FAITH ONLINE
A new national survey by the Pew Internet & American Life Project finds that nearly two-thirds of online Americans use the Internet for faith-related reasons. The 64% of Internet users who perform spiritual and religious activities online represent nearly 82 million Americans. Those who use the Internet for religious or spiritual purposes are more likely to be women, white, middle aged, college educated, and relatively well-to-do. In addition, they are somewhat more active as Internet users than the rest of the Internet population."There has been much speculation about the impact of the Internet on religion, particularly as increasing numbers of Americans have been turning to sources other than their own traditions and clergy," said Prof. Stewart Hoover of the University of Colorado at Boulder, the lead author of the Pew Internet Project report. "The survey provides clear evidence that the majority of the online faithful are there for personal spiritual reasons, including seeking outside their own traditions," Hoover added, "but they are also deeply grounded in those traditions, and this Internet activity supplements their ties to traditional institutions, rather than moving them away from church." The survey found that two-thirds of those who attend religious services weekly use the Internet for personal religious or spiritual purposes.
quinta-feira, 8 de abril de 2004
quarta-feira, 31 de março de 2004
Parece mentira
Gabriel Perissé (*)
In Observatório da Imprensa, 30.3.2004
É célebre o paradoxo do mentiroso: Epimênides, sacerdote de Apolo, cretense que viveu no século VI a.C., disse de seus compatriotas: "Os cretenses mentem o tempo todo". Ora, se Epimênides é mais um cretense que vive dizendo mentiras... nem todos os cretenses serão mentirosos. Ou, talvez, Epimênides seja o único cretense capaz de dizer verdades, e a verdade, então, é que todos os cretenses são sempre mentirosos, exceto Epimênides.
A verdade mesmo é que ninguém consegue ser mentiroso 24 horas por dia. Mentir um dia cansa, e possivelmente o próprio Epimênides, mentiroso renitente, fez uma pausa e, sendo profeta, disse essa verdade, citada por Paulo em sua epístola a Tito, que ficara em Creta para difundir o cristianismo: "Dixit quidam ex illis, proprius ipsorum propheta: ‘Cretenses semper mendaces’."
Mas se mentir o tempo todo é impossível, dizer sempre a verdade não é nada fácil. A verdade, afirmou Platão, "é que a verdade é um alvo em que poucos acertam".
"O que é a verdade?" – perguntou o procurador romano Pôncio Pilatos a um judeu inocente, prestes a morrer de asfixia numa cruz: Quid est veritas? – Pergunta que não merecia resposta...
Mas houve uma resposta, silenciosa como tantas verdades verdadeiras. Por trás das mesmas quatorze letras da frase acima, o texto bíblico em latim deixou implícita, num anagrama, a frase demolidora: Est vir qui adest, ou seja: é o homem que está na tua presença, ele é a verdade.
A verdade é o ser humano, é a pessoa humana em sua radical presença. Nisto se assenta uma possível ética da comunicação. Somos pessoas, e nossa verdade como pessoas é critério para avaliar o que falamos/escrevemos, o que lemos/ouvimos.
Perdemos personalidade quando mentimos, ou quando acreditamos na mentira sabendo que de mentira se trata.
Perdemos liberdade quando mentimos, ou quando dizemos que tudo é verdade, mentira deslavada.
Perdemos tempo quando mentimos, ou quando fingimos não ter entendido a verdade, exclamando em tom de falsa surpresa: "Parece mentira!".
Perdemos amigos quando mentimos, ou (para alguns algo muito pior) perdemos clientes.
Perdemos leitores (e até eleitores) quando mentimos, ou quando aceitamos que mintam em nosso nome, ou, ainda, quando ficamos indiferentes — tanto faz, tanto fez, me deixem em paz.
Toda mentira supõe saber ou ter uma idéia da verdade. A verdade, sombra luminosa que acompanha a mentira, faz dela a notícia que amanhã esquecerei.
(*) Doutor em Educação pela USP e escritor
Gabriel Perissé (*)
In Observatório da Imprensa, 30.3.2004
É célebre o paradoxo do mentiroso: Epimênides, sacerdote de Apolo, cretense que viveu no século VI a.C., disse de seus compatriotas: "Os cretenses mentem o tempo todo". Ora, se Epimênides é mais um cretense que vive dizendo mentiras... nem todos os cretenses serão mentirosos. Ou, talvez, Epimênides seja o único cretense capaz de dizer verdades, e a verdade, então, é que todos os cretenses são sempre mentirosos, exceto Epimênides.
A verdade mesmo é que ninguém consegue ser mentiroso 24 horas por dia. Mentir um dia cansa, e possivelmente o próprio Epimênides, mentiroso renitente, fez uma pausa e, sendo profeta, disse essa verdade, citada por Paulo em sua epístola a Tito, que ficara em Creta para difundir o cristianismo: "Dixit quidam ex illis, proprius ipsorum propheta: ‘Cretenses semper mendaces’."
Mas se mentir o tempo todo é impossível, dizer sempre a verdade não é nada fácil. A verdade, afirmou Platão, "é que a verdade é um alvo em que poucos acertam".
"O que é a verdade?" – perguntou o procurador romano Pôncio Pilatos a um judeu inocente, prestes a morrer de asfixia numa cruz: Quid est veritas? – Pergunta que não merecia resposta...
Mas houve uma resposta, silenciosa como tantas verdades verdadeiras. Por trás das mesmas quatorze letras da frase acima, o texto bíblico em latim deixou implícita, num anagrama, a frase demolidora: Est vir qui adest, ou seja: é o homem que está na tua presença, ele é a verdade.
A verdade é o ser humano, é a pessoa humana em sua radical presença. Nisto se assenta uma possível ética da comunicação. Somos pessoas, e nossa verdade como pessoas é critério para avaliar o que falamos/escrevemos, o que lemos/ouvimos.
Perdemos personalidade quando mentimos, ou quando acreditamos na mentira sabendo que de mentira se trata.
Perdemos liberdade quando mentimos, ou quando dizemos que tudo é verdade, mentira deslavada.
Perdemos tempo quando mentimos, ou quando fingimos não ter entendido a verdade, exclamando em tom de falsa surpresa: "Parece mentira!".
Perdemos amigos quando mentimos, ou (para alguns algo muito pior) perdemos clientes.
Perdemos leitores (e até eleitores) quando mentimos, ou quando aceitamos que mintam em nosso nome, ou, ainda, quando ficamos indiferentes — tanto faz, tanto fez, me deixem em paz.
Toda mentira supõe saber ou ter uma idéia da verdade. A verdade, sombra luminosa que acompanha a mentira, faz dela a notícia que amanhã esquecerei.
(*) Doutor em Educação pela USP e escritor
sábado, 13 de março de 2004
UM OUTRO OLHAR
SOBRE AS DESIGUALDADES E A EXCLUSÃO SOCIAL
UM OUTRO COMPROMISSO
COM UM MUNDO MAIS JUSTO E SOLIDÁRIO
1. Nesta Quaresma de 2004, a CNJP vem dirigir-se aos cristãos, suas comunidades, organizações e movimentos, com um objectivo: convidar a uma paragem, a fim de, com verdade e abertura de coração, reflectirmos sobre a sociedade a que pertencemos, os seus problemas e opções, o seu presente e o seu futuro, à luz dos critérios evangélicos e da doutrina social da Igreja católica. Com o objectivo de provocar essa reflexão partilhamos convosco os tópicos seguintes.
2. Vemos com grande preocupação que se tenha instalado entre os nossos concidadãos e concidadãs uma certa apatia e um aparente conformismo perante situações de desigualdade e de exclusão social crescentes, no nosso país e no mundo. Trata-se de realidades verdadeiramente clamorosas, mormente quando se tem presente que a Humanidade atingiu já níveis de produção tão elevados, que permitiriam assegurar a todas as famílias do mundo mínimos de subsistência. O simples facto de tal não ser verdade – e de o não ser a uma escala tão gigantesca – é razão bastante para não nos conformámos com o mundo em que vivemos, com o estilo de vida que levamos, o qual permite reproduzir esse mesmo estado de coisas.
3. É inaceitável que o progresso económico que o nosso país alcançou nos últimos 30 anos e as ajudas comunitárias entretanto recebidas não se tenham traduzido numa redução substancial da pobreza, designadamente nas suas expressões mais severas, de falta de alimento e de habitação condigna, de dificuldades no acesso à educação e à saúde, de insuficiência de recursos bastantes para garantir uma vida digna, segundo os padrões correntes na nossa sociedade. Cerca de 1/5 dos nossos concidadãos conhecem a pobreza com maior ou menor severidade, e uma parte deles nunca teve situação diferente, porque a pobreza se tornou hereditária e esteve sempre presente nas suas vidas.
4. É preocupante que o desemprego tenha aumentado consideravelmente nos últimos anos e afecte, hoje, mais de 400 mil pessoas, das quais boa parte sem quaisquer perspectivas realistas de vir a encontrar um novo emprego, a curto ou médio prazo.
5. Para as pessoas empregadas, a duração e as exigências do trabalho intensificaram-se e absorvem hoje uma parcela cada vez maior do tempo pessoal, gerando situações stressantes e efeitos colaterais sérios na vida familiar, no relacionamento humano e na saúde das próprias pessoas. O recurso sistemático ao trabalho extraordinário, muitas vezes com desrespeito das normas legais vigentes e dos preceitos internacionais, é uma prática com que a sociedade e os governos não deveriam pactuar, nem sequer por omissão, designadamente em tempo de desemprego avultado, como presentemente sucede.
6. É intolerável que os níveis de remuneração média dos trabalhadores e o salário mínimo permaneçam consideravelmente abaixo dos valores médios que se verificam nos outros países da União Europeia, em contraste com remunerações escandalosamente altas de gestores e de outros profissionais, como ainda recentemente foi noticiado pela imprensa.
Mais grave ainda é o facto de que os níveis de salário mínimo e pensão mínima sejam fixados em valores que, reconhecidamente, ficam, no caso do primeiro, muito próximo do limiar de pobreza e, no caso da segunda, abaixo desse limiar. Ou seja, são estabelecidos com a certeza antecipada de que as pessoas que os têm como única fonte de rendimento não poderão assegurar uma subsistência digna. Idêntico raciocínio se poderá fazer quanto ao rendimento mínimo. Em situação particularmente gravosa ficam as pessoas naquelas condições que têm de fazer face a despesas com saúde avultadas, em virtude de padecerem de doença crónica, serem portadoras de deficiência ou simplesmente em razão da sua idade, já que as comparticipações dos fundos públicos vêm sendo progressivamente reduzidas.
7. Por outro lado, os padrões de qualidade dos serviços públicos de educação, de saúde e, de modo geral, dos demais bens públicos, longe de revelarem desejáveis melhorias, parecem regredir, provocando efeitos particularmente negativos para as pessoas de menores rendimentos. O argumento da falta de recursos do Estado não deve ser aceite acriticamente, antes deverá levar a que se questione as prioridades que estão subjacentes nos critérios dos decisores políticos. Merecem particular reparo os investimentos públicos que têm sido feitos em obras faraónicas e projectos de utilidade social duvidosa, beneficiando apenas determinados sectores da população.
8. O processo de privatização em curso, nomeadamente no que toca a bens públicos básicos, designadamente a água, os correios ou os transportes urbanos, para não falar da saúde e da educação, poderão configurar cenários de maior desigualdade e cavar o fosso entre ricos e pobres, acabando por mercantilizar direitos humanos e sociais básicos.
9. E que pensar do que está a ocorrer com o parque habitacional que aumentou consideravelmente em número de fogos disponíveis e qualidade da construção, mas não está ao alcance de uma parte significativa da população, que continua, designadamente nas grandes cidades, em situação de habitação precária, quando não atirada para bairros periféricos de habitat degradado? Sabe-se que é elevado o número de casas desocupadas, que funcionam para os seus proprietários apenas como capital expectante, sem qualquer uso social. Há indícios de que a compra de casas luxuosas em alguns casos está associada à lavagem de dinheiro e à corrupção. Por outro lado, é manifesto o défice de habitação social e as dificuldades com que deparam as pessoas de baixos recursos para terem acesso a uma casa condigna compatível com as suas posses. Estas realidades impõem-se à nossa reflexão.
10. Muitos milhares de imigrantes têm procurado no nosso país condições de trabalho e de vida que, por variadas razões, não conseguem lograr nos seus países de origem. Sem o seu contributo, Portugal não teria conhecido os níveis de crescimento económico que alcançou no passado recente. Contudo, muitas vezes, esses trabalhadores estrangeiros não são respeitados na sua dignidade e nos seus direitos; não encontram condições mínimas de habitação; e deparam mesmo com algumas resistências na sua integração nas nossas comunidades.
11. Em todos os quadrantes políticos, reconhece-se que os investimentos em educação e em saúde e de modo geral nos vários domínios da qualidade de vida são de primordial importância para o nosso país, pela dupla razão de que vêm ao encontro de um direito de cidadania e deste modo reforçam a coesão social e porque vêm preencher um requisito básico do desenvolvimento da qualidade dos recursos humanos, condição indispensável à viabilização de uma sociedade de informação e do conhecimento de que tanto se espera. Não é, pois, aceitável que, nestas áreas fundamentais, não estejam asseguradas condições de igualdade de oportunidades de acesso e de sucesso, correndo riscos de desigualdades e exclusões agravadas no futuro.
