terça-feira, 19 de abril de 2005

O que poderá ser um papado de Ratzinger

"Outline of a Ratzinger papacy": escrito por John L. Allen, Jr., correspondente em Roma do National Catolic Reporter, texto escrito antes da eleição.

Homilia de Ratzinger na missa que antecedeu o conclave que o elegeu (extractos):
"Arrêtons-nous seulement sur deux points. Le premier est le chemin vers « la maturité du Christ », comme le dit, un peu en simplifiant, le texte italien. Plus précisément nous devrions, selon le texte grec, parler de la « mesure de la plénitude du Christ », à laquelle nous sommes appelés à parvenir pour être réellement adultes dans la foi. Nous ne devrions pas rester des enfants dans la foi, comme des mineurs. En quoi consiste être adulte dans la foi ? Saint Paul répond que cela signifie être « ballotté et emporté à tout vent de la doctrine » (Ep 4, 14). Description très actuelle !Combien de vents de doctrines avons-nous connu au cours de ces dernières décennies, combien de courants idéologiques, de modes de pensée? La petite barque de la pensée de nombreux chrétiens, bien souvent, a été agitée par ces vagues, jetée d?un extrême à l?autre : du marxisme au libéralisme, jusqu?au libertinisme ; du collectivisme à l?individualisme radical ; de l?athéisme à un vague mysticisme religieux ; de l?agnosticisme au syncrétisme et ainsi de suite. Chaque jour, naissent de nouvelle sectes, réalisant ce que disait saint Paul sur l?imposture des hommes, sur l?astuce qui entraîne dans l?erreur (cf Ep 4, 14). Avoir une foi claire, selon le Credo de l?Eglise, est souvent étiqueté comme fondamentalisme. Tandis que le relativisme, c?est-à-dire se laisser porter « à tout vent de la doctrine », apparaît comme l?unique attitude digne de notre époque. Une dictature du relativisme est en train de se constituer qui ne reconnaît rien comme définitif et qui retient comme ultime critère que son propre ego et ses désirs .
Nous, en revanche, nous avons une autre mesure : le Fils de Dieu, l?homme véritable. C?est lui la mesure du véritable humanisme. Une foi qui suit les vagues de la mode n?est pas « adulte ». Une foi adulte et mûre est profondément enracinée dans l?amitié avec le Christ. C?est cette amitié qui nous ouvre à tout ce qui est bon et nous donne le critère pour discerner entre le vrai et le faux, entre l?imposture et la vérité."
Inverno da Igreja Católica

Há, sempre, que admitir a possibilidade da surpresa. Numa instituição como a Igreja Católica, "o Espírito sopra onde quer" (Jo 3,8), apesar de haver sempre quem queira que ele sopre para determinado lado.
Mas o mais certo é que, em muitos aspectos, a Igreja continue a cerrar fileiras. Em nome de uma luta contra o relativismo entendido como incompatível com a diversidade e a pluralidade no pensar, no sentir e no expressar. É assim provável que, globalmente, nos tenhamos de preparar para um Inverno. É a estação que sucede ao Outono que foi, em certa medida, o pontificado de João Paulo II. O paradoxo do Inverno é que é o tempo em que, vergastadas pela intempérie, curtidas pelo frio, as vergônteas nuas vão ganhando forças para o despontar dos gomos.

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Uma Igreja para os nossos filhos
Teresa Martinho Toldy, Teóloga, Professora na Universidade Fernando Pessoa (Porto)
In Público, 18.4.2005

Mais importante do que saber quem será o próximo Papa, é saber o que será a Igreja no futuro. Que Igreja para os nossos filhos? E, em função dela, que Papa para os próximos tempos?

Começa agora o Conclave para a eleição do novo Papa. As atenções de uma parte do mundo estão concentradas em Roma. Os católicos aguardam, muitos, com expectativa, outros, com preocupação. As especulações são muitas. Os "papáveis", ao que parece, também... Tem sido frequente, ao longo da história da Igreja Católica, a eleição de um candidato considerado "improvável" ou nem sequer mencionado. Foi, aliás, o que aconteceu na eleição do Papa João Paulo II.
Partilho esta expectativa, bem como a preocupação. Estou, contudo, convicta de que a Igreja constitui uma realidade e uma experiência que não se esgota na escolha de um Papa para a orientar. É convicção da Igreja que é o Espírito Santo que a conduz. E esta convicção fundamenta um adágio antigo segundo o qual a Igreja é sempre reformável, está em constante processo de evolução, numa tentativa permanente de se aproximar mais da vontade de Jesus Cristo e da experiência fundacional do grupo de discípulos e de discípulas que ele reuniu à sua volta.
Como tal, e, apesar de saber que corro o risco de ser "politicamente incorrecta", diria que, mais importante do que saber quem será o próximo Papa, é saber o que será a Igreja no futuro. Que Igreja para os nossos filhos? E, em função dela, que Papa para os próximos tempos?
Uma Igreja mais humana a Igreja para as futuras gerações deveria ser uma Igreja cuja opção radical pelos mais pobres fosse inquestionável e óbvia, antes de mais, para os próprios excluídos, mas também para os poderosos deste mundo. Esta humanidade da Igreja deveria ser acompanhada de uma atitude de escuta do mundo. Não ficaria mal à Igreja não se colocar tanto na posição de mestra, como na atitude de companheira de caminho de um mundo cuja história continua em aberto. Uma Igreja mais humana implicaria, então, da parte da sua hierarquia e do Papa, a perda do medo de enfrentar e de fazer experiência da existência quotidiana de todos os homens e mulheres deste mundo: o amor, a sexualidade, a paternidade e a maternidade, o trabalho, a intervenção sócio-política, mas também as perplexidades, as angústias, as incertezas, que fazem do ser humano aquilo que o define como simultaneamente próximo de Deus e frágil como o barro. Enquanto a orientação pastoral da Igreja estiver entregue exclusiva ou preponderantemente a pessoas que não fazem esta experiência comum a todos os seres mortais, a Igreja corre o risco de se tornar irrelevante, porque completamente alheia à realidade humana.
A Igreja das discípulas e dos discípulos de Jesus a Igreja para as futuras gerações deveria ser uma Igreja menos centrada em Roma, que abandonasse decididamente uma concepção piramidal - com o Papa no vértice, seguido pelos bispos, estes, pelos padres, e, por sua vez, estes últimos, pelos diáconos - para se converter à concepção de Igreja presente no Concílio Vaticano II - uma Igreja cujos membros são todos discípulos de Jesus, com funções diversas, mas com igual dignidade e possibilidade de intervenção. Seria necessário prosseguir corajosamente esta linha de pensamento, em particular, reconhecendo a todas as mulheres e a todos os homens cristãos um papel activo na determinação das linhas de intervenção sócio-pastoral da Igreja, portanto, o direito a participar nas decisões tomadas no interior da comunidade, o que deveria levar à valorização e revitalização das estruturas de participação já existentes, bem como à possibilidade de criação de novas estruturas, se necessário. A participação de todos nas decisões que têm implicações para todos deveria dar lugar a uma reflexão sobre a possibilidade de equacionar determinados cargos e funções de uma forma não vitalícia, mais ágil, mais colegial, mais democrática.
Nota final continuo a alimentar o sonho de que os nossos filhos vejam uma Igreja na qual o ministério ordenado, em todos seus graus, seja partilhado igualmente por homens e mulheres.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

"E se fosse o Dalai Lama?"
Esther Mucznik
(investigadora em assuntos judaicos )
Público, 15.4.2005

