Maria de Lourdes Pintasilgo (1930-2004)
Obrigado, agora, para sempre
"Descobri que certos homens e certas mulheres, com quem partilhamos a terra e o tempo históricos, através de um verso, de um canto, de uma frase, nos iluminam os caminhos por onde tentamos chegar mais longe e mais alto. E aí encontrei as razões de uma admiração, que não tinha do "pintasilguismo presidencial", de que aliás não comunguei.
Por isso, mais do que parabéns, lhe disse obrigado.
Obrigado, agora, para sempre, querida Maria de Lourdes".
Adelino Gomes
Maria de Lourdes
"O que mais me dói, minha Amiga, é saber que partiu na mágoa de um estranho momento da vida do seu país. Dói-me saber que a pressa que vestiu para a viagem, tenha sido ela própria tecida a fios de uma dor, fulminante de tão inconformada. Não o merecia, Maria de Lourdes, não o merecíamos.
Quero que saiba que os seus ensinamentos e exemplos permanecem muito vivos em mim e que, passado o desconcerto da notícia sobre a sua partida, ficaram hoje ainda mais reforçados como lição maior do que é o direito e o dever de cada um de nós de contribuir para o bem da res publica - da polis do nosso terreiro e da polis do grande quintal que é o mundo.
Falo do bem, minha Amiga, porque foi a dar-lhe brilho que sempre aplicou a sua inteligência, tão curiosa sobre todas as coisas, tão imaginativa, tão a favor das pessoas, sobretudo das que a seu favor pouco ou nada têm e pouco ou nada lhes é proposto que tenham.
Falo do bem, minha Amiga, porque o bem é uma categoria fundadora da vida privada e da vida pública dos homens e porque, com impúdica desonra e cobardia, muitos dos que em nosso nome falam e decidem, dão sinais de lhe ignorarem os atributos e as exigências.
Nesta hora de despedida, quero ainda que saiba, Maria de Lourdes, que me sinto credora da sua voz e que vou tentar merecer, sem desfalecimentos, o legado da sua herança".
Maria João Seixas
«Eis-nos sitiados»
«Deus não vem fazer aquilo que o homem não foi capaz de fazer (...). Deus deixa acontecer e toma à sua própria conta com as fatalidades da História como se tivesse provocado e querido. Deus da História, mesmo assim? Sem dúvida. Mas não do alto como um produtor de marionetas. Deus da História nos seus avanços e recuos. (...) E nós? No fundo de nós mesmos sentimo-nos sitiados . De todos os lados nos vem a imagem desoladora da nossa incapacidade para gerirmos o planeta, a nossa cidade, as nossas coisas, os nossos afectos . Que fazer então? Denunciar. Dizer. Enunciar os erros em que caímos, os becos sem saída deste mundo, do país da sociedade dos nossos afectos. Mas aí rebenta o grande escândalo (...) Porque nas sociedades entorpecidas por falsas visões não é tido por conveniente denunciar a injustiça, o erro, a ilusão. Nem sequer a zona mais íntima dos nossos afectos segue leis diferentes.»
Maria de Lourdes Pintasilgo
Do livro 'Dimensões da Mudança'
domingo, 11 de julho de 2004
quarta-feira, 7 de julho de 2004
Quem sou eu?
"Quando, três ou quatro anos atrás, passou pelo Brasil, Jostein deu uma entrevista brilhante à TV Cultura de São Paulo. E a idéia forte em torno da qual se construiu a conversa foi essa de que ninguém descobrirá quem é se apenas olhar para si próprio. "
Carlos Chaparro
in Comunique-se, 1.7.2004
"Quando, três ou quatro anos atrás, passou pelo Brasil, Jostein deu uma entrevista brilhante à TV Cultura de São Paulo. E a idéia forte em torno da qual se construiu a conversa foi essa de que ninguém descobrirá quem é se apenas olhar para si próprio. "
Carlos Chaparro
in Comunique-se, 1.7.2004
sexta-feira, 2 de julho de 2004
sexta-feira, 25 de junho de 2004
Almodovar: "Mala educación"
Na newsletter da SIGNIS:
"In recent years, he has perfected his style, his ability to create intelligent melodramas, channel his flamboyant still into thoughtful and moving explorations of the human experience, often bizarre experiences. 'All About My Mother' won the Ecumenical award at Cannes in 1999.
'Bad Education' has been in planning stages for many years. In 2002, when Almodovar announced that he would move into production, there were immediate claims that the film would be anti-clerical. It would be a film about his own experiences of Catholic education in Spanish schools of the 1960s. This was re-iterated in articles and interviews and was the first question at the press conference in Cannes where 'Bad Education' was the film chosen for Opening Night.
However, Almodovar himself has been disclaiming the anti-clerical charge. He has said that had he made the film twenty years earlier, it would have been quite anti-clerical. He says now that he has mellowed and that, although he does not have what he calls 'the luxury' of believing in God, he values much of what he experienced in the Church (especially in liturgies, celebrations and art) during his childhood. He says he asked God to give him faith when he was a boy but God did not give it to him. He also said recently that the priests at school said that watching films was a sin and that he had to choose sin. These themes are incorporated into 'Bad Education'."
Na newsletter da SIGNIS:
"In recent years, he has perfected his style, his ability to create intelligent melodramas, channel his flamboyant still into thoughtful and moving explorations of the human experience, often bizarre experiences. 'All About My Mother' won the Ecumenical award at Cannes in 1999.
'Bad Education' has been in planning stages for many years. In 2002, when Almodovar announced that he would move into production, there were immediate claims that the film would be anti-clerical. It would be a film about his own experiences of Catholic education in Spanish schools of the 1960s. This was re-iterated in articles and interviews and was the first question at the press conference in Cannes where 'Bad Education' was the film chosen for Opening Night.
However, Almodovar himself has been disclaiming the anti-clerical charge. He has said that had he made the film twenty years earlier, it would have been quite anti-clerical. He says now that he has mellowed and that, although he does not have what he calls 'the luxury' of believing in God, he values much of what he experienced in the Church (especially in liturgies, celebrations and art) during his childhood. He says he asked God to give him faith when he was a boy but God did not give it to him. He also said recently that the priests at school said that watching films was a sin and that he had to choose sin. These themes are incorporated into 'Bad Education'."
quinta-feira, 3 de junho de 2004
Cristãos?
Francisco Sarsfield Cabral, in Público, 3.5.2004
Um dos traços da recente evolução política nos Estados Unidos está na força eleitoral que ganhou a chamada direita cristã, hoje a mais importante base de apoio dos Republicanos. A um europeu custa imaginar que muitos americanos ainda considerem blasfema a teoria da evolução de Darwin. Mas, para os fundamentalistas, que são sobretudo protestantes evangélicos, a Bíblia tem apenas o sentido literal. O que os leva, também, a considerarem que a Palestina pertence a Israel por direito divino - daí a viragem de Washington a favor de Sharon. E os movimentos anti-aborto dos fundamentalistas não vêem contradição entre serem pró-vida e apoiarem com entusiasmo a pena de morte.
Só que falta ao actual poder em Washington o sentido ético que seria de esperar de cristãos. Não são apenas as ligações da Administração Bush a interesses económicos, como os petrolíferos ou a Enron. É o olímpico desprezo que esse Governo manifesta por tratados, pelo direito internacional, pelos aliados e pelos direitos dos suspeitos de terrorismo. Talvez sem se darem conta, estes propagandistas de valores alegadamente cristãos são, afinal, cultores pós-modernos do relativismo moral, fascinados pelo seu próprio poderio militar. Por isso prevalece o direito da força sobre a força do direito, como notou o Vaticano. Por isso Bush e o seu unilateralismo contrariam a importância que João Paulo II (como antes Paulo VI) atribui à ONU e à cooperação internacional. Por isso, ainda, o Papa se opôs à guerra do Iraque - e vê-se agora como tinha razão.
A retórica pretensamente cristã da Casa Branca e apoiantes servirá para ganhar votos. Mas ela encobre uma forma virulenta de paganismo, que valoriza acima de tudo o dinheiro e a força.
Francisco Sarsfield Cabral, in Público, 3.5.2004
Um dos traços da recente evolução política nos Estados Unidos está na força eleitoral que ganhou a chamada direita cristã, hoje a mais importante base de apoio dos Republicanos. A um europeu custa imaginar que muitos americanos ainda considerem blasfema a teoria da evolução de Darwin. Mas, para os fundamentalistas, que são sobretudo protestantes evangélicos, a Bíblia tem apenas o sentido literal. O que os leva, também, a considerarem que a Palestina pertence a Israel por direito divino - daí a viragem de Washington a favor de Sharon. E os movimentos anti-aborto dos fundamentalistas não vêem contradição entre serem pró-vida e apoiarem com entusiasmo a pena de morte.
Só que falta ao actual poder em Washington o sentido ético que seria de esperar de cristãos. Não são apenas as ligações da Administração Bush a interesses económicos, como os petrolíferos ou a Enron. É o olímpico desprezo que esse Governo manifesta por tratados, pelo direito internacional, pelos aliados e pelos direitos dos suspeitos de terrorismo. Talvez sem se darem conta, estes propagandistas de valores alegadamente cristãos são, afinal, cultores pós-modernos do relativismo moral, fascinados pelo seu próprio poderio militar. Por isso prevalece o direito da força sobre a força do direito, como notou o Vaticano. Por isso Bush e o seu unilateralismo contrariam a importância que João Paulo II (como antes Paulo VI) atribui à ONU e à cooperação internacional. Por isso, ainda, o Papa se opôs à guerra do Iraque - e vê-se agora como tinha razão.
A retórica pretensamente cristã da Casa Branca e apoiantes servirá para ganhar votos. Mas ela encobre uma forma virulenta de paganismo, que valoriza acima de tudo o dinheiro e a força.
segunda-feira, 31 de maio de 2004
Futebol, a nova religião
"(...)São sinais que resultam de o futebol se ter transformado numa nova religião, uma religião laica, com a sua ideologia, a sua fé, as suas massas, as suas cerimónias e ritos, as suas "catedrais" e clero, a sua economia. Não admira que a Conferência Episcopal portuguesa tenha alertado há meses, em invulgar comunicado, para o peso excessivo que o futebol vem assumindo no país: o futebol é, de facto, a única crença e instituição que pode tomar o lugar do catolicismo na sociedade portuguesa.
