domingo, 27 de abril de 2003

Palavras e tretas

“ (...) Palavras que chamavam pelas coisas, que eram o nome das coisas (...)”.
Sophia de Melo Breyner

Em tempos de tantas palavras, difícil é ser sábio para prestar atenção a todas, mas tomar apenas aquelas que valem a pena.
Se repararmos, são cada vez mais as palavras que circulam e nos cercam, orais e escritas, difundidas pelos meios mais diversos. E não só há mais palavras como se multiplicam também os pontos a partir dos quais essas palavras se enunciam. Ouvem-se as vozes de um lado e de outro, palavras soltas, murmúrios vagos, gritos e silêncios, discursos incandescentes, pronunciamentos desencontrados sobre mil assuntos, num vozear tal que, a dada altura, se torna difícil saber a que “terra” se pertence. Falam tonitruantes os que têm o (aparentemente natural) direito à palavra; falam os que se lhes opõem, para dizer, frequentemente, a mesma coisa; falam os que se colocam em “bicos de pés” para dizer que também existem. E o resultado é, frequentemente, um ruído ambiente, no qual é difícil ou mesmo impossível encontrar algum sentido, tantos são os “sentidos” e a velocidade estonteante da sua reciclagem.
Assoma por vezes a nostalgia dos tempos da palavra autorizada e única, de sentido linear e óbvio. Sem se perceber ou querer perceber que tal palavra apenas pode existir e perpetuar-se silenciando as palavras dos outros.
É salutar o acesso à palavra própria e à capacidade de a enunciar e difundir. Nisso, andamos algum caminho. Mas não o suficiente para nos darmos conta de que muitas palavras não são necessariamente as palavras de muitos. E mesmo que o fossem, muitas palavras só podem coexistir e frutificar havendo quem as escute. E mesmo que haja quem as escute e receba, necessário é saber distinguir entre aquelas que fazem sentido e aquelas que não passam de “palavreado” ou “treta”, entre aquelas que insuflam um sopro de vida e aquelas que ferem e matam.
Como encontrar sentido nas palavras? Como nos entendermos diante da proliferação e banalização da palavra? Como conseguir ouvir a palavra, ouvindo e acolhendo quem a pronuncia? Múltiplas são as vias da resposta, configuradoras de vastos e exigentes programas individuais e colectivos. Deixo uma achega do nosso P. António Vieira no seu Sermão da Sexagésima. “Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam”.
(texto para a crónica semanal no "Diário do Minho" de 28.04.2003).

sábado, 26 de abril de 2003

"Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus? (...)
Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. (...) Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram em palavras? -- Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. (...) A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos".
P. António Vieira, Sermão da Sexagésima, 1655

sábado, 19 de abril de 2003

A valia da vida humana
Manuel Pinto

Os tempos que correm parecem mais de Crucificação do que de Páscoa, mais de Sexta-feira Santa do que de Ressurreição.
Recordo hoje os dois trabalhadores de Vila das Aves, que morreram na semana passada no meio dos ferros retorcidos pela avalanche de terra nas fundações em que trabalhavam. Retenho as imagens dos canais televisivos: as valas desguarnecidas, os corpos resgatados sem vida, as pessoas entre o resignado e o revoltado, o silêncio e ausência de quem deveria responder pelo sucedido.
O caso é apenas mais um, na terrível lista do pesadelo que são os acidentes de trabalho, em particular na construção civil. Funciona como perfeita exemplificação de como a vida humana continua a ser coisa de pouca monta, na escala dos valores reinantes, desde a instância política aos comportamentos mais quotidianos.
Não se trata de mera imprevidência ou facilitação. As campanhas de informação, para já não referir as leis vigentes, tornam indesculpável que se facilite no terreno da segurança pessoal, na mira de poupar uns euros (de resto, uma ilusão, porquanto não faltam estudos comprovativos de que o investimento neste domínio é compensador do ponto de vista económico).
Dados oficiais indicam que, nos últimos dez anos, devem ter morrido perto de milhar e meio de pessoas em acidentes no sector da construção civil. Em média, um trabalhador em cada dois dias, são mortos por acidente no trabalho ou relacionado com o trabalho. Muitíssimos mais são aqueles que ficam estropiados e incapacitados. Há, neste flagelo, uma parte de responsabilidade que pode caber ao próprio trabalhador. Mas, como é evidente, a falta de condições, da responsabilidade das empresas e dos empresários, aparece frequentemente associada aos desastres de que a opinião pública toma conhecimento. E quando tal acontece seria importante que fossem levadas às últimas consequências responsabilidades civis, mas também criminais.
De resto, quando o clima económico é de restrições cegas e não há noção de valores como a justiça e a dignidade humana, corre-se o risco – nas instituições privadas como nas públicas – de afectar a integridade física e psíquica das pessoas e, com isso, aquele nível mínimo de confiança básica sem o qual a vida social não se sustém.
Por tudo isto, e por muito mais que aqui não cabe, é tão difícil – e tão desafiante – adentrar-se no mistério da Ressurreição.

sexta-feira, 18 de abril de 2003

En une décennie, les croyances ont reculé en France
LE MONDE | 16.04.03 |

Existence de Dieu, fréquence de la prière, importance de la foi : les Français sont de plus en plus sceptiques, selon un sondage CSA pour "Le Monde" et "La Vie" qui reprend les mêmes questions qu'en 1994.
Sondage : les Français et leurs croyances (108 pages, PDF, 765 Ko)
Des croyances en baisse, un catholicisme qui se maintient, des religiosités parallèles qui s'effondrent.
Telles sont les grandes tendances qui se dégagent d'un son- dage CSA réalisé pour Le Monde et l'hebdomadaire La Vie, et qui reprend les questions posées lors d'une précédente enquête, réalisée en 1994.