Pluralismo não significa relativismo. A presença livre, pública e aberta de vários cultos não apaga a realidade evidente da presença dominante de uma religião, neste caso a católica. A separação entre Estado e religião não nega esta realidade, e muito menos a cultura religiosa dominante
Será permitido a um representante de um Estado laico chamar "Sua Santidade" ao Papa João Paulo II, sem ofender a neutralidade religiosa do Estado? Ou, na mesma ordem de ideias, não constituem as bandeiras a meia haste e os dias de luto nacional pelo seu falecimento um atentado à laicidade, como foram qualificados por alguns sectores, em países como a França, Espanha e, mais timidamente, em Portugal? O "Verde" Christophe Girard, por exemplo, adjunto do "maire" de Paris, afirmou-se "perturbado" pela "utilização do símbolo nacional", abrindo assim a porta ao "aguçar dos apetites comunitários", no que foi apoiado pelo senador socialista Yves Contassot, apelando às autoridades a porem em prática uma "laicidade absolutamente sem sombra, sem meias-tintas". Também a TVE pública foi criticada por ter dado uma "cobertura excessiva" ao acontecimento, infringindo o artigo 16 da sua Constituição, que afirma o carácter laico do Estado espanhol. Curiosamente, constatamos que estas questões são levantadas sobretudo em países de população maioritariamente católica, em particular pela "filha mais velha" da Igreja, a França. Como se sabe foi também a França o motor da guerra contra a introdução da referência à "herança cristã" na Constituição europeia.Estes episódios não passariam de meros "faits divers" se não fossem reveladores de um mal-estar em relação à religião. A realidade é que a Europa, sobretudo a Europa Ocidental de cultura religiosa católica, convive mal com a religião, confunde as fronteiras da laicidade, mistura cultura religiosa dominante e religião oficial.Porque, o que significa, na boca dos seus defensores, uma "laicidade absolutamente sem sombra, nem meias-tintas"? Significa, em primeiro lugar, a erradicação total e absoluta, a "purificação", diria eu, de todos os actos e edifícios públicos e, já agora, da linguagem também, de toda e qualquer referência de carácter religioso. Mas, mais do que isso, a laicidade "sem meias tintas", propõe-se ignorar o fenómeno religioso, em qualquer das suas expressões, impedi-lo de se exprimir publicamente, encerrá-lo na esfera privada dos cidadãos. No limite, o Estado teria de banir os feriados religiosos cristãos, e obrigar os eleitos a praticar a auto-censura da sua linguagem pública, banindo por exemplo, o "se Deus quiser"... Ou seja tapar com o manto branco da neutralidade asséptica, qualquer indício de cultura religiosa. Ou retirá-la da vida, musealizando-a... Em relação ao falecimento do Papa, por exemplo, noticiá-la como mais uma notícia que apenas diz respeito ao foro privado dos católicos. Acontece, porém, que os católicos são 90 por cento desses países e, mais importante do que isso, a cultura religiosa católica e cristã é dominante, é o fundamento da sua história, das suas tradições, costumes e valores, do essencial da sua identidade. Negar esta realidade é destruir uma das principais bases da coesão social, um dos principais elementos de comunhão de origem, clamorosamente manifestada em Roma nos milhões de pessoas que aí acorreram ou que assistiram pela televisão à agonia do Papa.Por detrás desta crispação laica está no fundo a negação da religião, está a velha convicção que data do século XIX europeu, que para libertar as consciências era preciso recalcar a religião: a razão contra a fé. A primeira metade do século XX pareceu confirmar esta ideia. Exceptuando os Estados Unidos, a prática religiosa recuou em todo o mundo ocidental, as igrejas esvaziaram-se, as crenças e instituições religiosas desempenhavam um papel cada vez menor e marginal. Na cena pública, a ideologia tomou o lugar da religião. Governos, povos e movimentos sociais definiam-se em função das ideologias laicas: comunismo, liberalismo, fascismo...Mas no último quartel do século XX, a marcha em direcção à secularização inverteu-se. A religião ressurgiu em força e contrariamente às previsões, os seus adeptos não se encontram apenas nas pessoas de idade e entre os mais pobres, mas em todas as idades, sobretudo em jovens instruídos e com profissões de sucesso. A tendência inverteu-se: os ateus e os anti-clericais puros e duros encontram-se hoje nas gerações mais velhas, na geração das ideologias. Na Europa de Leste, a religião e a Igreja Católica foram os símbolos da resistência nacional e de luta pela liberdade; na Europa Ocidental, pelo contrário, religião e liberdade estiveram frequentemente em campos opostos. A laicidade, no ocidente europeu, nasce assim do conflito. Em muitas consciências permanece ainda a memória da ruptura violenta entre Estado e religião.Mas esta realidade não pode obscurecer duas questões essenciais:Em primeiro lugar, a laicidade não é uma doutrina (mais uma) dogmática e agressiva, mas sim a expressão de uma liberdade essencial, de um direito do homem e do cidadão. Não representa uma vingança histórica contra a Igreja Católica, mas sim o reconhecimento do pluralismo religioso e do direito inalienável individual e colectivo ao exercício livre e aberto da diferença religiosa. Não conduz o Estado a ignorar o fenómeno religioso, mas pelo contrário a reconhecer a sua função social permitindo e ajudando, não apenas um único culto mas todos, a cumprir essa função. Em segundo lugar, pluralismo não significa relativismo. A presença livre, pública e aberta de vários cultos não apaga a realidade evidente da presença dominante de uma religião, neste caso a católica. A separação entre estado e religião não nega esta realidade, e muito menos a cultura religiosa dominante. Porque uma religião representa muito mais do que um rito e uma prática ou até do que uma fé. Representa uma cultura no seu sentido mais lato, de costumes e tradições, mitos e memória, ética e valores, língua e linguagem, esquema mental e pensamento... em relação íntima com a história, a geografia e até o clima. Voltando ao princípio: não sendo católica, não me choca, não me incomoda que um estado laico, como o português, celebre luto nacional pelo chefe espiritual da Igreja Católica, neste caso o Papa João Paulo II. Não só pela sua estatura humana e espiritual, não só pela sua imensa obra de reconciliação entre as religiões, mas também porque reconheço que a cultura religiosa dominante em Portugal é a católica, é ela que tece as malhas do tecido social; e que a laicidade não consiste em fazer de conta que não é assim, como o querem fazer crer os argumentos do tipo "Se fosse o Dalai Lama...", mas em exigir o respeito escrupuloso pela independência religiosa do Estado de direito, assim como da liberdade de expressão e organização pública e privada das outras confissões religiosas.Quanto à expressão de Sua Santidade, lembro a todos os puristas que quando pronunciarem a palavra "Rabi" se estão a referir ao "meu" mestre...

quinta-feira, 24 de março de 2005

Vibrant Cities Find One Thing Missing: Children
By TIMOTHY EGAN
The New York Times, March 24, 2005

PORTLAND, Ore. - The Pearl District in the heart of this perpetually self-improving city seems to have everything in new urban design and comfort, from the Whole Foods store where fresh-buffed bell peppers are displayed like runway models to the converted lofts that face sidewalk gardens.
Everything except children.
Crime is down. New homes and businesses are sprouting everywhere. But in what may be Portland's trendiest and fastest-growing neighborhood, the number of school-age children grew by only three between the census counts in 1990 and 2000, according to demographers at Portland State University.
"The neighborhood would love to have more kids, that's probably the top of our wish list," said Joan Pendergast of the Pearl Neighborhood Association. "We don't want to be a one-dimensional place."
It is a problem unlike the urban woes of cities like Detroit and Baltimore, where families have fled decaying neighborhoods, business areas and schools. Portland is one of the nation's top draws for the kind of educated, self-starting urbanites that midsize cities are competing to attract. But as these cities are remodeled to match the tastes of people living well in neighborhoods that were nearly abandoned a generation ago, they are struggling to hold on to enough children to keep schools running and parks alive with young voices.
San Francisco, where the median house price is now about $700,000, had the lowest percentage of people under 18 of any large city in the nation, 14.5 percent, compared with 25.7 percent nationwide, the 2000 census reported. Seattle, where there are more dogs than children, was a close second. Boston, Honolulu, Portland, Miami, Denver, Minneapolis, Austin and Atlanta, all considered, healthy, vibrant urban areas, were not far behind. The problem is not just that American women are having fewer children, reflected in the lowest birth rate ever recorded in the country.
Officials say that the very things that attract people who revitalize a city - dense vertical housing, fashionable restaurants and shops and mass transit that makes a car unnecessary - are driving out children by making the neighborhoods too expensive for young families.
Other cities have tried and failed to curb family flight. In Portland, the new mayor, Tom Potter, says demography does not have to be destiny. He has dedicated his term to trying to keep children in the city.
Every child a city loses, on average, can mean a loss of about $5,000 for the school district, officials say. Children also create a constituency for parks, trails and public safety improvements, Mr. Potter said, and their parents tend to favor upgrading those amenities through higher taxes. He has been bringing children in to speak to the City Council and has pushed for incentives for affordable housing with enough bedrooms to accommodate bigger families.
A former police chief who helped pioneer community patrolling, Mayor Potter has 14 grandchildren and says a city's health should be measured by its youngest citizens. "We can't let Portland become a retirement city or a city without neighborhood schools," he said.
New York and Los Angeles, because of their large immigrant populations, have maintained their base of children, but demographers, pointing to falling birth rates among Latinos and other ethnic groups, say the nation's biggest cities may soon follow the others.
In Portland, the trends are not in Mayor Potter's favor. From 1990 to 2003 the city added more than 90,000 people, growing to an estimated 529,121 residents, but Portland is now educating the fewest students in more than 80 years.
The problem is not that children are leaving for private schools, officials said. It is that new people attracted to the city tend to have higher incomes, having already raised a family; are retiring; or are single and unlikely to have children.
After interviewing 300 parents who had left the city, researchers at Portland State found that high housing costs and a desire for space were the top reasons.
Tina Ray lived in Portland for 12 years before moving to Gresham, where her 9-year-old daughter attends school. Her family left for a bigger house and more space, she said. "It's kid friendly, with a great sense of community, and lots of sports leagues," she said.
Many Portland families are relocating to the newest edge suburbs, where housing prices are cheapest, including Clark County across the Columbia River in Washington, Portland State demographers say.
After a drop of 10,000 students in the last decade, Portland officials called in March for the closing of six schools, prompting cries of grief from three generations of adults who say that nothing takes the heart out of a neighborhood like a shuttered school.
The pool of school-age children is shrinking so fast that Portland will have to close the equivalent of three or four elementary schools a year over the next decade, according to school district projections.
"I don't think we're going to become a nearly childless city like San Francisco, but the age structure is really changing," said Barry Edmonston, an urban studies professor at Portland State, who does demographic projections for the school district. "People are not turning over the houses like they used to. They're aging in place, at the same time that prices are really going up, making it hard for young families to move into the city."
Nationally, the birthrate has been dropping while the overall population is aging as life expectancy increases. The problem is not just in cities. New figures released this month showed North Dakota losing more children than any other state.
Scottsdale, Ariz., a fast-growing Phoenix suburb, lost 571 students last year. San Jose closed three schools last year and expects to close three more soon.
Between 2003 and 2004, only six states had an increase in their elementary school population, the census bureau reported in March.
In that sense, the United States is following Europe and the rest of the industrial world, where birthrates now rarely exceed the rate needed to replace the population.
"If you took immigrants out of the equation, the United States would be like the rest of Europe," said Phillip Longman, a senior fellow at the New America Foundation, a public policy research organization in Washington. He is the author of "The Empty Cradle: How Falling Birth Rates Threaten World Prosperity and What To Do About It."
Mr. Longman said a decline in children not only takes away "human capital" needed to sustain an aging population, but "having fewer children really diminishes the quality of life in a city."
Most city leaders seem to agree. Even in San Francisco, where officials are preparing for another round of school closings amid a projected decline of 4,000 students in the next five years, city officials are aggressively marketing the city and its schools to young families.
But what they cannot do, especially after the failure last year of a ballot measure sponsored by the Chamber of Commerce to encourage affordable housing, is bring housing prices down.
"It's a real challenge trying to raise a kid in San Francisco," said Jim Armstrong, a father of two who is active in Little League in the city and rents a home. "It takes a degree of fortitude for a parent to stay with the city."
Other cities that have tried to reverse the family outflow have had mixed success. As mayor of Seattle for 12 years, until 1990, Charles Royer started an initiative called KidsPlace, which has been widely copied by other cities. It included marketing the city's neighborhoods to young families, building a small mix of affordable housing, and zoning and policing changes to make urban parks more child-friendly.
Mr. Royer said he was ridiculed for signs placed around town proclaiming "Seattle is a KidsPlace" and took criticism from social service agencies who thought bringing in more families would only place more demands on the limited money they had. Mr. Royer said he was bucking historic changes, and Seattle now has some of the nation's highest-priced real estate and its lowest percentage of children.
"I said things like, 'We don't want to be like San Francisco,' but in the end, I don't think we were terribly effective at stemming that tide," Mr. Royer said. "It's not so much a social problem as it is a demographic and financial problem."
Here in Portland, the city is bemoaning the demographic cycle as it unfolds before their eyes. On the day of the announcement to close Kenton Elementary School, which has anchored a north Portland neighborhood for 91 years, some parents and residents reacted as if there had been a death in the family.
"I feel heartbroken," said Mary Krogh, who had planned to enroll her 4-year-old son, Chase, in the school. "It's just a terrible loss."
The school and a tightknit community were among the things that attracted Ms. Krogh and her husband to the neighborhood seven years ago, she said.
But now the school will be shuttered, and improvements from Portland's beloved light rail line have contributed to rising real estate prices, defeating the broad goals of the mayor's effort to bring and keep young families in the city.
"Portland is a great city that attracts a lot of educated people," she said. "But the real estate is becoming outrageously expensive. And then you get wealthy singles and wealthy retirees. What's missing are kids. And that feels really sterile to me."