12. Se alargarmos o nosso horizonte de reflexão a outros espaços geográficos, como é cada vez mais imperioso fazer por razões éticas e por vivermos em tempo de mundialização, não podemos ignorar a extensão e a intensidade dramáticas da pobreza que grassa em vastas regiões de outros continentes, com destaque para a África, a Ásia, a América Central e alguns países do continente latino-americano. À pobreza extrema de uma grande parte da população que vive nessas regiões, acrescem doenças evitáveis, o analfabetismo, a corrupção dos dirigentes e as guerras. São disfunções em grande parte produzidas pelo modelo económico vigente e a hegemonia das grandes potências no domínio das relações comerciais – sistemas proteccionistas nos países do Centro, imposição de preços baixos às matérias-primas oriundas dos países em desenvolvimento, apertadas regras de dependência tecnológica e assistência técnica, regime de patentes, asfixia financeira devida a encargos com a dívida externa.
Como encaramos estes problemas? Reconhecemos aí a nossa quota parte de responsabilidade? Pelas nossas posturas ideológicas e políticas? Pelas nossas actuações, enquanto investigadores, técnicos ou parceiros comerciais, com impacto nas relações com esses países? Pelo nosso não envolvimento ou desinteresse em organizações da sociedade civil mais atentas a estas problemáticas? Pelas nossas atitudes e comportamentos quotidianos, de um consumo irresponsável, de esbanjamento de recursos, de falta de solidariedade no plano mundial?
LER A REALIDADE SEGUNDO O OLHAR DE JESUS
13. Se fazemos este elenco de situações que tanto nos magoam – ou deviam magoar – não é para as colocar, uma vez mais, diante dos nossos olhos, como se de um ecrã de cinema se tratasse, como se fosse uma mera imagem exterior que não dissesse respeito aos nossos horizontes de preocupação, excepto quando nos toca sermos nós próprios/as as vítimas.
Fazemo-lo por três razões.
14. Em primeiro lugar, porque reconhecemos que existe na população portuguesa uma fraca sensibilização à pobreza e à desigualdade, não as considerando como males sociais, isto é, produzidos pela própria sociedade e prejudiciais para a mesma. Tanto a grande desigualdade como a pobreza e a exclusão social são realidades ainda toleradas por parte de muitos dos nossos concidadãos e concidadãs; diríamos que, para muitos, são fenómenos aceites com demasiada complacência e resignação, no pressuposto da sua inevitabilidade, uma espécie de marca do destino, quando não a consequência de alguma culpabilidade dos próprios pobres.
Há países europeus em que o grau de aversão e recusa da grande desigualdade e da pobreza e exclusão social é bem superior ao nosso. Já faz parte da consciência dos cidadãos desses países a certeza de que a exclusão social e em menor escala a grande desigualdade de riqueza, rendimento ou de oportunidades, além de serem condenáveis por razões éticas e/ou cívicas, constituem factores que põem em risco a própria democracia, a coesão social e a paz.
Nestes países, os cidadãos estão dispostos a pagar mais impostos e outras contribuições para prevenir ou corrigir a exclusão e em geral para viabilizar o cumprimento dos direitos de cidadania. São países em que os leques salariais e de remunerações têm menor amplitude e aceitam-se políticas redistributivas mais claras e eficientes.
Sentimos que, também entre nós, é necessário fomentar uma consciência mais esclarecida a este respeito. Cremos que é tempo de insistir junto dos nossos concidadãos e dos cristãos em particular sobre a necessidade de um outro modo de olhar as situações de empobrecimento nas suas múltiplas vertentes e da grande desigualdade que se instalou nas nossas sociedades, de compreender os mecanismos económicos, financeiros e políticos, que as produzem e alimentam, de tomar consciência de como tais situações comprometem a coesão social e constituem uma ameaça à paz.
15. A segunda razão que nos move a incentivar esta reflexão é o facto de constatarmos que em certos meios políticos e na comunicação social, frequentemente se veiculam ideias preconceituosas relativamente aos modelos económicos vigentes, designadamente no que se refere à sua inevitabilidade, e suporte teórico, daí retirando legitimação para certas políticas e práticas de gestão. Por exemplo, é frequente o argumento da necessidade de controlo orçamental (o que, em si mesmo, ninguém contesta) para justificar medidas de restrição da despesa pública, o que já não pode ser aceite sem ponderação dos seus efeitos sobre a extensão e a qualidade dos serviços públicos prestados (educação, saúde, investigação, habitação social, acção social, etc.) ou as reduções drásticas de remunerações e regalias dos funcionários públicos sem negociação com os interessados e sem contrapartidas. De resto, a despesa é apenas um dos factores de ajustamento; este consegue-se também através da recuperação de receitas fiscais devidas, através de medidas eficazes de combate à fraude e à evasão fiscais e, em geral, com o aperfeiçoamento de uma política tributária mais equitativa e eficiente.
No que se refere às empresas, preocupa-nos que, com frequência, fiquem por sancionar práticas de gestão danosa, por vezes, a par de elevados proveitos dos seus gestores, e, em particular, o encerramento das mesmas, à revelia da participação dos respectivos trabalhadores que são atirados para despedimentos colectivos, os quais tantas vezes põem em risco as economias locais dependentes da empresa que encerra a sua actividade somente para ir procurar em outras paragens lucros mais vultuosos.
16. A terceira razão que nos move nesta reflexão é o reconhecimento de que os cristãos pouco confrontam as suas atitudes e comportamentos na sociedade (trabalho, negócios, ensino e investigação, participação cívica e política) com as exigências que decorrem da sua fé em Jesus Cristo. Sucede, assim, que os valores humanos e cristãos interferem pouco ou nada nas suas respectivas práticas de vida. Ora, há cristãos em todos os sectores da vida económica, social e política – gestores e quadros técnicos de empresa, banqueiros, educadores e professores, políticos, deputados, governantes, juízes, detentores de cargos públicos – sem que se observem sinais que testemunhem as suas referências cristãs.
Por outro lado, temos de reconhecer que, em muitas das nossas comunidades e assembleias, paira uma muralha de silêncio sobre estas problemáticas e são muito ténues as interpelações dirigidas ao compromisso dos cristãos com os valores evangélicos quando está em causa a sua aplicação na transformação das sociedades a que pertencem, em ordem à construção da justiça e da paz.
17. Em que pensaria Jesus quando, dirigindo-se aos seus discípulos, lhes dizia: vós sois a luz do mundo, vós sois o sal da terra, vós sois o fermento que uma mulher junta à massa para a levedar?
Que nos quer dizer a nós, mulheres e homens do começo deste século XXI, a nós que vivemos em Portugal, um país membro da União Europeia, uma das grandes potências económicas do Mundo?
Certamente quer encorajar-nos a não nos deixarmos conformar com as situações de injustiça e com os mecanismos que lhes estão subjacentes, que contradizem os critérios e valores do Evangelho e o paradigma do reino de Deus que a todos nós cristãos cabe anunciar.
18. Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é estar na primeira linha de quem defende e promove direitos fundamentais:
§ a dignidade e o valor de toda a pessoa humana, de cada mulher e de cada homem, da criança, do jovem, do adulto ou da pessoa idosa;
§ o direito de cada pessoa encontrar na sociedade a que pertence condições para uma vida digna, nomeadamente o direito ao trabalho com garantias e sua justa remuneração, mas também o acesso a uma habitação condigna, à saúde, à educação, à segurança;
§ o direito à liberdade de palavra e de expressão, de deslocação, de associação e de participação cívica e política, tanto no próprio país como à escala mundial.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é, para além disto, escolher estar do lado dos empobrecidos e dos mais fracos (opção preferencial pelos pobres, como lembra o Concílio Vaticano II), compartilhar as suas dificuldades e ir em sua ajuda, empenhando-se em remover as causas estruturais da pobreza nas suas múltiplas vertentes.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é defender o princípio fundamental do destino universal dos bens da terra e consequentemente procurar com todo o empenho que aqueles se destinem prioritariamente à subsistência e melhoria de condições de vida para todos e não em benefício exclusivo de alguns.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é reconhecer que a propriedade privada ou a livre concorrência não são valores absolutos, mas antes instrumentos ao serviço da produção e da eficiência da economia.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é não pactuar com estruturas injustas, denunciando-as e promovendo as soluções alternativas e inovadoras que estiverem ao seu alcance; ou refutando os argumentos da inevitabilidade de certas práticas, contrapondo-lhes soluções paradigmáticas de maior justiça na organização da economia e da sociedade, nas empresas como na administração pública e adoptando atitudes e comportamentos pessoais de consumo, de produção, de troca, de gestão que sejam coerentes com os valores evangélicos.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é ser capaz de enquadrar os critérios mundanos da competitividade, da eficácia e da eficiência pelo referencial primeiro do Amor, o sinal pelo qual serão reconhecidos os discípulos de Cristo.
19. Estamos conscientes de que o “outro olhar” a que fazemos apelo não é alcançável sem uma reflexão séria e profunda, em clima interior de abertura ao Espírito de Jesus Cristo morto e ressuscitado. Sugerimos, por isso, que esta temática, cuja importância para o modo de ser cristão hoje, esteja presente, quer na oração pessoal de cada cristão, quer em iniciativas comunitárias neste tempo privilegiado da Quaresma. Cada cristão e cada comunidade saberá escolher as formas concretas que melhor se adequarem a cada caso.
20. É certo que, ao contrário daquilo que muitas vezes aceitamos com fácil comodismo, podemos sempre fazer algo para mudar este estado de coisas. Bastaria que, numa sociedade em que a maioria das pessoas se reconhece como cristã, vivêssemos mais de acordo com os critérios Evangélicos para que os problemas colectivos que enfrentamos encontrassem resposta. Se o nosso coração se alegrasse mais e desse mais valor aquela pessoa que conseguiu romper com a sua situação de pobreza e exclusão do que à ostentação do sucesso daquele que já muito tem, fomentaríamos um “outro olhar”, outros valores e outras atitudes na nossa sociedade. A Esperança no Cristo ressuscitado do Domingo de Páscoa desafia constantemente as nossas certezas condescendentes sobre um “mundo-que-não-podemos-mudar”.
Quaresma de 2004
Comissao Nacional Justiça e Paz
SOBRE AS DESIGUALDADES E A EXCLUSÃO SOCIAL
UM OUTRO COMPROMISSO
COM UM MUNDO MAIS JUSTO E SOLIDÁRIO
1. Nesta Quaresma de 2004, a CNJP vem dirigir-se aos cristãos, suas comunidades, organizações e movimentos, com um objectivo: convidar a uma paragem, a fim de, com verdade e abertura de coração, reflectirmos sobre a sociedade a que pertencemos, os seus problemas e opções, o seu presente e o seu futuro, à luz dos critérios evangélicos e da doutrina social da Igreja católica. Com o objectivo de provocar essa reflexão partilhamos convosco os tópicos seguintes.
2. Vemos com grande preocupação que se tenha instalado entre os nossos concidadãos e concidadãs uma certa apatia e um aparente conformismo perante situações de desigualdade e de exclusão social crescentes, no nosso país e no mundo. Trata-se de realidades verdadeiramente clamorosas, mormente quando se tem presente que a Humanidade atingiu já níveis de produção tão elevados, que permitiriam assegurar a todas as famílias do mundo mínimos de subsistência. O simples facto de tal não ser verdade – e de o não ser a uma escala tão gigantesca – é razão bastante para não nos conformámos com o mundo em que vivemos, com o estilo de vida que levamos, o qual permite reproduzir esse mesmo estado de coisas.
3. É inaceitável que o progresso económico que o nosso país alcançou nos últimos 30 anos e as ajudas comunitárias entretanto recebidas não se tenham traduzido numa redução substancial da pobreza, designadamente nas suas expressões mais severas, de falta de alimento e de habitação condigna, de dificuldades no acesso à educação e à saúde, de insuficiência de recursos bastantes para garantir uma vida digna, segundo os padrões correntes na nossa sociedade. Cerca de 1/5 dos nossos concidadãos conhecem a pobreza com maior ou menor severidade, e uma parte deles nunca teve situação diferente, porque a pobreza se tornou hereditária e esteve sempre presente nas suas vidas.
4. É preocupante que o desemprego tenha aumentado consideravelmente nos últimos anos e afecte, hoje, mais de 400 mil pessoas, das quais boa parte sem quaisquer perspectivas realistas de vir a encontrar um novo emprego, a curto ou médio prazo.
5. Para as pessoas empregadas, a duração e as exigências do trabalho intensificaram-se e absorvem hoje uma parcela cada vez maior do tempo pessoal, gerando situações stressantes e efeitos colaterais sérios na vida familiar, no relacionamento humano e na saúde das próprias pessoas. O recurso sistemático ao trabalho extraordinário, muitas vezes com desrespeito das normas legais vigentes e dos preceitos internacionais, é uma prática com que a sociedade e os governos não deveriam pactuar, nem sequer por omissão, designadamente em tempo de desemprego avultado, como presentemente sucede.
