sábado, 8 de fevereiro de 2003

Paquete de Oliveira, "O nosso lado oculto"

"Habituados que estamos a encontrar fáceis "bodes expiatórios" das nossas misérias, os políticos, os árbitros de futebol, os toxicodependentes, eis que, de repente, somos obrigados a falar de nós mesmos. Com os acontecimentos dos últimos dias, a sociedade portuguesa sente-se dilacerada. Os portugueses terão de discutir-se a si próprios. Afinal, o que é que está a passar-se com a sociedade portuguesa?
Portugal está transformado num vivo "laboratório social", aberto ao público. É importante não perder a ocasião para reflectirmos sobre algumas das razões de sermos como somos. O quotidiano da vida num país, como no Mundo, é sempre um laboratório social. Todavia, o quotidiano, aquilo que acontece todos os dias, talvez pela sua rotina, pode ser matéria de reflexão, observação e estudo para investigadores encartados, mas não o é para o cidadão comum. O homem da rua, actor desse mesmo quotidiano, vive-o sem consciencializar o que à sua volta se passa. O nosso dia é, em regra, um somatório de actos mecânicos, automáticos.
A prisão preventiva de Carlos Cruz teve para nós portugueses o efeito de uma "bomba" muito superior àquele que tem tido o anúncio da "guerra preventiva" para onde o sr. Bush vai levar-nos. Carlos Cruz é um ícone da nossa vida. Numa sociedade mediática, aqueles que todos os dias entram por nossas casas dentro através daquelas pequenas pantalhas, dispostas nas nossas salas ou até nos quartos de dormir, como outrora os santuários das famílias com os "santinhos", são as "imagens" que adulamos e constroem as referências do nosso quotidiano. São assim os Sant'Antónios da nossa modernidade.(...)"
in Jornal de Notícias, 8.2.2003:
Comunidade de Taizé

Gostaria de ler regularmente a carta do Irmão Roger ou ouvir as músicas de Taizé? Desde que possa aceder a um computador com recursos multimédia isso é possível através do site em várias línguas (incluindo o português) que a Comunidade tem acessível na Internet. Acedendo ao endereço já apontado ao espaço em língua portuguesa que acima se indica, pode conhecer um pouco da história de Taizé, obter informações sobre como viajar até lá, entrar na dinâmica dos vários tipos de encontros que a comunidade organiza e até fazer a inscrição para uma estadia. Existe igualmente uma oração preparada, com as leituras e cânticos, com a duração de cerca de um quarto de hora, e que se pode descarregar para ser ouvida e acompanhada. De resto, além de ouvir uma boa parte dos cânticos que se cantam em Taizé, pode aproveitar para aprender a cantá-los, escolhendo, para cada um, as diferentes vozes. As leituras para a oração diária estão também disponíveis e, se assim pretender, pode inscrever-se para receber periodicamente por correio electrónico, notícias sobre Taizé.

domingo, 26 de janeiro de 2003

Organizações Católicas Internacionais contra guerra no Iraque

O Comité de coordenação da Conferência de Organizações Católicas Internacionais (COCI) apresenta uma posição crítica sobre a possibilidade de um ataque norte-americano ao Iraque, num comunicado de Imprensa datado de 19 de Janeiro.
A oposição a um ataque ao povo iraquiano é justificado por três pontos fundamentais, em que se refere que “não há provas convincentes da existência de armas de destruição maciça no Iraque”, que “os riscos de uma operação militar na zona são desproporcionados para a população e para o equilíbrio da região” e que “compete à ONU avaliar as condições para uma intervenção no Iraque”.
A COCI faz ainda referência às mensagens de João Paulo II sobre o tema da paz, ao mesmo tempo que sugere que no dia 2 de Fevereiro os seus associados se juntem em Oração, “porque o Senhor é a última instância a que podemos recorrer
para evitar esta tragédia”.
Esta organização agrupa 40 organizações laicais, presentes em mais de 150 países, e conta com cerca de 150 milhões de associados.

