domingo, 13 de julho de 2003

Enigmas e Perguntas

"Porque existe algo e não apenas nada? Porque é que aconteceu o Big Bang em vez de permanecer eternamente o vazio do nada? Como e porque terá surgido o cosmos? O que é que existia antes do Big Bang?

Ou era que esta pergunta não tem sentido, pois o tempo começou, também ele, com o mundo, como observou Santo Agostinho?

O que é a vida e o seu milagre? Como é que ela apareceu? O que é o espírito, o que é a consciência? O que é o homem e qual é o seu lugar na história da evolução? E se o enigma fundamental não for o espírito, mas precisamente a matéria?

Existirá Deus? Será ele o Criador? A natureza deve entender-se pura e simplesmente como natureza ou como criação? Por outras palavras: Deus e a natureza identificam-se ou Deus distingue-se da natureza e é o seu Criador, de tal maneira que se deveria dizer que Deus está presente no mundo, mas excedendo e transcendendo o mundo?
Qual é a responsabilidade do homem em relação à natureza?

Embora sejam diferentes os seus campos, a ciência e a religião poderão e deverão dialogar?"

Bento Domingues,
apresentando o livro "Enigmas de Deus, da Matéria e do Homem", da Editorial Notícias (introdução de Anselmo Borges, professor de Filosofia da Religião na Universidade de Coimbra, e traduçãod de Teresa Martinho Toldy).






sábado, 28 de junho de 2003

Destaco, no Público de hoje, o texto Uma Igreja Que Acorda?, de Augusto Santos Silva, a pretexto dos 25 anos de ordenação episcopal de D. José Policarpo. Um (longo) extracto:

" (...) Como explicar a enorme adesão que este Papa - moral e institucionalmente conservador, manifestando, até, elementos de doutrina e crença que julgávamos ultrapassados, pelo seu tradicionalismo quase mágico, mas inimigo das ditaduras, paladino das liberdades cívicas e da paz, prudente mas efectivo adepto da comunicação entre religiões e éticas e assim aceitando, se não a gosto pelo menos de facto, a realidade pluralista da contemporaneidade - suscita em milhões e milhões de pessoas, e, em particular, junto dos jovens?

Eu encontro múltiplas razões. O uso perfeito, a agilidade com que o Papa se move nos espaços e com os instrumentos constitutivos da modernidade: o movimento, a velocidade, a presença constante, a comunicação fácil, a "respiração" dos "media". Nesse sentido, este Papa tão conservador na doutrina e na organização é o contrário de um asceta ou de um hierarca fechado no Vaticano; é um homem do mundo, que se dirige a multidões em ambientes de encenação festiva e participação emocional. A elas oferece uma diferença, que elas têm sabido reconhecer: a diferença da convicção, de ter e propor valores e opções próprias, de contrapor ao relativismo cego ou passivo a coragem das escolhas, assumidas e duradouras. As novas gerações são as que mais notoriamente engrandecem esta recusa de ceder à dissolução, à apatia e à astenia. A Igreja de João Paulo II é, também, a voz do social, da atenção às pessoas, da demarcação face à teologia do mercado e à rasura neoliberal dos laços sociais. Trouxe, assim, com muita força, ao espaço público, os problemas e as causas das pessoas e da humanidade das pessoas - a pobreza, as migrações, os velhos, os desvalidos, os excluídos. E, com isso, reclamou e conseguiu, para si própria, a primazia na atitude do cuidado, da coesão, esses nomes modernos para os muito antigos e enraizados valores de misericórdia e comunhão. Essa ideia de fazermos todos parte do mesmo mundo, determos todos a mesma responsabilidade comum, salvarmo-nos e perdermo-nos todos (e não uns à custa dos outros), eis o ponto de convergência que identifico entre o apostolado de João Paulo II e, por exemplo, movimentos e tomadas de palavra que provêm de pontos muito diferentes do campo social e ideológico, como os defensores dos direitos humanos, do comércio justo ou do desenvolvimento sustentável.

Esta Igreja, que assim ganhou tanta força, que assim reconquistou tanta gente, que assim foi superando tantos dos erros e crimes passados, conseguirá, na transição que necessariamente sucederá ao fim do actual pontificado (e que, este, em tantos aspectos, já vem preparando), cortar com os pontos de bloqueamento que ainda hoje, e de forma não menos óbvia, impedem a plena comunicação com a modernidade?

Refiro-me à relação com a democracia: não com o regime democrático dos Estados, que essa está adquirida, mas a outra, não menos importante, a democratização da própria Igreja, ainda hoje tão verticalizada, tão sujeita a argumentos de autoridade, tão avessa à participação dos seus próprios membros, tão fechada ao debate livre de ideias. Refiro-me à inacreditável permanência do poder e da violência masculina, no interior da Igreja: à resistência, que nada justifica, à voz e à presença das mulheres, e à assunção plena, por estas, de responsabilidades eclesiais. Refiro-me à ainda tão ambígua relação com as sexualidades, a tão difícil aceitação daquilo que é, contudo, a mais natural das vivências dos homens e das mulheres. E refiro-me a essa forma particular, e particularmente violenta e ilegítima, de desconforto com a sexualidade e a natureza que é a imposição da regra do celibato.

