...but so quickly
"Sometimes, there is God. But so quickly"
Blanche DuBois na peça de Tennessee Williams "A Streetcar Named Desire", da única vez que lhe parece acontecer uma coisa boa.
Cit por João Bénard da Costa, in Público, 17.12.2004
sexta-feira, 17 de dezembro de 2004
segunda-feira, 8 de novembro de 2004
A iniciativa das tradições e Religiões unidas propõe:
O Manifesto da Unidade na Diversidade
? Ética e espiritualidade das tradições e religiões
de paz e de justiça
Paz, Igualdade, Solidariedade
PREÂMBULO
Este Manifesto[1] parte dos valores éticos e espirituais fundamentais e universais para expor, em doze pontos, uma visão de unidade na diversidade das tradições e religiões de paz e de justiça.
. A sua visão simples, coerente e concisa permite a qualquer pessoa de boa vontade, a ele aderir, seja ela agnóstica[2] ou crente.
? O Manifesto desenvolve a divisa e a máxima da Europa e inscreve-se directamente nos trabalhos de « Uma Alma para a Europa?ética e espiritualidade? »[3].
? As suas bases permitem construir uma eco-cidadania de harmonia, de não-violência e de responsabilidade universal para uma sociedade de solidariedade e de cooperação.
? Os pontos desenvolvidos pelo Manifesto são fundamentais na educação para uma cultura de paz e de não-violência tal como a propõe a Unesco, a Onu, e numerosas organizações do diálogo inter-religioso.
? Pode favorecer o diálogo inter-tradições e inter-religioso expressando um denominador comum a todas as tradições de paz e de justiça.
? A sua simplicidade pode ser útil como utensílio de comunicação mediática e pode ter um impacto significativo nos dirigentes religiosos, nas instituições e nos sistemas educativos.
? Pode favorecer a emergência de uma rede de dirigentes éticos e espirituais partilhando uma mesma perspectiva de unidade na diversisdade.
? Pode ser um paradigma a integrar na constituição de Estados de paz e de justiça.
? O reconhecimento dos seus princípios é também a condição sine qua non para que as religiões não sejam factores de enclausuramento identitários e finalmente de guerras.
O Manifesto da Unidade na Diversidade
das tradições e religiões de paz e de justiça
Nós, representantes de tradições et religiões aspirando à paz e à justiça [4], à harmonia e à não-violência, signatários do presente manifesto, reconhecemos :
1) A realidade de uma dimensão fundamental e universal da ética.
2) A realidade de uma dimensão fundamental e universal da espiritualidade.
3) A unidade na diversidade das tradições de paz e de justiça.
4) A diversidade e o pluralismo como uma riqueza.
5) Os fundamentos universais da ética e da espiritualidade como base de uma atitude respeitosa dos direitos e deveres do ser humano.
Reconhecemos também:
6) A necessidade de uma igualdade de direitos e de dignidade nas relações intertradicionais e religiosas.
7) A necessidade de um compromisso total com a sua tradição ou religião.
8) A necessidade de um diálogo intertradições ou inter-religioso profundo.
9) A necessidade da comunicação e da educação sobre o tema da unidade na diversidade.
10) A necessidade de uma cooperação intertradicional e religiosa em vez da competição de tradições e religiões.
11) A necessidade de promover um Estado garante da unidade na diversidade das tradições e religiões de paz e de justiça.
12) A utilidade de uma Rede Mundial de Dirigentes Tradicionais e Religiosos como lugar e instrumento desta cooperação e solidariedade numa perspectiva de unidade na diversidade.
Mais precisamente :
1) Reconhecemos como regra de ouro a realidade de uma dimensão fundamental e universal da ética.
Todas as tradições e religiões de paz e de justiça têm fundamentalmente uma mesma dimensão ética que se resume na regra de ouro que se enuncia : « Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti».[5]
2) Reconhecemos no Absoluto, Deus e/ou a compreensão do que eu sou, a realidade de uma dimensão fundamental e universal da espiritualidade.
Todas as tradições e religiões de paz e de justiça partilham também uma dimensão espiritual fundamental e universal, que se resume ao reconhecimento, à experiência e à compreensão de uma presença do Absoluto, de Deus ou do Ser supremo compreendido como fundamentalmente intemporal e omnipresente, transcendendo os nomes e as formas que lhe podem ser atribuídos. A dimensão universal da espiritualidade pode também resumir-se no adágio socrático : « conhece-te a ti mesmo».
3) Reconhecemos a unidade da experiência ética e espiritual na diversidade de expressão das tradições e religiões de paz e de justiça.
A dimensão universal da experiência ética e espiritual[6] é o espaço da unidade ou da convergência fundamental das tradições ou religiões de paz e de justiça. As expressões particulares desta unidade fundamental e universal são a diversidade destas tradições ou religiões. Esta diversidade de expressão corresponde a receptividades, mentalidades e sensibilidades variadas, dos diferentes seres humanos, na multiplicidade das suas matrizes sociolinguísticas.
4) Reconhecemos a diversidade e o pluralismo como uma riqueza.
A diversidade das formas e expressões particulares utilizadas pelas diferentes tradições e religiões de paz e de justiça[7] deve ser considerada, para além da simples atitude de tolerância, como uma riqueza da expressão dos poderes ilimitados do absoluto e do património ético e espiritual da humanidade.
5) Reconhecmos os fundamentos universais da ética e da espiritualidade como base de uma atitude respeitadora dos direitos e deveres dos seres humanos.
Os fundamentos da ética e da espiritualidade, universais e não confessionais, tais como os acima mencionados, são os fundamentos de uma atitude respeitadora dos direitos e deveres do ser humano[8] numa perspectiva de responsabilidade universal[9].
E também:
6) Reconhecemos a necessidade de uma igualdade de direitos e de dignidade nas relações entre tradições e religiões.
A formulação e a prática de uma «personalidade tradicional ou religiosa» análoga à «personalidade moral» considera todas as tradições e religiões de paz e justiça iguais em direitos, em deveres e em dignidade [10].
7) Reconhecemos a necessidade de um compromisso total com a sua própria tradição/religião.
Na igualdade de direitos, de deveres e de dignidade das tradições e religiões de paz e de justiça[11], um total compromisso, enquanto discípulo da disciplina da sua tradição/religião, com as suas percepções, práticas, regras e preceitos é necessário para a progressão : a transformação pessoal, a salvação ou realização dos seus membros; assim como para evitar confusões que o sincretismo ou o concordismo podem produzir.12
8) Reconhecemos a necessidade de um diálogo intertradições/ inter-religioso profundo.
O diálogo, quer entre tradições quer entre religiões é, na sua dimensão profunda, o meio de desenvolver a compreensão autêntica da unidade na diversidade; e, no seu contexto, de reconhecer as diferenças como riqueza. Assim se promovem o respeito e a apreciação mútuos e totais das tradições e religiões de paz e de justiça.
9) Reconhecemos a necessidade da comunicação e da educação para a unidade na diversidade.
A comunicação e a educação são os meios para desenvolver a compreensão verdadeira da unidade na diversidade e promover os seus valores. Cada tradição e religião deveria realizá-lo localmente junto dos seus praticantes contribuindo assim para o desenvolvimento da paz e da justiça globais13.
10) Reconhecemos a necessidade de uma cooperação inter tradições/religiões em vez da competição entre tradições/religiões.
Na base dos diferentes pontos acima expressos, as tradições e religiões de paz e de justiça podem trabalhar em sinergia e cooperar entre elas, mais do que entrar em competição. Nesta solidariedade podem unir as suas forças para desenvolver paz e justiça e assim fazer face aos numerosos desafios do mundo contemporâneo, em particular o ecológico.
11) Reconhecemos a necessidade de promover um Estado garante de uma verdadeira unidade na diversidade tal como é definida no presente Manifesto.
É necessário que a política reconheça as tradições éticas e espirituais de paz e de justiça e que um estado agnóstico, ou laico, seja garante da unidade na diversidade, das tradições/religiões tal como está expressa no presente Manifesto.
12) A utilidade de uma Rede Mundial de Dirigentes Tradicionais/Religiosos como lugar e instrumento desta cooperação e solidariedade (numa perspectiva de unidade na diversidade).
A Rede Mundial da Unidade na Diversidade, das Traditções et Religiões de paz e de justiça é uma rede informal de dirigentes ou representantes das diferentes tradições éticas e espirituais e das religiões de paz e de justiça.
A Rede reúne assim todos os praticantes destas tradições e religiões que aderem ao Manifesto.
A Rede é constituída pelos signatários do presente Manifesto e pode, a partir das consultas dos seus membros e das suas visões convergentes, falar em conformidade com os princípios do presente Manifesto para o bem de todos.
Os comentários e achegas desta Rede Mundial seriam preciosos para desenvolver a paz, a justiça e o que é benéfico para todos. Poderiam também servir para denunciar e desencorajar as más utilizações da religião e os excessos de todos os extremos.
A Rede é também o lugar de celebração da solidariedade e da diversidade na unidade.
Cólofon:
A inspiração deste Manifesto remonta às origens da tradição de Buddha e da sua visão Rimay, universalista. Foi inspirado por trinta anos de diálogo inter religioso, no mundo, na Europa e no Instituto Karma Ling e pela participação de Lama Denys, o seu compilador na dinâmica de « Uma Alma para a Europa?ética e espiritualidade». O seu texto foi escrito à Beekman Tower Residence, Baie de la Tortue, Manhattan, New-York, em 22 de Maio de 2003 após a conferência organizada na sede das Nações Unidas pelo World Council of Religious Leaders (Conselho Mundial dos Dirigentes Religiosos). O texto e a sua tradução francesa foram finalizados na semana seguinte na sede do Shanga Rimay : O Instituto Karma Ling, na Savoie em França, UE. Foi apresentado no Encontro Islam-Dharma que teve lugar no Instituto Karma Ling em 7, 8, 9 de Junho de 2003 e foi ligeiramente modificado nessa ocasião. Em seguida foi apresentado no forum « Choc des Civilisations ou Rencontre des Cultures » que teve lugar a 12 e 13 de junho 2003 em Martigny, Suíça.
Considere-se livre de utilizar este manifesto a seu bel-prazer, apropie-se dele em desapropriação, não se trata de um Manifesto de uma pessoa ou de um grupo de pessoas mas sim dos seus signatários. (Está livre de copyrights, é «copyleft / copyfree / freecopy »).
Todos os comentários ou sugestões, para melhorar ou continuar esta iniciativa, são muito benvindos e cordialmente encorajados.
Que tudo seja propício.
Mail : lamadenys@rimay.net
[1] Ver o cólofon sobre as origens deste Manifesto.
[2] O Manifesto pode convir a um «agnóstico humanista » que siga uma tradição ética e espiritual ou a um teísta ou a um monoteísta, ou a um «teísta crente». Entendendo-se agnóstico como «não dependendo de uma crença» ou «não reconhecendo um enunciado literal, qualquer que ele seja, como expressão definitiva da realidade». O teísta utiliza o conceito de Deus para o absoluto e geralmente considera a crença em Deus como um acto de fé.
[3] «Uma Alma para a Europa ? ética e espiritualidade? » foi iniciada por Jacques Delors, Antigo Presidente da Comissão Europeia e está ligada à sua célula de prospecção. O seu princípio fundador é que a Europa não se construirá simplesmente sobre as bases de um mercado e que é necessário dar-lhe uma alma, ou um coração, ético e espiritual, numa perspectiva de unidade na diversidade.