Apesar dos conflitos entre clubes e seus adeptos, o futebol une a nação: une pobres e ricos em torno do mesmo tema, o único possível para esse diálogo; une os portugueses até nas divergências, pois no futebol mesmo o ódio fornece uma linguagem comum a todos, que substitui a da religião. Ora, ao fazê-lo, o futebol fornece muito do que é necessário para se manter a coesão social. Em democracia, a política precisa dessa única linguagem comum na sociedade, e por isso apropria-se dela.
Além disso, o futebol substitui o debate sobre os problemas sociais, económicos e políticos, o que é um alívio para todos os políticos, nomeadamente para os que estão no poder. Se o povo falasse de política como fala de futebol nem os do Bloco de Esquerda tinham descanso perante a descoberta das suas carecas, quanto mais os partidos da área do poder governativo."
Eduardo Cintra Torres, Público, 31.5.2004
"(...)São sinais que resultam de o futebol se ter transformado numa nova religião, uma religião laica, com a sua ideologia, a sua fé, as suas massas, as suas cerimónias e ritos, as suas "catedrais" e clero, a sua economia. Não admira que a Conferência Episcopal portuguesa tenha alertado há meses, em invulgar comunicado, para o peso excessivo que o futebol vem assumindo no país: o futebol é, de facto, a única crença e instituição que pode tomar o lugar do catolicismo na sociedade portuguesa.
Apesar dos conflitos entre clubes e seus adeptos, o futebol une a nação: une pobres e ricos em torno do mesmo tema, o único possível para esse diálogo; une os portugueses até nas divergências, pois no futebol mesmo o ódio fornece uma linguagem comum a todos, que substitui a da religião. Ora, ao fazê-lo, o futebol fornece muito do que é necessário para se manter a coesão social. Em democracia, a política precisa dessa única linguagem comum na sociedade, e por isso apropria-se dela.
Além disso, o futebol substitui o debate sobre os problemas sociais, económicos e políticos, o que é um alívio para todos os políticos, nomeadamente para os que estão no poder. Se o povo falasse de política como fala de futebol nem os do Bloco de Esquerda tinham descanso perante a descoberta das suas carecas, quanto mais os partidos da área do poder governativo."
Eduardo Cintra Torres, Público, 31.5.2004
quarta-feira, 19 de maio de 2004
Concordata
António Costa Pinto, no DN:
"A Concordata da democracia foi finalmente assinada. Ultrapassamos assim a do Estado Novo, assinada em 1940 por um devoto Salazar, ainda que renitente em oferecer à Igreja Católica tudo o que ela queria. Precisávamos de uma nova ou bastava deixar cair a antiga? Os Estados democráticos não ganham muito com elas, mas a história é madrasta e a das relações entre Estado e Igreja no século XX não foi famosa.
A 1.ª República viu na Igreja um dos factores centrais do atraso português, tentou «limpar-lhe» a base de apoio e levou com ela em cima no final dos anos 20. Ainda assim, Salazar, apesar de pio católico, esteve longe das concessões do seu vizinho Franco e manteve grande parte da herança republicana.
O salazarismo ofereceu à Igreja grande parte do «monopólio das almas», o que para uma ditadura de direita até não foi mau.
A alternativa não seria a democrática, mas a fascista dos braços estendidos, bem mais preocupante. A Concordata de 1940 cede no divórcio e em muito mais, mas pede a «catolicização do império», ainda muito atrasada. Nos anos 50, a Acção Católica já mobilizava mais do que o Regime e dominava muito das suas organizações oficiais, e Salazar teme a dissidência. Esta acabou por vir, pois a Igreja Católica, ao contrário do que pensam os que a vêem de fora, é mais plural do que eles imaginam. Dito isto, em termos de teoria política liberal não sei se precisávamos de uma nova Concordata. Mas, lido o texto, também não se vê grande mal no que foi assinado."
António Costa Pinto, no DN:
"A Concordata da democracia foi finalmente assinada. Ultrapassamos assim a do Estado Novo, assinada em 1940 por um devoto Salazar, ainda que renitente em oferecer à Igreja Católica tudo o que ela queria. Precisávamos de uma nova ou bastava deixar cair a antiga? Os Estados democráticos não ganham muito com elas, mas a história é madrasta e a das relações entre Estado e Igreja no século XX não foi famosa.
A 1.ª República viu na Igreja um dos factores centrais do atraso português, tentou «limpar-lhe» a base de apoio e levou com ela em cima no final dos anos 20. Ainda assim, Salazar, apesar de pio católico, esteve longe das concessões do seu vizinho Franco e manteve grande parte da herança republicana.
O salazarismo ofereceu à Igreja grande parte do «monopólio das almas», o que para uma ditadura de direita até não foi mau.
A alternativa não seria a democrática, mas a fascista dos braços estendidos, bem mais preocupante. A Concordata de 1940 cede no divórcio e em muito mais, mas pede a «catolicização do império», ainda muito atrasada. Nos anos 50, a Acção Católica já mobilizava mais do que o Regime e dominava muito das suas organizações oficiais, e Salazar teme a dissidência. Esta acabou por vir, pois a Igreja Católica, ao contrário do que pensam os que a vêem de fora, é mais plural do que eles imaginam. Dito isto, em termos de teoria política liberal não sei se precisávamos de uma nova Concordata. Mas, lido o texto, também não se vê grande mal no que foi assinado."
terça-feira, 18 de maio de 2004
Quatro perguntas sobre a Concordata
António Marujo, no Público: Quatro perguntas sobre a Concordata:
"Era necessária uma nova Concordata?
Quando o Governo presidido por António Guterres decidiu encetar o processo de elaborar uma nova Lei de Liberdade Religiosa (LLR), debateu-se a necessidade de um acordo específico com a Igreja Católica. Para alguns, esta deveria entrar na lógica das restantes confissões religiosas, submetendo-se à lei geral. Para outros, o facto de ser a confissão maioritária dos portugueses deveria levar o Estado a contemplar essa especificidade. O próprio patriarca de Lisboa, entrando no debate, admitiu (entrevista ao Público, Junho de 2001) que uma lei seria suficiente, mas que a Concordata dava aos católicos portugueses 'uma estabilidade legislativa' que uma lei ordinária não permitiria.
Na radicalidade da sua doutrina, o cristianismo afirma-se despojado e desligado do poder - mesmo se, em vários momentos da História, o poder foi (muito mal) ligado à profissão da fé e exercido de forma arbitrária. Aceitar um tratado internacional que dê determinadas garantias à comunidade dos crentes do país estaria assim em contradição - ou pelo menos em desacordo - com aquela perspectiva.
O problema está na 'estabilidade' legislativa que a Concordata garante - ao contrário da lei ordinária, que poderia variar ao sabor das maiorias governativas. A hierarquia católica, escaldada pela História - Marquês de Pombal, liberalismo, I República - preferiu jogar à defesa. Ainda mais com alguns argumentos ouvidos durante o debate sobre a LLR e a Concordata, que faziam temer o pior: colocavam a dimensão religiosa como legítima para a sacristia ou mesmo para qualquer esfera extra-terrestre. Para os crentes, e para o cristianismo em particular, a fé tem uma dimensão pública que não se pode escamotear - e que o Estado, representando todos os cidadãos, tem o dever de levar em conta em todos os aspectos, já que também contempla a dimensão educativa, cultural, de saúde, desportiva ou outras.
Jogando à defesa, a hierarquia católica não arriscou o que poderia ter arriscado. Poderia tê-lo feito e com isso estaria a ser mais profética, como se diz em linguagem teológica. Mas, pesando uma e outra argumentação, aceita-se que, neste momento, possa haver uma nova Concordata. (...)"
Continuar a ler AQUI.
António Marujo, no Público: Quatro perguntas sobre a Concordata:
"Era necessária uma nova Concordata?
Quando o Governo presidido por António Guterres decidiu encetar o processo de elaborar uma nova Lei de Liberdade Religiosa (LLR), debateu-se a necessidade de um acordo específico com a Igreja Católica. Para alguns, esta deveria entrar na lógica das restantes confissões religiosas, submetendo-se à lei geral. Para outros, o facto de ser a confissão maioritária dos portugueses deveria levar o Estado a contemplar essa especificidade. O próprio patriarca de Lisboa, entrando no debate, admitiu (entrevista ao Público, Junho de 2001) que uma lei seria suficiente, mas que a Concordata dava aos católicos portugueses 'uma estabilidade legislativa' que uma lei ordinária não permitiria.
Na radicalidade da sua doutrina, o cristianismo afirma-se despojado e desligado do poder - mesmo se, em vários momentos da História, o poder foi (muito mal) ligado à profissão da fé e exercido de forma arbitrária. Aceitar um tratado internacional que dê determinadas garantias à comunidade dos crentes do país estaria assim em contradição - ou pelo menos em desacordo - com aquela perspectiva.
O problema está na 'estabilidade' legislativa que a Concordata garante - ao contrário da lei ordinária, que poderia variar ao sabor das maiorias governativas. A hierarquia católica, escaldada pela História - Marquês de Pombal, liberalismo, I República - preferiu jogar à defesa. Ainda mais com alguns argumentos ouvidos durante o debate sobre a LLR e a Concordata, que faziam temer o pior: colocavam a dimensão religiosa como legítima para a sacristia ou mesmo para qualquer esfera extra-terrestre. Para os crentes, e para o cristianismo em particular, a fé tem uma dimensão pública que não se pode escamotear - e que o Estado, representando todos os cidadãos, tem o dever de levar em conta em todos os aspectos, já que também contempla a dimensão educativa, cultural, de saúde, desportiva ou outras.
Jogando à defesa, a hierarquia católica não arriscou o que poderia ter arriscado. Poderia tê-lo feito e com isso estaria a ser mais profética, como se diz em linguagem teológica. Mas, pesando uma e outra argumentação, aceita-se que, neste momento, possa haver uma nova Concordata. (...)"
