quarta-feira, 21 de julho de 2004

O tratamento da morte de Lourdes Pintasilgo
 
O passado fim-de-semana foi marcado pela morte súbita da Eng.ª Maria de Lourdes Pintasilgo. Mulher de grande relevo em diferentes áreas da vida social, cultural e política, o seu testemunho de vida e a alegria e convicção que pôs naquilo em que se envolveu foi reconhecido até mesmo por aqueles que dela discordavam. Ficará como referência em campos como o reconhecimento do papel das mulheres na sociedade, o aprofundamento e enriquecimento da vida democrática e a renovação da experiência cristã.
Seria de esperar que, perante a morte de alguém de tal envergadura, para mais nas circunstâncias inesperadas e no contexto em que ocorreu, o ?Jornal de Notícias? desse ao caso o tratamento e o destaque que ele merecia, a exemplo de outros casos análogos recentes.
Ora o que verificámos é que isso não aconteceu. O tratamento foi pobre tanto do ponto de vista do destaque como do conteúdo. Essa percepção do provedor é partilhada pelo leitor Hermano Manuel P. Padrão que fez saber, por correio electrónico, o seu ?descontentamento (para dizer o mínimo)?, pelo tratamento dado à morte de alguém que foi ?única mulher que, neste País, assumiu o cargo de primeira ministra e, posteriormente, a única mulher que se candidatou à Presidência da República, reconhecida internacionalmente, participante em inúmeros ?foruns? com a nata intelectual ou política mundial?. ?Não merecia que o registo da sua morte merecesse um relevo tão parco no JN, mais chocante se o compararmos com o desaparecimento de outras duas figuras gradas do nosso País, as recentíssimas mortes do Prof. Sousa Franco e da nossa melhor Poeta, Sofia de Mello Breyner Andersen?, acrescentava o leitor.
O director de Redacção deste Jornal, interpelado pelo provedor, reconhece: ?A morte [de Lourdes Pintasilgo] coincidiu com a crise política e tratamo-la mal. A secção era a mesma, tivemos dificuldades em desviar gente?.
Fica dada a explicação, embora entenda ser discutível a opção de ocupar  páginas com desenvolvimentos de uma crise que, nos dias em referência, nem trouxe grandes novidades, deixando num plano secundário o tratamento de um acontecimento que teve repercussão inclusive internacional.Na linha de outros media, foi-se pela via mais óbvia, que consistiu em citar, na edição de domingo, os estafados depoimentos dos dirigentes político- partidários. E o que esta mulher significou em áreas tão diversas como as artes, os movimentos das mulheres, as ONG (organizações não governamentais)? Não teriam nada de porventura mais relevante a dizer? E o facto de nenhum bispo ter estado presente no funeral nem se ter pronunciado (com a honrosa excepção, uns dias depois, do bispo de Aveiro, numa ?carta ao director?) não era motivo de interesse jornalístico? Não se justificava que o JN tivesse tomado a iniciativa de interpelar a hierarquia católica?
in JN, 18.07.2004

segunda-feira, 12 de julho de 2004

Presença da ausência

Diz o Cibertúlia e eu não posso senão subscrever:
"Maria de Lourdes Pintasilgo teve hoje o aplauso de centenas de populares. Anónimos e conhecidos. Mas faltou um aplauso, uma mensagem, uma presença - a de um bispo (qualquer) que fosse da Igreja portuguesa. Pintasilgo não era uma católica ortodoxa, como porventura foi Sousa Franco, e não era A Voz, como foi Amália. Mas na sua heterodoxia foi inovadora e acolhedora de uma outra forma de ser Igreja. E, na sua simplicidade, foi a voz de deserdados ou desalinhados. O senhor cardeal-patriarca de Lisboa, que presidiu aos funerais de Sousa Franco ou Amália, para Pintasilgo não teve sequer uma palavra pública, nem enviou um dos seus bispos auxiliares à cerimónia deste domingo. Às vezes, é difícil ser Igreja nesta Igreja."

domingo, 11 de julho de 2004

Maria de Lourdes Pintasilgo (1930-2004)