Fonte:Ecclesia

sábado, 4 de janeiro de 2003

João Maria van den Hurk, ss.cc.
Manuel Pinto

A campaínha tocou eram sete da manhã de um domingo cinzento. Dois agentes da PIDE-DGS apresentaram-se com ordens para levar o João Maria. Coisa breve, diziam. Mas lá iam sugerindo que talvez não fosse má ideia meter o pijama e uma escova de dentes num saco. Desculpando-se por serem simples agentes a cumprir ordens superiores, conduziram o padre num automóvel, para a sede da Rua do Heroísmo. As portas fecharam-se, de seguida, e o silêncio instalou-se.
Umas horas depois, telefonava o próprio da Holanda, onde acabara de chegar num voo da TAP. Num dos dias anteriores, a polícia política havia reservado uma viagem sem regresso deste cidadão holandês.
O motivo: na homilia do Dia Mundial da Paz, acabado de celebrar, atrevera-se a exprimir o sonho de que também nas ex-colónias fosse possível a paz. Não certamente a paz dos cemitérios, a paz do esmagamento dos direitos humanos, mas a paz que é fruto da justiça e que assenta no reconhecimento da dignidade de todos.
Neste caso, nem sequer se pode dizer que o João Maria fosse um revolucionário. Era, de facto, a pessoa mais pacífica deste mundo: um calmeirão bem disposto, com um coração acolhedor e solidário. Para ele, falar da paz num dia como aquele, sem referir a guerra sangrenta que se travava há uma década na Guiné, em Angola e em Moçambique era como estar perante uma paisagem bonita e fechar os olhos.
Os ouvidos do poder de então encostavam-se atrás das colunas das igrejas, para se assegurarem de que a Palavra de Deus se mantinha lá nas alturas, insípida, inofensiva e indolor e, se possível, com efeitos anestésicos.
A encíclica Pacem in Terris tinha, então, dez anos. O concílio Vaticano II lançara um sopro de vida na Igreja Católica. Começava a tornar-se evidente que o edifício do regime não aguentaria muito mais.
Nesse início de 1973, tinha acabado de acontecer o caso da Capela do Rato que ofuscou, naturalmente, uma multiplicidade de outros casos que se inscreviam numa consciência comum e numa vaga de fundo que começava a ganhar forma. Como este caso do João Maria, membro da Congregação dos Sagrados Corações, que agia não por estratégia política, mas por um indeclinável dever ético e por um imperativo evangélico.
Quando começa a ser de novo problemático defender a causa da paz – com as implicações éticas e políticas que essa causa reveste hoje e aqui - torna-se salutar recordar gestos simples e determinados como o do padre João Maria van den Hurk, ss.cc.
(Crónica para a RUM e para o DM de 6.1.2003)

domingo, 22 de dezembro de 2002

A noite e a estrela
Manuel Pinto

(...)
Em novembro chegaram os signos.
O céu nebuloso não filtravaestrelas anunciantes (...)


Carlos Drummond de Andrade

Bom Natal!
Sim, claro! Feliz Natal!
Mas, ainda assim, num lapso de tempo que dê para pensar no que fazemos e dizemos, vale a pena perguntar: que sentido tem celebrar o Natal – desejar bom Natal – em tempos sombrios e encerrados como são aqueles que temos diante de nós?
E os tempos estão mesmo sombrios. Quem o negará? Apesar das luzinhas que iluminam as ruas, dos holofotes que despejam luz sobre as montras e das musiquetas gastas que embalam os consumidores, a crise faz-se sentir. O emprego escasseia ou treme, o trabalho a poucos satisfaz, a vida é uma correria louca, a insegurança nas ruas agrava-se, o economicismo converte-se em ideologia política, a desconfiança nas instituições acentua-se.
Cá dentro, o poder das mafias do futebol (não do desporto, mas do negócio) já ousa ameaçar e manietar os próprios órgãos de soberania, utilizando de forma cada vez mais profissional os meios de comunicação.
Lá fora, uma guerra preparada e calendarizada como guerra preventiva, já nem sequer espera que se esgote a via persuasiva e diplomática, aguardando apenas que se complete o trabalho da propaganda para impor a sua lógica de destruição.
Tempos sombrios, exasperados e exasperantes, em que a cólera facilmente cede perante a esperança.
Paradoxo: o excessiva clarão que a nossa civilização incessantemente produz leva a dois efeitos: pela ofuscação que rouba horizonte, circunscreve-nos num mundo pequenino e medíocre; pelo universo ilusório que cria, dificulta o nosso confronto com a efectiva realidade das coisas.
Ora, ninguém consegue ver as estrelas no meio do ambiente feérico das nossas cidades iluminadas e das nossas vidas encandeadas.
De acordo com os ícones e símbolos desta quadra, os três reis magos viram uma estrela no Oriente e puseram-se a caminho, seguindo-a até Belém (sim Belém, a das notícias, a cidade palestiniana ocupada pelas tropas israelitas).
Pergunta: supondo que também nós nos dispomos a meter pés ao caminho, como ver a estrela que nos pode levar a Belém, sem nos confrontarmos com a noite?
(Crónica de hoje na RUM e amanhã no DM).