sexta-feira, 11 de março de 2005

quinta-feira, 3 de março de 2005

Majority of Europeans Believe in God despite Declining Church Membership
Christianity Today, March 3 , 2005, 20:55 (GMT)

"According to a recent survey conducted on behalf of Reader's Digest Germany, it has been stated that seven out of ten Europeans believe in God. However, it has been revealed that churches are losing their influence and faith is merely regarded as a matter of an individual. From November to January, 8,600 people were interviewed across 14 European countries. 97 percent of those interviewed in Poland said they believe in God. Portugal came with 90 percent, and Russia followed with 87 percent. The Czech Republic came in lowest with 37 percent, along with Netherlands (51) and Belgium (58). However, the fact that an individual believes in God does not mean that they believe in life after death. Over half (53) of all Europeans believe that physical death is not the end. 43 percent say that religion is necessary to distinguish right from wrong. The Czech Republic (27), the Netherlands (25) and France (24) came in lowest to this conviction whilst countries such as Poland (86), Russia (78) and Switzerland (54) revealed strong views. When asked if religion is a positive force in the world, 79 percent agreed in Portugal, 78 in Poland, and 72 in Spain. Belgium (39), Russia (36) and the Netherlands (34) answered that they were not that sure. However, believing in God does not necessarily mean that Germans regard Him as a personal being. 83 percent of all believers say God is present in nature, 75 percent regard Him as their creator and 70 percent say God is an ever-present source in their life. 39 percent say religious faith gives a meaning to life. 45 percent says it gives a sense of protection. One percent said that faith is intimidating. 65 percent of all believers pray to connect with God, with two-thirds of their prayers being for "people who are important to me". Other prayer topics include peace and justice. A relatively small amount of prayers are concerned with "my sins and my salvation" (13) or "my work and my job" (11)."

domingo, 20 de fevereiro de 2005

Desigualdade de tratamento

Carta de um leitor do Público:
"Como cidadão português e como católico, gostaria de reflectir um pouco sobre a forma como o Governo de Santana Lopes e Paulo Portas e respectivos partidos trataram as mortes recentes das grandes figuras nacionais, Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria de Lourdes Pintasilgo face à atitude actual de luto nacional e de interrupção da campanha eleitoral após a morte da irmã Lúcia. Parece-me e a muitos outros portugueses- católicos e não católicos - que não houve uma igualdade de tratamento do Governo e dos respectivos partidos nele representados perante a morte destas três personalidades católicas, de dimensão nacional e internacional, com vidas dedicadas, embora com formas e expressões diferentes, aos mais altos valores espirituais.
Uma foi talvez a nossa maior poetisa de sempre, candidata ao Prémio Nobel da Literatura e uma cidadã a todos os títulos exemplar; a segunda foi uma mulher, integrada numa ordem religiosa, que dedicou a sua vida às mais elevadas causas e trouxe à política a marca do seu ideal cristão, chegando a ser a única primeira-ministra de Portugal; a irmã Lúcia foi um exemplo de vida abnegada e simples movida por uma enorme fé em fenómenos ocorridos em Fátima que nos merecem o maior respeito e nos interrogam o mais profundo da nossa alma como católicos, embora não sendo dogmas de fé.
Sabe-se que não houve luto nacional nem funerais de Estado aquando da morte das duas primeiras e esta disparidade de tratamento faz-nos pensar nos valores que nos orientam, na qualidade dos nossos políticos e no atraso civilizacional da nossa sociedade. Num país em que o nível de conhecimento geral é extremamente baixo, em que há um divórcio antigo e infelizmente sempre reforçado entre conhecimento e democracia, fazer este tipo de segregação só pode contribuir para cimentar um clima de hipocrisia e de obscurantismo que em definitivo já devia, há muito, ter sido banido.
A igualdade de tratamento nos três casos era no mínimo o que se deveria exigir dos poderes políticos de um país desenvolvido. Não termos sido capazes de o fazer só veio contribuir para manter o nosso baixo índice de cidadania e de liberdade de escolha, fragilizando a nossa democracia; democracia que afinalparece ter sido apenas "oferecida" generosamente a uma população com um baixíssimo grau de instrução e de literacia. Se à irmã Lúcia é prestado o tributo que, como figura nacional e internacional, de um certo âmbito naturalmente, lhe é devido, então que razões levaram a subvalorizar as outras duas personalidades?
A sociedade portuguesa só evoluirá quando, como diz José Gil, o direito à cultura e ao conhecimento chegar ao sentimento profundo da população; quando forem rejeitados os apelos à emoção primária e ao espectáculo e a este constante teatro da reverência dos nossos políticos."
17 de Fev. 2005
José Carlos Palha

sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

Maria de Lourdes (Pintasilgo)
Por EDUARDO LOURENÇO
Público, 28 de Janeiro de 2005

Há pouco mais de meio ano, num país submerso por uma maré futebolistica sem precedentes, e um fervor patriótico mediático raro, morria e saía da cena politica e cultural portuguesa, a antiga Primeira Ministra, Maria de Lurdes Pintasilgo. A sua morte não passou, nem podia ter passado despercebida. Mas o contexto passional e euforizante do Euro 2004, "privatizou", em excesso, um acontecimento que, em outras circunstâncias, teria conhecido um outro eco.
Neste momento, a sua terra natal, Abrantes, recorda-a e presta-lhe a homenagem que o seu passado de militante católica de sério e coerente empenhamento social, o seu papel como dinamizadora cultural, sem falar do carisma politico que lhe permitiu ser a primeira mulher portuguesa a ocupar o cargo de Primeiro Ministro, naturalmente reclamada e merece.
Maria de Lurdes foi durante grande parte da sua vida desde jovem, um dos rostos de Portugal no mundo. Já não era Poder, como tão tristemente se diz, quando nos deixou e embora o seu combate cívico e espiritual se inscrevesse num horizonte mais vasto do que o da Politica, o Poder, e mesmo as suas seduções, não lhe eram estranhas. Aceitou-o ou pretendeu-o como serviço, apaixonadamente, convicta de que assim podia contribuir para alterar ou, pelo menos, melhorar "a ordem das coisas". Vinda do antigo Regime, daquilo em que ele se reclamava da famosa doutrina social da Igreja, a militante tomou a sério essa utopia do antigo sistema, muitas vezes traída ou negada na prática sobretudo na versão virtualmente dela. Essa espécie de paradoxal gauchismo, nem sempre foi bem compreendido.
A sua condição de mulher ofuscava - quer antes, quer sobretudo depois do 25 de Abril - a classe social a que pertencia, na versão tradicional se não tradicionalista das suas práticas sociais e éticas. Quando aceitou, pela mão do general Eanes, o cargo de Primeiro Ministro, uma parte do seu eleitorado "natural" e não só ele bem lho fez sentir. E ainda mais quando, com grande risco politico, ela se candidatou ao lugar de Presidente da Republica.
Maria de Lurdes é uma figura complexa, a sua história fez parte integrante do nosso Portugal durante o ultimo meio século e da história do mundo que nos cercou. Estudando-a e não apenas lembrando-a como é justo, se verá como essa história, aparentemente dividida ao meio pela Revolução de Abril a que aderiu e de que foi mesmo figura emblemática, não é tão "maniqueista", como, em geral é vivida em termos de memória, seja ela politica ou cultural.
Não só os seus amigos e admiradores farão esse "dever de memória" como os seus adversários e, naturalmente, os nossos historiadores da contemporaniedade fará parte das complicadas relações entre a fraca tradição social do nosso catolicismo e as correntes politicas e culturais que, ao mesmo tempo, encarnam aspirações análogas fora da referência religiosa ou opondo-se a elas. A nossa curiosidade pelo passado - salvo a titulo mítico ou antes, mitificado - é notoriamente escassa. Começa a cobrar algum relevo, sobretudo em relação aos contemporâneos quando se interessa "pelas figuras" como fez Oliveira Martins para a "ínclita geração". Mas tudo isso é pouco comparado com a verdadeira paixão da historiografia inglesa ou francesa pelos seus ou alheios "homens ou mulheres ilustres". Maria de Lourdes foi no seu e nosso tempo português, uma mulher ilustre.
A discrição com que o seu desaparecimento, há apenas sete meses, foi vivida não está à altura do que ela é e representa. Descrição oficial e discrição - essa sim, dolorosa - da instância institucional e do coração a que estava ligada pela sua educação, pela sua fé e pelo seu entusiasmo. Excessivo?

domingo, 23 de janeiro de 2005

Propor a esperança, abrir portas a um futuro melhor
Comunicado da Comissão Nacional Justiça e Paz


1. Um mês antes das eleições legislativas de 20 de Fevereiro vimos publicamente reafirmar a importância do próximo acto eleitoral, reforçar a exigência de qualidade no debate partidário, sublinhar a necessária participação de todos e dar razões da nossa esperança quanto ao futuro do país. Dirigimo-nos, sobretudo, aos nossos irmãos e irmãs na fé, mas também a todos os cidadãos e cidadãs. Não com uma palavra de quem sabe mais, ou tem soluções definitivas para o nosso viver em comum. Antes, animados pelo desejo de contribuirmos para superar o ambiente de desânimo que atravessa a nossa sociedade. Procuramos, assim, responder ao convite recentemente formulado pelos Bispos portugueses: ?Empenhar-se na construção da comunidade nacional é, para os cristãos, uma forma de exprimirem a sua fidelidade cristã?.

