Cem anos da Brotéria
A Gradiva e a Revista Brotéria organizam no próximo dia 14, um colóquio sobre "Fé, Ciência, Cultura: Desafios de Futuro", com a participação de Peter Stilwel, João Resina e Guilherme d'Oliveira Martins. A iniciativa decorre às 15 horas, no Grande Auditório do Colégio de S. João de Brito
(Estrada da Torre, 28, Lumiar, Lisboa), no âmbito da evocação do centenário da revista Brotéria. No mesmo dia, às 18 horas, Eduardo Lourenço apresenta a obra "Fé, Ciência, Cultura: Brotéria – 100 Anos" .
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004
terça-feira, 3 de fevereiro de 2004
Pluralismo e Diálogo Inter-Religioso
"Pluralismo e Diálogo Inter-Religioso para uma leitura de Jacques Dupuis" é o tema da tese de mestrado em Filosofia, área de especialização em Fenomenologia e Filosofia da Religião que Cristina de Jesus Marques Rodrigues apresenta na Universidade do Minho. A discussão pública tem lugar no próximo dia 5, quinta-feira, às14H30, na Sala de Actos do Instituto de Letras e Ciências Humanas. Jacques Dupuis é um teólogo jesuíta que viveu na Índia de 1948 a 1984 e foi nos últimos anos objecto de investigação por parte da Congregação para a Doutrina da Fé, nomeadamente por causa do seu livro "Toward a Christian Theology of Religious Pluralism"
"Pluralismo e Diálogo Inter-Religioso para uma leitura de Jacques Dupuis" é o tema da tese de mestrado em Filosofia, área de especialização em Fenomenologia e Filosofia da Religião que Cristina de Jesus Marques Rodrigues apresenta na Universidade do Minho. A discussão pública tem lugar no próximo dia 5, quinta-feira, às14H30, na Sala de Actos do Instituto de Letras e Ciências Humanas. Jacques Dupuis é um teólogo jesuíta que viveu na Índia de 1948 a 1984 e foi nos últimos anos objecto de investigação por parte da Congregação para a Doutrina da Fé, nomeadamente por causa do seu livro "Toward a Christian Theology of Religious Pluralism"
terça-feira, 27 de janeiro de 2004
Miklos Fehér
Diante do espectáculo da morte
- da morte dada em espectáculo -
ainda há lugar para descobrir
... a morte.
Impossível dissimular,
fazer de conta.
Como um raio, tudo se desvanece
e fica ela, desafiante, procadora,
embrulhada num sorriso doce.
De súbito, quem se agredia abraça-se,
quem delimitava os campos
descobre que um só campo existe,
comum.
Repentinamente,
é o acordar para a fragilidade,
a membrana fina
que separa de um além misterioso e inelutável,
para o sem-sentido de tanta coisa,
de tanta tralha
com que carregamos os dias.
Esta vida que se desvela,
e que nos descobre;
esta terra comum de quem se descobre
despido e solidário
não será o sinal
de que "a vida não acaba,
apenas se transforma"?
Diante do espectáculo da morte
- da morte dada em espectáculo -
ainda há lugar para descobrir
... a morte.
Impossível dissimular,
fazer de conta.
Como um raio, tudo se desvanece
e fica ela, desafiante, procadora,
embrulhada num sorriso doce.
De súbito, quem se agredia abraça-se,
quem delimitava os campos
descobre que um só campo existe,
comum.
Repentinamente,
é o acordar para a fragilidade,
a membrana fina
que separa de um além misterioso e inelutável,
para o sem-sentido de tanta coisa,
de tanta tralha
com que carregamos os dias.
Esta vida que se desvela,
e que nos descobre;
esta terra comum de quem se descobre
despido e solidário
não será o sinal
de que "a vida não acaba,
apenas se transforma"?
segunda-feira, 26 de janeiro de 2004
A Igreja na Cidade
o poder do encantamento e a força do testemunho
Eduardo Jorge Madureira Lopes
in Diário do Minho, 25.1.2004
Os lugares comuns parecem ter consagrado ad aeternum a identidade católica de Braga como se duas ou três designações religiosas — a “cidade dos arcebispos”, a “Roma portuguesa”... — fossem o bastante para, definitivamente, pôr a salvo a alma da cidade. Também os pouco abundantes olhares literários sobre Braga repararam na religiosidade da terra, que alguns autores julgaram mais dada à devoção do que ao amor ao próximo. Há, claro, diferenças entre a imagem que é devolvida pela reputação e a que é mostrada pelo espelho. Sucede que o espelho de hoje já não reflecte a imagem da cidade católica, como observou D. Jorge Ortiga, durante uma tertúlia realizada em Dezembro num antigo café do centro histórico.
É difícil dizer algo de novo sobre o que deve ser a Igreja em Braga nos dias de hoje. A Igreja, neste ou noutro lugar, neste ou noutro tempo, se é permitido usar o que S. Lucas disse num contexto algo diferente, “são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. A Igreja é um convite a um testemunho. Um convite endereçado todos os dias a cada um. Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose, em Itália, um dos mais importantes centros de espiritualidade da Europa, recorda que “a humanidade precisa mais de testemunhos do que de advogados de uma verdade em relação à qual o máximo a que podemos aspirar é ser pobres mendicantes”.
Os “advogados” sobrecarregam de palavras um mundo com pouca paciência para escutar, um mundo que precisa menos de lições de moral e mais de testemunhos. Só estes, como o padre António Vieira tão bem explicou, operam milagres. E “o milagre que corresponderia aos interesses da nossa época, o milagre de que a nossa época tem necessidade e ao qual seria sensível, julgo que seria o milagre do amor e da fraternidade dos cristãos”, afirma o padre Louis Evely. Uma coisa assim ajudaria a mudar o mundo: “o mundo converteu-se ao princípio, quando se dizia dos cristãos: ‘Vede como eles se amam!’”.
A Igreja é um anteprojecto do mundo (de um mundo diferente do que quer que tudo e que todos sejam uma mercadoria que se compra e que se vende). Ela não é, como alguns parecem julgar, uma cadeia de distribuição de sacramentos ou uma repartição (uma burocracia auto-suficiente) onde alguns funcionários mal-humorados atendem os que pretendem subscrever a bom preço Planos de Poupança Eternidade. Respeitando a liberdade de cada um e promovendo espaços de partilha, a Igreja deve, portanto, ir ao encontro do mundo para lhe apresentar uma maneira de viver diferente da que se está a querer impor por todo o lado. Desse modo, será o sal da terra e a luz do mundo.
É verdade que “não basta — ainda que seja necessário — organizar a política e a economia de forma a que os homens vivam e sejam felizes”, escreve o cardeal Paul Poupard, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, que considera que “é necessário propor-lhes uma visão deles próprios e do futuro, capaz de lhes oferecer um horizonte de pensamento e a sua parte de sonho. A beleza tem a graça secreta de fazer despertar o amor, como a centelha que faz começar o fogo, cuja chama ilumina e nos aquece. A inteligência não se extingue na sua função crítica. E as religiões murcham mais por perderem a sua capacidade de maravilhar do que pela dificuldade de proporem dogmas. A pior coisa que pode acontecer a uma notícia não é parecer desagradável, mas sim parecer maçadora”.
E, neste tempo saturado de informação, é essencial reencontrar a capacidade de maravilhar (há obras de arte que mantêm essa capacidade intacta, como é o caso da Paixão segundo S. Mateus, de Johann Sebastian Bach. Depois de ouvir esta obra, dirigida por Nikolaus Harnoncourt, o escritor Antonio Muñoz Molina compreendeu “a imperiosa urgência de um testemunho”). O poder do encantamento e a força do testemunho — não as palavras que vão sendo trituradas por cansados funcionários de Deus — ajudarão a certificar a proposta de sentido que está na Palavra de Vida, na Boa Nova que Jesus Cristo nos legou.
o poder do encantamento e a força do testemunho
Eduardo Jorge Madureira Lopes
in Diário do Minho, 25.1.2004
Os lugares comuns parecem ter consagrado ad aeternum a identidade católica de Braga como se duas ou três designações religiosas — a “cidade dos arcebispos”, a “Roma portuguesa”... — fossem o bastante para, definitivamente, pôr a salvo a alma da cidade. Também os pouco abundantes olhares literários sobre Braga repararam na religiosidade da terra, que alguns autores julgaram mais dada à devoção do que ao amor ao próximo. Há, claro, diferenças entre a imagem que é devolvida pela reputação e a que é mostrada pelo espelho. Sucede que o espelho de hoje já não reflecte a imagem da cidade católica, como observou D. Jorge Ortiga, durante uma tertúlia realizada em Dezembro num antigo café do centro histórico.
É difícil dizer algo de novo sobre o que deve ser a Igreja em Braga nos dias de hoje. A Igreja, neste ou noutro lugar, neste ou noutro tempo, se é permitido usar o que S. Lucas disse num contexto algo diferente, “são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. A Igreja é um convite a um testemunho. Um convite endereçado todos os dias a cada um. Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose, em Itália, um dos mais importantes centros de espiritualidade da Europa, recorda que “a humanidade precisa mais de testemunhos do que de advogados de uma verdade em relação à qual o máximo a que podemos aspirar é ser pobres mendicantes”.
