sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

Maria de Lourdes (Pintasilgo)
Por EDUARDO LOURENÇO
Público, 28 de Janeiro de 2005

Há pouco mais de meio ano, num país submerso por uma maré futebolistica sem precedentes, e um fervor patriótico mediático raro, morria e saía da cena politica e cultural portuguesa, a antiga Primeira Ministra, Maria de Lurdes Pintasilgo. A sua morte não passou, nem podia ter passado despercebida. Mas o contexto passional e euforizante do Euro 2004, "privatizou", em excesso, um acontecimento que, em outras circunstâncias, teria conhecido um outro eco.
Neste momento, a sua terra natal, Abrantes, recorda-a e presta-lhe a homenagem que o seu passado de militante católica de sério e coerente empenhamento social, o seu papel como dinamizadora cultural, sem falar do carisma politico que lhe permitiu ser a primeira mulher portuguesa a ocupar o cargo de Primeiro Ministro, naturalmente reclamada e merece.
Maria de Lurdes foi durante grande parte da sua vida desde jovem, um dos rostos de Portugal no mundo. Já não era Poder, como tão tristemente se diz, quando nos deixou e embora o seu combate cívico e espiritual se inscrevesse num horizonte mais vasto do que o da Politica, o Poder, e mesmo as suas seduções, não lhe eram estranhas. Aceitou-o ou pretendeu-o como serviço, apaixonadamente, convicta de que assim podia contribuir para alterar ou, pelo menos, melhorar "a ordem das coisas". Vinda do antigo Regime, daquilo em que ele se reclamava da famosa doutrina social da Igreja, a militante tomou a sério essa utopia do antigo sistema, muitas vezes traída ou negada na prática sobretudo na versão virtualmente dela. Essa espécie de paradoxal gauchismo, nem sempre foi bem compreendido.
A sua condição de mulher ofuscava - quer antes, quer sobretudo depois do 25 de Abril - a classe social a que pertencia, na versão tradicional se não tradicionalista das suas práticas sociais e éticas. Quando aceitou, pela mão do general Eanes, o cargo de Primeiro Ministro, uma parte do seu eleitorado "natural" e não só ele bem lho fez sentir. E ainda mais quando, com grande risco politico, ela se candidatou ao lugar de Presidente da Republica.
Maria de Lurdes é uma figura complexa, a sua história fez parte integrante do nosso Portugal durante o ultimo meio século e da história do mundo que nos cercou. Estudando-a e não apenas lembrando-a como é justo, se verá como essa história, aparentemente dividida ao meio pela Revolução de Abril a que aderiu e de que foi mesmo figura emblemática, não é tão "maniqueista", como, em geral é vivida em termos de memória, seja ela politica ou cultural.
Não só os seus amigos e admiradores farão esse "dever de memória" como os seus adversários e, naturalmente, os nossos historiadores da contemporaniedade fará parte das complicadas relações entre a fraca tradição social do nosso catolicismo e as correntes politicas e culturais que, ao mesmo tempo, encarnam aspirações análogas fora da referência religiosa ou opondo-se a elas. A nossa curiosidade pelo passado - salvo a titulo mítico ou antes, mitificado - é notoriamente escassa. Começa a cobrar algum relevo, sobretudo em relação aos contemporâneos quando se interessa "pelas figuras" como fez Oliveira Martins para a "ínclita geração". Mas tudo isso é pouco comparado com a verdadeira paixão da historiografia inglesa ou francesa pelos seus ou alheios "homens ou mulheres ilustres". Maria de Lourdes foi no seu e nosso tempo português, uma mulher ilustre.
A discrição com que o seu desaparecimento, há apenas sete meses, foi vivida não está à altura do que ela é e representa. Descrição oficial e discrição - essa sim, dolorosa - da instância institucional e do coração a que estava ligada pela sua educação, pela sua fé e pelo seu entusiasmo. Excessivo?

domingo, 23 de janeiro de 2005

Propor a esperança, abrir portas a um futuro melhor
Comunicado da Comissão Nacional Justiça e Paz


1. Um mês antes das eleições legislativas de 20 de Fevereiro vimos publicamente reafirmar a importância do próximo acto eleitoral, reforçar a exigência de qualidade no debate partidário, sublinhar a necessária participação de todos e dar razões da nossa esperança quanto ao futuro do país. Dirigimo-nos, sobretudo, aos nossos irmãos e irmãs na fé, mas também a todos os cidadãos e cidadãs. Não com uma palavra de quem sabe mais, ou tem soluções definitivas para o nosso viver em comum. Antes, animados pelo desejo de contribuirmos para superar o ambiente de desânimo que atravessa a nossa sociedade. Procuramos, assim, responder ao convite recentemente formulado pelos Bispos portugueses: ?Empenhar-se na construção da comunidade nacional é, para os cristãos, uma forma de exprimirem a sua fidelidade cristã?.

2. As eleições legislativas são um momento particularmente importante da vida democrática. Todos temos o dever de as encarar seriamente. Sem falsos messianismos ? esperando que alguém se proponha resolver todos os nossos problemas ?, nem fácil cinismo ? argumentando que ?é tudo a mesma coisa?. Ambas as posições são modos subtis de fugirmos à nossa responsabilidade individual e de recusarmos tomar consciência das relações entre o modo como vivemos, as escolhas que fazemos no nosso dia-a-dia e as prioridades que queremos ver inscritas na condução dos assuntos públicos. São, numa palavra, formas de não aceitar o convite do Papa João Paulo II quando escreve: ?Todos, de alguma forma, estão implicados no compromisso pelo bem comum, na busca constante do bem dos outros como se fosse o próprio?.

3. No actual contexto português, o próximo acto eleitoral ?não pode limitar-se a resolver uma crise política, mas deve enfrentar, com serenidade e lucidez, os problemas de fundo do país, apresentando para eles soluções credíveis e viáveis, a serem escolhidas pelo voto dos portugueses?, afirmam os Bispos portugueses. Para que tal aconteça cabe decisiva responsabilidade aos dirigentes partidários, a todos os candidatos e aos meios de comunicação social. Sem apresentação clarificadora do que consideram ser os principais problemas e as maiores potencialidades do país, sem propostas para enfrentarem uns e reforçarem outras, a campanha eleitoral pode reduzir-se a simples habilidades de comunicação, determinando maior afastamento dos cidadãos em relação aos seus eleitos.
Mas, tal como recordam os Bispos portugueses, cabe também, a cada um de nós, tudo fazer para ?forçar os partidos a porem o acento da sua intervenção na qualidade das propostas que nos fazem, na competência e dignidade das pessoas e não apenas nos discursos que o ambiente de campanha habitualmente inflama?.

4. Por todas estas razões, a participação de todos e de cada um é necessária. Não há verdadeiro amor cristão que se possa alhear das escolhas que determinam boa parte do nosso viver em comum. Ninguém se respeita a si próprio se nega o seu labor diário por uma sociedade mais justa e mais fraterna, ao não participar nos momentos em que se escolhem os programas e as pessoas que vão presidir, nos próximos anos, à gestão da coisa pública.


?Para os cristãos, o critério de avaliação? das diferentes propostas políticas ?é o Evangelho e a doutrina social da Igreja?. Critério que não anula o pluralismo das opções políticas dos cristãos, conforme repetidamente o Magistério da Igreja vem sublinhando, mas que exige a cada um o indispensável discernimento pessoal. Escolher, em política, confronta-nos com as questões que formulamos perante a realidade, com o que nela nos inquieta e com o que desejamos, para nós e para os outros, mesmo quando não sabemos como alcançá-lo. Como lembram os Bispos: ?Não esqueçamos que só tem direito de criticar e denunciar quem se empenha generosamente na busca de soluções?.

5. Mas, se há algum critério para aferir da participação política dos cristãos, ele é certamente o da capacidade de anunciar a esperança. O momento que vivemos precisa das vozes da esperança, precisa dos gestos que se pautam pelo fazer bem, precisa de corações que acarinhem sonhos de dias melhores e que os partilhem com os demais, precisa de muito investimento nas pessoas e de muita dedicação ao bem comum, precisa da cooperação como principal trampolim para a melhoria da nossa vida colectiva, precisa de cada uma e de cada um. Não há cidadãos dispensáveis, dentro e fora dos partidos políticos, quando se trata de criar uma comunidade nacional solidária, desenvolvida, apta a enfrentar com esperança os tão incertos dias que se avizinham.