Continuar a ler AQUI.
segunda-feira, 10 de maio de 2004
As religiões e a cultura da Paz
Frei Bento Domingues
Mário Figueirinhas Editor, Porto, 2004
Este livro, que tem o prefácio de Lídia Jorge, é hoje apresentado no Porto, nos anexos da Igreja de Cristo Rei (à Avenida Gomes da Costa), pelas 18.30. A ocasião será pretexto também para uma homenagem ao editor, promovida pela Paróquia de Cristo Rei e pelo Centro D. António Ferreira Gomes.
Frei Bento Domingues
Mário Figueirinhas Editor, Porto, 2004
Este livro, que tem o prefácio de Lídia Jorge, é hoje apresentado no Porto, nos anexos da Igreja de Cristo Rei (à Avenida Gomes da Costa), pelas 18.30. A ocasião será pretexto também para uma homenagem ao editor, promovida pela Paróquia de Cristo Rei e pelo Centro D. António Ferreira Gomes.
domingo, 2 de maio de 2004
Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA:
"We worship the prince of peace, not war"
"When I was younger, almost all Baptists were strongly committed on a theological basis to the separation of church and state. It was only 25 years ago when there began to be a melding of the Republican Party with fundamentalist Christianity, particularly with the Southern Baptist Convention. This is a fairly new development, and I think it was brought about by the abandonment of some of the basic principles of Christianity.
First of all, we worship the prince of peace, not war. And those of us who have advocated for the resolution of international conflict in a peaceful fashion are looked upon as being unpatriotic, branded that way by right-wing religious groups, the Bush administration, and other Republicans.
Secondly, Christ was committed to compassion for the most destitute, poor, needy, and forgotten people in our society. Today there is a stark difference [between conservative ideology and Christian teaching] because most of the people most strongly committed to the Republican philosophy have adopted the proposition that help for the rich is the best way to help even poor people (by letting some of the financial benefits drip down to those most deeply in need). I would say there has been a schism drawn – on theology and practical politics and economics between the two groups."
Former President Jimmy Carter, America's first evangelical Christian president
in The American Prospect
April 9, 2004
"We worship the prince of peace, not war"
"When I was younger, almost all Baptists were strongly committed on a theological basis to the separation of church and state. It was only 25 years ago when there began to be a melding of the Republican Party with fundamentalist Christianity, particularly with the Southern Baptist Convention. This is a fairly new development, and I think it was brought about by the abandonment of some of the basic principles of Christianity.
First of all, we worship the prince of peace, not war. And those of us who have advocated for the resolution of international conflict in a peaceful fashion are looked upon as being unpatriotic, branded that way by right-wing religious groups, the Bush administration, and other Republicans.
Secondly, Christ was committed to compassion for the most destitute, poor, needy, and forgotten people in our society. Today there is a stark difference [between conservative ideology and Christian teaching] because most of the people most strongly committed to the Republican philosophy have adopted the proposition that help for the rich is the best way to help even poor people (by letting some of the financial benefits drip down to those most deeply in need). I would say there has been a schism drawn – on theology and practical politics and economics between the two groups."
Former President Jimmy Carter, America's first evangelical Christian president
in The American Prospect
April 9, 2004
segunda-feira, 26 de abril de 2004
"Buscando a Deus"
por ISAAC DÍAZ PARDO, in La Voz de Galicia, 26.4.2004
ESTES DÍAS anduvo por Galicia Adolfo Pérez Esquivel, premio Nobel da Paz no 1980 pola súa loita na defensa dos dereitos humanos.
Pérez Esquivel fíxose arquitecto e escultor na Universidade de La Plata [La Plata é a capital da provincia de Buenos Aires]. Católico militante, fundou no 1974 o Servicio de Paz y Justicia, o que o enfrentou ás dictaduras que padeceu o cono sur de América ao denunciar as atrocidades cometidas polo rexímenes militares que o tiveron detido e torturado, e en algunha ocasión con bispos da nova interpretación da ciencia do amor ao próximo que ilumina a algúns seres buscando en Deus unha solución ás discordias humanas na paz e na xustiza. Mais este é un mundo difícil no que prevalecen os sistemas económicos inxustos e a violencia como forma de manter a inxustiza -ás veces disfrazada de xustiza- como defensa dos intereses económicos dos privilexiados.
Non é só Pérez Esquivel quen anda detrás da paz e da xustiza coa súa fe de crente convencido, axudando aos que sufren a miseria e a explotación, cunha aptitude admirable, nun mundo no que non se lle ve solución a este animal recén saído da selva, pois non se sabe por onde vai cun predominio dos que andan a buscar petróleo, e outros negocios, e non perden o tempo en buscar a Deus.
Este arxentino é verdadeiramente un iluminado, algo ten que ver coa súa formación de artista, de arquitecto, que influiron na súa sensibilidade. Penso que cando hai autenticidade, xa sexa plástico ou poeta, o ser atópase como proido polas causas xustas. Se teño algún lector, invítoo a que analice a obra material ou inmaterial dos que acadaron trascendencia para ver nela o compromiso que tiveron os outros autores coa sorte dos homes. Pero o mundo é así: uns poucos idealistas entre moitos que só están a sacar tallada con todo e coa obra que fan outros.
Tiven que acompañar a Esquivel na súa conferencia en Oleiros, e só se me ocorreu saudalo con aquel poema de León Felipe no que di: «Hay un hombre que trafica con las cosas / y otro hombre que las quiere organizar / el organizador es el artista [dixen sinalando a el] el otro es el chalán / y la lucha en el mundo ha sido siempre / entre artistas y chalanes nada más».
Aínda que sexan poucos, Esquivel non está solo na búsqueda de Deus na paz e na xustiza. De algunha maneira esta especie que somos, que en algún momento adquiriu conciencia de si mesmo, e aprendeu a chorar polos males alleos cando a sorrir pola súa felicidade, empezou a preguntarse que facemos acó, de onde vimos, para que vimos, e así empezamos a buscar a Deus, dende o eido no que nacemos, con sabor a esa terra e á súa circunstancia, para xustificar a nosa vida. Non importa a existencia, ou non, do ser que nos axuda, pois o seu existir, ou non, ficará a pesar das nosas crenzas.
Eu remataba de estar cun amigo que non cre na convivencia co mundo musulmán, que só tentará eliminarnos, polo que tivemos que botalos da Península. Meu amigo non sabe que botamos aos mouros, aos xudeus e aos republicanos.
Esquivel cre que non importa a diferencia de credos, que temos que entendernos respectando as crenzas da cada quen.
por ISAAC DÍAZ PARDO, in La Voz de Galicia, 26.4.2004
ESTES DÍAS anduvo por Galicia Adolfo Pérez Esquivel, premio Nobel da Paz no 1980 pola súa loita na defensa dos dereitos humanos.
Pérez Esquivel fíxose arquitecto e escultor na Universidade de La Plata [La Plata é a capital da provincia de Buenos Aires]. Católico militante, fundou no 1974 o Servicio de Paz y Justicia, o que o enfrentou ás dictaduras que padeceu o cono sur de América ao denunciar as atrocidades cometidas polo rexímenes militares que o tiveron detido e torturado, e en algunha ocasión con bispos da nova interpretación da ciencia do amor ao próximo que ilumina a algúns seres buscando en Deus unha solución ás discordias humanas na paz e na xustiza. Mais este é un mundo difícil no que prevalecen os sistemas económicos inxustos e a violencia como forma de manter a inxustiza -ás veces disfrazada de xustiza- como defensa dos intereses económicos dos privilexiados.
Non é só Pérez Esquivel quen anda detrás da paz e da xustiza coa súa fe de crente convencido, axudando aos que sufren a miseria e a explotación, cunha aptitude admirable, nun mundo no que non se lle ve solución a este animal recén saído da selva, pois non se sabe por onde vai cun predominio dos que andan a buscar petróleo, e outros negocios, e non perden o tempo en buscar a Deus.
Este arxentino é verdadeiramente un iluminado, algo ten que ver coa súa formación de artista, de arquitecto, que influiron na súa sensibilidade. Penso que cando hai autenticidade, xa sexa plástico ou poeta, o ser atópase como proido polas causas xustas. Se teño algún lector, invítoo a que analice a obra material ou inmaterial dos que acadaron trascendencia para ver nela o compromiso que tiveron os outros autores coa sorte dos homes. Pero o mundo é así: uns poucos idealistas entre moitos que só están a sacar tallada con todo e coa obra que fan outros.
Tiven que acompañar a Esquivel na súa conferencia en Oleiros, e só se me ocorreu saudalo con aquel poema de León Felipe no que di: «Hay un hombre que trafica con las cosas / y otro hombre que las quiere organizar / el organizador es el artista [dixen sinalando a el] el otro es el chalán / y la lucha en el mundo ha sido siempre / entre artistas y chalanes nada más».
Aínda que sexan poucos, Esquivel non está solo na búsqueda de Deus na paz e na xustiza. De algunha maneira esta especie que somos, que en algún momento adquiriu conciencia de si mesmo, e aprendeu a chorar polos males alleos cando a sorrir pola súa felicidade, empezou a preguntarse que facemos acó, de onde vimos, para que vimos, e así empezamos a buscar a Deus, dende o eido no que nacemos, con sabor a esa terra e á súa circunstancia, para xustificar a nosa vida. Non importa a existencia, ou non, do ser que nos axuda, pois o seu existir, ou non, ficará a pesar das nosas crenzas.
Eu remataba de estar cun amigo que non cre na convivencia co mundo musulmán, que só tentará eliminarnos, polo que tivemos que botalos da Península. Meu amigo non sabe que botamos aos mouros, aos xudeus e aos republicanos.
Esquivel cre que non importa a diferencia de credos, que temos que entendernos respectando as crenzas da cada quen.
quarta-feira, 14 de abril de 2004
Homens muito voltados para um modo de ver
"(...)
Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber
Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo o lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior"
Daniel Faria
"Homens que são como lugares mal situados"
"(...)
Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber
Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo o lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior"
Daniel Faria
"Homens que são como lugares mal situados"
domingo, 11 de abril de 2004
"Tempos difíceis"
António Barreto, no Público, hoje:
"Há tempos assim, em que nos querem encostados à parede, em que vivemos rodeados de círculos de fogo, em que a razão é substituída por um qualquer automatismo, em que o pensamento mecânico vive do preconceito e da dependência e em que o cliché e a banalidade substituem o esforço de raciocínio rigoroso e independente. Há tempos assim, em que é preciso estar com alguém, em que é necessário estar contra alguém, em que tudo nos empurra para ser branco ou preto, em que nos querem obrigar a vestir uma camisola, em que contrariar um amigo faz de nós seu inimigo, em que ter opinião diferente de um aliado faz de nós um adversário, em que pensar livremente é sinónimo de traição, em que reconhecer uma qualquer razão a alguém implica estar ao seu serviço e em que a autonomia de espírito é a todos os títulos condenada. Há tempos assim, em que o medo impede de pensar livremente, em que o receio leva a ceder à violência e em que o pavor obriga a curvar perante o terror. (...)"
António Barreto, no Público, hoje:
"Há tempos assim, em que nos querem encostados à parede, em que vivemos rodeados de círculos de fogo, em que a razão é substituída por um qualquer automatismo, em que o pensamento mecânico vive do preconceito e da dependência e em que o cliché e a banalidade substituem o esforço de raciocínio rigoroso e independente. Há tempos assim, em que é preciso estar com alguém, em que é necessário estar contra alguém, em que tudo nos empurra para ser branco ou preto, em que nos querem obrigar a vestir uma camisola, em que contrariar um amigo faz de nós seu inimigo, em que ter opinião diferente de um aliado faz de nós um adversário, em que pensar livremente é sinónimo de traição, em que reconhecer uma qualquer razão a alguém implica estar ao seu serviço e em que a autonomia de espírito é a todos os títulos condenada. Há tempos assim, em que o medo impede de pensar livremente, em que o receio leva a ceder à violência e em que o pavor obriga a curvar perante o terror. (...)"
sábado, 10 de abril de 2004
Tempos de inquietude
Há um sentido do acreditar que leva a lançar um olhar beato sobre a vida e o mundo, cuidando que as coisas se encaminharão finalmente num sentido positivo. Não sou especialmente sensível a esse modo de estar na vida. Acredito que o futuro é maior do que o nosso esforço, mas que não prescinde dele.
E por isso me inquieto com o que sou, o que vejo, o que oiço.
Vivi os dois últimos meses em Espanha, perto das inquietações e das perguntas que, como um enorme cogumelo depois da explosão, os atentados do 11 de Março levantaram.
Li e ouvi bastante. Quase não vi televisão. Falei com muita gente. Inquietei-me com os termos de referência de uma parte dos debates. Senti a falta de instrumentos e de conceitos para pensar o que se passa no mundo, intuindo que algo de muito fundo está a emergir.
Sendo cada vez mais claro que as sociedades se têm de defender do terror, não menos claro é que não podem construir a sua casa sobre o medo e o retraimento. Muito menos sobre a guerra.
Mas o temor do Outro, o desinteresse e a ignorância pela sua história, pela sua situação são tão grandes como o nosso etnocentrismo. Os muros que, cegos, erguemos, esbarram com esse dado básico que é estarem do lado de cá aqueles que queremos deixar extra-muros. E estão do lado de cá porque precisamos deles. Isto é, precisamos deles e temos medo deles. Um paradoxo? A História está cheia de tais paradoxos.
Há um sentido do acreditar que leva a lançar um olhar beato sobre a vida e o mundo, cuidando que as coisas se encaminharão finalmente num sentido positivo. Não sou especialmente sensível a esse modo de estar na vida. Acredito que o futuro é maior do que o nosso esforço, mas que não prescinde dele.
E por isso me inquieto com o que sou, o que vejo, o que oiço.
Vivi os dois últimos meses em Espanha, perto das inquietações e das perguntas que, como um enorme cogumelo depois da explosão, os atentados do 11 de Março levantaram.
Li e ouvi bastante. Quase não vi televisão. Falei com muita gente. Inquietei-me com os termos de referência de uma parte dos debates. Senti a falta de instrumentos e de conceitos para pensar o que se passa no mundo, intuindo que algo de muito fundo está a emergir.
Sendo cada vez mais claro que as sociedades se têm de defender do terror, não menos claro é que não podem construir a sua casa sobre o medo e o retraimento. Muito menos sobre a guerra.
Mas o temor do Outro, o desinteresse e a ignorância pela sua história, pela sua situação são tão grandes como o nosso etnocentrismo. Os muros que, cegos, erguemos, esbarram com esse dado básico que é estarem do lado de cá aqueles que queremos deixar extra-muros. E estão do lado de cá porque precisamos deles. Isto é, precisamos deles e temos medo deles. Um paradoxo? A História está cheia de tais paradoxos.
Três princípios
"All forms of social communication (...) evidence three basic principles: the priority of truth -- we are never justified in recounting lies; the dignity of the individual -- our communication should enhance and not diminish our innate human dignity; the common good -- our communication should contribute to the good of the community and not harm it morally or in any other way."
John Foley, 28.3.2004
"All forms of social communication (...) evidence three basic principles: the priority of truth -- we are never justified in recounting lies; the dignity of the individual -- our communication should enhance and not diminish our innate human dignity; the common good -- our communication should contribute to the good of the community and not harm it morally or in any other way."
John Foley, 28.3.2004
sexta-feira, 9 de abril de 2004
"Uma barbaridade que fere toda a lógica"
No Jornal de Notícias de hoje:
"(...)Entre o domingo de Ramos e o domingo de Páscoa, a cidade dos arcebispos liberta o esplendor contido da espiritualidade construída durante 40 dias, em que o Santíssimo Sacramento é exposto à adoração dos fiéis (lausperene).
Mas, porque o objectivo é alargar o âmbito das celebrações, a comissão encarregue pela organização promoveu concertos corais-sinfónicos em muitas igrejas da cidade, para além da Sé. (...)"
No Público:
O bispo de Viana do Castelo proibiu "a realização de concertos ou outros eventos culturais em templos religiosos da sua diocese, por considerar que esses espaços devem ser utilizados exclusivamente para o culto ou para actos com ele relacionados."
Comentário de António Gonçalves:
"Uma pedrada no charco, finalmente. Perante o silêncio que é imposto nos templos religiosos da diocese de Viana do Castelo - no que diz respeito à audição de obras musicais de carácter erudito - pelo respectivo bispo, um produtor de espectáculos do género, David Martins, não se conteve e afirmou aquilo que muitos mais sabiam, e sabem, e não ousavam, nem ousam, dizer: "Uma barbaridade que fere toda a lógica".
No Jornal de Notícias de hoje:
"(...)Entre o domingo de Ramos e o domingo de Páscoa, a cidade dos arcebispos liberta o esplendor contido da espiritualidade construída durante 40 dias, em que o Santíssimo Sacramento é exposto à adoração dos fiéis (lausperene).
Mas, porque o objectivo é alargar o âmbito das celebrações, a comissão encarregue pela organização promoveu concertos corais-sinfónicos em muitas igrejas da cidade, para além da Sé. (...)"
No Público:
O bispo de Viana do Castelo proibiu "a realização de concertos ou outros eventos culturais em templos religiosos da sua diocese, por considerar que esses espaços devem ser utilizados exclusivamente para o culto ou para actos com ele relacionados."
Comentário de António Gonçalves:
"Uma pedrada no charco, finalmente. Perante o silêncio que é imposto nos templos religiosos da diocese de Viana do Castelo - no que diz respeito à audição de obras musicais de carácter erudito - pelo respectivo bispo, um produtor de espectáculos do género, David Martins, não se conteve e afirmou aquilo que muitos mais sabiam, e sabem, e não ousavam, nem ousam, dizer: "Uma barbaridade que fere toda a lógica".
quinta-feira, 8 de abril de 2004
FAITH ONLINE
A new national survey by the Pew Internet & American Life Project finds that nearly two-thirds of online Americans use the Internet for faith-related reasons. The 64% of Internet users who perform spiritual and religious activities online represent nearly 82 million Americans. Those who use the Internet for religious or spiritual purposes are more likely to be women, white, middle aged, college educated, and relatively well-to-do. In addition, they are somewhat more active as Internet users than the rest of the Internet population."There has been much speculation about the impact of the Internet on religion, particularly as increasing numbers of Americans have been turning to sources other than their own traditions and clergy," said Prof. Stewart Hoover of the University of Colorado at Boulder, the lead author of the Pew Internet Project report. "The survey provides clear evidence that the majority of the online faithful are there for personal spiritual reasons, including seeking outside their own traditions," Hoover added, "but they are also deeply grounded in those traditions, and this Internet activity supplements their ties to traditional institutions, rather than moving them away from church." The survey found that two-thirds of those who attend religious services weekly use the Internet for personal religious or spiritual purposes.
A new national survey by the Pew Internet & American Life Project finds that nearly two-thirds of online Americans use the Internet for faith-related reasons. The 64% of Internet users who perform spiritual and religious activities online represent nearly 82 million Americans. Those who use the Internet for religious or spiritual purposes are more likely to be women, white, middle aged, college educated, and relatively well-to-do. In addition, they are somewhat more active as Internet users than the rest of the Internet population."There has been much speculation about the impact of the Internet on religion, particularly as increasing numbers of Americans have been turning to sources other than their own traditions and clergy," said Prof. Stewart Hoover of the University of Colorado at Boulder, the lead author of the Pew Internet Project report. "The survey provides clear evidence that the majority of the online faithful are there for personal spiritual reasons, including seeking outside their own traditions," Hoover added, "but they are also deeply grounded in those traditions, and this Internet activity supplements their ties to traditional institutions, rather than moving them away from church." The survey found that two-thirds of those who attend religious services weekly use the Internet for personal religious or spiritual purposes.
quarta-feira, 31 de março de 2004
Parece mentira
Gabriel Perissé (*)
In Observatório da Imprensa, 30.3.2004
É célebre o paradoxo do mentiroso: Epimênides, sacerdote de Apolo, cretense que viveu no século VI a.C., disse de seus compatriotas: "Os cretenses mentem o tempo todo". Ora, se Epimênides é mais um cretense que vive dizendo mentiras... nem todos os cretenses serão mentirosos. Ou, talvez, Epimênides seja o único cretense capaz de dizer verdades, e a verdade, então, é que todos os cretenses são sempre mentirosos, exceto Epimênides.