Os “advogados” sobrecarregam de palavras um mundo com pouca paciência para escutar, um mundo que precisa menos de lições de moral e mais de testemunhos. Só estes, como o padre António Vieira tão bem explicou, operam milagres. E “o milagre que corresponderia aos interesses da nossa época, o milagre de que a nossa época tem necessidade e ao qual seria sensível, julgo que seria o milagre do amor e da fraternidade dos cristãos”, afirma o padre Louis Evely. Uma coisa assim ajudaria a mudar o mundo: “o mundo converteu-se ao princípio, quando se dizia dos cristãos: ‘Vede como eles se amam!’”.
A Igreja é um anteprojecto do mundo (de um mundo diferente do que quer que tudo e que todos sejam uma mercadoria que se compra e que se vende). Ela não é, como alguns parecem julgar, uma cadeia de distribuição de sacramentos ou uma repartição (uma burocracia auto-suficiente) onde alguns funcionários mal-humorados atendem os que pretendem subscrever a bom preço Planos de Poupança Eternidade. Respeitando a liberdade de cada um e promovendo espaços de partilha, a Igreja deve, portanto, ir ao encontro do mundo para lhe apresentar uma maneira de viver diferente da que se está a querer impor por todo o lado. Desse modo, será o sal da terra e a luz do mundo.
É verdade que “não basta — ainda que seja necessário — organizar a política e a economia de forma a que os homens vivam e sejam felizes”, escreve o cardeal Paul Poupard, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, que considera que “é necessário propor-lhes uma visão deles próprios e do futuro, capaz de lhes oferecer um horizonte de pensamento e a sua parte de sonho. A beleza tem a graça secreta de fazer despertar o amor, como a centelha que faz começar o fogo, cuja chama ilumina e nos aquece. A inteligência não se extingue na sua função crítica. E as religiões murcham mais por perderem a sua capacidade de maravilhar do que pela dificuldade de proporem dogmas. A pior coisa que pode acontecer a uma notícia não é parecer desagradável, mas sim parecer maçadora”.
E, neste tempo saturado de informação, é essencial reencontrar a capacidade de maravilhar (há obras de arte que mantêm essa capacidade intacta, como é o caso da Paixão segundo S. Mateus, de Johann Sebastian Bach. Depois de ouvir esta obra, dirigida por Nikolaus Harnoncourt, o escritor Antonio Muñoz Molina compreendeu “a imperiosa urgência de um testemunho”). O poder do encantamento e a força do testemunho — não as palavras que vão sendo trituradas por cansados funcionários de Deus — ajudarão a certificar a proposta de sentido que está na Palavra de Vida, na Boa Nova que Jesus Cristo nos legou.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2004
A Igreja na Cidade como Comum Habitação
por LUÍS SOARES BARBOSA [docente na Universidade do Minho]
"1. Há algum tempo atrás, numa cidade estranha, muito longe de casa, um frio cortante nas ruas desconhecidas, uma igreja onde entrei por acaso. Um pequeno grupo celebra nesse fim de tarde de domingo. Há uma leitura de Marcos. Uma senhora, coordenadora do grupo bíblico, faz um comentário breve. Há ainda um salmo (recordo: pela tua luz veremos a luz), um poema de Milosz. Há, sobretudo, silêncio. Uma enorme contenção de gestos e de sons. No final a partilha do pão e do vinho continua noutro canto da igreja. Uma cafeteira de chá forte e quente, as conversas animam-se. Estava-se na véspera da ocupação do Iraque, nesses meses em que a Europa viveu talvez as maiores manifestações de sempre contra a guerra e o travo amargo da impotência.
Alguma coisa, ao longo dessa hora, acabou por diluir a espessura do quotidiano que transporto e que, tantas vezes, o olhar me tolda. Pensei: se não fossem as igrejas onde nos encontraríamos? Onde, entre estranhos, nos sentiríamos próximos? Onde poderíamos chegar e partir, menos solitários, contudo? Partilhar o correr dos dias, perplexidades e inquietações, até mesmo aquilo que não é útil nem preciso?
Uma casa comum, dispersa e habitada. Onde coexistem, como nas casas da infância, amplas janelas abertas sobre o vento, doce de abóbora na despensa e velhos tiques de primas afastadas. Permitam-me, então, que sublinhe algumas preocupações por esta casa que habitamos. (...)
Continuação: aqui.
por LUÍS SOARES BARBOSA [docente na Universidade do Minho]
"1. Há algum tempo atrás, numa cidade estranha, muito longe de casa, um frio cortante nas ruas desconhecidas, uma igreja onde entrei por acaso. Um pequeno grupo celebra nesse fim de tarde de domingo. Há uma leitura de Marcos. Uma senhora, coordenadora do grupo bíblico, faz um comentário breve. Há ainda um salmo (recordo: pela tua luz veremos a luz), um poema de Milosz. Há, sobretudo, silêncio. Uma enorme contenção de gestos e de sons. No final a partilha do pão e do vinho continua noutro canto da igreja. Uma cafeteira de chá forte e quente, as conversas animam-se. Estava-se na véspera da ocupação do Iraque, nesses meses em que a Europa viveu talvez as maiores manifestações de sempre contra a guerra e o travo amargo da impotência.
Alguma coisa, ao longo dessa hora, acabou por diluir a espessura do quotidiano que transporto e que, tantas vezes, o olhar me tolda. Pensei: se não fossem as igrejas onde nos encontraríamos? Onde, entre estranhos, nos sentiríamos próximos? Onde poderíamos chegar e partir, menos solitários, contudo? Partilhar o correr dos dias, perplexidades e inquietações, até mesmo aquilo que não é útil nem preciso?
Uma casa comum, dispersa e habitada. Onde coexistem, como nas casas da infância, amplas janelas abertas sobre o vento, doce de abóbora na despensa e velhos tiques de primas afastadas. Permitam-me, então, que sublinhe algumas preocupações por esta casa que habitamos. (...)
Continuação: aqui.
Reduce papacy’s power, says Daneels.
A senior cardinal widely tipped as a possible successor to Pope John Paul has suggested the power of the papacy should be reduced and that there should be less focus on the person of the Pope.
Cardinal Godfried Danneels, Archbishop of Malines-Brussels, told the Rome paper 30 Giorni that a “moment of calm” was needed in the Church, and that in the third millennium a different style was called for after the Vatican’s “centralised control” of recent centuries.
Cardinal Danneels, who is widely seen as the leader of the “reform party” at the next conclave, described the Pope as “a real charismatic personality who attracts attention”. But the identification between the Pope’s role and personality was not “a good thing”, he said. He said a retirement for an “ailing and ageing pope” – an option the Pope has firmly rejected – could help to break the link. But he made it clear that it was not his wish or intention to weaken the papacy.
Cardinal Danneels also suggested that bishops’ synods should be less formal and more open, and that the “endless stream of paper” from the Curia should be cut back. “We are deluged with documents, instructions and manuals”, he lamented.
A senior cardinal widely tipped as a possible successor to Pope John Paul has suggested the power of the papacy should be reduced and that there should be less focus on the person of the Pope.
Cardinal Godfried Danneels, Archbishop of Malines-Brussels, told the Rome paper 30 Giorni that a “moment of calm” was needed in the Church, and that in the third millennium a different style was called for after the Vatican’s “centralised control” of recent centuries.
Cardinal Danneels, who is widely seen as the leader of the “reform party” at the next conclave, described the Pope as “a real charismatic personality who attracts attention”. But the identification between the Pope’s role and personality was not “a good thing”, he said. He said a retirement for an “ailing and ageing pope” – an option the Pope has firmly rejected – could help to break the link. But he made it clear that it was not his wish or intention to weaken the papacy.
Cardinal Danneels also suggested that bishops’ synods should be less formal and more open, and that the “endless stream of paper” from the Curia should be cut back. “We are deluged with documents, instructions and manuals”, he lamented.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2004
Não está ninguém em nenhum lado
Gomes Canotilho, em entrevista ao Expresso (27.12.2003):
'Há um fenómeno de deserção. Não está ninguém em nenhum lado. Ninguém parece ter interesse, sabemos tudo, não temos nada a aprender com os outros, e o que é certo é que depois não há uma participação cívica e crítica. E a mim preocupa-me, mas confesso que não sei como mudamos isto.'
Gomes Canotilho, em entrevista ao Expresso (27.12.2003):
'Há um fenómeno de deserção. Não está ninguém em nenhum lado. Ninguém parece ter interesse, sabemos tudo, não temos nada a aprender com os outros, e o que é certo é que depois não há uma participação cívica e crítica. E a mim preocupa-me, mas confesso que não sei como mudamos isto.'
Feliz Natal
"Senhor, que os meus pés busquem os teus caminhos
e te procurem recém-nascido nos lugares obscuros,
nas ruínas em que buscas abrigo para nascer dentro de mim.
Que as minhas mãos se inquietem na noite em que te procuro
e busquem em ti a vida que me falta; que eu seja em ti
as mãos que se entregam à graça, que se emprestam à vida
na força do arado, na terra em que virás ceifar o trigo no dia
da colheita, tu que és semente a germinar em mim.