Terá a Igreja vontade de enfrentar sem tibiezas estes pontos críticos? E, no caso português, estará também disposta a abandonar de vez o que ainda há nela da lógica do poder fáctico, e a praticar melhor uma comunicação aberta e despreconceituada com o país de hoje, mais heterogéneo, mais plural e mais cosmopolita?

É que nós - nós todos, crentes ou não crentes de várias confissões - precisamos da Igreja Católica portuguesa, como instituição religiosa, como referência ética, como actor social, como interpelação política. De uma Igreja com identidade própria, mas acordada, aberta e viva."

segunda-feira, 23 de junho de 2003

Fundação Betânia

A Fundação foi criada em 1990. O sítio na Internet, esse, é que acaba de nascer. A personalidade inspiradora é a Profª Manuela Silva, uma cristã comprometida, que já teve responsabilidades governativas.
De entre os seus objectivos, a Fundação quer “suscitar a procura de novos alicerces culturais e espirituais, que conduzam à realização harmoniosa do ser humano, na sua globalidade, e abram caminho a modos de vida e a relações sociais orientadas segundo o primado do amor; criar espaços de beleza, de interioridade e de comunhão, que incentivem o encontro mais fundo de cada pessoa consigo própria, com os outros, com a natureza e com o Absoluto; e catalisar formas de vivenciar e testemunhar estilos de vida fraterna, inspirados pela primazia do Ser, a simplicidade, a gratuidade, a disponibilidade e uma atitude contemplativa activa na fidelidade ao Amor”. Para isso acolhe pessoas que buscam espaços e tempos de encontro consigo mesmas e com os outros. O site refere palavras de Etty Hillesum: “Recolher-se para lutar e impedir que as suas forças se pulverizem”. As temáticas dos encontros que a Fundação organiza apontam nessa mesma direcção; por exemplo, no final de Junho, a proposta consistia em “Aprender a escutar a sabedoria do coração”, com a teóloga e psicoterapeuta Emma Ocaña. (O contacto com a Fundação pode ser feito para Travessa Deolinda Catarino, n.º 5, 2705-001, Colares, Tel.: 21 9291537)
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada
coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis

segunda-feira, 9 de junho de 2003

Pentecostes
João César das Neves

A Igreja Católica é uma instituição aberrante, corpo estranho e insólito na sociedade. Por exemplo, quem entende que se seja feliz trabalhando mais que todos sem ordenado ou relações sexuais, sujeito a autoridade alheia ou até vivendo livre atrás de grades? Não admiraria, pois, se um dia destes se declarassem inconstitucionais os votos de pobreza, castidade e obediência e a clausura das ordens religiosas; ou se uma directiva comunitária proibisse jejuns, vigílias e promessas em Fátima em nome da saúde pública. A Europa vê os templos, mas ignora as bem-aventuranças. A Igreja é familiar e desconhecida.
Entretanto reina o paganismo. Ligar a televisão ou seguir as conversas de café é mergulhar na idolatria. A sociedade burguesa gosta de se apresentar como humanista, livre, moderna, mas estes conceitos são inertes e inconsequentes. Na realidade, as pessoas entregam a vida aos velhos deuses da mitologia, prestando culto atento e venerador ao dinheiro (Mercúrio), ao prazer (Vénus), à farra (Baco), ao prestígio (Júpiter), à natureza (Ceres). Não é uma reprodução exacta dos mitos antigos, mas uma superstição pós-cristã, a quem a Igreja libertou dos medos dos espíritos malignos e ensinou a tolerar (não chega a amar) o próximo. Mas é sem dúvida politeísmo.
O paradoxo é que toda a cultura e raiz do Ocidente é cristã. Os positivistas dos últimos séculos limitaram-se a encadernar os princípios cristãos numa capa laica. Por exemplo, o projecto de Constituição Europeia, que se esqueceu de mencionar a herança cristã, só é compreensível dentro da cultura religiosa. Não é possível ler um artigo da lei, ou sequer entender qualquer elemento da nossa vida, incluindo o ateísmo, sem a referência à Igreja. O nosso tempo fala cristão sem saber o que diz.
Mas isso não impede que os critérios de Jesus sejam hoje mais alheios à vida comum que os nomes dos dinossáurios. Que devemos fazer acerca disto? Atacar e denunciar furiosamente a situação? Lamentar e chorar o seu destino? O pior do paganismo seria levar os cristãos a estas atitudes pagãs. Porque no fundo o fosso entre mundo e Igreja é natural. Foi sempre assim. A culpa é do ser humano, que só pode ser salvo da forma aberrante e insólita que Cristo usou. Só pobreza, castidade e obediência, na vida dos leigos ou plena nos votos, salva a sociedade dos deuses do luxo, fastio, miséria. «Não há debaixo do céu qualquer outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos» (Act 4, 12).
A Europa deve tudo à Igreja e despreza-a. A Igreja derrotada canta vitória, porque Cristo venceu: «No mundo tereis aflições. Mas tende coragem! Eu venci o mundo!» (Jo 16, 33). O mundo longe da Igreja manifesta essa vitória. Todos os avanços e progressos de políticos, empresários, cientistas e filósofos levam ao desespero. A sociedade mais avançada conduz à perdição. A televisão e os cafés mostram o paganismo e o ódio dos pagãos ao paganismo. Nunca foi tão claro que «não há qualquer outro nome...».
Depois da Ressurreição de Cristo, os cristãos estão salvos. Não vão ser salvos. Estão já salvos. A sua alegria e felicidade, a sua vida livre e redimida é a salvação desta Europa, como foi de Roma. «Alegrai-vos sempre no Senhor. Novamente vos digo: alegrai-vos. Seja a vossa bondade conhecida de todos. O Senhor está perto» (Fl 4, 4-5).
Estamos no tempo depois do Pentecostes.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
(in Diário de Notícias, 9.6.2003)
Comentário: reflexão interessante; partilho bastante do diagnóstico; sou reticente ou mesmo discordante do que há de terapêutica sugerida no texto.

