sábado, 31 de maio de 2003

Quatro Cardeais da Nova Evangelização querem Igreja mais aberta ao mundo
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Os quatro cardeais promotores do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, a decorrer em Viena de 23 de Maio a 1 de Junho, sentaram-se diante de uma famosa apresentadora de televisão na manhã de ontem, 29 de Maio, e tomaram posição em favor de uma Igreja decididamente aberta ao mundo.
Os cardeais Christoph Schönborn, Jean-Marie Lustiger, Godfried Danneels e José Policarpo responderam às questões de Barbara Stoeckl sobre a proximidade da Igreja com o homem moderno, o lugar das mulheres na Igreja e a abertura da Europa em direcção ao Leste.
O Cardeal Schönborn foi confrontado com o facto de ter vindo a passar mais tempo na rua, nos cafés, etc. “A função de Cardeal cria uma distância para com as pessoas, mas não me limita irremediavelmente. Nunca me hei-de esquecer do que me disse um comerciante, ao receber-me no seu estabelecimento: Você deve ir para o meio das pessoas”, retorquiu o Cardeal de Viena.
Em relação à utilização dos Meios de Comunicação Social, o Cardeal Lustiger não hesitou em defender a sua utilização para difundir o Evangelho. “Quem pensar em fazer penetrar a Fé na cultura moderna deve colocar o Evangelho nas mãos de especialistas de Marketing e relações públicas. A nossa civilização remonta às origens do cristianismo, mas o Evangelho continua jovem no meio dessa velha civilização”, destacou.
A assembleia teve o seu momento de riso quando os cardeais fizeram menção de passar uns para os outros a responsabilidade de responder à questão sobre o sacerdócio das mulheres. “A questão está mal colocada, mas isso não resolve o problema”, respondeu o Cardeal Danneels. “É preciso voltar ao que fez Jesus: escolheu uma mãe, a primeira pessoa que o viu depois da ressurreição foi Maria Madalena e era preciso ser uma mulher para acolher o mistério e o segredo deste facto”, acrescentou.
Foi o Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, quem completou a resposta: “O que eu espero de uma mulher na Igreja é que ela exprima com muita eloquência o coração dessa mesma Igreja, com toda a sua ternura. Se estiverdes convencidas de que quereis ser sacerdotes – disse o Cardeal Patriarca às mulheres presentes – dizei-o a Deus e ao Espírito Santo, porque não somos nós quem pode resolver este problema. Só o Espírito Santo!”, concluiu.
(Fonte: Agência Ecclesia, 30.5.2003)

terça-feira, 27 de maio de 2003

Excerto de uma entrevista a Jorge Luís Borges, feita em 1963 por Mario Vargas Llosa:

-Para terminar, le voy a hacer otra pregunta convencional: si tuviera que pasar el resto de sus días en una isla desierta con cinco libros, ¿cuáles elegiría?

-Es una pregunta difícil, porque cinco es poco o es demasiado. Además, no sé si se trata de cinco libros o de cinco volúmenes.

-Digamos, cinco volúmenes.

-¿Cinco volúmenes? Bueno, yo creo que llevaría la "Historia de la Declinación y Caída del lmperio Romano" de Gibbons. No creo que llevaría ninguna novela, sino más bien un libro de historia. Bueno, vamos a suponer que eso sea en una edición de dos volúmenes. Luego, me gustaría llevar algún libro que yo no comprendiera del todo, para poder leerlo y releerlo, digamos la "Introducción a la Filosofía de las Matemáticas" de Russell, o algún libro de Henri Poincaré. Me gustaría llevar eso también. Ya tenemos tres volúmenes. Luego, podría llevar un volumen cualquiera, elegido el azar, de una enciclopedia. Ahí ya podría haber muchas lecturas. Sobre todo, no de una enciclopedia actual, porque las enciclopedias actuales son libros de consulta, sino de una enciclopedia publicada hacia 1910 o 1911, algún volumen de Brockhaus, o de Mayer, o de la Enciclopedia Británica, es decir cuando las enciclopedias eran todavía libros de lectura. Tenemos cuatro. Y luego, para el último, voy a hacer una trampa, voy a llevar un libro que es una biblioteca, es decir llevaría la Biblia. Y en cuanto a la poesía, que está ausente de este catálogo, eso me obligaría a encargarme yo, y entonces no leería versos. Además, mí memoria está tan poblada de versos que creo que no necesito libros. Yo mismo soy una especie de antología de muchas literaturas. Yo, que recuerdo mal las circunstancias de mi propia vida, puedo decirle indefinidamente y tediosamente versos en latín, en español, en inglés, en inglés antiguo, en francés, en italiano, en portugués. No sé si he contestado bien a su pregunta.