Que os meus olhos se emprestem à tua presença,
para que sejam vastos os meus horizontes e rasgados
os caminhos que te preparo, e fértil a terra em que me dou
para que venhas, porque eu sou um lugar obscuro e em ruínas
mas sei que buscas um abrigo para nascer dentro de mim.
Inédito. José Rui Teixeira."
"Senhor, que os meus pés busquem os teus caminhos
e te procurem recém-nascido nos lugares obscuros,
nas ruínas em que buscas abrigo para nascer dentro de mim.
Que as minhas mãos se inquietem na noite em que te procuro
e busquem em ti a vida que me falta; que eu seja em ti
as mãos que se entregam à graça, que se emprestam à vida
na força do arado, na terra em que virás ceifar o trigo no dia
da colheita, tu que és semente a germinar em mim.
Que os meus olhos se emprestem à tua presença,
para que sejam vastos os meus horizontes e rasgados
os caminhos que te preparo, e fértil a terra em que me dou
para que venhas, porque eu sou um lugar obscuro e em ruínas
mas sei que buscas um abrigo para nascer dentro de mim.
Inédito. José Rui Teixeira."
domingo, 14 de dezembro de 2003
Bispo do Porto Defende Despenalização do Aborto
Bispo do Porto defende despenalização do aborto
Por ALEXANDRA CAMPOS
Público, 14 de Dezembro de 2003
"Correndo o risco de ser interpretado como uma voz dissonante dentro da Igreja Católica, o bispo do Porto, D. Armindo Lopes Coelho, afirma-se contra a penalização das mulheres que praticam o aborto, numa entrevista ontem publicada no 'Expresso'.
D. Armindo é 'uma pessoa muitíssimo inteligente, um bom teólogo e as pessoas devem estar atentas ao que ele diz', comenta, a propósito, o antigo bispo de Setúbal, D. Manuel Martins , escusando-se a fazer mais declarações.
Na entrevista ao semanário, o bispo do Porto diz claramente que é 'contra a penalização' e defende que 'as crianças devem viver e ser amadas pelos pais', até porque 'as instituições onde se colocam crianças indesejadas nunca são as melhores soluções'.
D. Armindo assume igualmente uma posição crítica relativamente aos grupos organizados contra e a favor da despenalização do aborto: enquanto existirem, acentua, 'haverá sempre tensão e guerra no ar'.
Sublinhando que os abortos clandestinos se continuarão a praticar mesmo após a entrada em vigor de uma hipotética despenalização, o bispo do Porto considera ainda que a 'única' solução para o problema é a 'criação de condições sociais para que as famílias possam criar os seus filhos'.
Apesar de preferir esperar que D. Armindo venha a público 'explicar o que quis dizer', José Paulo Carvalho, presidente da Federação Portuguesa pela Vida (que congrega várias associações contra a despenalizaçãodo aborto), foi ontem adiantando ao PÚBLICO que as afirmações do bispo mostram que o debate sobre o aborto "não é uma questão religiosa, não é uma guerra de católicos contra o resto do mundo".
"Acho que ele deve explicar o que quis dizer. Também se tem afirmado que Bagão Félix é contra a penalização, quando ele apenas disse que se deve discutir se a pena de prisão é a mais adequada" para quem interrompe voluntariamente a gravidez, acrescentou.
Frisando que não pretende "meter-se em polémicas com bispos", José Paulo Carvalho concluiu que o que D. Armindo pretendeu acentuar na entrevista foi que "a legalização não resolve o problema do aborto clandestino".
Vozes na Igreja contra a penalização do aborto
DN, 14.12.2003
ELSA COSTA E SILVARUTE ARAÚJO
Um novo debate sobre a despenalização do aborto volta a estar em cima da mesa, motivado por afirmações que surgem do interior da própria Igreja e contrárias à posição oficial católica. Em entrevista ao Expresso, D. Armindo Coelho, Bispo do Porto, afirmou ser «contra a penalização», apesar de ver «como solução única a criação de condições sociais para que as famílias possam criar os seus filhos». Uma liberalização da interrupção voluntária da gravidez mantém-se fora de questão, mas o afastamento das mulheres que praticaram aborto da barra dos tribunais reúne novos apoios.
D. Jacinto Botelho, Bispo de Lamego e membro da Comissão Episcopal da Família e da Educação Cristão, também diz que «ninguém está interessado em que as mulheres sejam penalizadas». Não vê nas palavras de Armindo Coelho grande discordância com a posição oficial da Igreja, já que «uma coisa é criminalizar as pessoas e outra é penalizar o acto».
«Temos de condenar o mal, mas ser tolerante com quem o pratica», afirma o prelado. Uma atitude que estende ao julgamento das mulheres acusadas de terem praticado aborto, a decorrer em Aveiro: «Deve haver da parte da Igreja uma atitude de perdão que é, aliás, a do Evangelho». Quanto a uma nova iniciativa legislativa, D. Jacinto Botelho é mais cauteloso, lembrando que a «Igreja não aceita o aborto» e que não pode aceitar ambiguidades que considerassem a descriminalização «como um entendimento de que esse acto não é grave».
A visão é partilhada por António Pires de Lima. Para o porta-voz do CDS-PP, «está fora de causa que a Igreja modifique a sua posição». O partido popular «partilha a ideia humanista da Igreja - se para nós a liberalização não é solução, também não queremos ver estas mulheres na barra dos tribunais». Por isso, «a solução do ponto de vista jurídico não é fácil». António Pires de Lima concorda ainda com o Bispo do Porto noutro ponto: mesmo liberalizando, haverá sempre grávidas a recorrerem a abortos ilegais, devido «ao estigma social».
Já para Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda, D. Armindo «revelou um enorme sentido de responsabilidade, que traduz uma corrente de opinião muito forte: é preciso acabar com a perseguição a estas mulheres». Mais: «Há uns anos, nenhuma voz dentro da Igreja se levantava neste sentido. Se o Bispo do Porto o fez, é porque tem por base uma profunda convicção e porque contacta com outros bispos que a partilham».
Por seu lado, José Paulo Carvalho, da Federação Defesa da Vida, apenas admite uma «discussão da pena em cada um dos casos, consoante as condições atenuantes». Mas, acrescenta, «não há nada de insultuoso em uma mulher ir a tribunal, o único local onde se pode defender com toda a dignidade sobre a sua culpa ou inocência».
Estas declarações surgem num momento em que está a ser lançada uma nova petição para despenalizar a interrupção voluntária da gravidez. Iniciativa que terá de enfrentar o acordo de coligação entre o PSD e o CDS-PP (que antecedeu a formação do Governo), no qual os partidos se comprometem a não mexer na questão do aborto.
Vários bispos contactados pelo DN preferiram não fazer qualquer comentário sobre o assunto.
Bispo do Porto defende despenalização do aborto
Por ALEXANDRA CAMPOS
Público, 14 de Dezembro de 2003
"Correndo o risco de ser interpretado como uma voz dissonante dentro da Igreja Católica, o bispo do Porto, D. Armindo Lopes Coelho, afirma-se contra a penalização das mulheres que praticam o aborto, numa entrevista ontem publicada no 'Expresso'.
D. Armindo é 'uma pessoa muitíssimo inteligente, um bom teólogo e as pessoas devem estar atentas ao que ele diz', comenta, a propósito, o antigo bispo de Setúbal, D. Manuel Martins , escusando-se a fazer mais declarações.
Na entrevista ao semanário, o bispo do Porto diz claramente que é 'contra a penalização' e defende que 'as crianças devem viver e ser amadas pelos pais', até porque 'as instituições onde se colocam crianças indesejadas nunca são as melhores soluções'.
D. Armindo assume igualmente uma posição crítica relativamente aos grupos organizados contra e a favor da despenalização do aborto: enquanto existirem, acentua, 'haverá sempre tensão e guerra no ar'.
Sublinhando que os abortos clandestinos se continuarão a praticar mesmo após a entrada em vigor de uma hipotética despenalização, o bispo do Porto considera ainda que a 'única' solução para o problema é a 'criação de condições sociais para que as famílias possam criar os seus filhos'.
Apesar de preferir esperar que D. Armindo venha a público 'explicar o que quis dizer', José Paulo Carvalho, presidente da Federação Portuguesa pela Vida (que congrega várias associações contra a despenalizaçãodo aborto), foi ontem adiantando ao PÚBLICO que as afirmações do bispo mostram que o debate sobre o aborto "não é uma questão religiosa, não é uma guerra de católicos contra o resto do mundo".
"Acho que ele deve explicar o que quis dizer. Também se tem afirmado que Bagão Félix é contra a penalização, quando ele apenas disse que se deve discutir se a pena de prisão é a mais adequada" para quem interrompe voluntariamente a gravidez, acrescentou.
Frisando que não pretende "meter-se em polémicas com bispos", José Paulo Carvalho concluiu que o que D. Armindo pretendeu acentuar na entrevista foi que "a legalização não resolve o problema do aborto clandestino".
Vozes na Igreja contra a penalização do aborto
DN, 14.12.2003
ELSA COSTA E SILVARUTE ARAÚJO
Um novo debate sobre a despenalização do aborto volta a estar em cima da mesa, motivado por afirmações que surgem do interior da própria Igreja e contrárias à posição oficial católica. Em entrevista ao Expresso, D. Armindo Coelho, Bispo do Porto, afirmou ser «contra a penalização», apesar de ver «como solução única a criação de condições sociais para que as famílias possam criar os seus filhos». Uma liberalização da interrupção voluntária da gravidez mantém-se fora de questão, mas o afastamento das mulheres que praticaram aborto da barra dos tribunais reúne novos apoios.