domingo, 8 de dezembro de 2002

Uma das questões que um dia gostaria de reflectir e debater diz respeito à afirmação de que só numa determinada confissão religiosa, ou só em Cristo, se pode encontrar a salvação. A arrogância que a afirmação virtualmente comporta e os riscos de fundamentalismo que dela podem decorrer não devem ser subestimados. O Cardeal Ratzinger vem dizer que arrogantes são os relativistas. A sua argumentação encerra pontos que merecem exame. Mas relativismo não é - não pode ser - sinónimo de pluralismo. Um assunto a retomar. Fica, para já, o relato de uma intervenção de Ratzinger, feito pela agência católica Zenit:

"Card. Ratzinger: “Est-ce arrogant de dire que le Christ est le seul sauveur?”En réalité, l’arrogant, c’est le relativiste, affirme-t-il

ROME, lundi 2 décembre 2002 (ZENIT.org) – La prétention des chrétiens d’annoncer que le Christ est l’unique sauveur de l’humanité
est-elle une prétention arrogante ? C’est la question que le cardinal Joseph Ratzinger, préfet de la Congrégation pour la Doctrine
de la Foi, a soulevée, au cours d’une conférence donnée à Murcia, en Espagne, ce week-end. En répondant à la question, il a rappelé quelle était la signification de la mission chrétienne.
Le congrès auquel participait le cardinal Ratzinger était organisé par l’Université catholique San Antonio de Murcia (UCAM) et
avait pour thème « Le Christ : Chemin, Vérité et Vie ». Il s’est déroulé du 28 novembre au 1 décembre.
« N’est-ce pas arrogant de parler de vérité dans des choses ayant trait à la religion et d’arriver à affirmer avoir trouvé la vérité, l’unique vérité dans sa propre religion? » a ajouté le cardinal Ratzinger.
Devant un auditoire d’environ 3.000 personnes, en majorité des jeunes, le cardinal allemand a déclaré qu’aujourd’hui « le fait de rejeter tous ceux que l’on peut accuser de croire « posséder » la vérité, comme à la fois simplistes et arrogants, est devenu un slogan avec une répercussion énorme ».
« Ces personnes ne sont semble-t-il pas capables de dialoguer, et par conséquent, on ne peut pas les prendre au sérieux car personne ne «possède » la vérité, a-t-il ajouté, en exposant la thèse du relativisme. On peut seulement être à la recherche de la vérité. Mais, a-t-il ajouté, de quelle recherche s’agit-il ici, si l’on ne peut jamais arriver au but ? »
Dans cette recherche, a-t-il poursuivi, « est-ce que l’on cherche réellement ou n’est-ce pas plutôt que l’on ne veut pas trouver la vérité car ce que l’on va trouver ne doit pas exister ? »
« Il est évident que la vérité ne peut pas être quelque chose que l’on possède, a-t-il expliqué. Face à elle je dois toujours avoir une attitude d’humble acceptation, en étant conscient du risque et en acceptant la connaissance comme un cadeau dont je ne suis pas digne, dont je ne peux pas me glorifier comme s’il s’agissait d’une conquête personnelle ».
« S’il m’a été donné de connaître la vérité je dois la considérer comme une responsabilité qui suppose aussi un service aux autres, a-t-il expliqué. La foi affirme par ailleurs que la différence entre ce que nous connaissons et la réalité proprement dite est infiniment plus grande que la ressemblance (Lat IV DS 806) ».
En réalité, l’arrogant c’est le relativiste, affirme le cardinal Ratzinger. « N’est-ce pas arrogant de dire que Dieu ne peut pas nous faire le cadeau de la vérité ? » ajoute-t-il. «N’est-ce pas une marque de mépris de Dieu de dire que nous sommes nés aveugles et que la vérité n’est pas pour nous ? »
La « vraie arrogance » consiste à « vouloir prendre la place de Dieu et à vouloir déterminer qui nous sommes, ce que nous faisons et ce que nous voulons faire de nous-mêmes et du monde».
Par conséquent, a-t-il expliqué, « la seule chose que nous pouvons faire est reconnaître humblement que nous sommes des messagers indignes qui ne s’annoncent pas eux-mêmes, mais qui parlent avec une sainte timidité de ce qui ne nous appartient pas mais qui provient de Dieu ».
«C’est seulement de cette manière que la tâche de la mission prend un sens, qui n’est pas le colonialisme spirituel, ni une soumission des autres à ma culture ou à mes idées », a-t-il expliqué. « La mission exige, en premier lieu, une préparation pour le martyre, une disposition à se perdre soi-même par amour de la vérité et du prochain ».
«C’est seulement ainsi que la mission est crédible », a conclu le cardinal Ratzinger. « La vérité ne peut ni ne doit avoir d’arme, qu’elle-même ».

