sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Ekhlas, uma das vítimas do “novo fenómeno de violência com motivação religiosa”

Relatório diz que 75 por cento da população mundial vive com severas restrições à liberdade religiosa


Países com violações significativas da liberdade religiosa 
(Fonte: AIS, Relatório sobre Liberdade Religiosa no Mundo 2016; 
o mapa está disponível no sítio digital do relatório)

Ekhlas, uma adolescente da minoria yazidi, do Norte do Iraque, foi raptada pelos militantes do Daesh, da sua casa em Sinjar, viu o pai e o irmão serem mortos à sua frente. Ela e todas as outras raparigas com mais de oito anos foram raptadas, encarceradas e violadas. Uma delas, com nove anos, foi violada tantas vezes que acabou por morrer. Ekhlas acabou por escapar, depois do bombardeamento da área onde estava encarcerada. A sua história, que a própria contou a um grupo de deputados britânicos, traduziu-se na aprovação, em Abril deste ano, de uma moção, por 278 votos a favor e nenhum contra, em que os deputados britânicos da Câmara dos Comuns pedem ao Governo que apele ao Conselho de Segurança das Nações Unidas para que este remeta ao Tribunal Penal Internacional os crimes cometidos pelo Daesh.
O caso de Ekhlas, um entre milhares, é um dos relatados no relatório bianual 2014-16, sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, divulgado esta quinta-feira pela Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), fundação de direito pontifício dependente da Santa Sé.
Em termos globais, o relatório faz a conta e conclui que “mais de 75% da população mundial vive em áreas com severas restrições à liberdade religiosa”, de acordo com dados do Pew Research Center). E, dos 196 países analisados, 38 revelam sinais de graves e sistemáticas violações da liberdade religiosa.
A situação na Síria e no Iraque, onde o Daesh tem dominado vastos territórios, bem como a de outros países asiáticos e africanos leva os autores do relatório a concluir que “nunca o fundamentalismo religioso foi tão letal como agora”.
Há um “novo fenómeno de violência com motivação religiosa”, que pode ser denominado de “híper-extremismo islamita”, acrescenta o documento. Este fenómeno tem provocado morte, destruição, deslocações forçadas de pessoas numa escala sem precedentes e instabilidade regional, que colocam em risco “a paz mundial, estabilidade e a harmonia social do Ocidente”.
A AIS considera que os factos coligidos no documento revelam uma realidade inquietante: “Em algumas regiões do Médio Oriente, que incluem o Iraque e a Síria, este híper-extremismo está a eliminar todas as formas de diversidade religiosa e ameaça fazer o mesmo em certas zonas de África e do subcontinente asiático.”
Este “híper-extremismo” é visível “em actos de pura selvajaria, denota intenções genocidas, que já foram, aliás, denunciadas, no que diz respeito” ao Daesh, pela ONU e pelos parlamentos de vários países – em Portugal, a Assembleia da República condenou, em Abril, “formalmente e por unanimidade”, o “terrível genocídio” contra os cristãos e outras minorias étnicas e religiosas em África e no Médio Oriente.

Aumentam os refugiados e o antisemitismo

O aumento extraordinário do número de refugiados no mundo – mais de 65 milhões, o maior de sempre, ultrapassando mesmo o número de refugiados na altura da II Guerra Mundial, é outra das consequências maiores desta violência que se reivindica de uma inspiração religiosa.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Pintasilgo, europeia notável

 Agenda


Maria de Lourdes Pintasilgo (foto reproduzida daqui,
onde também se pode ler um perfil biográfico)

Nesta quarta-feira, entre as 17h e as 18h15, o edifício Caleidoscópio (jardim do Campo Grande, em Lisboa) acolhe uma sessão de homenagem a Maria de Lourdes Pintasilgo, inserida no ciclo de encontros Tributo a Europeus Notáveis.
A “apresentação de Maria de Lourdes Pintasilgo” será feita por Manuela Silva, sua companheira de tantas lides e professora catedrática da Universidade de Lisboa. Às 17h45, Isabel Allegro de Magalhães (professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa e membro do Graal, e António Figueiredo Lopes, Presidente do EuroDefense-Portugal, darão dois curtos testemunhos sobre aquela que foi a única mulher primeira-ministra em Portugal.