6. É intolerável que os níveis de remuneração média dos trabalhadores e o salário mínimo permaneçam consideravelmente abaixo dos valores médios que se verificam nos outros países da União Europeia, em contraste com remunerações escandalosamente altas de gestores e de outros profissionais, como ainda recentemente foi noticiado pela imprensa.
Mais grave ainda é o facto de que os níveis de salário mínimo e pensão mínima sejam fixados em valores que, reconhecidamente, ficam, no caso do primeiro, muito próximo do limiar de pobreza e, no caso da segunda, abaixo desse limiar. Ou seja, são estabelecidos com a certeza antecipada de que as pessoas que os têm como única fonte de rendimento não poderão assegurar uma subsistência digna. Idêntico raciocínio se poderá fazer quanto ao rendimento mínimo. Em situação particularmente gravosa ficam as pessoas naquelas condições que têm de fazer face a despesas com saúde avultadas, em virtude de padecerem de doença crónica, serem portadoras de deficiência ou simplesmente em razão da sua idade, já que as comparticipações dos fundos públicos vêm sendo progressivamente reduzidas.
7. Por outro lado, os padrões de qualidade dos serviços públicos de educação, de saúde e, de modo geral, dos demais bens públicos, longe de revelarem desejáveis melhorias, parecem regredir, provocando efeitos particularmente negativos para as pessoas de menores rendimentos. O argumento da falta de recursos do Estado não deve ser aceite acriticamente, antes deverá levar a que se questione as prioridades que estão subjacentes nos critérios dos decisores políticos. Merecem particular reparo os investimentos públicos que têm sido feitos em obras faraónicas e projectos de utilidade social duvidosa, beneficiando apenas determinados sectores da população.
8. O processo de privatização em curso, nomeadamente no que toca a bens públicos básicos, designadamente a água, os correios ou os transportes urbanos, para não falar da saúde e da educação, poderão configurar cenários de maior desigualdade e cavar o fosso entre ricos e pobres, acabando por mercantilizar direitos humanos e sociais básicos.
9. E que pensar do que está a ocorrer com o parque habitacional que aumentou consideravelmente em número de fogos disponíveis e qualidade da construção, mas não está ao alcance de uma parte significativa da população, que continua, designadamente nas grandes cidades, em situação de habitação precária, quando não atirada para bairros periféricos de habitat degradado? Sabe-se que é elevado o número de casas desocupadas, que funcionam para os seus proprietários apenas como capital expectante, sem qualquer uso social. Há indícios de que a compra de casas luxuosas em alguns casos está associada à lavagem de dinheiro e à corrupção. Por outro lado, é manifesto o défice de habitação social e as dificuldades com que deparam as pessoas de baixos recursos para terem acesso a uma casa condigna compatível com as suas posses. Estas realidades impõem-se à nossa reflexão.
10. Muitos milhares de imigrantes têm procurado no nosso país condições de trabalho e de vida que, por variadas razões, não conseguem lograr nos seus países de origem. Sem o seu contributo, Portugal não teria conhecido os níveis de crescimento económico que alcançou no passado recente. Contudo, muitas vezes, esses trabalhadores estrangeiros não são respeitados na sua dignidade e nos seus direitos; não encontram condições mínimas de habitação; e deparam mesmo com algumas resistências na sua integração nas nossas comunidades.
11. Em todos os quadrantes políticos, reconhece-se que os investimentos em educação e em saúde e de modo geral nos vários domínios da qualidade de vida são de primordial importância para o nosso país, pela dupla razão de que vêm ao encontro de um direito de cidadania e deste modo reforçam a coesão social e porque vêm preencher um requisito básico do desenvolvimento da qualidade dos recursos humanos, condição indispensável à viabilização de uma sociedade de informação e do conhecimento de que tanto se espera. Não é, pois, aceitável que, nestas áreas fundamentais, não estejam asseguradas condições de igualdade de oportunidades de acesso e de sucesso, correndo riscos de desigualdades e exclusões agravadas no futuro.
12. Se alargarmos o nosso horizonte de reflexão a outros espaços geográficos, como é cada vez mais imperioso fazer por razões éticas e por vivermos em tempo de mundialização, não podemos ignorar a extensão e a intensidade dramáticas da pobreza que grassa em vastas regiões de outros continentes, com destaque para a África, a Ásia, a América Central e alguns países do continente latino-americano. À pobreza extrema de uma grande parte da população que vive nessas regiões, acrescem doenças evitáveis, o analfabetismo, a corrupção dos dirigentes e as guerras. São disfunções em grande parte produzidas pelo modelo económico vigente e a hegemonia das grandes potências no domínio das relações comerciais – sistemas proteccionistas nos países do Centro, imposição de preços baixos às matérias-primas oriundas dos países em desenvolvimento, apertadas regras de dependência tecnológica e assistência técnica, regime de patentes, asfixia financeira devida a encargos com a dívida externa.
Como encaramos estes problemas? Reconhecemos aí a nossa quota parte de responsabilidade? Pelas nossas posturas ideológicas e políticas? Pelas nossas actuações, enquanto investigadores, técnicos ou parceiros comerciais, com impacto nas relações com esses países? Pelo nosso não envolvimento ou desinteresse em organizações da sociedade civil mais atentas a estas problemáticas? Pelas nossas atitudes e comportamentos quotidianos, de um consumo irresponsável, de esbanjamento de recursos, de falta de solidariedade no plano mundial?
LER A REALIDADE SEGUNDO O OLHAR DE JESUS
13. Se fazemos este elenco de situações que tanto nos magoam – ou deviam magoar – não é para as colocar, uma vez mais, diante dos nossos olhos, como se de um ecrã de cinema se tratasse, como se fosse uma mera imagem exterior que não dissesse respeito aos nossos horizontes de preocupação, excepto quando nos toca sermos nós próprios/as as vítimas.
Fazemo-lo por três razões.
14. Em primeiro lugar, porque reconhecemos que existe na população portuguesa uma fraca sensibilização à pobreza e à desigualdade, não as considerando como males sociais, isto é, produzidos pela própria sociedade e prejudiciais para a mesma. Tanto a grande desigualdade como a pobreza e a exclusão social são realidades ainda toleradas por parte de muitos dos nossos concidadãos e concidadãs; diríamos que, para muitos, são fenómenos aceites com demasiada complacência e resignação, no pressuposto da sua inevitabilidade, uma espécie de marca do destino, quando não a consequência de alguma culpabilidade dos próprios pobres.
Há países europeus em que o grau de aversão e recusa da grande desigualdade e da pobreza e exclusão social é bem superior ao nosso. Já faz parte da consciência dos cidadãos desses países a certeza de que a exclusão social e em menor escala a grande desigualdade de riqueza, rendimento ou de oportunidades, além de serem condenáveis por razões éticas e/ou cívicas, constituem factores que põem em risco a própria democracia, a coesão social e a paz.
Nestes países, os cidadãos estão dispostos a pagar mais impostos e outras contribuições para prevenir ou corrigir a exclusão e em geral para viabilizar o cumprimento dos direitos de cidadania. São países em que os leques salariais e de remunerações têm menor amplitude e aceitam-se políticas redistributivas mais claras e eficientes.
Sentimos que, também entre nós, é necessário fomentar uma consciência mais esclarecida a este respeito. Cremos que é tempo de insistir junto dos nossos concidadãos e dos cristãos em particular sobre a necessidade de um outro modo de olhar as situações de empobrecimento nas suas múltiplas vertentes e da grande desigualdade que se instalou nas nossas sociedades, de compreender os mecanismos económicos, financeiros e políticos, que as produzem e alimentam, de tomar consciência de como tais situações comprometem a coesão social e constituem uma ameaça à paz.
15. A segunda razão que nos move a incentivar esta reflexão é o facto de constatarmos que em certos meios políticos e na comunicação social, frequentemente se veiculam ideias preconceituosas relativamente aos modelos económicos vigentes, designadamente no que se refere à sua inevitabilidade, e suporte teórico, daí retirando legitimação para certas políticas e práticas de gestão. Por exemplo, é frequente o argumento da necessidade de controlo orçamental (o que, em si mesmo, ninguém contesta) para justificar medidas de restrição da despesa pública, o que já não pode ser aceite sem ponderação dos seus efeitos sobre a extensão e a qualidade dos serviços públicos prestados (educação, saúde, investigação, habitação social, acção social, etc.) ou as reduções drásticas de remunerações e regalias dos funcionários públicos sem negociação com os interessados e sem contrapartidas. De resto, a despesa é apenas um dos factores de ajustamento; este consegue-se também através da recuperação de receitas fiscais devidas, através de medidas eficazes de combate à fraude e à evasão fiscais e, em geral, com o aperfeiçoamento de uma política tributária mais equitativa e eficiente.
No que se refere às empresas, preocupa-nos que, com frequência, fiquem por sancionar práticas de gestão danosa, por vezes, a par de elevados proveitos dos seus gestores, e, em particular, o encerramento das mesmas, à revelia da participação dos respectivos trabalhadores que são atirados para despedimentos colectivos, os quais tantas vezes põem em risco as economias locais dependentes da empresa que encerra a sua actividade somente para ir procurar em outras paragens lucros mais vultuosos.
16. A terceira razão que nos move nesta reflexão é o reconhecimento de que os cristãos pouco confrontam as suas atitudes e comportamentos na sociedade (trabalho, negócios, ensino e investigação, participação cívica e política) com as exigências que decorrem da sua fé em Jesus Cristo. Sucede, assim, que os valores humanos e cristãos interferem pouco ou nada nas suas respectivas práticas de vida. Ora, há cristãos em todos os sectores da vida económica, social e política – gestores e quadros técnicos de empresa, banqueiros, educadores e professores, políticos, deputados, governantes, juízes, detentores de cargos públicos – sem que se observem sinais que testemunhem as suas referências cristãs.
Por outro lado, temos de reconhecer que, em muitas das nossas comunidades e assembleias, paira uma muralha de silêncio sobre estas problemáticas e são muito ténues as interpelações dirigidas ao compromisso dos cristãos com os valores evangélicos quando está em causa a sua aplicação na transformação das sociedades a que pertencem, em ordem à construção da justiça e da paz.
17. Em que pensaria Jesus quando, dirigindo-se aos seus discípulos, lhes dizia: vós sois a luz do mundo, vós sois o sal da terra, vós sois o fermento que uma mulher junta à massa para a levedar?
Que nos quer dizer a nós, mulheres e homens do começo deste século XXI, a nós que vivemos em Portugal, um país membro da União Europeia, uma das grandes potências económicas do Mundo?
Certamente quer encorajar-nos a não nos deixarmos conformar com as situações de injustiça e com os mecanismos que lhes estão subjacentes, que contradizem os critérios e valores do Evangelho e o paradigma do reino de Deus que a todos nós cristãos cabe anunciar.
18. Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é estar na primeira linha de quem defende e promove direitos fundamentais:
§ a dignidade e o valor de toda a pessoa humana, de cada mulher e de cada homem, da criança, do jovem, do adulto ou da pessoa idosa;
§ o direito de cada pessoa encontrar na sociedade a que pertence condições para uma vida digna, nomeadamente o direito ao trabalho com garantias e sua justa remuneração, mas também o acesso a uma habitação condigna, à saúde, à educação, à segurança;
§ o direito à liberdade de palavra e de expressão, de deslocação, de associação e de participação cívica e política, tanto no próprio país como à escala mundial.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é, para além disto, escolher estar do lado dos empobrecidos e dos mais fracos (opção preferencial pelos pobres, como lembra o Concílio Vaticano II), compartilhar as suas dificuldades e ir em sua ajuda, empenhando-se em remover as causas estruturais da pobreza nas suas múltiplas vertentes.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é defender o princípio fundamental do destino universal dos bens da terra e consequentemente procurar com todo o empenho que aqueles se destinem prioritariamente à subsistência e melhoria de condições de vida para todos e não em benefício exclusivo de alguns.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é reconhecer que a propriedade privada ou a livre concorrência não são valores absolutos, mas antes instrumentos ao serviço da produção e da eficiência da economia.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é não pactuar com estruturas injustas, denunciando-as e promovendo as soluções alternativas e inovadoras que estiverem ao seu alcance; ou refutando os argumentos da inevitabilidade de certas práticas, contrapondo-lhes soluções paradigmáticas de maior justiça na organização da economia e da sociedade, nas empresas como na administração pública e adoptando atitudes e comportamentos pessoais de consumo, de produção, de troca, de gestão que sejam coerentes com os valores evangélicos.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é ser capaz de enquadrar os critérios mundanos da competitividade, da eficácia e da eficiência pelo referencial primeiro do Amor, o sinal pelo qual serão reconhecidos os discípulos de Cristo.
19. Estamos conscientes de que o “outro olhar” a que fazemos apelo não é alcançável sem uma reflexão séria e profunda, em clima interior de abertura ao Espírito de Jesus Cristo morto e ressuscitado. Sugerimos, por isso, que esta temática, cuja importância para o modo de ser cristão hoje, esteja presente, quer na oração pessoal de cada cristão, quer em iniciativas comunitárias neste tempo privilegiado da Quaresma. Cada cristão e cada comunidade saberá escolher as formas concretas que melhor se adequarem a cada caso.