-Sí, muy bien, Jorge Luis Borges. Muchas gracias."
(dica de A Montanha Mágica)

domingo, 25 de maio de 2003

Grandeza e miséria do mundo

(...) Cá onde o mal se afina e o bem se dana (...)
Luís de Camões, Os Lusíadas

Há tempos assim, em que a vertigem dos acontecimentos se acelera e nos deixa como que paralisados, perante a iminência de todos os pesadelos. Em que as sequelas de cada acontecimento se multiplicam, de modo a deixar sem nexo à tarde o (sem-)sentido de manhã construído.
Não, não me refiro apenas ao escândalo da Casa Pia e ao avolumar dos sinais inquietantes de que aos submundos da degradação moral se somam os caminhos tortuosos como se faz justiça no nosso país.
Este é, porventura, o caso em que, por episódios sucessivos, fomos todos levados àquele ponto de encruzilhada em que, em lugar de escolher entre a boa e a má saída da floresta, sentimos que ambos os caminhos que se desenham pela frente podem ser perigosos.
Mas, ao lado daquele que é “o caso”, vemos outros, de dimensão maior ou menor, cá dentro e lá fora, todos indiciadores de que haverá que arrepiar caminho.
Quando alguém foge à justiça e muitos “alguens” saúdam essa fuga e agridem quem a contesta; quando alguém se escuda na imunidade parlamentar para não assumir claramente actos praticados; quando alguém invoca a discordância da lei para não acarretar com as consequências de circular quase ao dobro da velocidade permitida; quando alguém, como em Itália, chega a chefe de governo e se ocupa a denegrir a magistratura e a criar mecanismos para passar impune em processos que correm contra si; quando alguém utiliza factos manipulados para convencer o mundo a apoiar uma guerra; quando uma nação que comprovadamente viola os direitos e a dignidade dos seus cidadãos é eleita para presidir à comissão dos direitos humanos e quando essa comissão não se entende, depois, para condenar países, como Cuba, onde esses direitos são atropelados; quando tudo isto acontece não é apenas o caso ou a situação concreta que está em causa, é, antes, uma (des)ordem moral que está em causa. E é também o risco de tocar naquele fio invisível e frágil, mas vital para manter a vida social de pé e a respirar, que é a confiança.
Falta faz a serenidade. Não só a serenidade da mera contenção, freneticamente requerida nos últimos dias, mas a que permita a introspecção pessoal e colectiva.
Ao desconcerto percebido do mundo talvez falte o tempero da multiplicidade de gestos e modos de viver discretos e solidários, que pouco valem no “mercado” das lógicas mediáticas dominantes. Porque o mundo é mais vasto e interessante do que a pintura carregada que diariamente nos fornecem.
(Crónica no DM de amanhã)
"Aqui, um caminho leva à evidência, à telepatia, aos extraterrestres, às ciências ocultas, à magia. Acolá, adivinhais ramos retorcidos da reincarnação, do karma, das auras, das energias e outras hipóteses extravagantes.

"Avançai no mato e não tardareis a descobrir a arborescência ramalhuda das famosas técnicas da nova era onde se cultiva o desenvolvimento pessoal, a autorização, a expansão da consciência.

"É uma geografia complexa que mistura a meditação, a psicologia, as técnicas de alteração dos estados da consciência, as terapias suaves, as práticas corporais, a dietéctica...

"Ao lado está a luxuriante vegetação das ciências onde especulações sobre a Gaia e a cibernética planetária se entrelaçam com a física das partículas, a cosmologia, tudo sobre um fundo de crise ecológica e de interrogação sobre o destino futuro da humanidade.

"Continuando o caminho, ireis cair, de certeza, sobre raízes linguísticas sábias e retorcidas, como 'holismo', 'novo paradigma', 'holograma', 'Uno', 'múltiplo', 'não-separabilidade'. Esta floresta encantada tem mil rostos."

Michel Lacroix, La Spiritualité Totalitaire. New Age et les Sectes, Plon: Paris, 1995.


Comentário de Bento Domingues, no Público de hoje (de onde o trecho anterior foi retirado):

" (...) Nas sociedades secularizadas - como verificava a última Congregação Geral dos Jesuítas - a vida espiritual dos seres humanos não morreu. Desenvolve-se, porém, fora da Igreja e, deve-se acrescentar, em muitos casos, fora das religiões.

Mattew Fox vai ao ponto de sustentar que o programa para o terceiro milénio passa por "despir as religiões até à experiência espiritual", desenvolvendo formas de devoção que despertem as pessoas, em vez de as aborrecer.

Como diz o jornalista Michel Brown, no seu livro "O Turista Espiritual", a espiritualidade tornou-se num chavão. Nas suas deambulações ouviu muitas vezes as expressões: "Estou a tentar cultivar o meu lado espiritual" ou "estou a aprender a entrar em contacto com o meu lado espiritual". Geralmente, é mais uma falta que se sente do que uma realidade que se vive.