Sobre Maria de Lourdes Pintasilgo, há vários textos neste blogue. Entre eles, uma referência ao livro Maria de Lourdes Pintasilgo – Retratos Sem Molduraa notícia de umas jornadas e da publicação de um livro sobre vozes de mulheres na experiência religiosa, um texto sobre um documentário televisivo realizado por Graça Castanheira e onde se evoca também o relatório Cuidar o Futuro, coordenado por Pintasilgo, e uma evocação nos cinco anos da sua morte.

Para outros textos, basta escrever “Pintasilgo” na pesquisa do blogue.

domingo, 13 de novembro de 2016

Uma pergunta obscena e uma reflexão sobre a misericórdia

Duas intervenções de Alfredo Bruto da Costa

“O último fundamento da igualdade encontra-se na fé cristã”, dizia, em Junho de 2010, Alfredo Bruto da Costa, então presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, que morreu sexta-feira em Lisboa. Falando na Jornada de Pastoral da Cultura, dedicada ao tema Elogio da Igualdade, Bruto da Costa contava a história de um pintor que se lhe dirigia tratando-o por “senhor engenheiro”. “Algo está errado entre nós”, disse ele ao pintor: “Ou o senhor me trata por Alfredo ou eu o trato por senhor pintor.” O senhor António, tal era o nome do pintor, perguntou-lhe então “Até onde é que posso ir?”
Quando um homem pergunta a outro homem “até onde é que posso ir” na relação entre ambos, “essa é uma pergunta obscena que dava para um doutoramento”, dizia Alfredo Bruto da Costa, defendendo que “o último fundamento da igualdade” se encontra na fé cristã e no texto bíblico do Génesis: “Todos somos iguais perante Deus – e não há diferença nenhuma que possa reduzir o sentido profundo desta igualdade.” E, referindo-se aos princípios da Revolução Francesa – liberdade, igualdade, fraternidade – acrescentava: “Somos livres, antes de mais ou além do mais, para afirmar a nossa igualdade. Qualquer coisa corre mal nos três princípios se não formos suficientemente fundo na compreensão da própria igualdade.”
Oito minutos com excertos dessa intervenção podem ser vistos neste vídeo (entre 1’10” e 9’25”):



A 5 de Março passado, falando na Sessão de Estudos do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, naquela que terá sido uma das suas últimas intervenções públicas, Alfredo Bruto da Costa aprofundou o tema Com misericórdia, novos estilos de vida. O seu carácter de investigador social pioneiro nos estudos sobre a exclusão em Portugal e a sua carreira pública de serviço ao bem comum, fundavam-se na sua fé cristã e nos seus profundos conhecimento e adesão à Bíblia e ao pensamento social cristão, desde os teólogos dos primeiros séculos do cristianismo até à doutrina social católica contemporânea. Este texto revela exactamente esse outro lado de alguém que fazia da Bíblia e do Evangelho a força da sua vida. Reproduz-se a seguir essa intervenção, na versão final corrigida e formatada pelo próprio:

Com misericórdia, novos estilos de vida

Agradeço o convite para falar neste encontro do Metanoia.
Devo anunciar que não tenho qualquer qualificação para falar da Misericórdia. Aceitei o convite no pressuposto de que os que me convidaram admitem que eu tenha alguma coisa de útil a dizer. É confiado neles que aqui estou.
Peço, pois, que me ouçam com redobrado espírito crítico.
***
Pareceu-me que poderia ter interesse para vós refletir no tema da Misericórdia em três pontos:
a) a importância da misericórdia na mensagem evangélica e na espiritualidade cristã;
b) como devemos entender hoje as exigências da Misericórdia, designadamente as chamadas «obras da misericórdia»;
c) o grau de transformação individual e comunitária que a Misericórdia recomenda. Designadamente, se será um problema de pequenos acertos ou, como se diz no título deste encontro, serão necessários «novos estilos de vida».

A IMPORTÂNCIA DA MISERICÓRDIA NA MENSAGEM CRISTÃ
Creio que todos nós ouvimos falar, desde criança, da Misericórdia de Deus. «Deus é misericordioso» é uma expressão que certamente nos é familiar. A questão que se coloca é a da noção que tínhamos da Misericórdia de Deus e como a entendemos no conjunto dos atributos de Deus. Deus é justiça, é amor, é omnipotente, etc. É também misericórdia. Como conciliar todos estes atributos de Deus?