[4] Dizemos que uma tradição ou uma religião é de paz ou de justiça quando ela ensina e pratica a paz e a justiça, e igualmente a harmonia e a não-violência.
[5] Esta regra de ouro tem um alcance universal e todas as tradições e religiões a reconhecem. É um princípio de não-violência, de respeito pelo outro enquanto seu semelhante, um princípio de amor e de compaixão, base de toda a ética de paz e de justiça, e de todas as regras que daí decorrem.
[6] Tal como foi definida nos pontos 1. e 2.
[7] Compreendendo a unidade na diversidade tal como está expressa no ponto 3.
[8] Ver a Declaração Universal dos Direitos e dos Deveres do Homem.
[9] Esta noção pode exprimir-se em termos de eco-cidadania.
[10] Na inteligência da unidade na diversidade e do pluralismo como uma riqueza, tal como foram acima definidas, é necessário que as relações entre tradições e religiões de paz e de justiça sejam fundadas sobre uma igualdade de direitos e de dignidade que pode exprimir-se e operar-se pela formulação e prática de uma « personalidade tradicional ou religiosa », análoga à personalidade moral.
[11] Tal como está expressa no ponto 5.
12 NB : Verifica-se na prática que uma compreensão autêntica da unidade na diversidade e dos seus desenvolvimentos tal como foram apresentados no Manifesto reforçam o compromisso pessoal de cada praticante com a sua própria tradição/religião; (e) isto, aprofundando a sua compreensão e a sua experiência.
O Manifesto da Unidade na Diversidade
? Ética e espiritualidade das tradições e religiões
de paz e de justiça
Paz, Igualdade, Solidariedade
PREÂMBULO
Este Manifesto[1] parte dos valores éticos e espirituais fundamentais e universais para expor, em doze pontos, uma visão de unidade na diversidade das tradições e religiões de paz e de justiça.
. A sua visão simples, coerente e concisa permite a qualquer pessoa de boa vontade, a ele aderir, seja ela agnóstica[2] ou crente.
? O Manifesto desenvolve a divisa e a máxima da Europa e inscreve-se directamente nos trabalhos de « Uma Alma para a Europa?ética e espiritualidade? »[3].
? As suas bases permitem construir uma eco-cidadania de harmonia, de não-violência e de responsabilidade universal para uma sociedade de solidariedade e de cooperação.
? Os pontos desenvolvidos pelo Manifesto são fundamentais na educação para uma cultura de paz e de não-violência tal como a propõe a Unesco, a Onu, e numerosas organizações do diálogo inter-religioso.
? Pode favorecer o diálogo inter-tradições e inter-religioso expressando um denominador comum a todas as tradições de paz e de justiça.
? A sua simplicidade pode ser útil como utensílio de comunicação mediática e pode ter um impacto significativo nos dirigentes religiosos, nas instituições e nos sistemas educativos.
? Pode favorecer a emergência de uma rede de dirigentes éticos e espirituais partilhando uma mesma perspectiva de unidade na diversisdade.
? Pode ser um paradigma a integrar na constituição de Estados de paz e de justiça.
? O reconhecimento dos seus princípios é também a condição sine qua non para que as religiões não sejam factores de enclausuramento identitários e finalmente de guerras.
O Manifesto da Unidade na Diversidade
das tradições e religiões de paz e de justiça
Nós, representantes de tradições et religiões aspirando à paz e à justiça [4], à harmonia e à não-violência, signatários do presente manifesto, reconhecemos :
1) A realidade de uma dimensão fundamental e universal da ética.
2) A realidade de uma dimensão fundamental e universal da espiritualidade.
3) A unidade na diversidade das tradições de paz e de justiça.
4) A diversidade e o pluralismo como uma riqueza.
5) Os fundamentos universais da ética e da espiritualidade como base de uma atitude respeitosa dos direitos e deveres do ser humano.
Reconhecemos também:
6) A necessidade de uma igualdade de direitos e de dignidade nas relações intertradicionais e religiosas.
7) A necessidade de um compromisso total com a sua tradição ou religião.
8) A necessidade de um diálogo intertradições ou inter-religioso profundo.
9) A necessidade da comunicação e da educação sobre o tema da unidade na diversidade.
10) A necessidade de uma cooperação intertradicional e religiosa em vez da competição de tradições e religiões.
11) A necessidade de promover um Estado garante da unidade na diversidade das tradições e religiões de paz e de justiça.
12) A utilidade de uma Rede Mundial de Dirigentes Tradicionais e Religiosos como lugar e instrumento desta cooperação e solidariedade numa perspectiva de unidade na diversidade.
Mais precisamente :
1) Reconhecemos como regra de ouro a realidade de uma dimensão fundamental e universal da ética.
Todas as tradições e religiões de paz e de justiça têm fundamentalmente uma mesma dimensão ética que se resume na regra de ouro que se enuncia : « Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti».[5]
2) Reconhecemos no Absoluto, Deus e/ou a compreensão do que eu sou, a realidade de uma dimensão fundamental e universal da espiritualidade.
Todas as tradições e religiões de paz e de justiça partilham também uma dimensão espiritual fundamental e universal, que se resume ao reconhecimento, à experiência e à compreensão de uma presença do Absoluto, de Deus ou do Ser supremo compreendido como fundamentalmente intemporal e omnipresente, transcendendo os nomes e as formas que lhe podem ser atribuídos. A dimensão universal da espiritualidade pode também resumir-se no adágio socrático : « conhece-te a ti mesmo».
3) Reconhecemos a unidade da experiência ética e espiritual na diversidade de expressão das tradições e religiões de paz e de justiça.
A dimensão universal da experiência ética e espiritual[6] é o espaço da unidade ou da convergência fundamental das tradições ou religiões de paz e de justiça. As expressões particulares desta unidade fundamental e universal são a diversidade destas tradições ou religiões. Esta diversidade de expressão corresponde a receptividades, mentalidades e sensibilidades variadas, dos diferentes seres humanos, na multiplicidade das suas matrizes sociolinguísticas.
4) Reconhecemos a diversidade e o pluralismo como uma riqueza.
A diversidade das formas e expressões particulares utilizadas pelas diferentes tradições e religiões de paz e de justiça[7] deve ser considerada, para além da simples atitude de tolerância, como uma riqueza da expressão dos poderes ilimitados do absoluto e do património ético e espiritual da humanidade.
5) Reconhecmos os fundamentos universais da ética e da espiritualidade como base de uma atitude respeitadora dos direitos e deveres dos seres humanos.
Os fundamentos da ética e da espiritualidade, universais e não confessionais, tais como os acima mencionados, são os fundamentos de uma atitude respeitadora dos direitos e deveres do ser humano[8] numa perspectiva de responsabilidade universal[9].
E também:
6) Reconhecemos a necessidade de uma igualdade de direitos e de dignidade nas relações entre tradições e religiões.
A formulação e a prática de uma «personalidade tradicional ou religiosa» análoga à «personalidade moral» considera todas as tradições e religiões de paz e justiça iguais em direitos, em deveres e em dignidade [10].
7) Reconhecemos a necessidade de um compromisso total com a sua própria tradição/religião.
Na igualdade de direitos, de deveres e de dignidade das tradições e religiões de paz e de justiça[11], um total compromisso, enquanto discípulo da disciplina da sua tradição/religião, com as suas percepções, práticas, regras e preceitos é necessário para a progressão : a transformação pessoal, a salvação ou realização dos seus membros; assim como para evitar confusões que o sincretismo ou o concordismo podem produzir.12
8) Reconhecemos a necessidade de um diálogo intertradições/ inter-religioso profundo.
O diálogo, quer entre tradições quer entre religiões é, na sua dimensão profunda, o meio de desenvolver a compreensão autêntica da unidade na diversidade; e, no seu contexto, de reconhecer as diferenças como riqueza. Assim se promovem o respeito e a apreciação mútuos e totais das tradições e religiões de paz e de justiça.
9) Reconhecemos a necessidade da comunicação e da educação para a unidade na diversidade.
A comunicação e a educação são os meios para desenvolver a compreensão verdadeira da unidade na diversidade e promover os seus valores. Cada tradição e religião deveria realizá-lo localmente junto dos seus praticantes contribuindo assim para o desenvolvimento da paz e da justiça globais13.
10) Reconhecemos a necessidade de uma cooperação inter tradições/religiões em vez da competição entre tradições/religiões.
Na base dos diferentes pontos acima expressos, as tradições e religiões de paz e de justiça podem trabalhar em sinergia e cooperar entre elas, mais do que entrar em competição. Nesta solidariedade podem unir as suas forças para desenvolver paz e justiça e assim fazer face aos numerosos desafios do mundo contemporâneo, em particular o ecológico.
11) Reconhecemos a necessidade de promover um Estado garante de uma verdadeira unidade na diversidade tal como é definida no presente Manifesto.
É necessário que a política reconheça as tradições éticas e espirituais de paz e de justiça e que um estado agnóstico, ou laico, seja garante da unidade na diversidade, das tradições/religiões tal como está expressa no presente Manifesto.
12) A utilidade de uma Rede Mundial de Dirigentes Tradicionais/Religiosos como lugar e instrumento desta cooperação e solidariedade (numa perspectiva de unidade na diversidade).
A Rede Mundial da Unidade na Diversidade, das Traditções et Religiões de paz e de justiça é uma rede informal de dirigentes ou representantes das diferentes tradições éticas e espirituais e das religiões de paz e de justiça.
A Rede reúne assim todos os praticantes destas tradições e religiões que aderem ao Manifesto.
A Rede é constituída pelos signatários do presente Manifesto e pode, a partir das consultas dos seus membros e das suas visões convergentes, falar em conformidade com os princípios do presente Manifesto para o bem de todos.
Os comentários e achegas desta Rede Mundial seriam preciosos para desenvolver a paz, a justiça e o que é benéfico para todos. Poderiam também servir para denunciar e desencorajar as más utilizações da religião e os excessos de todos os extremos.
A Rede é também o lugar de celebração da solidariedade e da diversidade na unidade.
Cólofon:
A inspiração deste Manifesto remonta às origens da tradição de Buddha e da sua visão Rimay, universalista. Foi inspirado por trinta anos de diálogo inter religioso, no mundo, na Europa e no Instituto Karma Ling e pela participação de Lama Denys, o seu compilador na dinâmica de « Uma Alma para a Europa?ética e espiritualidade». O seu texto foi escrito à Beekman Tower Residence, Baie de la Tortue, Manhattan, New-York, em 22 de Maio de 2003 após a conferência organizada na sede das Nações Unidas pelo World Council of Religious Leaders (Conselho Mundial dos Dirigentes Religiosos). O texto e a sua tradução francesa foram finalizados na semana seguinte na sede do Shanga Rimay : O Instituto Karma Ling, na Savoie em França, UE. Foi apresentado no Encontro Islam-Dharma que teve lugar no Instituto Karma Ling em 7, 8, 9 de Junho de 2003 e foi ligeiramente modificado nessa ocasião. Em seguida foi apresentado no forum « Choc des Civilisations ou Rencontre des Cultures » que teve lugar a 12 e 13 de junho 2003 em Martigny, Suíça.
Considere-se livre de utilizar este manifesto a seu bel-prazer, apropie-se dele em desapropriação, não se trata de um Manifesto de uma pessoa ou de um grupo de pessoas mas sim dos seus signatários. (Está livre de copyrights, é «copyleft / copyfree / freecopy »).