Muitos dos movimentos espirituais cintilam e extinguem-se como anúncios comerciais. À semelhança do que acontece no emprego e no casamento, também já não há religião ou espiritualidade para toda a vida. A religião ou a espiritualidade "à la carte" são facilmente descartáveis.(...)".

domingo, 18 de maio de 2003

(...)
Muito do desemprego nos últimos meses resulta de falências em série de empresas de média e grande dimensão, muitas delas encerrando aqui para irem abrir em países com mão de obra mais barata. Temos ouvido argumentar, ao nível governamental (cf. “Diário de Notícias” de sexta-feira) que estas falências “dão verdade à situação económica” e conduzem à “transparência do mercado”. Pode ser que assim seja, mas pegar assim em problemas sociais desta gravidade e delicadeza parece-me assemelhar-se àqueles que, normalmente ganhando bem, discutem as estatísticas de desemprego como se de manipulações de laboratório ou operações de contabilidade se tratasse.
Sabemos que a crise não tem as suas origens apenas no último ano e também não ignoramos que a agulha do clima internacional aponta mais para o lado recessivo do que para o expansivo.
Mas, depois de o governo ter dado o mote do “país de tanga” – porventura para conquistar espaço de manobra política – nós não vimos, até ao presente, uma real preocupação social com os efeitos devastadores de políticas económicas que só poderiam conduzir onde conduziram. Mesmo dando de barato que as opções económicas tenham sido as mais adequadas ou, pelo menos, as possíveis, seria necessário que, em simultâneo, se desenvolvesse um esforço multissectorial e articulado de novas respostas que impedissem que milhares de pessoas fossem simplesmente atiradas pela borda do navio fora, por não haver no navio lugar para elas. Porque os 423.595 desempregados são pessoas. E isso talvez precise de ser dito e gritado àqueles que, nos gabinetes, não vêem senão números e estatísticas.
(da crónica de amanhã, no DM)

domingo, 11 de maio de 2003

Convento de Santo António de Varatojo

Varatojo é um lugar da freguesia de S. Pedro e Santiago, situado numa colina fronteira a Torres Vedras. Foi aí que o rei D. Afonso V mandou levantar um convento, em cumprimento de um voto que fizera a Santo António para que o auxiliasse nas conquistas do Norte de África. E “veio ele mesmo, com os fidalgos da sua real Câmara e grande acompanhamento de clero, nobreza e povo, desde a vila de Torres, lançar a primeira pedra em Fevereiro de 1470”. O primeiro grupo de monges franciscanos instalou-se quatro anos depois, fazendo daquele espaço um dos sítios de maior florescimento do espírito missionário da modernidade em Portugal. A história riquíssima desta instituição é, ao mesmo tempo, um testemunho das vicissitudes da história do país, nas épocas moderna e contemporânea. O sítio do Convento na Internet dá disso sobeja conta, passando em revista as etapas vividas desde as décadas finais do século XV até ao presente. E dá-nos também, com imagem e texto, preciosas indicações sobre o valor arquitectónico, escultórico e paisagístico do conjunto, sem esquecer a riqueza ao nível da azulejaria. Melhor, só a visita ao local. (Convento de Varatojo, 2560 Torres Vedras , Tel. 261314120, Fax. 261315350, E-mail: Conv.varatojo@mail.telepac.pt ).

Página de Pedro Casaldáliga

“Passaram-se dois anos do novo século XXI e o Mundo continua cruel e solidário, injusto e esperançado. Ainda há guerra e há império, e o império acaba de inventar a guerra preventiva. Ainda o Mundo se divide pelo menos em três: Primeiro, Terceiro e Quarto. A fome, a pobreza, a corrupção e a violência têm aumentado; mas aumentaram também a consciência, o protesto, a organização, a vontade explícita de alternatividade”.
É assim que se inicia a carta pastoral de 2003 da autoria de D. Pedro Casaldáliga, bispo de S. Félix do Araguaia (Brasil). Um bispo-poeta, solidário com os mais pobres, que este ano completa 75 anos de vida e, por essa razão, solicitou ao Vaticano a sua substituição. O site, em boa parte em espanhol, contém documentos, poesias e orações de grande beleza e profundidade. Estão lá várias das suas cartas pastorais, muitas poesias, várias delas evocando a Mãe de Jesus. Está lá também o texto da célebre Missa dos Quilombos, cuja música foi criada por Milton Nascimento.
O bispo despede-se de décadas de apostolado no Mato Grosso com um poema que exprime a sua energia interior, e que foi buscar a “El Hombre de la Mancha” : “Sonhar mais um sonho impossível./ Lutar quando é fácil ceder. / Vencer o inimigo invencível. /Negar quando a regra é vender. / Quantas guerras terei que vencer por um poço de paz!
E amanhã, se esse chão que eu beijei / for meu leito e perdão, / vou saber que valeu delirar / e morrer de paixão!”.