Alfredo Bruto da Costa (1938-2016): o sonho de um mundo sem pobreza

In memoriam


Alfredo Bruto da Costa, a 5 de Março de 2016, no Porto, 
durante a Sessão de Estudos do Metanoia - Movimento Católico de Profissionais, 
dedicada ao tema Com misericórdia, novos estilos de vida (foto António José Paulino)

No momento da sua morte, dele se disse que alimentou sempre o sonho de um mundo sem pobreza, que não se conformou nunca com a pobreza estrutural, que aliou o desafio da sua fé cristã à “intervenção marcada pela caridade, pela acção social junto dos mais pobres” e pela “prática da justiça”. Alfredo Bruto da Costa, profundo conhecedor da Bíblia e do pensamento social católico, morreu sexta-feira em Lisboa, depois de vários meses de luta contra um cancro. O seu funeral decorreu este sábado, dia 12 de Novembro. 
Seja-me permitida uma evocação pessoal: não me recordo já quando ouvi Alfredo Bruto da Costa pela primeira vez. Mas talvez tenha sido a falar sobre a Laborem Exercens, a encíclica do Papa João Paulo sobre o trabalho humano (1981). E, perante o texto de um Papa que tantas vezes era criticado pelas suas rígidas posições no campo da moral pessoal, Bruto da Costa não tinha dúvidas sobre as prioridades enunciadas há décadas pelo pensamento social católico e confirmadas pelo Papa polaco naquele documento e em outros pronunciamentos de carácter social: prioridade da pessoa e do trabalho sobre o capital, do bem comum sobre a propriedade privada, do serviço aos mais pobres sobre os privilégios de quem tudo tem, da justiça sobre a finança e a economia... Ou seja, o sonho de um mundo sem pobreza.
Há pouco menos de dois anos, na sua despedida de presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), Alfredo Bruto da Costa quis convidar-me para fazer o comentário final à conferência anual que a comissão organizava e que nesse ano teve, a abrir, uma intervenção do cardeal Rodriguez Maradiaga. Na ocasião, fiz questão de agradecer, em público, a sua dedicação de há muitos anos ao estudo sério e à reflexão sobre o pensamento social da Igreja e sobre as consequências sociais e políticas do Evangelho. Com ele, aprendi muito, com ele muitos cristãos portugueses aprenderam muito. Em Portugal, Alfredo Bruto da Costa era, com o José Dias da Silva e Manuela Silva, uma das pessoas que mais sabia sobre o tema e que mais se empenhava no seu estudo, na sua divulgação e no seu aprofundamento.
A Igreja Católica deve muito, em Portugal, a Alfredo Bruto da Costa. Mas também o país, tendo em conta não só os cargos públicos que desempenhou, sempre com a preocupação do bem comum (desde ministro dos Assuntos Sociais no Governo liderado por Maria de Lourdes Pintasilgo até ao de presidente do Conselho Económico e Social), mas sobretudo pelo pioneirismo dos estudos sobre a exclusão social, que liderou com Manuela Silva. Um dos seus últimos compromissos foi a elaboração da Estratégia Nacional de Erradicação da Pobreza: “Nós sabemos quem são os pobres em Portugal”, disse, na apresentação pública do roteiro, em Setembro de 2015, como recorda o Público aqui.

Leonard Cohen: teólogo, mestre da poesia e da oração

“Cantando e escrevendo, Cohen pensou, desabafou, rezou, amou. Sempre com aquele jeito cavalheiresco cultuado noutras eras”, escreve Alexandre Palma a propósito da morte do cantor canadiano. Num texto publicado na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, diz o teólogo português:

Leonard Cohen foi um grande teólogo deste tempo. Afirmá-lo não é a cedência fácil à comoção da sua partida. Reconhecê-lo é, antes, sublinhar um dos traços que fizeram dele, como bem anotava o seu epitáfio no Twitter, um "visionário" na música contemporânea. E não é um lapso que o considere precisamente teólogo. Porque a religiosidade da sua música vai muito para lá das referências bíblicas, espirituais e transconfessionais com que se tece a sua lírica. 
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)

Neste outro texto, reescrito a partir de artigos de Alessandro Zaccuri, no Avvenire, e de Sergio Centofanti, da Rádio Vaticano, fala-se de Cohen como mestre da poesia e da oração em música.


(No texto anterior no blogue, evoca-se Leonard Cohen através de duas canções)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Leonard Cohen (1934-2016): como um pássaro no arame

“Como um pássaro no arame
Como um bêbedo no coro da madrugada
Procurei a meu modo a liberdade...”