2. As eleições legislativas são um momento particularmente importante da vida democrática. Todos temos o dever de as encarar seriamente. Sem falsos messianismos ? esperando que alguém se proponha resolver todos os nossos problemas ?, nem fácil cinismo ? argumentando que ?é tudo a mesma coisa?. Ambas as posições são modos subtis de fugirmos à nossa responsabilidade individual e de recusarmos tomar consciência das relações entre o modo como vivemos, as escolhas que fazemos no nosso dia-a-dia e as prioridades que queremos ver inscritas na condução dos assuntos públicos. São, numa palavra, formas de não aceitar o convite do Papa João Paulo II quando escreve: ?Todos, de alguma forma, estão implicados no compromisso pelo bem comum, na busca constante do bem dos outros como se fosse o próprio?.

3. No actual contexto português, o próximo acto eleitoral ?não pode limitar-se a resolver uma crise política, mas deve enfrentar, com serenidade e lucidez, os problemas de fundo do país, apresentando para eles soluções credíveis e viáveis, a serem escolhidas pelo voto dos portugueses?, afirmam os Bispos portugueses. Para que tal aconteça cabe decisiva responsabilidade aos dirigentes partidários, a todos os candidatos e aos meios de comunicação social. Sem apresentação clarificadora do que consideram ser os principais problemas e as maiores potencialidades do país, sem propostas para enfrentarem uns e reforçarem outras, a campanha eleitoral pode reduzir-se a simples habilidades de comunicação, determinando maior afastamento dos cidadãos em relação aos seus eleitos.
Mas, tal como recordam os Bispos portugueses, cabe também, a cada um de nós, tudo fazer para ?forçar os partidos a porem o acento da sua intervenção na qualidade das propostas que nos fazem, na competência e dignidade das pessoas e não apenas nos discursos que o ambiente de campanha habitualmente inflama?.

4. Por todas estas razões, a participação de todos e de cada um é necessária. Não há verdadeiro amor cristão que se possa alhear das escolhas que determinam boa parte do nosso viver em comum. Ninguém se respeita a si próprio se nega o seu labor diário por uma sociedade mais justa e mais fraterna, ao não participar nos momentos em que se escolhem os programas e as pessoas que vão presidir, nos próximos anos, à gestão da coisa pública.


?Para os cristãos, o critério de avaliação? das diferentes propostas políticas ?é o Evangelho e a doutrina social da Igreja?. Critério que não anula o pluralismo das opções políticas dos cristãos, conforme repetidamente o Magistério da Igreja vem sublinhando, mas que exige a cada um o indispensável discernimento pessoal. Escolher, em política, confronta-nos com as questões que formulamos perante a realidade, com o que nela nos inquieta e com o que desejamos, para nós e para os outros, mesmo quando não sabemos como alcançá-lo. Como lembram os Bispos: ?Não esqueçamos que só tem direito de criticar e denunciar quem se empenha generosamente na busca de soluções?.

5. Mas, se há algum critério para aferir da participação política dos cristãos, ele é certamente o da capacidade de anunciar a esperança. O momento que vivemos precisa das vozes da esperança, precisa dos gestos que se pautam pelo fazer bem, precisa de corações que acarinhem sonhos de dias melhores e que os partilhem com os demais, precisa de muito investimento nas pessoas e de muita dedicação ao bem comum, precisa da cooperação como principal trampolim para a melhoria da nossa vida colectiva, precisa de cada uma e de cada um. Não há cidadãos dispensáveis, dentro e fora dos partidos políticos, quando se trata de criar uma comunidade nacional solidária, desenvolvida, apta a enfrentar com esperança os tão incertos dias que se avizinham.

6. Também nós somos testemunhas de que, apesar de um clima de pessimismo que parece querer instalar-se, encontramos pessoas disponíveis, interessadas em melhorar as condições de vida dos cidadãos, o modo de gerir as suas empresas e de aplicar os seus rendimentos, de aperfeiçoar as relações de trabalho e as relações interpessoais. Em todos os ambientes encontramos pessoas construtoras permanentes e persistentes do bem comum. Multiplicam-se os gestos concretos de solidariedade e de compromisso com os mais pobres, de envolvimento na inovação, em muitos locais de trabalho e de vida, de melhoria permanente das condições da existência e de promoção da dignidade humana, no funcionamento das instituições públicas e privadas.
Precisamos, é certo, de criar dispositivos de valorização e de incentivo público a todos e cada um dos portugueses e portuguesas que assim agem. Dispositivos que podem ser muito diversos, mas que se deveriam nortear pela partilha do que de mais positivo se faz e se alcança, pela valorização do trabalho perseverante que tantos desenvolvem em prol de uma sociedade mais justa e fraterna, pela comunicação da esperança que tantos desencadeiam em tantos rostos angustiados e esquecidos.

7. A nossa esperança funda-se no amor infinito de Deus que se dirige a cada um dos seres humanos, mulheres e homens, definitivamente irmanados pelo nascimento de Jesus, Deus encarnado, feito um de nós. ?Com a sua morte e ressurreição, Cristo nos redimiu e resgatou ?por um grande preço?, alcançando a salvação para todos?, escreve o Papa na sua última mensagem do Dia Mundial da Paz. A nossa esperança transmite-se nestes gestos fraternos e de procura incessante e difícil do bem comum. A nossa esperança alimenta-se na alegria daqueles que eram excluídos e encontraram abrigo, daqueles que estavam perdidos e encontraram um rumo para as suas vidas, daqueles que apenas viviam cada hora que passa e descobriram novos sentidos e outros cidadãos com quem constroem uma vida melhor, para si e para aqueles que lhes estão próximos. A nossa esperança vem de Deus e vive-se com os irmãos, em comunidade de amor.

Mais do que nunca, neste próximo mês, os cristãos deste país são chamados a serem testemunhas da esperança que abre as portas de um futuro melhor para todos.
Lisboa, 20 de Janeiro de 2005

sábado, 1 de janeiro de 2005

The Ends of the World as We Know Them
By JARED DIAMOND
NYT, 1 Jan.2005

"(...) In this New Year, we Americans have our own painful reappraisals to face. Historically, we viewed the United States as a land of unlimited plenty, and so we practiced unrestrained consumerism, but that's no longer viable in a world of finite resources. We can't continue to deplete our own resources as well as those of much of the rest of the world.
Historically, oceans protected us from external threats; we stepped back from our isolationism only temporarily during the crises of two world wars. Now, technology and global interconnectedness have robbed us of our protection. In recent years, we have responded to foreign threats largely by seeking short-term military solutions at the last minute.
But how long can we keep this up? Though we are the richest nation on earth, there's simply no way we can afford (or muster the troops) to intervene in the dozens of countries where emerging threats lurk - particularly when each intervention these days can cost more than $100 billion and require more than 100,000 troops.
A genuine reappraisal would require us to recognize that it will be far less expensive and far more effective to address the underlying problems of public health, population and environment that ultimately cause threats to us to emerge in poor countries. In the past, we have regarded foreign aid as either charity or as buying support; now, it's an act of self-interest to preserve our own economy and protect American lives.
Do we have cause for hope? Many of my friends are pessimistic when they contemplate the world's growing population and human demands colliding with shrinking resources. But I draw hope from the knowledge that humanity's biggest problems today are ones entirely of our own making. Asteroids hurtling at us beyond our control don't figure high on our list of imminent dangers. To save ourselves, we don't need new technology: we just need the political will to face up to our problems of population and the environment.
I also draw hope from a unique advantage that we enjoy. Unlike any previous society in history, our global society today is the first with the opportunity to learn from the mistakes of societies remote from us in space and in time. When the Maya and Mangarevans were cutting down their trees, there were no historians or archaeologists, no newspapers or television, to warn them of the consequences of their actions. We, on the other hand, have a detailed chronicle of human successes and failures at our disposal. Will we choose to use it?"

Jared Diamond (who won the 1998 Pulitzer Prize in general nonfiction for "Guns, Germs and Steel: The Fates of Human Societies," is the author of the forthcoming "Collapse: How Societies Choose or Fail to Succeed.")
Rising to the New Year
Editorial of The New York Times, 1 Jan. 2005

"(...)The enormous momentum of life as we know it is not poised to turn on a dime just so we can start out on Jan. 1 refreshed with possibilities. You can feel the gravity of the past pulling at your back the way real gravity pulls at your shoes.

But deep within us is the habit of looking forward, a habit as powerful as the belief that our lives are somehow external to us and that we can pick them up and rearrange them at will. We live profoundly in time, painfully aware of the way the new years stack up one by one.

We also live immersed in intention, trying to make the most of what time has to offer. There are days when the likelihood of real renewal seems almost impossible, when our lives seem utterly conditioned by the past. And then there are those days when renewal seems certain, merely a matter of making the right choices, consciously. It would be a coincidence if one of those days of rebirth happened to fall on the first of the year.

It's easy to dismiss the feeling of renewed intentions aroused by the new year, easy to think of resolutions as party favors of a sort, nothing more than wistful daydreams of being thinner, healthier, richer or happier than we are, forgotten as soon as made. But just ask anyone who's ever made a real change for the better. There's nothing wistful about it. It isn't a daydream. People who have fulfilled a latent possibility in themselves can sense the possibilities lying hidden in so many human lives. It doesn't take a revelation or a flash of light from heaven. It takes getting out of the habit of standing apart from your life, watching yourself as if you were two people instead of just one.