D. Jacinto Botelho, Bispo de Lamego e membro da Comissão Episcopal da Família e da Educação Cristão, também diz que «ninguém está interessado em que as mulheres sejam penalizadas». Não vê nas palavras de Armindo Coelho grande discordância com a posição oficial da Igreja, já que «uma coisa é criminalizar as pessoas e outra é penalizar o acto».
«Temos de condenar o mal, mas ser tolerante com quem o pratica», afirma o prelado. Uma atitude que estende ao julgamento das mulheres acusadas de terem praticado aborto, a decorrer em Aveiro: «Deve haver da parte da Igreja uma atitude de perdão que é, aliás, a do Evangelho». Quanto a uma nova iniciativa legislativa, D. Jacinto Botelho é mais cauteloso, lembrando que a «Igreja não aceita o aborto» e que não pode aceitar ambiguidades que considerassem a descriminalização «como um entendimento de que esse acto não é grave».
A visão é partilhada por António Pires de Lima. Para o porta-voz do CDS-PP, «está fora de causa que a Igreja modifique a sua posição». O partido popular «partilha a ideia humanista da Igreja - se para nós a liberalização não é solução, também não queremos ver estas mulheres na barra dos tribunais». Por isso, «a solução do ponto de vista jurídico não é fácil». António Pires de Lima concorda ainda com o Bispo do Porto noutro ponto: mesmo liberalizando, haverá sempre grávidas a recorrerem a abortos ilegais, devido «ao estigma social».
Já para Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda, D. Armindo «revelou um enorme sentido de responsabilidade, que traduz uma corrente de opinião muito forte: é preciso acabar com a perseguição a estas mulheres». Mais: «Há uns anos, nenhuma voz dentro da Igreja se levantava neste sentido. Se o Bispo do Porto o fez, é porque tem por base uma profunda convicção e porque contacta com outros bispos que a partilham».
Por seu lado, José Paulo Carvalho, da Federação Defesa da Vida, apenas admite uma «discussão da pena em cada um dos casos, consoante as condições atenuantes». Mas, acrescenta, «não há nada de insultuoso em uma mulher ir a tribunal, o único local onde se pode defender com toda a dignidade sobre a sua culpa ou inocência».
Estas declarações surgem num momento em que está a ser lançada uma nova petição para despenalizar a interrupção voluntária da gravidez. Iniciativa que terá de enfrentar o acordo de coligação entre o PSD e o CDS-PP (que antecedeu a formação do Governo), no qual os partidos se comprometem a não mexer na questão do aborto.
Vários bispos contactados pelo DN preferiram não fazer qualquer comentário sobre o assunto.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2003
...::: TodosUno :::...:
"Descubrir nuestro ser complementario,
debe ser primordial en la existencia;
es fácil cuando existe coincidencia
de gustos, de pensar y de escenario.
Mas, si el otro es ajeno o es contrario
y no existe siquiera la presencia,
solamente será mi competencia
si lo siento de Dios como emisario.
No hay que tener un único estandarte,
ni buscar en los míos mi acomodo,
pues Dios a todo el mundo se reparte,
mas se muestra en distinta forma y modo,
por lo tanto, dejemos ya la parte,
y vayamos a Dios, que es uno y todo. "
"Descubrir nuestro ser complementario,
debe ser primordial en la existencia;
es fácil cuando existe coincidencia
de gustos, de pensar y de escenario.
Mas, si el otro es ajeno o es contrario
y no existe siquiera la presencia,
solamente será mi competencia
si lo siento de Dios como emisario.
No hay que tener un único estandarte,
ni buscar en los míos mi acomodo,
pues Dios a todo el mundo se reparte,
mas se muestra en distinta forma y modo,
por lo tanto, dejemos ya la parte,
y vayamos a Dios, que es uno y todo. "
sábado, 6 de dezembro de 2003
Pontes, em vez de muros
Manuel Pinto
O “Diário de Notícias” tem em curso uma iniciativa que é merecedora de “distinção e louvor”. Há umas semanas atrás, começou a publicar nas suas edições dominicais uma troca de cartas públicas entre dois conhecidos intelectuais do nosso país: o cardeal-patriarca de Lisboa D. José Policarpo e o professor da Universidade Nova, colunista e ensaísta Eduardo Prado Coelho.
As cartas são uma forma de diálogo entre duas pessoas que se posicionam em horizontes filosóficos e ideológicos distintos, mas que, ao aceitarem este desafio do jornal, colocam diante dos nossos olhos argumentos de um lado e de outro sobre grandes questões dos nossos dias.
A iniciativa não é totalmente inédita: há perto de dez anos algo de semelhante foi feito em Itália, pelo diário “Corriere della Será”, tendo por protagonistas Umberto Eco e o cardeal Carlo Martini. De qualquer modo, no nosso meio, não é frequente ver oportunidades que permitam o diálogo entre mundos e referências que não só andam distantes como muitas vezes se desconhecem. As vicissitudes da nossa História fizeram com que se criassem clivagens que levaram a que a dimensão religiosa fosse como que “evacuada” dos grandes debates culturais, processo de que todos, tanto na esfera religiosa e como na esfera laica - somos responsáveis e de que todos saímos a perder.
É claro que estes diálogos só fazem sentido se os intervenientes partirem de uma base simples mas decisiva, que consiste em reconhecer o interlocutor e o universo de onde ele enuncia o que sente e pensa. E exige, ao mesmo tempo, a vontade de aprender e de progredir numa consciência mais larga e rica da vida e do mundo.
A este propósito, o esforço que se tem vindo a fazer em Braga, nos últimos tempos, a propósito da visita pastoral do Arcebispo às paróquias da cidade é, de algum modo, convergente com essa procura de um diálogo que não se limita àqueles que são iguais a nós e que pensam como nós. O convite a pessoas diversas – e não faria mal alargar bastante mais o leque desses convites – para que se pronunciem sobre o que entendem dever ser, hoje em dia, a presença da Igreja na cidade é uma iniciativa meritória. Assim como o weblog que é um espaço de partilha e debate aberto na Internet e que tem tido algumas achegas bem interessantes.
Vivemos num mundo em que, em todos os lados e em todos os terrenos, precisamos de valorizar mais o que nos aproxima uns dos outros do que aquilo que nos separa. Precisamos, em suma, muito mais de pontes do que de muros.
(in Diário do Minho, 8.12.2003)
Manuel Pinto
O “Diário de Notícias” tem em curso uma iniciativa que é merecedora de “distinção e louvor”. Há umas semanas atrás, começou a publicar nas suas edições dominicais uma troca de cartas públicas entre dois conhecidos intelectuais do nosso país: o cardeal-patriarca de Lisboa D. José Policarpo e o professor da Universidade Nova, colunista e ensaísta Eduardo Prado Coelho.
As cartas são uma forma de diálogo entre duas pessoas que se posicionam em horizontes filosóficos e ideológicos distintos, mas que, ao aceitarem este desafio do jornal, colocam diante dos nossos olhos argumentos de um lado e de outro sobre grandes questões dos nossos dias.
A iniciativa não é totalmente inédita: há perto de dez anos algo de semelhante foi feito em Itália, pelo diário “Corriere della Será”, tendo por protagonistas Umberto Eco e o cardeal Carlo Martini. De qualquer modo, no nosso meio, não é frequente ver oportunidades que permitam o diálogo entre mundos e referências que não só andam distantes como muitas vezes se desconhecem. As vicissitudes da nossa História fizeram com que se criassem clivagens que levaram a que a dimensão religiosa fosse como que “evacuada” dos grandes debates culturais, processo de que todos, tanto na esfera religiosa e como na esfera laica - somos responsáveis e de que todos saímos a perder.
É claro que estes diálogos só fazem sentido se os intervenientes partirem de uma base simples mas decisiva, que consiste em reconhecer o interlocutor e o universo de onde ele enuncia o que sente e pensa. E exige, ao mesmo tempo, a vontade de aprender e de progredir numa consciência mais larga e rica da vida e do mundo.
A este propósito, o esforço que se tem vindo a fazer em Braga, nos últimos tempos, a propósito da visita pastoral do Arcebispo às paróquias da cidade é, de algum modo, convergente com essa procura de um diálogo que não se limita àqueles que são iguais a nós e que pensam como nós. O convite a pessoas diversas – e não faria mal alargar bastante mais o leque desses convites – para que se pronunciem sobre o que entendem dever ser, hoje em dia, a presença da Igreja na cidade é uma iniciativa meritória. Assim como o weblog que é um espaço de partilha e debate aberto na Internet e que tem tido algumas achegas bem interessantes.
Vivemos num mundo em que, em todos os lados e em todos os terrenos, precisamos de valorizar mais o que nos aproxima uns dos outros do que aquilo que nos separa. Precisamos, em suma, muito mais de pontes do que de muros.