20. É certo que, ao contrário daquilo que muitas vezes aceitamos com fácil comodismo, podemos sempre fazer algo para mudar este estado de coisas. Bastaria que, numa sociedade em que a maioria das pessoas se reconhece como cristã, vivêssemos mais de acordo com os critérios Evangélicos para que os problemas colectivos que enfrentamos encontrassem resposta. Se o nosso coração se alegrasse mais e desse mais valor aquela pessoa que conseguiu romper com a sua situação de pobreza e exclusão do que à ostentação do sucesso daquele que já muito tem, fomentaríamos um “outro olhar”, outros valores e outras atitudes na nossa sociedade. A Esperança no Cristo ressuscitado do Domingo de Páscoa desafia constantemente as nossas certezas condescendentes sobre um “mundo-que-não-podemos-mudar”.
Quaresma de 2004
Comissao Nacional Justiça e Paz
quarta-feira, 10 de março de 2004
Novidade na "Campo das Letras":
RELIGIÃO: OPRESSÃO OU LIBERTAÇÃO?
de Anselmo Borges
"Qual é, para mim, a vocação deste magnífico livro de Anselmo Borges? Iniciar-nos na arte difícil de ver o que se vê. Ajudar-nos a descobrir, no coração da realidade multifacetada, nos fragmentos da experiência humana, no deslumbramento do mundo, os fios que nos ligam à Fonte da alegria e, no meio do sofrimento e perante o abismo da morte, a escutar o apelo da vida".
Frei Bento Domingues, O. P. (do Prefácio)
RELIGIÃO: OPRESSÃO OU LIBERTAÇÃO?
de Anselmo Borges
"Qual é, para mim, a vocação deste magnífico livro de Anselmo Borges? Iniciar-nos na arte difícil de ver o que se vê. Ajudar-nos a descobrir, no coração da realidade multifacetada, nos fragmentos da experiência humana, no deslumbramento do mundo, os fios que nos ligam à Fonte da alegria e, no meio do sofrimento e perante o abismo da morte, a escutar o apelo da vida".
Frei Bento Domingues, O. P. (do Prefácio)
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004
Cem anos da Brotéria
A Gradiva e a Revista Brotéria organizam no próximo dia 14, um colóquio sobre "Fé, Ciência, Cultura: Desafios de Futuro", com a participação de Peter Stilwel, João Resina e Guilherme d'Oliveira Martins. A iniciativa decorre às 15 horas, no Grande Auditório do Colégio de S. João de Brito
(Estrada da Torre, 28, Lumiar, Lisboa), no âmbito da evocação do centenário da revista Brotéria. No mesmo dia, às 18 horas, Eduardo Lourenço apresenta a obra "Fé, Ciência, Cultura: Brotéria – 100 Anos" .
A Gradiva e a Revista Brotéria organizam no próximo dia 14, um colóquio sobre "Fé, Ciência, Cultura: Desafios de Futuro", com a participação de Peter Stilwel, João Resina e Guilherme d'Oliveira Martins. A iniciativa decorre às 15 horas, no Grande Auditório do Colégio de S. João de Brito
(Estrada da Torre, 28, Lumiar, Lisboa), no âmbito da evocação do centenário da revista Brotéria. No mesmo dia, às 18 horas, Eduardo Lourenço apresenta a obra "Fé, Ciência, Cultura: Brotéria – 100 Anos" .
terça-feira, 3 de fevereiro de 2004
Pluralismo e Diálogo Inter-Religioso
"Pluralismo e Diálogo Inter-Religioso para uma leitura de Jacques Dupuis" é o tema da tese de mestrado em Filosofia, área de especialização em Fenomenologia e Filosofia da Religião que Cristina de Jesus Marques Rodrigues apresenta na Universidade do Minho. A discussão pública tem lugar no próximo dia 5, quinta-feira, às14H30, na Sala de Actos do Instituto de Letras e Ciências Humanas. Jacques Dupuis é um teólogo jesuíta que viveu na Índia de 1948 a 1984 e foi nos últimos anos objecto de investigação por parte da Congregação para a Doutrina da Fé, nomeadamente por causa do seu livro "Toward a Christian Theology of Religious Pluralism"
"Pluralismo e Diálogo Inter-Religioso para uma leitura de Jacques Dupuis" é o tema da tese de mestrado em Filosofia, área de especialização em Fenomenologia e Filosofia da Religião que Cristina de Jesus Marques Rodrigues apresenta na Universidade do Minho. A discussão pública tem lugar no próximo dia 5, quinta-feira, às14H30, na Sala de Actos do Instituto de Letras e Ciências Humanas. Jacques Dupuis é um teólogo jesuíta que viveu na Índia de 1948 a 1984 e foi nos últimos anos objecto de investigação por parte da Congregação para a Doutrina da Fé, nomeadamente por causa do seu livro "Toward a Christian Theology of Religious Pluralism"
terça-feira, 27 de janeiro de 2004
Miklos Fehér
Diante do espectáculo da morte
- da morte dada em espectáculo -
ainda há lugar para descobrir
... a morte.
Impossível dissimular,
fazer de conta.
Como um raio, tudo se desvanece
e fica ela, desafiante, procadora,
embrulhada num sorriso doce.
De súbito, quem se agredia abraça-se,
quem delimitava os campos
descobre que um só campo existe,
comum.
Repentinamente,
é o acordar para a fragilidade,
a membrana fina
que separa de um além misterioso e inelutável,
para o sem-sentido de tanta coisa,
de tanta tralha
com que carregamos os dias.
Esta vida que se desvela,
e que nos descobre;
esta terra comum de quem se descobre
despido e solidário
não será o sinal
de que "a vida não acaba,
apenas se transforma"?
Diante do espectáculo da morte
- da morte dada em espectáculo -
ainda há lugar para descobrir
... a morte.
Impossível dissimular,
fazer de conta.
Como um raio, tudo se desvanece
e fica ela, desafiante, procadora,
embrulhada num sorriso doce.
De súbito, quem se agredia abraça-se,
quem delimitava os campos
descobre que um só campo existe,
comum.
Repentinamente,
é o acordar para a fragilidade,
a membrana fina
que separa de um além misterioso e inelutável,
para o sem-sentido de tanta coisa,
de tanta tralha
com que carregamos os dias.
Esta vida que se desvela,
e que nos descobre;
esta terra comum de quem se descobre
despido e solidário
não será o sinal
de que "a vida não acaba,
apenas se transforma"?
segunda-feira, 26 de janeiro de 2004
A Igreja na Cidade
o poder do encantamento e a força do testemunho
Eduardo Jorge Madureira Lopes
in Diário do Minho, 25.1.2004
Os lugares comuns parecem ter consagrado ad aeternum a identidade católica de Braga como se duas ou três designações religiosas — a “cidade dos arcebispos”, a “Roma portuguesa”... — fossem o bastante para, definitivamente, pôr a salvo a alma da cidade. Também os pouco abundantes olhares literários sobre Braga repararam na religiosidade da terra, que alguns autores julgaram mais dada à devoção do que ao amor ao próximo. Há, claro, diferenças entre a imagem que é devolvida pela reputação e a que é mostrada pelo espelho. Sucede que o espelho de hoje já não reflecte a imagem da cidade católica, como observou D. Jorge Ortiga, durante uma tertúlia realizada em Dezembro num antigo café do centro histórico.
É difícil dizer algo de novo sobre o que deve ser a Igreja em Braga nos dias de hoje. A Igreja, neste ou noutro lugar, neste ou noutro tempo, se é permitido usar o que S. Lucas disse num contexto algo diferente, “são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. A Igreja é um convite a um testemunho. Um convite endereçado todos os dias a cada um. Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose, em Itália, um dos mais importantes centros de espiritualidade da Europa, recorda que “a humanidade precisa mais de testemunhos do que de advogados de uma verdade em relação à qual o máximo a que podemos aspirar é ser pobres mendicantes”.
Os “advogados” sobrecarregam de palavras um mundo com pouca paciência para escutar, um mundo que precisa menos de lições de moral e mais de testemunhos. Só estes, como o padre António Vieira tão bem explicou, operam milagres. E “o milagre que corresponderia aos interesses da nossa época, o milagre de que a nossa época tem necessidade e ao qual seria sensível, julgo que seria o milagre do amor e da fraternidade dos cristãos”, afirma o padre Louis Evely. Uma coisa assim ajudaria a mudar o mundo: “o mundo converteu-se ao princípio, quando se dizia dos cristãos: ‘Vede como eles se amam!’”.
A Igreja é um anteprojecto do mundo (de um mundo diferente do que quer que tudo e que todos sejam uma mercadoria que se compra e que se vende). Ela não é, como alguns parecem julgar, uma cadeia de distribuição de sacramentos ou uma repartição (uma burocracia auto-suficiente) onde alguns funcionários mal-humorados atendem os que pretendem subscrever a bom preço Planos de Poupança Eternidade. Respeitando a liberdade de cada um e promovendo espaços de partilha, a Igreja deve, portanto, ir ao encontro do mundo para lhe apresentar uma maneira de viver diferente da que se está a querer impor por todo o lado. Desse modo, será o sal da terra e a luz do mundo.
É verdade que “não basta — ainda que seja necessário — organizar a política e a economia de forma a que os homens vivam e sejam felizes”, escreve o cardeal Paul Poupard, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, que considera que “é necessário propor-lhes uma visão deles próprios e do futuro, capaz de lhes oferecer um horizonte de pensamento e a sua parte de sonho. A beleza tem a graça secreta de fazer despertar o amor, como a centelha que faz começar o fogo, cuja chama ilumina e nos aquece. A inteligência não se extingue na sua função crítica. E as religiões murcham mais por perderem a sua capacidade de maravilhar do que pela dificuldade de proporem dogmas. A pior coisa que pode acontecer a uma notícia não é parecer desagradável, mas sim parecer maçadora”.
E, neste tempo saturado de informação, é essencial reencontrar a capacidade de maravilhar (há obras de arte que mantêm essa capacidade intacta, como é o caso da Paixão segundo S. Mateus, de Johann Sebastian Bach. Depois de ouvir esta obra, dirigida por Nikolaus Harnoncourt, o escritor Antonio Muñoz Molina compreendeu “a imperiosa urgência de um testemunho”). O poder do encantamento e a força do testemunho — não as palavras que vão sendo trituradas por cansados funcionários de Deus — ajudarão a certificar a proposta de sentido que está na Palavra de Vida, na Boa Nova que Jesus Cristo nos legou.
o poder do encantamento e a força do testemunho
Eduardo Jorge Madureira Lopes
in Diário do Minho, 25.1.2004
Os lugares comuns parecem ter consagrado ad aeternum a identidade católica de Braga como se duas ou três designações religiosas — a “cidade dos arcebispos”, a “Roma portuguesa”... — fossem o bastante para, definitivamente, pôr a salvo a alma da cidade. Também os pouco abundantes olhares literários sobre Braga repararam na religiosidade da terra, que alguns autores julgaram mais dada à devoção do que ao amor ao próximo. Há, claro, diferenças entre a imagem que é devolvida pela reputação e a que é mostrada pelo espelho. Sucede que o espelho de hoje já não reflecte a imagem da cidade católica, como observou D. Jorge Ortiga, durante uma tertúlia realizada em Dezembro num antigo café do centro histórico.
É difícil dizer algo de novo sobre o que deve ser a Igreja em Braga nos dias de hoje. A Igreja, neste ou noutro lugar, neste ou noutro tempo, se é permitido usar o que S. Lucas disse num contexto algo diferente, “são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. A Igreja é um convite a um testemunho. Um convite endereçado todos os dias a cada um. Enzo Bianchi, prior da comunidade de Bose, em Itália, um dos mais importantes centros de espiritualidade da Europa, recorda que “a humanidade precisa mais de testemunhos do que de advogados de uma verdade em relação à qual o máximo a que podemos aspirar é ser pobres mendicantes”.
Os “advogados” sobrecarregam de palavras um mundo com pouca paciência para escutar, um mundo que precisa menos de lições de moral e mais de testemunhos. Só estes, como o padre António Vieira tão bem explicou, operam milagres. E “o milagre que corresponderia aos interesses da nossa época, o milagre de que a nossa época tem necessidade e ao qual seria sensível, julgo que seria o milagre do amor e da fraternidade dos cristãos”, afirma o padre Louis Evely. Uma coisa assim ajudaria a mudar o mundo: “o mundo converteu-se ao princípio, quando se dizia dos cristãos: ‘Vede como eles se amam!’”.
A Igreja é um anteprojecto do mundo (de um mundo diferente do que quer que tudo e que todos sejam uma mercadoria que se compra e que se vende). Ela não é, como alguns parecem julgar, uma cadeia de distribuição de sacramentos ou uma repartição (uma burocracia auto-suficiente) onde alguns funcionários mal-humorados atendem os que pretendem subscrever a bom preço Planos de Poupança Eternidade. Respeitando a liberdade de cada um e promovendo espaços de partilha, a Igreja deve, portanto, ir ao encontro do mundo para lhe apresentar uma maneira de viver diferente da que se está a querer impor por todo o lado. Desse modo, será o sal da terra e a luz do mundo.