6. Também nós somos testemunhas de que, apesar de um clima de pessimismo que parece querer instalar-se, encontramos pessoas disponíveis, interessadas em melhorar as condições de vida dos cidadãos, o modo de gerir as suas empresas e de aplicar os seus rendimentos, de aperfeiçoar as relações de trabalho e as relações interpessoais. Em todos os ambientes encontramos pessoas construtoras permanentes e persistentes do bem comum. Multiplicam-se os gestos concretos de solidariedade e de compromisso com os mais pobres, de envolvimento na inovação, em muitos locais de trabalho e de vida, de melhoria permanente das condições da existência e de promoção da dignidade humana, no funcionamento das instituições públicas e privadas.
Precisamos, é certo, de criar dispositivos de valorização e de incentivo público a todos e cada um dos portugueses e portuguesas que assim agem. Dispositivos que podem ser muito diversos, mas que se deveriam nortear pela partilha do que de mais positivo se faz e se alcança, pela valorização do trabalho perseverante que tantos desenvolvem em prol de uma sociedade mais justa e fraterna, pela comunicação da esperança que tantos desencadeiam em tantos rostos angustiados e esquecidos.

7. A nossa esperança funda-se no amor infinito de Deus que se dirige a cada um dos seres humanos, mulheres e homens, definitivamente irmanados pelo nascimento de Jesus, Deus encarnado, feito um de nós. ?Com a sua morte e ressurreição, Cristo nos redimiu e resgatou ?por um grande preço?, alcançando a salvação para todos?, escreve o Papa na sua última mensagem do Dia Mundial da Paz. A nossa esperança transmite-se nestes gestos fraternos e de procura incessante e difícil do bem comum. A nossa esperança alimenta-se na alegria daqueles que eram excluídos e encontraram abrigo, daqueles que estavam perdidos e encontraram um rumo para as suas vidas, daqueles que apenas viviam cada hora que passa e descobriram novos sentidos e outros cidadãos com quem constroem uma vida melhor, para si e para aqueles que lhes estão próximos. A nossa esperança vem de Deus e vive-se com os irmãos, em comunidade de amor.

Mais do que nunca, neste próximo mês, os cristãos deste país são chamados a serem testemunhas da esperança que abre as portas de um futuro melhor para todos.
Lisboa, 20 de Janeiro de 2005

sábado, 1 de janeiro de 2005

The Ends of the World as We Know Them
By JARED DIAMOND
NYT, 1 Jan.2005

"(...) In this New Year, we Americans have our own painful reappraisals to face. Historically, we viewed the United States as a land of unlimited plenty, and so we practiced unrestrained consumerism, but that's no longer viable in a world of finite resources. We can't continue to deplete our own resources as well as those of much of the rest of the world.
Historically, oceans protected us from external threats; we stepped back from our isolationism only temporarily during the crises of two world wars. Now, technology and global interconnectedness have robbed us of our protection. In recent years, we have responded to foreign threats largely by seeking short-term military solutions at the last minute.
But how long can we keep this up? Though we are the richest nation on earth, there's simply no way we can afford (or muster the troops) to intervene in the dozens of countries where emerging threats lurk - particularly when each intervention these days can cost more than $100 billion and require more than 100,000 troops.
A genuine reappraisal would require us to recognize that it will be far less expensive and far more effective to address the underlying problems of public health, population and environment that ultimately cause threats to us to emerge in poor countries. In the past, we have regarded foreign aid as either charity or as buying support; now, it's an act of self-interest to preserve our own economy and protect American lives.
Do we have cause for hope? Many of my friends are pessimistic when they contemplate the world's growing population and human demands colliding with shrinking resources. But I draw hope from the knowledge that humanity's biggest problems today are ones entirely of our own making. Asteroids hurtling at us beyond our control don't figure high on our list of imminent dangers. To save ourselves, we don't need new technology: we just need the political will to face up to our problems of population and the environment.
I also draw hope from a unique advantage that we enjoy. Unlike any previous society in history, our global society today is the first with the opportunity to learn from the mistakes of societies remote from us in space and in time. When the Maya and Mangarevans were cutting down their trees, there were no historians or archaeologists, no newspapers or television, to warn them of the consequences of their actions. We, on the other hand, have a detailed chronicle of human successes and failures at our disposal. Will we choose to use it?"

Jared Diamond (who won the 1998 Pulitzer Prize in general nonfiction for "Guns, Germs and Steel: The Fates of Human Societies," is the author of the forthcoming "Collapse: How Societies Choose or Fail to Succeed.")
Rising to the New Year
Editorial of The New York Times, 1 Jan. 2005

"(...)The enormous momentum of life as we know it is not poised to turn on a dime just so we can start out on Jan. 1 refreshed with possibilities. You can feel the gravity of the past pulling at your back the way real gravity pulls at your shoes.

But deep within us is the habit of looking forward, a habit as powerful as the belief that our lives are somehow external to us and that we can pick them up and rearrange them at will. We live profoundly in time, painfully aware of the way the new years stack up one by one.

We also live immersed in intention, trying to make the most of what time has to offer. There are days when the likelihood of real renewal seems almost impossible, when our lives seem utterly conditioned by the past. And then there are those days when renewal seems certain, merely a matter of making the right choices, consciously. It would be a coincidence if one of those days of rebirth happened to fall on the first of the year.

It's easy to dismiss the feeling of renewed intentions aroused by the new year, easy to think of resolutions as party favors of a sort, nothing more than wistful daydreams of being thinner, healthier, richer or happier than we are, forgotten as soon as made. But just ask anyone who's ever made a real change for the better. There's nothing wistful about it. It isn't a daydream. People who have fulfilled a latent possibility in themselves can sense the possibilities lying hidden in so many human lives. It doesn't take a revelation or a flash of light from heaven. It takes getting out of the habit of standing apart from your life, watching yourself as if you were two people instead of just one.

Most animals do not make resolutions, as far as we know. The dog isn't planning to do less dinner-table begging this year, nor is the cat going to try to take fewer catnaps. Things are as they are. But a human without hope, a human who has stopped trying to reform himself or excel herself, has a very hard time being fully human. (...)".
In death, imperialism lives on

For the western media, it is clear that a tourist's tragedy is moreimportant than that of the 'locals'