Le sondage offre d'abord un aperçu du paysage religieux français en 2003. Sans surprise, les catholiques représentent l'écrasante majorité : 62 % des Français se déclarent de confession catholique, contre 67 % en 1994. Certains interpréteront cette légère baisse comme le signe d'un inexorable déclin ; d'autres y liront la marque d'une résistance d'un catholicisme culturel. Le poids des autres religions n'évolue guère, à l'exception de l'islam : les personnes se déclarant de religion musulmane passent de 2 % à 6 %. Les enquêteurs de l'Institut CSA constatent que, dans les sondages d'opinion, la population qui se déclare musulmane représente désormais un "sous-échantillon significatif", c'est-à-dire supérieur à 50 sur un total d'un millier de personnes sondée. Contrairement à certaines idées qui ont cours depuis une dizaine d'années sur l'attrait des spiri- tualités orientales, le nombre de personnes se réclamant du bouddhisme reste inférieur à 1 %.
La pratique religieuse s'érode, mais faiblement : 12 % des personnes interrogées disent aller à la messe ou à un office religieux une ou plusieurs fois par semaine, contre 14 % en 1994. 10 % affirment n'y aller jamais, contre 7 % en 1994. Le nombre des personnes qui disent y aller "de temps en temps aux grandes fêtes" augmente très légèrement, passant de 23 % à 24 %. Les musulmans semblent plus pratiquants que les catholiques : 27 % d'entre eux affirment assister à l'office religieux au moins une fois par semaine, contre 11 % chez les catholiques.
(...)
De manière significative, 32 % des personnes interrogées se disent en accord avec la proposition "Maintenant, je recommence à croire", un chiffre qui n'était que de 13 % en 1994. Faut-il y voir un signe du fameux "retour du religieux", qui profiterait aux religions traditionnelles ? Selon Régis Debray, interrogé par La Vie à paraître jeudi 17 avril, "on passe d'un affichage des croyances à un affichage d'appartenance. La religion devient une carte d'identité."

Le fait le plus marquant de cette enquête concerne en effet l'effondrement des croyances parallèles. L'astrologie ne fait plus recette : 37 % y apportent crédit, contre 60 % en 1994. C'est encore pire pour les voyantes (23 % y croient, contre 46 % lors de la précédente enquête), pour la communication avec les morts (22 % contre 37 %) et pour la sorcellerie (21 % contre 41 %).

Le christianisme n'apparaît pas comme une religion dépassée. Il est placé en tête des religions pour lesquelles les Français éprouvent "un intérêt spirituel" : 55 % des personnes interrogées s'y intéressent. Vient ensuite l'islam (22 %), qui devance le bouddhisme (21 %) et le judaïsme (16 %).

Xavier Ternisien

Leituras:

"Malgré tout, cette comparaison livre plusieurs surprises de taille.
La plus grande est le très net recul des croyances parallèles : de 60 % à 37 % pour "l'explication des caractères par les signes astrologiques", de 46 % à 23 % pour "les prédictions des voyantes", de 41 % à 21 % pour "les envoûtements, la sorcellerie".
Ce recul est encore plus prononcé chez les jeunes, alors que c'étaient eux qui se montraient les plus sensibles à ces croyances dans la précédente enquête. (...)
L'autre surprise de ce sondage, qui vient confirmer cette hypothèse, c'est que le nombre de personnes qui se définissent comme "rationalistes" bondit de 22 % à 52 %. Il faut comprendre ici "rationaliste" en son sens le plus large, et non en référence à une famille de pensée. Là encore, les jeunes en rajoutent (67 % de "rationalistes" contre 22 %). (...)
Le retour partiel de la génération du baby-boom à la religion se confirme. C'est désormais la tranche d'âge des 35-49 ans qui compte les taux les plus bas d'adhésion religieuse. On retrouve ainsi la courbe en U des années 1950-1960, avec un étiage religieux aux âges de la pleine acti-vité professionnelle et familiale, une période "préoccupé à autre chose", disaient Fernand Boulard, Jean Rémy et Jean Stoetzel.
Yves Lambert, sociologue des religions

"O Cristo na Cruz! Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!"

"Esta frase de Romano Guardini, que li há muito longo tempo, sempre a retive sem perceber bem porquê. Os mistérios só são mistérios porque ninguém os percebe e porque é estulto aquele que os tenta perceber. Cristo na Cruz, para qualquer cristão, é um mistério. Mas Cristo ressuscitado também. E, na esfera do mistério, não cabe o maior nem o menor. Quando não percebo, não posso perceber o tamanho do que não percebo. Se abro a porta para uma escuridão total, nunca poderei saber se essa escuridão é imensa, ou atravessável em sete passos. A não ser que me enfie nela, o que não posso fazer, pois que não tenho sustentação possível.
(...)
Mas só podemos pensar o dia de hoje, se o pensarmos como a perfeição de uma esfera admirável, porque, como disse frei Heitor Pinto, "O princípio une-se com o fim." "Esta é a perfeita figura, este é o círculo divino (...) este é o filho que é padre da madre; este é o que, nascendo em tempo, foi antes do tempo e fez o tempo; este é o que sendo impossível se fez possível e sendo eterno se fez mortal." (...)