sábado, 31 de maio de 2003

Quatro Cardeais da Nova Evangelização querem Igreja mais aberta ao mundo
.
Os quatro cardeais promotores do Congresso Internacional para a Nova Evangelização, a decorrer em Viena de 23 de Maio a 1 de Junho, sentaram-se diante de uma famosa apresentadora de televisão na manhã de ontem, 29 de Maio, e tomaram posição em favor de uma Igreja decididamente aberta ao mundo.
Os cardeais Christoph Schönborn, Jean-Marie Lustiger, Godfried Danneels e José Policarpo responderam às questões de Barbara Stoeckl sobre a proximidade da Igreja com o homem moderno, o lugar das mulheres na Igreja e a abertura da Europa em direcção ao Leste.
O Cardeal Schönborn foi confrontado com o facto de ter vindo a passar mais tempo na rua, nos cafés, etc. “A função de Cardeal cria uma distância para com as pessoas, mas não me limita irremediavelmente. Nunca me hei-de esquecer do que me disse um comerciante, ao receber-me no seu estabelecimento: Você deve ir para o meio das pessoas”, retorquiu o Cardeal de Viena.
Em relação à utilização dos Meios de Comunicação Social, o Cardeal Lustiger não hesitou em defender a sua utilização para difundir o Evangelho. “Quem pensar em fazer penetrar a Fé na cultura moderna deve colocar o Evangelho nas mãos de especialistas de Marketing e relações públicas. A nossa civilização remonta às origens do cristianismo, mas o Evangelho continua jovem no meio dessa velha civilização”, destacou.
A assembleia teve o seu momento de riso quando os cardeais fizeram menção de passar uns para os outros a responsabilidade de responder à questão sobre o sacerdócio das mulheres. “A questão está mal colocada, mas isso não resolve o problema”, respondeu o Cardeal Danneels. “É preciso voltar ao que fez Jesus: escolheu uma mãe, a primeira pessoa que o viu depois da ressurreição foi Maria Madalena e era preciso ser uma mulher para acolher o mistério e o segredo deste facto”, acrescentou.
Foi o Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, quem completou a resposta: “O que eu espero de uma mulher na Igreja é que ela exprima com muita eloquência o coração dessa mesma Igreja, com toda a sua ternura. Se estiverdes convencidas de que quereis ser sacerdotes – disse o Cardeal Patriarca às mulheres presentes – dizei-o a Deus e ao Espírito Santo, porque não somos nós quem pode resolver este problema. Só o Espírito Santo!”, concluiu.
(Fonte: Agência Ecclesia, 30.5.2003)

terça-feira, 27 de maio de 2003

Excerto de uma entrevista a Jorge Luís Borges, feita em 1963 por Mario Vargas Llosa:

-Para terminar, le voy a hacer otra pregunta convencional: si tuviera que pasar el resto de sus días en una isla desierta con cinco libros, ¿cuáles elegiría?

-Es una pregunta difícil, porque cinco es poco o es demasiado. Además, no sé si se trata de cinco libros o de cinco volúmenes.

-Digamos, cinco volúmenes.

-¿Cinco volúmenes? Bueno, yo creo que llevaría la "Historia de la Declinación y Caída del lmperio Romano" de Gibbons. No creo que llevaría ninguna novela, sino más bien un libro de historia. Bueno, vamos a suponer que eso sea en una edición de dos volúmenes. Luego, me gustaría llevar algún libro que yo no comprendiera del todo, para poder leerlo y releerlo, digamos la "Introducción a la Filosofía de las Matemáticas" de Russell, o algún libro de Henri Poincaré. Me gustaría llevar eso también. Ya tenemos tres volúmenes. Luego, podría llevar un volumen cualquiera, elegido el azar, de una enciclopedia. Ahí ya podría haber muchas lecturas. Sobre todo, no de una enciclopedia actual, porque las enciclopedias actuales son libros de consulta, sino de una enciclopedia publicada hacia 1910 o 1911, algún volumen de Brockhaus, o de Mayer, o de la Enciclopedia Británica, es decir cuando las enciclopedias eran todavía libros de lectura. Tenemos cuatro. Y luego, para el último, voy a hacer una trampa, voy a llevar un libro que es una biblioteca, es decir llevaría la Biblia. Y en cuanto a la poesía, que está ausente de este catálogo, eso me obligaría a encargarme yo, y entonces no leería versos. Además, mí memoria está tan poblada de versos que creo que no necesito libros. Yo mismo soy una especie de antología de muchas literaturas. Yo, que recuerdo mal las circunstancias de mi propia vida, puedo decirle indefinidamente y tediosamente versos en latín, en español, en inglés, en inglés antiguo, en francés, en italiano, en portugués. No sé si he contestado bien a su pregunta.