sábado, 7 de dezembro de 2002

Intitulado "Religião, verdade e Paz", João A. Pinheiro Teixeira, padre da diocese de Lamego, escreve um artigo no "Expresso", de que respigo:
Quer-me parecer, por isso, que, na hora presente, os textos conciliares requerem não só uma cuidada análise semântica, mas acima de tudo uma cada vez mais indispensável hermenêutica existencial. Penso concretamente numa questão muito sensível, que a tragédia de 11 de Setembro de 2001 trouxe para a ordem do dia. Trata-se da relação entre religião e verdade, cuja afinidade dificilmente alguém contestará, mas que, não raramente, configura uma mistura explosiva e ameaçadora. É que não falta quem olhe prevalentemente para a verdade a partir da sua religião, julgando-se por isso depositário da sua fórmula definitiva e da sua versão final. O que falta é que cada um olhe para a sua religião a partir da verdade, investindo todas as energias na sua procura contínua e no seu acolhimento incessante.
Regra geral, quem presume possuir a verdade, tende a impô-la. A sua estratégia é violenta e a sua pose autista e arrogante. Quem, pelo contrário, persiste na sua busca, visa sobretudo encontrá-la e o anunciá-la. A sua conduta é pacífica e a sua atitude humilde e despojada.
Nesta luta sem tréguas, entre uma globalização sufocante e um sem-número de identidades reprimidas, a repetida evocação do divino parece radicalizar a tese de Samuel Huntington: «A religião é a diferença mais profunda que existe entre os povos».
É bom de ver que o problema não está na diferença, mas no modo como se tem lidado com a diferença. Isto é, no facto de ela ser encarada não como alicerce para a coexistência, mas como bissectriz separadora entre grupos, etnias e civilizações.
Não admira pois, que, nas vias que se perfilam para a resolução da actual crise internacional, só a paz pareça proscrita. O mais intrigante é que, entre os que praticam a agressão violenta e os que propugnam uma defesa beligerante, há quem alegue inspirar-se em mundividências de índole religiosa.
Perante tal quadro, o exame é inevitável e a pergunta obrigatória: que resposta tem sido a dos católicos ao apelo da «Gaudium et Spes» para que se «interdite absolutamente qualquer espécie de guerra» (nº82), incluindo, como é óbvio, a guerra em nome de Deus?
A verdade, de que todas as religiões se afirmam portadoras, não conflitua com o respeito por quem pensa - e sente - diversamente de nós. Já Maomé exortava: «Nenhum de vós é um crente até quererdes para o vosso vizinho aquilo que quereis para vós».
Sucede que o contencioso com a verdade tem mais a ver com a presunção de posse do que com a própria negação. É que a verdade encontra-se sobretudo do lado da busca. Eis, portanto e em síntese, o drama da nossa era: a verdade tem muitos «proprietários» e poucos «buscadores».
Se empreendêssemos mais na busca, daríamos conta que uma das dimensões mais surpreendentes da verdade - mas também mais esquecidas - é de ordem iconográfica, aquela que nos permite perceber que em cada homem se encontra esculpida a imagem de Deus.
Qualquer atentado contra seres humanos representa assim um crime de lesa-divindade e, nessa medida, de lesa-verdade. Esta, lembra o nº1 da declaração conciliar sobre a liberdade religiosa, «não se impõe de outro modo a não ser pela sua própria força, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte».
Concretizando, enquanto pensarmos que a verdade se transmite pela força, dificilmente daremos atenção à intrínseca força da verdade. Que, ainda por cima, é de uma argúcia desconcertante. E de uma serenidade insuperavelmente convincente.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2002