Jeremy Seabrook
Friday December 31, 2004, The Guardian

The number of fishing boats from Sumatra, Sri Lanka and Tamil Nadu at seawhen the Boxing Day tsunami hit will never be known. There is scarcely anypopulation tally of the crowded coasts. Nameless people are consigned tounmarked graves; in mosques and temples, makeshift mortuaries, people pullaside a cloth, a piece of sacking, to see if those they loved lie beneath.As in all natural disasters, the victims are overwhelmingly the poorest. This time there was something different. The tsunami struck resorts wherewesterners were on holiday. For the western media, it was clear that theirlives have a different order of importance from those that have died inthousands, but have no known biography, and, apparently, no intelligibletongue in which to express their feelings. This is not to diminish thetrauma of loss of life, whether of tourist or fisherman. But when wedistinguish between "locals" who have died and westerners, "locals" all tooeasily becomes a euphemism for what were once referred to as natives.Whatever tourism's merits, it risks reinforcing the imperial sensibility. For this sensibility has already been reawakened by all the human-made,preventable catastrophes. The ruins of Galle and Bandar Aceh called forthimages of Falluja, Mosul and Gaza. Imperial powers, it seems, anticipatethe destructive capacity of nature. A report on ITN news made thisexplicit, by referring to "nature's shock and awe". But while the tsunamideath toll rises in anonymous thousands, in Iraq disdainful Americanauthorities don't do body counts. One of the most poignant sights of the past few days was that of westernersovercome with gratitude that they had been helped by the grace and mercy ofthose who had lost everything, but still regarded them as guests. Whenthese same people appear in the west, they become the interloper, theunwanted migrant, the asylum seeker, who should go back to where theybelong. A globalisation that permits the wealthy to pass effortlesslythrough borders confines the poor to eroded subsistence, overfished watersand an impoverishment that seems to have no end. People rarely say thatpoor countries are swamped by visitors, even though their money powerpre-empts the best produce, the clean water and amenities unknown to theindigenous population. In death, there should be no hierarchy. But even as Sri Lankans wandered innumb disbelief through the corpses, British TV viewers were being warnedthat scenes they were about to witness might distress them. Poor peoplehave no consoling elsewhere to which they can be repatriated. The annals ofthe poor remain short and simple, and can be effaced without inquiry as tohow they contrive an existence on these fragile coasts. What are the dailyvisitations of grief and loss in places where people earn less in a yearthan the price that privilege pays for a night's stay in a five-star hotel?Western governments, which can disburse so lavishly in the art of war,offer a few million as if it were exceptional largesse. Fortunately thepeople are wiser; and the spontaneous outpourings of humanity have been asunstoppable as the waves that broke on south Asia's coasts; donationsrapidly exceeded the amount offered by government. Selflessness andsacrifice, people working away at rubble with bare hands, suggest immediatehuman solidarities. But these are undermined by the structures of inequality. Promises solemnlymade at times of immediate sorrow are overtaken by other urgencies; moneydonated for the Orissa cyclone, for hurricane Mitch in Central America, thefloods in Bangladesh, the Bam earthquake - as for the reconstruction ofAfghanistan and Iraq - turns out to be a fraction of what is pledged. Such events remind us of the sameness of our human destiny, the fragilityof our existence. They place in perspective the meaning of security. Lifeis always at the mercy of nature - whether from such overwhelming events asthis, or the natural processes that exempt no one from paying back to earththe life it gave us. Yet we inhabit systems of social and economicinjustice that exacerbate the insecurity of the poor, while the west isprepared to lay waste distant towns and cities in the name of a securitythat, in the end, eludes us all. Assertions of our common humanity occur only at times of great loss. Toretrieve and hold on to it at all other times - that would be something ofworth to salvage from these scenes of desolation. ·
(Jeremy Seabrook is the author of Consuming Cultures: Globablisation andLocal Life)

domingo, 26 de dezembro de 2004

[Natal]

Que palavras poderei buscar para vos aquentar o coração? Um santo, no sermão desta festa, bradava: ? Oh! que nenhumas palavras acho com que possa falar da Palavra Eterna e Verbo Encarnado! Assim eu também não vos sei declarar o que havemos de sentir deste suavíssimo Nascimento. Porém, quero-vos pôr uma comparação. Se houvesse muitos anos que o sol não nasceu nem apareceu nas terras, e estivéssemos todos não somente às escuras e em espessas trevas mas também carregados de ferro, tremendo com frio e em suma tristeza, e, estando assim, subitamente nascesse o sol mui resplandecente, alumiando-nos, aquentando-nos, quebrando nossas cadeias e prisões, que vos parece quão grande alegria e consolação seria a nossa?

Pois, irmãos, tais éramos, espiritualmente, antes que nascesse o sol que hoje nasceu e veio alumiar as trevas e cegueira de nossa alma; veio aquentar a frieza de nosso coração, o qual estava feito um regelo no amor de Deus e das cousas eternas; veio quebrar as cadeias de nossos pecados. (...)

As maravilhas desta clara noite excedem todas quantas viram os antigos Servos de Deus: porque, como diz um Santo, os nossos padres antigos muitas e grandes maravilhas de Deus viram. O Céu lhes orvalhou manjar de Anjos para seu mantimento. O Mar Roxo se lhes abriu em carreiras para que pudessem passar a pé enxuto. O rio Jordão se retirou para a fonte donde nascia para lhes dar livre passagem. Os muros fortíssimos da cidade de Jericó caíram subitamente a som de trombeta. O Sol se deteve no Céu por um grande espaço sem se mover, para que o povo de Deus, que pelejava contra seus inimigos, acabasse de os destruir. Estas e outras maravilhas viram: mas não lhes foi dado ver a verdadeira Luz Eterna, coberta com a nuvenzinha de carne de menino e posta em um presépio por amor de nós.

Bartolomeu dos Mártires
[extracto do Catecismo distribuído no sínodo bracarense de Novembro de 1564. in Antologia de Espirituais Portugueses. Lisboa: Imprensa Nacional ? Casa da Moeda, 1994]
=brigado ao Eduardo Jorge, pela descoberta.

terça-feira, 21 de dezembro de 2004

A experiência de Taizé

Luís Sousa Lobo
Engenheiro. Ex-reitor da Universidade Nova de Lisboa

OPapa João Paulo II, quando visitou Taizé, deixou uma imagem «Passa-se por Taizé como por uma fonte. O viajante pára, mata a sede e prossegue a viagem». Mas o que há afinal de especial nessa comunidade, localizada numa pequeníssima aldeia da Borgonha, que desafia a lógica urbana e o ritmo trepidante da civilização moderna? Porque é que tantos jovens, ano após ano, década após década, geração após geração, continuam aos milhares a acorrer a Taizé, para uma semana de reflexão e vida em comum? E porque virão a Lisboa dentro de dias 40 mil jovens de toda a Europa, respondendo ao apelo da Comunidade de Taizé, para o Encontro Europeu?
Não é fácil responder em poucas palavras, mas vou procurar dar a minha explicação, de maneira sintética, recorrendo, por comodidade, a palavras-chave.
Acolhimento, sem proselitismo. Em Taizé há um sentido de acolhimento e de respeito pelos visitantes. Não há proselitismo; ninguém está a aproveitar para doutrinar. Pelo contrário, logo à chegada, são os visitantes que indicam o programa que querem escolher para marcar o ritmo dos seus dias em Taizé, que pode ir desde a participação em grupos de discussão, estudos bíblicos, encontros intercontinentais até ao retiro pessoal em silêncio. Neste caso podem pedir um acompanhamento de um irmão. Mas o programa é livre.
O único traço comum dos programas são os três momentos de oração em comum, de manhã, ao meio-dia e à noite. Mas também aí há, sobretudo, o apelo à reflexão pessoal - não há grandes homilias ou discursos apologéticos. Não faz parte da cultura de Taizé. O acolhimento em Taizé significa, sobretudo, um grande respeito por cada pessoa, pelo seu percurso de vida. Lançam-se pistas de reflexão, não se dão respostas, mas há uma grande disponibilidade para ajudar a encontrar respostas para cada um. É isto que observo sempre que visito Taizé e que acho o traço principal da sua cultura de acolhimento.
Sobriedade, bom gosto com simplicidade. Ao longo dos anos o espaço público em Taizé foi-se alargando e adaptando ao número crescente de visitantes. Hoje em dia, nas épocas altas (Páscoa e meses de Verão), os visitantes atingem os 6000 em cada semana, com chegada habitual ao domingo à tarde e partida no domingo seguinte pela manhã. Em Taizé, dentro e fora das casas, tudo é bonito e simples. Há uma harmonia que sabe bem. Na loja podem comprar-se lembranças de arte, de música, de peças de uso doméstico ou livros, em que o estilo simples de Taizé se reconhece em tudo. A comunidade não aceita doações nem heranças, e é com esta actividade que equilibra o orçamento.
Organização eficiente, mas quase invisível. Como é possível juntar 30 ou 40 mil jovens durante cinco dias numa cidade europeia sempre diferente, ou 6000 jovens com rotação semanal em Taizé, sem uma logística pesada e cara? O segredo é uma organização que se foi apurando ao longo dos anos, com a intermediação de voluntários, jovens que, em geral no final dos seus estudos, dão um tempo da sua vida para ajudar os outros através do acolhimento que se vive em Taizé. Além disso, entre cada revoada de visitantes, muitos jovens disponibilizam-se, enquadrados pelos referidos voluntários, para executarem as tarefas de apoio indispensáveis nas estruturas de alimentação, limpeza, apoio médico, etc. Esta capacidade de auto-organização fica em segundo plano, quase invisível, mas as condições de acolhimento e de apoio de todos ficam asseguradas. Tudo anda sobre rodas.
Ecumenismo prático, discreto. O sentido ecuménico é central nesta comunidade, pois constituiu o principal elemento motor para o fundador, o Irmão Roger, e o grupo que no final dos anos 40 se lhe juntou. Este ecumenismo surpreende os que põem ênfase nas diferenças entre as Igrejas cristãs. Os irmãos acabam por falar pouco de «ecumenismo», palavra talvez demasiado técnica, pondo o acento sobre a busca de caminhos de compreensão e de reconciliação nos locais onde cada um vive.
Os irmãos vêm de tradições cristãs diferentes, mas fazem os mesmos votos. Os visitantes pertencem também a tradições cristãs diferentes, ou a nenhuma, mas juntam-se com naturalidade na mesma liturgia, nas mesmas orações. Em Taizé fica óbvio que o que une as Igrejas cristãs é muitíssimo maior do que o que as divide. Ainda que o pouco que divide seja tantas vezes o que é «posto na lapela» como marca distintiva. Mas esse «clubismo» em Taizé quase desaparece. O estilo dos cânticos, a presença dos ícones, o apelo aos traços mais profundos da espiritualidade cristã constituem em Taizé uma plataforma em que todos os cristãos se sentem à-vontade - certamente com algum depuramento em relação às fórmulas a que estarão habituados. Mas essa é uma roupagem a que todos se adaptam sem dificuldades, e que acentua o sentido de universalidade e a esperança de mais paz para a Humanidade.
Sentido de Deus pelo silêncio interior. A busca de Deus ou do sentido da vida, em Taizé, é marcadamente pessoal, apesar de transparecer que a fé não é individualista, é para ser vivida com outros. Há, contudo, um grande respeito pelo outro, não havendo grandes sensacionalismos ou emoções públicas. Tudo se passa no silêncio e no coração de cada um. A liturgia e o lugar ajudam. Tudo simples e despojado. Cânticos simples e repetitivos, um pouco ao gosto das Igrejas orientais, que ajudam à reflexão interior, intercalados por períodos de silêncio longos, com durações impensáveis em qualquer das nossas celebrações - mas que é um elemento essencial no ritmo de Taizé. A procura de Deus e do sentido da vida faz-se no encontro de cada um consigo próprio, na reflexão e no silêncio, e nos encontros na partilha, na entreajuda, na descoberta de outras culturas, de outras vocações, de outras realidades. Com disponibilidade para ouvir, compreender, descobrir.
É talvez por tudo isto que, em muitas universidades nos EUA e diversos outros países, os jovens usam as «noites de oração» ao estilo de Taizé como a forma conveniente para trazer ao gosto pela vida interior os jovens que o desejem. A minha avaliação é que o espírito da Comunidade de Taizé vai muito para além da sua raiz ecuménica. Dá um exemplo da busca do sentido da vida, neste caso na perspectiva cristã, de uma forma em que o fanatismo não só não está presente como perde o sentido. A esperança no futuro e a paz encontraram em Taizé uma linguagem bastante universal.
Esta é uma contribuição inestimável no mundo de hoje. Entre os irmãos há ingleses e alemães, mas também indianos e coreanos. Há norte-americanos e canadianos, mas também dois portugueses. Estão lá presentes, a todo o tempo, os problemas do mundo. E a visão do mundo que Taizé transmite é uma visão solidária, de paz e de esperança.
Se a esperança é a marca da juventude, percebe-se porque é que tantos, sobretudo jovens, vão a Taizé «como se vai a uma fonte para matar a sede e prosseguir a caminhada».
Não sei se o meu retrato de Taizé ficou muito incompleto, esquemático ou redutor. O melhor mesmo, para quem não conheça, é experimentar. E a partir do próximo dia 28, durante cinco dias, Taizé está connosco em Lisboa - uma oportunidade rara.