É verdade que “não basta — ainda que seja necessário — organizar a política e a economia de forma a que os homens vivam e sejam felizes”, escreve o cardeal Paul Poupard, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, que considera que “é necessário propor-lhes uma visão deles próprios e do futuro, capaz de lhes oferecer um horizonte de pensamento e a sua parte de sonho. A beleza tem a graça secreta de fazer despertar o amor, como a centelha que faz começar o fogo, cuja chama ilumina e nos aquece. A inteligência não se extingue na sua função crítica. E as religiões murcham mais por perderem a sua capacidade de maravilhar do que pela dificuldade de proporem dogmas. A pior coisa que pode acontecer a uma notícia não é parecer desagradável, mas sim parecer maçadora”.
E, neste tempo saturado de informação, é essencial reencontrar a capacidade de maravilhar (há obras de arte que mantêm essa capacidade intacta, como é o caso da Paixão segundo S. Mateus, de Johann Sebastian Bach. Depois de ouvir esta obra, dirigida por Nikolaus Harnoncourt, o escritor Antonio Muñoz Molina compreendeu “a imperiosa urgência de um testemunho”). O poder do encantamento e a força do testemunho — não as palavras que vão sendo trituradas por cansados funcionários de Deus — ajudarão a certificar a proposta de sentido que está na Palavra de Vida, na Boa Nova que Jesus Cristo nos legou.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2004
A Igreja na Cidade como Comum Habitação
por LUÍS SOARES BARBOSA [docente na Universidade do Minho]
"1. Há algum tempo atrás, numa cidade estranha, muito longe de casa, um frio cortante nas ruas desconhecidas, uma igreja onde entrei por acaso. Um pequeno grupo celebra nesse fim de tarde de domingo. Há uma leitura de Marcos. Uma senhora, coordenadora do grupo bíblico, faz um comentário breve. Há ainda um salmo (recordo: pela tua luz veremos a luz), um poema de Milosz. Há, sobretudo, silêncio. Uma enorme contenção de gestos e de sons. No final a partilha do pão e do vinho continua noutro canto da igreja. Uma cafeteira de chá forte e quente, as conversas animam-se. Estava-se na véspera da ocupação do Iraque, nesses meses em que a Europa viveu talvez as maiores manifestações de sempre contra a guerra e o travo amargo da impotência.
Alguma coisa, ao longo dessa hora, acabou por diluir a espessura do quotidiano que transporto e que, tantas vezes, o olhar me tolda. Pensei: se não fossem as igrejas onde nos encontraríamos? Onde, entre estranhos, nos sentiríamos próximos? Onde poderíamos chegar e partir, menos solitários, contudo? Partilhar o correr dos dias, perplexidades e inquietações, até mesmo aquilo que não é útil nem preciso?
Uma casa comum, dispersa e habitada. Onde coexistem, como nas casas da infância, amplas janelas abertas sobre o vento, doce de abóbora na despensa e velhos tiques de primas afastadas. Permitam-me, então, que sublinhe algumas preocupações por esta casa que habitamos. (...)
Continuação: aqui.
por LUÍS SOARES BARBOSA [docente na Universidade do Minho]
"1. Há algum tempo atrás, numa cidade estranha, muito longe de casa, um frio cortante nas ruas desconhecidas, uma igreja onde entrei por acaso. Um pequeno grupo celebra nesse fim de tarde de domingo. Há uma leitura de Marcos. Uma senhora, coordenadora do grupo bíblico, faz um comentário breve. Há ainda um salmo (recordo: pela tua luz veremos a luz), um poema de Milosz. Há, sobretudo, silêncio. Uma enorme contenção de gestos e de sons. No final a partilha do pão e do vinho continua noutro canto da igreja. Uma cafeteira de chá forte e quente, as conversas animam-se. Estava-se na véspera da ocupação do Iraque, nesses meses em que a Europa viveu talvez as maiores manifestações de sempre contra a guerra e o travo amargo da impotência.
Alguma coisa, ao longo dessa hora, acabou por diluir a espessura do quotidiano que transporto e que, tantas vezes, o olhar me tolda. Pensei: se não fossem as igrejas onde nos encontraríamos? Onde, entre estranhos, nos sentiríamos próximos? Onde poderíamos chegar e partir, menos solitários, contudo? Partilhar o correr dos dias, perplexidades e inquietações, até mesmo aquilo que não é útil nem preciso?
Uma casa comum, dispersa e habitada. Onde coexistem, como nas casas da infância, amplas janelas abertas sobre o vento, doce de abóbora na despensa e velhos tiques de primas afastadas. Permitam-me, então, que sublinhe algumas preocupações por esta casa que habitamos. (...)
Continuação: aqui.
Reduce papacy’s power, says Daneels.
A senior cardinal widely tipped as a possible successor to Pope John Paul has suggested the power of the papacy should be reduced and that there should be less focus on the person of the Pope.
Cardinal Godfried Danneels, Archbishop of Malines-Brussels, told the Rome paper 30 Giorni that a “moment of calm” was needed in the Church, and that in the third millennium a different style was called for after the Vatican’s “centralised control” of recent centuries.
Cardinal Danneels, who is widely seen as the leader of the “reform party” at the next conclave, described the Pope as “a real charismatic personality who attracts attention”. But the identification between the Pope’s role and personality was not “a good thing”, he said. He said a retirement for an “ailing and ageing pope” – an option the Pope has firmly rejected – could help to break the link. But he made it clear that it was not his wish or intention to weaken the papacy.
Cardinal Danneels also suggested that bishops’ synods should be less formal and more open, and that the “endless stream of paper” from the Curia should be cut back. “We are deluged with documents, instructions and manuals”, he lamented.
A senior cardinal widely tipped as a possible successor to Pope John Paul has suggested the power of the papacy should be reduced and that there should be less focus on the person of the Pope.
Cardinal Godfried Danneels, Archbishop of Malines-Brussels, told the Rome paper 30 Giorni that a “moment of calm” was needed in the Church, and that in the third millennium a different style was called for after the Vatican’s “centralised control” of recent centuries.
Cardinal Danneels, who is widely seen as the leader of the “reform party” at the next conclave, described the Pope as “a real charismatic personality who attracts attention”. But the identification between the Pope’s role and personality was not “a good thing”, he said. He said a retirement for an “ailing and ageing pope” – an option the Pope has firmly rejected – could help to break the link. But he made it clear that it was not his wish or intention to weaken the papacy.
Cardinal Danneels also suggested that bishops’ synods should be less formal and more open, and that the “endless stream of paper” from the Curia should be cut back. “We are deluged with documents, instructions and manuals”, he lamented.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2004
Não está ninguém em nenhum lado
Gomes Canotilho, em entrevista ao Expresso (27.12.2003):
'Há um fenómeno de deserção. Não está ninguém em nenhum lado. Ninguém parece ter interesse, sabemos tudo, não temos nada a aprender com os outros, e o que é certo é que depois não há uma participação cívica e crítica. E a mim preocupa-me, mas confesso que não sei como mudamos isto.'
Gomes Canotilho, em entrevista ao Expresso (27.12.2003):
'Há um fenómeno de deserção. Não está ninguém em nenhum lado. Ninguém parece ter interesse, sabemos tudo, não temos nada a aprender com os outros, e o que é certo é que depois não há uma participação cívica e crítica. E a mim preocupa-me, mas confesso que não sei como mudamos isto.'
Feliz Natal
"Senhor, que os meus pés busquem os teus caminhos
e te procurem recém-nascido nos lugares obscuros,
nas ruínas em que buscas abrigo para nascer dentro de mim.
Que as minhas mãos se inquietem na noite em que te procuro
e busquem em ti a vida que me falta; que eu seja em ti
as mãos que se entregam à graça, que se emprestam à vida
na força do arado, na terra em que virás ceifar o trigo no dia
da colheita, tu que és semente a germinar em mim.
Que os meus olhos se emprestem à tua presença,
para que sejam vastos os meus horizontes e rasgados
os caminhos que te preparo, e fértil a terra em que me dou
para que venhas, porque eu sou um lugar obscuro e em ruínas
mas sei que buscas um abrigo para nascer dentro de mim.
Inédito. José Rui Teixeira."
"Senhor, que os meus pés busquem os teus caminhos
e te procurem recém-nascido nos lugares obscuros,
nas ruínas em que buscas abrigo para nascer dentro de mim.
Que as minhas mãos se inquietem na noite em que te procuro
e busquem em ti a vida que me falta; que eu seja em ti
as mãos que se entregam à graça, que se emprestam à vida
na força do arado, na terra em que virás ceifar o trigo no dia
da colheita, tu que és semente a germinar em mim.
Que os meus olhos se emprestem à tua presença,
para que sejam vastos os meus horizontes e rasgados
os caminhos que te preparo, e fértil a terra em que me dou
para que venhas, porque eu sou um lugar obscuro e em ruínas
mas sei que buscas um abrigo para nascer dentro de mim.
Inédito. José Rui Teixeira."
domingo, 14 de dezembro de 2003
Bispo do Porto Defende Despenalização do Aborto
Bispo do Porto defende despenalização do aborto
Por ALEXANDRA CAMPOS
Público, 14 de Dezembro de 2003
"Correndo o risco de ser interpretado como uma voz dissonante dentro da Igreja Católica, o bispo do Porto, D. Armindo Lopes Coelho, afirma-se contra a penalização das mulheres que praticam o aborto, numa entrevista ontem publicada no 'Expresso'.
D. Armindo é 'uma pessoa muitíssimo inteligente, um bom teólogo e as pessoas devem estar atentas ao que ele diz', comenta, a propósito, o antigo bispo de Setúbal, D. Manuel Martins , escusando-se a fazer mais declarações.
Na entrevista ao semanário, o bispo do Porto diz claramente que é 'contra a penalização' e defende que 'as crianças devem viver e ser amadas pelos pais', até porque 'as instituições onde se colocam crianças indesejadas nunca são as melhores soluções'.
D. Armindo assume igualmente uma posição crítica relativamente aos grupos organizados contra e a favor da despenalização do aborto: enquanto existirem, acentua, 'haverá sempre tensão e guerra no ar'.
Sublinhando que os abortos clandestinos se continuarão a praticar mesmo após a entrada em vigor de uma hipotética despenalização, o bispo do Porto considera ainda que a 'única' solução para o problema é a 'criação de condições sociais para que as famílias possam criar os seus filhos'.
Apesar de preferir esperar que D. Armindo venha a público 'explicar o que quis dizer', José Paulo Carvalho, presidente da Federação Portuguesa pela Vida (que congrega várias associações contra a despenalizaçãodo aborto), foi ontem adiantando ao PÚBLICO que as afirmações do bispo mostram que o debate sobre o aborto "não é uma questão religiosa, não é uma guerra de católicos contra o resto do mundo".
"Acho que ele deve explicar o que quis dizer. Também se tem afirmado que Bagão Félix é contra a penalização, quando ele apenas disse que se deve discutir se a pena de prisão é a mais adequada" para quem interrompe voluntariamente a gravidez, acrescentou.
Frisando que não pretende "meter-se em polémicas com bispos", José Paulo Carvalho concluiu que o que D. Armindo pretendeu acentuar na entrevista foi que "a legalização não resolve o problema do aborto clandestino".
Vozes na Igreja contra a penalização do aborto
DN, 14.12.2003
ELSA COSTA E SILVARUTE ARAÚJO
Um novo debate sobre a despenalização do aborto volta a estar em cima da mesa, motivado por afirmações que surgem do interior da própria Igreja e contrárias à posição oficial católica. Em entrevista ao Expresso, D. Armindo Coelho, Bispo do Porto, afirmou ser «contra a penalização», apesar de ver «como solução única a criação de condições sociais para que as famílias possam criar os seus filhos». Uma liberalização da interrupção voluntária da gravidez mantém-se fora de questão, mas o afastamento das mulheres que praticaram aborto da barra dos tribunais reúne novos apoios.
D. Jacinto Botelho, Bispo de Lamego e membro da Comissão Episcopal da Família e da Educação Cristão, também diz que «ninguém está interessado em que as mulheres sejam penalizadas». Não vê nas palavras de Armindo Coelho grande discordância com a posição oficial da Igreja, já que «uma coisa é criminalizar as pessoas e outra é penalizar o acto».
«Temos de condenar o mal, mas ser tolerante com quem o pratica», afirma o prelado. Uma atitude que estende ao julgamento das mulheres acusadas de terem praticado aborto, a decorrer em Aveiro: «Deve haver da parte da Igreja uma atitude de perdão que é, aliás, a do Evangelho». Quanto a uma nova iniciativa legislativa, D. Jacinto Botelho é mais cauteloso, lembrando que a «Igreja não aceita o aborto» e que não pode aceitar ambiguidades que considerassem a descriminalização «como um entendimento de que esse acto não é grave».
A visão é partilhada por António Pires de Lima. Para o porta-voz do CDS-PP, «está fora de causa que a Igreja modifique a sua posição». O partido popular «partilha a ideia humanista da Igreja - se para nós a liberalização não é solução, também não queremos ver estas mulheres na barra dos tribunais». Por isso, «a solução do ponto de vista jurídico não é fácil». António Pires de Lima concorda ainda com o Bispo do Porto noutro ponto: mesmo liberalizando, haverá sempre grávidas a recorrerem a abortos ilegais, devido «ao estigma social».