-Sí, muy bien, Jorge Luis Borges. Muchas gracias."
(dica de A Montanha Mágica)

domingo, 25 de maio de 2003

Grandeza e miséria do mundo

(...) Cá onde o mal se afina e o bem se dana (...)
Luís de Camões, Os Lusíadas

Há tempos assim, em que a vertigem dos acontecimentos se acelera e nos deixa como que paralisados, perante a iminência de todos os pesadelos. Em que as sequelas de cada acontecimento se multiplicam, de modo a deixar sem nexo à tarde o (sem-)sentido de manhã construído.
Não, não me refiro apenas ao escândalo da Casa Pia e ao avolumar dos sinais inquietantes de que aos submundos da degradação moral se somam os caminhos tortuosos como se faz justiça no nosso país.
Este é, porventura, o caso em que, por episódios sucessivos, fomos todos levados àquele ponto de encruzilhada em que, em lugar de escolher entre a boa e a má saída da floresta, sentimos que ambos os caminhos que se desenham pela frente podem ser perigosos.
Mas, ao lado daquele que é “o caso”, vemos outros, de dimensão maior ou menor, cá dentro e lá fora, todos indiciadores de que haverá que arrepiar caminho.
Quando alguém foge à justiça e muitos “alguens” saúdam essa fuga e agridem quem a contesta; quando alguém se escuda na imunidade parlamentar para não assumir claramente actos praticados; quando alguém invoca a discordância da lei para não acarretar com as consequências de circular quase ao dobro da velocidade permitida; quando alguém, como em Itália, chega a chefe de governo e se ocupa a denegrir a magistratura e a criar mecanismos para passar impune em processos que correm contra si; quando alguém utiliza factos manipulados para convencer o mundo a apoiar uma guerra; quando uma nação que comprovadamente viola os direitos e a dignidade dos seus cidadãos é eleita para presidir à comissão dos direitos humanos e quando essa comissão não se entende, depois, para condenar países, como Cuba, onde esses direitos são atropelados; quando tudo isto acontece não é apenas o caso ou a situação concreta que está em causa, é, antes, uma (des)ordem moral que está em causa. E é também o risco de tocar naquele fio invisível e frágil, mas vital para manter a vida social de pé e a respirar, que é a confiança.
Falta faz a serenidade. Não só a serenidade da mera contenção, freneticamente requerida nos últimos dias, mas a que permita a introspecção pessoal e colectiva.
Ao desconcerto percebido do mundo talvez falte o tempero da multiplicidade de gestos e modos de viver discretos e solidários, que pouco valem no “mercado” das lógicas mediáticas dominantes. Porque o mundo é mais vasto e interessante do que a pintura carregada que diariamente nos fornecem.
(Crónica no DM de amanhã)
"Aqui, um caminho leva à evidência, à telepatia, aos extraterrestres, às ciências ocultas, à magia. Acolá, adivinhais ramos retorcidos da reincarnação, do karma, das auras, das energias e outras hipóteses extravagantes.

"Avançai no mato e não tardareis a descobrir a arborescência ramalhuda das famosas técnicas da nova era onde se cultiva o desenvolvimento pessoal, a autorização, a expansão da consciência.

"É uma geografia complexa que mistura a meditação, a psicologia, as técnicas de alteração dos estados da consciência, as terapias suaves, as práticas corporais, a dietéctica...

"Ao lado está a luxuriante vegetação das ciências onde especulações sobre a Gaia e a cibernética planetária se entrelaçam com a física das partículas, a cosmologia, tudo sobre um fundo de crise ecológica e de interrogação sobre o destino futuro da humanidade.

"Continuando o caminho, ireis cair, de certeza, sobre raízes linguísticas sábias e retorcidas, como 'holismo', 'novo paradigma', 'holograma', 'Uno', 'múltiplo', 'não-separabilidade'. Esta floresta encantada tem mil rostos."

Michel Lacroix, La Spiritualité Totalitaire. New Age et les Sectes, Plon: Paris, 1995.


Comentário de Bento Domingues, no Público de hoje (de onde o trecho anterior foi retirado):

" (...) Nas sociedades secularizadas - como verificava a última Congregação Geral dos Jesuítas - a vida espiritual dos seres humanos não morreu. Desenvolve-se, porém, fora da Igreja e, deve-se acrescentar, em muitos casos, fora das religiões.

Mattew Fox vai ao ponto de sustentar que o programa para o terceiro milénio passa por "despir as religiões até à experiência espiritual", desenvolvendo formas de devoção que despertem as pessoas, em vez de as aborrecer.

Como diz o jornalista Michel Brown, no seu livro "O Turista Espiritual", a espiritualidade tornou-se num chavão. Nas suas deambulações ouviu muitas vezes as expressões: "Estou a tentar cultivar o meu lado espiritual" ou "estou a aprender a entrar em contacto com o meu lado espiritual". Geralmente, é mais uma falta que se sente do que uma realidade que se vive.