JOÃO BÉNARD DA COSTA
PÚBLICO, Sexta-feira Santa, 18 de Abril de 2003

domingo, 13 de abril de 2003

Dois catolicismos?

O historiador e fundador da Comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi, considera que o desenvolvimento das posições em torno da guerra veio evidenciar uma profunda divisão entre o catolicismo e a maioria das confissões protestantes clássicas, por um lado, e os movimentos neo-protestantes americanos, por outro.
Num interesssante artigo no jornal espanhol La Vanguardia intitulado “Dois cristianismos?”, Riccardi observa que este neo-protestantismo, pouco conhecido na Europa, engloba movimentos não circunscritos a confissões religiosas tradicionais, encontra nos “tele-evangelistas” os seus grandes divulgadores e anuncia o ressurgimento religioso assente numa ética individual que defende o regresso aos valores tradicionais. Alimenta, além disso, a ideia de que aos Estados Unidos da América cabe uma missão providencial no mundo, bem ilustrada com a recente guerra. O presidente George W. Bush terá encontrado nesses movimentos apoio e inspiração, a ponto de invocar o nome de Deus para legitimar a intervenção no Iraque.
Não podiam ser mais afastadas as posições dos sectores que hoje prevalecem na Casa Branca e, nomeadamente, as do Vaticano e de várias outras importantes confissões cristãs. Está, assim, bem patente, na perspectiva de Riccardi, “um novo e profundo conflito no coração do Ocidente”.
A verdade é que a veemência que o papa, o Vaticano e diversas organizações da Igreja Católica puseram na condenação e na oposição frontal a esta guerra esteve longe de colher aceitação em diversos sectores do próprio catolicismo, em particular em países como a Itália, Espanha e Portugal.
No caso português, católicos em posição de destaque na vida política, no Governo e no Parlamento, ou se calaram ou assumiram claramente uma posição divergente da do papa e concordante com a do Governo. E mesmo ao nível episcopal, estivemos muito longe da militância que costuma surgir quando o assunto é também, por exemplo, o aborto.
No caso da guerra do Iraque, em que o nosso país acabou por estar mais envolvido do que seria desejável, é preciso que fique registado que muitos sectores que se tomam, noutras circunstâncias, pelos mais lídimos defensores das posições do papa, optaram, neste caso, pela dissidência, pelo silêncio ou pela mera afirmação de princípios, em nome de outros interesses ou, pelo menos, de outras interpretações.
É claro que não estamos perante dois catolicismos, o que seria, de resto, uma contradição nos próprios termos, mas perante modos diversos de entender e pôr em prática a mensagem de Cristo. Esse que, como tantos iraquianos, de hoje e de ontem, não morreu de morte natural, mas foi maltratado, confundido com malfeitores e, por fim, pregado numa cruz.
O Corão

Em tempos conturbados como aqueles que vivemos, em que Deus é invocado de diferentes lados, para legitimar a guerra, torna-se cada vez mais saliente a importância do diálogo entre a chamada cultura ocidental e a cultura e religião muçulmanas. Sem o conhecimento do outro, a comunicação não é possível e o diálogo converte-se numa conversa de surdos. Daí que possa ter interesse conhecer aquela que é a “Sagrada Escritura” da religião muçulmana, o Corão (Qur’an, em árabe). Ele é o guia do mundo islâmico, que se estende por uma região que vai de Marrocos, no Atântico, até à Malásia e à Indonésia, no oceano Pacífico. O livro sagrado compõe-se de 114 capítulos ou “suras” e, segundo a tradição, foi revelado a Maomé pelo anjo Gabriel, entre o ano de 610 da nossa era, ainda antes da Hégira, em Meca, e 632, já em Medina. Embora existam traduções do Corão em português, não conhecemos versões disponíveis na Internet. A que aqui apresentamos está em espanhol, deve-se a um grande especialista de árabe e espanhol, Julio Cortés e foi publicada em 1979. Compreende um Glossário de termos no início e um índice analítico na parte final.

sábado, 8 de fevereiro de 2003

Paquete de Oliveira, "O nosso lado oculto"