A verdade mesmo é que ninguém consegue ser mentiroso 24 horas por dia. Mentir um dia cansa, e possivelmente o próprio Epimênides, mentiroso renitente, fez uma pausa e, sendo profeta, disse essa verdade, citada por Paulo em sua epístola a Tito, que ficara em Creta para difundir o cristianismo: "Dixit quidam ex illis, proprius ipsorum propheta: ‘Cretenses semper mendaces’."
Mas se mentir o tempo todo é impossível, dizer sempre a verdade não é nada fácil. A verdade, afirmou Platão, "é que a verdade é um alvo em que poucos acertam".
"O que é a verdade?" – perguntou o procurador romano Pôncio Pilatos a um judeu inocente, prestes a morrer de asfixia numa cruz: Quid est veritas? – Pergunta que não merecia resposta...
Mas houve uma resposta, silenciosa como tantas verdades verdadeiras. Por trás das mesmas quatorze letras da frase acima, o texto bíblico em latim deixou implícita, num anagrama, a frase demolidora: Est vir qui adest, ou seja: é o homem que está na tua presença, ele é a verdade.
A verdade é o ser humano, é a pessoa humana em sua radical presença. Nisto se assenta uma possível ética da comunicação. Somos pessoas, e nossa verdade como pessoas é critério para avaliar o que falamos/escrevemos, o que lemos/ouvimos.
Perdemos personalidade quando mentimos, ou quando acreditamos na mentira sabendo que de mentira se trata.
Perdemos liberdade quando mentimos, ou quando dizemos que tudo é verdade, mentira deslavada.
Perdemos tempo quando mentimos, ou quando fingimos não ter entendido a verdade, exclamando em tom de falsa surpresa: "Parece mentira!".
Perdemos amigos quando mentimos, ou (para alguns algo muito pior) perdemos clientes.
Perdemos leitores (e até eleitores) quando mentimos, ou quando aceitamos que mintam em nosso nome, ou, ainda, quando ficamos indiferentes — tanto faz, tanto fez, me deixem em paz.
Toda mentira supõe saber ou ter uma idéia da verdade. A verdade, sombra luminosa que acompanha a mentira, faz dela a notícia que amanhã esquecerei.
(*) Doutor em Educação pela USP e escritor
Gabriel Perissé (*)
In Observatório da Imprensa, 30.3.2004
É célebre o paradoxo do mentiroso: Epimênides, sacerdote de Apolo, cretense que viveu no século VI a.C., disse de seus compatriotas: "Os cretenses mentem o tempo todo". Ora, se Epimênides é mais um cretense que vive dizendo mentiras... nem todos os cretenses serão mentirosos. Ou, talvez, Epimênides seja o único cretense capaz de dizer verdades, e a verdade, então, é que todos os cretenses são sempre mentirosos, exceto Epimênides.
A verdade mesmo é que ninguém consegue ser mentiroso 24 horas por dia. Mentir um dia cansa, e possivelmente o próprio Epimênides, mentiroso renitente, fez uma pausa e, sendo profeta, disse essa verdade, citada por Paulo em sua epístola a Tito, que ficara em Creta para difundir o cristianismo: "Dixit quidam ex illis, proprius ipsorum propheta: ‘Cretenses semper mendaces’."
Mas se mentir o tempo todo é impossível, dizer sempre a verdade não é nada fácil. A verdade, afirmou Platão, "é que a verdade é um alvo em que poucos acertam".
"O que é a verdade?" – perguntou o procurador romano Pôncio Pilatos a um judeu inocente, prestes a morrer de asfixia numa cruz: Quid est veritas? – Pergunta que não merecia resposta...
Mas houve uma resposta, silenciosa como tantas verdades verdadeiras. Por trás das mesmas quatorze letras da frase acima, o texto bíblico em latim deixou implícita, num anagrama, a frase demolidora: Est vir qui adest, ou seja: é o homem que está na tua presença, ele é a verdade.
A verdade é o ser humano, é a pessoa humana em sua radical presença. Nisto se assenta uma possível ética da comunicação. Somos pessoas, e nossa verdade como pessoas é critério para avaliar o que falamos/escrevemos, o que lemos/ouvimos.
Perdemos personalidade quando mentimos, ou quando acreditamos na mentira sabendo que de mentira se trata.
Perdemos liberdade quando mentimos, ou quando dizemos que tudo é verdade, mentira deslavada.
Perdemos tempo quando mentimos, ou quando fingimos não ter entendido a verdade, exclamando em tom de falsa surpresa: "Parece mentira!".
Perdemos amigos quando mentimos, ou (para alguns algo muito pior) perdemos clientes.
Perdemos leitores (e até eleitores) quando mentimos, ou quando aceitamos que mintam em nosso nome, ou, ainda, quando ficamos indiferentes — tanto faz, tanto fez, me deixem em paz.
Toda mentira supõe saber ou ter uma idéia da verdade. A verdade, sombra luminosa que acompanha a mentira, faz dela a notícia que amanhã esquecerei.
(*) Doutor em Educação pela USP e escritor
sábado, 13 de março de 2004
UM OUTRO OLHAR
SOBRE AS DESIGUALDADES E A EXCLUSÃO SOCIAL
UM OUTRO COMPROMISSO
COM UM MUNDO MAIS JUSTO E SOLIDÁRIO
1. Nesta Quaresma de 2004, a CNJP vem dirigir-se aos cristãos, suas comunidades, organizações e movimentos, com um objectivo: convidar a uma paragem, a fim de, com verdade e abertura de coração, reflectirmos sobre a sociedade a que pertencemos, os seus problemas e opções, o seu presente e o seu futuro, à luz dos critérios evangélicos e da doutrina social da Igreja católica. Com o objectivo de provocar essa reflexão partilhamos convosco os tópicos seguintes.
2. Vemos com grande preocupação que se tenha instalado entre os nossos concidadãos e concidadãs uma certa apatia e um aparente conformismo perante situações de desigualdade e de exclusão social crescentes, no nosso país e no mundo. Trata-se de realidades verdadeiramente clamorosas, mormente quando se tem presente que a Humanidade atingiu já níveis de produção tão elevados, que permitiriam assegurar a todas as famílias do mundo mínimos de subsistência. O simples facto de tal não ser verdade – e de o não ser a uma escala tão gigantesca – é razão bastante para não nos conformámos com o mundo em que vivemos, com o estilo de vida que levamos, o qual permite reproduzir esse mesmo estado de coisas.
3. É inaceitável que o progresso económico que o nosso país alcançou nos últimos 30 anos e as ajudas comunitárias entretanto recebidas não se tenham traduzido numa redução substancial da pobreza, designadamente nas suas expressões mais severas, de falta de alimento e de habitação condigna, de dificuldades no acesso à educação e à saúde, de insuficiência de recursos bastantes para garantir uma vida digna, segundo os padrões correntes na nossa sociedade. Cerca de 1/5 dos nossos concidadãos conhecem a pobreza com maior ou menor severidade, e uma parte deles nunca teve situação diferente, porque a pobreza se tornou hereditária e esteve sempre presente nas suas vidas.
4. É preocupante que o desemprego tenha aumentado consideravelmente nos últimos anos e afecte, hoje, mais de 400 mil pessoas, das quais boa parte sem quaisquer perspectivas realistas de vir a encontrar um novo emprego, a curto ou médio prazo.
5. Para as pessoas empregadas, a duração e as exigências do trabalho intensificaram-se e absorvem hoje uma parcela cada vez maior do tempo pessoal, gerando situações stressantes e efeitos colaterais sérios na vida familiar, no relacionamento humano e na saúde das próprias pessoas. O recurso sistemático ao trabalho extraordinário, muitas vezes com desrespeito das normas legais vigentes e dos preceitos internacionais, é uma prática com que a sociedade e os governos não deveriam pactuar, nem sequer por omissão, designadamente em tempo de desemprego avultado, como presentemente sucede.
6. É intolerável que os níveis de remuneração média dos trabalhadores e o salário mínimo permaneçam consideravelmente abaixo dos valores médios que se verificam nos outros países da União Europeia, em contraste com remunerações escandalosamente altas de gestores e de outros profissionais, como ainda recentemente foi noticiado pela imprensa.
Mais grave ainda é o facto de que os níveis de salário mínimo e pensão mínima sejam fixados em valores que, reconhecidamente, ficam, no caso do primeiro, muito próximo do limiar de pobreza e, no caso da segunda, abaixo desse limiar. Ou seja, são estabelecidos com a certeza antecipada de que as pessoas que os têm como única fonte de rendimento não poderão assegurar uma subsistência digna. Idêntico raciocínio se poderá fazer quanto ao rendimento mínimo. Em situação particularmente gravosa ficam as pessoas naquelas condições que têm de fazer face a despesas com saúde avultadas, em virtude de padecerem de doença crónica, serem portadoras de deficiência ou simplesmente em razão da sua idade, já que as comparticipações dos fundos públicos vêm sendo progressivamente reduzidas.
7. Por outro lado, os padrões de qualidade dos serviços públicos de educação, de saúde e, de modo geral, dos demais bens públicos, longe de revelarem desejáveis melhorias, parecem regredir, provocando efeitos particularmente negativos para as pessoas de menores rendimentos. O argumento da falta de recursos do Estado não deve ser aceite acriticamente, antes deverá levar a que se questione as prioridades que estão subjacentes nos critérios dos decisores políticos. Merecem particular reparo os investimentos públicos que têm sido feitos em obras faraónicas e projectos de utilidade social duvidosa, beneficiando apenas determinados sectores da população.
8. O processo de privatização em curso, nomeadamente no que toca a bens públicos básicos, designadamente a água, os correios ou os transportes urbanos, para não falar da saúde e da educação, poderão configurar cenários de maior desigualdade e cavar o fosso entre ricos e pobres, acabando por mercantilizar direitos humanos e sociais básicos.