Todos os comentários ou sugestões, para melhorar ou continuar esta iniciativa, são muito benvindos e cordialmente encorajados.
Que tudo seja propício.
Mail : lamadenys@rimay.net
[1] Ver o cólofon sobre as origens deste Manifesto.
[2] O Manifesto pode convir a um «agnóstico humanista » que siga uma tradição ética e espiritual ou a um teísta ou a um monoteísta, ou a um «teísta crente». Entendendo-se agnóstico como «não dependendo de uma crença» ou «não reconhecendo um enunciado literal, qualquer que ele seja, como expressão definitiva da realidade». O teísta utiliza o conceito de Deus para o absoluto e geralmente considera a crença em Deus como um acto de fé.
[3] «Uma Alma para a Europa ? ética e espiritualidade? » foi iniciada por Jacques Delors, Antigo Presidente da Comissão Europeia e está ligada à sua célula de prospecção. O seu princípio fundador é que a Europa não se construirá simplesmente sobre as bases de um mercado e que é necessário dar-lhe uma alma, ou um coração, ético e espiritual, numa perspectiva de unidade na diversidade.
[4] Dizemos que uma tradição ou uma religião é de paz ou de justiça quando ela ensina e pratica a paz e a justiça, e igualmente a harmonia e a não-violência.
[5] Esta regra de ouro tem um alcance universal e todas as tradições e religiões a reconhecem. É um princípio de não-violência, de respeito pelo outro enquanto seu semelhante, um princípio de amor e de compaixão, base de toda a ética de paz e de justiça, e de todas as regras que daí decorrem.
[6] Tal como foi definida nos pontos 1. e 2.
[7] Compreendendo a unidade na diversidade tal como está expressa no ponto 3.
[8] Ver a Declaração Universal dos Direitos e dos Deveres do Homem.
[9] Esta noção pode exprimir-se em termos de eco-cidadania.
[10] Na inteligência da unidade na diversidade e do pluralismo como uma riqueza, tal como foram acima definidas, é necessário que as relações entre tradições e religiões de paz e de justiça sejam fundadas sobre uma igualdade de direitos e de dignidade que pode exprimir-se e operar-se pela formulação e prática de uma « personalidade tradicional ou religiosa », análoga à personalidade moral.
[11] Tal como está expressa no ponto 5.
12 NB : Verifica-se na prática que uma compreensão autêntica da unidade na diversidade e dos seus desenvolvimentos tal como foram apresentados no Manifesto reforçam o compromisso pessoal de cada praticante com a sua própria tradição/religião; (e) isto, aprofundando a sua compreensão e a sua experiência.
terça-feira, 2 de novembro de 2004
Geração Doente
Por GRAÇA FRANCO
PÚBLICO, 01 de Novembro de 2004
A "Grande Reportagem" de há duas semanas denunciava uma história de terror, dessas que se lêem e não se acredita. Ou melhor, não se quer acreditar. Um jovem - de nome Diogo - quartanista de Arquitectura fora praxado até à morte pelos colegas da Tuna Universitária a que pertencia. O caso a que João Cândido da Silva já se referiu, na sua última crónica, com o sugestivo subtítulo de "Javardos", passou-se em Portugal vai para três anos. Só agora, ultrapassado o doloroso luto, saltou para os jornais, denunciado pela família num justificado alerta contra essa coisa sinistra dos rituais praxistas que continuamos a fingir não ver. Rituais que já começam a invadir o próprio ensino secundário, onde exibem a mesma ou pior violência. Fica assim minada toda a formação da personalidade de gerações inteiras dos nossos miúdos.
A reportagem justificava o editorial de Joaquim Vieira "Cultura rasca". Contra ele escreve violentamente, na edição desta semana, uma jovem socióloga de 26 anos a frequentar o mestrado. Lemos e voltamos a não querer acreditar.
Em sua defesa, e dos da sua geração, a leitora começa por alertar para o seguinte: "os nossos valores são incutidos pela sociedade que foi por vós constituída". Embora o argumento seja lapalissiano só posso concordar e partilhar a culpa na parte que me toca. OK. Posso até concordar com o argumento seguinte: o que se passou não foi "praxe", foi sobretudo um "crime" que a Justiça com a inoperância habitual, exercida por várias gerações (e não por uma única geração como sustenta a jovem), foi incapaz de castigar. E isso é grave. Gravíssimo. Mas, logo a seguir, a mestranda tenta exibir a sua superioridade moral afirmando o seguinte: "Ao invés do Diogo, optei por me impor (sublinhado meu) e recusei participar nas praxes, sem nunca ser posta de parte. Limitei-me a aparecer nas aulas após o fecho das praxes, alegadamente por estar doente. No harm done diriam os ingleses".
Chegámos ao ponto. Posso até admitir que não tinha outra solução senão fugir para não enfrentar o gang acéfalo e maioritário. Nem sempre a fuga é pura cobardia, mas a fuga travestida de colaboracionismo, para gozar dos privilégios inerentes, só pode ter esse nome.
Para esta jovem, que se faz porta-voz de uma geração, "impor-se" resume-se à adopção do comportamento desprezível mas corriqueiro de apresentar atestado médico falso. Estamos entendidos! Fica explicada a tendência compulsiva para a doença falsa e fica-se a perceber melhor por que raio a nova geração de professores, em busca de colocação, pode subitamente surgir tão achacada.
Enfrentar o "sistema", mesmo o mais injusto, dá, no mínimo, muita chatice. Além disso, corre-se o risco de poder ficar à margem do rebanho, sem direito à festa, à borga, aos copos (lá se ia a companhia para as ponchas da Madeira que a jovem académica diz tanto apreciar). E claro, lá se iria também o traje.
Dizer "não", como a minha geração era useira e vezeira, pode sempre trazer problemas ao enfrentar a turba, recusar a humilhação, denunciar, não pactuar com o sistema de abuso abjecto dos mais fracos imposto por uma ordem absurda onde a "antiguidade" é um posto e a burrice assumida premiada na dupla categoria idiota dos "veteranos".
Na minha geração os que "optavam" assim tinham um nome: cobardes, como diriam os portugueses. "Cowards" na versão anglo-saxónica...
"Jamais vu!"
Entre a esquerda libertária e a direita libertina só não digo venha o diabo e escolha porque, por princípio, não gosto de lhe conceder qualquer direito. Em comum, elas têm um pensamento intolerante e único em matérias morais (ou imorais) que, no mínimo, começa a tornar-se irritante. Pensar o contrário deixou de ser reprovável e improvável para passar a ser "impossível".
Fora das duas correntes e com a agravante de não me identificar nem com a direita liberal, nem com a esquerda clássica, vejo-me entre os "opinion makers" da praça como uma espécie de raridade em vias de extinção. Teria a vantagem de me colocar ao abrigo do risco do "déjà vu", não fosse transformar as minhas humildes opiniões em sérias candidatas à classificação de "jamais vu".
Não é que eu posso mesmo, e sem "corar", responder ao repto aqui lançado pelo professor Prado Coelho (a que sempre me habituei a respeitar a óbvia superioridade intelectual), informando-o que nem todos os católicos apostólicos romanos vivem a respectiva religião envergonhadamente e "à la carte". Ou seja, que faço parte daqueles milhões que tenta viver em consonância com o Vaticano, sem que tenhamos de suportar o insulto de ultraconservadores reaccionários. Que fique claro: em Itália nunca votaria no senhor Buttiglione, nem no seu partido, nem no seu Governo. Não partilho muitas das suas ideias sobre a família (que extravasam em muito as posições da Igreja) ou sobre a imigração. No Parlamento Europeu raramente votaria com ele e talvez até votasse frequentemente contra ele mas, porque ambos partilhamos a mesma noção de pecado, fico a saber que, como ele, jamais poderei ser comissária. Paciência, adeus regresso a Bruxelas.
E o meu "pecado" incapacitante parece ser o de, como muitos outros, seguirmos a doutrina de João Paulo II, tanto na condenação firme da guerra preventiva (com a consequente oposição à actual política norte-americana), como na opção preferencial pelos pobres (com a defesa acérrima de uma maior justiça social) - dois pontos que regra geral agradam à esquerda e a direita gosta de omitir -, como nas questões morais que vivemos com maior ou menor dificuldade dada a condição de simples pecadores. Mas, enfim, vivemos, pregamos e publicamente defendemos.
Coisas tão fora de moda como o apelo à vida casta dos solteiros, ou dos homossexuais e divorciados com anterior casamento católico (porque para os católicos o matrimónio é indissolúvel). Isso não significa perseguir ninguém, nem desrespeitar a sua escolha, ainda que decidam viver pública e assumidamente em situações que a Igreja identifica claramente como situações "de pecado". Não se trata de perseguir os homossexuais, pactuar com a sua discriminação, atentar contra a sua dignidade, privá-los dos seus direitos, como não significa marginalizar os recasados ou criminalizar o adultério. Dá para entender? Pelo contrário, o próprio Cristo impediu a lapidação (era a pena de então, numa sociedade que ironicamente autorizava o divórcio) da mulher adúltera, mandando-a em paz com esta simples advertência: "vai e não voltes a pecar". Bem podia ter-lhe dito: "vai que isso não é mais pecado", segundo a minha nova lei. Não disse. Como não o disse à Samaritana, casada pela quinta vez e a viver em união de facto com um homem casado com outra. Há dois mil anos a vida sentimental não era muito mais tranquila do que a actual. É esse Cristo que Paulo pregou, com escândalo, a uma sociedade onde a homossexualidade era tão ou mais comum do que na actual, que continua a escandalizar-nos com as suas propostas radicais. Um Cristo a exigir loucuras de fé.
Intriga-me apenas que quem tem as maiores dúvidas sobre a própria existência de Deus, como Eduardo Prado Coelho, possa ter tão profundas certezas sobre quais os comportamentos que O ofendem ou não (é isso que significa pecado, ofensa a Deus). Eu não tive nenhuma revelação divina. À falta de fonte mais segura, para tentar evitar ofendê-Lo, sigo as instruções do magistério. Todos os meus amigos homossexuais sabem como penso e há mesmo alguns que pensam como eu. Os meus amigos que vivem em adultério (e são muitos mais!), também. Somos todos pecadores de variadíssimos pecados, mas isso não nos deve impedir a todos de ambicionar a santidade. E ela é possível. Hoje celebra-se a sua vitória no Céu e na terra. É porque os Santos existem que hoje é feriado. Sabiam? Não costumo fazer destas crónicas palco de apostolado (deixo a minha catequese para outros "fora"). Aqui não acho próprio. Mas o meu silêncio perante o repto do professor soava a cobardia. E não gosto de cobardes.
Por GRAÇA FRANCO
PÚBLICO, 01 de Novembro de 2004
A "Grande Reportagem" de há duas semanas denunciava uma história de terror, dessas que se lêem e não se acredita. Ou melhor, não se quer acreditar. Um jovem - de nome Diogo - quartanista de Arquitectura fora praxado até à morte pelos colegas da Tuna Universitária a que pertencia. O caso a que João Cândido da Silva já se referiu, na sua última crónica, com o sugestivo subtítulo de "Javardos", passou-se em Portugal vai para três anos. Só agora, ultrapassado o doloroso luto, saltou para os jornais, denunciado pela família num justificado alerta contra essa coisa sinistra dos rituais praxistas que continuamos a fingir não ver. Rituais que já começam a invadir o próprio ensino secundário, onde exibem a mesma ou pior violência. Fica assim minada toda a formação da personalidade de gerações inteiras dos nossos miúdos.