Muitos dos movimentos espirituais cintilam e extinguem-se como anúncios comerciais. À semelhança do que acontece no emprego e no casamento, também já não há religião ou espiritualidade para toda a vida. A religião ou a espiritualidade "à la carte" são facilmente descartáveis.(...)".

domingo, 18 de maio de 2003

(...)
Muito do desemprego nos últimos meses resulta de falências em série de empresas de média e grande dimensão, muitas delas encerrando aqui para irem abrir em países com mão de obra mais barata. Temos ouvido argumentar, ao nível governamental (cf. “Diário de Notícias” de sexta-feira) que estas falências “dão verdade à situação económica” e conduzem à “transparência do mercado”. Pode ser que assim seja, mas pegar assim em problemas sociais desta gravidade e delicadeza parece-me assemelhar-se àqueles que, normalmente ganhando bem, discutem as estatísticas de desemprego como se de manipulações de laboratório ou operações de contabilidade se tratasse.
Sabemos que a crise não tem as suas origens apenas no último ano e também não ignoramos que a agulha do clima internacional aponta mais para o lado recessivo do que para o expansivo.
Mas, depois de o governo ter dado o mote do “país de tanga” – porventura para conquistar espaço de manobra política – nós não vimos, até ao presente, uma real preocupação social com os efeitos devastadores de políticas económicas que só poderiam conduzir onde conduziram. Mesmo dando de barato que as opções económicas tenham sido as mais adequadas ou, pelo menos, as possíveis, seria necessário que, em simultâneo, se desenvolvesse um esforço multissectorial e articulado de novas respostas que impedissem que milhares de pessoas fossem simplesmente atiradas pela borda do navio fora, por não haver no navio lugar para elas. Porque os 423.595 desempregados são pessoas. E isso talvez precise de ser dito e gritado àqueles que, nos gabinetes, não vêem senão números e estatísticas.
(da crónica de amanhã, no DM)

domingo, 11 de maio de 2003

Convento de Santo António de Varatojo

Varatojo é um lugar da freguesia de S. Pedro e Santiago, situado numa colina fronteira a Torres Vedras. Foi aí que o rei D. Afonso V mandou levantar um convento, em cumprimento de um voto que fizera a Santo António para que o auxiliasse nas conquistas do Norte de África. E “veio ele mesmo, com os fidalgos da sua real Câmara e grande acompanhamento de clero, nobreza e povo, desde a vila de Torres, lançar a primeira pedra em Fevereiro de 1470”. O primeiro grupo de monges franciscanos instalou-se quatro anos depois, fazendo daquele espaço um dos sítios de maior florescimento do espírito missionário da modernidade em Portugal. A história riquíssima desta instituição é, ao mesmo tempo, um testemunho das vicissitudes da história do país, nas épocas moderna e contemporânea. O sítio do Convento na Internet dá disso sobeja conta, passando em revista as etapas vividas desde as décadas finais do século XV até ao presente. E dá-nos também, com imagem e texto, preciosas indicações sobre o valor arquitectónico, escultórico e paisagístico do conjunto, sem esquecer a riqueza ao nível da azulejaria. Melhor, só a visita ao local. (Convento de Varatojo, 2560 Torres Vedras , Tel. 261314120, Fax. 261315350, E-mail: Conv.varatojo@mail.telepac.pt ).

Página de Pedro Casaldáliga

“Passaram-se dois anos do novo século XXI e o Mundo continua cruel e solidário, injusto e esperançado. Ainda há guerra e há império, e o império acaba de inventar a guerra preventiva. Ainda o Mundo se divide pelo menos em três: Primeiro, Terceiro e Quarto. A fome, a pobreza, a corrupção e a violência têm aumentado; mas aumentaram também a consciência, o protesto, a organização, a vontade explícita de alternatividade”.
É assim que se inicia a carta pastoral de 2003 da autoria de D. Pedro Casaldáliga, bispo de S. Félix do Araguaia (Brasil). Um bispo-poeta, solidário com os mais pobres, que este ano completa 75 anos de vida e, por essa razão, solicitou ao Vaticano a sua substituição. O site, em boa parte em espanhol, contém documentos, poesias e orações de grande beleza e profundidade. Estão lá várias das suas cartas pastorais, muitas poesias, várias delas evocando a Mãe de Jesus. Está lá também o texto da célebre Missa dos Quilombos, cuja música foi criada por Milton Nascimento.
O bispo despede-se de décadas de apostolado no Mato Grosso com um poema que exprime a sua energia interior, e que foi buscar a “El Hombre de la Mancha” : “Sonhar mais um sonho impossível./ Lutar quando é fácil ceder. / Vencer o inimigo invencível. /Negar quando a regra é vender. / Quantas guerras terei que vencer por um poço de paz!
E amanhã, se esse chão que eu beijei / for meu leito e perdão, / vou saber que valeu delirar / e morrer de paixão!”.

domingo, 4 de maio de 2003

"Cada uno de nosotros es un relato. Tú eres, esencialmente, una historia. Y yo. Con su principio y su final. Jean-Claude Carrière, guionista de tantas películas de Luis Buñuel, me lo contaba así: “Pregunté en cierta ocasión al neurólogo Oliver Sacks qué consideraba él una persona normal, mentalmente sana. ‘La capaz de contar su historia’, me respondió. O sea, la que sabe de dónde procede –su origen, su principio–, dónde está –su identidad– y cree saber adónde va –sus proyectos y su final, la muerte–: en suma, alguien capaz de saberse en el curso de un relato”.
VÍCTOR-M. AMELA -, in La Vanguardia, 04/05/2003

domingo, 27 de abril de 2003

Palavras e tretas

“ (...) Palavras que chamavam pelas coisas, que eram o nome das coisas (...)”.
Sophia de Melo Breyner