(in Diário do Minho, 8.12.2003)
quinta-feira, 4 de dezembro de 2003
Os Cristãos na Europa de Hoje
O Centro de Reflexão Cristã realiza na próxima terça-feira, dia 9, às 18.30, na sua sede em Lisboa (Rua Castilho, 61-2º Dto) uma conferência intitulada "Os Cristãos na Europa de Hoje", pelo Bispo auxiliar de Lisboa Manuel Clemente.
O CRC anuncia, entretanto, para Janeiro um ciclo de colóquios centrado nos temas recentemente lançados pela Conferência Episcopal "Sete Pecados sociais, Sete sinais de Esperança". (E-mail do CRC aqui)
O Centro de Reflexão Cristã realiza na próxima terça-feira, dia 9, às 18.30, na sua sede em Lisboa (Rua Castilho, 61-2º Dto) uma conferência intitulada "Os Cristãos na Europa de Hoje", pelo Bispo auxiliar de Lisboa Manuel Clemente.
O CRC anuncia, entretanto, para Janeiro um ciclo de colóquios centrado nos temas recentemente lançados pela Conferência Episcopal "Sete Pecados sociais, Sete sinais de Esperança". (E-mail do CRC aqui)
segunda-feira, 24 de novembro de 2003
Breve conversa
entre Laura Ferreira dos Santos e Osvaldo Manuel Silvestre
(a propósito do livro de Laura Ferreira dos Santos
"Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença - I"
(Angelus Novus Editora, 2003)
Osvaldo Manuel Silvestre (OMS) - O teu livro, desde o título - Diário de uma
mulher católica a caminho da descrença - parece sugerir que o caminho da
descrença é tão duro e tortuoso como o da fé. Será? E se é, a que se
deve isso? A tudo o que se deixa para trás? Ou antes ao facto de nunca
se deixar tudo para trás?
Laura Ferreira dos Santos (LFS) - Só posso dizer que, no meu caso, esse caminho
para a descrença foi de facto tão duro e tortuoso como o da fé. Depois
de aderir mais convictamente ao cristianismo, há uns vinte anos atrás,
uma missa era para mim um grande motivo de alegria, um espaço físico e
espiritual em que tudo parecia bater certo, lugar de um grande
apaziguamento e harmonia interiores. Tinha os meus problemas com o que a
igreja hierárquica ia dizendo e escrevendo, mas tentava relativizá-los
em função do que me parecia muito mais importante do que os seus
desacertos "ideológicos". No fundo, talvez a minha maior dificuldade no
caminho da descrença seja o facto de continuar a aceitar a maior parte
ou a totalidade dos ensinamentos evangélicos, mas sem conseguir aderir
ao Deus para que se julga remeterem, aparecendo-me a Igreja católica
sobretudo como um clube para homens, legitimando de diversos modos o
papel inferior da mulher na sociedade.
O. M. S. Inspiraste-te nalgum modelo de diarística para o teu livro?
Sentes-te mais próxima, quanto a isso, de Santo Agostinho ou de Virgina
Woolf (ou de Santa Teresa)?
L. F. S. Como muitas e muitos de nós, li os textos referidos, assim como
outros do género. Até que ponto me influenciaram, é algo que não consigo
avaliar bem. Se Agostinho e Teresa de Ávila me estão até certo ponto
próximos pela temática religiosa, dir-se-ia que a certeza das suas
convicções religiosas me afasta deles, sentindo-me mais identificada com
alguns dos tormentos de fé expostos por João da Cruz ou Teresa de
Lisieux, não a Teresa edulcorada pelas suas irmãs carmelitas, mas a
Teresa para quem o "pensamento do céu" já não é um tema pacífico, mas um
tema de combate e de tormento, temendo que depois da morte já só haja
uma "noite do nada", ou escrevendo que quando canta a alegria de estar
em Deus canta apenas aquilo em que ela quer crer, não aquilo em que crê
na verdade. Diários ou não, sinto-me portanto mais próxima dos escritos
em que se capta à saciedade uma luta de corpo a corpo com a crença ou
com esse ser que tem vindo a ser designado androcentricamente por Deus.
Por outras palavras, textos cujas autoras ou cujos autores têm descrito
a vivência da crença como se o fizessem num processo que deixa sangue
entre os dedos, textos aliás escritos do único modo que Nietzsche
respeitava. Algo assim como o Diário íntimo de Unamuno, texto que
"saltou" das minhas memórias antigas (li-o quando tinha 19 anos) quando
me deparei com esta pergunta.
O. M. S. Como explicas a raridade lusa de obras que, como a tua, façam
da fé uma questão tão agónica quanto polémica? Ou seja, como explicas
que a um país de inquestionada tradição católica corresponda uma tão
débil produção teológica?
L. F. S. De imediato, o que me apetece dizer é que em Portugal é tudo
tão pequenino quanto os sinais de trânsito ou as placas que indicam os
nomes das diversas localidades, que, numa viagem de automóvel, só
conseguimos decifrar quando acabámos de passar por elas. Basta comparar
os sinais de limite de velocidade que encontramos nas auto-estradas
portuguesas e nas espanholas. Bom, a questão é obviamente complexa,
aproveitando desde já para esclarecer que o meu Diário não se enquadra
na dita "produção teológica", pelo menos no sentido habitual do termo.
No entanto, é verdade que, no nosso país, essa produção é de facto
débil. Aliás, penso que, em Portugal, uma investigação aprofundada, pelo
menos no campo das letras, que é o âmbito que conheço melhor, poucos
incentivos recebe. Veja-se, por ex., o que se passa na maior parte (ou
totalidade) dos centros de investigação universitários, em que é
sobretudo o número de artigos publicados a ser contabilizado, não se
atendendo à sua qualidade. Nesta óptica, cinquenta filmes feitos pelo
mesmo realizador num único ano seriam muito mais subsidiados que A vida
é bela, talvez o único filme que Roberto Begnini realizou no mesmo
espaço de tempo. Por outro lado, só os trabalhos em equipa parecem ser
subsidiados. Se Nietzsche, nos tempos actuais, se propusesse fazer um
trabalho de índole semelhante ao que realizou, nunca obteria um centavo.
Mas se se associasse a Peter Gast, à irmã, a Paul Rée, a Wagner, etc,
poderia eventualmente receber uns cobres. Mas, nesse caso, alguém o
leria hoje? Claro que não estou contra o trabalho em equipa,
imprescindível em certas áreas. Fazer dele um dogma é que me parece um
fundamentalismo.
Neste Diário, a temática religiosa, entendida num sentido muito amplo,
aparece perspectivada tendo em conta a situação da mulher e o modo como
o "religioso" intervém nela. Perante a raridade para que a pergunta
aponta, talvez se deva colocar a hipótese de que, em Portugal, a maior
parte das pessoas que poderia produzir textos deste género tenha
rapidamente deixado de acreditar em Deus, acrescentando-se, por outro
lado, a questão óbvia de que o nosso país se encontra longe de temáticas
ditas "feministas", nem sequer utilizando uma linguagem inclusiva, que
trate, sem discriminação, homens e mulheres. Por aqui, só há "homens" e
"filhos", pois já se sabe há muito que todas as mulheres são homens e
todas as filhas são filhos. A meu ver, só o cruzamento das duas
temáticas por uma pessoa que as levasse muito a sério poderia dar um
texto como o meu. E, pelos vistos, por uma razão ou outra, não deve
haver em Portugal muita gente nessas circunstâncias. Daí a minha própria
dificuldade em conseguir encontrar um padre com quem possa dialogar
sobre estes assuntos, pois oiço frequentemente dizerem-me que nunca se
tinham confrontado com as minhas questões, alguns assumindo honestamente
que talvez por serem homens...
O. M. S. Como vês a intransigência da igreja de Roma no que toca ao
ordenamento de mulheres como sacerdotes? A verificar-se uma alteração do
estado de coisas com um novo Papa, pensas que isso se deverá a boas
razões (teológicas) ou à falta de vocações masculinas?
L. F. S. Perante as vistas curtas que a Igreja católica manifesta em
tantas áreas, apetece brincar e dizer: se essa ordenação for devida à
falta de vocações masculinas, as boas razões teológicas serão com
certeza encontradas.
Durante milhares de anos, um acto particularmente importante nas
religiões como o sacrifício cruento foi interdito às mulheres. Segundo
uma teoria, para que os homens, sem o privilégio de dar à luz, pudessem
dispor de um outro privilégio que aplacasse a sua inveja da maternidade:
o privilégio do sacrifício cruento, vertendo o sangue de uma vítima para
que uma certa forma de "vida" pudesse surgir. Por esta ou por outras
razões, o facto é que as grandes religiões monoteístas (judaísmo,
cristianismo e islamismo), nas suas versões mais "oficiais", foram
declarando o papel subordinado da mulher, pois, como diz Paulo, "a
cabeça da mulher é o homem". E, se pudesse, creio que a Igreja Católica
reescreveria o discurso das Bem-aventuranças, pondo de um lado as
adequadas aos homens, e do outro as adequadas às mulheres. Penso que
Cristo foi um grande defensor das mulheres, mas a sua (?) Igreja não
conseguiu manter-se ao mesmo nível. Pela voz da Igreja católica e de
outras religiões continua a manifestar-se um antigo horror à mulher que,
se por um lado pode quase configurar uma espécie de crime contra a
humanidade, por outro é uma posição merecedora de estudo aprofundado,
pois esclarece-nos muito sobre as questões de género, ajudando-nos a
perceber por que é que os homens actuam em sociedade como se
pertencessem a uma espécie de "raça" superior.