A reportagem justificava o editorial de Joaquim Vieira "Cultura rasca". Contra ele escreve violentamente, na edição desta semana, uma jovem socióloga de 26 anos a frequentar o mestrado. Lemos e voltamos a não querer acreditar.
Em sua defesa, e dos da sua geração, a leitora começa por alertar para o seguinte: "os nossos valores são incutidos pela sociedade que foi por vós constituída". Embora o argumento seja lapalissiano só posso concordar e partilhar a culpa na parte que me toca. OK. Posso até concordar com o argumento seguinte: o que se passou não foi "praxe", foi sobretudo um "crime" que a Justiça com a inoperância habitual, exercida por várias gerações (e não por uma única geração como sustenta a jovem), foi incapaz de castigar. E isso é grave. Gravíssimo. Mas, logo a seguir, a mestranda tenta exibir a sua superioridade moral afirmando o seguinte: "Ao invés do Diogo, optei por me impor (sublinhado meu) e recusei participar nas praxes, sem nunca ser posta de parte. Limitei-me a aparecer nas aulas após o fecho das praxes, alegadamente por estar doente. No harm done diriam os ingleses".
Chegámos ao ponto. Posso até admitir que não tinha outra solução senão fugir para não enfrentar o gang acéfalo e maioritário. Nem sempre a fuga é pura cobardia, mas a fuga travestida de colaboracionismo, para gozar dos privilégios inerentes, só pode ter esse nome.
Para esta jovem, que se faz porta-voz de uma geração, "impor-se" resume-se à adopção do comportamento desprezível mas corriqueiro de apresentar atestado médico falso. Estamos entendidos! Fica explicada a tendência compulsiva para a doença falsa e fica-se a perceber melhor por que raio a nova geração de professores, em busca de colocação, pode subitamente surgir tão achacada.
Enfrentar o "sistema", mesmo o mais injusto, dá, no mínimo, muita chatice. Além disso, corre-se o risco de poder ficar à margem do rebanho, sem direito à festa, à borga, aos copos (lá se ia a companhia para as ponchas da Madeira que a jovem académica diz tanto apreciar). E claro, lá se iria também o traje.
Dizer "não", como a minha geração era useira e vezeira, pode sempre trazer problemas ao enfrentar a turba, recusar a humilhação, denunciar, não pactuar com o sistema de abuso abjecto dos mais fracos imposto por uma ordem absurda onde a "antiguidade" é um posto e a burrice assumida premiada na dupla categoria idiota dos "veteranos".
Na minha geração os que "optavam" assim tinham um nome: cobardes, como diriam os portugueses. "Cowards" na versão anglo-saxónica...
"Jamais vu!"
Entre a esquerda libertária e a direita libertina só não digo venha o diabo e escolha porque, por princípio, não gosto de lhe conceder qualquer direito. Em comum, elas têm um pensamento intolerante e único em matérias morais (ou imorais) que, no mínimo, começa a tornar-se irritante. Pensar o contrário deixou de ser reprovável e improvável para passar a ser "impossível".
Fora das duas correntes e com a agravante de não me identificar nem com a direita liberal, nem com a esquerda clássica, vejo-me entre os "opinion makers" da praça como uma espécie de raridade em vias de extinção. Teria a vantagem de me colocar ao abrigo do risco do "déjà vu", não fosse transformar as minhas humildes opiniões em sérias candidatas à classificação de "jamais vu".
Não é que eu posso mesmo, e sem "corar", responder ao repto aqui lançado pelo professor Prado Coelho (a que sempre me habituei a respeitar a óbvia superioridade intelectual), informando-o que nem todos os católicos apostólicos romanos vivem a respectiva religião envergonhadamente e "à la carte". Ou seja, que faço parte daqueles milhões que tenta viver em consonância com o Vaticano, sem que tenhamos de suportar o insulto de ultraconservadores reaccionários. Que fique claro: em Itália nunca votaria no senhor Buttiglione, nem no seu partido, nem no seu Governo. Não partilho muitas das suas ideias sobre a família (que extravasam em muito as posições da Igreja) ou sobre a imigração. No Parlamento Europeu raramente votaria com ele e talvez até votasse frequentemente contra ele mas, porque ambos partilhamos a mesma noção de pecado, fico a saber que, como ele, jamais poderei ser comissária. Paciência, adeus regresso a Bruxelas.
E o meu "pecado" incapacitante parece ser o de, como muitos outros, seguirmos a doutrina de João Paulo II, tanto na condenação firme da guerra preventiva (com a consequente oposição à actual política norte-americana), como na opção preferencial pelos pobres (com a defesa acérrima de uma maior justiça social) - dois pontos que regra geral agradam à esquerda e a direita gosta de omitir -, como nas questões morais que vivemos com maior ou menor dificuldade dada a condição de simples pecadores. Mas, enfim, vivemos, pregamos e publicamente defendemos.
Coisas tão fora de moda como o apelo à vida casta dos solteiros, ou dos homossexuais e divorciados com anterior casamento católico (porque para os católicos o matrimónio é indissolúvel). Isso não significa perseguir ninguém, nem desrespeitar a sua escolha, ainda que decidam viver pública e assumidamente em situações que a Igreja identifica claramente como situações "de pecado". Não se trata de perseguir os homossexuais, pactuar com a sua discriminação, atentar contra a sua dignidade, privá-los dos seus direitos, como não significa marginalizar os recasados ou criminalizar o adultério. Dá para entender? Pelo contrário, o próprio Cristo impediu a lapidação (era a pena de então, numa sociedade que ironicamente autorizava o divórcio) da mulher adúltera, mandando-a em paz com esta simples advertência: "vai e não voltes a pecar". Bem podia ter-lhe dito: "vai que isso não é mais pecado", segundo a minha nova lei. Não disse. Como não o disse à Samaritana, casada pela quinta vez e a viver em união de facto com um homem casado com outra. Há dois mil anos a vida sentimental não era muito mais tranquila do que a actual. É esse Cristo que Paulo pregou, com escândalo, a uma sociedade onde a homossexualidade era tão ou mais comum do que na actual, que continua a escandalizar-nos com as suas propostas radicais. Um Cristo a exigir loucuras de fé.
Intriga-me apenas que quem tem as maiores dúvidas sobre a própria existência de Deus, como Eduardo Prado Coelho, possa ter tão profundas certezas sobre quais os comportamentos que O ofendem ou não (é isso que significa pecado, ofensa a Deus). Eu não tive nenhuma revelação divina. À falta de fonte mais segura, para tentar evitar ofendê-Lo, sigo as instruções do magistério. Todos os meus amigos homossexuais sabem como penso e há mesmo alguns que pensam como eu. Os meus amigos que vivem em adultério (e são muitos mais!), também. Somos todos pecadores de variadíssimos pecados, mas isso não nos deve impedir a todos de ambicionar a santidade. E ela é possível. Hoje celebra-se a sua vitória no Céu e na terra. É porque os Santos existem que hoje é feriado. Sabiam? Não costumo fazer destas crónicas palco de apostolado (deixo a minha catequese para outros "fora"). Aqui não acho próprio. Mas o meu silêncio perante o repto do professor soava a cobardia. E não gosto de cobardes.
terça-feira, 19 de outubro de 2004
Conservadores e progressistas
From Homer to Hip-Hop
The Jesuit scholar Walter Ong studied the evolution of human consciousness via the history of communication.
by Jeet Heer
"(...) In their evolving attitudes toward popular culture, the McLuhan circle anticipated dramatic changes within Catholicism. The middle decades of the 20th century were an exciting time to be a Catholic intellectual?Vatican II was gestating, but there was great uncertainty as to how the church should deal with the modern world. Thoughtful Catholics felt the competing tug of tradition and change.
Some Catholics wanted their church to pull up the drawbridges and prepare for a long siege against a hostile world. Others pressed the church to embrace modernity indiscriminately. Perhaps the glory of McLuhan and his circle was that they avoided the temptations of these competing positions: they went in for neither the recriminatory nostalgia of the conservatives nor the faddish novelty-seeking of the progressives. Rather, they wrote as open-minded analysts, trying to figure out exactly why the modern world was changing and what could be held on to and even recovered in a turbulent era.(...)"
From Homer to Hip-Hop
The Jesuit scholar Walter Ong studied the evolution of human consciousness via the history of communication.
by Jeet Heer
"(...) In their evolving attitudes toward popular culture, the McLuhan circle anticipated dramatic changes within Catholicism. The middle decades of the 20th century were an exciting time to be a Catholic intellectual?Vatican II was gestating, but there was great uncertainty as to how the church should deal with the modern world. Thoughtful Catholics felt the competing tug of tradition and change.
Some Catholics wanted their church to pull up the drawbridges and prepare for a long siege against a hostile world. Others pressed the church to embrace modernity indiscriminately. Perhaps the glory of McLuhan and his circle was that they avoided the temptations of these competing positions: they went in for neither the recriminatory nostalgia of the conservatives nor the faddish novelty-seeking of the progressives. Rather, they wrote as open-minded analysts, trying to figure out exactly why the modern world was changing and what could be held on to and even recovered in a turbulent era.(...)"
sábado, 16 de outubro de 2004
Os novos donos da verdade
"(...) o italiano Rocco Buttiglione vê o seu nome vetado para comissário europeu não por causa daquilo que defende do ponto de vista legislativo mas sim pelas suas convicções religiosas. Se recuássemos algumas décadas, Rocco Buttiglione seria provavelmente interrogado não sobre o casamento e a homossexualidade - que era então unanimemente considerada à esquerda e à direita como um comportamento censurável quando não criminoso - mas sobre o que pensava da origem da vida, matéria que deu azo a enormes polémicas entre católicos e ateus e levou a que convicções religiosas e espírito científico fossem considerados incompatíveis. Cada época selecciona quem está disposta a calar e a apagar. Geralmente essa escolha faz-se em nome do bem comum. Às vezes, até se faz em nome da liberdade.
Helena Matos, Público, 16.10.2004
Liberdade, Tolerância e Os Novos Donos da Verdade
Rocco Buttiglione e um professor de filosofia conhecido tanto pela sua fina inteligência como por ser um católico devoto e próximo do Papa. Como católico tem, naturalmente, as suas convicções. Acredita, por exemplo, que a homossexualidade é imoral e constitui um "pecado". E, como homem culto, conhece a origem da palavra "matrimónio", que traduz o conceito de um contrato que visa proteger a mulher e os seus filhos, implicando obrigações para os maridos.
Uma parte disto são convicções pessoais, outra é conhecimento da história. No entanto quando Rocco Buttiglione as assumiu publicamente como membro designado da futura comissão europeia presidida por Durão Barroso com a pasta da Justiça e dos Assuntos Internos, a esquerda reagiu indignada, com destaque para os socialistas Josep Borrell (Espanha) e António Costa, para quem um ex-membro do gabinete de Berlusconi nunca poderá assumir tal pasta.
Na verdade, por muito detestável que se possa considerar o actual Governo italiano, ele existe porque os partidos que o formam ganharam as eleições. Logo tem legitimidade para, no quadro das actuais regras europeias, nomear para a Comissão Europeia quem entender e não quem for preferido pelos que perderam as eleições. São essas as regras do jogo nos nossos sistemas democráticos que, mesmo imperfeitos, dispõem de sistemas de pesos e contrapesos suficientes para os fazerem funcionar.