Most animals do not make resolutions, as far as we know. The dog isn't planning to do less dinner-table begging this year, nor is the cat going to try to take fewer catnaps. Things are as they are. But a human without hope, a human who has stopped trying to reform himself or excel herself, has a very hard time being fully human. (...)".
In death, imperialism lives on

For the western media, it is clear that a tourist's tragedy is moreimportant than that of the 'locals'

Jeremy Seabrook
Friday December 31, 2004, The Guardian

The number of fishing boats from Sumatra, Sri Lanka and Tamil Nadu at seawhen the Boxing Day tsunami hit will never be known. There is scarcely anypopulation tally of the crowded coasts. Nameless people are consigned tounmarked graves; in mosques and temples, makeshift mortuaries, people pullaside a cloth, a piece of sacking, to see if those they loved lie beneath.As in all natural disasters, the victims are overwhelmingly the poorest. This time there was something different. The tsunami struck resorts wherewesterners were on holiday. For the western media, it was clear that theirlives have a different order of importance from those that have died inthousands, but have no known biography, and, apparently, no intelligibletongue in which to express their feelings. This is not to diminish thetrauma of loss of life, whether of tourist or fisherman. But when wedistinguish between "locals" who have died and westerners, "locals" all tooeasily becomes a euphemism for what were once referred to as natives.Whatever tourism's merits, it risks reinforcing the imperial sensibility. For this sensibility has already been reawakened by all the human-made,preventable catastrophes. The ruins of Galle and Bandar Aceh called forthimages of Falluja, Mosul and Gaza. Imperial powers, it seems, anticipatethe destructive capacity of nature. A report on ITN news made thisexplicit, by referring to "nature's shock and awe". But while the tsunamideath toll rises in anonymous thousands, in Iraq disdainful Americanauthorities don't do body counts. One of the most poignant sights of the past few days was that of westernersovercome with gratitude that they had been helped by the grace and mercy ofthose who had lost everything, but still regarded them as guests. Whenthese same people appear in the west, they become the interloper, theunwanted migrant, the asylum seeker, who should go back to where theybelong. A globalisation that permits the wealthy to pass effortlesslythrough borders confines the poor to eroded subsistence, overfished watersand an impoverishment that seems to have no end. People rarely say thatpoor countries are swamped by visitors, even though their money powerpre-empts the best produce, the clean water and amenities unknown to theindigenous population. In death, there should be no hierarchy. But even as Sri Lankans wandered innumb disbelief through the corpses, British TV viewers were being warnedthat scenes they were about to witness might distress them. Poor peoplehave no consoling elsewhere to which they can be repatriated. The annals ofthe poor remain short and simple, and can be effaced without inquiry as tohow they contrive an existence on these fragile coasts. What are the dailyvisitations of grief and loss in places where people earn less in a yearthan the price that privilege pays for a night's stay in a five-star hotel?Western governments, which can disburse so lavishly in the art of war,offer a few million as if it were exceptional largesse. Fortunately thepeople are wiser; and the spontaneous outpourings of humanity have been asunstoppable as the waves that broke on south Asia's coasts; donationsrapidly exceeded the amount offered by government. Selflessness andsacrifice, people working away at rubble with bare hands, suggest immediatehuman solidarities. But these are undermined by the structures of inequality. Promises solemnlymade at times of immediate sorrow are overtaken by other urgencies; moneydonated for the Orissa cyclone, for hurricane Mitch in Central America, thefloods in Bangladesh, the Bam earthquake - as for the reconstruction ofAfghanistan and Iraq - turns out to be a fraction of what is pledged. Such events remind us of the sameness of our human destiny, the fragilityof our existence. They place in perspective the meaning of security. Lifeis always at the mercy of nature - whether from such overwhelming events asthis, or the natural processes that exempt no one from paying back to earththe life it gave us. Yet we inhabit systems of social and economicinjustice that exacerbate the insecurity of the poor, while the west isprepared to lay waste distant towns and cities in the name of a securitythat, in the end, eludes us all. Assertions of our common humanity occur only at times of great loss. Toretrieve and hold on to it at all other times - that would be something ofworth to salvage from these scenes of desolation. ·
(Jeremy Seabrook is the author of Consuming Cultures: Globablisation andLocal Life)

domingo, 26 de dezembro de 2004

[Natal]

Que palavras poderei buscar para vos aquentar o coração? Um santo, no sermão desta festa, bradava: ? Oh! que nenhumas palavras acho com que possa falar da Palavra Eterna e Verbo Encarnado! Assim eu também não vos sei declarar o que havemos de sentir deste suavíssimo Nascimento. Porém, quero-vos pôr uma comparação. Se houvesse muitos anos que o sol não nasceu nem apareceu nas terras, e estivéssemos todos não somente às escuras e em espessas trevas mas também carregados de ferro, tremendo com frio e em suma tristeza, e, estando assim, subitamente nascesse o sol mui resplandecente, alumiando-nos, aquentando-nos, quebrando nossas cadeias e prisões, que vos parece quão grande alegria e consolação seria a nossa?

Pois, irmãos, tais éramos, espiritualmente, antes que nascesse o sol que hoje nasceu e veio alumiar as trevas e cegueira de nossa alma; veio aquentar a frieza de nosso coração, o qual estava feito um regelo no amor de Deus e das cousas eternas; veio quebrar as cadeias de nossos pecados. (...)

As maravilhas desta clara noite excedem todas quantas viram os antigos Servos de Deus: porque, como diz um Santo, os nossos padres antigos muitas e grandes maravilhas de Deus viram. O Céu lhes orvalhou manjar de Anjos para seu mantimento. O Mar Roxo se lhes abriu em carreiras para que pudessem passar a pé enxuto. O rio Jordão se retirou para a fonte donde nascia para lhes dar livre passagem. Os muros fortíssimos da cidade de Jericó caíram subitamente a som de trombeta. O Sol se deteve no Céu por um grande espaço sem se mover, para que o povo de Deus, que pelejava contra seus inimigos, acabasse de os destruir. Estas e outras maravilhas viram: mas não lhes foi dado ver a verdadeira Luz Eterna, coberta com a nuvenzinha de carne de menino e posta em um presépio por amor de nós.

Bartolomeu dos Mártires
[extracto do Catecismo distribuído no sínodo bracarense de Novembro de 1564. in Antologia de Espirituais Portugueses. Lisboa: Imprensa Nacional ? Casa da Moeda, 1994]
=brigado ao Eduardo Jorge, pela descoberta.