O. M. S. O teu livro aparece com a indicação de que se trata do volume
I. Significa isso que pensas publicar mais volumes? Com que
regularidade? Se entretanto o caminho te conduzir de facto à descrença,
admites a possibilidade de uma alteração de título?
L. F. S. De facto, não tencionava "descontinuar" este Diário. Aliás, no
meu computador, lá vai crescendo, ao sabor dos tempos. Agora a respeito
da regularidade de publicação, não posso prevê-la neste momento, tanto
mais quanto não sei se os problemas de saúde de que padeço irão diminuir
ou aumentar a sua escrita. Um outro volume para daqui a um ano?...
Quanto à eventualidade de ser conduzida "de facto" à descrença, eis aí
um problema que começa logo pela definição de crença e descrença, cujo
conteúdo irei tentando delimitar ao longo do "caminho". Um determinado
tipo de descrença não elimina radicalmente a possibilidade da crença.
Falta saber em quê. Seja como for, para já, não entrevejo uma mudança de
título, como se aí estivesse um ponto de partida (ou de chegada)
demasiado marcante para ser deitado fora antes de ser devidamente
explorado. E vontade para efectuar essa exploração é algo que não me falta.
entre Laura Ferreira dos Santos e Osvaldo Manuel Silvestre
(a propósito do livro de Laura Ferreira dos Santos
"Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença - I"
(Angelus Novus Editora, 2003)
Osvaldo Manuel Silvestre (OMS) - O teu livro, desde o título - Diário de uma
mulher católica a caminho da descrença - parece sugerir que o caminho da
descrença é tão duro e tortuoso como o da fé. Será? E se é, a que se
deve isso? A tudo o que se deixa para trás? Ou antes ao facto de nunca
se deixar tudo para trás?
Laura Ferreira dos Santos (LFS) - Só posso dizer que, no meu caso, esse caminho
para a descrença foi de facto tão duro e tortuoso como o da fé. Depois
de aderir mais convictamente ao cristianismo, há uns vinte anos atrás,
uma missa era para mim um grande motivo de alegria, um espaço físico e
espiritual em que tudo parecia bater certo, lugar de um grande
apaziguamento e harmonia interiores. Tinha os meus problemas com o que a
igreja hierárquica ia dizendo e escrevendo, mas tentava relativizá-los
em função do que me parecia muito mais importante do que os seus
desacertos "ideológicos". No fundo, talvez a minha maior dificuldade no
caminho da descrença seja o facto de continuar a aceitar a maior parte
ou a totalidade dos ensinamentos evangélicos, mas sem conseguir aderir
ao Deus para que se julga remeterem, aparecendo-me a Igreja católica
sobretudo como um clube para homens, legitimando de diversos modos o
papel inferior da mulher na sociedade.
O. M. S. Inspiraste-te nalgum modelo de diarística para o teu livro?
Sentes-te mais próxima, quanto a isso, de Santo Agostinho ou de Virgina
Woolf (ou de Santa Teresa)?
L. F. S. Como muitas e muitos de nós, li os textos referidos, assim como
outros do género. Até que ponto me influenciaram, é algo que não consigo
avaliar bem. Se Agostinho e Teresa de Ávila me estão até certo ponto
próximos pela temática religiosa, dir-se-ia que a certeza das suas
convicções religiosas me afasta deles, sentindo-me mais identificada com
alguns dos tormentos de fé expostos por João da Cruz ou Teresa de
Lisieux, não a Teresa edulcorada pelas suas irmãs carmelitas, mas a
Teresa para quem o "pensamento do céu" já não é um tema pacífico, mas um
tema de combate e de tormento, temendo que depois da morte já só haja
uma "noite do nada", ou escrevendo que quando canta a alegria de estar
em Deus canta apenas aquilo em que ela quer crer, não aquilo em que crê
na verdade. Diários ou não, sinto-me portanto mais próxima dos escritos
em que se capta à saciedade uma luta de corpo a corpo com a crença ou
com esse ser que tem vindo a ser designado androcentricamente por Deus.
Por outras palavras, textos cujas autoras ou cujos autores têm descrito
a vivência da crença como se o fizessem num processo que deixa sangue
entre os dedos, textos aliás escritos do único modo que Nietzsche
respeitava. Algo assim como o Diário íntimo de Unamuno, texto que
"saltou" das minhas memórias antigas (li-o quando tinha 19 anos) quando
me deparei com esta pergunta.
O. M. S. Como explicas a raridade lusa de obras que, como a tua, façam
da fé uma questão tão agónica quanto polémica? Ou seja, como explicas
que a um país de inquestionada tradição católica corresponda uma tão
débil produção teológica?
L. F. S. De imediato, o que me apetece dizer é que em Portugal é tudo
tão pequenino quanto os sinais de trânsito ou as placas que indicam os
nomes das diversas localidades, que, numa viagem de automóvel, só
conseguimos decifrar quando acabámos de passar por elas. Basta comparar
os sinais de limite de velocidade que encontramos nas auto-estradas
portuguesas e nas espanholas. Bom, a questão é obviamente complexa,
aproveitando desde já para esclarecer que o meu Diário não se enquadra
na dita "produção teológica", pelo menos no sentido habitual do termo.
No entanto, é verdade que, no nosso país, essa produção é de facto
débil. Aliás, penso que, em Portugal, uma investigação aprofundada, pelo
menos no campo das letras, que é o âmbito que conheço melhor, poucos
incentivos recebe. Veja-se, por ex., o que se passa na maior parte (ou
totalidade) dos centros de investigação universitários, em que é
sobretudo o número de artigos publicados a ser contabilizado, não se
atendendo à sua qualidade. Nesta óptica, cinquenta filmes feitos pelo
mesmo realizador num único ano seriam muito mais subsidiados que A vida
é bela, talvez o único filme que Roberto Begnini realizou no mesmo
espaço de tempo. Por outro lado, só os trabalhos em equipa parecem ser
subsidiados. Se Nietzsche, nos tempos actuais, se propusesse fazer um
trabalho de índole semelhante ao que realizou, nunca obteria um centavo.
Mas se se associasse a Peter Gast, à irmã, a Paul Rée, a Wagner, etc,
poderia eventualmente receber uns cobres. Mas, nesse caso, alguém o
leria hoje? Claro que não estou contra o trabalho em equipa,
imprescindível em certas áreas. Fazer dele um dogma é que me parece um
fundamentalismo.
Neste Diário, a temática religiosa, entendida num sentido muito amplo,
aparece perspectivada tendo em conta a situação da mulher e o modo como
o "religioso" intervém nela. Perante a raridade para que a pergunta
aponta, talvez se deva colocar a hipótese de que, em Portugal, a maior
parte das pessoas que poderia produzir textos deste género tenha
rapidamente deixado de acreditar em Deus, acrescentando-se, por outro
lado, a questão óbvia de que o nosso país se encontra longe de temáticas
ditas "feministas", nem sequer utilizando uma linguagem inclusiva, que
trate, sem discriminação, homens e mulheres. Por aqui, só há "homens" e
"filhos", pois já se sabe há muito que todas as mulheres são homens e
todas as filhas são filhos. A meu ver, só o cruzamento das duas
temáticas por uma pessoa que as levasse muito a sério poderia dar um
texto como o meu. E, pelos vistos, por uma razão ou outra, não deve
haver em Portugal muita gente nessas circunstâncias. Daí a minha própria
dificuldade em conseguir encontrar um padre com quem possa dialogar
sobre estes assuntos, pois oiço frequentemente dizerem-me que nunca se
tinham confrontado com as minhas questões, alguns assumindo honestamente
que talvez por serem homens...
O. M. S. Como vês a intransigência da igreja de Roma no que toca ao
ordenamento de mulheres como sacerdotes? A verificar-se uma alteração do
estado de coisas com um novo Papa, pensas que isso se deverá a boas
razões (teológicas) ou à falta de vocações masculinas?
L. F. S. Perante as vistas curtas que a Igreja católica manifesta em
tantas áreas, apetece brincar e dizer: se essa ordenação for devida à
falta de vocações masculinas, as boas razões teológicas serão com
certeza encontradas.
Durante milhares de anos, um acto particularmente importante nas
religiões como o sacrifício cruento foi interdito às mulheres. Segundo
uma teoria, para que os homens, sem o privilégio de dar à luz, pudessem
dispor de um outro privilégio que aplacasse a sua inveja da maternidade:
o privilégio do sacrifício cruento, vertendo o sangue de uma vítima para
que uma certa forma de "vida" pudesse surgir. Por esta ou por outras
razões, o facto é que as grandes religiões monoteístas (judaísmo,
cristianismo e islamismo), nas suas versões mais "oficiais", foram
declarando o papel subordinado da mulher, pois, como diz Paulo, "a
cabeça da mulher é o homem". E, se pudesse, creio que a Igreja Católica
reescreveria o discurso das Bem-aventuranças, pondo de um lado as
adequadas aos homens, e do outro as adequadas às mulheres. Penso que
Cristo foi um grande defensor das mulheres, mas a sua (?) Igreja não
conseguiu manter-se ao mesmo nível. Pela voz da Igreja católica e de
outras religiões continua a manifestar-se um antigo horror à mulher que,
se por um lado pode quase configurar uma espécie de crime contra a
humanidade, por outro é uma posição merecedora de estudo aprofundado,
pois esclarece-nos muito sobre as questões de género, ajudando-nos a
perceber por que é que os homens actuam em sociedade como se
pertencessem a uma espécie de "raça" superior.