domingo, 4 de maio de 2003

"Cada uno de nosotros es un relato. Tú eres, esencialmente, una historia. Y yo. Con su principio y su final. Jean-Claude Carrière, guionista de tantas películas de Luis Buñuel, me lo contaba así: “Pregunté en cierta ocasión al neurólogo Oliver Sacks qué consideraba él una persona normal, mentalmente sana. ‘La capaz de contar su historia’, me respondió. O sea, la que sabe de dónde procede –su origen, su principio–, dónde está –su identidad– y cree saber adónde va –sus proyectos y su final, la muerte–: en suma, alguien capaz de saberse en el curso de un relato”.
VÍCTOR-M. AMELA -, in La Vanguardia, 04/05/2003

domingo, 27 de abril de 2003

Palavras e tretas

“ (...) Palavras que chamavam pelas coisas, que eram o nome das coisas (...)”.
Sophia de Melo Breyner

Em tempos de tantas palavras, difícil é ser sábio para prestar atenção a todas, mas tomar apenas aquelas que valem a pena.
Se repararmos, são cada vez mais as palavras que circulam e nos cercam, orais e escritas, difundidas pelos meios mais diversos. E não só há mais palavras como se multiplicam também os pontos a partir dos quais essas palavras se enunciam. Ouvem-se as vozes de um lado e de outro, palavras soltas, murmúrios vagos, gritos e silêncios, discursos incandescentes, pronunciamentos desencontrados sobre mil assuntos, num vozear tal que, a dada altura, se torna difícil saber a que “terra” se pertence. Falam tonitruantes os que têm o (aparentemente natural) direito à palavra; falam os que se lhes opõem, para dizer, frequentemente, a mesma coisa; falam os que se colocam em “bicos de pés” para dizer que também existem. E o resultado é, frequentemente, um ruído ambiente, no qual é difícil ou mesmo impossível encontrar algum sentido, tantos são os “sentidos” e a velocidade estonteante da sua reciclagem.
Assoma por vezes a nostalgia dos tempos da palavra autorizada e única, de sentido linear e óbvio. Sem se perceber ou querer perceber que tal palavra apenas pode existir e perpetuar-se silenciando as palavras dos outros.
É salutar o acesso à palavra própria e à capacidade de a enunciar e difundir. Nisso, andamos algum caminho. Mas não o suficiente para nos darmos conta de que muitas palavras não são necessariamente as palavras de muitos. E mesmo que o fossem, muitas palavras só podem coexistir e frutificar havendo quem as escute. E mesmo que haja quem as escute e receba, necessário é saber distinguir entre aquelas que fazem sentido e aquelas que não passam de “palavreado” ou “treta”, entre aquelas que insuflam um sopro de vida e aquelas que ferem e matam.
Como encontrar sentido nas palavras? Como nos entendermos diante da proliferação e banalização da palavra? Como conseguir ouvir a palavra, ouvindo e acolhendo quem a pronuncia? Múltiplas são as vias da resposta, configuradoras de vastos e exigentes programas individuais e colectivos. Deixo uma achega do nosso P. António Vieira no seu Sermão da Sexagésima. “Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam”.
(texto para a crónica semanal no "Diário do Minho" de 28.04.2003).

sábado, 26 de abril de 2003

"Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus? (...)
Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. (...) Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram em palavras? -- Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. (...) A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos".
P. António Vieira, Sermão da Sexagésima, 1655

sábado, 19 de abril de 2003

A valia da vida humana
Manuel Pinto

Os tempos que correm parecem mais de Crucificação do que de Páscoa, mais de Sexta-feira Santa do que de Ressurreição.
Recordo hoje os dois trabalhadores de Vila das Aves, que morreram na semana passada no meio dos ferros retorcidos pela avalanche de terra nas fundações em que trabalhavam. Retenho as imagens dos canais televisivos: as valas desguarnecidas, os corpos resgatados sem vida, as pessoas entre o resignado e o revoltado, o silêncio e ausência de quem deveria responder pelo sucedido.
O caso é apenas mais um, na terrível lista do pesadelo que são os acidentes de trabalho, em particular na construção civil. Funciona como perfeita exemplificação de como a vida humana continua a ser coisa de pouca monta, na escala dos valores reinantes, desde a instância política aos comportamentos mais quotidianos.
Não se trata de mera imprevidência ou facilitação. As campanhas de informação, para já não referir as leis vigentes, tornam indesculpável que se facilite no terreno da segurança pessoal, na mira de poupar uns euros (de resto, uma ilusão, porquanto não faltam estudos comprovativos de que o investimento neste domínio é compensador do ponto de vista económico).
Dados oficiais indicam que, nos últimos dez anos, devem ter morrido perto de milhar e meio de pessoas em acidentes no sector da construção civil. Em média, um trabalhador em cada dois dias, são mortos por acidente no trabalho ou relacionado com o trabalho. Muitíssimos mais são aqueles que ficam estropiados e incapacitados. Há, neste flagelo, uma parte de responsabilidade que pode caber ao próprio trabalhador. Mas, como é evidente, a falta de condições, da responsabilidade das empresas e dos empresários, aparece frequentemente associada aos desastres de que a opinião pública toma conhecimento. E quando tal acontece seria importante que fossem levadas às últimas consequências responsabilidades civis, mas também criminais.
De resto, quando o clima económico é de restrições cegas e não há noção de valores como a justiça e a dignidade humana, corre-se o risco – nas instituições privadas como nas públicas – de afectar a integridade física e psíquica das pessoas e, com isso, aquele nível mínimo de confiança básica sem o qual a vida social não se sustém.
Por tudo isto, e por muito mais que aqui não cabe, é tão difícil – e tão desafiante – adentrar-se no mistério da Ressurreição.