"Quando pensamos que a leitura da imprensa era a 'oração matinal' de Hegel, interrogámo-nos sobre que tipo de jornais ele tinha a sorte de ler! (Não tenho disponibilidade para verificar agora esse aspecto). A maior parte dos jornais parecem escritos para nos desgostar da humanidade) (... ) "falta-nos a oração, a nós que já não acreditamos; por vezes, sofro por não poder rezar".
Sylvianne Agacinski, doutora em Filosofia e mulher de Lionel Jospin, in Journal Interrompu (Seuil) (cit. por Mário Mesquita).
Catalina e Mestre Américo
Manuel Pinto
Catalina Pestana. Já a conhecia. Mulher forte e frontal. De uma clarividência e assertividade tocantes. Toma hoje posse como nova Provedora da Casa Pia de Lisboa, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo. O facto já diz, por si mesmo, muita coisa.
Gostei de a rever no fim de semana nos canais de televisão. Sorriso aberto num rosto expressivo, olhar de esperança, a frontalidade de sempre. O cargo e a boca do palco mediático não a tolhem nem no elogio e nem na denúncia.
O elogio foi para a comunicação social que, desassombradamente, investigou o que a justiça arquivou e que nos tem confrontado com um problema que não é apenas da Casa Pia, mas de todos nós, enquanto sociedade política (como bem notou o sociólogo Paquete de Oliveira, no “Jornal de Notícias” de sábado).
A denúncia foi para a mesma comunicação social, em particular para aquela que, emproada e justiceira, perdeu a noção da dignidade e da elevação, e se estatelou na mesma lama que denunciava. Catalina Pestana disse-o na própria TV, em nome das centenas de crianças da Casa Pia e de muitos milhares de outras que, por todo o país, abrem os olhos e a boca de espanto e perplexidade.
A outra figura desta crónica é mestre Américo, alguém de quem nunca tinha ouvido falar antes, mas que agora fiquei a admirar. Foi ele um dos poucos que, ao longo de todos estes longos anos, não pactuou com o silêncio, não claudicou diante da ignomínia e que deu a cara em nome da dignidade e dos direitos das crianças. Se os elementos que têm vindo a público se confirmam, a sociedade portuguesa deve-lhe estar profundamente grata. O testemunho e a coragem desse homem merecem ser enaltecidos e publicamente reconhecidos. Ele, de alguma forma, nos redime a todos, na medida em que sinaliza, de modo eloquente, que por mais poderosos que sejam os constrangimentos e as lógicas da intimidação e do medo, “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”.
Uma flor nasce no esterco. Um rebento no tronco ressequido. Com a flor e o rebento nos agarramos à vida. Para a fazer nova e lavada.
(Crónica na Rádio Universitária do Minho e publicada hoje no Diário do Minho)
Duarte Lima, comentando, no Expresso de 30.11.2002, o escândalo na rede de pedofilia:
"Já todos passámos por situações em que as palavras são absolutamente incapazes de comunicar. São situações normalmente associadas ao conhecimento de factos tão carregados de significado, que tornam supérflua qualquer palavra, qualquer enunciado, qualquer juízo ou explicação. Tudo quanto as palavras possam exprimir é insuficiente para acrescentar o quer que seja à força expressiva dos factos que nos atingem como um raio. É como se ficássemos no interior de uma câmara fechada, onde subitamente se rarefez o ar e a luz. É o domínio do indizível, da pura impotência do discurso para iluminar o significado daquilo que percebemos com os sentidos, com o intelecto, e sobretudo com a emoção. (...)
Vivemos numa civilização em que as máquinas, as técnicas e as leis, como instrumento de regulação social, mudam a uma velocidade vertiginosa. Tudo muda menos o homem. As máquinas progridem, mas o homem não. Acumulámos conhecimentos a níveis impensáveis há poucos séculos, mas o acréscimo de conhecimento não se traduziu num acréscimo de saber autêntico, no sentido ontológico. Mais informação não se traduziu em melhores níveis de consciência.
E por isso a civilização moderna continua a repousar na violência e na escravatura. A violência que nos é servida em doses maciças cada vez que abrimos a televisão. A escravatura de dezenas de milhões de crianças em todo o mundo, em números nunca antes atingidos na história da humanidade, não apenas nas redes pedófilas que circulam na net, mas também nos trabalhos forçados das plantações de chocolate e cacau dos países do terceiro mundo.
Podemos fazer muito pouco para melhorar o mundo se o caminho for apenas o do recurso a mais leis e a mais conhecimentos. Aliás, estamos a atingir o limite das nossas capacidades para armazenar mais conhecimentos, como lembra George Steiner, ao avisar que os milhões de livros novos que diariamente entram nas bibliotecas nos colocam perante uma ameaça, a da implosão do conhecimento.
Pensamos sempre que o homem será melhor no futuro, em resultado de mais educação, de mais progresso, de mais informação e de mais conforto.
Mas, nesse futuro, que é o do tempo linear que está à nossa frente, tudo se repetirá inevitavelmente, como se repetiu até aqui. Nesse futuro, o homem não será melhor. Há um velho ensinamento que diz que o «ser determina a vida», e se o ser não mudar, a vida não muda. Não é um problema de mudança de mentalidades, é um problema de mudança de nível de consciência. E neste domínio, a política é impotente. É um trabalho que só cada homem pode fazer por si próprio.
Consciência, literalmente, significa conhecer simultaneamente, conhecer um «fora», que está no exterior, e conhecer um «dentro», que está no interior de cada homem.
Por isso se diz que a consciência é luz: sem ela, nós continuaremos a ser, como se diz nos Evangelhos, «os homens que vivem nas trevas».