Obrigado, agora, para sempre
"Descobri que certos homens e certas mulheres, com quem partilhamos a terra e o tempo históricos, através de um verso, de um canto, de uma frase, nos iluminam os caminhos por onde tentamos chegar mais longe e mais alto. E aí encontrei as razões de uma admiração, que não tinha do "pintasilguismo presidencial", de que aliás não comunguei.
Por isso, mais do que parabéns, lhe disse obrigado.
Obrigado, agora, para sempre, querida Maria de Lourdes".
Adelino Gomes

Maria de Lourdes
"O que mais me dói, minha Amiga, é saber que partiu na mágoa de um estranho momento da vida do seu país. Dói-me saber que a pressa que vestiu para a viagem, tenha sido ela própria tecida a fios de uma dor, fulminante de tão inconformada. Não o merecia, Maria de Lourdes, não o merecíamos.
Quero que saiba que os seus ensinamentos e exemplos permanecem muito vivos em mim e que, passado o desconcerto da notícia sobre a sua partida, ficaram hoje ainda mais reforçados como lição maior do que é o direito e o dever de cada um de nós de contribuir para o bem da res publica - da polis do nosso terreiro e da polis do grande quintal que é o mundo.
Falo do bem, minha Amiga, porque foi a dar-lhe brilho que sempre aplicou a sua inteligência, tão curiosa sobre todas as coisas, tão imaginativa, tão a favor das pessoas, sobretudo das que a seu favor pouco ou nada têm e pouco ou nada lhes é proposto que tenham.
Falo do bem, minha Amiga, porque o bem é uma categoria fundadora da vida privada e da vida pública dos homens e porque, com impúdica desonra e cobardia, muitos dos que em nosso nome falam e decidem, dão sinais de lhe ignorarem os atributos e as exigências.
Nesta hora de despedida, quero ainda que saiba, Maria de Lourdes, que me sinto credora da sua voz e que vou tentar merecer, sem desfalecimentos, o legado da sua herança".
Maria João Seixas

«Eis-nos sitiados»
«Deus não vem fazer aquilo que o homem não foi capaz de fazer (...). Deus deixa acontecer e toma à sua própria conta com as fatalidades da História como se tivesse provocado e querido. Deus da História, mesmo assim? Sem dúvida. Mas não do alto como um produtor de marionetas. Deus da História nos seus avanços e recuos. (...) E nós? No fundo de nós mesmos sentimo-nos sitiados . De todos os lados nos vem a imagem desoladora da nossa incapacidade para gerirmos o planeta, a nossa cidade, as nossas coisas, os nossos afectos . Que fazer então? Denunciar. Dizer. Enunciar os erros em que caímos, os becos sem saída deste mundo, do país da sociedade dos nossos afectos. Mas aí rebenta o grande escândalo (...) Porque nas sociedades entorpecidas por falsas visões não é tido por conveniente denunciar a injustiça, o erro, a ilusão. Nem sequer a zona mais íntima dos nossos afectos segue leis diferentes.»

Maria de Lourdes Pintasilgo
Do livro 'Dimensões da Mudança'

quarta-feira, 7 de julho de 2004

Quem sou eu?

"Quando, três ou quatro anos atrás, passou pelo Brasil, Jostein deu uma entrevista brilhante à TV Cultura de São Paulo. E a idéia forte em torno da qual se construiu a conversa foi essa de que ninguém descobrirá quem é se apenas olhar para si próprio. "
Carlos Chaparro
in Comunique-se, 1.7.2004

sexta-feira, 2 de julho de 2004

Sophia

"Sozinha caminhei no labirinto
Aproximei o meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz de um dia limpo"

sexta-feira, 25 de junho de 2004

Almodovar: "Mala educación"

Na newsletter da SIGNIS:
"In recent years, he has perfected his style, his ability to create intelligent melodramas, channel his flamboyant still into thoughtful and moving explorations of the human experience, often bizarre experiences. 'All About My Mother' won the Ecumenical award at Cannes in 1999.
'Bad Education' has been in planning stages for many years. In 2002, when Almodovar announced that he would move into production, there were immediate claims that the film would be anti-clerical. It would be a film about his own experiences of Catholic education in Spanish schools of the 1960s. This was re-iterated in articles and interviews and was the first question at the press conference in Cannes where 'Bad Education' was the film chosen for Opening Night.
However, Almodovar himself has been disclaiming the anti-clerical charge. He has said that had he made the film twenty years earlier, it would have been quite anti-clerical. He says now that he has mellowed and that, although he does not have what he calls 'the luxury' of believing in God, he values much of what he experienced in the Church (especially in liturgies, celebrations and art) during his childhood. He says he asked God to give him faith when he was a boy but God did not give it to him. He also said recently that the priests at school said that watching films was a sin and that he had to choose sin. These themes are incorporated into 'Bad Education'."

quinta-feira, 3 de junho de 2004

Cristãos?