Já para Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda, D. Armindo «revelou um enorme sentido de responsabilidade, que traduz uma corrente de opinião muito forte: é preciso acabar com a perseguição a estas mulheres». Mais: «Há uns anos, nenhuma voz dentro da Igreja se levantava neste sentido. Se o Bispo do Porto o fez, é porque tem por base uma profunda convicção e porque contacta com outros bispos que a partilham».
Por seu lado, José Paulo Carvalho, da Federação Defesa da Vida, apenas admite uma «discussão da pena em cada um dos casos, consoante as condições atenuantes». Mas, acrescenta, «não há nada de insultuoso em uma mulher ir a tribunal, o único local onde se pode defender com toda a dignidade sobre a sua culpa ou inocência».
Estas declarações surgem num momento em que está a ser lançada uma nova petição para despenalizar a interrupção voluntária da gravidez. Iniciativa que terá de enfrentar o acordo de coligação entre o PSD e o CDS-PP (que antecedeu a formação do Governo), no qual os partidos se comprometem a não mexer na questão do aborto.
Vários bispos contactados pelo DN preferiram não fazer qualquer comentário sobre o assunto.
Bispo do Porto defende despenalização do aborto
Por ALEXANDRA CAMPOS
Público, 14 de Dezembro de 2003
"Correndo o risco de ser interpretado como uma voz dissonante dentro da Igreja Católica, o bispo do Porto, D. Armindo Lopes Coelho, afirma-se contra a penalização das mulheres que praticam o aborto, numa entrevista ontem publicada no 'Expresso'.
D. Armindo é 'uma pessoa muitíssimo inteligente, um bom teólogo e as pessoas devem estar atentas ao que ele diz', comenta, a propósito, o antigo bispo de Setúbal, D. Manuel Martins , escusando-se a fazer mais declarações.
Na entrevista ao semanário, o bispo do Porto diz claramente que é 'contra a penalização' e defende que 'as crianças devem viver e ser amadas pelos pais', até porque 'as instituições onde se colocam crianças indesejadas nunca são as melhores soluções'.
D. Armindo assume igualmente uma posição crítica relativamente aos grupos organizados contra e a favor da despenalização do aborto: enquanto existirem, acentua, 'haverá sempre tensão e guerra no ar'.
Sublinhando que os abortos clandestinos se continuarão a praticar mesmo após a entrada em vigor de uma hipotética despenalização, o bispo do Porto considera ainda que a 'única' solução para o problema é a 'criação de condições sociais para que as famílias possam criar os seus filhos'.
Apesar de preferir esperar que D. Armindo venha a público 'explicar o que quis dizer', José Paulo Carvalho, presidente da Federação Portuguesa pela Vida (que congrega várias associações contra a despenalizaçãodo aborto), foi ontem adiantando ao PÚBLICO que as afirmações do bispo mostram que o debate sobre o aborto "não é uma questão religiosa, não é uma guerra de católicos contra o resto do mundo".
"Acho que ele deve explicar o que quis dizer. Também se tem afirmado que Bagão Félix é contra a penalização, quando ele apenas disse que se deve discutir se a pena de prisão é a mais adequada" para quem interrompe voluntariamente a gravidez, acrescentou.
Frisando que não pretende "meter-se em polémicas com bispos", José Paulo Carvalho concluiu que o que D. Armindo pretendeu acentuar na entrevista foi que "a legalização não resolve o problema do aborto clandestino".
Vozes na Igreja contra a penalização do aborto
DN, 14.12.2003
ELSA COSTA E SILVARUTE ARAÚJO
Um novo debate sobre a despenalização do aborto volta a estar em cima da mesa, motivado por afirmações que surgem do interior da própria Igreja e contrárias à posição oficial católica. Em entrevista ao Expresso, D. Armindo Coelho, Bispo do Porto, afirmou ser «contra a penalização», apesar de ver «como solução única a criação de condições sociais para que as famílias possam criar os seus filhos». Uma liberalização da interrupção voluntária da gravidez mantém-se fora de questão, mas o afastamento das mulheres que praticaram aborto da barra dos tribunais reúne novos apoios.
D. Jacinto Botelho, Bispo de Lamego e membro da Comissão Episcopal da Família e da Educação Cristão, também diz que «ninguém está interessado em que as mulheres sejam penalizadas». Não vê nas palavras de Armindo Coelho grande discordância com a posição oficial da Igreja, já que «uma coisa é criminalizar as pessoas e outra é penalizar o acto».
«Temos de condenar o mal, mas ser tolerante com quem o pratica», afirma o prelado. Uma atitude que estende ao julgamento das mulheres acusadas de terem praticado aborto, a decorrer em Aveiro: «Deve haver da parte da Igreja uma atitude de perdão que é, aliás, a do Evangelho». Quanto a uma nova iniciativa legislativa, D. Jacinto Botelho é mais cauteloso, lembrando que a «Igreja não aceita o aborto» e que não pode aceitar ambiguidades que considerassem a descriminalização «como um entendimento de que esse acto não é grave».
A visão é partilhada por António Pires de Lima. Para o porta-voz do CDS-PP, «está fora de causa que a Igreja modifique a sua posição». O partido popular «partilha a ideia humanista da Igreja - se para nós a liberalização não é solução, também não queremos ver estas mulheres na barra dos tribunais». Por isso, «a solução do ponto de vista jurídico não é fácil». António Pires de Lima concorda ainda com o Bispo do Porto noutro ponto: mesmo liberalizando, haverá sempre grávidas a recorrerem a abortos ilegais, devido «ao estigma social».
Já para Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda, D. Armindo «revelou um enorme sentido de responsabilidade, que traduz uma corrente de opinião muito forte: é preciso acabar com a perseguição a estas mulheres». Mais: «Há uns anos, nenhuma voz dentro da Igreja se levantava neste sentido. Se o Bispo do Porto o fez, é porque tem por base uma profunda convicção e porque contacta com outros bispos que a partilham».
Por seu lado, José Paulo Carvalho, da Federação Defesa da Vida, apenas admite uma «discussão da pena em cada um dos casos, consoante as condições atenuantes». Mas, acrescenta, «não há nada de insultuoso em uma mulher ir a tribunal, o único local onde se pode defender com toda a dignidade sobre a sua culpa ou inocência».
Estas declarações surgem num momento em que está a ser lançada uma nova petição para despenalizar a interrupção voluntária da gravidez. Iniciativa que terá de enfrentar o acordo de coligação entre o PSD e o CDS-PP (que antecedeu a formação do Governo), no qual os partidos se comprometem a não mexer na questão do aborto.
Vários bispos contactados pelo DN preferiram não fazer qualquer comentário sobre o assunto.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2003
...::: TodosUno :::...:
"Descubrir nuestro ser complementario,
debe ser primordial en la existencia;
es fácil cuando existe coincidencia
de gustos, de pensar y de escenario.
Mas, si el otro es ajeno o es contrario
y no existe siquiera la presencia,
solamente será mi competencia
si lo siento de Dios como emisario.
No hay que tener un único estandarte,
ni buscar en los míos mi acomodo,
pues Dios a todo el mundo se reparte,
mas se muestra en distinta forma y modo,
por lo tanto, dejemos ya la parte,
y vayamos a Dios, que es uno y todo. "
"Descubrir nuestro ser complementario,
debe ser primordial en la existencia;
es fácil cuando existe coincidencia
de gustos, de pensar y de escenario.
Mas, si el otro es ajeno o es contrario
y no existe siquiera la presencia,
solamente será mi competencia
si lo siento de Dios como emisario.
No hay que tener un único estandarte,
ni buscar en los míos mi acomodo,
pues Dios a todo el mundo se reparte,
mas se muestra en distinta forma y modo,
por lo tanto, dejemos ya la parte,
y vayamos a Dios, que es uno y todo. "
sábado, 6 de dezembro de 2003
Pontes, em vez de muros
Manuel Pinto
O “Diário de Notícias” tem em curso uma iniciativa que é merecedora de “distinção e louvor”. Há umas semanas atrás, começou a publicar nas suas edições dominicais uma troca de cartas públicas entre dois conhecidos intelectuais do nosso país: o cardeal-patriarca de Lisboa D. José Policarpo e o professor da Universidade Nova, colunista e ensaísta Eduardo Prado Coelho.
As cartas são uma forma de diálogo entre duas pessoas que se posicionam em horizontes filosóficos e ideológicos distintos, mas que, ao aceitarem este desafio do jornal, colocam diante dos nossos olhos argumentos de um lado e de outro sobre grandes questões dos nossos dias.
A iniciativa não é totalmente inédita: há perto de dez anos algo de semelhante foi feito em Itália, pelo diário “Corriere della Será”, tendo por protagonistas Umberto Eco e o cardeal Carlo Martini. De qualquer modo, no nosso meio, não é frequente ver oportunidades que permitam o diálogo entre mundos e referências que não só andam distantes como muitas vezes se desconhecem. As vicissitudes da nossa História fizeram com que se criassem clivagens que levaram a que a dimensão religiosa fosse como que “evacuada” dos grandes debates culturais, processo de que todos, tanto na esfera religiosa e como na esfera laica - somos responsáveis e de que todos saímos a perder.
É claro que estes diálogos só fazem sentido se os intervenientes partirem de uma base simples mas decisiva, que consiste em reconhecer o interlocutor e o universo de onde ele enuncia o que sente e pensa. E exige, ao mesmo tempo, a vontade de aprender e de progredir numa consciência mais larga e rica da vida e do mundo.
A este propósito, o esforço que se tem vindo a fazer em Braga, nos últimos tempos, a propósito da visita pastoral do Arcebispo às paróquias da cidade é, de algum modo, convergente com essa procura de um diálogo que não se limita àqueles que são iguais a nós e que pensam como nós. O convite a pessoas diversas – e não faria mal alargar bastante mais o leque desses convites – para que se pronunciem sobre o que entendem dever ser, hoje em dia, a presença da Igreja na cidade é uma iniciativa meritória. Assim como o weblog que é um espaço de partilha e debate aberto na Internet e que tem tido algumas achegas bem interessantes.
Vivemos num mundo em que, em todos os lados e em todos os terrenos, precisamos de valorizar mais o que nos aproxima uns dos outros do que aquilo que nos separa. Precisamos, em suma, muito mais de pontes do que de muros.
(in Diário do Minho, 8.12.2003)
Manuel Pinto
O “Diário de Notícias” tem em curso uma iniciativa que é merecedora de “distinção e louvor”. Há umas semanas atrás, começou a publicar nas suas edições dominicais uma troca de cartas públicas entre dois conhecidos intelectuais do nosso país: o cardeal-patriarca de Lisboa D. José Policarpo e o professor da Universidade Nova, colunista e ensaísta Eduardo Prado Coelho.
As cartas são uma forma de diálogo entre duas pessoas que se posicionam em horizontes filosóficos e ideológicos distintos, mas que, ao aceitarem este desafio do jornal, colocam diante dos nossos olhos argumentos de um lado e de outro sobre grandes questões dos nossos dias.
A iniciativa não é totalmente inédita: há perto de dez anos algo de semelhante foi feito em Itália, pelo diário “Corriere della Será”, tendo por protagonistas Umberto Eco e o cardeal Carlo Martini. De qualquer modo, no nosso meio, não é frequente ver oportunidades que permitam o diálogo entre mundos e referências que não só andam distantes como muitas vezes se desconhecem. As vicissitudes da nossa História fizeram com que se criassem clivagens que levaram a que a dimensão religiosa fosse como que “evacuada” dos grandes debates culturais, processo de que todos, tanto na esfera religiosa e como na esfera laica - somos responsáveis e de que todos saímos a perder.
É claro que estes diálogos só fazem sentido se os intervenientes partirem de uma base simples mas decisiva, que consiste em reconhecer o interlocutor e o universo de onde ele enuncia o que sente e pensa. E exige, ao mesmo tempo, a vontade de aprender e de progredir numa consciência mais larga e rica da vida e do mundo.
A este propósito, o esforço que se tem vindo a fazer em Braga, nos últimos tempos, a propósito da visita pastoral do Arcebispo às paróquias da cidade é, de algum modo, convergente com essa procura de um diálogo que não se limita àqueles que são iguais a nós e que pensam como nós. O convite a pessoas diversas – e não faria mal alargar bastante mais o leque desses convites – para que se pronunciem sobre o que entendem dever ser, hoje em dia, a presença da Igreja na cidade é uma iniciativa meritória. Assim como o weblog que é um espaço de partilha e debate aberto na Internet e que tem tido algumas achegas bem interessantes.
Vivemos num mundo em que, em todos os lados e em todos os terrenos, precisamos de valorizar mais o que nos aproxima uns dos outros do que aquilo que nos separa. Precisamos, em suma, muito mais de pontes do que de muros.
(in Diário do Minho, 8.12.2003)
quinta-feira, 4 de dezembro de 2003
Os Cristãos na Europa de Hoje
O Centro de Reflexão Cristã realiza na próxima terça-feira, dia 9, às 18.30, na sua sede em Lisboa (Rua Castilho, 61-2º Dto) uma conferência intitulada "Os Cristãos na Europa de Hoje", pelo Bispo auxiliar de Lisboa Manuel Clemente.