sábado, 9 de novembro de 2002

"...As religiões oficiais ganharam uma força que faz com que o seu estímulo seja precisamente uma demonstração das fraquezas humanas. Quem não tem qualquer outra esperança, refugia-se no ignoto, no desconhecido, no mistério. A religião, em parte, é uma tentativa de resposta para problemas cujos dados não conhecemos. As religiões são respostas antiquadas a certos problemas para os quais temos outro tipo de resposta. Não tenho nada contra a religião, desde que os religiosos me tolerem a mim. Agora não tenho religião nenhuma, mas fui católico, apostólico, romano até os 11 anos. Fui menino do coro e algumas pessoas da minha família insistiam para que fosse padre. Até aos 10 anos estive inclinado a sê-lo. Todo o ambiente da minha família era religioso. É curioso lembrar-me que o homem que mais contribuiu para o abalar das minhas convicções foi um padre. Ele próprio não acreditava. A curiosidade levou-me a deitar fora todos os preconceitos que limitam impositivamente a investigação. A pretexto das religiões tem-se falado agora muito do choque de civilizações. Não há choque nenhum de civilizações. Há choque de convicções...."
Óscar Lopes, militante do PCP, 85 anos
Expresso- Revista, 9.11.2002

"The Eagle soars in the summit of Heaven,
The Hunter with his dogs pursues his circuit.
O perpetual revolution of configured stars,
O perpetual recurrence of determined seasons,
O world of spring and autumn, birth and dying!
The endless cycle of idea and action,
Endless invention, endless experiment,
Brings knowledge of motion, but not of stillness;
Knowledge of speech, but not of silence;
Knowledge of words, and ignorance of the Word.
All our knowledge brings us nearer to death,
But nearness to death no nearer to God.
Where is the Life we have lost in living?
Where is the wisdom we have lost in knowledge?
Where is the knowledge we have lost in information?
The cycles of heaven in twenty centuries
Brings us farther from God and nearer to the Dust.

The lot of man is ceaseless labor,
Or ceaseless idleness, which is still harder,
Or irregular labour, which is not pleasant.
I have trodden the winepress alone, and I know
That it is hard to be really useful, resigning
The things that men count for happiness, seeking
The good deeds that lead to obscurity, accepting
With equal face those that bring ignominy,
The applause of all or the love of none.
All men are ready to invest their money
But most expect dividends.
I say to you: Make perfect your will.
I say: take no thought of the harvest,
But only of proper sowing.

The world turns and the world changes,
But one thing does not change.
In all of my years, one thing does not change,
However you disguise it, this thing does not change:
The perpetual struggle of Good and Evil".
T.S. Eliot
in "The Rock"

sábado, 19 de outubro de 2002

No DN de hoje, com o título "Uma ausência e um olhar", de João Lopes, vem este bocadinho de prosa. Reflecte sobre uma história contada no último livro de Manuel Alegre: no dia em que o pai morreu, o cão andou agitado para cima e para baixo das escadas e, depois de muito andar, foi enroscar-se aos pés da cadeira vazia, onde o dono costumava sentar-se:
"Em boa verdade, só se tivermos medo da nossa relação física com os objectos mortos recusaremos a intensidade da vida que neles se guarda. Animismo? Não. Antes a certeza incerta de que cada olhar que depositamos sobre os objectos do mundo não é uma mera confirmação do que nos é dado ver, mas sim a reinvenção do próprio acto de ver. Em quê? Em imagem interior, radical, pessoal e intransmissível.
Esquecemo-nos dessa dimensão visceral das imagens. Neste tempo de mensagens aceleradas, bips e telemóveis, quase tudo o que é imagem surge recoberto por uma bênção redentora - vemos e deliramos. Perdemos (ou queremos perder) a dimensão sagrada da imagem. É uma dimensão que começa no que vemos, mas cuja utopia é o «invisível». E não é preciso que no fundo disso tudo esteja Deus ou o Diabo para nos garantirem a verdade do nosso olhar. Basta que esse mesmo olhar saiba que nem tudo pode ser dito, nem tudo pode ser mostrado (...)."