Para isso, no entanto, é necessário que, para além de se respeitarem as regras, se respeitem as opiniões dos outros. E, por muito que isso custe ao senhor Borrell, as opiniões sobre moralidade de Buttiglione não valem menos do que as suas. Já a sua atitude tolerante contrasta pela positiva em relação à intolerância do socialista espanhol.
Porquê? Pela simples razão que Buttiglione, sem abdicar das suas convicções, não pretende impô-las aos que delas discordam. Basta notar no que disse perante a Comissão que, pomposamente, chumbou o seu nome (um chumbo não vinculativo): primeiro, explicou que sabia "distinguir entre moralidade e lei", o que implica que "muitas coisas podem ser consideradas imorais sem terem por isso de ser proibidas"; depois, com lógica, acrescentou que podia "considerar que a homossexualidade era um pecado sem que isso implique que querer criminalizá-la". Afinal, "o Estado não tem o direito de meter o seu nariz neste domínio".
Trata-se de uma declaração corajosa de alguém que não abdica da sua fé particular e que mostra impecáveis credenciais liberais. Mostra que o filósofo italiano não omite por conveniência aquilo em que acredita, que admite a existência de outros pontos de vista e que, ao contrário dos que se julgam "donos da verdade", acredita "na liberdade, o que implica que não se imponha ao outros o que consideramos ser o mais correcto".
Ainda bem que assim pensa, pois isso garante que não imporá a partir de Bruxelas nenhuma agenda política particular ou de grupo, respeitando as diferenças culturais existentes, nomeadamente no domínio em discussão, entre os povos dos 25 membros das União. Porém ser um homem livre e franco e assumir-se como católico é que parece ser "pecado", e mortal, para os que não percebem que são eles que vestem a pele dos Torquemada dos nossos dias."
José Manuel Fernandes
Público, 15 de Outubro de 2004
"(...) o italiano Rocco Buttiglione vê o seu nome vetado para comissário europeu não por causa daquilo que defende do ponto de vista legislativo mas sim pelas suas convicções religiosas. Se recuássemos algumas décadas, Rocco Buttiglione seria provavelmente interrogado não sobre o casamento e a homossexualidade - que era então unanimemente considerada à esquerda e à direita como um comportamento censurável quando não criminoso - mas sobre o que pensava da origem da vida, matéria que deu azo a enormes polémicas entre católicos e ateus e levou a que convicções religiosas e espírito científico fossem considerados incompatíveis. Cada época selecciona quem está disposta a calar e a apagar. Geralmente essa escolha faz-se em nome do bem comum. Às vezes, até se faz em nome da liberdade.
Helena Matos, Público, 16.10.2004
Liberdade, Tolerância e Os Novos Donos da Verdade
Rocco Buttiglione e um professor de filosofia conhecido tanto pela sua fina inteligência como por ser um católico devoto e próximo do Papa. Como católico tem, naturalmente, as suas convicções. Acredita, por exemplo, que a homossexualidade é imoral e constitui um "pecado". E, como homem culto, conhece a origem da palavra "matrimónio", que traduz o conceito de um contrato que visa proteger a mulher e os seus filhos, implicando obrigações para os maridos.
Uma parte disto são convicções pessoais, outra é conhecimento da história. No entanto quando Rocco Buttiglione as assumiu publicamente como membro designado da futura comissão europeia presidida por Durão Barroso com a pasta da Justiça e dos Assuntos Internos, a esquerda reagiu indignada, com destaque para os socialistas Josep Borrell (Espanha) e António Costa, para quem um ex-membro do gabinete de Berlusconi nunca poderá assumir tal pasta.
Na verdade, por muito detestável que se possa considerar o actual Governo italiano, ele existe porque os partidos que o formam ganharam as eleições. Logo tem legitimidade para, no quadro das actuais regras europeias, nomear para a Comissão Europeia quem entender e não quem for preferido pelos que perderam as eleições. São essas as regras do jogo nos nossos sistemas democráticos que, mesmo imperfeitos, dispõem de sistemas de pesos e contrapesos suficientes para os fazerem funcionar.
Para isso, no entanto, é necessário que, para além de se respeitarem as regras, se respeitem as opiniões dos outros. E, por muito que isso custe ao senhor Borrell, as opiniões sobre moralidade de Buttiglione não valem menos do que as suas. Já a sua atitude tolerante contrasta pela positiva em relação à intolerância do socialista espanhol.
Porquê? Pela simples razão que Buttiglione, sem abdicar das suas convicções, não pretende impô-las aos que delas discordam. Basta notar no que disse perante a Comissão que, pomposamente, chumbou o seu nome (um chumbo não vinculativo): primeiro, explicou que sabia "distinguir entre moralidade e lei", o que implica que "muitas coisas podem ser consideradas imorais sem terem por isso de ser proibidas"; depois, com lógica, acrescentou que podia "considerar que a homossexualidade era um pecado sem que isso implique que querer criminalizá-la". Afinal, "o Estado não tem o direito de meter o seu nariz neste domínio".
Trata-se de uma declaração corajosa de alguém que não abdica da sua fé particular e que mostra impecáveis credenciais liberais. Mostra que o filósofo italiano não omite por conveniência aquilo em que acredita, que admite a existência de outros pontos de vista e que, ao contrário dos que se julgam "donos da verdade", acredita "na liberdade, o que implica que não se imponha ao outros o que consideramos ser o mais correcto".
Ainda bem que assim pensa, pois isso garante que não imporá a partir de Bruxelas nenhuma agenda política particular ou de grupo, respeitando as diferenças culturais existentes, nomeadamente no domínio em discussão, entre os povos dos 25 membros das União. Porém ser um homem livre e franco e assumir-se como católico é que parece ser "pecado", e mortal, para os que não percebem que são eles que vestem a pele dos Torquemada dos nossos dias."
José Manuel Fernandes
Público, 15 de Outubro de 2004
terça-feira, 14 de setembro de 2004
"Choque de civilizações ou choque de ignorâncias?"
Sobre o tema do post anterior, e para quem estiver interessado em entrar em alguns dos temas debatidos na conferência de Barcelona, sugiro a leitura da transcrição, disponível online, de uma das mesas, intitulada "Choque de civilizaciones o choque de ignorancias?"
Sobre o tema do post anterior, e para quem estiver interessado em entrar em alguns dos temas debatidos na conferência de Barcelona, sugiro a leitura da transcrição, disponível online, de uma das mesas, intitulada "Choque de civilizaciones o choque de ignorancias?"
"Novas ignorâncias, novas literacias"
Foi uma experiência de grande desnidade a participação, na semana finda, nesta conferência internacional promovida pela UNESCO, no Foum Mundial das Culturas, em Barcelona.
Deixo o texto de apresentação:
"L?incompréhension mutuelle des peuples a toujours été, au cours de l?histoire, à l?origine de la suspicion et de la méfiance entre nations, par où leurs désaccords ont trop souvent dégénéré en guerre". Ces mots, extraits de l?Acte constitutif de l?UNESCO (1945), résonnent avec une nouvelle urgence aujourd?hui. Alors que la mondialisation a permis un rapprochement entre les peuples, elle a également été accompagnée par l?émergence ? ou la ré-émergence dans un contexte nouveau, de formes inquiétantes d?ignorance. Prises ensembles, celles-ci constituent les "nouvelles ignorances". Cette Conférence se concentre sur quatre d?entre elles : l?ignorance de la diversité, l?ignorance de l?Autre, l?ignorance de l?éthique et l?ignorance du futur. La Conférence a pour objectif de déterminer comment faire face à l?émergence de ces "nouvelles ignorances" par le biais de l?élaboration de "nouvelles alphabétisations" ? celles-ci rassemblant les savoirs, les valeurs et les compétences nécessaires pour y répondre. Apprendre à vivre ensemble à l?heure de la mondialisation impose un engagement renouvelé en faveur de la connaissance mutuelle, du développement du libre échange des idées et des savoirs, de l?augmentation des échanges entre les peuples, et du développement de valeurs partagées."
Foi uma experiência de grande desnidade a participação, na semana finda, nesta conferência internacional promovida pela UNESCO, no Foum Mundial das Culturas, em Barcelona.
Deixo o texto de apresentação:
"L?incompréhension mutuelle des peuples a toujours été, au cours de l?histoire, à l?origine de la suspicion et de la méfiance entre nations, par où leurs désaccords ont trop souvent dégénéré en guerre". Ces mots, extraits de l?Acte constitutif de l?UNESCO (1945), résonnent avec une nouvelle urgence aujourd?hui. Alors que la mondialisation a permis un rapprochement entre les peuples, elle a également été accompagnée par l?émergence ? ou la ré-émergence dans un contexte nouveau, de formes inquiétantes d?ignorance. Prises ensembles, celles-ci constituent les "nouvelles ignorances". Cette Conférence se concentre sur quatre d?entre elles : l?ignorance de la diversité, l?ignorance de l?Autre, l?ignorance de l?éthique et l?ignorance du futur. La Conférence a pour objectif de déterminer comment faire face à l?émergence de ces "nouvelles ignorances" par le biais de l?élaboration de "nouvelles alphabétisations" ? celles-ci rassemblant les savoirs, les valeurs et les compétences nécessaires pour y répondre. Apprendre à vivre ensemble à l?heure de la mondialisation impose un engagement renouvelé en faveur de la connaissance mutuelle, du développement du libre échange des idées et des savoirs, de l?augmentation des échanges entre les peuples, et du développement de valeurs partagées."
segunda-feira, 2 de agosto de 2004
Enviesamentos
O documento "Carta a los obispos de la Iglesia Católica sobre la colaboración del hombre y la mujer en la Iglesia y en el mundo" (recorro aqui à versão em castelhano), divulgado no sábado pela Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, não parece trazer nada de especialmente novo sobre o tema. Depois de o ler, ocorrem-me dois ou três comentários:
O documento "Carta a los obispos de la Iglesia Católica sobre la colaboración del hombre y la mujer en la Iglesia y en el mundo" (recorro aqui à versão em castelhano), divulgado no sábado pela Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, não parece trazer nada de especialmente novo sobre o tema. Depois de o ler, ocorrem-me dois ou três comentários:
- Preocupado em desmontar contradições de algumas correntes feministas, o documento esquece o valor intrínseco inerente ao processo histórico da emancipação das mulheres. O que diz bastante da "mentalidade" que subjaz à reflexão.
- Isso mesmo se observa no destaque que a Congregação para a Doutrina da Fé confere ao lugar da mulher na família, omitindo um aspecto que se esperaria fosse pelo menos referido e valorizado: a participação do homem nas tarefas domésticas e na educação dos filhos. O documento contém argumentos para valorizar este aspecto do problema, mas os autores não foram por aí.
- Não se percebe de todo, a meu ver, a lógica da argumentação que leva, no ponto 16, a reafirmar que a ordenação sacerdotal seja exclusivamente reservada aos homens.
- O título do texto refere-se ao homem e à mulher. Os 17 pontos da reflexão apresentam-se centrados, de uma forma quase obsessiva, na mulher. Os especialistas da análise textual encontrarão aqui farta e interessante matéria de estudo.