sexta-feira, 18 de abril de 2003

En une décennie, les croyances ont reculé en France
LE MONDE | 16.04.03 |

Existence de Dieu, fréquence de la prière, importance de la foi : les Français sont de plus en plus sceptiques, selon un sondage CSA pour "Le Monde" et "La Vie" qui reprend les mêmes questions qu'en 1994.
Sondage : les Français et leurs croyances (108 pages, PDF, 765 Ko)
Des croyances en baisse, un catholicisme qui se maintient, des religiosités parallèles qui s'effondrent.
Telles sont les grandes tendances qui se dégagent d'un son- dage CSA réalisé pour Le Monde et l'hebdomadaire La Vie, et qui reprend les questions posées lors d'une précédente enquête, réalisée en 1994.

Le sondage offre d'abord un aperçu du paysage religieux français en 2003. Sans surprise, les catholiques représentent l'écrasante majorité : 62 % des Français se déclarent de confession catholique, contre 67 % en 1994. Certains interpréteront cette légère baisse comme le signe d'un inexorable déclin ; d'autres y liront la marque d'une résistance d'un catholicisme culturel. Le poids des autres religions n'évolue guère, à l'exception de l'islam : les personnes se déclarant de religion musulmane passent de 2 % à 6 %. Les enquêteurs de l'Institut CSA constatent que, dans les sondages d'opinion, la population qui se déclare musulmane représente désormais un "sous-échantillon significatif", c'est-à-dire supérieur à 50 sur un total d'un millier de personnes sondée. Contrairement à certaines idées qui ont cours depuis une dizaine d'années sur l'attrait des spiri- tualités orientales, le nombre de personnes se réclamant du bouddhisme reste inférieur à 1 %.
La pratique religieuse s'érode, mais faiblement : 12 % des personnes interrogées disent aller à la messe ou à un office religieux une ou plusieurs fois par semaine, contre 14 % en 1994. 10 % affirment n'y aller jamais, contre 7 % en 1994. Le nombre des personnes qui disent y aller "de temps en temps aux grandes fêtes" augmente très légèrement, passant de 23 % à 24 %. Les musulmans semblent plus pratiquants que les catholiques : 27 % d'entre eux affirment assister à l'office religieux au moins une fois par semaine, contre 11 % chez les catholiques.
(...)
De manière significative, 32 % des personnes interrogées se disent en accord avec la proposition "Maintenant, je recommence à croire", un chiffre qui n'était que de 13 % en 1994. Faut-il y voir un signe du fameux "retour du religieux", qui profiterait aux religions traditionnelles ? Selon Régis Debray, interrogé par La Vie à paraître jeudi 17 avril, "on passe d'un affichage des croyances à un affichage d'appartenance. La religion devient une carte d'identité."

Le fait le plus marquant de cette enquête concerne en effet l'effondrement des croyances parallèles. L'astrologie ne fait plus recette : 37 % y apportent crédit, contre 60 % en 1994. C'est encore pire pour les voyantes (23 % y croient, contre 46 % lors de la précédente enquête), pour la communication avec les morts (22 % contre 37 %) et pour la sorcellerie (21 % contre 41 %).

Le christianisme n'apparaît pas comme une religion dépassée. Il est placé en tête des religions pour lesquelles les Français éprouvent "un intérêt spirituel" : 55 % des personnes interrogées s'y intéressent. Vient ensuite l'islam (22 %), qui devance le bouddhisme (21 %) et le judaïsme (16 %).

Xavier Ternisien

Leituras:

"Malgré tout, cette comparaison livre plusieurs surprises de taille.
La plus grande est le très net recul des croyances parallèles : de 60 % à 37 % pour "l'explication des caractères par les signes astrologiques", de 46 % à 23 % pour "les prédictions des voyantes", de 41 % à 21 % pour "les envoûtements, la sorcellerie".
Ce recul est encore plus prononcé chez les jeunes, alors que c'étaient eux qui se montraient les plus sensibles à ces croyances dans la précédente enquête. (...)
L'autre surprise de ce sondage, qui vient confirmer cette hypothèse, c'est que le nombre de personnes qui se définissent comme "rationalistes" bondit de 22 % à 52 %. Il faut comprendre ici "rationaliste" en son sens le plus large, et non en référence à une famille de pensée. Là encore, les jeunes en rajoutent (67 % de "rationalistes" contre 22 %). (...)
Le retour partiel de la génération du baby-boom à la religion se confirme. C'est désormais la tranche d'âge des 35-49 ans qui compte les taux les plus bas d'adhésion religieuse. On retrouve ainsi la courbe en U des années 1950-1960, avec un étiage religieux aux âges de la pleine acti-vité professionnelle et familiale, une période "préoccupé à autre chose", disaient Fernand Boulard, Jean Rémy et Jean Stoetzel.
Yves Lambert, sociologue des religions

"O Cristo na Cruz! Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!"