sexta-feira, 18 de outubro de 2002

"Temos Que Renunciar a Quê, para nos Entendermos? "é o título de uma peça de Esther Mucznick, hoje, no Público. Nela dá a notícia da fundação, em Lisboa, há poucas semanas, da Associação Universos, associação para o diálogo inter-religioso."A Universos não é uma associação confessional ou religiosa, nem pretende converter ou formar adeptos em nenhuma religião.
É uma associação de pessoas individuais (e não de comunidades) que tem como objectivos proporcionar um conhecimento maior das várias tradições religiosas, promover o estudo e o debate crítico do fenómeno religioso e contribuir para o desenvolvimento pacífico, justo e solidário dos indivíduos e povos, nomeadamente através de um diálogo aberto".
Comentando esta iniciativa, escreve E. Mucznick:
"Esta associação não surge por acaso. Ela é o reflexo de uma presença étnica, cultural e religiosa cada vez mais diversificada e numerosa em Portugal, que se dá fundamentalmente depois do 25 de Abril (e que se tem vindo a acelerar nos últimos anos) e é significativa de uma vontade de reflexão conjunta sobre este fenómeno. Mais do que isso: a Universos reflecte igualmente o interesse crescente a nível internacional pelo fenómeno religioso e, nomeadamente depois do 11 de Setembro, a angústia e preocupação pela instrumentalização da religião e pelo incremento da violência religiosa.
Não é pois de admirar que, embora ainda no início da sua actividade, a Universos congregue já no seu seio pessoas representativas das mais diversas sensibilidades religiosas presentes em Portugal: hindus, budistas, muçulmanos, católicos, cristãos ortodoxos, coptas e judeus começaram a trilhar um caminho em conjunto que embora incerto é, sem dúvida, extraordinariamente inovador, pelo menos em Portugal.
(...)O que significa hoje o tão badalado "diálogo inter-religioso", e como levá-lo a cabo, não são questões fáceis de responder.
Em primeiro lugar, acredito que o objectivo do diálogo inter-religioso deve ser o assumir de compromissos: não sobre as questões teológicas ou doutrinárias, mas compromissos para a acção que sejam realmente um contributo para a paz e para uma convivência harmoniosa das pessoas. Não entendo o diálogo inter-religioso apenas como um objectivo mediático, e muito menos como fazendo parte da "missão evangelizadora" ou dito de uma forma mais prosaica, a tentativa de convencer o outro. A ser assim nunca passará de monólogos paralelos, sem consequências práticas.
Porque é disso que se trata. É evidente que a troca de ideias, o debate e a reflexão são, em si mesmos, estimulantes e fundamentais. Mas só cumprirão realmente o seu papel quando contribuírem para alterar o nosso comportamento e o nosso relacionamento, no sentido de um maior conhecimento e entendimento entre os seres humanos. Nunca é demais repeti-lo: a principal função do diálogo inter-religioso é contribuir para tornar o mundo melhor e não mais judaico, mais cristão ou mais muçulmano. (...)".

