domingo, 13 de novembro de 2016

Leonard Cohen: teólogo, mestre da poesia e da oração

“Cantando e escrevendo, Cohen pensou, desabafou, rezou, amou. Sempre com aquele jeito cavalheiresco cultuado noutras eras”, escreve Alexandre Palma a propósito da morte do cantor canadiano. Num texto publicado na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, diz o teólogo português:

Leonard Cohen foi um grande teólogo deste tempo. Afirmá-lo não é a cedência fácil à comoção da sua partida. Reconhecê-lo é, antes, sublinhar um dos traços que fizeram dele, como bem anotava o seu epitáfio no Twitter, um "visionário" na música contemporânea. E não é um lapso que o considere precisamente teólogo. Porque a religiosidade da sua música vai muito para lá das referências bíblicas, espirituais e transconfessionais com que se tece a sua lírica. 
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)

Neste outro texto, reescrito a partir de artigos de Alessandro Zaccuri, no Avvenire, e de Sergio Centofanti, da Rádio Vaticano, fala-se de Cohen como mestre da poesia e da oração em música.


(No texto anterior no blogue, evoca-se Leonard Cohen através de duas canções)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Leonard Cohen (1934-2016): como um pássaro no arame

“Como um pássaro no arame
Como um bêbedo no coro da madrugada
Procurei a meu modo a liberdade...”

(Leonard Cohen, Like a Bird on the wire, in Songs from a room, 1979; 
tradução de Leonard Cohen, Poemas e Canções vol. I, ed. Relógio d'Água)



Agora, (Leonard), talvez haja um Deus acima de nós
E tudo o que aprendi sobre o amor
É como disparar em alguém que te desarmou
Mas não é um choro que podes ouvir à noite
Não é alguém que tenha visto a luz
É um frio e partido aleluia 

(Leonard Cohen, Hallelujah, tradução livre)
  


 RIP, Leonard Cohen 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Revelações sobre os frades dominicanos portugueses que defenderam os índios

Dominicanos assinalam 800 anos de história e actualidade



Antonio de Montesinos, um dos defensores dos índios contra a colonização, 
numa estátua em santo Domingo (foto reproduzida daqui)

O papel dos maiores teólogos dominicanos portugueses na defesa dos índios e dos indígenas, no quadro mais vasto das questões morais e jurídicas levantadas pela construção do império transoceânico, será uma das revelações que as jornadas de história Espaços, homens, percursos irão trazer a Lisboa, esta sexta e sábado.
Giuseppe Marcocci, investigador italiano de Viterbo, co-autor, com José Pedro Paiva, da História da Inquisição Portuguesa 1536-1821, trará um novo contributo ao conhecimento do pensamento dos teólogos dominicanos portugueses do século XVI, em plena época da expansão. A Ordem dos Pregadores, que desempenhava nessa altura um importante papel na Inquisição, tinha também, por contraste, vários outros dos seus membros empenhados na defesa de alguns valores que a Inquisição condenava.
Conhece-se a reflexão de alguns dominicanos espanhóis (como Bartolomé de las Casas, Antonio Montesinos ou Francisco de Vitoria) na problematização jurídica, moral e teológica da evangelização dos índios. Mas o papel de vários dominicanos portugueses nessa mesma dinâmica é ainda pouco conhecido – e é isso que Marcocci se propõe apresentar, na comunicação sobre “Os teólogos dominicanos e o império português no século XVI: os homens e as suas ideias”.
As terceiras jornadas de história sobre Os Dominicanos em Portugal 1216-2016 são as últimas da série que assinala os 800 anos da criação da Ordem dos Pregadores (frades dominicanos). Decorrendo na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, amanhã e depois (11 e 12 de Novembro), a iniciativa contará com a participação de vários outros investigadores portugueses e estrangeiros, entre os quais Miguel Ángel Medina, Rita Nicolau, Saul Gomes e Vítor Serrão.

A César o que é de César – a Igreja e a política

Na sua crónica no sítio da RR, Manuel Pinto escreve sobre o convite do Presidente da República aos líderes políticos ibero-americanos para participarem nas celebrações do centenário de Fátima. O título é A César o que é de César:

“Presidente da República convida líderes ibero-americanos para o Centenário das Aparições” era o título em destaque em diversos meios de comunicação, na recta final da recente Cimeira Ibero-Americana, realizada em Cartagena das Índias, na Colômbia. Alguns media acrescentavam que o convite foi feito não só pelo Presidente da República, mas também pelo primeiro-ministro.
(o texto pode ser lido aqui na íntegra)


Nas suas últimas três crónicas no Público, frei Bento Domingues escreveu precisamente sobre a relação entre cristianismo e política, sob o título genérico A Igreja e a política: que Igreja e que política? Ficam a seguir citações e ligações para os três textos:

Longa tem de ser a aprendizagem do diálogo no interior da Igreja, para que toda ela se confronte, hoje, com os problemas de toda a sociedade, na diferença legítima das suas sensibilidades, mas trabalhando para vencer o abismo entre os poucos muito ricos e os muitos muito pobres. É um caminho de conversão e sem esse processo não é possível falar da generalização de direitos e deveres humanos. O destino universal dos bens pode encontrar muitas modalidades de realização, mas não muitas formas de o negar.

Depois de, na Europa, se terem mandado as religiões para a sacristia, para não perturbar a política e a política não perturbar as religiões, estas apresentam-se inopinadamente na praça pública em trajes e armas pouco convencionais.
É preciso repensar tudo, de fio a pavio, e ensaiar outros caminhos.