"Habituados que estamos a encontrar fáceis "bodes expiatórios" das nossas misérias, os políticos, os árbitros de futebol, os toxicodependentes, eis que, de repente, somos obrigados a falar de nós mesmos. Com os acontecimentos dos últimos dias, a sociedade portuguesa sente-se dilacerada. Os portugueses terão de discutir-se a si próprios. Afinal, o que é que está a passar-se com a sociedade portuguesa?
Portugal está transformado num vivo "laboratório social", aberto ao público. É importante não perder a ocasião para reflectirmos sobre algumas das razões de sermos como somos. O quotidiano da vida num país, como no Mundo, é sempre um laboratório social. Todavia, o quotidiano, aquilo que acontece todos os dias, talvez pela sua rotina, pode ser matéria de reflexão, observação e estudo para investigadores encartados, mas não o é para o cidadão comum. O homem da rua, actor desse mesmo quotidiano, vive-o sem consciencializar o que à sua volta se passa. O nosso dia é, em regra, um somatório de actos mecânicos, automáticos.
A prisão preventiva de Carlos Cruz teve para nós portugueses o efeito de uma "bomba" muito superior àquele que tem tido o anúncio da "guerra preventiva" para onde o sr. Bush vai levar-nos. Carlos Cruz é um ícone da nossa vida. Numa sociedade mediática, aqueles que todos os dias entram por nossas casas dentro através daquelas pequenas pantalhas, dispostas nas nossas salas ou até nos quartos de dormir, como outrora os santuários das famílias com os "santinhos", são as "imagens" que adulamos e constroem as referências do nosso quotidiano. São assim os Sant'Antónios da nossa modernidade.(...)"
in Jornal de Notícias, 8.2.2003:
Comunidade de Taizé

Gostaria de ler regularmente a carta do Irmão Roger ou ouvir as músicas de Taizé? Desde que possa aceder a um computador com recursos multimédia isso é possível através do site em várias línguas (incluindo o português) que a Comunidade tem acessível na Internet. Acedendo ao endereço já apontado ao espaço em língua portuguesa que acima se indica, pode conhecer um pouco da história de Taizé, obter informações sobre como viajar até lá, entrar na dinâmica dos vários tipos de encontros que a comunidade organiza e até fazer a inscrição para uma estadia. Existe igualmente uma oração preparada, com as leituras e cânticos, com a duração de cerca de um quarto de hora, e que se pode descarregar para ser ouvida e acompanhada. De resto, além de ouvir uma boa parte dos cânticos que se cantam em Taizé, pode aproveitar para aprender a cantá-los, escolhendo, para cada um, as diferentes vozes. As leituras para a oração diária estão também disponíveis e, se assim pretender, pode inscrever-se para receber periodicamente por correio electrónico, notícias sobre Taizé.

domingo, 26 de janeiro de 2003

Organizações Católicas Internacionais contra guerra no Iraque

O Comité de coordenação da Conferência de Organizações Católicas Internacionais (COCI) apresenta uma posição crítica sobre a possibilidade de um ataque norte-americano ao Iraque, num comunicado de Imprensa datado de 19 de Janeiro.
A oposição a um ataque ao povo iraquiano é justificado por três pontos fundamentais, em que se refere que “não há provas convincentes da existência de armas de destruição maciça no Iraque”, que “os riscos de uma operação militar na zona são desproporcionados para a população e para o equilíbrio da região” e que “compete à ONU avaliar as condições para uma intervenção no Iraque”.
A COCI faz ainda referência às mensagens de João Paulo II sobre o tema da paz, ao mesmo tempo que sugere que no dia 2 de Fevereiro os seus associados se juntem em Oração, “porque o Senhor é a última instância a que podemos recorrer
para evitar esta tragédia”.
Esta organização agrupa 40 organizações laicais, presentes em mais de 150 países, e conta com cerca de 150 milhões de associados.

Fonte:Ecclesia

sábado, 4 de janeiro de 2003

João Maria van den Hurk, ss.cc.
Manuel Pinto

A campaínha tocou eram sete da manhã de um domingo cinzento. Dois agentes da PIDE-DGS apresentaram-se com ordens para levar o João Maria. Coisa breve, diziam. Mas lá iam sugerindo que talvez não fosse má ideia meter o pijama e uma escova de dentes num saco. Desculpando-se por serem simples agentes a cumprir ordens superiores, conduziram o padre num automóvel, para a sede da Rua do Heroísmo. As portas fecharam-se, de seguida, e o silêncio instalou-se.
Umas horas depois, telefonava o próprio da Holanda, onde acabara de chegar num voo da TAP. Num dos dias anteriores, a polícia política havia reservado uma viagem sem regresso deste cidadão holandês.
O motivo: na homilia do Dia Mundial da Paz, acabado de celebrar, atrevera-se a exprimir o sonho de que também nas ex-colónias fosse possível a paz. Não certamente a paz dos cemitérios, a paz do esmagamento dos direitos humanos, mas a paz que é fruto da justiça e que assenta no reconhecimento da dignidade de todos.
Neste caso, nem sequer se pode dizer que o João Maria fosse um revolucionário. Era, de facto, a pessoa mais pacífica deste mundo: um calmeirão bem disposto, com um coração acolhedor e solidário. Para ele, falar da paz num dia como aquele, sem referir a guerra sangrenta que se travava há uma década na Guiné, em Angola e em Moçambique era como estar perante uma paisagem bonita e fechar os olhos.
Os ouvidos do poder de então encostavam-se atrás das colunas das igrejas, para se assegurarem de que a Palavra de Deus se mantinha lá nas alturas, insípida, inofensiva e indolor e, se possível, com efeitos anestésicos.
A encíclica Pacem in Terris tinha, então, dez anos. O concílio Vaticano II lançara um sopro de vida na Igreja Católica. Começava a tornar-se evidente que o edifício do regime não aguentaria muito mais.
Nesse início de 1973, tinha acabado de acontecer o caso da Capela do Rato que ofuscou, naturalmente, uma multiplicidade de outros casos que se inscreviam numa consciência comum e numa vaga de fundo que começava a ganhar forma. Como este caso do João Maria, membro da Congregação dos Sagrados Corações, que agia não por estratégia política, mas por um indeclinável dever ético e por um imperativo evangélico.
Quando começa a ser de novo problemático defender a causa da paz – com as implicações éticas e políticas que essa causa reveste hoje e aqui - torna-se salutar recordar gestos simples e determinados como o do padre João Maria van den Hurk, ss.cc.
(Crónica para a RUM e para o DM de 6.1.2003)

domingo, 22 de dezembro de 2002

A noite e a estrela
Manuel Pinto

(...)
Em novembro chegaram os signos.
O céu nebuloso não filtravaestrelas anunciantes (...)