In Diário de Notícias, 21.12.2004

sexta-feira, 17 de dezembro de 2004

...but so quickly

"Sometimes, there is God. But so quickly"
Blanche DuBois na peça de Tennessee Williams "A Streetcar Named Desire", da única vez que lhe parece acontecer uma coisa boa.
Cit por João Bénard da Costa, in Público, 17.12.2004

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

A iniciativa das tradições e Religiões unidas propõe:

O Manifesto da Unidade na Diversidade
? Ética e espiritualidade das tradições e religiões

de paz e de justiça

Paz, Igualdade, Solidariedade



PREÂMBULO

Este Manifesto[1] parte dos valores éticos e espirituais fundamentais e universais para expor, em doze pontos, uma visão de unidade na diversidade das tradições e religiões de paz e de justiça.

. A sua visão simples, coerente e concisa permite a qualquer pessoa de boa vontade, a ele aderir, seja ela agnóstica[2] ou crente.

? O Manifesto desenvolve a divisa e a máxima da Europa e inscreve-se directamente nos trabalhos de « Uma Alma para a Europa?ética e espiritualidade? »[3].

? As suas bases permitem construir uma eco-cidadania de harmonia, de não-violência e de responsabilidade universal para uma sociedade de solidariedade e de cooperação.

? Os pontos desenvolvidos pelo Manifesto são fundamentais na educação para uma cultura de paz e de não-violência tal como a propõe a Unesco, a Onu, e numerosas organizações do diálogo inter-religioso.

? Pode favorecer o diálogo inter-tradições e inter-religioso expressando um denominador comum a todas as tradições de paz e de justiça.

? A sua simplicidade pode ser útil como utensílio de comunicação mediática e pode ter um impacto significativo nos dirigentes religiosos, nas instituições e nos sistemas educativos.

? Pode favorecer a emergência de uma rede de dirigentes éticos e espirituais partilhando uma mesma perspectiva de unidade na diversisdade.

? Pode ser um paradigma a integrar na constituição de Estados de paz e de justiça.

? O reconhecimento dos seus princípios é também a condição sine qua non para que as religiões não sejam factores de enclausuramento identitários e finalmente de guerras.
O Manifesto da Unidade na Diversidade
das tradições e religiões de paz e de justiça


Nós, representantes de tradições et religiões aspirando à paz e à justiça [4], à harmonia e à não-violência, signatários do presente manifesto, reconhecemos :

1) A realidade de uma dimensão fundamental e universal da ética.

2) A realidade de uma dimensão fundamental e universal da espiritualidade.

3) A unidade na diversidade das tradições de paz e de justiça.

4) A diversidade e o pluralismo como uma riqueza.

5) Os fundamentos universais da ética e da espiritualidade como base de uma atitude respeitosa dos direitos e deveres do ser humano.

Reconhecemos também:

6) A necessidade de uma igualdade de direitos e de dignidade nas relações intertradicionais e religiosas.

7) A necessidade de um compromisso total com a sua tradição ou religião.

8) A necessidade de um diálogo intertradições ou inter-religioso profundo.

9) A necessidade da comunicação e da educação sobre o tema da unidade na diversidade.

10) A necessidade de uma cooperação intertradicional e religiosa em vez da competição de tradições e religiões.

11) A necessidade de promover um Estado garante da unidade na diversidade das tradições e religiões de paz e de justiça.

12) A utilidade de uma Rede Mundial de Dirigentes Tradicionais e Religiosos como lugar e instrumento desta cooperação e solidariedade numa perspectiva de unidade na diversidade.


Mais precisamente :

1) Reconhecemos como regra de ouro a realidade de uma dimensão fundamental e universal da ética.
Todas as tradições e religiões de paz e de justiça têm fundamentalmente uma mesma dimensão ética que se resume na regra de ouro que se enuncia : « Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti».[5]

2) Reconhecemos no Absoluto, Deus e/ou a compreensão do que eu sou, a realidade de uma dimensão fundamental e universal da espiritualidade.
Todas as tradições e religiões de paz e de justiça partilham também uma dimensão espiritual fundamental e universal, que se resume ao reconhecimento, à experiência e à compreensão de uma presença do Absoluto, de Deus ou do Ser supremo compreendido como fundamentalmente intemporal e omnipresente, transcendendo os nomes e as formas que lhe podem ser atribuídos. A dimensão universal da espiritualidade pode também resumir-se no adágio socrático : « conhece-te a ti mesmo».