O. M. S. O teu livro aparece com a indicação de que se trata do volume
I. Significa isso que pensas publicar mais volumes? Com que
regularidade? Se entretanto o caminho te conduzir de facto à descrença,
admites a possibilidade de uma alteração de título?
L. F. S. De facto, não tencionava "descontinuar" este Diário. Aliás, no
meu computador, lá vai crescendo, ao sabor dos tempos. Agora a respeito
da regularidade de publicação, não posso prevê-la neste momento, tanto
mais quanto não sei se os problemas de saúde de que padeço irão diminuir
ou aumentar a sua escrita. Um outro volume para daqui a um ano?...
Quanto à eventualidade de ser conduzida "de facto" à descrença, eis aí
um problema que começa logo pela definição de crença e descrença, cujo
conteúdo irei tentando delimitar ao longo do "caminho". Um determinado
tipo de descrença não elimina radicalmente a possibilidade da crença.
Falta saber em quê. Seja como for, para já, não entrevejo uma mudança de
título, como se aí estivesse um ponto de partida (ou de chegada)
demasiado marcante para ser deitado fora antes de ser devidamente
explorado. E vontade para efectuar essa exploração é algo que não me falta.
terça-feira, 4 de novembro de 2003
Receios
Leio no Aviz:
«O nosso sentimento actual de desorientação, de recaída na violência, de perda na insensibilidade moral; a nossa viva impressão de uma quebra profunda no campo dos valores da arte e no da decadência dos códigos pessoais e sociais; os nossos receios de uma nova ?idade das trevas? em que a própria civilização, tal como a conhecemos, possa desaparecer ou se restrinja a pequenas ilhas de preservação arcaica ? esses receios tão palpáveis e generalizados que se transformaram num cliché do estado de espírito da época ? tiram de uma comparação a sua força e a sua evidência aparente. [?] A nossa experiência do presente, os juízos, tantas vezes negativos, que fazemos acerca do nosso lugar na história, vivem continuamente contra o fundo daquilo a que eu gostaria de chamar o ?mito do século XIX? ou o ?jardim imaginário da cultura liberal?. [?] A minha tese é que certas origens da inumanidade, da crise que nos obriga hoje a uma redefinição da cultura, devem ser procuradas na longa paz do século XIX e no nó mais denso do tecido complexo da civilização. [?] A arte, as investigações intelectuais, o desenvolvimento das ciências, múltiplos sectores de actividade universitária, floresceram numa estreita proximidade espacial e temporal relativamente aos campos de extermínio. Ao contrário do que acontecia nas fantasias das fábulas apocalípticas do século XIX, a barbárie irrompeu do coração da Europa.»
"GEORGE STEINER, in Bluebeard's Castle
Leio no Aviz:
«O nosso sentimento actual de desorientação, de recaída na violência, de perda na insensibilidade moral; a nossa viva impressão de uma quebra profunda no campo dos valores da arte e no da decadência dos códigos pessoais e sociais; os nossos receios de uma nova ?idade das trevas? em que a própria civilização, tal como a conhecemos, possa desaparecer ou se restrinja a pequenas ilhas de preservação arcaica ? esses receios tão palpáveis e generalizados que se transformaram num cliché do estado de espírito da época ? tiram de uma comparação a sua força e a sua evidência aparente. [?] A nossa experiência do presente, os juízos, tantas vezes negativos, que fazemos acerca do nosso lugar na história, vivem continuamente contra o fundo daquilo a que eu gostaria de chamar o ?mito do século XIX? ou o ?jardim imaginário da cultura liberal?. [?] A minha tese é que certas origens da inumanidade, da crise que nos obriga hoje a uma redefinição da cultura, devem ser procuradas na longa paz do século XIX e no nó mais denso do tecido complexo da civilização. [?] A arte, as investigações intelectuais, o desenvolvimento das ciências, múltiplos sectores de actividade universitária, floresceram numa estreita proximidade espacial e temporal relativamente aos campos de extermínio. Ao contrário do que acontecia nas fantasias das fábulas apocalípticas do século XIX, a barbárie irrompeu do coração da Europa.»
"GEORGE STEINER, in Bluebeard's Castle
sábado, 1 de novembro de 2003
"Señas de nuestro tiempo
: [Marcial Romero]
'Una pieza de teatro que corresponda a la situación del mundo
hoy. ¿De qué debería tratar? De la respiración desasosegada.'
(E. Canetti, 1979, Apuntes 1973-1984)
Nuestro tiempo como preocupación, como problemático, como desorientación, como cierre y apertura, como tiempo que navega en aguas turbulentas, como tiempo histórico y a-histórico, vamos, un tiempo de orillas, en el que el puente entre el antes y el después está roto (1).
Hay que reconocer que nuestro siglo XX ha resultado un tiempo emocionalmente intenso, a poco que nos fijemos en los constantes movimientos de masas humanas reventadas en el orbe mundial (2) o en la violencia endémica que afecta a poblaciones enteras. Y esta ya es una razón suficiente que empuja por sí misma a pararse a considerarlo. La idea de nuestro tiempo no puede borrar esta memoria fatídica, cruel y dolorosa (3). Nuestro tiempo está impregnado de ese blanco y negro nocturno de entreguerras que, sobre todo en Occidente, ha mantenido a nuestros abuelos y padres en una rumia de víctimas y verdugos (4): una constante reiteración de la muerte. (...) "
: [Marcial Romero]
'Una pieza de teatro que corresponda a la situación del mundo
hoy. ¿De qué debería tratar? De la respiración desasosegada.'
(E. Canetti, 1979, Apuntes 1973-1984)
Nuestro tiempo como preocupación, como problemático, como desorientación, como cierre y apertura, como tiempo que navega en aguas turbulentas, como tiempo histórico y a-histórico, vamos, un tiempo de orillas, en el que el puente entre el antes y el después está roto (1).
Hay que reconocer que nuestro siglo XX ha resultado un tiempo emocionalmente intenso, a poco que nos fijemos en los constantes movimientos de masas humanas reventadas en el orbe mundial (2) o en la violencia endémica que afecta a poblaciones enteras. Y esta ya es una razón suficiente que empuja por sí misma a pararse a considerarlo. La idea de nuestro tiempo no puede borrar esta memoria fatídica, cruel y dolorosa (3). Nuestro tiempo está impregnado de ese blanco y negro nocturno de entreguerras que, sobre todo en Occidente, ha mantenido a nuestros abuelos y padres en una rumia de víctimas y verdugos (4): una constante reiteración de la muerte. (...) "
La vida y la poesía
Entrevista: Francisco Brines -nº 22 Espéculo (UCM): "Es que el hombre no es el poeta. La vida es una cosa y la poesía otra. La poesía es un espejo al que nos asomamos y en el que aparece un personaje que no tiene nuestro rostro, pero que sabemos somos nosotros, pero nosotros de una manera muy peculiar; es como cuando aparecemos u aparecen personas que nos son cercanas en los sueños: somos nosotros o ellas, pero con otro rostro. La poesía devela aspectos oscuros y desconocidos en nosotros y que sólo por el método poético llegamos a conocer; pero también podemos opacar otros que son muy nuestros."
Francisco Brines, 2003
Entrevista: Francisco Brines -nº 22 Espéculo (UCM): "Es que el hombre no es el poeta. La vida es una cosa y la poesía otra. La poesía es un espejo al que nos asomamos y en el que aparece un personaje que no tiene nuestro rostro, pero que sabemos somos nosotros, pero nosotros de una manera muy peculiar; es como cuando aparecemos u aparecen personas que nos son cercanas en los sueños: somos nosotros o ellas, pero con otro rostro. La poesía devela aspectos oscuros y desconocidos en nosotros y que sólo por el método poético llegamos a conocer; pero también podemos opacar otros que son muy nuestros."
Francisco Brines, 2003
terça-feira, 21 de outubro de 2003
RECOMENDAÇÕES DE S. BERNARDO
«Ainda que conhecesses todos os mistérios, toda a vastidão da terra, toda a altura do céu e a profundidade do mar, se te ignorasses a ti mesmo, serias como aquele que constrói sem alicerces e prepara não um edifício, mas uma ruína. Tudo o que construíres a teu lado não será senão um monte de poeira que o vento dispersa. (...). O sábio será sábio em relação a si e será o primeiro a beber a água do seu poço.»
(via Abrupto)
«Ainda que conhecesses todos os mistérios, toda a vastidão da terra, toda a altura do céu e a profundidade do mar, se te ignorasses a ti mesmo, serias como aquele que constrói sem alicerces e prepara não um edifício, mas uma ruína. Tudo o que construíres a teu lado não será senão um monte de poeira que o vento dispersa. (...). O sábio será sábio em relação a si e será o primeiro a beber a água do seu poço.»