Carlos Drummond de Andrade

Bom Natal!
Sim, claro! Feliz Natal!
Mas, ainda assim, num lapso de tempo que dê para pensar no que fazemos e dizemos, vale a pena perguntar: que sentido tem celebrar o Natal – desejar bom Natal – em tempos sombrios e encerrados como são aqueles que temos diante de nós?
E os tempos estão mesmo sombrios. Quem o negará? Apesar das luzinhas que iluminam as ruas, dos holofotes que despejam luz sobre as montras e das musiquetas gastas que embalam os consumidores, a crise faz-se sentir. O emprego escasseia ou treme, o trabalho a poucos satisfaz, a vida é uma correria louca, a insegurança nas ruas agrava-se, o economicismo converte-se em ideologia política, a desconfiança nas instituições acentua-se.
Cá dentro, o poder das mafias do futebol (não do desporto, mas do negócio) já ousa ameaçar e manietar os próprios órgãos de soberania, utilizando de forma cada vez mais profissional os meios de comunicação.
Lá fora, uma guerra preparada e calendarizada como guerra preventiva, já nem sequer espera que se esgote a via persuasiva e diplomática, aguardando apenas que se complete o trabalho da propaganda para impor a sua lógica de destruição.
Tempos sombrios, exasperados e exasperantes, em que a cólera facilmente cede perante a esperança.
Paradoxo: o excessiva clarão que a nossa civilização incessantemente produz leva a dois efeitos: pela ofuscação que rouba horizonte, circunscreve-nos num mundo pequenino e medíocre; pelo universo ilusório que cria, dificulta o nosso confronto com a efectiva realidade das coisas.
Ora, ninguém consegue ver as estrelas no meio do ambiente feérico das nossas cidades iluminadas e das nossas vidas encandeadas.
De acordo com os ícones e símbolos desta quadra, os três reis magos viram uma estrela no Oriente e puseram-se a caminho, seguindo-a até Belém (sim Belém, a das notícias, a cidade palestiniana ocupada pelas tropas israelitas).
Pergunta: supondo que também nós nos dispomos a meter pés ao caminho, como ver a estrela que nos pode levar a Belém, sem nos confrontarmos com a noite?
(Crónica de hoje na RUM e amanhã no DM).

domingo, 8 de dezembro de 2002

Uma das questões que um dia gostaria de reflectir e debater diz respeito à afirmação de que só numa determinada confissão religiosa, ou só em Cristo, se pode encontrar a salvação. A arrogância que a afirmação virtualmente comporta e os riscos de fundamentalismo que dela podem decorrer não devem ser subestimados. O Cardeal Ratzinger vem dizer que arrogantes são os relativistas. A sua argumentação encerra pontos que merecem exame. Mas relativismo não é - não pode ser - sinónimo de pluralismo. Um assunto a retomar. Fica, para já, o relato de uma intervenção de Ratzinger, feito pela agência católica Zenit:

"Card. Ratzinger: “Est-ce arrogant de dire que le Christ est le seul sauveur?”En réalité, l’arrogant, c’est le relativiste, affirme-t-il