quinta-feira, 17 de outubro de 2002

De um texto de J. Pacheco Pereira, hoje, no Público, relativo ao populismo e à sua relação com o campo mediático:
"(...) Os populistas perceberam que aparecer é fonte de ser, e (...) aparecer muito é directamente correlativo de surgir à frente nas preferências das sondagens. As sondagens, outro elemento decisivo do mundo mediático de hoje, retratam que o que é escolhido é quem é reconhecido. Há excepções que confirmam a regra, mas não são a regra.
A televisão aqui não é usada como instrumento de comunicação, para se dizer qualquer coisa, para se transmitir sentido, mas como o grande teatro do mundo. Nela os políticos populistas dão razão a McLuhan, percebendo que a "mensagem" é a "massagem", e nela se fundem com o próprio meio, para serem eles próprios parte do ecrã, imagem da imagem, parte da fina película, que, por apelar ao nosso sentido mais enganador, o da visão, transporta consigo todas as possibilidades de manipulação.
Nesse ecrã representam o mais possível um frenesim de som, luz e muita cor, o maior "bragadoccio", algum melodrama, lágrimas e suspiros, arroubos estudados e frases assassinas, todo o espectáculo de si mesmos. Tudo do que é mais popular, numa continuidade com os outros espectáculos, com os "reality shows", com a crónica "social", e os programas desportivos. Nada há hoje de mais parecido na palavra e na imagem com a política populista do que o mundo do futebol, com as suas ameaças e processos, insinuações e acusações, mentidos e desmentidos, ausência completa de memória das palavras e dos factos, reconstrução permanente de um eterno quotidiano desprovido de quaisquer referências que não sejam a pura existência e o poder dos seus actores.
Não há aí lugar para valores, memória, ideias, espessura psicológica, a não ser o dos efeitos perversos do narcisismo absoluto, que muitas vezes conduz da ascensão à queda com o fragor de uma vingança do destino ou de um filme de Hollywood sobre actrizes envelhecidas ou jovens "yuppies" que não perceberam como é que o "inside trading" os levou à cadeia. O problema é que esse mesmo narcisismo absoluto arrasta tudo consigo, numa vontade de ou tudo ou nada, que tudo renega e nada respeita, a começar pelo respeito por si próprio e que tem a perdição tão inscrita na natureza das coisas como o sucesso instantâneo e a vã glória.
Este contínuo tem poderosos efeitos, porque consolida uma linha de entretenimento para as massas que não precisa de mediação - tem-na como é óbvio, porque há quem mexa os cordelinhos deste espectáculo - e que surge como adequada às literacias dominantes, as reforça e consolida como iliteracias, ignorâncias que recusam o saber. É aí que hoje se reproduzem as mais graves formas de exclusão social, mais do que no puro tecido da economia. É aí que hoje se gera a maior pobreza, e grande parte do nosso atraso, que a escola, a sociedade e a família não conseguem combater. No fundo, no fundo, porque é que não se há-de ser feliz assim, para que é que é preciso mais? (...)".

terça-feira, 15 de outubro de 2002

Fico grato a Hernán J. González, um argentino que, entre outros espaços que cultiva na Internet, alimenta o blog com o inusitado título Fotos del Apocalipsis. Grato pelo que descobri e grato por me ter lembrado que hoje se evoca o testemunho de Santa Teresa de Ávila. Uma mina de recursos para penetrar na vida e nos escritos desta grande figura da Igreja Católica.
Já agora, uma explicação para o título do blog. uma frase atribuída a Leon Bloy que diz: "Quando quero saber das últimas notícias, leio o Apocalipse". Uma excelente provocação, para um trabalhador nas coisas do jornalismo, como é o meu caso.

sábado, 12 de outubro de 2002

sexta-feira, 11 de outubro de 2002

Faz hoje 40 anos que se iniciou o Concílio Vaticano II. Quando se movimenta uma corrente de opinião que começa a propor um Vaticano III, é bom recordar a mudança que se operou durante o II, contra a vontade de muitos "funcionários de Deus" do Vaticano. Aqui está o texto do discurso de abertura, feito pelo papa João XXIII.
Outra decisão de grande significado: a atribuição do Nobel da Paz ao ex-presidente norte-americano James Carter. Depois de abandonar a presidência, tem-se dedicado a mediar conflitos, um pouco por todo o mundo e, recentemente, fez das mais duras denúncias da política belicista da actual administração dos EUA (veja-se o seu texto El inquietante nuevo rostro de EE UU, publicado em 12 de Setembro em El País). O presidente do grupo de "sábios" que atribuiu o prémio reconheceu que esta escolha constitui também uma crítica indirecta à política externa de George W. Bush.

quinta-feira, 10 de outubro de 2002

A ter em conta:
"(...)Several years ago I made a conscious effort to go rustic for motives of the utmost purity: To escape the media-driven droning of Washington. I had watched political obsession destroy the best minds of my generation. Many awaited the pre-dawn plop of the Post on their doorstep with the same yearning an adolescent boy takes to that fabled peephole into the girls' shower.
Yet as the sheep graze nearby, I find myself fully in the grips of News-Flow Mania. This is a debilitating condition. Where there was once hope of thinking the long thoughts of middle age, reading the great books of antiquity, and of escaping the tyranny of the morning headlines, there is now a rechecking of events on the hour, sometimes more often than that. The stories are almost always of no real importance". (Texto completo: Dave Shiflett, News-Flow Mania, National Review Online, 9.Out.2002)