"Esta frase de Romano Guardini, que li há muito longo tempo, sempre a retive sem perceber bem porquê. Os mistérios só são mistérios porque ninguém os percebe e porque é estulto aquele que os tenta perceber. Cristo na Cruz, para qualquer cristão, é um mistério. Mas Cristo ressuscitado também. E, na esfera do mistério, não cabe o maior nem o menor. Quando não percebo, não posso perceber o tamanho do que não percebo. Se abro a porta para uma escuridão total, nunca poderei saber se essa escuridão é imensa, ou atravessável em sete passos. A não ser que me enfie nela, o que não posso fazer, pois que não tenho sustentação possível.
(...)
Mas só podemos pensar o dia de hoje, se o pensarmos como a perfeição de uma esfera admirável, porque, como disse frei Heitor Pinto, "O princípio une-se com o fim." "Esta é a perfeita figura, este é o círculo divino (...) este é o filho que é padre da madre; este é o que, nascendo em tempo, foi antes do tempo e fez o tempo; este é o que sendo impossível se fez possível e sendo eterno se fez mortal." (...)

JOÃO BÉNARD DA COSTA
PÚBLICO, Sexta-feira Santa, 18 de Abril de 2003

domingo, 13 de abril de 2003

Dois catolicismos?

O historiador e fundador da Comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi, considera que o desenvolvimento das posições em torno da guerra veio evidenciar uma profunda divisão entre o catolicismo e a maioria das confissões protestantes clássicas, por um lado, e os movimentos neo-protestantes americanos, por outro.
Num interesssante artigo no jornal espanhol La Vanguardia intitulado “Dois cristianismos?”, Riccardi observa que este neo-protestantismo, pouco conhecido na Europa, engloba movimentos não circunscritos a confissões religiosas tradicionais, encontra nos “tele-evangelistas” os seus grandes divulgadores e anuncia o ressurgimento religioso assente numa ética individual que defende o regresso aos valores tradicionais. Alimenta, além disso, a ideia de que aos Estados Unidos da América cabe uma missão providencial no mundo, bem ilustrada com a recente guerra. O presidente George W. Bush terá encontrado nesses movimentos apoio e inspiração, a ponto de invocar o nome de Deus para legitimar a intervenção no Iraque.
Não podiam ser mais afastadas as posições dos sectores que hoje prevalecem na Casa Branca e, nomeadamente, as do Vaticano e de várias outras importantes confissões cristãs. Está, assim, bem patente, na perspectiva de Riccardi, “um novo e profundo conflito no coração do Ocidente”.
A verdade é que a veemência que o papa, o Vaticano e diversas organizações da Igreja Católica puseram na condenação e na oposição frontal a esta guerra esteve longe de colher aceitação em diversos sectores do próprio catolicismo, em particular em países como a Itália, Espanha e Portugal.
No caso português, católicos em posição de destaque na vida política, no Governo e no Parlamento, ou se calaram ou assumiram claramente uma posição divergente da do papa e concordante com a do Governo. E mesmo ao nível episcopal, estivemos muito longe da militância que costuma surgir quando o assunto é também, por exemplo, o aborto.
No caso da guerra do Iraque, em que o nosso país acabou por estar mais envolvido do que seria desejável, é preciso que fique registado que muitos sectores que se tomam, noutras circunstâncias, pelos mais lídimos defensores das posições do papa, optaram, neste caso, pela dissidência, pelo silêncio ou pela mera afirmação de princípios, em nome de outros interesses ou, pelo menos, de outras interpretações.
É claro que não estamos perante dois catolicismos, o que seria, de resto, uma contradição nos próprios termos, mas perante modos diversos de entender e pôr em prática a mensagem de Cristo. Esse que, como tantos iraquianos, de hoje e de ontem, não morreu de morte natural, mas foi maltratado, confundido com malfeitores e, por fim, pregado numa cruz.
O Corão