3) Reconhecemos a unidade da experiência ética e espiritual na diversidade de expressão das tradições e religiões de paz e de justiça.
A dimensão universal da experiência ética e espiritual[6] é o espaço da unidade ou da convergência fundamental das tradições ou religiões de paz e de justiça. As expressões particulares desta unidade fundamental e universal são a diversidade destas tradições ou religiões. Esta diversidade de expressão corresponde a receptividades, mentalidades e sensibilidades variadas, dos diferentes seres humanos, na multiplicidade das suas matrizes sociolinguísticas.

4) Reconhecemos a diversidade e o pluralismo como uma riqueza.
A diversidade das formas e expressões particulares utilizadas pelas diferentes tradições e religiões de paz e de justiça[7] deve ser considerada, para além da simples atitude de tolerância, como uma riqueza da expressão dos poderes ilimitados do absoluto e do património ético e espiritual da humanidade.

5) Reconhecmos os fundamentos universais da ética e da espiritualidade como base de uma atitude respeitadora dos direitos e deveres dos seres humanos.
Os fundamentos da ética e da espiritualidade, universais e não confessionais, tais como os acima mencionados, são os fundamentos de uma atitude respeitadora dos direitos e deveres do ser humano[8] numa perspectiva de responsabilidade universal[9].


E também:

6) Reconhecemos a necessidade de uma igualdade de direitos e de dignidade nas relações entre tradições e religiões.
A formulação e a prática de uma «personalidade tradicional ou religiosa» análoga à «personalidade moral» considera todas as tradições e religiões de paz e justiça iguais em direitos, em deveres e em dignidade [10].

7) Reconhecemos a necessidade de um compromisso total com a sua própria tradição/religião.
Na igualdade de direitos, de deveres e de dignidade das tradições e religiões de paz e de justiça[11], um total compromisso, enquanto discípulo da disciplina da sua tradição/religião, com as suas percepções, práticas, regras e preceitos é necessário para a progressão : a transformação pessoal, a salvação ou realização dos seus membros; assim como para evitar confusões que o sincretismo ou o concordismo podem produzir.12

8) Reconhecemos a necessidade de um diálogo intertradições/ inter-religioso profundo.
O diálogo, quer entre tradições quer entre religiões é, na sua dimensão profunda, o meio de desenvolver a compreensão autêntica da unidade na diversidade; e, no seu contexto, de reconhecer as diferenças como riqueza. Assim se promovem o respeito e a apreciação mútuos e totais das tradições e religiões de paz e de justiça.

9) Reconhecemos a necessidade da comunicação e da educação para a unidade na diversidade.
A comunicação e a educação são os meios para desenvolver a compreensão verdadeira da unidade na diversidade e promover os seus valores. Cada tradição e religião deveria realizá-lo localmente junto dos seus praticantes contribuindo assim para o desenvolvimento da paz e da justiça globais13.

10) Reconhecemos a necessidade de uma cooperação inter tradições/religiões em vez da competição entre tradições/religiões.

Na base dos diferentes pontos acima expressos, as tradições e religiões de paz e de justiça podem trabalhar em sinergia e cooperar entre elas, mais do que entrar em competição. Nesta solidariedade podem unir as suas forças para desenvolver paz e justiça e assim fazer face aos numerosos desafios do mundo contemporâneo, em particular o ecológico.

11) Reconhecemos a necessidade de promover um Estado garante de uma verdadeira unidade na diversidade tal como é definida no presente Manifesto.
É necessário que a política reconheça as tradições éticas e espirituais de paz e de justiça e que um estado agnóstico, ou laico, seja garante da unidade na diversidade, das tradições/religiões tal como está expressa no presente Manifesto.

12) A utilidade de uma Rede Mundial de Dirigentes Tradicionais/Religiosos como lugar e instrumento desta cooperação e solidariedade (numa perspectiva de unidade na diversidade).
A Rede Mundial da Unidade na Diversidade, das Traditções et Religiões de paz e de justiça é uma rede informal de dirigentes ou representantes das diferentes tradições éticas e espirituais e das religiões de paz e de justiça.
A Rede reúne assim todos os praticantes destas tradições e religiões que aderem ao Manifesto.
A Rede é constituída pelos signatários do presente Manifesto e pode, a partir das consultas dos seus membros e das suas visões convergentes, falar em conformidade com os princípios do presente Manifesto para o bem de todos.
Os comentários e achegas desta Rede Mundial seriam preciosos para desenvolver a paz, a justiça e o que é benéfico para todos. Poderiam também servir para denunciar e desencorajar as más utilizações da religião e os excessos de todos os extremos.
A Rede é também o lugar de celebração da solidariedade e da diversidade na unidade.


Cólofon:

A inspiração deste Manifesto remonta às origens da tradição de Buddha e da sua visão Rimay, universalista. Foi inspirado por trinta anos de diálogo inter religioso, no mundo, na Europa e no Instituto Karma Ling e pela participação de Lama Denys, o seu compilador na dinâmica de « Uma Alma para a Europa?ética e espiritualidade». O seu texto foi escrito à Beekman Tower Residence, Baie de la Tortue, Manhattan, New-York, em 22 de Maio de 2003 após a conferência organizada na sede das Nações Unidas pelo World Council of Religious Leaders (Conselho Mundial dos Dirigentes Religiosos). O texto e a sua tradução francesa foram finalizados na semana seguinte na sede do Shanga Rimay : O Instituto Karma Ling, na Savoie em França, UE. Foi apresentado no Encontro Islam-Dharma que teve lugar no Instituto Karma Ling em 7, 8, 9 de Junho de 2003 e foi ligeiramente modificado nessa ocasião. Em seguida foi apresentado no forum « Choc des Civilisations ou Rencontre des Cultures » que teve lugar a 12 e 13 de junho 2003 em Martigny, Suíça.


Considere-se livre de utilizar este manifesto a seu bel-prazer, apropie-se dele em desapropriação, não se trata de um Manifesto de uma pessoa ou de um grupo de pessoas mas sim dos seus signatários. (Está livre de copyrights, é «copyleft / copyfree / freecopy »).

Todos os comentários ou sugestões, para melhorar ou continuar esta iniciativa, são muito benvindos e cordialmente encorajados.


Que tudo seja propício.


Mail : lamadenys@rimay.net

[1] Ver o cólofon sobre as origens deste Manifesto.

[2] O Manifesto pode convir a um «agnóstico humanista » que siga uma tradição ética e espiritual ou a um teísta ou a um monoteísta, ou a um «teísta crente». Entendendo-se agnóstico como «não dependendo de uma crença» ou «não reconhecendo um enunciado literal, qualquer que ele seja, como expressão definitiva da realidade». O teísta utiliza o conceito de Deus para o absoluto e geralmente considera a crença em Deus como um acto de fé.

[3] «Uma Alma para a Europa ? ética e espiritualidade? » foi iniciada por Jacques Delors, Antigo Presidente da Comissão Europeia e está ligada à sua célula de prospecção. O seu princípio fundador é que a Europa não se construirá simplesmente sobre as bases de um mercado e que é necessário dar-lhe uma alma, ou um coração, ético e espiritual, numa perspectiva de unidade na diversidade.
[4] Dizemos que uma tradição ou uma religião é de paz ou de justiça quando ela ensina e pratica a paz e a justiça, e igualmente a harmonia e a não-violência.
[5] Esta regra de ouro tem um alcance universal e todas as tradições e religiões a reconhecem. É um princípio de não-violência, de respeito pelo outro enquanto seu semelhante, um princípio de amor e de compaixão, base de toda a ética de paz e de justiça, e de todas as regras que daí decorrem.

[6] Tal como foi definida nos pontos 1. e 2.

[7] Compreendendo a unidade na diversidade tal como está expressa no ponto 3.

[8] Ver a Declaração Universal dos Direitos e dos Deveres do Homem.

[9] Esta noção pode exprimir-se em termos de eco-cidadania.
[10] Na inteligência da unidade na diversidade e do pluralismo como uma riqueza, tal como foram acima definidas, é necessário que as relações entre tradições e religiões de paz e de justiça sejam fundadas sobre uma igualdade de direitos e de dignidade que pode exprimir-se e operar-se pela formulação e prática de uma « personalidade tradicional ou religiosa », análoga à personalidade moral.

[11] Tal como está expressa no ponto 5.