ROME, lundi 2 décembre 2002 (ZENIT.org) – La prétention des chrétiens d’annoncer que le Christ est l’unique sauveur de l’humanité
est-elle une prétention arrogante ? C’est la question que le cardinal Joseph Ratzinger, préfet de la Congrégation pour la Doctrine
de la Foi, a soulevée, au cours d’une conférence donnée à Murcia, en Espagne, ce week-end. En répondant à la question, il a rappelé quelle était la signification de la mission chrétienne.
Le congrès auquel participait le cardinal Ratzinger était organisé par l’Université catholique San Antonio de Murcia (UCAM) et
avait pour thème « Le Christ : Chemin, Vérité et Vie ». Il s’est déroulé du 28 novembre au 1 décembre.
« N’est-ce pas arrogant de parler de vérité dans des choses ayant trait à la religion et d’arriver à affirmer avoir trouvé la vérité, l’unique vérité dans sa propre religion? » a ajouté le cardinal Ratzinger.
Devant un auditoire d’environ 3.000 personnes, en majorité des jeunes, le cardinal allemand a déclaré qu’aujourd’hui « le fait de rejeter tous ceux que l’on peut accuser de croire « posséder » la vérité, comme à la fois simplistes et arrogants, est devenu un slogan avec une répercussion énorme ».
« Ces personnes ne sont semble-t-il pas capables de dialoguer, et par conséquent, on ne peut pas les prendre au sérieux car personne ne «possède » la vérité, a-t-il ajouté, en exposant la thèse du relativisme. On peut seulement être à la recherche de la vérité. Mais, a-t-il ajouté, de quelle recherche s’agit-il ici, si l’on ne peut jamais arriver au but ? »
Dans cette recherche, a-t-il poursuivi, « est-ce que l’on cherche réellement ou n’est-ce pas plutôt que l’on ne veut pas trouver la vérité car ce que l’on va trouver ne doit pas exister ? »
« Il est évident que la vérité ne peut pas être quelque chose que l’on possède, a-t-il expliqué. Face à elle je dois toujours avoir une attitude d’humble acceptation, en étant conscient du risque et en acceptant la connaissance comme un cadeau dont je ne suis pas digne, dont je ne peux pas me glorifier comme s’il s’agissait d’une conquête personnelle ».
« S’il m’a été donné de connaître la vérité je dois la considérer comme une responsabilité qui suppose aussi un service aux autres, a-t-il expliqué. La foi affirme par ailleurs que la différence entre ce que nous connaissons et la réalité proprement dite est infiniment plus grande que la ressemblance (Lat IV DS 806) ».
En réalité, l’arrogant c’est le relativiste, affirme le cardinal Ratzinger. « N’est-ce pas arrogant de dire que Dieu ne peut pas nous faire le cadeau de la vérité ? » ajoute-t-il. «N’est-ce pas une marque de mépris de Dieu de dire que nous sommes nés aveugles et que la vérité n’est pas pour nous ? »
La « vraie arrogance » consiste à « vouloir prendre la place de Dieu et à vouloir déterminer qui nous sommes, ce que nous faisons et ce que nous voulons faire de nous-mêmes et du monde».
Par conséquent, a-t-il expliqué, « la seule chose que nous pouvons faire est reconnaître humblement que nous sommes des messagers indignes qui ne s’annoncent pas eux-mêmes, mais qui parlent avec une sainte timidité de ce qui ne nous appartient pas mais qui provient de Dieu ».
«C’est seulement de cette manière que la tâche de la mission prend un sens, qui n’est pas le colonialisme spirituel, ni une soumission des autres à ma culture ou à mes idées », a-t-il expliqué. « La mission exige, en premier lieu, une préparation pour le martyre, une disposition à se perdre soi-même par amour de la vérité et du prochain ».
«C’est seulement ainsi que la mission est crédible », a conclu le cardinal Ratzinger. « La vérité ne peut ni ne doit avoir d’arme, qu’elle-même ».

sábado, 7 de dezembro de 2002

Intitulado "Religião, verdade e Paz", João A. Pinheiro Teixeira, padre da diocese de Lamego, escreve um artigo no "Expresso", de que respigo:
Quer-me parecer, por isso, que, na hora presente, os textos conciliares requerem não só uma cuidada análise semântica, mas acima de tudo uma cada vez mais indispensável hermenêutica existencial. Penso concretamente numa questão muito sensível, que a tragédia de 11 de Setembro de 2001 trouxe para a ordem do dia. Trata-se da relação entre religião e verdade, cuja afinidade dificilmente alguém contestará, mas que, não raramente, configura uma mistura explosiva e ameaçadora. É que não falta quem olhe prevalentemente para a verdade a partir da sua religião, julgando-se por isso depositário da sua fórmula definitiva e da sua versão final. O que falta é que cada um olhe para a sua religião a partir da verdade, investindo todas as energias na sua procura contínua e no seu acolhimento incessante.
Regra geral, quem presume possuir a verdade, tende a impô-la. A sua estratégia é violenta e a sua pose autista e arrogante. Quem, pelo contrário, persiste na sua busca, visa sobretudo encontrá-la e o anunciá-la. A sua conduta é pacífica e a sua atitude humilde e despojada.
Nesta luta sem tréguas, entre uma globalização sufocante e um sem-número de identidades reprimidas, a repetida evocação do divino parece radicalizar a tese de Samuel Huntington: «A religião é a diferença mais profunda que existe entre os povos».
É bom de ver que o problema não está na diferença, mas no modo como se tem lidado com a diferença. Isto é, no facto de ela ser encarada não como alicerce para a coexistência, mas como bissectriz separadora entre grupos, etnias e civilizações.
Não admira pois, que, nas vias que se perfilam para a resolução da actual crise internacional, só a paz pareça proscrita. O mais intrigante é que, entre os que praticam a agressão violenta e os que propugnam uma defesa beligerante, há quem alegue inspirar-se em mundividências de índole religiosa.
Perante tal quadro, o exame é inevitável e a pergunta obrigatória: que resposta tem sido a dos católicos ao apelo da «Gaudium et Spes» para que se «interdite absolutamente qualquer espécie de guerra» (nº82), incluindo, como é óbvio, a guerra em nome de Deus?
A verdade, de que todas as religiões se afirmam portadoras, não conflitua com o respeito por quem pensa - e sente - diversamente de nós. Já Maomé exortava: «Nenhum de vós é um crente até quererdes para o vosso vizinho aquilo que quereis para vós».
Sucede que o contencioso com a verdade tem mais a ver com a presunção de posse do que com a própria negação. É que a verdade encontra-se sobretudo do lado da busca. Eis, portanto e em síntese, o drama da nossa era: a verdade tem muitos «proprietários» e poucos «buscadores».
Se empreendêssemos mais na busca, daríamos conta que uma das dimensões mais surpreendentes da verdade - mas também mais esquecidas - é de ordem iconográfica, aquela que nos permite perceber que em cada homem se encontra esculpida a imagem de Deus.
Qualquer atentado contra seres humanos representa assim um crime de lesa-divindade e, nessa medida, de lesa-verdade. Esta, lembra o nº1 da declaração conciliar sobre a liberdade religiosa, «não se impõe de outro modo a não ser pela sua própria força, que penetra nos espíritos de modo ao mesmo tempo suave e forte».
Concretizando, enquanto pensarmos que a verdade se transmite pela força, dificilmente daremos atenção à intrínseca força da verdade. Que, ainda por cima, é de uma argúcia desconcertante. E de uma serenidade insuperavelmente convincente.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2002