(via Abrupto)
sexta-feira, 17 de outubro de 2003
Não durmais já, não durmais
Todos os que militais
debaixo desta bandeira,
não durmais já, não durmais,
pois que não há paz na terra.
E como capitão forte
o nosso Deus quis morrer,
sigamo-lo sem nos deter,
pois nós lhe demos a morte.
Oh que venturosa sorte
teve ele após esta guerra!
Não durmais já, não durmais,
porque Deus falta na terra.
Com grande contentamento
se oferece a morrer na cruz,
para a todos nos dar luz
com seu grande sofrimento.
Oh glorioso vencimento!
Oh que ditosa esta guerra!
Não durmais já, não durmais,
porque deus falta na terra.
Aventuremos a vida!
Não há quem melhor a guarde
que quem a deu por perdida.
Pois é Jesus nosso guia,
sendo o prémio desta guerra.
Não durmais já, não durmais
porque não há paz na terra.
Ofereçamo-nos inteiras,
a morrer por Cristo todas,
para nas celestiais bodas
nós estarmos prazenteiras.
Sigamos esta bandeira,
pois Cristo vai na dianteira.
Nada a temer, não durmais,
pois que não há paz na terra.
Santa Teresa de Ávila
(no Intrusos)
Todos os que militais
debaixo desta bandeira,
não durmais já, não durmais,
pois que não há paz na terra.
E como capitão forte
o nosso Deus quis morrer,
sigamo-lo sem nos deter,
pois nós lhe demos a morte.
Oh que venturosa sorte
teve ele após esta guerra!
Não durmais já, não durmais,
porque Deus falta na terra.
Com grande contentamento
se oferece a morrer na cruz,
para a todos nos dar luz
com seu grande sofrimento.
Oh glorioso vencimento!
Oh que ditosa esta guerra!
Não durmais já, não durmais,
porque deus falta na terra.
Aventuremos a vida!
Não há quem melhor a guarde
que quem a deu por perdida.
Pois é Jesus nosso guia,
sendo o prémio desta guerra.
Não durmais já, não durmais
porque não há paz na terra.
Ofereçamo-nos inteiras,
a morrer por Cristo todas,
para nas celestiais bodas
nós estarmos prazenteiras.
Sigamos esta bandeira,
pois Cristo vai na dianteira.
Nada a temer, não durmais,
pois que não há paz na terra.
Santa Teresa de Ávila
(no Intrusos)
segunda-feira, 13 de outubro de 2003
Le principe de lucidité
"« LE FEU SACRÉ », DE RÉGIS DEBRAY
Le principe de lucidité
Par MICHEL COOL
Rédacteur en chef de Témoignage chrétien.
Dans l’inventaire que Régis Debray dresse des valeurs supposées démodées de notre modernité, le fait religieux succède à Dieu, héros de son précédent ouvrage (1). Dans cet essai (2), on retrouve son verbe érudit et ciselé pour tordre le cou à certains poncifs sur le fait religieux, objet de ressentiments souvent injustes et injustifiés.
Première cible du président du tout nouvel Institut européen en sciences des religions, la présomption laïque de la France. Non contente d’avoir été « la fille aînée » de l’Eglise catholique, « elle se prend parfois pour la fille aînée de la laïcité. Ce droit d’aînesse reviendrait plutôt au Mexique, où la Séparation fut inscrite dans la Constitution par Benito Juarez, bien avant [1860]. » Raison de plus, insiste l’auteur, pour être modeste et ne pas confondre la « piété républicaine », dont il reste lui-même imprégné, avec « un combat antireligieux que la laïcité n’est aucunement ».
Régis Debray remet ainsi plusieurs pendules à l’heure. Non, les religions ne sont ni plus bellicistes qu’hier ni plus criminelles de guerre que ne le prétendent leurs procureurs amnésiques des crimes commis au XXe siècle au nom d’idéologies athées : « A Athènes comme à Rome, la guerre était déjà une entreprise religieuse. (...) L’imbrication du divin et du sanglant ne date pas d’hier. (...) Ce sont les hommes qui font la guerre des dieux. » Quant à l’islam, qui fait rugir les nouveaux dévots d’une laïcité radicale, son extrême pluralité culturelle et spirituelle devrait amener à plus de discernement.
En bon horloger soucieux que les aiguilles tournent dans le bon sens, l’auteur appelle son lecteur à être enfin à l’heure à l’école du fait religieux. A s’émanciper de la « censure faraude et suicidaire », cause de l’inculture religieuse depuis plusieurs générations. Or, pour lire un journal, comprendre le monde ou se comprendre soi-même, le fait religieux demeure un gué indispensable.
Le principe de lucidité gouverne chaque page de ce livre. Il offre, en outre, une sélection de photographies et de citations qui illustrent fort à propos l’extraordinaire fécondité du religieux dans notre histoire. Debray ne cache pas son admiration pour le « chef-d’oeuvre idéologique » que représente à ses yeux l’Eglise catholique romaine. Mieux que tout autre système de croyance et de gouvernement, elle a su résister aux assauts des époques, des modes et des révolutions. Elle accrédite la maxime de Goethe selon laquelle « le génie est de durer ». Fût-ce au prix de l’immobilisme, du conservatisme et du statu quo institutionnel qu’incarne Jean Paul II, qui, sur ce point, contredit la volonté rénovatrice du concile Vatican II.
Quitte à en déconcerter plus d’un, Régis Debray trouve des circonstances atténuantes à cette théocratie immuable : elle eut, selon lui, le mérite d’inventer, dès la fin du Ve siècle, des « îlots de démocratie représentative » : les monastères bénédictins.
A sa façon, ce livre est un plaidoyer pour que la France, mais aussi l’Europe, n’enterrent pas leurs racines religieuses. Leur « feu sacré » n’est pas superflu, pense Debray, pour regonfler les voiles humanistes d’un continent tenté de n’être plus qu’une zone économique."
"« LE FEU SACRÉ », DE RÉGIS DEBRAY
Le principe de lucidité
Par MICHEL COOL
Rédacteur en chef de Témoignage chrétien.
Dans l’inventaire que Régis Debray dresse des valeurs supposées démodées de notre modernité, le fait religieux succède à Dieu, héros de son précédent ouvrage (1). Dans cet essai (2), on retrouve son verbe érudit et ciselé pour tordre le cou à certains poncifs sur le fait religieux, objet de ressentiments souvent injustes et injustifiés.
Première cible du président du tout nouvel Institut européen en sciences des religions, la présomption laïque de la France. Non contente d’avoir été « la fille aînée » de l’Eglise catholique, « elle se prend parfois pour la fille aînée de la laïcité. Ce droit d’aînesse reviendrait plutôt au Mexique, où la Séparation fut inscrite dans la Constitution par Benito Juarez, bien avant [1860]. » Raison de plus, insiste l’auteur, pour être modeste et ne pas confondre la « piété républicaine », dont il reste lui-même imprégné, avec « un combat antireligieux que la laïcité n’est aucunement ».
Régis Debray remet ainsi plusieurs pendules à l’heure. Non, les religions ne sont ni plus bellicistes qu’hier ni plus criminelles de guerre que ne le prétendent leurs procureurs amnésiques des crimes commis au XXe siècle au nom d’idéologies athées : « A Athènes comme à Rome, la guerre était déjà une entreprise religieuse. (...) L’imbrication du divin et du sanglant ne date pas d’hier. (...) Ce sont les hommes qui font la guerre des dieux. » Quant à l’islam, qui fait rugir les nouveaux dévots d’une laïcité radicale, son extrême pluralité culturelle et spirituelle devrait amener à plus de discernement.
En bon horloger soucieux que les aiguilles tournent dans le bon sens, l’auteur appelle son lecteur à être enfin à l’heure à l’école du fait religieux. A s’émanciper de la « censure faraude et suicidaire », cause de l’inculture religieuse depuis plusieurs générations. Or, pour lire un journal, comprendre le monde ou se comprendre soi-même, le fait religieux demeure un gué indispensable.
Le principe de lucidité gouverne chaque page de ce livre. Il offre, en outre, une sélection de photographies et de citations qui illustrent fort à propos l’extraordinaire fécondité du religieux dans notre histoire. Debray ne cache pas son admiration pour le « chef-d’oeuvre idéologique » que représente à ses yeux l’Eglise catholique romaine. Mieux que tout autre système de croyance et de gouvernement, elle a su résister aux assauts des époques, des modes et des révolutions. Elle accrédite la maxime de Goethe selon laquelle « le génie est de durer ». Fût-ce au prix de l’immobilisme, du conservatisme et du statu quo institutionnel qu’incarne Jean Paul II, qui, sur ce point, contredit la volonté rénovatrice du concile Vatican II.
Quitte à en déconcerter plus d’un, Régis Debray trouve des circonstances atténuantes à cette théocratie immuable : elle eut, selon lui, le mérite d’inventer, dès la fin du Ve siècle, des « îlots de démocratie représentative » : les monastères bénédictins.
A sa façon, ce livre est un plaidoyer pour que la France, mais aussi l’Europe, n’enterrent pas leurs racines religieuses. Leur « feu sacré » n’est pas superflu, pense Debray, pour regonfler les voiles humanistes d’un continent tenté de n’être plus qu’une zone économique."
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