Francisco Sarsfield Cabral, in Público, 3.5.2004

Um dos traços da recente evolução política nos Estados Unidos está na força eleitoral que ganhou a chamada direita cristã, hoje a mais importante base de apoio dos Republicanos. A um europeu custa imaginar que muitos americanos ainda considerem blasfema a teoria da evolução de Darwin. Mas, para os fundamentalistas, que são sobretudo protestantes evangélicos, a Bíblia tem apenas o sentido literal. O que os leva, também, a considerarem que a Palestina pertence a Israel por direito divino - daí a viragem de Washington a favor de Sharon. E os movimentos anti-aborto dos fundamentalistas não vêem contradição entre serem pró-vida e apoiarem com entusiasmo a pena de morte.

Só que falta ao actual poder em Washington o sentido ético que seria de esperar de cristãos. Não são apenas as ligações da Administração Bush a interesses económicos, como os petrolíferos ou a Enron. É o olímpico desprezo que esse Governo manifesta por tratados, pelo direito internacional, pelos aliados e pelos direitos dos suspeitos de terrorismo. Talvez sem se darem conta, estes propagandistas de valores alegadamente cristãos são, afinal, cultores pós-modernos do relativismo moral, fascinados pelo seu próprio poderio militar. Por isso prevalece o direito da força sobre a força do direito, como notou o Vaticano. Por isso Bush e o seu unilateralismo contrariam a importância que João Paulo II (como antes Paulo VI) atribui à ONU e à cooperação internacional. Por isso, ainda, o Papa se opôs à guerra do Iraque - e vê-se agora como tinha razão.

A retórica pretensamente cristã da Casa Branca e apoiantes servirá para ganhar votos. Mas ela encobre uma forma virulenta de paganismo, que valoriza acima de tudo o dinheiro e a força.

segunda-feira, 31 de maio de 2004

Futebol, a nova religião

"(...)São sinais que resultam de o futebol se ter transformado numa nova religião, uma religião laica, com a sua ideologia, a sua fé, as suas massas, as suas cerimónias e ritos, as suas "catedrais" e clero, a sua economia. Não admira que a Conferência Episcopal portuguesa tenha alertado há meses, em invulgar comunicado, para o peso excessivo que o futebol vem assumindo no país: o futebol é, de facto, a única crença e instituição que pode tomar o lugar do catolicismo na sociedade portuguesa.
Apesar dos conflitos entre clubes e seus adeptos, o futebol une a nação: une pobres e ricos em torno do mesmo tema, o único possível para esse diálogo; une os portugueses até nas divergências, pois no futebol mesmo o ódio fornece uma linguagem comum a todos, que substitui a da religião. Ora, ao fazê-lo, o futebol fornece muito do que é necessário para se manter a coesão social. Em democracia, a política precisa dessa única linguagem comum na sociedade, e por isso apropria-se dela.
Além disso, o futebol substitui o debate sobre os problemas sociais, económicos e políticos, o que é um alívio para todos os políticos, nomeadamente para os que estão no poder. Se o povo falasse de política como fala de futebol nem os do Bloco de Esquerda tinham descanso perante a descoberta das suas carecas, quanto mais os partidos da área do poder governativo."
Eduardo Cintra Torres, Público, 31.5.2004

quarta-feira, 19 de maio de 2004

Concordata

António Costa Pinto, no DN:

"A Concordata da democracia foi finalmente assinada. Ultrapassamos assim a do Estado Novo, assinada em 1940 por um devoto Salazar, ainda que renitente em oferecer à Igreja Católica tudo o que ela queria. Precisávamos de uma nova ou bastava deixar cair a antiga? Os Estados democráticos não ganham muito com elas, mas a história é madrasta e a das relações entre Estado e Igreja no século XX não foi famosa.
A 1.ª República viu na Igreja um dos factores centrais do atraso português, tentou «limpar-lhe» a base de apoio e levou com ela em cima no final dos anos 20. Ainda assim, Salazar, apesar de pio católico, esteve longe das concessões do seu vizinho Franco e manteve grande parte da herança republicana.
O salazarismo ofereceu à Igreja grande parte do «monopólio das almas», o que para uma ditadura de direita até não foi mau.
A alternativa não seria a democrática, mas a fascista dos braços estendidos, bem mais preocupante. A Concordata de 1940 cede no divórcio e em muito mais, mas pede a «catolicização do império», ainda muito atrasada. Nos anos 50, a Acção Católica já mobilizava mais do que o Regime e dominava muito das suas organizações oficiais, e Salazar teme a dissidência. Esta acabou por vir, pois a Igreja Católica, ao contrário do que pensam os que a vêem de fora, é mais plural do que eles imaginam. Dito isto, em termos de teoria política liberal não sei se precisávamos de uma nova Concordata. Mas, lido o texto, também não se vê grande mal no que foi assinado."

terça-feira, 18 de maio de 2004

Quatro perguntas sobre a Concordata

António Marujo, no Público: Quatro perguntas sobre a Concordata:

"Era necessária uma nova Concordata?
Quando o Governo presidido por António Guterres decidiu encetar o processo de elaborar uma nova Lei de Liberdade Religiosa (LLR), debateu-se a necessidade de um acordo específico com a Igreja Católica. Para alguns, esta deveria entrar na lógica das restantes confissões religiosas, submetendo-se à lei geral. Para outros, o facto de ser a confissão maioritária dos portugueses deveria levar o Estado a contemplar essa especificidade. O próprio patriarca de Lisboa, entrando no debate, admitiu (entrevista ao Público, Junho de 2001) que uma lei seria suficiente, mas que a Concordata dava aos católicos portugueses 'uma estabilidade legislativa' que uma lei ordinária não permitiria.
Na radicalidade da sua doutrina, o cristianismo afirma-se despojado e desligado do poder - mesmo se, em vários momentos da História, o poder foi (muito mal) ligado à profissão da fé e exercido de forma arbitrária. Aceitar um tratado internacional que dê determinadas garantias à comunidade dos crentes do país estaria assim em contradição - ou pelo menos em desacordo - com aquela perspectiva.
O problema está na 'estabilidade' legislativa que a Concordata garante - ao contrário da lei ordinária, que poderia variar ao sabor das maiorias governativas. A hierarquia católica, escaldada pela História - Marquês de Pombal, liberalismo, I República - preferiu jogar à defesa. Ainda mais com alguns argumentos ouvidos durante o debate sobre a LLR e a Concordata, que faziam temer o pior: colocavam a dimensão religiosa como legítima para a sacristia ou mesmo para qualquer esfera extra-terrestre. Para os crentes, e para o cristianismo em particular, a fé tem uma dimensão pública que não se pode escamotear - e que o Estado, representando todos os cidadãos, tem o dever de levar em conta em todos os aspectos, já que também contempla a dimensão educativa, cultural, de saúde, desportiva ou outras.
Jogando à defesa, a hierarquia católica não arriscou o que poderia ter arriscado. Poderia tê-lo feito e com isso estaria a ser mais profética, como se diz em linguagem teológica. Mas, pesando uma e outra argumentação, aceita-se que, neste momento, possa haver uma nova Concordata. (...)"
Continuar a ler AQUI.

segunda-feira, 10 de maio de 2004

As religiões e a cultura da Paz
Frei Bento Domingues
Mário Figueirinhas Editor, Porto, 2004

Este livro, que tem o prefácio de Lídia Jorge, é hoje apresentado no Porto, nos anexos da Igreja de Cristo Rei (à Avenida Gomes da Costa), pelas 18.30. A ocasião será pretexto também para uma homenagem ao editor, promovida pela Paróquia de Cristo Rei e pelo Centro D. António Ferreira Gomes.

domingo, 2 de maio de 2004

Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA:
"We worship the prince of peace, not war"

"When I was younger, almost all Baptists were strongly committed on a theological basis to the separation of church and state. It was only 25 years ago when there began to be a melding of the Republican Party with fundamentalist Christianity, particularly with the Southern Baptist Convention. This is a fairly new development, and I think it was brought about by the abandonment of some of the basic principles of Christianity.