12 NB : Verifica-se na prática que uma compreensão autêntica da unidade na diversidade e dos seus desenvolvimentos tal como foram apresentados no Manifesto reforçam o compromisso pessoal de cada praticante com a sua própria tradição/religião; (e) isto, aprofundando a sua compreensão e a sua experiência.

terça-feira, 2 de novembro de 2004

Geração Doente

Por GRAÇA FRANCO
PÚBLICO, 01 de Novembro de 2004

A "Grande Reportagem" de há duas semanas denunciava uma história de terror, dessas que se lêem e não se acredita. Ou melhor, não se quer acreditar. Um jovem - de nome Diogo - quartanista de Arquitectura fora praxado até à morte pelos colegas da Tuna Universitária a que pertencia. O caso a que João Cândido da Silva já se referiu, na sua última crónica, com o sugestivo subtítulo de "Javardos", passou-se em Portugal vai para três anos. Só agora, ultrapassado o doloroso luto, saltou para os jornais, denunciado pela família num justificado alerta contra essa coisa sinistra dos rituais praxistas que continuamos a fingir não ver. Rituais que já começam a invadir o próprio ensino secundário, onde exibem a mesma ou pior violência. Fica assim minada toda a formação da personalidade de gerações inteiras dos nossos miúdos.

A reportagem justificava o editorial de Joaquim Vieira "Cultura rasca". Contra ele escreve violentamente, na edição desta semana, uma jovem socióloga de 26 anos a frequentar o mestrado. Lemos e voltamos a não querer acreditar.

Em sua defesa, e dos da sua geração, a leitora começa por alertar para o seguinte: "os nossos valores são incutidos pela sociedade que foi por vós constituída". Embora o argumento seja lapalissiano só posso concordar e partilhar a culpa na parte que me toca. OK. Posso até concordar com o argumento seguinte: o que se passou não foi "praxe", foi sobretudo um "crime" que a Justiça com a inoperância habitual, exercida por várias gerações (e não por uma única geração como sustenta a jovem), foi incapaz de castigar. E isso é grave. Gravíssimo. Mas, logo a seguir, a mestranda tenta exibir a sua superioridade moral afirmando o seguinte: "Ao invés do Diogo, optei por me impor (sublinhado meu) e recusei participar nas praxes, sem nunca ser posta de parte. Limitei-me a aparecer nas aulas após o fecho das praxes, alegadamente por estar doente. No harm done diriam os ingleses".

Chegámos ao ponto. Posso até admitir que não tinha outra solução senão fugir para não enfrentar o gang acéfalo e maioritário. Nem sempre a fuga é pura cobardia, mas a fuga travestida de colaboracionismo, para gozar dos privilégios inerentes, só pode ter esse nome.

Para esta jovem, que se faz porta-voz de uma geração, "impor-se" resume-se à adopção do comportamento desprezível mas corriqueiro de apresentar atestado médico falso. Estamos entendidos! Fica explicada a tendência compulsiva para a doença falsa e fica-se a perceber melhor por que raio a nova geração de professores, em busca de colocação, pode subitamente surgir tão achacada.

Enfrentar o "sistema", mesmo o mais injusto, dá, no mínimo, muita chatice. Além disso, corre-se o risco de poder ficar à margem do rebanho, sem direito à festa, à borga, aos copos (lá se ia a companhia para as ponchas da Madeira que a jovem académica diz tanto apreciar). E claro, lá se iria também o traje.

Dizer "não", como a minha geração era useira e vezeira, pode sempre trazer problemas ao enfrentar a turba, recusar a humilhação, denunciar, não pactuar com o sistema de abuso abjecto dos mais fracos imposto por uma ordem absurda onde a "antiguidade" é um posto e a burrice assumida premiada na dupla categoria idiota dos "veteranos".

Na minha geração os que "optavam" assim tinham um nome: cobardes, como diriam os portugueses. "Cowards" na versão anglo-saxónica...

"Jamais vu!"

Entre a esquerda libertária e a direita libertina só não digo venha o diabo e escolha porque, por princípio, não gosto de lhe conceder qualquer direito. Em comum, elas têm um pensamento intolerante e único em matérias morais (ou imorais) que, no mínimo, começa a tornar-se irritante. Pensar o contrário deixou de ser reprovável e improvável para passar a ser "impossível".

Fora das duas correntes e com a agravante de não me identificar nem com a direita liberal, nem com a esquerda clássica, vejo-me entre os "opinion makers" da praça como uma espécie de raridade em vias de extinção. Teria a vantagem de me colocar ao abrigo do risco do "déjà vu", não fosse transformar as minhas humildes opiniões em sérias candidatas à classificação de "jamais vu".

Não é que eu posso mesmo, e sem "corar", responder ao repto aqui lançado pelo professor Prado Coelho (a que sempre me habituei a respeitar a óbvia superioridade intelectual), informando-o que nem todos os católicos apostólicos romanos vivem a respectiva religião envergonhadamente e "à la carte". Ou seja, que faço parte daqueles milhões que tenta viver em consonância com o Vaticano, sem que tenhamos de suportar o insulto de ultraconservadores reaccionários. Que fique claro: em Itália nunca votaria no senhor Buttiglione, nem no seu partido, nem no seu Governo. Não partilho muitas das suas ideias sobre a família (que extravasam em muito as posições da Igreja) ou sobre a imigração. No Parlamento Europeu raramente votaria com ele e talvez até votasse frequentemente contra ele mas, porque ambos partilhamos a mesma noção de pecado, fico a saber que, como ele, jamais poderei ser comissária. Paciência, adeus regresso a Bruxelas.

E o meu "pecado" incapacitante parece ser o de, como muitos outros, seguirmos a doutrina de João Paulo II, tanto na condenação firme da guerra preventiva (com a consequente oposição à actual política norte-americana), como na opção preferencial pelos pobres (com a defesa acérrima de uma maior justiça social) - dois pontos que regra geral agradam à esquerda e a direita gosta de omitir -, como nas questões morais que vivemos com maior ou menor dificuldade dada a condição de simples pecadores. Mas, enfim, vivemos, pregamos e publicamente defendemos.

Coisas tão fora de moda como o apelo à vida casta dos solteiros, ou dos homossexuais e divorciados com anterior casamento católico (porque para os católicos o matrimónio é indissolúvel). Isso não significa perseguir ninguém, nem desrespeitar a sua escolha, ainda que decidam viver pública e assumidamente em situações que a Igreja identifica claramente como situações "de pecado". Não se trata de perseguir os homossexuais, pactuar com a sua discriminação, atentar contra a sua dignidade, privá-los dos seus direitos, como não significa marginalizar os recasados ou criminalizar o adultério. Dá para entender? Pelo contrário, o próprio Cristo impediu a lapidação (era a pena de então, numa sociedade que ironicamente autorizava o divórcio) da mulher adúltera, mandando-a em paz com esta simples advertência: "vai e não voltes a pecar". Bem podia ter-lhe dito: "vai que isso não é mais pecado", segundo a minha nova lei. Não disse. Como não o disse à Samaritana, casada pela quinta vez e a viver em união de facto com um homem casado com outra. Há dois mil anos a vida sentimental não era muito mais tranquila do que a actual. É esse Cristo que Paulo pregou, com escândalo, a uma sociedade onde a homossexualidade era tão ou mais comum do que na actual, que continua a escandalizar-nos com as suas propostas radicais. Um Cristo a exigir loucuras de fé.

Intriga-me apenas que quem tem as maiores dúvidas sobre a própria existência de Deus, como Eduardo Prado Coelho, possa ter tão profundas certezas sobre quais os comportamentos que O ofendem ou não (é isso que significa pecado, ofensa a Deus). Eu não tive nenhuma revelação divina. À falta de fonte mais segura, para tentar evitar ofendê-Lo, sigo as instruções do magistério. Todos os meus amigos homossexuais sabem como penso e há mesmo alguns que pensam como eu. Os meus amigos que vivem em adultério (e são muitos mais!), também. Somos todos pecadores de variadíssimos pecados, mas isso não nos deve impedir a todos de ambicionar a santidade. E ela é possível. Hoje celebra-se a sua vitória no Céu e na terra. É porque os Santos existem que hoje é feriado. Sabiam? Não costumo fazer destas crónicas palco de apostolado (deixo a minha catequese para outros "fora"). Aqui não acho próprio. Mas o meu silêncio perante o repto do professor soava a cobardia. E não gosto de cobardes.