- A conclusão, para mim, é esta: não pondo em causa a legitimidade e interesse da posição oficial do Vaticano sobre o tema, o documento propõe-se combater enviesamentos com posições elas próprias também enviesadas.
quarta-feira, 21 de julho de 2004
O tratamento da morte de Lourdes Pintasilgo
O passado fim-de-semana foi marcado pela morte súbita da Eng.ª Maria de Lourdes Pintasilgo. Mulher de grande relevo em diferentes áreas da vida social, cultural e política, o seu testemunho de vida e a alegria e convicção que pôs naquilo em que se envolveu foi reconhecido até mesmo por aqueles que dela discordavam. Ficará como referência em campos como o reconhecimento do papel das mulheres na sociedade, o aprofundamento e enriquecimento da vida democrática e a renovação da experiência cristã.
Seria de esperar que, perante a morte de alguém de tal envergadura, para mais nas circunstâncias inesperadas e no contexto em que ocorreu, o ?Jornal de Notícias? desse ao caso o tratamento e o destaque que ele merecia, a exemplo de outros casos análogos recentes.
Ora o que verificámos é que isso não aconteceu. O tratamento foi pobre tanto do ponto de vista do destaque como do conteúdo. Essa percepção do provedor é partilhada pelo leitor Hermano Manuel P. Padrão que fez saber, por correio electrónico, o seu ?descontentamento (para dizer o mínimo)?, pelo tratamento dado à morte de alguém que foi ?única mulher que, neste País, assumiu o cargo de primeira ministra e, posteriormente, a única mulher que se candidatou à Presidência da República, reconhecida internacionalmente, participante em inúmeros ?foruns? com a nata intelectual ou política mundial?. ?Não merecia que o registo da sua morte merecesse um relevo tão parco no JN, mais chocante se o compararmos com o desaparecimento de outras duas figuras gradas do nosso País, as recentíssimas mortes do Prof. Sousa Franco e da nossa melhor Poeta, Sofia de Mello Breyner Andersen?, acrescentava o leitor.
O director de Redacção deste Jornal, interpelado pelo provedor, reconhece: ?A morte [de Lourdes Pintasilgo] coincidiu com a crise política e tratamo-la mal. A secção era a mesma, tivemos dificuldades em desviar gente?.
Fica dada a explicação, embora entenda ser discutível a opção de ocupar páginas com desenvolvimentos de uma crise que, nos dias em referência, nem trouxe grandes novidades, deixando num plano secundário o tratamento de um acontecimento que teve repercussão inclusive internacional.Na linha de outros media, foi-se pela via mais óbvia, que consistiu em citar, na edição de domingo, os estafados depoimentos dos dirigentes político- partidários. E o que esta mulher significou em áreas tão diversas como as artes, os movimentos das mulheres, as ONG (organizações não governamentais)? Não teriam nada de porventura mais relevante a dizer? E o facto de nenhum bispo ter estado presente no funeral nem se ter pronunciado (com a honrosa excepção, uns dias depois, do bispo de Aveiro, numa ?carta ao director?) não era motivo de interesse jornalístico? Não se justificava que o JN tivesse tomado a iniciativa de interpelar a hierarquia católica?
in JN, 18.07.2004
O passado fim-de-semana foi marcado pela morte súbita da Eng.ª Maria de Lourdes Pintasilgo. Mulher de grande relevo em diferentes áreas da vida social, cultural e política, o seu testemunho de vida e a alegria e convicção que pôs naquilo em que se envolveu foi reconhecido até mesmo por aqueles que dela discordavam. Ficará como referência em campos como o reconhecimento do papel das mulheres na sociedade, o aprofundamento e enriquecimento da vida democrática e a renovação da experiência cristã.
Seria de esperar que, perante a morte de alguém de tal envergadura, para mais nas circunstâncias inesperadas e no contexto em que ocorreu, o ?Jornal de Notícias? desse ao caso o tratamento e o destaque que ele merecia, a exemplo de outros casos análogos recentes.
Ora o que verificámos é que isso não aconteceu. O tratamento foi pobre tanto do ponto de vista do destaque como do conteúdo. Essa percepção do provedor é partilhada pelo leitor Hermano Manuel P. Padrão que fez saber, por correio electrónico, o seu ?descontentamento (para dizer o mínimo)?, pelo tratamento dado à morte de alguém que foi ?única mulher que, neste País, assumiu o cargo de primeira ministra e, posteriormente, a única mulher que se candidatou à Presidência da República, reconhecida internacionalmente, participante em inúmeros ?foruns? com a nata intelectual ou política mundial?. ?Não merecia que o registo da sua morte merecesse um relevo tão parco no JN, mais chocante se o compararmos com o desaparecimento de outras duas figuras gradas do nosso País, as recentíssimas mortes do Prof. Sousa Franco e da nossa melhor Poeta, Sofia de Mello Breyner Andersen?, acrescentava o leitor.
O director de Redacção deste Jornal, interpelado pelo provedor, reconhece: ?A morte [de Lourdes Pintasilgo] coincidiu com a crise política e tratamo-la mal. A secção era a mesma, tivemos dificuldades em desviar gente?.
Fica dada a explicação, embora entenda ser discutível a opção de ocupar páginas com desenvolvimentos de uma crise que, nos dias em referência, nem trouxe grandes novidades, deixando num plano secundário o tratamento de um acontecimento que teve repercussão inclusive internacional.Na linha de outros media, foi-se pela via mais óbvia, que consistiu em citar, na edição de domingo, os estafados depoimentos dos dirigentes político- partidários. E o que esta mulher significou em áreas tão diversas como as artes, os movimentos das mulheres, as ONG (organizações não governamentais)? Não teriam nada de porventura mais relevante a dizer? E o facto de nenhum bispo ter estado presente no funeral nem se ter pronunciado (com a honrosa excepção, uns dias depois, do bispo de Aveiro, numa ?carta ao director?) não era motivo de interesse jornalístico? Não se justificava que o JN tivesse tomado a iniciativa de interpelar a hierarquia católica?
in JN, 18.07.2004
segunda-feira, 12 de julho de 2004
Presença da ausência
Diz o Cibertúlia e eu não posso senão subscrever:
"Maria de Lourdes Pintasilgo teve hoje o aplauso de centenas de populares. Anónimos e conhecidos. Mas faltou um aplauso, uma mensagem, uma presença - a de um bispo (qualquer) que fosse da Igreja portuguesa. Pintasilgo não era uma católica ortodoxa, como porventura foi Sousa Franco, e não era A Voz, como foi Amália. Mas na sua heterodoxia foi inovadora e acolhedora de uma outra forma de ser Igreja. E, na sua simplicidade, foi a voz de deserdados ou desalinhados. O senhor cardeal-patriarca de Lisboa, que presidiu aos funerais de Sousa Franco ou Amália, para Pintasilgo não teve sequer uma palavra pública, nem enviou um dos seus bispos auxiliares à cerimónia deste domingo. Às vezes, é difícil ser Igreja nesta Igreja."
Diz o Cibertúlia e eu não posso senão subscrever:
"Maria de Lourdes Pintasilgo teve hoje o aplauso de centenas de populares. Anónimos e conhecidos. Mas faltou um aplauso, uma mensagem, uma presença - a de um bispo (qualquer) que fosse da Igreja portuguesa. Pintasilgo não era uma católica ortodoxa, como porventura foi Sousa Franco, e não era A Voz, como foi Amália. Mas na sua heterodoxia foi inovadora e acolhedora de uma outra forma de ser Igreja. E, na sua simplicidade, foi a voz de deserdados ou desalinhados. O senhor cardeal-patriarca de Lisboa, que presidiu aos funerais de Sousa Franco ou Amália, para Pintasilgo não teve sequer uma palavra pública, nem enviou um dos seus bispos auxiliares à cerimónia deste domingo. Às vezes, é difícil ser Igreja nesta Igreja."
domingo, 11 de julho de 2004
Maria de Lourdes Pintasilgo (1930-2004)
Obrigado, agora, para sempre
"Descobri que certos homens e certas mulheres, com quem partilhamos a terra e o tempo históricos, através de um verso, de um canto, de uma frase, nos iluminam os caminhos por onde tentamos chegar mais longe e mais alto. E aí encontrei as razões de uma admiração, que não tinha do "pintasilguismo presidencial", de que aliás não comunguei.
Por isso, mais do que parabéns, lhe disse obrigado.
Obrigado, agora, para sempre, querida Maria de Lourdes".
Adelino Gomes
Maria de Lourdes
"O que mais me dói, minha Amiga, é saber que partiu na mágoa de um estranho momento da vida do seu país. Dói-me saber que a pressa que vestiu para a viagem, tenha sido ela própria tecida a fios de uma dor, fulminante de tão inconformada. Não o merecia, Maria de Lourdes, não o merecíamos.
Quero que saiba que os seus ensinamentos e exemplos permanecem muito vivos em mim e que, passado o desconcerto da notícia sobre a sua partida, ficaram hoje ainda mais reforçados como lição maior do que é o direito e o dever de cada um de nós de contribuir para o bem da res publica - da polis do nosso terreiro e da polis do grande quintal que é o mundo.
Falo do bem, minha Amiga, porque foi a dar-lhe brilho que sempre aplicou a sua inteligência, tão curiosa sobre todas as coisas, tão imaginativa, tão a favor das pessoas, sobretudo das que a seu favor pouco ou nada têm e pouco ou nada lhes é proposto que tenham.
Falo do bem, minha Amiga, porque o bem é uma categoria fundadora da vida privada e da vida pública dos homens e porque, com impúdica desonra e cobardia, muitos dos que em nosso nome falam e decidem, dão sinais de lhe ignorarem os atributos e as exigências.
Nesta hora de despedida, quero ainda que saiba, Maria de Lourdes, que me sinto credora da sua voz e que vou tentar merecer, sem desfalecimentos, o legado da sua herança".
Maria João Seixas
«Eis-nos sitiados»
«Deus não vem fazer aquilo que o homem não foi capaz de fazer (...). Deus deixa acontecer e toma à sua própria conta com as fatalidades da História como se tivesse provocado e querido. Deus da História, mesmo assim? Sem dúvida. Mas não do alto como um produtor de marionetas. Deus da História nos seus avanços e recuos. (...) E nós? No fundo de nós mesmos sentimo-nos sitiados . De todos os lados nos vem a imagem desoladora da nossa incapacidade para gerirmos o planeta, a nossa cidade, as nossas coisas, os nossos afectos . Que fazer então? Denunciar. Dizer. Enunciar os erros em que caímos, os becos sem saída deste mundo, do país da sociedade dos nossos afectos. Mas aí rebenta o grande escândalo (...) Porque nas sociedades entorpecidas por falsas visões não é tido por conveniente denunciar a injustiça, o erro, a ilusão. Nem sequer a zona mais íntima dos nossos afectos segue leis diferentes.»
Maria de Lourdes Pintasilgo
Do livro 'Dimensões da Mudança'
Obrigado, agora, para sempre
"Descobri que certos homens e certas mulheres, com quem partilhamos a terra e o tempo históricos, através de um verso, de um canto, de uma frase, nos iluminam os caminhos por onde tentamos chegar mais longe e mais alto. E aí encontrei as razões de uma admiração, que não tinha do "pintasilguismo presidencial", de que aliás não comunguei.
Por isso, mais do que parabéns, lhe disse obrigado.
Obrigado, agora, para sempre, querida Maria de Lourdes".