Em tempos de tantas palavras, difícil é ser sábio para prestar atenção a todas, mas tomar apenas aquelas que valem a pena.
Se repararmos, são cada vez mais as palavras que circulam e nos cercam, orais e escritas, difundidas pelos meios mais diversos. E não só há mais palavras como se multiplicam também os pontos a partir dos quais essas palavras se enunciam. Ouvem-se as vozes de um lado e de outro, palavras soltas, murmúrios vagos, gritos e silêncios, discursos incandescentes, pronunciamentos desencontrados sobre mil assuntos, num vozear tal que, a dada altura, se torna difícil saber a que “terra” se pertence. Falam tonitruantes os que têm o (aparentemente natural) direito à palavra; falam os que se lhes opõem, para dizer, frequentemente, a mesma coisa; falam os que se colocam em “bicos de pés” para dizer que também existem. E o resultado é, frequentemente, um ruído ambiente, no qual é difícil ou mesmo impossível encontrar algum sentido, tantos são os “sentidos” e a velocidade estonteante da sua reciclagem.
Assoma por vezes a nostalgia dos tempos da palavra autorizada e única, de sentido linear e óbvio. Sem se perceber ou querer perceber que tal palavra apenas pode existir e perpetuar-se silenciando as palavras dos outros.
É salutar o acesso à palavra própria e à capacidade de a enunciar e difundir. Nisso, andamos algum caminho. Mas não o suficiente para nos darmos conta de que muitas palavras não são necessariamente as palavras de muitos. E mesmo que o fossem, muitas palavras só podem coexistir e frutificar havendo quem as escute. E mesmo que haja quem as escute e receba, necessário é saber distinguir entre aquelas que fazem sentido e aquelas que não passam de “palavreado” ou “treta”, entre aquelas que insuflam um sopro de vida e aquelas que ferem e matam.
Como encontrar sentido nas palavras? Como nos entendermos diante da proliferação e banalização da palavra? Como conseguir ouvir a palavra, ouvindo e acolhendo quem a pronuncia? Múltiplas são as vias da resposta, configuradoras de vastos e exigentes programas individuais e colectivos. Deixo uma achega do nosso P. António Vieira no seu Sermão da Sexagésima. “Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam”.
(texto para a crónica semanal no "Diário do Minho" de 28.04.2003).

sábado, 26 de abril de 2003

"Fazer pouco fruto a palavra de Deus no Mundo, pode proceder de um de três princípios: ou da parte do pregador, ou da parte do ouvinte, ou da parte de Deus. Para uma alma se converter por meio de um sermão, há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina, persuadindo; há-de concorrer o ouvinte com o entendimento, percebendo; há-de concorrer Deus com a graça, alumiando. Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, e necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus? (...)
Antigamente convertia-se o Mundo, hoje porque se não converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem. (...) Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras. Diz o Evangelho que a palavra de Deus frutificou cento por um. Que quer isto dizer? Quer dizer que de uma palavra nasceram em palavras? -- Não. Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras. (...) A razão disto é porque as palavras ouvem-se, as obras vêem-se; as palavras entram pelos ouvidos, as obras entram pelos olhos, e a nossa alma rende-se muito mais pelos olhos que pelos ouvidos".
P. António Vieira, Sermão da Sexagésima, 1655

sábado, 19 de abril de 2003

A valia da vida humana
Manuel Pinto

Os tempos que correm parecem mais de Crucificação do que de Páscoa, mais de Sexta-feira Santa do que de Ressurreição.
Recordo hoje os dois trabalhadores de Vila das Aves, que morreram na semana passada no meio dos ferros retorcidos pela avalanche de terra nas fundações em que trabalhavam. Retenho as imagens dos canais televisivos: as valas desguarnecidas, os corpos resgatados sem vida, as pessoas entre o resignado e o revoltado, o silêncio e ausência de quem deveria responder pelo sucedido.
O caso é apenas mais um, na terrível lista do pesadelo que são os acidentes de trabalho, em particular na construção civil. Funciona como perfeita exemplificação de como a vida humana continua a ser coisa de pouca monta, na escala dos valores reinantes, desde a instância política aos comportamentos mais quotidianos.
Não se trata de mera imprevidência ou facilitação. As campanhas de informação, para já não referir as leis vigentes, tornam indesculpável que se facilite no terreno da segurança pessoal, na mira de poupar uns euros (de resto, uma ilusão, porquanto não faltam estudos comprovativos de que o investimento neste domínio é compensador do ponto de vista económico).
Dados oficiais indicam que, nos últimos dez anos, devem ter morrido perto de milhar e meio de pessoas em acidentes no sector da construção civil. Em média, um trabalhador em cada dois dias, são mortos por acidente no trabalho ou relacionado com o trabalho. Muitíssimos mais são aqueles que ficam estropiados e incapacitados. Há, neste flagelo, uma parte de responsabilidade que pode caber ao próprio trabalhador. Mas, como é evidente, a falta de condições, da responsabilidade das empresas e dos empresários, aparece frequentemente associada aos desastres de que a opinião pública toma conhecimento. E quando tal acontece seria importante que fossem levadas às últimas consequências responsabilidades civis, mas também criminais.
De resto, quando o clima económico é de restrições cegas e não há noção de valores como a justiça e a dignidade humana, corre-se o risco – nas instituições privadas como nas públicas – de afectar a integridade física e psíquica das pessoas e, com isso, aquele nível mínimo de confiança básica sem o qual a vida social não se sustém.
Por tudo isto, e por muito mais que aqui não cabe, é tão difícil – e tão desafiante – adentrar-se no mistério da Ressurreição.