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Conservadores e progressistas

From Homer to Hip-Hop
The Jesuit scholar Walter Ong studied the evolution of human consciousness via the history of communication.
by Jeet Heer

"(...) In their evolving attitudes toward popular culture, the McLuhan circle anticipated dramatic changes within Catholicism. The middle decades of the 20th century were an exciting time to be a Catholic intellectual?Vatican II was gestating, but there was great uncertainty as to how the church should deal with the modern world. Thoughtful Catholics felt the competing tug of tradition and change.
Some Catholics wanted their church to pull up the drawbridges and prepare for a long siege against a hostile world. Others pressed the church to embrace modernity indiscriminately. Perhaps the glory of McLuhan and his circle was that they avoided the temptations of these competing positions: they went in for neither the recriminatory nostalgia of the conservatives nor the faddish novelty-seeking of the progressives. Rather, they wrote as open-minded analysts, trying to figure out exactly why the modern world was changing and what could be held on to and even recovered in a turbulent era.(...)"

sábado, 16 de outubro de 2004

Os novos donos da verdade

"(...) o italiano Rocco Buttiglione vê o seu nome vetado para comissário europeu não por causa daquilo que defende do ponto de vista legislativo mas sim pelas suas convicções religiosas. Se recuássemos algumas décadas, Rocco Buttiglione seria provavelmente interrogado não sobre o casamento e a homossexualidade - que era então unanimemente considerada à esquerda e à direita como um comportamento censurável quando não criminoso - mas sobre o que pensava da origem da vida, matéria que deu azo a enormes polémicas entre católicos e ateus e levou a que convicções religiosas e espírito científico fossem considerados incompatíveis. Cada época selecciona quem está disposta a calar e a apagar. Geralmente essa escolha faz-se em nome do bem comum. Às vezes, até se faz em nome da liberdade.

Helena Matos, Público, 16.10.2004

Liberdade, Tolerância e Os Novos Donos da Verdade

Rocco Buttiglione e um professor de filosofia conhecido tanto pela sua fina inteligência como por ser um católico devoto e próximo do Papa. Como católico tem, naturalmente, as suas convicções. Acredita, por exemplo, que a homossexualidade é imoral e constitui um "pecado". E, como homem culto, conhece a origem da palavra "matrimónio", que traduz o conceito de um contrato que visa proteger a mulher e os seus filhos, implicando obrigações para os maridos.
Uma parte disto são convicções pessoais, outra é conhecimento da história. No entanto quando Rocco Buttiglione as assumiu publicamente como membro designado da futura comissão europeia presidida por Durão Barroso com a pasta da Justiça e dos Assuntos Internos, a esquerda reagiu indignada, com destaque para os socialistas Josep Borrell (Espanha) e António Costa, para quem um ex-membro do gabinete de Berlusconi nunca poderá assumir tal pasta.
Na verdade, por muito detestável que se possa considerar o actual Governo italiano, ele existe porque os partidos que o formam ganharam as eleições. Logo tem legitimidade para, no quadro das actuais regras europeias, nomear para a Comissão Europeia quem entender e não quem for preferido pelos que perderam as eleições. São essas as regras do jogo nos nossos sistemas democráticos que, mesmo imperfeitos, dispõem de sistemas de pesos e contrapesos suficientes para os fazerem funcionar.
Para isso, no entanto, é necessário que, para além de se respeitarem as regras, se respeitem as opiniões dos outros. E, por muito que isso custe ao senhor Borrell, as opiniões sobre moralidade de Buttiglione não valem menos do que as suas. Já a sua atitude tolerante contrasta pela positiva em relação à intolerância do socialista espanhol.
Porquê? Pela simples razão que Buttiglione, sem abdicar das suas convicções, não pretende impô-las aos que delas discordam. Basta notar no que disse perante a Comissão que, pomposamente, chumbou o seu nome (um chumbo não vinculativo): primeiro, explicou que sabia "distinguir entre moralidade e lei", o que implica que "muitas coisas podem ser consideradas imorais sem terem por isso de ser proibidas"; depois, com lógica, acrescentou que podia "considerar que a homossexualidade era um pecado sem que isso implique que querer criminalizá-la". Afinal, "o Estado não tem o direito de meter o seu nariz neste domínio".
Trata-se de uma declaração corajosa de alguém que não abdica da sua fé particular e que mostra impecáveis credenciais liberais. Mostra que o filósofo italiano não omite por conveniência aquilo em que acredita, que admite a existência de outros pontos de vista e que, ao contrário dos que se julgam "donos da verdade", acredita "na liberdade, o que implica que não se imponha ao outros o que consideramos ser o mais correcto".
Ainda bem que assim pensa, pois isso garante que não imporá a partir de Bruxelas nenhuma agenda política particular ou de grupo, respeitando as diferenças culturais existentes, nomeadamente no domínio em discussão, entre os povos dos 25 membros das União. Porém ser um homem livre e franco e assumir-se como católico é que parece ser "pecado", e mortal, para os que não percebem que são eles que vestem a pele dos Torquemada dos nossos dias."
José Manuel Fernandes
Público, 15 de Outubro de 2004

terça-feira, 14 de setembro de 2004

"Choque de civilizações ou choque de ignorâncias?"

Sobre o tema do post anterior, e para quem estiver interessado em entrar em alguns dos temas debatidos na conferência de Barcelona, sugiro a leitura da transcrição, disponível online, de uma das mesas, intitulada "Choque de civilizaciones o choque de ignorancias?"
"Novas ignorâncias, novas literacias"

Foi uma experiência de grande desnidade a participação, na semana finda, nesta conferência internacional promovida pela UNESCO, no Foum Mundial das Culturas, em Barcelona.
Deixo o texto de apresentação:
"L?incompréhension mutuelle des peuples a toujours été, au cours de l?histoire, à l?origine de la suspicion et de la méfiance entre nations, par où leurs désaccords ont trop souvent dégénéré en guerre". Ces mots, extraits de l?Acte constitutif de l?UNESCO (1945), résonnent avec une nouvelle urgence aujourd?hui. Alors que la mondialisation a permis un rapprochement entre les peuples, elle a également été accompagnée par l?émergence ? ou la ré-émergence dans un contexte nouveau, de formes inquiétantes d?ignorance. Prises ensembles, celles-ci constituent les "nouvelles ignorances". Cette Conférence se concentre sur quatre d?entre elles : l?ignorance de la diversité, l?ignorance de l?Autre, l?ignorance de l?éthique et l?ignorance du futur. La Conférence a pour objectif de déterminer comment faire face à l?émergence de ces "nouvelles ignorances" par le biais de l?élaboration de "nouvelles alphabétisations" ? celles-ci rassemblant les savoirs, les valeurs et les compétences nécessaires pour y répondre. Apprendre à vivre ensemble à l?heure de la mondialisation impose un engagement renouvelé en faveur de la connaissance mutuelle, du développement du libre échange des idées et des savoirs, de l?augmentation des échanges entre les peuples, et du développement de valeurs partagées."

segunda-feira, 2 de agosto de 2004

Enviesamentos

O documento "Carta a los obispos de la Iglesia Católica sobre la colaboración del hombre y la mujer en la Iglesia y en el mundo" (recorro aqui à versão em castelhano), divulgado no sábado pela Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, não parece trazer nada de especialmente novo sobre o tema. Depois de o ler, ocorrem-me dois ou três comentários:
  • Preocupado em desmontar contradições de algumas correntes feministas, o documento esquece o valor intrínseco inerente ao processo histórico da emancipação das mulheres. O que diz bastante da "mentalidade" que subjaz à reflexão.
  • Isso mesmo se observa no destaque que a Congregação para a Doutrina da Fé confere ao lugar da mulher na família, omitindo um aspecto que se esperaria fosse pelo menos referido e valorizado: a participação do homem nas tarefas domésticas e na educação dos filhos. O documento contém argumentos para valorizar este aspecto do problema, mas os autores não foram por aí.
  • Não se percebe de todo, a meu ver, a lógica da argumentação que leva, no ponto 16, a reafirmar que a ordenação sacerdotal seja exclusivamente reservada aos homens.
  • O título do texto refere-se ao homem e à mulher. Os 17 pontos da reflexão apresentam-se centrados, de uma forma quase obsessiva, na mulher. Os especialistas da análise textual encontrarão aqui farta e interessante matéria de estudo.
  • A conclusão, para mim, é esta: não pondo em causa a legitimidade e interesse da posição oficial do Vaticano sobre o tema, o documento propõe-se combater enviesamentos com posições elas próprias também enviesadas.