terça-feira, 21 de dezembro de 2004

A experiência de Taizé

Luís Sousa Lobo
Engenheiro. Ex-reitor da Universidade Nova de Lisboa

OPapa João Paulo II, quando visitou Taizé, deixou uma imagem «Passa-se por Taizé como por uma fonte. O viajante pára, mata a sede e prossegue a viagem». Mas o que há afinal de especial nessa comunidade, localizada numa pequeníssima aldeia da Borgonha, que desafia a lógica urbana e o ritmo trepidante da civilização moderna? Porque é que tantos jovens, ano após ano, década após década, geração após geração, continuam aos milhares a acorrer a Taizé, para uma semana de reflexão e vida em comum? E porque virão a Lisboa dentro de dias 40 mil jovens de toda a Europa, respondendo ao apelo da Comunidade de Taizé, para o Encontro Europeu?
Não é fácil responder em poucas palavras, mas vou procurar dar a minha explicação, de maneira sintética, recorrendo, por comodidade, a palavras-chave.
Acolhimento, sem proselitismo. Em Taizé há um sentido de acolhimento e de respeito pelos visitantes. Não há proselitismo; ninguém está a aproveitar para doutrinar. Pelo contrário, logo à chegada, são os visitantes que indicam o programa que querem escolher para marcar o ritmo dos seus dias em Taizé, que pode ir desde a participação em grupos de discussão, estudos bíblicos, encontros intercontinentais até ao retiro pessoal em silêncio. Neste caso podem pedir um acompanhamento de um irmão. Mas o programa é livre.
O único traço comum dos programas são os três momentos de oração em comum, de manhã, ao meio-dia e à noite. Mas também aí há, sobretudo, o apelo à reflexão pessoal - não há grandes homilias ou discursos apologéticos. Não faz parte da cultura de Taizé. O acolhimento em Taizé significa, sobretudo, um grande respeito por cada pessoa, pelo seu percurso de vida. Lançam-se pistas de reflexão, não se dão respostas, mas há uma grande disponibilidade para ajudar a encontrar respostas para cada um. É isto que observo sempre que visito Taizé e que acho o traço principal da sua cultura de acolhimento.
Sobriedade, bom gosto com simplicidade. Ao longo dos anos o espaço público em Taizé foi-se alargando e adaptando ao número crescente de visitantes. Hoje em dia, nas épocas altas (Páscoa e meses de Verão), os visitantes atingem os 6000 em cada semana, com chegada habitual ao domingo à tarde e partida no domingo seguinte pela manhã. Em Taizé, dentro e fora das casas, tudo é bonito e simples. Há uma harmonia que sabe bem. Na loja podem comprar-se lembranças de arte, de música, de peças de uso doméstico ou livros, em que o estilo simples de Taizé se reconhece em tudo. A comunidade não aceita doações nem heranças, e é com esta actividade que equilibra o orçamento.
Organização eficiente, mas quase invisível. Como é possível juntar 30 ou 40 mil jovens durante cinco dias numa cidade europeia sempre diferente, ou 6000 jovens com rotação semanal em Taizé, sem uma logística pesada e cara? O segredo é uma organização que se foi apurando ao longo dos anos, com a intermediação de voluntários, jovens que, em geral no final dos seus estudos, dão um tempo da sua vida para ajudar os outros através do acolhimento que se vive em Taizé. Além disso, entre cada revoada de visitantes, muitos jovens disponibilizam-se, enquadrados pelos referidos voluntários, para executarem as tarefas de apoio indispensáveis nas estruturas de alimentação, limpeza, apoio médico, etc. Esta capacidade de auto-organização fica em segundo plano, quase invisível, mas as condições de acolhimento e de apoio de todos ficam asseguradas. Tudo anda sobre rodas.
Ecumenismo prático, discreto. O sentido ecuménico é central nesta comunidade, pois constituiu o principal elemento motor para o fundador, o Irmão Roger, e o grupo que no final dos anos 40 se lhe juntou. Este ecumenismo surpreende os que põem ênfase nas diferenças entre as Igrejas cristãs. Os irmãos acabam por falar pouco de «ecumenismo», palavra talvez demasiado técnica, pondo o acento sobre a busca de caminhos de compreensão e de reconciliação nos locais onde cada um vive.
Os irmãos vêm de tradições cristãs diferentes, mas fazem os mesmos votos. Os visitantes pertencem também a tradições cristãs diferentes, ou a nenhuma, mas juntam-se com naturalidade na mesma liturgia, nas mesmas orações. Em Taizé fica óbvio que o que une as Igrejas cristãs é muitíssimo maior do que o que as divide. Ainda que o pouco que divide seja tantas vezes o que é «posto na lapela» como marca distintiva. Mas esse «clubismo» em Taizé quase desaparece. O estilo dos cânticos, a presença dos ícones, o apelo aos traços mais profundos da espiritualidade cristã constituem em Taizé uma plataforma em que todos os cristãos se sentem à-vontade - certamente com algum depuramento em relação às fórmulas a que estarão habituados. Mas essa é uma roupagem a que todos se adaptam sem dificuldades, e que acentua o sentido de universalidade e a esperança de mais paz para a Humanidade.
Sentido de Deus pelo silêncio interior. A busca de Deus ou do sentido da vida, em Taizé, é marcadamente pessoal, apesar de transparecer que a fé não é individualista, é para ser vivida com outros. Há, contudo, um grande respeito pelo outro, não havendo grandes sensacionalismos ou emoções públicas. Tudo se passa no silêncio e no coração de cada um. A liturgia e o lugar ajudam. Tudo simples e despojado. Cânticos simples e repetitivos, um pouco ao gosto das Igrejas orientais, que ajudam à reflexão interior, intercalados por períodos de silêncio longos, com durações impensáveis em qualquer das nossas celebrações - mas que é um elemento essencial no ritmo de Taizé. A procura de Deus e do sentido da vida faz-se no encontro de cada um consigo próprio, na reflexão e no silêncio, e nos encontros na partilha, na entreajuda, na descoberta de outras culturas, de outras vocações, de outras realidades. Com disponibilidade para ouvir, compreender, descobrir.
É talvez por tudo isto que, em muitas universidades nos EUA e diversos outros países, os jovens usam as «noites de oração» ao estilo de Taizé como a forma conveniente para trazer ao gosto pela vida interior os jovens que o desejem. A minha avaliação é que o espírito da Comunidade de Taizé vai muito para além da sua raiz ecuménica. Dá um exemplo da busca do sentido da vida, neste caso na perspectiva cristã, de uma forma em que o fanatismo não só não está presente como perde o sentido. A esperança no futuro e a paz encontraram em Taizé uma linguagem bastante universal.
Esta é uma contribuição inestimável no mundo de hoje. Entre os irmãos há ingleses e alemães, mas também indianos e coreanos. Há norte-americanos e canadianos, mas também dois portugueses. Estão lá presentes, a todo o tempo, os problemas do mundo. E a visão do mundo que Taizé transmite é uma visão solidária, de paz e de esperança.
Se a esperança é a marca da juventude, percebe-se porque é que tantos, sobretudo jovens, vão a Taizé «como se vai a uma fonte para matar a sede e prosseguir a caminhada».
Não sei se o meu retrato de Taizé ficou muito incompleto, esquemático ou redutor. O melhor mesmo, para quem não conheça, é experimentar. E a partir do próximo dia 28, durante cinco dias, Taizé está connosco em Lisboa - uma oportunidade rara.

In Diário de Notícias, 21.12.2004

sexta-feira, 17 de dezembro de 2004

...but so quickly

"Sometimes, there is God. But so quickly"
Blanche DuBois na peça de Tennessee Williams "A Streetcar Named Desire", da única vez que lhe parece acontecer uma coisa boa.
Cit por João Bénard da Costa, in Público, 17.12.2004

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

A iniciativa das tradições e Religiões unidas propõe:

O Manifesto da Unidade na Diversidade
? Ética e espiritualidade das tradições e religiões

de paz e de justiça

Paz, Igualdade, Solidariedade



PREÂMBULO

Este Manifesto[1] parte dos valores éticos e espirituais fundamentais e universais para expor, em doze pontos, uma visão de unidade na diversidade das tradições e religiões de paz e de justiça.

. A sua visão simples, coerente e concisa permite a qualquer pessoa de boa vontade, a ele aderir, seja ela agnóstica[2] ou crente.

? O Manifesto desenvolve a divisa e a máxima da Europa e inscreve-se directamente nos trabalhos de « Uma Alma para a Europa?ética e espiritualidade? »[3].

? As suas bases permitem construir uma eco-cidadania de harmonia, de não-violência e de responsabilidade universal para uma sociedade de solidariedade e de cooperação.

? Os pontos desenvolvidos pelo Manifesto são fundamentais na educação para uma cultura de paz e de não-violência tal como a propõe a Unesco, a Onu, e numerosas organizações do diálogo inter-religioso.

? Pode favorecer o diálogo inter-tradições e inter-religioso expressando um denominador comum a todas as tradições de paz e de justiça.

? A sua simplicidade pode ser útil como utensílio de comunicação mediática e pode ter um impacto significativo nos dirigentes religiosos, nas instituições e nos sistemas educativos.

? Pode favorecer a emergência de uma rede de dirigentes éticos e espirituais partilhando uma mesma perspectiva de unidade na diversisdade.

? Pode ser um paradigma a integrar na constituição de Estados de paz e de justiça.

? O reconhecimento dos seus princípios é também a condição sine qua non para que as religiões não sejam factores de enclausuramento identitários e finalmente de guerras.
O Manifesto da Unidade na Diversidade
das tradições e religiões de paz e de justiça


Nós, representantes de tradições et religiões aspirando à paz e à justiça [4], à harmonia e à não-violência, signatários do presente manifesto, reconhecemos :

1) A realidade de uma dimensão fundamental e universal da ética.

2) A realidade de uma dimensão fundamental e universal da espiritualidade.

3) A unidade na diversidade das tradições de paz e de justiça.

4) A diversidade e o pluralismo como uma riqueza.

5) Os fundamentos universais da ética e da espiritualidade como base de uma atitude respeitosa dos direitos e deveres do ser humano.

Reconhecemos também:

6) A necessidade de uma igualdade de direitos e de dignidade nas relações intertradicionais e religiosas.

7) A necessidade de um compromisso total com a sua tradição ou religião.

8) A necessidade de um diálogo intertradições ou inter-religioso profundo.

9) A necessidade da comunicação e da educação sobre o tema da unidade na diversidade.

10) A necessidade de uma cooperação intertradicional e religiosa em vez da competição de tradições e religiões.

11) A necessidade de promover um Estado garante da unidade na diversidade das tradições e religiões de paz e de justiça.

12) A utilidade de uma Rede Mundial de Dirigentes Tradicionais e Religiosos como lugar e instrumento desta cooperação e solidariedade numa perspectiva de unidade na diversidade.


Mais precisamente :

1) Reconhecemos como regra de ouro a realidade de uma dimensão fundamental e universal da ética.
Todas as tradições e religiões de paz e de justiça têm fundamentalmente uma mesma dimensão ética que se resume na regra de ouro que se enuncia : « Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti».[5]

2) Reconhecemos no Absoluto, Deus e/ou a compreensão do que eu sou, a realidade de uma dimensão fundamental e universal da espiritualidade.
Todas as tradições e religiões de paz e de justiça partilham também uma dimensão espiritual fundamental e universal, que se resume ao reconhecimento, à experiência e à compreensão de uma presença do Absoluto, de Deus ou do Ser supremo compreendido como fundamentalmente intemporal e omnipresente, transcendendo os nomes e as formas que lhe podem ser atribuídos. A dimensão universal da espiritualidade pode também resumir-se no adágio socrático : « conhece-te a ti mesmo».

3) Reconhecemos a unidade da experiência ética e espiritual na diversidade de expressão das tradições e religiões de paz e de justiça.
A dimensão universal da experiência ética e espiritual[6] é o espaço da unidade ou da convergência fundamental das tradições ou religiões de paz e de justiça. As expressões particulares desta unidade fundamental e universal são a diversidade destas tradições ou religiões. Esta diversidade de expressão corresponde a receptividades, mentalidades e sensibilidades variadas, dos diferentes seres humanos, na multiplicidade das suas matrizes sociolinguísticas.

4) Reconhecemos a diversidade e o pluralismo como uma riqueza.
A diversidade das formas e expressões particulares utilizadas pelas diferentes tradições e religiões de paz e de justiça[7] deve ser considerada, para além da simples atitude de tolerância, como uma riqueza da expressão dos poderes ilimitados do absoluto e do património ético e espiritual da humanidade.

5) Reconhecmos os fundamentos universais da ética e da espiritualidade como base de uma atitude respeitadora dos direitos e deveres dos seres humanos.
Os fundamentos da ética e da espiritualidade, universais e não confessionais, tais como os acima mencionados, são os fundamentos de uma atitude respeitadora dos direitos e deveres do ser humano[8] numa perspectiva de responsabilidade universal[9].


E também:

6) Reconhecemos a necessidade de uma igualdade de direitos e de dignidade nas relações entre tradições e religiões.
A formulação e a prática de uma «personalidade tradicional ou religiosa» análoga à «personalidade moral» considera todas as tradições e religiões de paz e justiça iguais em direitos, em deveres e em dignidade [10].