"Quando pensamos que a leitura da imprensa era a 'oração matinal' de Hegel, interrogámo-nos sobre que tipo de jornais ele tinha a sorte de ler! (Não tenho disponibilidade para verificar agora esse aspecto). A maior parte dos jornais parecem escritos para nos desgostar da humanidade) (... ) "falta-nos a oração, a nós que já não acreditamos; por vezes, sofro por não poder rezar".
Sylvianne Agacinski, doutora em Filosofia e mulher de Lionel Jospin, in Journal Interrompu (Seuil) (cit. por Mário Mesquita).
Catalina e Mestre Américo
Manuel Pinto
Catalina Pestana. Já a conhecia. Mulher forte e frontal. De uma clarividência e assertividade tocantes. Toma hoje posse como nova Provedora da Casa Pia de Lisboa, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo. O facto já diz, por si mesmo, muita coisa.
Gostei de a rever no fim de semana nos canais de televisão. Sorriso aberto num rosto expressivo, olhar de esperança, a frontalidade de sempre. O cargo e a boca do palco mediático não a tolhem nem no elogio e nem na denúncia.
O elogio foi para a comunicação social que, desassombradamente, investigou o que a justiça arquivou e que nos tem confrontado com um problema que não é apenas da Casa Pia, mas de todos nós, enquanto sociedade política (como bem notou o sociólogo Paquete de Oliveira, no “Jornal de Notícias” de sábado).
A denúncia foi para a mesma comunicação social, em particular para aquela que, emproada e justiceira, perdeu a noção da dignidade e da elevação, e se estatelou na mesma lama que denunciava. Catalina Pestana disse-o na própria TV, em nome das centenas de crianças da Casa Pia e de muitos milhares de outras que, por todo o país, abrem os olhos e a boca de espanto e perplexidade.
A outra figura desta crónica é mestre Américo, alguém de quem nunca tinha ouvido falar antes, mas que agora fiquei a admirar. Foi ele um dos poucos que, ao longo de todos estes longos anos, não pactuou com o silêncio, não claudicou diante da ignomínia e que deu a cara em nome da dignidade e dos direitos das crianças. Se os elementos que têm vindo a público se confirmam, a sociedade portuguesa deve-lhe estar profundamente grata. O testemunho e a coragem desse homem merecem ser enaltecidos e publicamente reconhecidos. Ele, de alguma forma, nos redime a todos, na medida em que sinaliza, de modo eloquente, que por mais poderosos que sejam os constrangimentos e as lógicas da intimidação e do medo, “há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”.
Uma flor nasce no esterco. Um rebento no tronco ressequido. Com a flor e o rebento nos agarramos à vida. Para a fazer nova e lavada.
(Crónica na Rádio Universitária do Minho e publicada hoje no Diário do Minho)
Duarte Lima, comentando, no Expresso de 30.11.2002, o escândalo na rede de pedofilia:
"Já todos passámos por situações em que as palavras são absolutamente incapazes de comunicar. São situações normalmente associadas ao conhecimento de factos tão carregados de significado, que tornam supérflua qualquer palavra, qualquer enunciado, qualquer juízo ou explicação. Tudo quanto as palavras possam exprimir é insuficiente para acrescentar o quer que seja à força expressiva dos factos que nos atingem como um raio. É como se ficássemos no interior de uma câmara fechada, onde subitamente se rarefez o ar e a luz. É o domínio do indizível, da pura impotência do discurso para iluminar o significado daquilo que percebemos com os sentidos, com o intelecto, e sobretudo com a emoção. (...)
Vivemos numa civilização em que as máquinas, as técnicas e as leis, como instrumento de regulação social, mudam a uma velocidade vertiginosa. Tudo muda menos o homem. As máquinas progridem, mas o homem não. Acumulámos conhecimentos a níveis impensáveis há poucos séculos, mas o acréscimo de conhecimento não se traduziu num acréscimo de saber autêntico, no sentido ontológico. Mais informação não se traduziu em melhores níveis de consciência.
E por isso a civilização moderna continua a repousar na violência e na escravatura. A violência que nos é servida em doses maciças cada vez que abrimos a televisão. A escravatura de dezenas de milhões de crianças em todo o mundo, em números nunca antes atingidos na história da humanidade, não apenas nas redes pedófilas que circulam na net, mas também nos trabalhos forçados das plantações de chocolate e cacau dos países do terceiro mundo.
Podemos fazer muito pouco para melhorar o mundo se o caminho for apenas o do recurso a mais leis e a mais conhecimentos. Aliás, estamos a atingir o limite das nossas capacidades para armazenar mais conhecimentos, como lembra George Steiner, ao avisar que os milhões de livros novos que diariamente entram nas bibliotecas nos colocam perante uma ameaça, a da implosão do conhecimento.
Pensamos sempre que o homem será melhor no futuro, em resultado de mais educação, de mais progresso, de mais informação e de mais conforto.
Mas, nesse futuro, que é o do tempo linear que está à nossa frente, tudo se repetirá inevitavelmente, como se repetiu até aqui. Nesse futuro, o homem não será melhor. Há um velho ensinamento que diz que o «ser determina a vida», e se o ser não mudar, a vida não muda. Não é um problema de mudança de mentalidades, é um problema de mudança de nível de consciência. E neste domínio, a política é impotente. É um trabalho que só cada homem pode fazer por si próprio.
Consciência, literalmente, significa conhecer simultaneamente, conhecer um «fora», que está no exterior, e conhecer um «dentro», que está no interior de cada homem.
Por isso se diz que a consciência é luz: sem ela, nós continuaremos a ser, como se diz nos Evangelhos, «os homens que vivem nas trevas».