Em tempos conturbados como aqueles que vivemos, em que Deus é invocado de diferentes lados, para legitimar a guerra, torna-se cada vez mais saliente a importância do diálogo entre a chamada cultura ocidental e a cultura e religião muçulmanas. Sem o conhecimento do outro, a comunicação não é possível e o diálogo converte-se numa conversa de surdos. Daí que possa ter interesse conhecer aquela que é a “Sagrada Escritura” da religião muçulmana, o Corão (Qur’an, em árabe). Ele é o guia do mundo islâmico, que se estende por uma região que vai de Marrocos, no Atântico, até à Malásia e à Indonésia, no oceano Pacífico. O livro sagrado compõe-se de 114 capítulos ou “suras” e, segundo a tradição, foi revelado a Maomé pelo anjo Gabriel, entre o ano de 610 da nossa era, ainda antes da Hégira, em Meca, e 632, já em Medina. Embora existam traduções do Corão em português, não conhecemos versões disponíveis na Internet. A que aqui apresentamos está em espanhol, deve-se a um grande especialista de árabe e espanhol, Julio Cortés e foi publicada em 1979. Compreende um Glossário de termos no início e um índice analítico na parte final.

sábado, 8 de fevereiro de 2003

Paquete de Oliveira, "O nosso lado oculto"

"Habituados que estamos a encontrar fáceis "bodes expiatórios" das nossas misérias, os políticos, os árbitros de futebol, os toxicodependentes, eis que, de repente, somos obrigados a falar de nós mesmos. Com os acontecimentos dos últimos dias, a sociedade portuguesa sente-se dilacerada. Os portugueses terão de discutir-se a si próprios. Afinal, o que é que está a passar-se com a sociedade portuguesa?
Portugal está transformado num vivo "laboratório social", aberto ao público. É importante não perder a ocasião para reflectirmos sobre algumas das razões de sermos como somos. O quotidiano da vida num país, como no Mundo, é sempre um laboratório social. Todavia, o quotidiano, aquilo que acontece todos os dias, talvez pela sua rotina, pode ser matéria de reflexão, observação e estudo para investigadores encartados, mas não o é para o cidadão comum. O homem da rua, actor desse mesmo quotidiano, vive-o sem consciencializar o que à sua volta se passa. O nosso dia é, em regra, um somatório de actos mecânicos, automáticos.
A prisão preventiva de Carlos Cruz teve para nós portugueses o efeito de uma "bomba" muito superior àquele que tem tido o anúncio da "guerra preventiva" para onde o sr. Bush vai levar-nos. Carlos Cruz é um ícone da nossa vida. Numa sociedade mediática, aqueles que todos os dias entram por nossas casas dentro através daquelas pequenas pantalhas, dispostas nas nossas salas ou até nos quartos de dormir, como outrora os santuários das famílias com os "santinhos", são as "imagens" que adulamos e constroem as referências do nosso quotidiano. São assim os Sant'Antónios da nossa modernidade.(...)"
in Jornal de Notícias, 8.2.2003:
Comunidade de Taizé

Gostaria de ler regularmente a carta do Irmão Roger ou ouvir as músicas de Taizé? Desde que possa aceder a um computador com recursos multimédia isso é possível através do site em várias línguas (incluindo o português) que a Comunidade tem acessível na Internet. Acedendo ao endereço já apontado ao espaço em língua portuguesa que acima se indica, pode conhecer um pouco da história de Taizé, obter informações sobre como viajar até lá, entrar na dinâmica dos vários tipos de encontros que a comunidade organiza e até fazer a inscrição para uma estadia. Existe igualmente uma oração preparada, com as leituras e cânticos, com a duração de cerca de um quarto de hora, e que se pode descarregar para ser ouvida e acompanhada. De resto, além de ouvir uma boa parte dos cânticos que se cantam em Taizé, pode aproveitar para aprender a cantá-los, escolhendo, para cada um, as diferentes vozes. As leituras para a oração diária estão também disponíveis e, se assim pretender, pode inscrever-se para receber periodicamente por correio electrónico, notícias sobre Taizé.

domingo, 26 de janeiro de 2003

Organizações Católicas Internacionais contra guerra no Iraque

O Comité de coordenação da Conferência de Organizações Católicas Internacionais (COCI) apresenta uma posição crítica sobre a possibilidade de um ataque norte-americano ao Iraque, num comunicado de Imprensa datado de 19 de Janeiro.
A oposição a um ataque ao povo iraquiano é justificado por três pontos fundamentais, em que se refere que “não há provas convincentes da existência de armas de destruição maciça no Iraque”, que “os riscos de uma operação militar na zona são desproporcionados para a população e para o equilíbrio da região” e que “compete à ONU avaliar as condições para uma intervenção no Iraque”.
A COCI faz ainda referência às mensagens de João Paulo II sobre o tema da paz, ao mesmo tempo que sugere que no dia 2 de Fevereiro os seus associados se juntem em Oração, “porque o Senhor é a última instância a que podemos recorrer
para evitar esta tragédia”.
Esta organização agrupa 40 organizações laicais, presentes em mais de 150 países, e conta com cerca de 150 milhões de associados.