7) Reconhecemos a necessidade de um compromisso total com a sua própria tradição/religião.
Na igualdade de direitos, de deveres e de dignidade das tradições e religiões de paz e de justiça[11], um total compromisso, enquanto discípulo da disciplina da sua tradição/religião, com as suas percepções, práticas, regras e preceitos é necessário para a progressão : a transformação pessoal, a salvação ou realização dos seus membros; assim como para evitar confusões que o sincretismo ou o concordismo podem produzir.12

8) Reconhecemos a necessidade de um diálogo intertradições/ inter-religioso profundo.
O diálogo, quer entre tradições quer entre religiões é, na sua dimensão profunda, o meio de desenvolver a compreensão autêntica da unidade na diversidade; e, no seu contexto, de reconhecer as diferenças como riqueza. Assim se promovem o respeito e a apreciação mútuos e totais das tradições e religiões de paz e de justiça.

9) Reconhecemos a necessidade da comunicação e da educação para a unidade na diversidade.
A comunicação e a educação são os meios para desenvolver a compreensão verdadeira da unidade na diversidade e promover os seus valores. Cada tradição e religião deveria realizá-lo localmente junto dos seus praticantes contribuindo assim para o desenvolvimento da paz e da justiça globais13.

10) Reconhecemos a necessidade de uma cooperação inter tradições/religiões em vez da competição entre tradições/religiões.

Na base dos diferentes pontos acima expressos, as tradições e religiões de paz e de justiça podem trabalhar em sinergia e cooperar entre elas, mais do que entrar em competição. Nesta solidariedade podem unir as suas forças para desenvolver paz e justiça e assim fazer face aos numerosos desafios do mundo contemporâneo, em particular o ecológico.

11) Reconhecemos a necessidade de promover um Estado garante de uma verdadeira unidade na diversidade tal como é definida no presente Manifesto.
É necessário que a política reconheça as tradições éticas e espirituais de paz e de justiça e que um estado agnóstico, ou laico, seja garante da unidade na diversidade, das tradições/religiões tal como está expressa no presente Manifesto.

12) A utilidade de uma Rede Mundial de Dirigentes Tradicionais/Religiosos como lugar e instrumento desta cooperação e solidariedade (numa perspectiva de unidade na diversidade).
A Rede Mundial da Unidade na Diversidade, das Traditções et Religiões de paz e de justiça é uma rede informal de dirigentes ou representantes das diferentes tradições éticas e espirituais e das religiões de paz e de justiça.
A Rede reúne assim todos os praticantes destas tradições e religiões que aderem ao Manifesto.
A Rede é constituída pelos signatários do presente Manifesto e pode, a partir das consultas dos seus membros e das suas visões convergentes, falar em conformidade com os princípios do presente Manifesto para o bem de todos.
Os comentários e achegas desta Rede Mundial seriam preciosos para desenvolver a paz, a justiça e o que é benéfico para todos. Poderiam também servir para denunciar e desencorajar as más utilizações da religião e os excessos de todos os extremos.
A Rede é também o lugar de celebração da solidariedade e da diversidade na unidade.


Cólofon:

A inspiração deste Manifesto remonta às origens da tradição de Buddha e da sua visão Rimay, universalista. Foi inspirado por trinta anos de diálogo inter religioso, no mundo, na Europa e no Instituto Karma Ling e pela participação de Lama Denys, o seu compilador na dinâmica de « Uma Alma para a Europa?ética e espiritualidade». O seu texto foi escrito à Beekman Tower Residence, Baie de la Tortue, Manhattan, New-York, em 22 de Maio de 2003 após a conferência organizada na sede das Nações Unidas pelo World Council of Religious Leaders (Conselho Mundial dos Dirigentes Religiosos). O texto e a sua tradução francesa foram finalizados na semana seguinte na sede do Shanga Rimay : O Instituto Karma Ling, na Savoie em França, UE. Foi apresentado no Encontro Islam-Dharma que teve lugar no Instituto Karma Ling em 7, 8, 9 de Junho de 2003 e foi ligeiramente modificado nessa ocasião. Em seguida foi apresentado no forum « Choc des Civilisations ou Rencontre des Cultures » que teve lugar a 12 e 13 de junho 2003 em Martigny, Suíça.


Considere-se livre de utilizar este manifesto a seu bel-prazer, apropie-se dele em desapropriação, não se trata de um Manifesto de uma pessoa ou de um grupo de pessoas mas sim dos seus signatários. (Está livre de copyrights, é «copyleft / copyfree / freecopy »).

Todos os comentários ou sugestões, para melhorar ou continuar esta iniciativa, são muito benvindos e cordialmente encorajados.


Que tudo seja propício.


Mail : lamadenys@rimay.net

[1] Ver o cólofon sobre as origens deste Manifesto.

[2] O Manifesto pode convir a um «agnóstico humanista » que siga uma tradição ética e espiritual ou a um teísta ou a um monoteísta, ou a um «teísta crente». Entendendo-se agnóstico como «não dependendo de uma crença» ou «não reconhecendo um enunciado literal, qualquer que ele seja, como expressão definitiva da realidade». O teísta utiliza o conceito de Deus para o absoluto e geralmente considera a crença em Deus como um acto de fé.

[3] «Uma Alma para a Europa ? ética e espiritualidade? » foi iniciada por Jacques Delors, Antigo Presidente da Comissão Europeia e está ligada à sua célula de prospecção. O seu princípio fundador é que a Europa não se construirá simplesmente sobre as bases de um mercado e que é necessário dar-lhe uma alma, ou um coração, ético e espiritual, numa perspectiva de unidade na diversidade.
[4] Dizemos que uma tradição ou uma religião é de paz ou de justiça quando ela ensina e pratica a paz e a justiça, e igualmente a harmonia e a não-violência.
[5] Esta regra de ouro tem um alcance universal e todas as tradições e religiões a reconhecem. É um princípio de não-violência, de respeito pelo outro enquanto seu semelhante, um princípio de amor e de compaixão, base de toda a ética de paz e de justiça, e de todas as regras que daí decorrem.

[6] Tal como foi definida nos pontos 1. e 2.

[7] Compreendendo a unidade na diversidade tal como está expressa no ponto 3.

[8] Ver a Declaração Universal dos Direitos e dos Deveres do Homem.

[9] Esta noção pode exprimir-se em termos de eco-cidadania.
[10] Na inteligência da unidade na diversidade e do pluralismo como uma riqueza, tal como foram acima definidas, é necessário que as relações entre tradições e religiões de paz e de justiça sejam fundadas sobre uma igualdade de direitos e de dignidade que pode exprimir-se e operar-se pela formulação e prática de uma « personalidade tradicional ou religiosa », análoga à personalidade moral.

[11] Tal como está expressa no ponto 5.

12 NB : Verifica-se na prática que uma compreensão autêntica da unidade na diversidade e dos seus desenvolvimentos tal como foram apresentados no Manifesto reforçam o compromisso pessoal de cada praticante com a sua própria tradição/religião; (e) isto, aprofundando a sua compreensão e a sua experiência.

terça-feira, 2 de novembro de 2004

Geração Doente

Por GRAÇA FRANCO
PÚBLICO, 01 de Novembro de 2004

A "Grande Reportagem" de há duas semanas denunciava uma história de terror, dessas que se lêem e não se acredita. Ou melhor, não se quer acreditar. Um jovem - de nome Diogo - quartanista de Arquitectura fora praxado até à morte pelos colegas da Tuna Universitária a que pertencia. O caso a que João Cândido da Silva já se referiu, na sua última crónica, com o sugestivo subtítulo de "Javardos", passou-se em Portugal vai para três anos. Só agora, ultrapassado o doloroso luto, saltou para os jornais, denunciado pela família num justificado alerta contra essa coisa sinistra dos rituais praxistas que continuamos a fingir não ver. Rituais que já começam a invadir o próprio ensino secundário, onde exibem a mesma ou pior violência. Fica assim minada toda a formação da personalidade de gerações inteiras dos nossos miúdos.

A reportagem justificava o editorial de Joaquim Vieira "Cultura rasca". Contra ele escreve violentamente, na edição desta semana, uma jovem socióloga de 26 anos a frequentar o mestrado. Lemos e voltamos a não querer acreditar.

Em sua defesa, e dos da sua geração, a leitora começa por alertar para o seguinte: "os nossos valores são incutidos pela sociedade que foi por vós constituída". Embora o argumento seja lapalissiano só posso concordar e partilhar a culpa na parte que me toca. OK. Posso até concordar com o argumento seguinte: o que se passou não foi "praxe", foi sobretudo um "crime" que a Justiça com a inoperância habitual, exercida por várias gerações (e não por uma única geração como sustenta a jovem), foi incapaz de castigar. E isso é grave. Gravíssimo. Mas, logo a seguir, a mestranda tenta exibir a sua superioridade moral afirmando o seguinte: "Ao invés do Diogo, optei por me impor (sublinhado meu) e recusei participar nas praxes, sem nunca ser posta de parte. Limitei-me a aparecer nas aulas após o fecho das praxes, alegadamente por estar doente. No harm done diriam os ingleses".

Chegámos ao ponto. Posso até admitir que não tinha outra solução senão fugir para não enfrentar o gang acéfalo e maioritário. Nem sempre a fuga é pura cobardia, mas a fuga travestida de colaboracionismo, para gozar dos privilégios inerentes, só pode ter esse nome.

Para esta jovem, que se faz porta-voz de uma geração, "impor-se" resume-se à adopção do comportamento desprezível mas corriqueiro de apresentar atestado médico falso. Estamos entendidos! Fica explicada a tendência compulsiva para a doença falsa e fica-se a perceber melhor por que raio a nova geração de professores, em busca de colocação, pode subitamente surgir tão achacada.

Enfrentar o "sistema", mesmo o mais injusto, dá, no mínimo, muita chatice. Além disso, corre-se o risco de poder ficar à margem do rebanho, sem direito à festa, à borga, aos copos (lá se ia a companhia para as ponchas da Madeira que a jovem académica diz tanto apreciar). E claro, lá se iria também o traje.