(Leonard Cohen, Like a Bird on the wire, in Songs from a room, 1979; 
tradução de Leonard Cohen, Poemas e Canções vol. I, ed. Relógio d'Água)



Agora, (Leonard), talvez haja um Deus acima de nós
E tudo o que aprendi sobre o amor
É como disparar em alguém que te desarmou
Mas não é um choro que podes ouvir à noite
Não é alguém que tenha visto a luz
É um frio e partido aleluia 

(Leonard Cohen, Hallelujah, tradução livre)
  


 RIP, Leonard Cohen 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Revelações sobre os frades dominicanos portugueses que defenderam os índios

Dominicanos assinalam 800 anos de história e actualidade



Antonio de Montesinos, um dos defensores dos índios contra a colonização, 
numa estátua em santo Domingo (foto reproduzida daqui)

O papel dos maiores teólogos dominicanos portugueses na defesa dos índios e dos indígenas, no quadro mais vasto das questões morais e jurídicas levantadas pela construção do império transoceânico, será uma das revelações que as jornadas de história Espaços, homens, percursos irão trazer a Lisboa, esta sexta e sábado.
Giuseppe Marcocci, investigador italiano de Viterbo, co-autor, com José Pedro Paiva, da História da Inquisição Portuguesa 1536-1821, trará um novo contributo ao conhecimento do pensamento dos teólogos dominicanos portugueses do século XVI, em plena época da expansão. A Ordem dos Pregadores, que desempenhava nessa altura um importante papel na Inquisição, tinha também, por contraste, vários outros dos seus membros empenhados na defesa de alguns valores que a Inquisição condenava.
Conhece-se a reflexão de alguns dominicanos espanhóis (como Bartolomé de las Casas, Antonio Montesinos ou Francisco de Vitoria) na problematização jurídica, moral e teológica da evangelização dos índios. Mas o papel de vários dominicanos portugueses nessa mesma dinâmica é ainda pouco conhecido – e é isso que Marcocci se propõe apresentar, na comunicação sobre “Os teólogos dominicanos e o império português no século XVI: os homens e as suas ideias”.
As terceiras jornadas de história sobre Os Dominicanos em Portugal 1216-2016 são as últimas da série que assinala os 800 anos da criação da Ordem dos Pregadores (frades dominicanos). Decorrendo na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, amanhã e depois (11 e 12 de Novembro), a iniciativa contará com a participação de vários outros investigadores portugueses e estrangeiros, entre os quais Miguel Ángel Medina, Rita Nicolau, Saul Gomes e Vítor Serrão.

A César o que é de César – a Igreja e a política

Na sua crónica no sítio da RR, Manuel Pinto escreve sobre o convite do Presidente da República aos líderes políticos ibero-americanos para participarem nas celebrações do centenário de Fátima. O título é A César o que é de César:

“Presidente da República convida líderes ibero-americanos para o Centenário das Aparições” era o título em destaque em diversos meios de comunicação, na recta final da recente Cimeira Ibero-Americana, realizada em Cartagena das Índias, na Colômbia. Alguns media acrescentavam que o convite foi feito não só pelo Presidente da República, mas também pelo primeiro-ministro.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)


Nas suas últimas três crónicas no Público, frei Bento Domingues escreveu precisamente sobre a relação entre cristianismo e política, sob o título genérico A Igreja e a política: que Igreja e que política? Ficam a seguir citações e ligações para os três textos:

Longa tem de ser a aprendizagem do diálogo no interior da Igreja, para que toda ela se confronte, hoje, com os problemas de toda a sociedade, na diferença legítima das suas sensibilidades, mas trabalhando para vencer o abismo entre os poucos muito ricos e os muitos muito pobres. É um caminho de conversão e sem esse processo não é possível falar da generalização de direitos e deveres humanos. O destino universal dos bens pode encontrar muitas modalidades de realização, mas não muitas formas de o negar.

Depois de, na Europa, se terem mandado as religiões para a sacristia, para não perturbar a política e a política não perturbar as religiões, estas apresentam-se inopinadamente na praça pública em trajes e armas pouco convencionais.
É preciso repensar tudo, de fio a pavio, e ensaiar outros caminhos.

A política, tão denegrida, é uma sublime vocação. É uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem-comum. Neste ponto, o Papa citava um documento dos Bispos franceses sobre a reabilitação da política (1999). Entretanto, muita coisa mudou em França e no mundo o que provocou outro documento sobre a urgência em reencontrar o próprio sentido da política. A laicidade francesa também está em evolução. O Conselho de Estado recomenda a autorização de Presépios nas Câmaras Municipais, não como culto, mas como cultura.
Poderá a reforma que Francisco propõe para a Igreja deixar a política indiferente?