Fonte:Ecclesia

sábado, 4 de janeiro de 2003

João Maria van den Hurk, ss.cc.
Manuel Pinto

A campaínha tocou eram sete da manhã de um domingo cinzento. Dois agentes da PIDE-DGS apresentaram-se com ordens para levar o João Maria. Coisa breve, diziam. Mas lá iam sugerindo que talvez não fosse má ideia meter o pijama e uma escova de dentes num saco. Desculpando-se por serem simples agentes a cumprir ordens superiores, conduziram o padre num automóvel, para a sede da Rua do Heroísmo. As portas fecharam-se, de seguida, e o silêncio instalou-se.
Umas horas depois, telefonava o próprio da Holanda, onde acabara de chegar num voo da TAP. Num dos dias anteriores, a polícia política havia reservado uma viagem sem regresso deste cidadão holandês.
O motivo: na homilia do Dia Mundial da Paz, acabado de celebrar, atrevera-se a exprimir o sonho de que também nas ex-colónias fosse possível a paz. Não certamente a paz dos cemitérios, a paz do esmagamento dos direitos humanos, mas a paz que é fruto da justiça e que assenta no reconhecimento da dignidade de todos.
Neste caso, nem sequer se pode dizer que o João Maria fosse um revolucionário. Era, de facto, a pessoa mais pacífica deste mundo: um calmeirão bem disposto, com um coração acolhedor e solidário. Para ele, falar da paz num dia como aquele, sem referir a guerra sangrenta que se travava há uma década na Guiné, em Angola e em Moçambique era como estar perante uma paisagem bonita e fechar os olhos.
Os ouvidos do poder de então encostavam-se atrás das colunas das igrejas, para se assegurarem de que a Palavra de Deus se mantinha lá nas alturas, insípida, inofensiva e indolor e, se possível, com efeitos anestésicos.
A encíclica Pacem in Terris tinha, então, dez anos. O concílio Vaticano II lançara um sopro de vida na Igreja Católica. Começava a tornar-se evidente que o edifício do regime não aguentaria muito mais.
Nesse início de 1973, tinha acabado de acontecer o caso da Capela do Rato que ofuscou, naturalmente, uma multiplicidade de outros casos que se inscreviam numa consciência comum e numa vaga de fundo que começava a ganhar forma. Como este caso do João Maria, membro da Congregação dos Sagrados Corações, que agia não por estratégia política, mas por um indeclinável dever ético e por um imperativo evangélico.
Quando começa a ser de novo problemático defender a causa da paz – com as implicações éticas e políticas que essa causa reveste hoje e aqui - torna-se salutar recordar gestos simples e determinados como o do padre João Maria van den Hurk, ss.cc.
(Crónica para a RUM e para o DM de 6.1.2003)

domingo, 22 de dezembro de 2002

A noite e a estrela
Manuel Pinto

(...)
Em novembro chegaram os signos.
O céu nebuloso não filtravaestrelas anunciantes (...)


Carlos Drummond de Andrade

Bom Natal!
Sim, claro! Feliz Natal!
Mas, ainda assim, num lapso de tempo que dê para pensar no que fazemos e dizemos, vale a pena perguntar: que sentido tem celebrar o Natal – desejar bom Natal – em tempos sombrios e encerrados como são aqueles que temos diante de nós?
E os tempos estão mesmo sombrios. Quem o negará? Apesar das luzinhas que iluminam as ruas, dos holofotes que despejam luz sobre as montras e das musiquetas gastas que embalam os consumidores, a crise faz-se sentir. O emprego escasseia ou treme, o trabalho a poucos satisfaz, a vida é uma correria louca, a insegurança nas ruas agrava-se, o economicismo converte-se em ideologia política, a desconfiança nas instituições acentua-se.
Cá dentro, o poder das mafias do futebol (não do desporto, mas do negócio) já ousa ameaçar e manietar os próprios órgãos de soberania, utilizando de forma cada vez mais profissional os meios de comunicação.
Lá fora, uma guerra preparada e calendarizada como guerra preventiva, já nem sequer espera que se esgote a via persuasiva e diplomática, aguardando apenas que se complete o trabalho da propaganda para impor a sua lógica de destruição.
Tempos sombrios, exasperados e exasperantes, em que a cólera facilmente cede perante a esperança.
Paradoxo: o excessiva clarão que a nossa civilização incessantemente produz leva a dois efeitos: pela ofuscação que rouba horizonte, circunscreve-nos num mundo pequenino e medíocre; pelo universo ilusório que cria, dificulta o nosso confronto com a efectiva realidade das coisas.
Ora, ninguém consegue ver as estrelas no meio do ambiente feérico das nossas cidades iluminadas e das nossas vidas encandeadas.
De acordo com os ícones e símbolos desta quadra, os três reis magos viram uma estrela no Oriente e puseram-se a caminho, seguindo-a até Belém (sim Belém, a das notícias, a cidade palestiniana ocupada pelas tropas israelitas).
Pergunta: supondo que também nós nos dispomos a meter pés ao caminho, como ver a estrela que nos pode levar a Belém, sem nos confrontarmos com a noite?
(Crónica de hoje na RUM e amanhã no DM).