A política, tão denegrida, é uma sublime vocação. É uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem-comum. Neste ponto, o Papa citava um documento dos Bispos franceses sobre a reabilitação da política (1999). Entretanto, muita coisa mudou em França e no mundo o que provocou outro documento sobre a urgência em reencontrar o próprio sentido da política. A laicidade francesa também está em evolução. O Conselho de Estado recomenda a autorização de Presépios nas Câmaras Municipais, não como culto, mas como cultura.
Poderá a reforma que Francisco propõe para a Igreja deixar a política indiferente? 


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Tudo é Graça – A Revolução de Dorothy Day


Dorothy Day (foto reproduzida daqui)

Há pouco mais de 13 meses, durante a sua visita aos Estados Unidos, o Papa Francisco evocou, no importante discurso ao Congressoa figura de Dorothy Day: “Nestes tempos em que as preocupações sociais são tão importantes, não posso deixar de mencionar a Serva de Deus Dorothy Day, que fundou o Catholic Worker Movement. O seu compromisso social, a sua paixão pela justiça e pela causa dos oprimidos estavam inspirados pelo Evangelho, pela sua fé e o exemplo dos Santos”, afirmou o Papa.
A evocação terá deixado muita gente espantada e a perguntar-se sobre quem seria Dorothy Day. Apesar de ter sido uma importante activista, jornalista, sindicalista, anarquista, católica e mística dos Estados Unidos, a sua vida é pouco conhecida entre nós.
Dorothy nasceu a 8 de Novembro de 1897, faz hoje precisamente 119 anos. A data coincide com o dia das eleições presidenciais nos Estados Unidos. Se fosse viva, Dorothy estaria seguramente do lado da recusa do discurso do ódio, da intolerância e da xenofobia.
A biografia Tudo é Graça – A Revolução de Dorothy Day, que acaba de ser publicada em Portugal pelas ed. Paulinas, ajudar-nos a conhecer esta figura ímpar do catolicismo. Publica-se a seguir o prefácio, da autoria de José Manuel Pureza, que abre a porta para a leitura do livro (títulos da responsabilidade do Religionline). 


Uma vida inteira de louvor a Deus através da luta com os pobres

Texto de José Manuel Pureza

Tenho muita dificuldade em usar a apalavra ‘conversão’ para falar de Dorothy Day. Conversão suporia uma mudança profunda de vida, dos seus referentes essenciais. Nesse sentido, conversão teve-a Saulo de Tarso a caminho de Damasco. Ou Bartolomé de Las Casas, encomendero esclavagista depois defensor da humanidade plena dos índios e de todas as suas consequências. Dorothy Day não. A sua vida não mudou no essencial porque ela foi, inteira, um exercício de amor pelos pobres e de louvor a Deus através da luta com os pobres. Uma vida inteira de sonho e militância. Seria, por isso, de uma superficialidade equivocada entender que o abandono da vida boémia e das leituras anarquistas e a adoção da prática sacramental e da contemplação inspirada em Santa Teresa marcariam a passagem da sombra para a luz na trajetória de Dorothy Day. Não, o que marca esta vida, o que dela fica de profundamente interpelador, o que anima a consideração de Dorothy Day como uma referência para a comunidade dos/as crentes é a essencial continuidade da sua paixão pelos pobres, pelos marginalizados, pelos desconsiderados. Fê-lo de formas diferentes ao longo da vida. Mas só as formas foram mudando: a escolha dos pobres e a entrega da vida por eles/as, essas formaram uma substância densa que une, em Dorothy Day, a militância anarquista, socialista e pacifista com a imitação de Jesus e o amor à Igreja.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

300 anos depois, para que serve o título de patriarcado?


Vista do Paço da Ribeira, em Lisboa, onde se situava a Capela Patriarcal, 
destruída pelo terramoto de 1755 (ilustração reproduzida daqui)

Portugal desempenhava, há 300 anos, um papel muito importante no quadro europeu e na missionação católica. Foi nesse contexto que o Papa Clemente XI decidiu atribuir à Capela Real o título de “patriarcal” – que, 24 anos depois, seria alargado a toda a diocese, que passou assim a ser patriarcado.
A propósito da efeméride, publico um texto na edição de hoje do DN, onde procuro reflectir o significado que pode ter, hoje, o título de patriarcado para uma diocese. Ele “só pode ter um sentido renovado na medida em que a evangelização for o horizonte dos católicos. E não se deve supor que assim seja, já que é para isso que o cristianismo existe? Sim. Mas a pergunta deverá incidir sobre o modelo de evangelização a propor.” (O texto pode ser lido na íntegra aqui)
Na mesma edição, o DN recorda, com uma entrevista ao patriarca de Lisboa, o contexto da atribuição do título de “patriarcal” à Capela Real de D. João V e a importância que Portugal desempenhava, na Europa e na Igreja Católica da época. (A entrevista pode ser lida aqui.)
A propósito da mesma evocação, decorrerá nos dias 25 e 26 de Novembro, no Palácio da Ajuda (Lisboa), o colóquio “Novas grandezas que já pareciam impossíveis à imaginação”: a música e as artes visuais na Patriarcal de Lisboa (1716-1834). Organizado pelo Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos de Música e Dança da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova e pelo Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igrejao colóquio inclui (às 18h30 de dia 25, sexta) um concerto comemorativo do 10º aniversário da Capella Patriarchal, com direcção de João Vaz. O programa completo da iniciativa pode ser consultado aqui.