Dizer "não", como a minha geração era useira e vezeira, pode sempre trazer problemas ao enfrentar a turba, recusar a humilhação, denunciar, não pactuar com o sistema de abuso abjecto dos mais fracos imposto por uma ordem absurda onde a "antiguidade" é um posto e a burrice assumida premiada na dupla categoria idiota dos "veteranos".

Na minha geração os que "optavam" assim tinham um nome: cobardes, como diriam os portugueses. "Cowards" na versão anglo-saxónica...

"Jamais vu!"

Entre a esquerda libertária e a direita libertina só não digo venha o diabo e escolha porque, por princípio, não gosto de lhe conceder qualquer direito. Em comum, elas têm um pensamento intolerante e único em matérias morais (ou imorais) que, no mínimo, começa a tornar-se irritante. Pensar o contrário deixou de ser reprovável e improvável para passar a ser "impossível".

Fora das duas correntes e com a agravante de não me identificar nem com a direita liberal, nem com a esquerda clássica, vejo-me entre os "opinion makers" da praça como uma espécie de raridade em vias de extinção. Teria a vantagem de me colocar ao abrigo do risco do "déjà vu", não fosse transformar as minhas humildes opiniões em sérias candidatas à classificação de "jamais vu".

Não é que eu posso mesmo, e sem "corar", responder ao repto aqui lançado pelo professor Prado Coelho (a que sempre me habituei a respeitar a óbvia superioridade intelectual), informando-o que nem todos os católicos apostólicos romanos vivem a respectiva religião envergonhadamente e "à la carte". Ou seja, que faço parte daqueles milhões que tenta viver em consonância com o Vaticano, sem que tenhamos de suportar o insulto de ultraconservadores reaccionários. Que fique claro: em Itália nunca votaria no senhor Buttiglione, nem no seu partido, nem no seu Governo. Não partilho muitas das suas ideias sobre a família (que extravasam em muito as posições da Igreja) ou sobre a imigração. No Parlamento Europeu raramente votaria com ele e talvez até votasse frequentemente contra ele mas, porque ambos partilhamos a mesma noção de pecado, fico a saber que, como ele, jamais poderei ser comissária. Paciência, adeus regresso a Bruxelas.

E o meu "pecado" incapacitante parece ser o de, como muitos outros, seguirmos a doutrina de João Paulo II, tanto na condenação firme da guerra preventiva (com a consequente oposição à actual política norte-americana), como na opção preferencial pelos pobres (com a defesa acérrima de uma maior justiça social) - dois pontos que regra geral agradam à esquerda e a direita gosta de omitir -, como nas questões morais que vivemos com maior ou menor dificuldade dada a condição de simples pecadores. Mas, enfim, vivemos, pregamos e publicamente defendemos.

Coisas tão fora de moda como o apelo à vida casta dos solteiros, ou dos homossexuais e divorciados com anterior casamento católico (porque para os católicos o matrimónio é indissolúvel). Isso não significa perseguir ninguém, nem desrespeitar a sua escolha, ainda que decidam viver pública e assumidamente em situações que a Igreja identifica claramente como situações "de pecado". Não se trata de perseguir os homossexuais, pactuar com a sua discriminação, atentar contra a sua dignidade, privá-los dos seus direitos, como não significa marginalizar os recasados ou criminalizar o adultério. Dá para entender? Pelo contrário, o próprio Cristo impediu a lapidação (era a pena de então, numa sociedade que ironicamente autorizava o divórcio) da mulher adúltera, mandando-a em paz com esta simples advertência: "vai e não voltes a pecar". Bem podia ter-lhe dito: "vai que isso não é mais pecado", segundo a minha nova lei. Não disse. Como não o disse à Samaritana, casada pela quinta vez e a viver em união de facto com um homem casado com outra. Há dois mil anos a vida sentimental não era muito mais tranquila do que a actual. É esse Cristo que Paulo pregou, com escândalo, a uma sociedade onde a homossexualidade era tão ou mais comum do que na actual, que continua a escandalizar-nos com as suas propostas radicais. Um Cristo a exigir loucuras de fé.

Intriga-me apenas que quem tem as maiores dúvidas sobre a própria existência de Deus, como Eduardo Prado Coelho, possa ter tão profundas certezas sobre quais os comportamentos que O ofendem ou não (é isso que significa pecado, ofensa a Deus). Eu não tive nenhuma revelação divina. À falta de fonte mais segura, para tentar evitar ofendê-Lo, sigo as instruções do magistério. Todos os meus amigos homossexuais sabem como penso e há mesmo alguns que pensam como eu. Os meus amigos que vivem em adultério (e são muitos mais!), também. Somos todos pecadores de variadíssimos pecados, mas isso não nos deve impedir a todos de ambicionar a santidade. E ela é possível. Hoje celebra-se a sua vitória no Céu e na terra. É porque os Santos existem que hoje é feriado. Sabiam? Não costumo fazer destas crónicas palco de apostolado (deixo a minha catequese para outros "fora"). Aqui não acho próprio. Mas o meu silêncio perante o repto do professor soava a cobardia. E não gosto de cobardes.

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Conservadores e progressistas

From Homer to Hip-Hop
The Jesuit scholar Walter Ong studied the evolution of human consciousness via the history of communication.
by Jeet Heer

"(...) In their evolving attitudes toward popular culture, the McLuhan circle anticipated dramatic changes within Catholicism. The middle decades of the 20th century were an exciting time to be a Catholic intellectual?Vatican II was gestating, but there was great uncertainty as to how the church should deal with the modern world. Thoughtful Catholics felt the competing tug of tradition and change.
Some Catholics wanted their church to pull up the drawbridges and prepare for a long siege against a hostile world. Others pressed the church to embrace modernity indiscriminately. Perhaps the glory of McLuhan and his circle was that they avoided the temptations of these competing positions: they went in for neither the recriminatory nostalgia of the conservatives nor the faddish novelty-seeking of the progressives. Rather, they wrote as open-minded analysts, trying to figure out exactly why the modern world was changing and what could be held on to and even recovered in a turbulent era.(...)"

sábado, 16 de outubro de 2004

Os novos donos da verdade

"(...) o italiano Rocco Buttiglione vê o seu nome vetado para comissário europeu não por causa daquilo que defende do ponto de vista legislativo mas sim pelas suas convicções religiosas. Se recuássemos algumas décadas, Rocco Buttiglione seria provavelmente interrogado não sobre o casamento e a homossexualidade - que era então unanimemente considerada à esquerda e à direita como um comportamento censurável quando não criminoso - mas sobre o que pensava da origem da vida, matéria que deu azo a enormes polémicas entre católicos e ateus e levou a que convicções religiosas e espírito científico fossem considerados incompatíveis. Cada época selecciona quem está disposta a calar e a apagar. Geralmente essa escolha faz-se em nome do bem comum. Às vezes, até se faz em nome da liberdade.

Helena Matos, Público, 16.10.2004

Liberdade, Tolerância e Os Novos Donos da Verdade

Rocco Buttiglione e um professor de filosofia conhecido tanto pela sua fina inteligência como por ser um católico devoto e próximo do Papa. Como católico tem, naturalmente, as suas convicções. Acredita, por exemplo, que a homossexualidade é imoral e constitui um "pecado". E, como homem culto, conhece a origem da palavra "matrimónio", que traduz o conceito de um contrato que visa proteger a mulher e os seus filhos, implicando obrigações para os maridos.
Uma parte disto são convicções pessoais, outra é conhecimento da história. No entanto quando Rocco Buttiglione as assumiu publicamente como membro designado da futura comissão europeia presidida por Durão Barroso com a pasta da Justiça e dos Assuntos Internos, a esquerda reagiu indignada, com destaque para os socialistas Josep Borrell (Espanha) e António Costa, para quem um ex-membro do gabinete de Berlusconi nunca poderá assumir tal pasta.
Na verdade, por muito detestável que se possa considerar o actual Governo italiano, ele existe porque os partidos que o formam ganharam as eleições. Logo tem legitimidade para, no quadro das actuais regras europeias, nomear para a Comissão Europeia quem entender e não quem for preferido pelos que perderam as eleições. São essas as regras do jogo nos nossos sistemas democráticos que, mesmo imperfeitos, dispõem de sistemas de pesos e contrapesos suficientes para os fazerem funcionar.
Para isso, no entanto, é necessário que, para além de se respeitarem as regras, se respeitem as opiniões dos outros. E, por muito que isso custe ao senhor Borrell, as opiniões sobre moralidade de Buttiglione não valem menos do que as suas. Já a sua atitude tolerante contrasta pela positiva em relação à intolerância do socialista espanhol.
Porquê? Pela simples razão que Buttiglione, sem abdicar das suas convicções, não pretende impô-las aos que delas discordam. Basta notar no que disse perante a Comissão que, pomposamente, chumbou o seu nome (um chumbo não vinculativo): primeiro, explicou que sabia "distinguir entre moralidade e lei", o que implica que "muitas coisas podem ser consideradas imorais sem terem por isso de ser proibidas"; depois, com lógica, acrescentou que podia "considerar que a homossexualidade era um pecado sem que isso implique que querer criminalizá-la". Afinal, "o Estado não tem o direito de meter o seu nariz neste domínio".
Trata-se de uma declaração corajosa de alguém que não abdica da sua fé particular e que mostra impecáveis credenciais liberais. Mostra que o filósofo italiano não omite por conveniência aquilo em que acredita, que admite a existência de outros pontos de vista e que, ao contrário dos que se julgam "donos da verdade", acredita "na liberdade, o que implica que não se imponha ao outros o que consideramos ser o mais correcto".
Ainda bem que assim pensa, pois isso garante que não imporá a partir de Bruxelas nenhuma agenda política particular ou de grupo, respeitando as diferenças culturais existentes, nomeadamente no domínio em discussão, entre os povos dos 25 membros das União. Porém ser um homem livre e franco e assumir-se como católico é que parece ser "pecado", e mortal, para os que não percebem que são eles que vestem a pele dos Torquemada dos nossos dias."
José Manuel Fernandes
Público, 15 de Outubro de 2004