9. E que pensar do que está a ocorrer com o parque habitacional que aumentou consideravelmente em número de fogos disponíveis e qualidade da construção, mas não está ao alcance de uma parte significativa da população, que continua, designadamente nas grandes cidades, em situação de habitação precária, quando não atirada para bairros periféricos de habitat degradado? Sabe-se que é elevado o número de casas desocupadas, que funcionam para os seus proprietários apenas como capital expectante, sem qualquer uso social. Há indícios de que a compra de casas luxuosas em alguns casos está associada à lavagem de dinheiro e à corrupção. Por outro lado, é manifesto o défice de habitação social e as dificuldades com que deparam as pessoas de baixos recursos para terem acesso a uma casa condigna compatível com as suas posses. Estas realidades impõem-se à nossa reflexão.
10. Muitos milhares de imigrantes têm procurado no nosso país condições de trabalho e de vida que, por variadas razões, não conseguem lograr nos seus países de origem. Sem o seu contributo, Portugal não teria conhecido os níveis de crescimento económico que alcançou no passado recente. Contudo, muitas vezes, esses trabalhadores estrangeiros não são respeitados na sua dignidade e nos seus direitos; não encontram condições mínimas de habitação; e deparam mesmo com algumas resistências na sua integração nas nossas comunidades.
11. Em todos os quadrantes políticos, reconhece-se que os investimentos em educação e em saúde e de modo geral nos vários domínios da qualidade de vida são de primordial importância para o nosso país, pela dupla razão de que vêm ao encontro de um direito de cidadania e deste modo reforçam a coesão social e porque vêm preencher um requisito básico do desenvolvimento da qualidade dos recursos humanos, condição indispensável à viabilização de uma sociedade de informação e do conhecimento de que tanto se espera. Não é, pois, aceitável que, nestas áreas fundamentais, não estejam asseguradas condições de igualdade de oportunidades de acesso e de sucesso, correndo riscos de desigualdades e exclusões agravadas no futuro.
12. Se alargarmos o nosso horizonte de reflexão a outros espaços geográficos, como é cada vez mais imperioso fazer por razões éticas e por vivermos em tempo de mundialização, não podemos ignorar a extensão e a intensidade dramáticas da pobreza que grassa em vastas regiões de outros continentes, com destaque para a África, a Ásia, a América Central e alguns países do continente latino-americano. À pobreza extrema de uma grande parte da população que vive nessas regiões, acrescem doenças evitáveis, o analfabetismo, a corrupção dos dirigentes e as guerras. São disfunções em grande parte produzidas pelo modelo económico vigente e a hegemonia das grandes potências no domínio das relações comerciais – sistemas proteccionistas nos países do Centro, imposição de preços baixos às matérias-primas oriundas dos países em desenvolvimento, apertadas regras de dependência tecnológica e assistência técnica, regime de patentes, asfixia financeira devida a encargos com a dívida externa.
Como encaramos estes problemas? Reconhecemos aí a nossa quota parte de responsabilidade? Pelas nossas posturas ideológicas e políticas? Pelas nossas actuações, enquanto investigadores, técnicos ou parceiros comerciais, com impacto nas relações com esses países? Pelo nosso não envolvimento ou desinteresse em organizações da sociedade civil mais atentas a estas problemáticas? Pelas nossas atitudes e comportamentos quotidianos, de um consumo irresponsável, de esbanjamento de recursos, de falta de solidariedade no plano mundial?
LER A REALIDADE SEGUNDO O OLHAR DE JESUS
13. Se fazemos este elenco de situações que tanto nos magoam – ou deviam magoar – não é para as colocar, uma vez mais, diante dos nossos olhos, como se de um ecrã de cinema se tratasse, como se fosse uma mera imagem exterior que não dissesse respeito aos nossos horizontes de preocupação, excepto quando nos toca sermos nós próprios/as as vítimas.
Fazemo-lo por três razões.
14. Em primeiro lugar, porque reconhecemos que existe na população portuguesa uma fraca sensibilização à pobreza e à desigualdade, não as considerando como males sociais, isto é, produzidos pela própria sociedade e prejudiciais para a mesma. Tanto a grande desigualdade como a pobreza e a exclusão social são realidades ainda toleradas por parte de muitos dos nossos concidadãos e concidadãs; diríamos que, para muitos, são fenómenos aceites com demasiada complacência e resignação, no pressuposto da sua inevitabilidade, uma espécie de marca do destino, quando não a consequência de alguma culpabilidade dos próprios pobres.
Há países europeus em que o grau de aversão e recusa da grande desigualdade e da pobreza e exclusão social é bem superior ao nosso. Já faz parte da consciência dos cidadãos desses países a certeza de que a exclusão social e em menor escala a grande desigualdade de riqueza, rendimento ou de oportunidades, além de serem condenáveis por razões éticas e/ou cívicas, constituem factores que põem em risco a própria democracia, a coesão social e a paz.
Nestes países, os cidadãos estão dispostos a pagar mais impostos e outras contribuições para prevenir ou corrigir a exclusão e em geral para viabilizar o cumprimento dos direitos de cidadania. São países em que os leques salariais e de remunerações têm menor amplitude e aceitam-se políticas redistributivas mais claras e eficientes.
Sentimos que, também entre nós, é necessário fomentar uma consciência mais esclarecida a este respeito. Cremos que é tempo de insistir junto dos nossos concidadãos e dos cristãos em particular sobre a necessidade de um outro modo de olhar as situações de empobrecimento nas suas múltiplas vertentes e da grande desigualdade que se instalou nas nossas sociedades, de compreender os mecanismos económicos, financeiros e políticos, que as produzem e alimentam, de tomar consciência de como tais situações comprometem a coesão social e constituem uma ameaça à paz.
15. A segunda razão que nos move a incentivar esta reflexão é o facto de constatarmos que em certos meios políticos e na comunicação social, frequentemente se veiculam ideias preconceituosas relativamente aos modelos económicos vigentes, designadamente no que se refere à sua inevitabilidade, e suporte teórico, daí retirando legitimação para certas políticas e práticas de gestão. Por exemplo, é frequente o argumento da necessidade de controlo orçamental (o que, em si mesmo, ninguém contesta) para justificar medidas de restrição da despesa pública, o que já não pode ser aceite sem ponderação dos seus efeitos sobre a extensão e a qualidade dos serviços públicos prestados (educação, saúde, investigação, habitação social, acção social, etc.) ou as reduções drásticas de remunerações e regalias dos funcionários públicos sem negociação com os interessados e sem contrapartidas. De resto, a despesa é apenas um dos factores de ajustamento; este consegue-se também através da recuperação de receitas fiscais devidas, através de medidas eficazes de combate à fraude e à evasão fiscais e, em geral, com o aperfeiçoamento de uma política tributária mais equitativa e eficiente.
No que se refere às empresas, preocupa-nos que, com frequência, fiquem por sancionar práticas de gestão danosa, por vezes, a par de elevados proveitos dos seus gestores, e, em particular, o encerramento das mesmas, à revelia da participação dos respectivos trabalhadores que são atirados para despedimentos colectivos, os quais tantas vezes põem em risco as economias locais dependentes da empresa que encerra a sua actividade somente para ir procurar em outras paragens lucros mais vultuosos.
16. A terceira razão que nos move nesta reflexão é o reconhecimento de que os cristãos pouco confrontam as suas atitudes e comportamentos na sociedade (trabalho, negócios, ensino e investigação, participação cívica e política) com as exigências que decorrem da sua fé em Jesus Cristo. Sucede, assim, que os valores humanos e cristãos interferem pouco ou nada nas suas respectivas práticas de vida. Ora, há cristãos em todos os sectores da vida económica, social e política – gestores e quadros técnicos de empresa, banqueiros, educadores e professores, políticos, deputados, governantes, juízes, detentores de cargos públicos – sem que se observem sinais que testemunhem as suas referências cristãs.
Por outro lado, temos de reconhecer que, em muitas das nossas comunidades e assembleias, paira uma muralha de silêncio sobre estas problemáticas e são muito ténues as interpelações dirigidas ao compromisso dos cristãos com os valores evangélicos quando está em causa a sua aplicação na transformação das sociedades a que pertencem, em ordem à construção da justiça e da paz.
17. Em que pensaria Jesus quando, dirigindo-se aos seus discípulos, lhes dizia: vós sois a luz do mundo, vós sois o sal da terra, vós sois o fermento que uma mulher junta à massa para a levedar?
Que nos quer dizer a nós, mulheres e homens do começo deste século XXI, a nós que vivemos em Portugal, um país membro da União Europeia, uma das grandes potências económicas do Mundo?
Certamente quer encorajar-nos a não nos deixarmos conformar com as situações de injustiça e com os mecanismos que lhes estão subjacentes, que contradizem os critérios e valores do Evangelho e o paradigma do reino de Deus que a todos nós cristãos cabe anunciar.
18. Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é estar na primeira linha de quem defende e promove direitos fundamentais:
§ a dignidade e o valor de toda a pessoa humana, de cada mulher e de cada homem, da criança, do jovem, do adulto ou da pessoa idosa;
§ o direito de cada pessoa encontrar na sociedade a que pertence condições para uma vida digna, nomeadamente o direito ao trabalho com garantias e sua justa remuneração, mas também o acesso a uma habitação condigna, à saúde, à educação, à segurança;
§ o direito à liberdade de palavra e de expressão, de deslocação, de associação e de participação cívica e política, tanto no próprio país como à escala mundial.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é, para além disto, escolher estar do lado dos empobrecidos e dos mais fracos (opção preferencial pelos pobres, como lembra o Concílio Vaticano II), compartilhar as suas dificuldades e ir em sua ajuda, empenhando-se em remover as causas estruturais da pobreza nas suas múltiplas vertentes.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é defender o princípio fundamental do destino universal dos bens da terra e consequentemente procurar com todo o empenho que aqueles se destinem prioritariamente à subsistência e melhoria de condições de vida para todos e não em benefício exclusivo de alguns.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é reconhecer que a propriedade privada ou a livre concorrência não são valores absolutos, mas antes instrumentos ao serviço da produção e da eficiência da economia.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é não pactuar com estruturas injustas, denunciando-as e promovendo as soluções alternativas e inovadoras que estiverem ao seu alcance; ou refutando os argumentos da inevitabilidade de certas práticas, contrapondo-lhes soluções paradigmáticas de maior justiça na organização da economia e da sociedade, nas empresas como na administração pública e adoptando atitudes e comportamentos pessoais de consumo, de produção, de troca, de gestão que sejam coerentes com os valores evangélicos.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é ser capaz de enquadrar os critérios mundanos da competitividade, da eficácia e da eficiência pelo referencial primeiro do Amor, o sinal pelo qual serão reconhecidos os discípulos de Cristo.
