zefirelli


A Santidade na História é o tema do 5º ciclo de cinema religioso, promovido pelo núcleo do Porto do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR) da Universidade Católica Portuguesa. Depois de exibição de Visão da Vida de Hildegard von Bingen, filme de 2009, realizado por Margarethe von Trotta, o ciclo continua já nesta segunda-feira, dia 5 de Março, às 21h, com o filme Irmão Sol, Irmã Lua (1972), de Franco Zeffirelli.
Cada sessão, que decorre na cripta da Igreja paroquial da Senhora do Porto começa por uma breve introdução do filme e termina com um tempo de debate. No próximo filme, a apresentação estará a cargo de Arlindo de Magalhães, membro do CEHR e presbítero responsável pela Comunidade Cristã da Serra do Pilar.
O ciclo pretende ajudar à compreensão do fenómeno da santidade como realidade historicamente situada e enquanto manifestação tão pluriforme quanto sublime do processo de discernimento e assunção da “vocação radical” e comum a todos os batizados.
No conjunto, uma vez por mês, até Novembro, serão exibidas várias obras cinematográficas que, incidindo sobre algumas figuras-chave da história do cristianismo, tornarão possível não só um aprofundamento do conhecimento das respectivas biografias mas igualmente do carácter pessoal, contextualizado e paradigmático com que o tema da santidade nelas se concretiza.
Os filmes deste ciclo abordarão as histórias de Santa Rita de Cássia (Abril), Santo António de Pádua (Maio), Teresa de Jesus (Junho), São Vicente de Paulo (Julho), São João Bosco (Outubro) e Maximiliano Kolbe (Novembro). O calendário completo com as datas e os comentadores de cada sessão pode ser consultado aqui.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O herói e o santo

Na sua crónica deste domingo no Público, frei Bento Domingues regressa ao que se disse antes e durante a canonização de Nuno Álvares Pereira e ao que porventura falta fazer.

1. (…) Hoje, numa sociedade de separação entre Igreja e Estado, deve-se deixar ao Estado o que ao Estado pertence: preservar e realçar a memória dos seus heróis. À Igreja compete recuperar a memória dos seus santos, não a dos heróis nacionais. No caso de Nuno Álvares Pereira, quem terá sido canonizado? O herói, pelas suas escolhas políticas e os seus feitos bélicos, ou o santo, aquele que abandonou o poder militar e a riqueza para se dedicar, no despojamento, à contemplação e ao serviço dos pobres?

Os que dizem que não é possível separar o herói do santo nem o santo do herói – embora tenha sido a tonalidade de algumas intervenções eclesiásticas e políticas – esquecem que, sem atender a essa diferença, seria desaconselhável a canonização. Ela celebra a viragem radical na vida de Nuno Álvares Pereira, não a consagração do herói da nossa identidade. A heroicidade das virtudes requeridas para a canonização não é a heroicidade que se requer no combate aos inimigos da independência de Portugal. (…)

Digo isto porque todos os discursos sobre ele podem ter as suas derrapagens. O Cardeal José Saraiva Martins – especializado a desencalhar canonizações – não se mostrou muito inspirado ao exemplificar a espiritualidade mariana de S. Nuno: “antes e durante as batalhas, ajoelhava e rezava a Nossa Senhora. Isto é muito significativo, muito importante, era um militar e fazer isso supõe um grande acto de heroísmo”. É certo que o Cardeal poderá argumentar que, também na Bíblia, se pede a Deus ajuda para derrotar os inimigos, constituído chefe do exército do povo eleito.

Essas partes das Escrituras só deixarão de ser lamentáveis se as considerarmos inspiradas a dizer, de forma brutal, o que nunca deve ser feito: confundir os nossos interesses tribais ou nacionais com a vontade de Deus. Se uma das jóias da nossa arquitectura celebra Nossa Senhora das Vitórias, mais conhecida como Mosteiro da Batalha, só indica a contaminação da devoção católica por essa aberração ancestral. Será que Nossa Senhora, aborrecida com os castelhanos, se vingou deles revelando ao condestável português a forma de os derrotar? Tomás de Aquino aconselhava os teólogos e os apologistas a terem cuidado com o ridículo.

2. Se esta canonização fosse para exaltar a capacidade guerreira do condestável, teria de se fazer um processo religioso à sua forma de combater. Mesmo que alguns discursos dêem isso como pressuposto, talvez estejam enganados. Dir-se-á que é preciso cuidado com os anacronismos. Sem dúvida, mas não é de nenhum anacronismo que se trata: não terá sido no nosso tempo que o ataque às torres gémeas e a guerra ao Iraque se apresentaram com motivações político-religiosas?

Não seria um bom milagre de S. Nuno se levasse os políticos e os militares de hoje a deixar a guerra – abrindo a mente e o coração ao imenso mistério da vida e da morte – e a distribuir os seus gastos em benefício das vítimas inocentes da crise actual? Diz-se que em qualquer situação é possível santificar-se. Talvez seja preferível santificar-se a fazer a paz do que a fazer a guerra.

3. É louvável recuperar antigas memórias portuguesas de santidade, embora, às vezes, possa levar a pensar que santos são apenas os canonizados. Repetiu-se que S. Nuno era o oitavo santo português! Há várias figuras exemplares da nossa história recente que devem ser lembradas. Destaco, apenas três: o padre Abel Varzim (1902-1964), imagem do catolicismo social português durante o regime de Salazar, que o procurou domesticar e acabou por perseguir, sem encontrar na Igreja a defesa de quem o devia proteger; o Padre Américo (1887-1956) que, como dizia, depois de “uma martelada” espiritual, se tornou o Padre da Rua dos abandonados, dando-lhes voz, no espantoso jornal, O Gaiato; Aristides de Sousa Mendes (1885-1954) que salvou, enquanto cônsul em Bordéus, a vida a dezenas de milhares de pessoas do Holocausto, desobedecendo, em nome da sua consciência humana e católica, às ordens de Salazar que o entregou à miséria, a ele e à família.

Tenho, na minha frente, uma entrevista a Isabel Jonet, católica, presidente do Banco Alimentar Contra a Fome – dá de comer a 245 mil pessoas por dia – congrega uma multidão de voluntários na luta prática contra a pobreza. Ao ajudar a perceber que não vale a pena andar fascinado por bens que nada acrescentam à vida verdadeira, tornou-se também uma discreta escola de espiritualidade. Em vez de perder o tempo a enumerar tudo o que, em Portugal, corre mal, descobre e desperta vocações para a prática da solidariedade inadiável.

No seio do absurdo, os santos são aqueles que se convertem, rasgando a opacidade do Céu e a indiferença perante a miséria. São a face luminosa da fé.