quarta-feira, 21 de julho de 2004

O tratamento da morte de Lourdes Pintasilgo
 
O passado fim-de-semana foi marcado pela morte súbita da Eng.ª Maria de Lourdes Pintasilgo. Mulher de grande relevo em diferentes áreas da vida social, cultural e política, o seu testemunho de vida e a alegria e convicção que pôs naquilo em que se envolveu foi reconhecido até mesmo por aqueles que dela discordavam. Ficará como referência em campos como o reconhecimento do papel das mulheres na sociedade, o aprofundamento e enriquecimento da vida democrática e a renovação da experiência cristã.
Seria de esperar que, perante a morte de alguém de tal envergadura, para mais nas circunstâncias inesperadas e no contexto em que ocorreu, o ?Jornal de Notícias? desse ao caso o tratamento e o destaque que ele merecia, a exemplo de outros casos análogos recentes.
Ora o que verificámos é que isso não aconteceu. O tratamento foi pobre tanto do ponto de vista do destaque como do conteúdo. Essa percepção do provedor é partilhada pelo leitor Hermano Manuel P. Padrão que fez saber, por correio electrónico, o seu ?descontentamento (para dizer o mínimo)?, pelo tratamento dado à morte de alguém que foi ?única mulher que, neste País, assumiu o cargo de primeira ministra e, posteriormente, a única mulher que se candidatou à Presidência da República, reconhecida internacionalmente, participante em inúmeros ?foruns? com a nata intelectual ou política mundial?. ?Não merecia que o registo da sua morte merecesse um relevo tão parco no JN, mais chocante se o compararmos com o desaparecimento de outras duas figuras gradas do nosso País, as recentíssimas mortes do Prof. Sousa Franco e da nossa melhor Poeta, Sofia de Mello Breyner Andersen?, acrescentava o leitor.
O director de Redacção deste Jornal, interpelado pelo provedor, reconhece: ?A morte [de Lourdes Pintasilgo] coincidiu com a crise política e tratamo-la mal. A secção era a mesma, tivemos dificuldades em desviar gente?.
Fica dada a explicação, embora entenda ser discutível a opção de ocupar  páginas com desenvolvimentos de uma crise que, nos dias em referência, nem trouxe grandes novidades, deixando num plano secundário o tratamento de um acontecimento que teve repercussão inclusive internacional.Na linha de outros media, foi-se pela via mais óbvia, que consistiu em citar, na edição de domingo, os estafados depoimentos dos dirigentes político- partidários. E o que esta mulher significou em áreas tão diversas como as artes, os movimentos das mulheres, as ONG (organizações não governamentais)? Não teriam nada de porventura mais relevante a dizer? E o facto de nenhum bispo ter estado presente no funeral nem se ter pronunciado (com a honrosa excepção, uns dias depois, do bispo de Aveiro, numa ?carta ao director?) não era motivo de interesse jornalístico? Não se justificava que o JN tivesse tomado a iniciativa de interpelar a hierarquia católica?
in JN, 18.07.2004

segunda-feira, 12 de julho de 2004

Presença da ausência

Diz o Cibertúlia e eu não posso senão subscrever:
"Maria de Lourdes Pintasilgo teve hoje o aplauso de centenas de populares. Anónimos e conhecidos. Mas faltou um aplauso, uma mensagem, uma presença - a de um bispo (qualquer) que fosse da Igreja portuguesa. Pintasilgo não era uma católica ortodoxa, como porventura foi Sousa Franco, e não era A Voz, como foi Amália. Mas na sua heterodoxia foi inovadora e acolhedora de uma outra forma de ser Igreja. E, na sua simplicidade, foi a voz de deserdados ou desalinhados. O senhor cardeal-patriarca de Lisboa, que presidiu aos funerais de Sousa Franco ou Amália, para Pintasilgo não teve sequer uma palavra pública, nem enviou um dos seus bispos auxiliares à cerimónia deste domingo. Às vezes, é difícil ser Igreja nesta Igreja."

domingo, 11 de julho de 2004

Maria de Lourdes Pintasilgo (1930-2004)

Obrigado, agora, para sempre
"Descobri que certos homens e certas mulheres, com quem partilhamos a terra e o tempo históricos, através de um verso, de um canto, de uma frase, nos iluminam os caminhos por onde tentamos chegar mais longe e mais alto. E aí encontrei as razões de uma admiração, que não tinha do "pintasilguismo presidencial", de que aliás não comunguei.
Por isso, mais do que parabéns, lhe disse obrigado.
Obrigado, agora, para sempre, querida Maria de Lourdes".
Adelino Gomes

Maria de Lourdes
"O que mais me dói, minha Amiga, é saber que partiu na mágoa de um estranho momento da vida do seu país. Dói-me saber que a pressa que vestiu para a viagem, tenha sido ela própria tecida a fios de uma dor, fulminante de tão inconformada. Não o merecia, Maria de Lourdes, não o merecíamos.
Quero que saiba que os seus ensinamentos e exemplos permanecem muito vivos em mim e que, passado o desconcerto da notícia sobre a sua partida, ficaram hoje ainda mais reforçados como lição maior do que é o direito e o dever de cada um de nós de contribuir para o bem da res publica - da polis do nosso terreiro e da polis do grande quintal que é o mundo.
Falo do bem, minha Amiga, porque foi a dar-lhe brilho que sempre aplicou a sua inteligência, tão curiosa sobre todas as coisas, tão imaginativa, tão a favor das pessoas, sobretudo das que a seu favor pouco ou nada têm e pouco ou nada lhes é proposto que tenham.
Falo do bem, minha Amiga, porque o bem é uma categoria fundadora da vida privada e da vida pública dos homens e porque, com impúdica desonra e cobardia, muitos dos que em nosso nome falam e decidem, dão sinais de lhe ignorarem os atributos e as exigências.
Nesta hora de despedida, quero ainda que saiba, Maria de Lourdes, que me sinto credora da sua voz e que vou tentar merecer, sem desfalecimentos, o legado da sua herança".
Maria João Seixas

«Eis-nos sitiados»
«Deus não vem fazer aquilo que o homem não foi capaz de fazer (...). Deus deixa acontecer e toma à sua própria conta com as fatalidades da História como se tivesse provocado e querido. Deus da História, mesmo assim? Sem dúvida. Mas não do alto como um produtor de marionetas. Deus da História nos seus avanços e recuos. (...) E nós? No fundo de nós mesmos sentimo-nos sitiados . De todos os lados nos vem a imagem desoladora da nossa incapacidade para gerirmos o planeta, a nossa cidade, as nossas coisas, os nossos afectos . Que fazer então? Denunciar. Dizer. Enunciar os erros em que caímos, os becos sem saída deste mundo, do país da sociedade dos nossos afectos. Mas aí rebenta o grande escândalo (...) Porque nas sociedades entorpecidas por falsas visões não é tido por conveniente denunciar a injustiça, o erro, a ilusão. Nem sequer a zona mais íntima dos nossos afectos segue leis diferentes.»

Maria de Lourdes Pintasilgo
Do livro 'Dimensões da Mudança'

quarta-feira, 7 de julho de 2004

Quem sou eu?

"Quando, três ou quatro anos atrás, passou pelo Brasil, Jostein deu uma entrevista brilhante à TV Cultura de São Paulo. E a idéia forte em torno da qual se construiu a conversa foi essa de que ninguém descobrirá quem é se apenas olhar para si próprio. "
Carlos Chaparro
in Comunique-se, 1.7.2004

sexta-feira, 2 de julho de 2004

Sophia

"Sozinha caminhei no labirinto
Aproximei o meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz de um dia limpo"