19. Estamos conscientes de que o “outro olhar” a que fazemos apelo não é alcançável sem uma reflexão séria e profunda, em clima interior de abertura ao Espírito de Jesus Cristo morto e ressuscitado. Sugerimos, por isso, que esta temática, cuja importância para o modo de ser cristão hoje, esteja presente, quer na oração pessoal de cada cristão, quer em iniciativas comunitárias neste tempo privilegiado da Quaresma. Cada cristão e cada comunidade saberá escolher as formas concretas que melhor se adequarem a cada caso.
20. É certo que, ao contrário daquilo que muitas vezes aceitamos com fácil comodismo, podemos sempre fazer algo para mudar este estado de coisas. Bastaria que, numa sociedade em que a maioria das pessoas se reconhece como cristã, vivêssemos mais de acordo com os critérios Evangélicos para que os problemas colectivos que enfrentamos encontrassem resposta. Se o nosso coração se alegrasse mais e desse mais valor aquela pessoa que conseguiu romper com a sua situação de pobreza e exclusão do que à ostentação do sucesso daquele que já muito tem, fomentaríamos um “outro olhar”, outros valores e outras atitudes na nossa sociedade. A Esperança no Cristo ressuscitado do Domingo de Páscoa desafia constantemente as nossas certezas condescendentes sobre um “mundo-que-não-podemos-mudar”.
Quaresma de 2004
Comissao Nacional Justiça e Paz
SOBRE AS DESIGUALDADES E A EXCLUSÃO SOCIAL
UM OUTRO COMPROMISSO
COM UM MUNDO MAIS JUSTO E SOLIDÁRIO
1. Nesta Quaresma de 2004, a CNJP vem dirigir-se aos cristãos, suas comunidades, organizações e movimentos, com um objectivo: convidar a uma paragem, a fim de, com verdade e abertura de coração, reflectirmos sobre a sociedade a que pertencemos, os seus problemas e opções, o seu presente e o seu futuro, à luz dos critérios evangélicos e da doutrina social da Igreja católica. Com o objectivo de provocar essa reflexão partilhamos convosco os tópicos seguintes.
2. Vemos com grande preocupação que se tenha instalado entre os nossos concidadãos e concidadãs uma certa apatia e um aparente conformismo perante situações de desigualdade e de exclusão social crescentes, no nosso país e no mundo. Trata-se de realidades verdadeiramente clamorosas, mormente quando se tem presente que a Humanidade atingiu já níveis de produção tão elevados, que permitiriam assegurar a todas as famílias do mundo mínimos de subsistência. O simples facto de tal não ser verdade – e de o não ser a uma escala tão gigantesca – é razão bastante para não nos conformámos com o mundo em que vivemos, com o estilo de vida que levamos, o qual permite reproduzir esse mesmo estado de coisas.
3. É inaceitável que o progresso económico que o nosso país alcançou nos últimos 30 anos e as ajudas comunitárias entretanto recebidas não se tenham traduzido numa redução substancial da pobreza, designadamente nas suas expressões mais severas, de falta de alimento e de habitação condigna, de dificuldades no acesso à educação e à saúde, de insuficiência de recursos bastantes para garantir uma vida digna, segundo os padrões correntes na nossa sociedade. Cerca de 1/5 dos nossos concidadãos conhecem a pobreza com maior ou menor severidade, e uma parte deles nunca teve situação diferente, porque a pobreza se tornou hereditária e esteve sempre presente nas suas vidas.
4. É preocupante que o desemprego tenha aumentado consideravelmente nos últimos anos e afecte, hoje, mais de 400 mil pessoas, das quais boa parte sem quaisquer perspectivas realistas de vir a encontrar um novo emprego, a curto ou médio prazo.
5. Para as pessoas empregadas, a duração e as exigências do trabalho intensificaram-se e absorvem hoje uma parcela cada vez maior do tempo pessoal, gerando situações stressantes e efeitos colaterais sérios na vida familiar, no relacionamento humano e na saúde das próprias pessoas. O recurso sistemático ao trabalho extraordinário, muitas vezes com desrespeito das normas legais vigentes e dos preceitos internacionais, é uma prática com que a sociedade e os governos não deveriam pactuar, nem sequer por omissão, designadamente em tempo de desemprego avultado, como presentemente sucede.
6. É intolerável que os níveis de remuneração média dos trabalhadores e o salário mínimo permaneçam consideravelmente abaixo dos valores médios que se verificam nos outros países da União Europeia, em contraste com remunerações escandalosamente altas de gestores e de outros profissionais, como ainda recentemente foi noticiado pela imprensa.
Mais grave ainda é o facto de que os níveis de salário mínimo e pensão mínima sejam fixados em valores que, reconhecidamente, ficam, no caso do primeiro, muito próximo do limiar de pobreza e, no caso da segunda, abaixo desse limiar. Ou seja, são estabelecidos com a certeza antecipada de que as pessoas que os têm como única fonte de rendimento não poderão assegurar uma subsistência digna. Idêntico raciocínio se poderá fazer quanto ao rendimento mínimo. Em situação particularmente gravosa ficam as pessoas naquelas condições que têm de fazer face a despesas com saúde avultadas, em virtude de padecerem de doença crónica, serem portadoras de deficiência ou simplesmente em razão da sua idade, já que as comparticipações dos fundos públicos vêm sendo progressivamente reduzidas.
7. Por outro lado, os padrões de qualidade dos serviços públicos de educação, de saúde e, de modo geral, dos demais bens públicos, longe de revelarem desejáveis melhorias, parecem regredir, provocando efeitos particularmente negativos para as pessoas de menores rendimentos. O argumento da falta de recursos do Estado não deve ser aceite acriticamente, antes deverá levar a que se questione as prioridades que estão subjacentes nos critérios dos decisores políticos. Merecem particular reparo os investimentos públicos que têm sido feitos em obras faraónicas e projectos de utilidade social duvidosa, beneficiando apenas determinados sectores da população.
8. O processo de privatização em curso, nomeadamente no que toca a bens públicos básicos, designadamente a água, os correios ou os transportes urbanos, para não falar da saúde e da educação, poderão configurar cenários de maior desigualdade e cavar o fosso entre ricos e pobres, acabando por mercantilizar direitos humanos e sociais básicos.
9. E que pensar do que está a ocorrer com o parque habitacional que aumentou consideravelmente em número de fogos disponíveis e qualidade da construção, mas não está ao alcance de uma parte significativa da população, que continua, designadamente nas grandes cidades, em situação de habitação precária, quando não atirada para bairros periféricos de habitat degradado? Sabe-se que é elevado o número de casas desocupadas, que funcionam para os seus proprietários apenas como capital expectante, sem qualquer uso social. Há indícios de que a compra de casas luxuosas em alguns casos está associada à lavagem de dinheiro e à corrupção. Por outro lado, é manifesto o défice de habitação social e as dificuldades com que deparam as pessoas de baixos recursos para terem acesso a uma casa condigna compatível com as suas posses. Estas realidades impõem-se à nossa reflexão.
10. Muitos milhares de imigrantes têm procurado no nosso país condições de trabalho e de vida que, por variadas razões, não conseguem lograr nos seus países de origem. Sem o seu contributo, Portugal não teria conhecido os níveis de crescimento económico que alcançou no passado recente. Contudo, muitas vezes, esses trabalhadores estrangeiros não são respeitados na sua dignidade e nos seus direitos; não encontram condições mínimas de habitação; e deparam mesmo com algumas resistências na sua integração nas nossas comunidades.
11. Em todos os quadrantes políticos, reconhece-se que os investimentos em educação e em saúde e de modo geral nos vários domínios da qualidade de vida são de primordial importância para o nosso país, pela dupla razão de que vêm ao encontro de um direito de cidadania e deste modo reforçam a coesão social e porque vêm preencher um requisito básico do desenvolvimento da qualidade dos recursos humanos, condição indispensável à viabilização de uma sociedade de informação e do conhecimento de que tanto se espera. Não é, pois, aceitável que, nestas áreas fundamentais, não estejam asseguradas condições de igualdade de oportunidades de acesso e de sucesso, correndo riscos de desigualdades e exclusões agravadas no futuro.
12. Se alargarmos o nosso horizonte de reflexão a outros espaços geográficos, como é cada vez mais imperioso fazer por razões éticas e por vivermos em tempo de mundialização, não podemos ignorar a extensão e a intensidade dramáticas da pobreza que grassa em vastas regiões de outros continentes, com destaque para a África, a Ásia, a América Central e alguns países do continente latino-americano. À pobreza extrema de uma grande parte da população que vive nessas regiões, acrescem doenças evitáveis, o analfabetismo, a corrupção dos dirigentes e as guerras. São disfunções em grande parte produzidas pelo modelo económico vigente e a hegemonia das grandes potências no domínio das relações comerciais – sistemas proteccionistas nos países do Centro, imposição de preços baixos às matérias-primas oriundas dos países em desenvolvimento, apertadas regras de dependência tecnológica e assistência técnica, regime de patentes, asfixia financeira devida a encargos com a dívida externa.
Como encaramos estes problemas? Reconhecemos aí a nossa quota parte de responsabilidade? Pelas nossas posturas ideológicas e políticas? Pelas nossas actuações, enquanto investigadores, técnicos ou parceiros comerciais, com impacto nas relações com esses países? Pelo nosso não envolvimento ou desinteresse em organizações da sociedade civil mais atentas a estas problemáticas? Pelas nossas atitudes e comportamentos quotidianos, de um consumo irresponsável, de esbanjamento de recursos, de falta de solidariedade no plano mundial?