Adelino Gomes
Maria de Lourdes
"O que mais me dói, minha Amiga, é saber que partiu na mágoa de um estranho momento da vida do seu país. Dói-me saber que a pressa que vestiu para a viagem, tenha sido ela própria tecida a fios de uma dor, fulminante de tão inconformada. Não o merecia, Maria de Lourdes, não o merecíamos.
Quero que saiba que os seus ensinamentos e exemplos permanecem muito vivos em mim e que, passado o desconcerto da notícia sobre a sua partida, ficaram hoje ainda mais reforçados como lição maior do que é o direito e o dever de cada um de nós de contribuir para o bem da res publica - da polis do nosso terreiro e da polis do grande quintal que é o mundo.
Falo do bem, minha Amiga, porque foi a dar-lhe brilho que sempre aplicou a sua inteligência, tão curiosa sobre todas as coisas, tão imaginativa, tão a favor das pessoas, sobretudo das que a seu favor pouco ou nada têm e pouco ou nada lhes é proposto que tenham.
Falo do bem, minha Amiga, porque o bem é uma categoria fundadora da vida privada e da vida pública dos homens e porque, com impúdica desonra e cobardia, muitos dos que em nosso nome falam e decidem, dão sinais de lhe ignorarem os atributos e as exigências.
Nesta hora de despedida, quero ainda que saiba, Maria de Lourdes, que me sinto credora da sua voz e que vou tentar merecer, sem desfalecimentos, o legado da sua herança".
Maria João Seixas
«Eis-nos sitiados»
«Deus não vem fazer aquilo que o homem não foi capaz de fazer (...). Deus deixa acontecer e toma à sua própria conta com as fatalidades da História como se tivesse provocado e querido. Deus da História, mesmo assim? Sem dúvida. Mas não do alto como um produtor de marionetas. Deus da História nos seus avanços e recuos. (...) E nós? No fundo de nós mesmos sentimo-nos sitiados . De todos os lados nos vem a imagem desoladora da nossa incapacidade para gerirmos o planeta, a nossa cidade, as nossas coisas, os nossos afectos . Que fazer então? Denunciar. Dizer. Enunciar os erros em que caímos, os becos sem saída deste mundo, do país da sociedade dos nossos afectos. Mas aí rebenta o grande escândalo (...) Porque nas sociedades entorpecidas por falsas visões não é tido por conveniente denunciar a injustiça, o erro, a ilusão. Nem sequer a zona mais íntima dos nossos afectos segue leis diferentes.»
Maria de Lourdes Pintasilgo
Do livro 'Dimensões da Mudança'
quarta-feira, 7 de julho de 2004
Quem sou eu?
"Quando, três ou quatro anos atrás, passou pelo Brasil, Jostein deu uma entrevista brilhante à TV Cultura de São Paulo. E a idéia forte em torno da qual se construiu a conversa foi essa de que ninguém descobrirá quem é se apenas olhar para si próprio. "
Carlos Chaparro
in Comunique-se, 1.7.2004
"Quando, três ou quatro anos atrás, passou pelo Brasil, Jostein deu uma entrevista brilhante à TV Cultura de São Paulo. E a idéia forte em torno da qual se construiu a conversa foi essa de que ninguém descobrirá quem é se apenas olhar para si próprio. "
Carlos Chaparro
in Comunique-se, 1.7.2004
sexta-feira, 2 de julho de 2004
sexta-feira, 25 de junho de 2004
Almodovar: "Mala educación"
Na newsletter da SIGNIS:
"In recent years, he has perfected his style, his ability to create intelligent melodramas, channel his flamboyant still into thoughtful and moving explorations of the human experience, often bizarre experiences. 'All About My Mother' won the Ecumenical award at Cannes in 1999.
'Bad Education' has been in planning stages for many years. In 2002, when Almodovar announced that he would move into production, there were immediate claims that the film would be anti-clerical. It would be a film about his own experiences of Catholic education in Spanish schools of the 1960s. This was re-iterated in articles and interviews and was the first question at the press conference in Cannes where 'Bad Education' was the film chosen for Opening Night.
However, Almodovar himself has been disclaiming the anti-clerical charge. He has said that had he made the film twenty years earlier, it would have been quite anti-clerical. He says now that he has mellowed and that, although he does not have what he calls 'the luxury' of believing in God, he values much of what he experienced in the Church (especially in liturgies, celebrations and art) during his childhood. He says he asked God to give him faith when he was a boy but God did not give it to him. He also said recently that the priests at school said that watching films was a sin and that he had to choose sin. These themes are incorporated into 'Bad Education'."
Na newsletter da SIGNIS:
"In recent years, he has perfected his style, his ability to create intelligent melodramas, channel his flamboyant still into thoughtful and moving explorations of the human experience, often bizarre experiences. 'All About My Mother' won the Ecumenical award at Cannes in 1999.
'Bad Education' has been in planning stages for many years. In 2002, when Almodovar announced that he would move into production, there were immediate claims that the film would be anti-clerical. It would be a film about his own experiences of Catholic education in Spanish schools of the 1960s. This was re-iterated in articles and interviews and was the first question at the press conference in Cannes where 'Bad Education' was the film chosen for Opening Night.
However, Almodovar himself has been disclaiming the anti-clerical charge. He has said that had he made the film twenty years earlier, it would have been quite anti-clerical. He says now that he has mellowed and that, although he does not have what he calls 'the luxury' of believing in God, he values much of what he experienced in the Church (especially in liturgies, celebrations and art) during his childhood. He says he asked God to give him faith when he was a boy but God did not give it to him. He also said recently that the priests at school said that watching films was a sin and that he had to choose sin. These themes are incorporated into 'Bad Education'."
quinta-feira, 3 de junho de 2004
Cristãos?
Francisco Sarsfield Cabral, in Público, 3.5.2004
Um dos traços da recente evolução política nos Estados Unidos está na força eleitoral que ganhou a chamada direita cristã, hoje a mais importante base de apoio dos Republicanos. A um europeu custa imaginar que muitos americanos ainda considerem blasfema a teoria da evolução de Darwin. Mas, para os fundamentalistas, que são sobretudo protestantes evangélicos, a Bíblia tem apenas o sentido literal. O que os leva, também, a considerarem que a Palestina pertence a Israel por direito divino - daí a viragem de Washington a favor de Sharon. E os movimentos anti-aborto dos fundamentalistas não vêem contradição entre serem pró-vida e apoiarem com entusiasmo a pena de morte.
Só que falta ao actual poder em Washington o sentido ético que seria de esperar de cristãos. Não são apenas as ligações da Administração Bush a interesses económicos, como os petrolíferos ou a Enron. É o olímpico desprezo que esse Governo manifesta por tratados, pelo direito internacional, pelos aliados e pelos direitos dos suspeitos de terrorismo. Talvez sem se darem conta, estes propagandistas de valores alegadamente cristãos são, afinal, cultores pós-modernos do relativismo moral, fascinados pelo seu próprio poderio militar. Por isso prevalece o direito da força sobre a força do direito, como notou o Vaticano. Por isso Bush e o seu unilateralismo contrariam a importância que João Paulo II (como antes Paulo VI) atribui à ONU e à cooperação internacional. Por isso, ainda, o Papa se opôs à guerra do Iraque - e vê-se agora como tinha razão.
A retórica pretensamente cristã da Casa Branca e apoiantes servirá para ganhar votos. Mas ela encobre uma forma virulenta de paganismo, que valoriza acima de tudo o dinheiro e a força.
Francisco Sarsfield Cabral, in Público, 3.5.2004
Um dos traços da recente evolução política nos Estados Unidos está na força eleitoral que ganhou a chamada direita cristã, hoje a mais importante base de apoio dos Republicanos. A um europeu custa imaginar que muitos americanos ainda considerem blasfema a teoria da evolução de Darwin. Mas, para os fundamentalistas, que são sobretudo protestantes evangélicos, a Bíblia tem apenas o sentido literal. O que os leva, também, a considerarem que a Palestina pertence a Israel por direito divino - daí a viragem de Washington a favor de Sharon. E os movimentos anti-aborto dos fundamentalistas não vêem contradição entre serem pró-vida e apoiarem com entusiasmo a pena de morte.
Só que falta ao actual poder em Washington o sentido ético que seria de esperar de cristãos. Não são apenas as ligações da Administração Bush a interesses económicos, como os petrolíferos ou a Enron. É o olímpico desprezo que esse Governo manifesta por tratados, pelo direito internacional, pelos aliados e pelos direitos dos suspeitos de terrorismo. Talvez sem se darem conta, estes propagandistas de valores alegadamente cristãos são, afinal, cultores pós-modernos do relativismo moral, fascinados pelo seu próprio poderio militar. Por isso prevalece o direito da força sobre a força do direito, como notou o Vaticano. Por isso Bush e o seu unilateralismo contrariam a importância que João Paulo II (como antes Paulo VI) atribui à ONU e à cooperação internacional. Por isso, ainda, o Papa se opôs à guerra do Iraque - e vê-se agora como tinha razão.
A retórica pretensamente cristã da Casa Branca e apoiantes servirá para ganhar votos. Mas ela encobre uma forma virulenta de paganismo, que valoriza acima de tudo o dinheiro e a força.
segunda-feira, 31 de maio de 2004
Futebol, a nova religião
"(...)São sinais que resultam de o futebol se ter transformado numa nova religião, uma religião laica, com a sua ideologia, a sua fé, as suas massas, as suas cerimónias e ritos, as suas "catedrais" e clero, a sua economia. Não admira que a Conferência Episcopal portuguesa tenha alertado há meses, em invulgar comunicado, para o peso excessivo que o futebol vem assumindo no país: o futebol é, de facto, a única crença e instituição que pode tomar o lugar do catolicismo na sociedade portuguesa.
Apesar dos conflitos entre clubes e seus adeptos, o futebol une a nação: une pobres e ricos em torno do mesmo tema, o único possível para esse diálogo; une os portugueses até nas divergências, pois no futebol mesmo o ódio fornece uma linguagem comum a todos, que substitui a da religião. Ora, ao fazê-lo, o futebol fornece muito do que é necessário para se manter a coesão social. Em democracia, a política precisa dessa única linguagem comum na sociedade, e por isso apropria-se dela.
Além disso, o futebol substitui o debate sobre os problemas sociais, económicos e políticos, o que é um alívio para todos os políticos, nomeadamente para os que estão no poder. Se o povo falasse de política como fala de futebol nem os do Bloco de Esquerda tinham descanso perante a descoberta das suas carecas, quanto mais os partidos da área do poder governativo."
Eduardo Cintra Torres, Público, 31.5.2004
"(...)São sinais que resultam de o futebol se ter transformado numa nova religião, uma religião laica, com a sua ideologia, a sua fé, as suas massas, as suas cerimónias e ritos, as suas "catedrais" e clero, a sua economia. Não admira que a Conferência Episcopal portuguesa tenha alertado há meses, em invulgar comunicado, para o peso excessivo que o futebol vem assumindo no país: o futebol é, de facto, a única crença e instituição que pode tomar o lugar do catolicismo na sociedade portuguesa.
Apesar dos conflitos entre clubes e seus adeptos, o futebol une a nação: une pobres e ricos em torno do mesmo tema, o único possível para esse diálogo; une os portugueses até nas divergências, pois no futebol mesmo o ódio fornece uma linguagem comum a todos, que substitui a da religião. Ora, ao fazê-lo, o futebol fornece muito do que é necessário para se manter a coesão social. Em democracia, a política precisa dessa única linguagem comum na sociedade, e por isso apropria-se dela.