sexta-feira, 18 de abril de 2003

En une décennie, les croyances ont reculé en France
LE MONDE | 16.04.03 |

Existence de Dieu, fréquence de la prière, importance de la foi : les Français sont de plus en plus sceptiques, selon un sondage CSA pour "Le Monde" et "La Vie" qui reprend les mêmes questions qu'en 1994.
Sondage : les Français et leurs croyances (108 pages, PDF, 765 Ko)
Des croyances en baisse, un catholicisme qui se maintient, des religiosités parallèles qui s'effondrent.
Telles sont les grandes tendances qui se dégagent d'un son- dage CSA réalisé pour Le Monde et l'hebdomadaire La Vie, et qui reprend les questions posées lors d'une précédente enquête, réalisée en 1994.

Le sondage offre d'abord un aperçu du paysage religieux français en 2003. Sans surprise, les catholiques représentent l'écrasante majorité : 62 % des Français se déclarent de confession catholique, contre 67 % en 1994. Certains interpréteront cette légère baisse comme le signe d'un inexorable déclin ; d'autres y liront la marque d'une résistance d'un catholicisme culturel. Le poids des autres religions n'évolue guère, à l'exception de l'islam : les personnes se déclarant de religion musulmane passent de 2 % à 6 %. Les enquêteurs de l'Institut CSA constatent que, dans les sondages d'opinion, la population qui se déclare musulmane représente désormais un "sous-échantillon significatif", c'est-à-dire supérieur à 50 sur un total d'un millier de personnes sondée. Contrairement à certaines idées qui ont cours depuis une dizaine d'années sur l'attrait des spiri- tualités orientales, le nombre de personnes se réclamant du bouddhisme reste inférieur à 1 %.
La pratique religieuse s'érode, mais faiblement : 12 % des personnes interrogées disent aller à la messe ou à un office religieux une ou plusieurs fois par semaine, contre 14 % en 1994. 10 % affirment n'y aller jamais, contre 7 % en 1994. Le nombre des personnes qui disent y aller "de temps en temps aux grandes fêtes" augmente très légèrement, passant de 23 % à 24 %. Les musulmans semblent plus pratiquants que les catholiques : 27 % d'entre eux affirment assister à l'office religieux au moins une fois par semaine, contre 11 % chez les catholiques.
(...)
De manière significative, 32 % des personnes interrogées se disent en accord avec la proposition "Maintenant, je recommence à croire", un chiffre qui n'était que de 13 % en 1994. Faut-il y voir un signe du fameux "retour du religieux", qui profiterait aux religions traditionnelles ? Selon Régis Debray, interrogé par La Vie à paraître jeudi 17 avril, "on passe d'un affichage des croyances à un affichage d'appartenance. La religion devient une carte d'identité."

Le fait le plus marquant de cette enquête concerne en effet l'effondrement des croyances parallèles. L'astrologie ne fait plus recette : 37 % y apportent crédit, contre 60 % en 1994. C'est encore pire pour les voyantes (23 % y croient, contre 46 % lors de la précédente enquête), pour la communication avec les morts (22 % contre 37 %) et pour la sorcellerie (21 % contre 41 %).

Le christianisme n'apparaît pas comme une religion dépassée. Il est placé en tête des religions pour lesquelles les Français éprouvent "un intérêt spirituel" : 55 % des personnes interrogées s'y intéressent. Vient ensuite l'islam (22 %), qui devance le bouddhisme (21 %) et le judaïsme (16 %).

Xavier Ternisien

Leituras:

"Malgré tout, cette comparaison livre plusieurs surprises de taille.
La plus grande est le très net recul des croyances parallèles : de 60 % à 37 % pour "l'explication des caractères par les signes astrologiques", de 46 % à 23 % pour "les prédictions des voyantes", de 41 % à 21 % pour "les envoûtements, la sorcellerie".
Ce recul est encore plus prononcé chez les jeunes, alors que c'étaient eux qui se montraient les plus sensibles à ces croyances dans la précédente enquête. (...)
L'autre surprise de ce sondage, qui vient confirmer cette hypothèse, c'est que le nombre de personnes qui se définissent comme "rationalistes" bondit de 22 % à 52 %. Il faut comprendre ici "rationaliste" en son sens le plus large, et non en référence à une famille de pensée. Là encore, les jeunes en rajoutent (67 % de "rationalistes" contre 22 %). (...)
Le retour partiel de la génération du baby-boom à la religion se confirme. C'est désormais la tranche d'âge des 35-49 ans qui compte les taux les plus bas d'adhésion religieuse. On retrouve ainsi la courbe en U des années 1950-1960, avec un étiage religieux aux âges de la pleine acti-vité professionnelle et familiale, une période "préoccupé à autre chose", disaient Fernand Boulard, Jean Rémy et Jean Stoetzel.
Yves Lambert, sociologue des religions

"O Cristo na Cruz! Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!"