sábado, 9 de novembro de 2002

"...As religiões oficiais ganharam uma força que faz com que o seu estímulo seja precisamente uma demonstração das fraquezas humanas. Quem não tem qualquer outra esperança, refugia-se no ignoto, no desconhecido, no mistério. A religião, em parte, é uma tentativa de resposta para problemas cujos dados não conhecemos. As religiões são respostas antiquadas a certos problemas para os quais temos outro tipo de resposta. Não tenho nada contra a religião, desde que os religiosos me tolerem a mim. Agora não tenho religião nenhuma, mas fui católico, apostólico, romano até os 11 anos. Fui menino do coro e algumas pessoas da minha família insistiam para que fosse padre. Até aos 10 anos estive inclinado a sê-lo. Todo o ambiente da minha família era religioso. É curioso lembrar-me que o homem que mais contribuiu para o abalar das minhas convicções foi um padre. Ele próprio não acreditava. A curiosidade levou-me a deitar fora todos os preconceitos que limitam impositivamente a investigação. A pretexto das religiões tem-se falado agora muito do choque de civilizações. Não há choque nenhum de civilizações. Há choque de convicções...."
Óscar Lopes, militante do PCP, 85 anos
Expresso- Revista, 9.11.2002

"The Eagle soars in the summit of Heaven,
The Hunter with his dogs pursues his circuit.
O perpetual revolution of configured stars,
O perpetual recurrence of determined seasons,
O world of spring and autumn, birth and dying!
The endless cycle of idea and action,
Endless invention, endless experiment,
Brings knowledge of motion, but not of stillness;
Knowledge of speech, but not of silence;
Knowledge of words, and ignorance of the Word.
All our knowledge brings us nearer to death,
But nearness to death no nearer to God.
Where is the Life we have lost in living?
Where is the wisdom we have lost in knowledge?
Where is the knowledge we have lost in information?
The cycles of heaven in twenty centuries
Brings us farther from God and nearer to the Dust.

The lot of man is ceaseless labor,
Or ceaseless idleness, which is still harder,
Or irregular labour, which is not pleasant.
I have trodden the winepress alone, and I know
That it is hard to be really useful, resigning
The things that men count for happiness, seeking
The good deeds that lead to obscurity, accepting
With equal face those that bring ignominy,
The applause of all or the love of none.
All men are ready to invest their money
But most expect dividends.
I say to you: Make perfect your will.
I say: take no thought of the harvest,
But only of proper sowing.

The world turns and the world changes,
But one thing does not change.
In all of my years, one thing does not change,
However you disguise it, this thing does not change:
The perpetual struggle of Good and Evil".
T.S. Eliot
in "The Rock"

sábado, 19 de outubro de 2002

No DN de hoje, com o título "Uma ausência e um olhar", de João Lopes, vem este bocadinho de prosa. Reflecte sobre uma história contada no último livro de Manuel Alegre: no dia em que o pai morreu, o cão andou agitado para cima e para baixo das escadas e, depois de muito andar, foi enroscar-se aos pés da cadeira vazia, onde o dono costumava sentar-se:
"Em boa verdade, só se tivermos medo da nossa relação física com os objectos mortos recusaremos a intensidade da vida que neles se guarda. Animismo? Não. Antes a certeza incerta de que cada olhar que depositamos sobre os objectos do mundo não é uma mera confirmação do que nos é dado ver, mas sim a reinvenção do próprio acto de ver. Em quê? Em imagem interior, radical, pessoal e intransmissível.
Esquecemo-nos dessa dimensão visceral das imagens. Neste tempo de mensagens aceleradas, bips e telemóveis, quase tudo o que é imagem surge recoberto por uma bênção redentora - vemos e deliramos. Perdemos (ou queremos perder) a dimensão sagrada da imagem. É uma dimensão que começa no que vemos, mas cuja utopia é o «invisível». E não é preciso que no fundo disso tudo esteja Deus ou o Diabo para nos garantirem a verdade do nosso olhar. Basta que esse mesmo olhar saiba que nem tudo pode ser dito, nem tudo pode ser mostrado (...)."