First of all, we worship the prince of peace, not war. And those of us who have advocated for the resolution of international conflict in a peaceful fashion are looked upon as being unpatriotic, branded that way by right-wing religious groups, the Bush administration, and other Republicans.

Secondly, Christ was committed to compassion for the most destitute, poor, needy, and forgotten people in our society. Today there is a stark difference [between conservative ideology and Christian teaching] because most of the people most strongly committed to the Republican philosophy have adopted the proposition that help for the rich is the best way to help even poor people (by letting some of the financial benefits drip down to those most deeply in need). I would say there has been a schism drawn – on theology and practical politics and economics between the two groups."

Former President Jimmy Carter, America's first evangelical Christian president
in The American Prospect
April 9, 2004

segunda-feira, 26 de abril de 2004

"Buscando a Deus"

por ISAAC DÍAZ PARDO, in La Voz de Galicia, 26.4.2004

ESTES DÍAS anduvo por Galicia Adolfo Pérez Esquivel, premio Nobel da Paz no 1980 pola súa loita na defensa dos dereitos humanos.

Pérez Esquivel fíxose arquitecto e escultor na Universidade de La Plata [La Plata é a capital da provincia de Buenos Aires]. Católico militante, fundou no 1974 o Servicio de Paz y Justicia, o que o enfrentou ás dictaduras que padeceu o cono sur de América ao denunciar as atrocidades cometidas polo rexímenes militares que o tiveron detido e torturado, e en algunha ocasión con bispos da nova interpretación da ciencia do amor ao próximo que ilumina a algúns seres buscando en Deus unha solución ás discordias humanas na paz e na xustiza. Mais este é un mundo difícil no que prevalecen os sistemas económicos inxustos e a violencia como forma de manter a inxustiza -ás veces disfrazada de xustiza- como defensa dos intereses económicos dos privilexiados.

Non é só Pérez Esquivel quen anda detrás da paz e da xustiza coa súa fe de crente convencido, axudando aos que sufren a miseria e a explotación, cunha aptitude admirable, nun mundo no que non se lle ve solución a este animal recén saído da selva, pois non se sabe por onde vai cun predominio dos que andan a buscar petróleo, e outros negocios, e non perden o tempo en buscar a Deus.

Este arxentino é verdadeiramente un iluminado, algo ten que ver coa súa formación de artista, de arquitecto, que influiron na súa sensibilidade. Penso que cando hai autenticidade, xa sexa plástico ou poeta, o ser atópase como proido polas causas xustas. Se teño algún lector, invítoo a que analice a obra material ou inmaterial dos que acadaron trascendencia para ver nela o compromiso que tiveron os outros autores coa sorte dos homes. Pero o mundo é así: uns poucos idealistas entre moitos que só están a sacar tallada con todo e coa obra que fan outros.

Tiven que acompañar a Esquivel na súa conferencia en Oleiros, e só se me ocorreu saudalo con aquel poema de León Felipe no que di: «Hay un hombre que trafica con las cosas / y otro hombre que las quiere organizar / el organizador es el artista [dixen sinalando a el] el otro es el chalán / y la lucha en el mundo ha sido siempre / entre artistas y chalanes nada más».

Aínda que sexan poucos, Esquivel non está solo na búsqueda de Deus na paz e na xustiza. De algunha maneira esta especie que somos, que en algún momento adquiriu conciencia de si mesmo, e aprendeu a chorar polos males alleos cando a sorrir pola súa felicidade, empezou a preguntarse que facemos acó, de onde vimos, para que vimos, e así empezamos a buscar a Deus, dende o eido no que nacemos, con sabor a esa terra e á súa circunstancia, para xustificar a nosa vida. Non importa a existencia, ou non, do ser que nos axuda, pois o seu existir, ou non, ficará a pesar das nosas crenzas.

Eu remataba de estar cun amigo que non cre na convivencia co mundo musulmán, que só tentará eliminarnos, polo que tivemos que botalos da Península. Meu amigo non sabe que botamos aos mouros, aos xudeus e aos republicanos.