"Esta frase de Romano Guardini, que li há muito longo tempo, sempre a retive sem perceber bem porquê. Os mistérios só são mistérios porque ninguém os percebe e porque é estulto aquele que os tenta perceber. Cristo na Cruz, para qualquer cristão, é um mistério. Mas Cristo ressuscitado também. E, na esfera do mistério, não cabe o maior nem o menor. Quando não percebo, não posso perceber o tamanho do que não percebo. Se abro a porta para uma escuridão total, nunca poderei saber se essa escuridão é imensa, ou atravessável em sete passos. A não ser que me enfie nela, o que não posso fazer, pois que não tenho sustentação possível.
(...)
Mas só podemos pensar o dia de hoje, se o pensarmos como a perfeição de uma esfera admirável, porque, como disse frei Heitor Pinto, "O princípio une-se com o fim." "Esta é a perfeita figura, este é o círculo divino (...) este é o filho que é padre da madre; este é o que, nascendo em tempo, foi antes do tempo e fez o tempo; este é o que sendo impossível se fez possível e sendo eterno se fez mortal." (...)

JOÃO BÉNARD DA COSTA
PÚBLICO, Sexta-feira Santa, 18 de Abril de 2003

domingo, 13 de abril de 2003

Dois catolicismos?

O historiador e fundador da Comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi, considera que o desenvolvimento das posições em torno da guerra veio evidenciar uma profunda divisão entre o catolicismo e a maioria das confissões protestantes clássicas, por um lado, e os movimentos neo-protestantes americanos, por outro.
Num interesssante artigo no jornal espanhol La Vanguardia intitulado “Dois cristianismos?”, Riccardi observa que este neo-protestantismo, pouco conhecido na Europa, engloba movimentos não circunscritos a confissões religiosas tradicionais, encontra nos “tele-evangelistas” os seus grandes divulgadores e anuncia o ressurgimento religioso assente numa ética individual que defende o regresso aos valores tradicionais. Alimenta, além disso, a ideia de que aos Estados Unidos da América cabe uma missão providencial no mundo, bem ilustrada com a recente guerra. O presidente George W. Bush terá encontrado nesses movimentos apoio e inspiração, a ponto de invocar o nome de Deus para legitimar a intervenção no Iraque.
Não podiam ser mais afastadas as posições dos sectores que hoje prevalecem na Casa Branca e, nomeadamente, as do Vaticano e de várias outras importantes confissões cristãs. Está, assim, bem patente, na perspectiva de Riccardi, “um novo e profundo conflito no coração do Ocidente”.
A verdade é que a veemência que o papa, o Vaticano e diversas organizações da Igreja Católica puseram na condenação e na oposição frontal a esta guerra esteve longe de colher aceitação em diversos sectores do próprio catolicismo, em particular em países como a Itália, Espanha e Portugal.
No caso português, católicos em posição de destaque na vida política, no Governo e no Parlamento, ou se calaram ou assumiram claramente uma posição divergente da do papa e concordante com a do Governo. E mesmo ao nível episcopal, estivemos muito longe da militância que costuma surgir quando o assunto é também, por exemplo, o aborto.
No caso da guerra do Iraque, em que o nosso país acabou por estar mais envolvido do que seria desejável, é preciso que fique registado que muitos sectores que se tomam, noutras circunstâncias, pelos mais lídimos defensores das posições do papa, optaram, neste caso, pela dissidência, pelo silêncio ou pela mera afirmação de princípios, em nome de outros interesses ou, pelo menos, de outras interpretações.
É claro que não estamos perante dois catolicismos, o que seria, de resto, uma contradição nos próprios termos, mas perante modos diversos de entender e pôr em prática a mensagem de Cristo. Esse que, como tantos iraquianos, de hoje e de ontem, não morreu de morte natural, mas foi maltratado, confundido com malfeitores e, por fim, pregado numa cruz.
O Corão

Em tempos conturbados como aqueles que vivemos, em que Deus é invocado de diferentes lados, para legitimar a guerra, torna-se cada vez mais saliente a importância do diálogo entre a chamada cultura ocidental e a cultura e religião muçulmanas. Sem o conhecimento do outro, a comunicação não é possível e o diálogo converte-se numa conversa de surdos. Daí que possa ter interesse conhecer aquela que é a “Sagrada Escritura” da religião muçulmana, o Corão (Qur’an, em árabe). Ele é o guia do mundo islâmico, que se estende por uma região que vai de Marrocos, no Atântico, até à Malásia e à Indonésia, no oceano Pacífico. O livro sagrado compõe-se de 114 capítulos ou “suras” e, segundo a tradição, foi revelado a Maomé pelo anjo Gabriel, entre o ano de 610 da nossa era, ainda antes da Hégira, em Meca, e 632, já em Medina. Embora existam traduções do Corão em português, não conhecemos versões disponíveis na Internet. A que aqui apresentamos está em espanhol, deve-se a um grande especialista de árabe e espanhol, Julio Cortés e foi publicada em 1979. Compreende um Glossário de termos no início e um índice analítico na parte final.