O CRC anuncia, entretanto, para Janeiro um ciclo de colóquios centrado nos temas recentemente lançados pela Conferência Episcopal "Sete Pecados sociais, Sete sinais de Esperança". (E-mail do CRC aqui)
O Centro de Reflexão Cristã realiza na próxima terça-feira, dia 9, às 18.30, na sua sede em Lisboa (Rua Castilho, 61-2º Dto) uma conferência intitulada "Os Cristãos na Europa de Hoje", pelo Bispo auxiliar de Lisboa Manuel Clemente.
O CRC anuncia, entretanto, para Janeiro um ciclo de colóquios centrado nos temas recentemente lançados pela Conferência Episcopal "Sete Pecados sociais, Sete sinais de Esperança". (E-mail do CRC aqui)
segunda-feira, 24 de novembro de 2003
Breve conversa
entre Laura Ferreira dos Santos e Osvaldo Manuel Silvestre
(a propósito do livro de Laura Ferreira dos Santos
"Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença - I"
(Angelus Novus Editora, 2003)
Osvaldo Manuel Silvestre (OMS) - O teu livro, desde o título - Diário de uma
mulher católica a caminho da descrença - parece sugerir que o caminho da
descrença é tão duro e tortuoso como o da fé. Será? E se é, a que se
deve isso? A tudo o que se deixa para trás? Ou antes ao facto de nunca
se deixar tudo para trás?
Laura Ferreira dos Santos (LFS) - Só posso dizer que, no meu caso, esse caminho
para a descrença foi de facto tão duro e tortuoso como o da fé. Depois
de aderir mais convictamente ao cristianismo, há uns vinte anos atrás,
uma missa era para mim um grande motivo de alegria, um espaço físico e
espiritual em que tudo parecia bater certo, lugar de um grande
apaziguamento e harmonia interiores. Tinha os meus problemas com o que a
igreja hierárquica ia dizendo e escrevendo, mas tentava relativizá-los
em função do que me parecia muito mais importante do que os seus
desacertos "ideológicos". No fundo, talvez a minha maior dificuldade no
caminho da descrença seja o facto de continuar a aceitar a maior parte
ou a totalidade dos ensinamentos evangélicos, mas sem conseguir aderir
ao Deus para que se julga remeterem, aparecendo-me a Igreja católica
sobretudo como um clube para homens, legitimando de diversos modos o
papel inferior da mulher na sociedade.
O. M. S. Inspiraste-te nalgum modelo de diarística para o teu livro?
Sentes-te mais próxima, quanto a isso, de Santo Agostinho ou de Virgina
Woolf (ou de Santa Teresa)?
L. F. S. Como muitas e muitos de nós, li os textos referidos, assim como
outros do género. Até que ponto me influenciaram, é algo que não consigo
avaliar bem. Se Agostinho e Teresa de Ávila me estão até certo ponto
próximos pela temática religiosa, dir-se-ia que a certeza das suas
convicções religiosas me afasta deles, sentindo-me mais identificada com
alguns dos tormentos de fé expostos por João da Cruz ou Teresa de
Lisieux, não a Teresa edulcorada pelas suas irmãs carmelitas, mas a
Teresa para quem o "pensamento do céu" já não é um tema pacífico, mas um
tema de combate e de tormento, temendo que depois da morte já só haja
uma "noite do nada", ou escrevendo que quando canta a alegria de estar
em Deus canta apenas aquilo em que ela quer crer, não aquilo em que crê
na verdade. Diários ou não, sinto-me portanto mais próxima dos escritos
em que se capta à saciedade uma luta de corpo a corpo com a crença ou
com esse ser que tem vindo a ser designado androcentricamente por Deus.
Por outras palavras, textos cujas autoras ou cujos autores têm descrito
a vivência da crença como se o fizessem num processo que deixa sangue
entre os dedos, textos aliás escritos do único modo que Nietzsche
respeitava. Algo assim como o Diário íntimo de Unamuno, texto que
"saltou" das minhas memórias antigas (li-o quando tinha 19 anos) quando
me deparei com esta pergunta.
O. M. S. Como explicas a raridade lusa de obras que, como a tua, façam
da fé uma questão tão agónica quanto polémica? Ou seja, como explicas
que a um país de inquestionada tradição católica corresponda uma tão
débil produção teológica?
L. F. S. De imediato, o que me apetece dizer é que em Portugal é tudo
tão pequenino quanto os sinais de trânsito ou as placas que indicam os
nomes das diversas localidades, que, numa viagem de automóvel, só
conseguimos decifrar quando acabámos de passar por elas. Basta comparar
os sinais de limite de velocidade que encontramos nas auto-estradas
portuguesas e nas espanholas. Bom, a questão é obviamente complexa,
aproveitando desde já para esclarecer que o meu Diário não se enquadra
na dita "produção teológica", pelo menos no sentido habitual do termo.
No entanto, é verdade que, no nosso país, essa produção é de facto
débil. Aliás, penso que, em Portugal, uma investigação aprofundada, pelo
menos no campo das letras, que é o âmbito que conheço melhor, poucos
incentivos recebe. Veja-se, por ex., o que se passa na maior parte (ou
totalidade) dos centros de investigação universitários, em que é
sobretudo o número de artigos publicados a ser contabilizado, não se
atendendo à sua qualidade. Nesta óptica, cinquenta filmes feitos pelo
mesmo realizador num único ano seriam muito mais subsidiados que A vida
é bela, talvez o único filme que Roberto Begnini realizou no mesmo
espaço de tempo. Por outro lado, só os trabalhos em equipa parecem ser
subsidiados. Se Nietzsche, nos tempos actuais, se propusesse fazer um
trabalho de índole semelhante ao que realizou, nunca obteria um centavo.
Mas se se associasse a Peter Gast, à irmã, a Paul Rée, a Wagner, etc,
poderia eventualmente receber uns cobres. Mas, nesse caso, alguém o
leria hoje? Claro que não estou contra o trabalho em equipa,
imprescindível em certas áreas. Fazer dele um dogma é que me parece um
fundamentalismo.
Neste Diário, a temática religiosa, entendida num sentido muito amplo,
aparece perspectivada tendo em conta a situação da mulher e o modo como
o "religioso" intervém nela. Perante a raridade para que a pergunta
aponta, talvez se deva colocar a hipótese de que, em Portugal, a maior
parte das pessoas que poderia produzir textos deste género tenha
rapidamente deixado de acreditar em Deus, acrescentando-se, por outro
lado, a questão óbvia de que o nosso país se encontra longe de temáticas
ditas "feministas", nem sequer utilizando uma linguagem inclusiva, que
trate, sem discriminação, homens e mulheres. Por aqui, só há "homens" e
"filhos", pois já se sabe há muito que todas as mulheres são homens e
todas as filhas são filhos. A meu ver, só o cruzamento das duas
temáticas por uma pessoa que as levasse muito a sério poderia dar um
texto como o meu. E, pelos vistos, por uma razão ou outra, não deve
haver em Portugal muita gente nessas circunstâncias. Daí a minha própria
dificuldade em conseguir encontrar um padre com quem possa dialogar
sobre estes assuntos, pois oiço frequentemente dizerem-me que nunca se
tinham confrontado com as minhas questões, alguns assumindo honestamente
que talvez por serem homens...
O. M. S. Como vês a intransigência da igreja de Roma no que toca ao
ordenamento de mulheres como sacerdotes? A verificar-se uma alteração do
estado de coisas com um novo Papa, pensas que isso se deverá a boas
razões (teológicas) ou à falta de vocações masculinas?
L. F. S. Perante as vistas curtas que a Igreja católica manifesta em
tantas áreas, apetece brincar e dizer: se essa ordenação for devida à
falta de vocações masculinas, as boas razões teológicas serão com
certeza encontradas.
Durante milhares de anos, um acto particularmente importante nas
religiões como o sacrifício cruento foi interdito às mulheres. Segundo
uma teoria, para que os homens, sem o privilégio de dar à luz, pudessem
dispor de um outro privilégio que aplacasse a sua inveja da maternidade:
o privilégio do sacrifício cruento, vertendo o sangue de uma vítima para
que uma certa forma de "vida" pudesse surgir. Por esta ou por outras
razões, o facto é que as grandes religiões monoteístas (judaísmo,
cristianismo e islamismo), nas suas versões mais "oficiais", foram
declarando o papel subordinado da mulher, pois, como diz Paulo, "a
cabeça da mulher é o homem". E, se pudesse, creio que a Igreja Católica
reescreveria o discurso das Bem-aventuranças, pondo de um lado as
adequadas aos homens, e do outro as adequadas às mulheres. Penso que
Cristo foi um grande defensor das mulheres, mas a sua (?) Igreja não
conseguiu manter-se ao mesmo nível. Pela voz da Igreja católica e de
outras religiões continua a manifestar-se um antigo horror à mulher que,
se por um lado pode quase configurar uma espécie de crime contra a
humanidade, por outro é uma posição merecedora de estudo aprofundado,
pois esclarece-nos muito sobre as questões de género, ajudando-nos a
perceber por que é que os homens actuam em sociedade como se
pertencessem a uma espécie de "raça" superior.
O. M. S. O teu livro aparece com a indicação de que se trata do volume
I. Significa isso que pensas publicar mais volumes? Com que
regularidade? Se entretanto o caminho te conduzir de facto à descrença,
admites a possibilidade de uma alteração de título?
L. F. S. De facto, não tencionava "descontinuar" este Diário. Aliás, no
meu computador, lá vai crescendo, ao sabor dos tempos. Agora a respeito
da regularidade de publicação, não posso prevê-la neste momento, tanto
mais quanto não sei se os problemas de saúde de que padeço irão diminuir
ou aumentar a sua escrita. Um outro volume para daqui a um ano?...
Quanto à eventualidade de ser conduzida "de facto" à descrença, eis aí
um problema que começa logo pela definição de crença e descrença, cujo
conteúdo irei tentando delimitar ao longo do "caminho". Um determinado
tipo de descrença não elimina radicalmente a possibilidade da crença.
Falta saber em quê. Seja como for, para já, não entrevejo uma mudança de
título, como se aí estivesse um ponto de partida (ou de chegada)
demasiado marcante para ser deitado fora antes de ser devidamente
explorado. E vontade para efectuar essa exploração é algo que não me falta.
entre Laura Ferreira dos Santos e Osvaldo Manuel Silvestre
(a propósito do livro de Laura Ferreira dos Santos
"Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença - I"
(Angelus Novus Editora, 2003)
Osvaldo Manuel Silvestre (OMS) - O teu livro, desde o título - Diário de uma
mulher católica a caminho da descrença - parece sugerir que o caminho da
descrença é tão duro e tortuoso como o da fé. Será? E se é, a que se
deve isso? A tudo o que se deixa para trás? Ou antes ao facto de nunca
se deixar tudo para trás?
Laura Ferreira dos Santos (LFS) - Só posso dizer que, no meu caso, esse caminho
para a descrença foi de facto tão duro e tortuoso como o da fé. Depois
de aderir mais convictamente ao cristianismo, há uns vinte anos atrás,
uma missa era para mim um grande motivo de alegria, um espaço físico e
espiritual em que tudo parecia bater certo, lugar de um grande
apaziguamento e harmonia interiores. Tinha os meus problemas com o que a
igreja hierárquica ia dizendo e escrevendo, mas tentava relativizá-los
em função do que me parecia muito mais importante do que os seus
desacertos "ideológicos". No fundo, talvez a minha maior dificuldade no
caminho da descrença seja o facto de continuar a aceitar a maior parte
ou a totalidade dos ensinamentos evangélicos, mas sem conseguir aderir
ao Deus para que se julga remeterem, aparecendo-me a Igreja católica
sobretudo como um clube para homens, legitimando de diversos modos o
papel inferior da mulher na sociedade.
O. M. S. Inspiraste-te nalgum modelo de diarística para o teu livro?
Sentes-te mais próxima, quanto a isso, de Santo Agostinho ou de Virgina
Woolf (ou de Santa Teresa)?
L. F. S. Como muitas e muitos de nós, li os textos referidos, assim como
outros do género. Até que ponto me influenciaram, é algo que não consigo
avaliar bem. Se Agostinho e Teresa de Ávila me estão até certo ponto
próximos pela temática religiosa, dir-se-ia que a certeza das suas
convicções religiosas me afasta deles, sentindo-me mais identificada com
alguns dos tormentos de fé expostos por João da Cruz ou Teresa de
Lisieux, não a Teresa edulcorada pelas suas irmãs carmelitas, mas a
Teresa para quem o "pensamento do céu" já não é um tema pacífico, mas um
tema de combate e de tormento, temendo que depois da morte já só haja
uma "noite do nada", ou escrevendo que quando canta a alegria de estar
em Deus canta apenas aquilo em que ela quer crer, não aquilo em que crê
na verdade. Diários ou não, sinto-me portanto mais próxima dos escritos
em que se capta à saciedade uma luta de corpo a corpo com a crença ou
com esse ser que tem vindo a ser designado androcentricamente por Deus.