LER A REALIDADE SEGUNDO O OLHAR DE JESUS
13. Se fazemos este elenco de situações que tanto nos magoam – ou deviam magoar – não é para as colocar, uma vez mais, diante dos nossos olhos, como se de um ecrã de cinema se tratasse, como se fosse uma mera imagem exterior que não dissesse respeito aos nossos horizontes de preocupação, excepto quando nos toca sermos nós próprios/as as vítimas.
Fazemo-lo por três razões.
14. Em primeiro lugar, porque reconhecemos que existe na população portuguesa uma fraca sensibilização à pobreza e à desigualdade, não as considerando como males sociais, isto é, produzidos pela própria sociedade e prejudiciais para a mesma. Tanto a grande desigualdade como a pobreza e a exclusão social são realidades ainda toleradas por parte de muitos dos nossos concidadãos e concidadãs; diríamos que, para muitos, são fenómenos aceites com demasiada complacência e resignação, no pressuposto da sua inevitabilidade, uma espécie de marca do destino, quando não a consequência de alguma culpabilidade dos próprios pobres.
Há países europeus em que o grau de aversão e recusa da grande desigualdade e da pobreza e exclusão social é bem superior ao nosso. Já faz parte da consciência dos cidadãos desses países a certeza de que a exclusão social e em menor escala a grande desigualdade de riqueza, rendimento ou de oportunidades, além de serem condenáveis por razões éticas e/ou cívicas, constituem factores que põem em risco a própria democracia, a coesão social e a paz.
Nestes países, os cidadãos estão dispostos a pagar mais impostos e outras contribuições para prevenir ou corrigir a exclusão e em geral para viabilizar o cumprimento dos direitos de cidadania. São países em que os leques salariais e de remunerações têm menor amplitude e aceitam-se políticas redistributivas mais claras e eficientes.
Sentimos que, também entre nós, é necessário fomentar uma consciência mais esclarecida a este respeito. Cremos que é tempo de insistir junto dos nossos concidadãos e dos cristãos em particular sobre a necessidade de um outro modo de olhar as situações de empobrecimento nas suas múltiplas vertentes e da grande desigualdade que se instalou nas nossas sociedades, de compreender os mecanismos económicos, financeiros e políticos, que as produzem e alimentam, de tomar consciência de como tais situações comprometem a coesão social e constituem uma ameaça à paz.
15. A segunda razão que nos move a incentivar esta reflexão é o facto de constatarmos que em certos meios políticos e na comunicação social, frequentemente se veiculam ideias preconceituosas relativamente aos modelos económicos vigentes, designadamente no que se refere à sua inevitabilidade, e suporte teórico, daí retirando legitimação para certas políticas e práticas de gestão. Por exemplo, é frequente o argumento da necessidade de controlo orçamental (o que, em si mesmo, ninguém contesta) para justificar medidas de restrição da despesa pública, o que já não pode ser aceite sem ponderação dos seus efeitos sobre a extensão e a qualidade dos serviços públicos prestados (educação, saúde, investigação, habitação social, acção social, etc.) ou as reduções drásticas de remunerações e regalias dos funcionários públicos sem negociação com os interessados e sem contrapartidas. De resto, a despesa é apenas um dos factores de ajustamento; este consegue-se também através da recuperação de receitas fiscais devidas, através de medidas eficazes de combate à fraude e à evasão fiscais e, em geral, com o aperfeiçoamento de uma política tributária mais equitativa e eficiente.
No que se refere às empresas, preocupa-nos que, com frequência, fiquem por sancionar práticas de gestão danosa, por vezes, a par de elevados proveitos dos seus gestores, e, em particular, o encerramento das mesmas, à revelia da participação dos respectivos trabalhadores que são atirados para despedimentos colectivos, os quais tantas vezes põem em risco as economias locais dependentes da empresa que encerra a sua actividade somente para ir procurar em outras paragens lucros mais vultuosos.
16. A terceira razão que nos move nesta reflexão é o reconhecimento de que os cristãos pouco confrontam as suas atitudes e comportamentos na sociedade (trabalho, negócios, ensino e investigação, participação cívica e política) com as exigências que decorrem da sua fé em Jesus Cristo. Sucede, assim, que os valores humanos e cristãos interferem pouco ou nada nas suas respectivas práticas de vida. Ora, há cristãos em todos os sectores da vida económica, social e política – gestores e quadros técnicos de empresa, banqueiros, educadores e professores, políticos, deputados, governantes, juízes, detentores de cargos públicos – sem que se observem sinais que testemunhem as suas referências cristãs.
Por outro lado, temos de reconhecer que, em muitas das nossas comunidades e assembleias, paira uma muralha de silêncio sobre estas problemáticas e são muito ténues as interpelações dirigidas ao compromisso dos cristãos com os valores evangélicos quando está em causa a sua aplicação na transformação das sociedades a que pertencem, em ordem à construção da justiça e da paz.
17. Em que pensaria Jesus quando, dirigindo-se aos seus discípulos, lhes dizia: vós sois a luz do mundo, vós sois o sal da terra, vós sois o fermento que uma mulher junta à massa para a levedar?
Que nos quer dizer a nós, mulheres e homens do começo deste século XXI, a nós que vivemos em Portugal, um país membro da União Europeia, uma das grandes potências económicas do Mundo?
Certamente quer encorajar-nos a não nos deixarmos conformar com as situações de injustiça e com os mecanismos que lhes estão subjacentes, que contradizem os critérios e valores do Evangelho e o paradigma do reino de Deus que a todos nós cristãos cabe anunciar.
18. Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é estar na primeira linha de quem defende e promove direitos fundamentais:
§ a dignidade e o valor de toda a pessoa humana, de cada mulher e de cada homem, da criança, do jovem, do adulto ou da pessoa idosa;
§ o direito de cada pessoa encontrar na sociedade a que pertence condições para uma vida digna, nomeadamente o direito ao trabalho com garantias e sua justa remuneração, mas também o acesso a uma habitação condigna, à saúde, à educação, à segurança;
§ o direito à liberdade de palavra e de expressão, de deslocação, de associação e de participação cívica e política, tanto no próprio país como à escala mundial.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é, para além disto, escolher estar do lado dos empobrecidos e dos mais fracos (opção preferencial pelos pobres, como lembra o Concílio Vaticano II), compartilhar as suas dificuldades e ir em sua ajuda, empenhando-se em remover as causas estruturais da pobreza nas suas múltiplas vertentes.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é defender o princípio fundamental do destino universal dos bens da terra e consequentemente procurar com todo o empenho que aqueles se destinem prioritariamente à subsistência e melhoria de condições de vida para todos e não em benefício exclusivo de alguns.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é reconhecer que a propriedade privada ou a livre concorrência não são valores absolutos, mas antes instrumentos ao serviço da produção e da eficiência da economia.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é não pactuar com estruturas injustas, denunciando-as e promovendo as soluções alternativas e inovadoras que estiverem ao seu alcance; ou refutando os argumentos da inevitabilidade de certas práticas, contrapondo-lhes soluções paradigmáticas de maior justiça na organização da economia e da sociedade, nas empresas como na administração pública e adoptando atitudes e comportamentos pessoais de consumo, de produção, de troca, de gestão que sejam coerentes com os valores evangélicos.
Ser “luz”, “sal” ou “fermento” hoje é ser capaz de enquadrar os critérios mundanos da competitividade, da eficácia e da eficiência pelo referencial primeiro do Amor, o sinal pelo qual serão reconhecidos os discípulos de Cristo.
19. Estamos conscientes de que o “outro olhar” a que fazemos apelo não é alcançável sem uma reflexão séria e profunda, em clima interior de abertura ao Espírito de Jesus Cristo morto e ressuscitado. Sugerimos, por isso, que esta temática, cuja importância para o modo de ser cristão hoje, esteja presente, quer na oração pessoal de cada cristão, quer em iniciativas comunitárias neste tempo privilegiado da Quaresma. Cada cristão e cada comunidade saberá escolher as formas concretas que melhor se adequarem a cada caso.
20. É certo que, ao contrário daquilo que muitas vezes aceitamos com fácil comodismo, podemos sempre fazer algo para mudar este estado de coisas. Bastaria que, numa sociedade em que a maioria das pessoas se reconhece como cristã, vivêssemos mais de acordo com os critérios Evangélicos para que os problemas colectivos que enfrentamos encontrassem resposta. Se o nosso coração se alegrasse mais e desse mais valor aquela pessoa que conseguiu romper com a sua situação de pobreza e exclusão do que à ostentação do sucesso daquele que já muito tem, fomentaríamos um “outro olhar”, outros valores e outras atitudes na nossa sociedade. A Esperança no Cristo ressuscitado do Domingo de Páscoa desafia constantemente as nossas certezas condescendentes sobre um “mundo-que-não-podemos-mudar”.
Quaresma de 2004
Comissao Nacional Justiça e Paz
quarta-feira, 10 de março de 2004
Novidade na "Campo das Letras":
RELIGIÃO: OPRESSÃO OU LIBERTAÇÃO?
de Anselmo Borges
"Qual é, para mim, a vocação deste magnífico livro de Anselmo Borges? Iniciar-nos na arte difícil de ver o que se vê. Ajudar-nos a descobrir, no coração da realidade multifacetada, nos fragmentos da experiência humana, no deslumbramento do mundo, os fios que nos ligam à Fonte da alegria e, no meio do sofrimento e perante o abismo da morte, a escutar o apelo da vida".
Frei Bento Domingues, O. P. (do Prefácio)
RELIGIÃO: OPRESSÃO OU LIBERTAÇÃO?
de Anselmo Borges
"Qual é, para mim, a vocação deste magnífico livro de Anselmo Borges? Iniciar-nos na arte difícil de ver o que se vê. Ajudar-nos a descobrir, no coração da realidade multifacetada, nos fragmentos da experiência humana, no deslumbramento do mundo, os fios que nos ligam à Fonte da alegria e, no meio do sofrimento e perante o abismo da morte, a escutar o apelo da vida".
Frei Bento Domingues, O. P. (do Prefácio)
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