Esquivel cre que non importa a diferencia de credos, que temos que entendernos respectando as crenzas da cada quen.

quarta-feira, 14 de abril de 2004

Homens muito voltados para um modo de ver

"(...)
Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo o lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior"

Daniel Faria
"Homens que são como lugares mal situados"

domingo, 11 de abril de 2004

"Tempos difíceis"

António Barreto, no Público, hoje:
"Há tempos assim, em que nos querem encostados à parede, em que vivemos rodeados de círculos de fogo, em que a razão é substituída por um qualquer automatismo, em que o pensamento mecânico vive do preconceito e da dependência e em que o cliché e a banalidade substituem o esforço de raciocínio rigoroso e independente. Há tempos assim, em que é preciso estar com alguém, em que é necessário estar contra alguém, em que tudo nos empurra para ser branco ou preto, em que nos querem obrigar a vestir uma camisola, em que contrariar um amigo faz de nós seu inimigo, em que ter opinião diferente de um aliado faz de nós um adversário, em que pensar livremente é sinónimo de traição, em que reconhecer uma qualquer razão a alguém implica estar ao seu serviço e em que a autonomia de espírito é a todos os títulos condenada. Há tempos assim, em que o medo impede de pensar livremente, em que o receio leva a ceder à violência e em que o pavor obriga a curvar perante o terror. (...)"

sábado, 10 de abril de 2004

Tempos de inquietude

Há um sentido do acreditar que leva a lançar um olhar beato sobre a vida e o mundo, cuidando que as coisas se encaminharão finalmente num sentido positivo. Não sou especialmente sensível a esse modo de estar na vida. Acredito que o futuro é maior do que o nosso esforço, mas que não prescinde dele.
E por isso me inquieto com o que sou, o que vejo, o que oiço.
Vivi os dois últimos meses em Espanha, perto das inquietações e das perguntas que, como um enorme cogumelo depois da explosão, os atentados do 11 de Março levantaram.
Li e ouvi bastante. Quase não vi televisão. Falei com muita gente. Inquietei-me com os termos de referência de uma parte dos debates. Senti a falta de instrumentos e de conceitos para pensar o que se passa no mundo, intuindo que algo de muito fundo está a emergir.
Sendo cada vez mais claro que as sociedades se têm de defender do terror, não menos claro é que não podem construir a sua casa sobre o medo e o retraimento. Muito menos sobre a guerra.
Mas o temor do Outro, o desinteresse e a ignorância pela sua história, pela sua situação são tão grandes como o nosso etnocentrismo. Os muros que, cegos, erguemos, esbarram com esse dado básico que é estarem do lado de cá aqueles que queremos deixar extra-muros. E estão do lado de cá porque precisamos deles. Isto é, precisamos deles e temos medo deles. Um paradoxo? A História está cheia de tais paradoxos.
Três princípios

"All forms of social communication (...) evidence three basic principles: the priority of truth -- we are never justified in recounting lies; the dignity of the individual -- our communication should enhance and not diminish our innate human dignity; the common good -- our communication should contribute to the good of the community and not harm it morally or in any other way."
John Foley, 28.3.2004

sexta-feira, 9 de abril de 2004

"Uma barbaridade que fere toda a lógica"

No Jornal de Notícias de hoje:

"(...)Entre o domingo de Ramos e o domingo de Páscoa, a cidade dos arcebispos liberta o esplendor contido da espiritualidade construída durante 40 dias, em que o Santíssimo Sacramento é exposto à adoração dos fiéis (lausperene).
Mas, porque o objectivo é alargar o âmbito das celebrações, a comissão encarregue pela organização promoveu concertos corais-sinfónicos em muitas igrejas da cidade, para além da Sé. (...)"

No Público:

O bispo de Viana do Castelo proibiu "a realização de concertos ou outros eventos culturais em templos religiosos da sua diocese, por considerar que esses espaços devem ser utilizados exclusivamente para o culto ou para actos com ele relacionados."