Por outras palavras, textos cujas autoras ou cujos autores têm descrito
a vivência da crença como se o fizessem num processo que deixa sangue
entre os dedos, textos aliás escritos do único modo que Nietzsche
respeitava. Algo assim como o Diário íntimo de Unamuno, texto que
"saltou" das minhas memórias antigas (li-o quando tinha 19 anos) quando
me deparei com esta pergunta.
O. M. S. Como explicas a raridade lusa de obras que, como a tua, façam
da fé uma questão tão agónica quanto polémica? Ou seja, como explicas
que a um país de inquestionada tradição católica corresponda uma tão
débil produção teológica?
L. F. S. De imediato, o que me apetece dizer é que em Portugal é tudo
tão pequenino quanto os sinais de trânsito ou as placas que indicam os
nomes das diversas localidades, que, numa viagem de automóvel, só
conseguimos decifrar quando acabámos de passar por elas. Basta comparar
os sinais de limite de velocidade que encontramos nas auto-estradas
portuguesas e nas espanholas. Bom, a questão é obviamente complexa,
aproveitando desde já para esclarecer que o meu Diário não se enquadra
na dita "produção teológica", pelo menos no sentido habitual do termo.
No entanto, é verdade que, no nosso país, essa produção é de facto
débil. Aliás, penso que, em Portugal, uma investigação aprofundada, pelo
menos no campo das letras, que é o âmbito que conheço melhor, poucos
incentivos recebe. Veja-se, por ex., o que se passa na maior parte (ou
totalidade) dos centros de investigação universitários, em que é
sobretudo o número de artigos publicados a ser contabilizado, não se
atendendo à sua qualidade. Nesta óptica, cinquenta filmes feitos pelo
mesmo realizador num único ano seriam muito mais subsidiados que A vida
é bela, talvez o único filme que Roberto Begnini realizou no mesmo
espaço de tempo. Por outro lado, só os trabalhos em equipa parecem ser
subsidiados. Se Nietzsche, nos tempos actuais, se propusesse fazer um
trabalho de índole semelhante ao que realizou, nunca obteria um centavo.
Mas se se associasse a Peter Gast, à irmã, a Paul Rée, a Wagner, etc,
poderia eventualmente receber uns cobres. Mas, nesse caso, alguém o
leria hoje? Claro que não estou contra o trabalho em equipa,
imprescindível em certas áreas. Fazer dele um dogma é que me parece um
fundamentalismo.
Neste Diário, a temática religiosa, entendida num sentido muito amplo,
aparece perspectivada tendo em conta a situação da mulher e o modo como
o "religioso" intervém nela. Perante a raridade para que a pergunta
aponta, talvez se deva colocar a hipótese de que, em Portugal, a maior
parte das pessoas que poderia produzir textos deste género tenha
rapidamente deixado de acreditar em Deus, acrescentando-se, por outro
lado, a questão óbvia de que o nosso país se encontra longe de temáticas
ditas "feministas", nem sequer utilizando uma linguagem inclusiva, que
trate, sem discriminação, homens e mulheres. Por aqui, só há "homens" e
"filhos", pois já se sabe há muito que todas as mulheres são homens e
todas as filhas são filhos. A meu ver, só o cruzamento das duas
temáticas por uma pessoa que as levasse muito a sério poderia dar um
texto como o meu. E, pelos vistos, por uma razão ou outra, não deve
haver em Portugal muita gente nessas circunstâncias. Daí a minha própria
dificuldade em conseguir encontrar um padre com quem possa dialogar
sobre estes assuntos, pois oiço frequentemente dizerem-me que nunca se
tinham confrontado com as minhas questões, alguns assumindo honestamente
que talvez por serem homens...
O. M. S. Como vês a intransigência da igreja de Roma no que toca ao
ordenamento de mulheres como sacerdotes? A verificar-se uma alteração do
estado de coisas com um novo Papa, pensas que isso se deverá a boas
razões (teológicas) ou à falta de vocações masculinas?
L. F. S. Perante as vistas curtas que a Igreja católica manifesta em
tantas áreas, apetece brincar e dizer: se essa ordenação for devida à
falta de vocações masculinas, as boas razões teológicas serão com
certeza encontradas.
Durante milhares de anos, um acto particularmente importante nas
religiões como o sacrifício cruento foi interdito às mulheres. Segundo
uma teoria, para que os homens, sem o privilégio de dar à luz, pudessem
dispor de um outro privilégio que aplacasse a sua inveja da maternidade:
o privilégio do sacrifício cruento, vertendo o sangue de uma vítima para
que uma certa forma de "vida" pudesse surgir. Por esta ou por outras
razões, o facto é que as grandes religiões monoteístas (judaísmo,
cristianismo e islamismo), nas suas versões mais "oficiais", foram
declarando o papel subordinado da mulher, pois, como diz Paulo, "a
cabeça da mulher é o homem". E, se pudesse, creio que a Igreja Católica
reescreveria o discurso das Bem-aventuranças, pondo de um lado as
adequadas aos homens, e do outro as adequadas às mulheres. Penso que
Cristo foi um grande defensor das mulheres, mas a sua (?) Igreja não
conseguiu manter-se ao mesmo nível. Pela voz da Igreja católica e de
outras religiões continua a manifestar-se um antigo horror à mulher que,
se por um lado pode quase configurar uma espécie de crime contra a
humanidade, por outro é uma posição merecedora de estudo aprofundado,
pois esclarece-nos muito sobre as questões de género, ajudando-nos a
perceber por que é que os homens actuam em sociedade como se
pertencessem a uma espécie de "raça" superior.
O. M. S. O teu livro aparece com a indicação de que se trata do volume
I. Significa isso que pensas publicar mais volumes? Com que
regularidade? Se entretanto o caminho te conduzir de facto à descrença,
admites a possibilidade de uma alteração de título?
L. F. S. De facto, não tencionava "descontinuar" este Diário. Aliás, no
meu computador, lá vai crescendo, ao sabor dos tempos. Agora a respeito
da regularidade de publicação, não posso prevê-la neste momento, tanto
mais quanto não sei se os problemas de saúde de que padeço irão diminuir
ou aumentar a sua escrita. Um outro volume para daqui a um ano?...
Quanto à eventualidade de ser conduzida "de facto" à descrença, eis aí
um problema que começa logo pela definição de crença e descrença, cujo
conteúdo irei tentando delimitar ao longo do "caminho". Um determinado
tipo de descrença não elimina radicalmente a possibilidade da crença.
Falta saber em quê. Seja como for, para já, não entrevejo uma mudança de
título, como se aí estivesse um ponto de partida (ou de chegada)
demasiado marcante para ser deitado fora antes de ser devidamente
explorado. E vontade para efectuar essa exploração é algo que não me falta.
terça-feira, 4 de novembro de 2003
Receios
Leio no Aviz:
«O nosso sentimento actual de desorientação, de recaída na violência, de perda na insensibilidade moral; a nossa viva impressão de uma quebra profunda no campo dos valores da arte e no da decadência dos códigos pessoais e sociais; os nossos receios de uma nova ?idade das trevas? em que a própria civilização, tal como a conhecemos, possa desaparecer ou se restrinja a pequenas ilhas de preservação arcaica ? esses receios tão palpáveis e generalizados que se transformaram num cliché do estado de espírito da época ? tiram de uma comparação a sua força e a sua evidência aparente. [?] A nossa experiência do presente, os juízos, tantas vezes negativos, que fazemos acerca do nosso lugar na história, vivem continuamente contra o fundo daquilo a que eu gostaria de chamar o ?mito do século XIX? ou o ?jardim imaginário da cultura liberal?. [?] A minha tese é que certas origens da inumanidade, da crise que nos obriga hoje a uma redefinição da cultura, devem ser procuradas na longa paz do século XIX e no nó mais denso do tecido complexo da civilização. [?] A arte, as investigações intelectuais, o desenvolvimento das ciências, múltiplos sectores de actividade universitária, floresceram numa estreita proximidade espacial e temporal relativamente aos campos de extermínio. Ao contrário do que acontecia nas fantasias das fábulas apocalípticas do século XIX, a barbárie irrompeu do coração da Europa.»
"GEORGE STEINER, in Bluebeard's Castle
Leio no Aviz:
«O nosso sentimento actual de desorientação, de recaída na violência, de perda na insensibilidade moral; a nossa viva impressão de uma quebra profunda no campo dos valores da arte e no da decadência dos códigos pessoais e sociais; os nossos receios de uma nova ?idade das trevas? em que a própria civilização, tal como a conhecemos, possa desaparecer ou se restrinja a pequenas ilhas de preservação arcaica ? esses receios tão palpáveis e generalizados que se transformaram num cliché do estado de espírito da época ? tiram de uma comparação a sua força e a sua evidência aparente. [?] A nossa experiência do presente, os juízos, tantas vezes negativos, que fazemos acerca do nosso lugar na história, vivem continuamente contra o fundo daquilo a que eu gostaria de chamar o ?mito do século XIX? ou o ?jardim imaginário da cultura liberal?. [?] A minha tese é que certas origens da inumanidade, da crise que nos obriga hoje a uma redefinição da cultura, devem ser procuradas na longa paz do século XIX e no nó mais denso do tecido complexo da civilização. [?] A arte, as investigações intelectuais, o desenvolvimento das ciências, múltiplos sectores de actividade universitária, floresceram numa estreita proximidade espacial e temporal relativamente aos campos de extermínio. Ao contrário do que acontecia nas fantasias das fábulas apocalípticas do século XIX, a barbárie irrompeu do coração da Europa.»
"GEORGE STEINER, in Bluebeard's Castle
sábado, 1 de novembro de 2003
"Señas de nuestro tiempo
: [Marcial Romero]
'Una pieza de teatro que corresponda a la situación del mundo
hoy. ¿De qué debería tratar? De la respiración desasosegada.'
(E. Canetti, 1979, Apuntes 1973-1984)
Nuestro tiempo como preocupación, como problemático, como desorientación, como cierre y apertura, como tiempo que navega en aguas turbulentas, como tiempo histórico y a-histórico, vamos, un tiempo de orillas, en el que el puente entre el antes y el después está roto (1).
Hay que reconocer que nuestro siglo XX ha resultado un tiempo emocionalmente intenso, a poco que nos fijemos en los constantes movimientos de masas humanas reventadas en el orbe mundial (2) o en la violencia endémica que afecta a poblaciones enteras. Y esta ya es una razón suficiente que empuja por sí misma a pararse a considerarlo. La idea de nuestro tiempo no puede borrar esta memoria fatídica, cruel y dolorosa (3). Nuestro tiempo está impregnado de ese blanco y negro nocturno de entreguerras que, sobre todo en Occidente, ha mantenido a nuestros abuelos y padres en una rumia de víctimas y verdugos (4): una constante reiteración de la muerte. (...) "
: [Marcial Romero]
'Una pieza de teatro que corresponda a la situación del mundo
hoy. ¿De qué debería tratar? De la respiración desasosegada.'
(E. Canetti, 1979, Apuntes 1973-1984)
Nuestro tiempo como preocupación, como problemático, como desorientación, como cierre y apertura, como tiempo que navega en aguas turbulentas, como tiempo histórico y a-histórico, vamos, un tiempo de orillas, en el que el puente entre el antes y el después está roto (1).
Hay que reconocer que nuestro siglo XX ha resultado un tiempo emocionalmente intenso, a poco que nos fijemos en los constantes movimientos de masas humanas reventadas en el orbe mundial (2) o en la violencia endémica que afecta a poblaciones enteras. Y esta ya es una razón suficiente que empuja por sí misma a pararse a considerarlo. La idea de nuestro tiempo no puede borrar esta memoria fatídica, cruel y dolorosa (3). Nuestro tiempo está impregnado de ese blanco y negro nocturno de entreguerras que, sobre todo en Occidente, ha mantenido a nuestros abuelos y padres en una rumia de víctimas y verdugos (4): una constante reiteración de la muerte. (...) "
La vida y la poesía
Entrevista: Francisco Brines -nº 22 Espéculo (UCM): "Es que el hombre no es el poeta. La vida es una cosa y la poesía otra. La poesía es un espejo al que nos asomamos y en el que aparece un personaje que no tiene nuestro rostro, pero que sabemos somos nosotros, pero nosotros de una manera muy peculiar; es como cuando aparecemos u aparecen personas que nos son cercanas en los sueños: somos nosotros o ellas, pero con otro rostro. La poesía devela aspectos oscuros y desconocidos en nosotros y que sólo por el método poético llegamos a conocer; pero también podemos opacar otros que son muy nuestros."
Francisco Brines, 2003
Entrevista: Francisco Brines -nº 22 Espéculo (UCM): "Es que el hombre no es el poeta. La vida es una cosa y la poesía otra. La poesía es un espejo al que nos asomamos y en el que aparece un personaje que no tiene nuestro rostro, pero que sabemos somos nosotros, pero nosotros de una manera muy peculiar; es como cuando aparecemos u aparecen personas que nos son cercanas en los sueños: somos nosotros o ellas, pero con otro rostro. La poesía devela aspectos oscuros y desconocidos en nosotros y que sólo por el método poético llegamos a conocer; pero también podemos opacar otros que son muy nuestros."
Francisco Brines, 2003
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