Além disso, o futebol substitui o debate sobre os problemas sociais, económicos e políticos, o que é um alívio para todos os políticos, nomeadamente para os que estão no poder. Se o povo falasse de política como fala de futebol nem os do Bloco de Esquerda tinham descanso perante a descoberta das suas carecas, quanto mais os partidos da área do poder governativo."
Eduardo Cintra Torres, Público, 31.5.2004
quarta-feira, 19 de maio de 2004
Concordata
António Costa Pinto, no DN:
"A Concordata da democracia foi finalmente assinada. Ultrapassamos assim a do Estado Novo, assinada em 1940 por um devoto Salazar, ainda que renitente em oferecer à Igreja Católica tudo o que ela queria. Precisávamos de uma nova ou bastava deixar cair a antiga? Os Estados democráticos não ganham muito com elas, mas a história é madrasta e a das relações entre Estado e Igreja no século XX não foi famosa.
A 1.ª República viu na Igreja um dos factores centrais do atraso português, tentou «limpar-lhe» a base de apoio e levou com ela em cima no final dos anos 20. Ainda assim, Salazar, apesar de pio católico, esteve longe das concessões do seu vizinho Franco e manteve grande parte da herança republicana.
O salazarismo ofereceu à Igreja grande parte do «monopólio das almas», o que para uma ditadura de direita até não foi mau.
A alternativa não seria a democrática, mas a fascista dos braços estendidos, bem mais preocupante. A Concordata de 1940 cede no divórcio e em muito mais, mas pede a «catolicização do império», ainda muito atrasada. Nos anos 50, a Acção Católica já mobilizava mais do que o Regime e dominava muito das suas organizações oficiais, e Salazar teme a dissidência. Esta acabou por vir, pois a Igreja Católica, ao contrário do que pensam os que a vêem de fora, é mais plural do que eles imaginam. Dito isto, em termos de teoria política liberal não sei se precisávamos de uma nova Concordata. Mas, lido o texto, também não se vê grande mal no que foi assinado."
António Costa Pinto, no DN:
"A Concordata da democracia foi finalmente assinada. Ultrapassamos assim a do Estado Novo, assinada em 1940 por um devoto Salazar, ainda que renitente em oferecer à Igreja Católica tudo o que ela queria. Precisávamos de uma nova ou bastava deixar cair a antiga? Os Estados democráticos não ganham muito com elas, mas a história é madrasta e a das relações entre Estado e Igreja no século XX não foi famosa.
A 1.ª República viu na Igreja um dos factores centrais do atraso português, tentou «limpar-lhe» a base de apoio e levou com ela em cima no final dos anos 20. Ainda assim, Salazar, apesar de pio católico, esteve longe das concessões do seu vizinho Franco e manteve grande parte da herança republicana.
O salazarismo ofereceu à Igreja grande parte do «monopólio das almas», o que para uma ditadura de direita até não foi mau.
A alternativa não seria a democrática, mas a fascista dos braços estendidos, bem mais preocupante. A Concordata de 1940 cede no divórcio e em muito mais, mas pede a «catolicização do império», ainda muito atrasada. Nos anos 50, a Acção Católica já mobilizava mais do que o Regime e dominava muito das suas organizações oficiais, e Salazar teme a dissidência. Esta acabou por vir, pois a Igreja Católica, ao contrário do que pensam os que a vêem de fora, é mais plural do que eles imaginam. Dito isto, em termos de teoria política liberal não sei se precisávamos de uma nova Concordata. Mas, lido o texto, também não se vê grande mal no que foi assinado."
terça-feira, 18 de maio de 2004
Quatro perguntas sobre a Concordata
António Marujo, no Público: Quatro perguntas sobre a Concordata:
"Era necessária uma nova Concordata?
Quando o Governo presidido por António Guterres decidiu encetar o processo de elaborar uma nova Lei de Liberdade Religiosa (LLR), debateu-se a necessidade de um acordo específico com a Igreja Católica. Para alguns, esta deveria entrar na lógica das restantes confissões religiosas, submetendo-se à lei geral. Para outros, o facto de ser a confissão maioritária dos portugueses deveria levar o Estado a contemplar essa especificidade. O próprio patriarca de Lisboa, entrando no debate, admitiu (entrevista ao Público, Junho de 2001) que uma lei seria suficiente, mas que a Concordata dava aos católicos portugueses 'uma estabilidade legislativa' que uma lei ordinária não permitiria.
Na radicalidade da sua doutrina, o cristianismo afirma-se despojado e desligado do poder - mesmo se, em vários momentos da História, o poder foi (muito mal) ligado à profissão da fé e exercido de forma arbitrária. Aceitar um tratado internacional que dê determinadas garantias à comunidade dos crentes do país estaria assim em contradição - ou pelo menos em desacordo - com aquela perspectiva.
O problema está na 'estabilidade' legislativa que a Concordata garante - ao contrário da lei ordinária, que poderia variar ao sabor das maiorias governativas. A hierarquia católica, escaldada pela História - Marquês de Pombal, liberalismo, I República - preferiu jogar à defesa. Ainda mais com alguns argumentos ouvidos durante o debate sobre a LLR e a Concordata, que faziam temer o pior: colocavam a dimensão religiosa como legítima para a sacristia ou mesmo para qualquer esfera extra-terrestre. Para os crentes, e para o cristianismo em particular, a fé tem uma dimensão pública que não se pode escamotear - e que o Estado, representando todos os cidadãos, tem o dever de levar em conta em todos os aspectos, já que também contempla a dimensão educativa, cultural, de saúde, desportiva ou outras.
Jogando à defesa, a hierarquia católica não arriscou o que poderia ter arriscado. Poderia tê-lo feito e com isso estaria a ser mais profética, como se diz em linguagem teológica. Mas, pesando uma e outra argumentação, aceita-se que, neste momento, possa haver uma nova Concordata. (...)"
Continuar a ler AQUI.
António Marujo, no Público: Quatro perguntas sobre a Concordata:
"Era necessária uma nova Concordata?
Quando o Governo presidido por António Guterres decidiu encetar o processo de elaborar uma nova Lei de Liberdade Religiosa (LLR), debateu-se a necessidade de um acordo específico com a Igreja Católica. Para alguns, esta deveria entrar na lógica das restantes confissões religiosas, submetendo-se à lei geral. Para outros, o facto de ser a confissão maioritária dos portugueses deveria levar o Estado a contemplar essa especificidade. O próprio patriarca de Lisboa, entrando no debate, admitiu (entrevista ao Público, Junho de 2001) que uma lei seria suficiente, mas que a Concordata dava aos católicos portugueses 'uma estabilidade legislativa' que uma lei ordinária não permitiria.
Na radicalidade da sua doutrina, o cristianismo afirma-se despojado e desligado do poder - mesmo se, em vários momentos da História, o poder foi (muito mal) ligado à profissão da fé e exercido de forma arbitrária. Aceitar um tratado internacional que dê determinadas garantias à comunidade dos crentes do país estaria assim em contradição - ou pelo menos em desacordo - com aquela perspectiva.
O problema está na 'estabilidade' legislativa que a Concordata garante - ao contrário da lei ordinária, que poderia variar ao sabor das maiorias governativas. A hierarquia católica, escaldada pela História - Marquês de Pombal, liberalismo, I República - preferiu jogar à defesa. Ainda mais com alguns argumentos ouvidos durante o debate sobre a LLR e a Concordata, que faziam temer o pior: colocavam a dimensão religiosa como legítima para a sacristia ou mesmo para qualquer esfera extra-terrestre. Para os crentes, e para o cristianismo em particular, a fé tem uma dimensão pública que não se pode escamotear - e que o Estado, representando todos os cidadãos, tem o dever de levar em conta em todos os aspectos, já que também contempla a dimensão educativa, cultural, de saúde, desportiva ou outras.
Jogando à defesa, a hierarquia católica não arriscou o que poderia ter arriscado. Poderia tê-lo feito e com isso estaria a ser mais profética, como se diz em linguagem teológica. Mas, pesando uma e outra argumentação, aceita-se que, neste momento, possa haver uma nova Concordata. (...)"
Continuar a ler AQUI.
segunda-feira, 10 de maio de 2004
As religiões e a cultura da Paz
Frei Bento Domingues
Mário Figueirinhas Editor, Porto, 2004
Este livro, que tem o prefácio de Lídia Jorge, é hoje apresentado no Porto, nos anexos da Igreja de Cristo Rei (à Avenida Gomes da Costa), pelas 18.30. A ocasião será pretexto também para uma homenagem ao editor, promovida pela Paróquia de Cristo Rei e pelo Centro D. António Ferreira Gomes.
Frei Bento Domingues
Mário Figueirinhas Editor, Porto, 2004
Este livro, que tem o prefácio de Lídia Jorge, é hoje apresentado no Porto, nos anexos da Igreja de Cristo Rei (à Avenida Gomes da Costa), pelas 18.30. A ocasião será pretexto também para uma homenagem ao editor, promovida pela Paróquia de Cristo Rei e pelo Centro D. António Ferreira Gomes.
domingo, 2 de maio de 2004
Jimmy Carter, ex-presidente dos EUA:
"We worship the prince of peace, not war"
"When I was younger, almost all Baptists were strongly committed on a theological basis to the separation of church and state. It was only 25 years ago when there began to be a melding of the Republican Party with fundamentalist Christianity, particularly with the Southern Baptist Convention. This is a fairly new development, and I think it was brought about by the abandonment of some of the basic principles of Christianity.
First of all, we worship the prince of peace, not war. And those of us who have advocated for the resolution of international conflict in a peaceful fashion are looked upon as being unpatriotic, branded that way by right-wing religious groups, the Bush administration, and other Republicans.
Secondly, Christ was committed to compassion for the most destitute, poor, needy, and forgotten people in our society. Today there is a stark difference [between conservative ideology and Christian teaching] because most of the people most strongly committed to the Republican philosophy have adopted the proposition that help for the rich is the best way to help even poor people (by letting some of the financial benefits drip down to those most deeply in need). I would say there has been a schism drawn – on theology and practical politics and economics between the two groups."
Former President Jimmy Carter, America's first evangelical Christian president
in The American Prospect
April 9, 2004
"We worship the prince of peace, not war"
"When I was younger, almost all Baptists were strongly committed on a theological basis to the separation of church and state. It was only 25 years ago when there began to be a melding of the Republican Party with fundamentalist Christianity, particularly with the Southern Baptist Convention. This is a fairly new development, and I think it was brought about by the abandonment of some of the basic principles of Christianity.
First of all, we worship the prince of peace, not war. And those of us who have advocated for the resolution of international conflict in a peaceful fashion are looked upon as being unpatriotic, branded that way by right-wing religious groups, the Bush administration, and other Republicans.
Secondly, Christ was committed to compassion for the most destitute, poor, needy, and forgotten people in our society. Today there is a stark difference [between conservative ideology and Christian teaching] because most of the people most strongly committed to the Republican philosophy have adopted the proposition that help for the rich is the best way to help even poor people (by letting some of the financial benefits drip down to those most deeply in need). I would say there has been a schism drawn – on theology and practical politics and economics between the two groups."
Former President Jimmy Carter, America's first evangelical Christian president
in The American Prospect
April 9, 2004
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