Comentário de António Gonçalves:
"Uma pedrada no charco, finalmente. Perante o silêncio que é imposto nos templos religiosos da diocese de Viana do Castelo - no que diz respeito à audição de obras musicais de carácter erudito - pelo respectivo bispo, um produtor de espectáculos do género, David Martins, não se conteve e afirmou aquilo que muitos mais sabiam, e sabem, e não ousavam, nem ousam, dizer: "Uma barbaridade que fere toda a lógica".

quinta-feira, 8 de abril de 2004

FAITH ONLINE

A new national survey by the Pew Internet & American Life Project finds that nearly two-thirds of online Americans use the Internet for faith-related reasons. The 64% of Internet users who perform spiritual and religious activities online represent nearly 82 million Americans. Those who use the Internet for religious or spiritual purposes are more likely to be women, white, middle aged, college educated, and relatively well-to-do. In addition, they are somewhat more active as Internet users than the rest of the Internet population."There has been much speculation about the impact of the Internet on religion, particularly as increasing numbers of Americans have been turning to sources other than their own traditions and clergy," said Prof. Stewart Hoover of the University of Colorado at Boulder, the lead author of the Pew Internet Project report. "The survey provides clear evidence that the majority of the online faithful are there for personal spiritual reasons, including seeking outside their own traditions," Hoover added, "but they are also deeply grounded in those traditions, and this Internet activity supplements their ties to traditional institutions, rather than moving them away from church." The survey found that two-thirds of those who attend religious services weekly use the Internet for personal religious or spiritual purposes.

quarta-feira, 31 de março de 2004

Parece mentira

Gabriel Perissé (*)
In Observatório da Imprensa, 30.3.2004

É célebre o paradoxo do mentiroso: Epimênides, sacerdote de Apolo, cretense que viveu no século VI a.C., disse de seus compatriotas: "Os cretenses mentem o tempo todo". Ora, se Epimênides é mais um cretense que vive dizendo mentiras... nem todos os cretenses serão mentirosos. Ou, talvez, Epimênides seja o único cretense capaz de dizer verdades, e a verdade, então, é que todos os cretenses são sempre mentirosos, exceto Epimênides.

A verdade mesmo é que ninguém consegue ser mentiroso 24 horas por dia. Mentir um dia cansa, e possivelmente o próprio Epimênides, mentiroso renitente, fez uma pausa e, sendo profeta, disse essa verdade, citada por Paulo em sua epístola a Tito, que ficara em Creta para difundir o cristianismo: "Dixit quidam ex illis, proprius ipsorum propheta: ‘Cretenses semper mendaces’."

Mas se mentir o tempo todo é impossível, dizer sempre a verdade não é nada fácil. A verdade, afirmou Platão, "é que a verdade é um alvo em que poucos acertam".

"O que é a verdade?" – perguntou o procurador romano Pôncio Pilatos a um judeu inocente, prestes a morrer de asfixia numa cruz: Quid est veritas? – Pergunta que não merecia resposta...

Mas houve uma resposta, silenciosa como tantas verdades verdadeiras. Por trás das mesmas quatorze letras da frase acima, o texto bíblico em latim deixou implícita, num anagrama, a frase demolidora: Est vir qui adest, ou seja: é o homem que está na tua presença, ele é a verdade.

A verdade é o ser humano, é a pessoa humana em sua radical presença. Nisto se assenta uma possível ética da comunicação. Somos pessoas, e nossa verdade como pessoas é critério para avaliar o que falamos/escrevemos, o que lemos/ouvimos.

Perdemos personalidade quando mentimos, ou quando acreditamos na mentira sabendo que de mentira se trata.

Perdemos liberdade quando mentimos, ou quando dizemos que tudo é verdade, mentira deslavada.

Perdemos tempo quando mentimos, ou quando fingimos não ter entendido a verdade, exclamando em tom de falsa surpresa: "Parece mentira!".

Perdemos amigos quando mentimos, ou (para alguns algo muito pior) perdemos clientes.

Perdemos leitores (e até eleitores) quando mentimos, ou quando aceitamos que mintam em nosso nome, ou, ainda, quando ficamos indiferentes — tanto faz, tanto fez, me deixem em paz.

Toda mentira supõe saber ou ter uma idéia da verdade. A verdade, sombra luminosa que acompanha a mentira, faz dela a notícia que amanhã esquecerei.

(*) Doutor em Educação pela USP e escritor